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Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Carga Congelada, Uma Esposa Traída

Autor:: Gay Parodi
Gênero: Moderno
Meu marido me obrigou a viajar no compartimento de carga gelado porque sua amante queria paz e silêncio. Eu morri lá atrás, agarrada às "vitaminas" que ela me deu, enquanto eles riam no banco da frente. Foi só quando meu corpo congelado foi encontrado que Atlas percebeu que tinha acabado de matar sua própria esposa e seu filho que nem chegou a nascer. Dez anos atrás, eu salvei Atlas de um acidente de carro que me deixou com a mente de uma criança. Ele me odiava por isso. Ele me tratava como um fardo e deixou sua amante, Cátia, me alimentar com pílulas abortivas de alta dosagem disfarçadas de suplementos de saúde. Quando a polícia descobriu a verdade, o mundo de Atlas desmoronou. Ele descobriu que Cátia nunca esteve grávida - mas eu estava. Consumido por uma fúria tardia e violenta, ele executou Cátia com as próprias mãos e exigiu a pena máxima para si mesmo. Ele achava que a morte seria sua redenção. Ele achava que poderia me encontrar do outro lado e fazer as pazes. Mas quando seu espírito finalmente alcançou o meu, implorando por perdão, eu não senti o amor que tanto desejei em vida. Eu não senti nada. - Vá embora, Atlas - sussurrei, assistindo sua alma se despedaçar. - Finalmente estou livre.

Capítulo 1

Meu marido me obrigou a viajar no compartimento de carga gelado porque sua amante queria paz e silêncio.

Eu morri lá atrás, agarrada às "vitaminas" que ela me deu, enquanto eles riam no banco da frente.

Foi só quando meu corpo congelado foi encontrado que Atlas percebeu que tinha acabado de matar sua própria esposa e seu filho que nem chegou a nascer.

Dez anos atrás, eu salvei Atlas de um acidente de carro que me deixou com a mente de uma criança.

Ele me odiava por isso.

Ele me tratava como um fardo e deixou sua amante, Cátia, me alimentar com pílulas abortivas de alta dosagem disfarçadas de suplementos de saúde.

Quando a polícia descobriu a verdade, o mundo de Atlas desmoronou.

Ele descobriu que Cátia nunca esteve grávida - mas eu estava.

Consumido por uma fúria tardia e violenta, ele executou Cátia com as próprias mãos e exigiu a pena máxima para si mesmo.

Ele achava que a morte seria sua redenção.

Ele achava que poderia me encontrar do outro lado e fazer as pazes.

Mas quando seu espírito finalmente alcançou o meu, implorando por perdão, eu não senti o amor que tanto desejei em vida.

Eu não senti nada.

- Vá embora, Atlas - sussurrei, assistindo sua alma se despedaçar. - Finalmente estou livre.

Capítulo 1

Meu estômago parecia estar sendo esmagado por uma mão de ferro gelada e úmida, torcendo minhas entranhas sem piedade. Cada solavanco na estrada enviava uma nova onda de agonia pela minha barriga, fazendo minha cabeça latejar. Apertei os olhos com força, tentando fazer a dor desaparecer, mas ela só crescia, como um cobertor pesado e escuro me sufocando.

- Atlas - gemi baixinho, tentando me mover entre as pesadas bolsas de esqui e os bastões de metal frio que me pressionavam. Minha voz era pequena, sufocada, engolida pelo rugido do motor e pela música alta vinda da frente.

Ele não me ouviu. Ele nunca ouvia.

Ele tinha me colocado lá atrás, no porta-malas de sua enorme SUV preta blindada. O espaço era escuro e frio, ainda mais gelado que o ar da serra lá fora. Eu odiava o escuro. Ele trazia os pensamentos ruins, aqueles que faziam meu peito ficar apertado e minha cabeça girar.

- Para de choramingar, Elisa - Atlas tinha dito mais cedo, sua voz cortante e impaciente. Ela me feriu mais do que o frio aqui dentro. - A Cátia e eu precisamos conversar. Você não pode ficar quieta só por um minuto?

Ele aumentou o som então, uma batida alta e grave que fazia o carro vibrar. Era o jeito dele de me mandar desaparecer. Ele sempre fazia isso. Ele gostava de silêncio quando Cátia estava por perto.

