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Carros atolados e brigas na chuva

Carros atolados e brigas na chuva

Autor:: Paula Albertão
Gênero: Romance
Clara não suporta nem estar na presença de Kaio, desde criança não consegue ter uma conversa com ele que não acabe em discussão. Então, estarem dentro de um carro atolado enquanto uma chuva torrencial torna tudo ao redor um borrão, é uma das situações mais insuportáveis em que já esteve na vida. Mas naquele curto período, esperando para poder falar com o namorado que a deixa sempre insegura com a relação, abrigada em uma fazenda com estranhos e desejando que o fato de ter pego o carro sem permissão não gere muitos problemas, ela começa a ver coisas diferentes no garoto filho dos amigos dos seus pais - que ela sempre julgou conhecer muito bem. Depois disso, nada mais será como antes - e não será nada fácil entender.

Capítulo 1 Uma sequência de coisas erradas

Certo. Tudo estava dando muito errado. Muito, muito, muito errado.

Não era para eu estar ali, dentro de um carro atolado ao lado de Kaio enquanto discutíamos sem parar. Decididamente era muito errado estar chovendo tanto a ponto de eu não poder ir para fora e colocar alguma distância entre nós dois.

Era mais errado ainda eu sentir uma vontade incontrolável de chorar porque Xande não estava me atendendo, e era muito errado que nas duas ligações anteriores ele estivesse muito diferente.

Eram muitos "muito". E eu só queria que Kaio parasse de falar comigo, parasse de dizer que eu devia prestar mais atenção na estrada e focar menos no meu "namorado idiota".

Para começo de conversa, Kaio não devia estar naquele carro. O carro era da minha família, que não tinha nenhuma relação com a família dele. Em teoria.

Afundei o rosto nas mãos, abandonando a discussão.

- O que você tem agora? – ele perguntou imediatamente.

- Só cale a boca, está bem? – rebati com irritação.

- Nossa, Clara, você é sempre tão bem educada. – ele retrucou com sarcasmo.

Aquele foi o último "muito" insuportável por parte de Kaio que eu estava disposta a aceitar. Abri a porta do carro, que poderia muito bem estar dentro de um rio tamanha a quantidade de água que entrou, e me lancei para fora do carro.

O chão estava escorregadio, quase impossível de se andar, mas mesmo assim eu me impulsionei para o mais longe possível do carro e de Kaio.

- O que você pensa que está fazendo? – escutei a porta do outro lado do carro bater com força.

- Colocando alguma distância entre nós dois. – gritei.

- Pare de ser irracional e volte para a porcaria do carro. – ele gritou de volta.

Obviamente eu não obedeci, e ele veio até onde eu estava com mais facilidade do que eu esperava. Deveriam ser os tênis, com toda certeza.

- Está chovendo demais. – Kaio segurou meu braço.

- O que mais de óbvio você vai me dizer hoje? – tentei puxar o braço, mas ele não soltou.

- Clara, será que...

E foi nesse momento que eu escorreguei e caí de costas na lama, levando Kaio comigo. Não sei o que doeu mais, as costas batendo em alguma coisa levemente dura, ou o corpo dele em cima do meu.

Quanta humilhação.

- Sai! – gritei, empurrando seus ombros com as mãos.

- Eu estou tentando. – ele retrucou, bufando.

De alguma forma nós dois conseguimos ficar em pé depois de alguns minutos angustiantes. Aquilo fez a raiva ceder um pouco, o suficiente para não precisarmos discutir para decidir voltar para o carro.

Tentei a porta do motorista quase ao mesmo tempo que Kaio tentou a do passageiro. Nenhuma das duas abriu.

- Onde está a chave? – ele me perguntou naquele tom de quem está fazendo de tudo para não perder a cabeça.

- Como assim? Você saiu depois de mim. – eu, no entanto, não estava mais nem aí.

- Mas você é a motorista. – ele desistiu de ser civilizado – O motorista é o responsável pela chave.

- E onde está escrito isso?

Nós dois nos encaramos através da chuva, assimilando a ideia de que estávamos no meio do nada. Com carteiras e celulares presos dentro de um carro trancado.

Eu já tinha dito que aquele dia estava muito insuportável? Porque naquele instante pensei que eu ia explodir de frustração.