Meu estômago contraiu de novo, forte, como se algo estivesse se rompendo por dentro. Um líquido quente e pegajoso começou a se espalhar entre minhas pernas. Cheirava a cobre, como as moedinhas que a Mamãe costumava me deixar segurar. Mas aquilo não eram moedas. Aquilo era ruim.

Levei a mão ao medalhão no meu pescoço, o metal frio sendo um pequeno conforto contra meu peito dolorido. Mamãe tinha me dado. "Seja uma boa menina, Elisa", ela tinha dito, logo antes de ir embora para sempre. "Seja boazinha, e o Atlas vai te amar. Ele tem que amar. Ele prometeu."

Eu sempre fui boazinha. Eu tentava tanto. Mas Atlas nunca me amou. Ele nem sequer olhava para mim, não de verdade. Não como ele olhava para a Cátia.

Minha cabeça parecia pesada, nadando em um nevoeiro espesso. Dez anos atrás, o mundo tinha desabado sobre mim. Eu lembrava do metal retorcido, dos gritos horríveis. Lembrava de puxar Atlas para fora, o rosto dele pálido e imóvel. Então, tudo ficou preto. Quando acordei, o mundo era diferente. As cores eram brilhantes demais, os sons altos demais. E meus pensamentos... eles eram como o desenho de uma criança feito com giz de cera, simples e quebrados.

Disseram que eu salvei o Atlas. Disseram que a família dele me devia a vida. E a Mamãe, ela fez eles pagarem. Ela fez o Atlas casar comigo. Era para me manter segura, para eu não ficar sozinha. Mas eu estava mais sozinha agora do que nunca.

A dor na minha barriga explodiu, mais aguda dessa vez, e eu engasguei. Meus olhos se abriram, mas só havia escuridão. Tentei me encolher em uma bola, me fazer menor, para fazer a dor ficar menor. Mas era grande demais. Tudo era grande demais. A escuridão, o frio, a dor.

Eu queria a Mamãe. Queria que ela cantasse uma canção de ninar, fizesse carinho no meu cabelo e dissesse que tudo ficaria bem. Mas a Mamãe tinha ido embora. E eu estava sozinha no escuro.

Um solavanco repentino e violento da SUV me jogou contra a parede dura. Uma dor aguda e lancinante atravessou minha cabeça. O mundo inclinou, depois girou. Minha respiração travou na garganta. Senti-me flutuar, leve e estranhamente em paz, acima do porta-malas frio e escuro.

Olhei para baixo. Lá estava eu, encolhida no chão, minhas mãos pequenas agarradas ao estômago, uma mancha escura se espalhando pelo meu jeans. Meus olhos estavam abertos, mas pareciam vazios. Como as bonecas que a Mamãe costumava guardar no sótão.

A música ainda batia, alta e alheia a tudo. Eu podia ver através da divisória fina, dentro da cabine principal. Atlas estava rindo, com a cabeça jogada para trás. Cátia estava ao lado dele, a mão no braço dele, seus lábios vermelhos curvados em um sorriso presunçoso.

- Ela finalmente calou a boca - ronronou Cátia, a voz pingando satisfação. - Eu te disse que ela acabaria parando.

Atlas riu, um som grave e rouco que costumava fazer meu coração disparar, muito tempo atrás, antes do acidente. Agora, só soava... vazio.

- É - disse ele, pegando a mão de Cátia. - Sempre fazendo cena, essa garota. Que estorvo.

Estorvo.

Aquela palavra ecoou no espaço confinado, ricocheteando no equipamento de esqui, no meu corpo imóvel.

Ele olhou para Cátia, o olhar suave e cheio de algo que eu sempre desejei desesperadamente.

- Logo, Cátia - murmurou ele, apertando a mão dela. - Logo ela vai sair das nossas vidas para sempre. Então poderemos realmente recomeçar. Você e eu. E o nosso bebê.

Nosso bebê. As palavras se retorceram no meu estômago inexistente. Senti um vazio estranho e frio onde minha dor costumava estar. Não era apenas o bebê da Cátia. Era o meu bebê também. Ou teria sido. Se Cátia não tivesse forçado aquelas pílulas brancas goela abaixo, me dizendo que eram vitaminas. "O Atlas quer que você seja forte", ela disse, com aquele sorriso doce demais. "Tome estas. Vão te ajudar a parar de reclamar."

E agora, eu estava em silêncio. Para sempre.

Estou morta, pensei, uma calma estranha me invadindo. A dor tinha ido embora. O frio tinha ido embora. Apenas uma leve sensação de tristeza persistente restava, como um eco esquecido.

A SUV finalmente diminuiu a velocidade, entrando em uma entrada grandiosa revestida de pedra. Luzes brilhantes de um chalé imponente cintilavam contra as montanhas cobertas de geada de Campos do Jordão. Um manobrista em uniforme impecável correu para abrir as portas.

Atlas e Cátia saíram, de mãos dadas, os rostos iluminados pela excitação da chegada. Cátia estremeceu delicadamente, puxando seu casaco de pele de grife para mais perto.

- Está congelando, querido - arrulhou ela. - Vamos entrar.

- Só um momento - disse Atlas, olhando para trás, para a SUV. - Alguém viu a Elisa? Ela provavelmente está emburrada em algum lugar. - Ele parecia irritado, não preocupado.

Nesse momento, uma figura corpulenta em uma jaqueta preta grossa se aproximou da SUV. Seu rosto era sombrio, os olhos duros. Ele tinha um sorriso tenso e desagradável. Ele parecia problema, o tipo sobre o qual a Mamãe sempre me avisava. Seu nome era Sr. Torres, o "faz-tudo" do Atlas, um homem que sempre parecia carregar um segredo obscuro nos olhos.

- Atlas - disse Torres, com a voz rouca. - Eu cuidei dos... arranjos. A clínica está esperando por ela. Eles estão prontos para recebê-la hoje à noite, sem fazer perguntas.

Cátia sorriu radiante para Torres, um brilho triunfante nos olhos.

- Perfeito. Mal posso esperar para finalmente ter um pouco de paz e sossego por aqui.

A testa de Atlas franziu.

- Tem certeza de que este é o lugar certo, Torres? Parece um pouco... decadente. Eu quero que cuidem dela, não apenas que a joguem fora. - Mesmo nisso, a preocupação dele era menos comigo e mais em evitar uma situação complicada. Ele se preocupava com as aparências. Sempre.

Torres riu, um som seco e sem humor.

- Não se preocupe, chefe. É discreto. Muito privado. Ela ficará... confortável. E longe da vista. É isso que você queria, não é?

Cátia se aproximou de Atlas, acariciando o braço dele.

- Querido, não se preocupe. O Torres sabe o que está fazendo. A Elisa vai ficar bem. Ela sempre dá um jeito de ficar "bem". Agora, vamos nos aquecer. Estou morrendo de fome.

Atlas suspirou, com um toque de irritação na voz.

- Tudo bem. Mas se houver qualquer problema, Torres, você resolve. Não quero ouvir mais um pio sobre ela. - Ele olhou para a traseira do veículo, seu olhar passando direto por onde eu flutuava. - Ela sempre consegue ser um incômodo tão grande, mesmo quando está tentando ser boazinha.

Eu os observei, uma estranha sensação de desapego tomando conta de mim. Minha história tinha terminado, sozinha no porta-malas escuro e frio. E eles, os vivos, já estavam planejando meu apagamento. Atlas, Cátia, Torres. Todos estavam envolvidos, cada um à sua maneira. Minha súplica silenciosa, meu último suspiro, tinham passado despercebidos. Eu era apenas mais um incômodo, mais um problema a ser resolvido, como uma mosca irritante zumbindo perto demais.

Meus olhos, do meu ponto de vista etéreo, voltaram para o meu corpo sem vida, ainda escondido entre os equipamentos de esqui e a bagagem esquecida. Ninguém estava me procurando. Ninguém nunca procurava de verdade.

Capítulo 2

Atlas nunca me amou. Ele deixou isso claro desde o início. Seus olhos, antes tão cheios de um brilho brincalhão, agora continham apenas um desprezo frio quando pousavam em mim. Era um olhar que eu conhecia bem, um cobertor pesado que sufocava qualquer chama de esperança que eu ousasse manter.