- Certo... – Kaio balançou a cabeça, tentando focar no que importava mais – Precisamos sair daqui.

Não me preocupei em responder.

Ele olhou ao redor com a mão em cima dos olhos – não sei porque, já que estava ficando escuro também e não mudaria em nada o fato de que não dava para enxergar nada.

- Vem, Clara. Precisamos tentar achar algum lugar. – quando voltou a falar, sua voz estava verdadeiramente controlada.

Continuar brigando em uma noite de chuva como aquela seria idiotice, e já que Kaio tinha cedido, resolvi apenas concordar e me aproximar dele.

Nós andamos alguns minutos, sem saber ao certo para onde estávamos indo. Como tudo era terra, mato, árvores e natureza em geral ao redor, não dava nem para ter certeza se estávamos na estrada ou não.

- Você está bem? – era a primeira vez que ele perguntava aquilo para mim.

- Estou. – tentei soar confiante, mas meu queixo estava tremendo um pouco por causa do frio – E você?

- Também.

Mais um tempo se passou, e quando eu já estava quase cogitando voltar para o carro e simplesmente me sentar no capô, Kaio apontou em uma direção.

- Parece que tem alguma coisa lá.

Forcei os olhos, mas tudo era escuridão.

- Não estou vendo nada.

- Vem comigo.

O segui. Afinal, o que mais eu poderia fazer? Por mais que Kaio me irritasse além do imaginável, ficar sozinha no meio do nada era ainda menos atraente do que estar com ele.

Acabou que ele tinha certa razão. Havia mesmo alguma coisa, mas não era exatamente nossa salvação. Era apenas uma construção de madeira do que, talvez em algum momento, deveria se tornar um celeiro.

- Pelo menos nós conseguimos ficar fora da chuva. – ele comentou.

- É. – concordei sem muita animação.

Eu estava ensopada. Tudo que usava era uma calça jeans e uma camiseta de mangas longas. E estava frio, e provavelmente ficaria ainda mais.

- Olha, você deve estar congelando. – Kaio se aproximou de mim e abriu o zíper da sua jaqueta.

- Não. – neguei rapidamente.

- É impermeável. – ele a tirou – Estou seco por baixo.

Aceitei, meio sem jeito.

- Acho melhor você tirar essa blusa molhada. – ele virou de costas – Não vai adiantar de nada continuar com ela.

Nervosa pela nossa proximidade, virei de costas e rapidamente tirei a blusa e vesti a jaqueta dele. O calor contra minha pele foi imensamente agradável, mas o cheiro do perfume de Kaio era um pouco perturbador.

- Pronto? – ele perguntou, honestamente ainda de costas.

- Sim. – respondi baixo – Obrigada.

- Não se preocupe. – e pela primeira vez ele parecia zero irritado – Vamos estender isso.

Kaio pegou minha blusa molhada e estendeu em uma janela – ou melhor, no vão que um dia seria uma janela propriamente.

Depois disso, nenhum de nós sabia exatamente o que fazer. Não tínhamos celular, luz, livros... Era somente nós dois, duas pessoas que não gostavam muito de estar uma na presença da outra, isolados em uma construção no meio do nada.

Nos sentamos no chão, longe um do outro, e ficamos em silêncio. A chuva não dava sinais de diminuir tão cedo, e de qualquer forma, o carro estava preso em algum lugar com a chave dentro.

Pensei em Xande, longe e inalcançável.

- Clara. – Kaio me chamou depois de algum tempo – Posso perguntar, honestamente, o que você vê naquele cara?

Não havia nada além do que um tom de dúvida.

- Você teria que conhecer o Xande para entender.

- Eu conheço o Xande.

- Conhecer de verdade.

- Sei.

Kaio respirou fundo. Eu não podia ver o rosto dele, mas imaginei seus olhos revirando.

- Olha, o Xande é uma boa pessoa. Ótimo aluno, está se destacando na faculdade cada vez mais. Ele cuidava da avó antes de ir para a faculdade, e acho que não teria ido se ela não tivesse falecido.

Minhas palavras pareceram adequadas quando pensei, mas ao falar achei tudo muito estranho.

- Ele também foi voluntário em um abrigo de animais por três anos.

Kaio estava completamente quieto.