- Amor? - ele zombou uma vez, depois que perguntei timidamente se ele poderia sentir algo por mim, qualquer coisa. - Você acha que isso é sobre amor, Elisa? Isso é sobre uma dívida. Uma obrigação. Sua mãe garantiu isso. - Suas palavras eram como pedaços afiados de gelo, estilhaçando qualquer pequeno sonho frágil que eu tivesse construído. - Você é uma algema, Elisa. Um lembrete de um passado que eu quero esquecer.

Eu tinha acreditado na Mamãe. Acreditei quando ela disse que ele tinha que me amar, que era o destino. Mas Atlas tinha rasgado essa crença, pedaço por pedaço doloroso. Minha inocência, meu coração confiante - eles não eram páreo para o ressentimento amargo dele. Eu era apenas um dano colateral, um monumento vivo a uma tragédia esquecida.

Dez anos atrás, o mundo parou de girar para mim. O guincho dos pneus, o cheiro de borracha queimada, o som de metal se rasgando. Foi um borrão de terror. Atlas, jovem e imprudente, tinha desviado para evitar um animal na pista. Nós batemos. Eu lembrava do impacto, do solavanco repentino e violento. Então, luzes brilhantes, piscando e cegando. Atlas, sangrando, preso sob o painel. Eu era apenas uma criança, mas algo dentro de mim surgiu. Eu puxei. Puxei com toda a minha força, uma força que eu não sabia que possuía, até que ele estivesse livre. Assim que o arrastei para fora dos destroços, o carro explodiu.

Acordei meses depois em uma cama de hospital, o mundo um lugar nebuloso e abafado. Minha cabeça doía o tempo todo. Os médicos usavam palavras grandes como "Traumatismo Cranioencefálico". Diziam que meu cérebro não funcionava mais do mesmo jeito. Que eu era como uma criança de seis anos, presa em um corpo que crescia. Mamãe chorava muito. Ela dizia que eu era seu anjinho, quebrada, mas ainda preciosa.

A família Ferraz, os pais de Atlas, ficaram gratos. Excessivamente gratos. Ofereceram dinheiro, o melhor tratamento. Mas Mamãe, Dona Ida, viu mais do que apenas gratidão. Ela viu uma oportunidade, uma maneira de garantir meu futuro quando ela se fosse. Ela já estava doente, definhando com câncer, seu prognóstico era sombrio.

Ela encurralou o pai de Atlas, o Sr. Ferraz.

- Minha Elisa salvou seu filho - implorou ela, a voz fina e desesperada. - Ela deu a mente dela por ele. O que será dela quando eu me for? Quem protegerá minha menina inocente?

Ela não pediu dinheiro. Ela pediu uma promessa. Um casamento. Para prender Atlas a mim, para garantir que eu sempre tivesse um lar, um protetor. O Sr. Ferraz, sobrecarregado pela culpa e pelo senso de dever, concordou. Atlas, mal saído da adolescência, recém-recuperado, foi forçado ao acordo.

Ele odiou. Ele me odiava.

Às vezes ele agarrava meu braço, os dedos cravando na minha pele.

- Olha o que você fez - ele sibilava, os olhos queimando de fúria. - Olha o que sua mãe fez! Você arruinou minha vida, Elisa. Você me prendeu.

Eu chorava, meu coração pequeno e simples incapaz de entender a raiva dele.

- Mas a Mamãe disse... a Mamãe disse que você me amaria - eu soluçava, minha visão embaçada pelas lágrimas. - Ela disse que você era meu príncipe corajoso.

Ele jogava a cabeça para trás e ria, um som áspero e amargo.

- Príncipe? Eu sou seu carcereiro, Elisa. E você, você é a prisioneira.

Uma noite, depois de mais um de seus surtos de raiva, corri para a Mamãe.

- Mamãe, por favor - implorei, segurando a mão dela, já frágil e fria. - Eu não quero ser esposa dele. Ele me odeia. Ele me machuca.

Os olhos da Mamãe, nublados pela dor e por uma luz feroz e moribunda, olharam para mim.

- Você deve, minha filha - sussurrou ela, a voz rouca. - É para o seu próprio bem. Quando eu me for, ele será tudo o que você terá. Ele te deve isso. Ele vai te proteger. Você só tem que ser boazinha. Seja sempre boazinha. E um dia, ele vai ver.

Ela morreu algumas semanas depois. E eu, a boa menina, tentei realizar seu último desejo. Tentei ser boazinha. Limpei o escritório dele, embora muitas vezes quebrasse coisas. Cozinhei refeições queimadas para ele, embora ele nunca comesse. Deixei bilhetinhos no travesseiro dele, rabiscados com desenhos infantis e palavras desajeitadas de afeto. Ele os triturava.

Ele manteve Cátia escondida no início. Depois, parou de se importar. Ele me fazia sentar na sala de estar, quieta como um rato, enquanto ele e Cátia riam, se tocavam e se beijavam no sofá.

- Olha, Elisa - dizia Cátia, a voz doce como açúcar, os olhos brilhando com malícia. - O Atlas me ama. Não você. Você é apenas... a obrigação dele.

Meu coração doía, um latejar surdo e constante. Mas eu ainda me agarrava às palavras da Mamãe. Seja boazinha. Ele vai ver.

Uma vez, depois que quebrei acidentalmente um vaso enquanto tentava tirar o pó, Atlas me arrastou para o porão. Era escuro, frio e cheirava a terra úmida.

- É para cá que as coisas inúteis vão, Elisa - ele rosnou, trancando a pesada porta de madeira atrás de si. - Assim como você.

Chorei por horas, encolhida no canto, segurando meu medalhão. Mas mesmo assim, uma parte pequena e tola de mim ainda tinha esperança. Talvez ele voltasse. Talvez percebesse que precisava de mim. Talvez me trouxesse um cobertor. Ele nunca trouxe.

Então veio o dia em que Cátia anunciou sua gravidez. Ela exibia sua barriga crescente, seu sorriso triunfante direcionado diretamente a mim.

- O Atlas vai ser pai - ela cantou. - Uma família de verdade. Não esse... arranjo.

Atlas, preso entre nós duas, tornou-se ainda mais volátil. Ele me disse que ia me levar para uma clínica, um "lugar especial" onde eu poderia ser "feliz". Eu sabia o que aquilo significava. Abandono.

Cátia, vendo sua chance, capitalizou a decisão dele. Uma noite, ela me encurralou na cozinha.

- Elisa - disse ela, a voz estranhamente gentil, quase amigável. - O Atlas está preocupado com suas dores de cabeça. Ele comprou essas vitaminas especiais para você. Tome. Elas vão fazer você se sentir melhor para a viagem. - Ela pressionou um pequeno frasco sem rótulo cheio de pílulas brancas na minha mão. - Apenas uma, toda manhã. Promete?

Eu acreditei nela. Eu queria acreditar nela. Eu queria ficar bem para o Atlas.

As pílulas me deixavam doente. Minha barriga doía. Mas Cátia apenas sorria.

- Significa que estão funcionando, querida. Você está ficando mais forte.

Logo antes de partirmos para a serra, Cátia teve uma "queda" dramática na escada. Ela gritou, segurando o estômago. Atlas correu para o lado dela, o rosto pálido de medo.

- Meu bebê! - ela chorou, olhando para mim com olhos arregalados e cheios de lágrimas. - A Elisa me empurrou! Ela está com ciúmes!

Os olhos de Atlas eram uma tempestade furiosa quando ele olhou para mim.

- Sua monstrinha - ele rugiu. - Como você ousa?

Ele não me bateu, não naquele momento. Mas as palavras dele foram piores. Eram marretas, destruindo os últimos vestígios da minha esperança. Ele tinha decidido, ali mesmo, que eu não era mais apenas um fardo, mas uma ameaça. Ele precisava que eu desaparecesse. Permanentemente.

Mais tarde, enquanto dirigíamos, Cátia descansou a cabeça no ombro de Atlas, uma imagem de felicidade doméstica.

- Não acredito que ela tentou machucar nosso bebê - murmurou ela, a voz trêmula. - E se algo acontecer? E se eu perder?

Atlas acariciou o cabelo dela, o olhar fixo na estrada, mas seus dedos apertavam o volante com tanta força que os nós estavam brancos.

- Nada vai acontecer com nosso bebê, Cátia - jurou ele, a voz tensa de determinação. - Eu prometo a você. Ela nunca mais vai ficar entre nós. - Ele olhou pelo espelho retrovisor, os olhos queimando com um fogo frio que me atravessou, mesmo como fantasma. - Nunca mais.