- Não é legal você julgar o tempo todo. – reclamei.

- Não estou julgando, Clara. Só estava curioso.

Ele continuava calmo.

Eu não precisava explicar nada para ele, muito menos provar que meu namorado era ótimo. Kaio não tinha nenhuma relação com a minha vida.

- Só acho que se você se sentisse realmente segura nessa relação, não iria pegar o carro no meio dessa tempestade para ir atrás dele.

Estava demorando...

- Eu não tenho que te explicar nada, Kaio.

- Não, você não tem. – ele concordou.

Me encolhi mais. Mesmo com a jaqueta quente, minhas pernas estavam muito geladas. Aquela seria uma longa noite.

- Você está bem aí? – ele me perguntou alguns minutos depois.

- Estou ótima. – eu não iria dizer o quanto estava tremendo.

- Clara, posso ouvir seus dentes batendo daqui.

Escutei um som, depois passos se aproximando.

- O que você quer? – perguntei, alarmada.

- Só não quero que você fique doente. – ele se sentou ao meu lado, perto o suficiente para me tocar.

Eu queria muito me afastar, mas o calor era tão atraente....

- Olha, eu vou só... – senti o braço dele passar por trás do meu pescoço.

Continuei onde estava.

- Clara, por favor. – ele me puxou suavemente de encontro ao seu corpo.

Cedi e apoiei a cabeça logo abaixo do seu pescoço. Seu corpo não estava mais muito quente, mas ainda assim era mais quente do que o meu e isso era confortável demais.

Ao perceber que eu estava relaxando, seu braço me envolveu com firmeza.

- Só tente descansar. – a voz dele estava perto demais do meu ouvido.

Pensei em dizer qualquer coisa hostil, mas desisti. Era melhor descansar, poupar energias e conservar calor. Então, comecei a adormecer suavemente, quase sem perceber.

Mesmo assim, contabilizei aquilo como mais uma coisa errada daquele dia.

Capítulo 2 Casa, chá e celular

A primeira coisa que senti quando comecei a despertar, foi o cheiro de um perfume excepcionalmente bom, que eu aspirei com vontade, imaginando meu namorado ao meu lado. Afinal, o calor daquele corpo encostado no meu só poderia ser dele.

Ergui o nariz, deslizando pelo pescoço, e só abri os olhos quando cheguei até o nariz dele.

Meu coração disparou quando vi o rosto de Kaio, tão perto do meu que eu podia ver os cílios longos com muita definição. Felizmente ele estava dormindo, e não notou minha boca perigosamente perto da dele.

Eu me sentei, concluindo que em algum momento da noite nós escorregamos até o chão, e me desvencilhei de seu braço.

O sol já estava nascendo e a chuva felizmente tinha parado, então me levantei para ver em que estado estava minha blusa pendurada na janela.

- Clara? – Kaio murmurou no chão.

Me virei para ele, que apertava os olhos, aparentando confusão – e talvez uma dor no ombro pelo modo em como o estava movendo.

- Já parou de chover. – por algum motivo eu estava me sentindo constrangida agora que estava claro – Nós deveríamos aproveitar para tentar fazer alguma coisa.

Me concentrei na blusa, ainda muito úmida, enquanto Kaio se levantava.

- É, concordo com você.

- Eu deveria devolver a sua jaqueta... – coloquei a mão no zíper, mas não o abri porque lembrei que não estava usando nada por baixo além do sutiã.

- Não se preocupe, estou bem. – ele fez um gesto despreocupado e andou para o lado de fora.

Eu o segui e observei onde nós estávamos. Havia uma casa há poucos metros.

- Erramos a ajuda por pouco. – comentei, apontando a direção.

- O azar estava conosco ontem. – ele concordou.

Ir até a casa era a melhor opção, já que nós precisaríamos ligar para que alguém trouxesse a chave reserva do carro.

A casa não era muito grande, mas era bem bonita. Toda de madeira, com uma varanda circundando, e um segundo andar com janelas bem grandes.

Kaio bateu na porta e eu resolvi ficar um pouco mais atrás. Ele poderia explicar a situação sozinho.

Uma mulher idosa abriu a porta pouco tempo depois, usando um roupão. Pareceu ter sido tirada da cama um pouco cedo demais.

- Desculpe por acordá-la. – Kaio disse – Nosso carro ficou preso e acabamos nos protegendo ali. – ele apontou para a construção – Pedimos desculpas por isso também. – ele deu uma risadinha sem graça.

- Vocês dormiram aí fora? – ela se espantou – Estava muito frio. Podem entrar.

Aliviados, nós passamos pela porta agradecendo. E continuamos agradecendo enquanto ela nos conduzia até a cozinha.

- Vou fazer um chá para esquentar vocês dois. – a senhora pegou água e levou até o fogão – Vocês podem ficar doentes.

- Dora, quem está aí? – escutamos um segundo antes de um homem igualmente idoso passar pela porta.

Ele olhou para nós dois como se fossemos duas coisas muito fora do lugar.

- O carro deles ficou preso na estrada. – Dora respondeu tranquilamente – Estou fazendo um chá, Chico.

- Bom, mas eles não podem ficar com essas roupas molhadas. – ele gesticulou para nós – E também deveriam tomar um banho.

Kaio parecia tão sem graça quanto eu.

- Tem razão. – Dora bateu com a mão na testa – Pode mostrar para eles o banheiro? Eu já encontro alguma roupa que sirva.

- Claro. – Chico concordou – Vamos.

Kaio e eu nos entreolhamos, depois demos de ombro simultaneamente e seguimos o homem até o andar de cima.

Chico parou na primeira porta e a indicou.

- Você pode usar aí... – vi que ele me olhava.

- Clara. – completei.

- Clara. – repetiu – Pode ficar à vontade, Dora vem em um minuto.

- Obrigada. – coloquei a mão na maçaneta e girei.

- Você vem comigo, rapaz. – ele continuou andando.

- Vai ficar bem? – Kaio sussurrou.

- Claro que sim. – respondi, sem entender aquela súbita preocupação comigo.

- Legal. – ele seguiu adiante.

Passei pela porta e percebi que era um quarto. Tudo era simples, mas de bom gosto. Havia uma cama de solteiro, um guarda-roupa simples e cortinas nas janelas. E, para minha alegria, uma outra porta que levava até um banheiro.

A água quente me fez suspirar por minutos. Consegui até esquecer um pouco tudo que havia acontecido e minhas preocupações.

- Clara? – a voz da senhora me tirou do transe – Estou deixando roupas para você em cima da cama.

- Obrigada! – respondi alto.

Pouco depois desliguei o chuveiro, me sequei em uma toalha rosa macia e fui me vestir. Pensei que encontraria algo mais neutro, mas havia uma blusa de moletom rosa e uma calça jeans – que ficou só um pouco larga.

Decidi descer porque ficar no quarto pareceu meio estranho, e vi que Kaio já estava sentado na cozinha tomando uma xícara de chá. Ele estava usando uma camisa de flanela vermelha e preta que, incrivelmente, caía muito bem nele, e calça jeans que parecia um pouco justa nas coxas.

- Aí está ela. – Dora sorriu, se virando do fogão.

Kaio olhou para mim, e me apressei em sentar na cadeira de frente para ele.

- Estou fazendo um café da manhã reforçado. – a senhora prosseguiu alegremente.

Comemos, visivelmente realizados, e só então Kaio resolveu pedir para usar o telefone.

- Não está funcionando por causa da tempestade. – Chico informou, entrando na cozinha para comer também – Mas geralmente consertam rápido.

Fiquei preocupada. Eu estava me controlando todo aquele tempo, mas queria ligar para Xande mais uma vez. Ele devia ter visto minhas ligações e ficado preocupado.

Naquele momento um rapaz, talvez um pouco mais velho do que eu, entrou na cozinha coçando a cabeça e bocejando.

- Opa. – ele parou onde estava assim que viu dois estranhos na mesa.

- Oi, meu nome é Clara. E esse é Kaio. – gesticulei na direção dele – Nós dois...

- Nosso carro quebrou na estrada. – Kaio completou.

- O tempo estava muito ruim ontem. – o rapaz comentou despreocupadamente, indo se servir – Não era uma boa ideia andar por aí.

Kaio me olhou de um jeito que mostrava concordância, mas deixei passar porque não queria entrar em uma discussão na frente das pessoas que estavam nos ajudando.