E então, ele aumentou a música. E eu, a esposa esquecida, o fardo, o monstro, fui deixada para morrer no porta-malas frio e escuro, minha vida se esvaindo, sem ser ouvida, sem ser vista.

Capítulo 3

A SUV parou completamente, o silêncio repentino após o rugido do motor parecendo estranhamente alto. Atlas se espreguiçou e abriu a porta, uma rajada de ar frio da montanha invadindo o veículo.

- Finalmente - resmungou ele, esfregando as têmporas. - Essa viagem foi interminável. Ela ainda está lá atrás? - Ele nem olhou para o porta-malas, o tom mais irritado do que curioso.

Eu não sou apenas "ela", meu eu fantasmagórico pensou, pairando perto do ombro dele. Eu sou Elisa. Sua esposa. Aquela que morreu no seu porta-malas. Aquela que você matou. Mas as palavras não tinham som, sem sentido para os vivos.

Cátia saiu do lado do passageiro, tremendo dramaticamente, embora seu sorriso fosse largo e vibrante.

- A serra! - exclamou ela, abrindo os braços, alheia à tragédia que acabara de acontecer a poucos metros atrás dela. - É ainda mais mágico do que eu lembrava, Atlas querido. As luzes de inverno, o ar puro... é perfeito para nós.

Torres, o segurança de rosto sombrio, aproximou-se da SUV.

- Chefe, a equipe vai descarregar a bagagem. Devo mandar eles... buscarem ela? - perguntou ele, os olhos desviando para a traseira do veículo, uma leve hesitação na voz.

Atlas acenou com a mão, dispensando o assunto.

- Apenas diga para levarem ela direto para o quarto. E certifique-se de que ela fique lá. Não quero ela vagando por aí e fazendo cena. Ela deveria estar descansando, lembra? - Ele nem especificou qual quarto, apenas "o quarto dela", como se qualquer canto servisse.

Torres assentiu, uma expressão estranha cruzando seu rosto. Ele olhou para Cátia, que apenas deu de ombros, a atenção já focada no chalé luxuoso.

- Entendido, chefe.

Mas Torres não disse à equipe para me buscar. Ele apenas disse para descarregarem a bagagem. O equipamento de esqui, as malas, as caixas. E eu. Meu corpo permaneceu, um segredo silencioso e congelado, aninhado entre as coisas esquecidas.

Atlas e Cátia entraram no saguão opulento, suas risadas ecoando pelo grande espaço. Eram a imagem da riqueza e felicidade, completamente inconscientes do contraste arrepiante que sua alegria formava com a forma sem vida ainda no carro.

- Estou exausta - reclamou Cátia, apoiando-se pesadamente em Atlas. - E um pouco triste, ainda, sobre... você sabe. - Ela fez bico, os olhos se enchendo de lágrimas convenientes.

Atlas imediatamente passou um braço ao redor dela.

- Eu sei, amor. Está tudo bem. Vamos esquecer tudo isso. - Ele deu um beijo suave na testa dela. - Tenho algo para você. - Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Dentro, um pingente de diamante brilhava sob as luzes do lustre. - Para um novo começo. Para o nosso bebê.

Cátia engasgou, as lágrimas instantaneamente esquecidas.

- Atlas! É lindo! Você é o melhor. - Ela jogou os braços ao redor dele, cobrindo o rosto dele de beijos.

Eu assisti, uma memória fraca se agitando dentro da minha forma espectral. Mamãe costumava me dar coisas, pensei. Coisas pequenas. Uma pedra pintada. Um botão brilhante. Ela dizia que eram símbolos do amor dela. O amor da Mamãe era quente e macio, como seu velho cobertor de lã. Os gestos de Atlas eram frios e duros, como os diamantes que ele dava a Cátia.

A lembrança do porão, das palavras cruéis de Atlas, da escuridão, do frio, ressurgiu. Eu odiava o escuro. Ele trazia de volta as piores coisas. Não apenas a solidão, mas ele. O homem que Torres às vezes trazia para a casa. Aquele com mãos frias e olhos que não sorriam. Ele vinha quando Atlas estava fora, quando Cátia saía. Ele vinha para o porão.