Depois disso, pedi licença para ir até a varanda. Ficar dentro da casa parecia um pouco estranho, e além disso eu ainda estava cansada demais para interagir.

Me sentei em uma cadeira de balanço e olhei para o horizonte. A vista era bonita, isso não se podia negar, mas eu queria muito estar em outro lugar.

Naquele horário, se o carro não tivesse empacado, eu já estaria na república de Xande. Provavelmente já estaria tranquila por ter constatado que a estranheza dele no telefone não era nada mais do que uma impressão minha – como sempre.

- Clara, você está bem? – Kaio surgiu ao meu lado com a testa franzida.

- Estou sim. – eu não iria abrir meus sentimentos para ele.

- Sei que você queria estar lá com seu namorado. – ele se aproximou – Mas logo vamos dar um jeito de voltar para casa.

Kaio estava tentando me confortar?

- É, eu sei. – concordei, mais para que ele parasse de falar do que qualquer coisa.

Ficamos parados no mesmo lugar por um tempo. Continuei olhando para a frente, então não sei para onde ele estava olhando.

- Clara, eu... – Kaio começou a dizer, mas o rapaz de antes passou pela porta.

- Soube que vocês precisam de telefone. Eu tenho um celular.

Fiquei em pé de um pulo.

- Aliás, meu nome é Bento. – ele se apresentou.

- Isso é ótimo! – exclamei.

- Claro que é. – a voz de Kaio era entediada.

- Podem vir comigo. – Bento chamou.

Mais uma vez subimos as escadas até um quarto, só que o do rapaz era bem mais bagunçado do que o que eu tinha usado.

- Fiquem à vontade. – ele entregou o aparelho nas mãos de Kaio e saiu.

Kaio fez uma ligação para seus pais, onde explicou tudo que tinha acontecido desde que tínhamos saído, depois escutou pacientemente o que me pareceu um sermão.

- Eles vão falar com seus pais e procurar a chave. – ele me entregou o celular.

- Entendi. – peguei o aparelho.

- Pode ligar para ele. – Kaio deu de ombros – Eu vou lá para baixo.

- Pode ficar. – falei enquanto me sentava na cama bagunçada. Ele ia ver como não tinha nada de errado com meu relacionamento.

- Certeza? – aquilo pareceu pegá-lo de surpresa.

- Sim. – eu já estava discando o número – É meio estranho ficar lá, não acha?

- É. – ele sorriu – É, sim.

Enquanto eu escutava os toques se prolongando, Kaio sentou no chão ao lado de uma pilha de roupas.

Tudo que eu precisava era que Xande atendesse e me tranquilizasse, mas fui perdendo as esperanças e ficando tensa – e irritada porque aquilo estava acontecendo justo na frente de Kaio.

- Alô?

Fiquei surpresa ao ouvir a voz de sono de meu namorado.

- Xande, oi. É a Clara.

- Oi, Clara. – sua voz se tornou mais suave quando percebeu que era eu – Eu tentei falar com você ontem, mas...

- Ah, me desculpe por isso, amor. – ele me interrompeu – Eu estava ocupado. Sabe como é a república. Os meninos chamaram amigos para cá, estava estava uma barulheira danada...

- Não tem problema. – me senti um pouco aliviada – Eu só ia dizer que estava indo te ver.

- Me ver? Agora? – escutei um som do outro lado que sugeria que ele estava se levantando.

- Ontem. – respondi com incerteza – Mas o carro atolou e eu acabei dormindo no meio do nada.

- No meio do nada? – a voz dele estava dando um pouco de eco, então imaginei que estava entrando no banheiro.

- É, mas acabei encontrando ajuda e...

- Que bom que deu tudo certo então. – Xande me interrompeu – Podemos nos falar depois? Eu acabei de acordar e preciso usar o banheiro.

- Ah, tudo bem. É que eu...

- Que bom! Nos falamos depois.

E ele desligou.

Fiquei um tempo com o celular no ouvido antes de soltá-lo na cama. A conversa tinha sido tão estranha que em vez de me acalmar, me deixou com um vazio.

- Clara? – eu quase tinha esquecido que Kaio estava ouvindo.

- O quê? – levantei meus olhos para ele.

- O seu namorado é um idiota.