Ele me tocava. De maneiras que me assustavam. De maneiras que doíam. E eu chorava, silenciosamente, porque Atlas tinha me dito para ficar quieta. "Boas meninas não fazem barulho, Elisa", ele tinha dito. "Especialmente quando você está encrencada."

Eu não entendia o que estava acontecendo. Só sabia que era ruim. E a escuridão do porão, era exatamente como a escuridão do porta-malas. Exceto que não havia ninguém para me ouvir no porta-malas. Ninguém para me machucar mais. Nem o homem estranho. Nem Atlas. Nem Cátia.

Minha forma fantasmagórica tremeu. Por que ele não tinha me amado? Foi porque eu quebrava coisas? Porque minhas palavras às vezes saíam emboladas e erradas? Eu o amava. Mamãe disse que eu tinha que ser boazinha, e ele me amaria. Eu tentei tanto. Tanto, tanto. Mas nunca foi o suficiente.

Dentro do calor aconchegante do chalé, Atlas e Cátia estavam se acomodando na suíte.

- A Elisa não deveria estar aqui a essa hora? - perguntou Cátia, um sorriso malicioso brincando nos lábios. - Talvez ela tenha se perdido no caminho para o quarto. Ela sempre foi um pouco... confusa.

Atlas bufou, tomando um gole de champanhe.

- Deixe ela se perder. Melhor ainda, deixe ela ficar onde quer que o Torres a tenha colocado. Ela não é mais problema meu. Ela é problema de um cuidador agora. Ou problema de uma clínica. - Ele parecia aliviado, quase tonto com o pensamento de sua recém-descoberta liberdade.

Um funcionário do hotel, um jovem com olhos nervosos, bateu na porta.

- Sr. Ferraz, terminamos de descarregar a SUV. Mas... não conseguimos encontrar toda a bagagem. E... sua esposa?

Atlas franziu a testa, a irritação nublando suas feições.

- O que você quer dizer com "não conseguimos encontrar"? Ela deveria estar no quarto dela. E toda a bagagem deveria estar aqui. Verifique de novo! - Ele retrucou, a voz afiada.

- Senhor, verificamos o quarto que o senhor especificou para ela, está vazio. E vasculhamos o veículo completamente. Algumas das malas menores estão faltando. E... não havia ninguém no porta-malas quando descarregamos os esquis. - O jovem gaguejou, o rosto pálido.

Cátia riu, um som quebradiço e zombeteiro.

- Ah, pelo amor de Deus. Ela provavelmente está apenas jogando um de seus joguinhos bobos. Escondida em algum lugar. Tentando chamar atenção. - Ela revirou os olhos. - Ela sempre fazia isso. Lembra quando ela fingiu estar doente só para você carregá-la?

Eu não estava fingindo, eu queria gritar. Minha cabeça doía. Minha barriga doía. Vocês fizeram doer! Mas as palavras nasceram mortas, ecoando apenas no vazio silencioso onde minha vida costumava estar.

O maxilar de Atlas endureceu.

- Ela é um maldito estorvo - murmurou ele, pegando o celular. - Sempre. Eu disse para ela ir direto para o quarto. Agora ela provavelmente está vagando pelos corredores, fazendo um espetáculo. - Ele discou um número, os dedos socando os botões com força raivosa. - Elisa, se você estiver aprontando uma das suas, vai se arrepender! Atenda o telefone!

Ele segurou o telefone no ouvido, ouvindo. Apenas o toque distante, abafado e solitário, respondeu a ele.

- Droga, Elisa, me atenda! - ele rugiu, sua frustração transbordando. Ele olhou ao redor da suíte luxuosa, como se esperasse ver meu rosto infantil espiando por trás de uma cortina. - Onde diabos você está?

Nesse momento, o telefone dele vibrou com uma chamada recebida. Não de mim. Era Torres. Atlas olhou feio para a tela, depois atendeu, a voz curta.

- Torres, onde ela está? A equipe não consegue encontrá-la. Ela já está na clínica?

Uma pausa. Então, a voz de Torres, baixa e urgente, veio pelo telefone, alta o suficiente para eu, a observadora espectral, ouvir.

- Chefe... temos um problema. Um grande problema. O manobrista... ele acabou de encontrar algo no porta-malas. Algo... inesperado.

O rosto de Atlas empalideceu. Ele olhou para o telefone, os olhos arregalados com um horror súbito e crescente.

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