Capítulo 3 Sempre pode piorar

Saí do quarto pisando duro, desci as escadas, fui até a cozinha onde os três membros da família estavam e agradeci por toda ajuda. Em seguida, ainda pisando duro, saí pela porta da frente.

- Clara, qual é... – escutei a voz de Kaio atrás de mim logo em seguida.

Continuei andando, mesmo que não fizesse ideia da direção que deveria seguir.

- Você está indo na direção errada. – ele me alertou.

Parei, verdadeiramente com raiva agora, e me virei.

- O que você quer?

- Eu? – ele apontou para si mesmo, rindo – Só quero que você não se perca e me faça perder horas te procurando.

- Você tem como missão de vida me irritar?

Antes que ele pudesse dar uma resposta, Bento apareceu em um carro velho.

- É melhor eu levar vocês até seu carro.

Nós dois entramos sem falar nada, eu no banco de trás e Kaio no da frente. Fiquei surpresa por ele conseguir indicar o lugar onde o carro estava atolado com tanta facilidade. Talvez só o meu senso de direção fosse péssimo.

Acabou que o carro não estava em um lugar tão ruim como pareceu no dia anterior, pelo menos estava fora da estrada, sem risco de alguém bater. Mas ainda assim, havia bastante tempo pela frente até a ajuda chegar.

- Acho que vocês dois deveriam voltar lá para casa. – Bento pareceu notar que Kaio e eu estávamos irritados um com o outro – Meus avós não se importam mesmo em ter visita. Acho que até gostam.

Nenhum de nós dois disse nada.

- Não vai adiantar esperar aqui. – Bento prosseguiu.

- Tudo bem. – Kaio cedeu primeiro.

Os dois entraram no carro, depois olharam para mim, parada pateticamente no meio da terra. Sem dizer nada, entrei no banco de trás.

A família toda agora estava ciente de que Kaio e eu não nos dávamos bem. Dava para perceber como estavam evitando conversar conosco, sempre dizendo para que ficássemos à vontade enquanto faziam alguma coisa em um cômodo diferente de onde estávamos.

- Viu o que você fez? – sussurrei, brava – Estamos deixando os donos da casa desconfortáveis.

- Se você não tivesse saído do quarto batendo o pé como uma criança de cinco anos, isso não estaria acontecendo. – ele rebateu, também em sussurros irritados.

Quando eu achava que não tinha muito como piorar, Bento trouxe o celular.

- Seu pai precisa falar com você. – ele o entregou para Kaio.

Ele saiu imediatamente para a varanda, me deixando sozinha com o rapaz que estava completamente sem jeito.

- Sinto muito por atrapalhar a rotina de vocês. – encolhi os ombros.

- Tudo bem. – Bento trocava o peso de uma perna para a outra – Toda essa situação pode ser bem estressante para um casal.

- Casal? – repeti – Não, não, não. – me levantei balançando a cabeça – Nós dois não...

- Olha, eu preciso que você fique calma. – mas neste momento Kaio voltou com uma expressão nervosa – Mas uma ponte caiu e não tem como eles chegarem aqui.

Realmente sempre tinha como piorar.

Caí no sofá com um gemido, o que foi a deixa para Bento fugir e nos deixar a sós.

- Eu sei que é ruim. – Kaio se abaixou na minha frente – Mas temos um teto e boas pessoas dispostas a ajudar.

Ergui os olhos, com uma resposta sarcástica na ponta da língua, mas o rosto de Kaio tentava me tranquilizar. Por alguma razão, ele parecia realmente preocupado.

- É. – concordei, respirando fundo.

- Me desculpa por ter dito que Xande é um idiota, Clara. – agora ele estava realmente disposto a estender a bandeira branca – Eu só acho que você não deveria ter a necessidade de sair daquele jeito para ir conferir o que ele estava fazendo.

- Não era conferir. – retruquei, embora talvez realmente fosse o caso.

- Não se engane. – Kaio balançou a cabeça, ainda falando suavemente – E, foi você que me disse para ficar no quarto, o jeito como ele te tratou no telefone...

Senti meu estômago afundar.

- Não se trata uma namorada desse jeito, Clara. – ele concluiu, olhando para os lados só para não ver meu rosto triste – Eu vou explicar o que aconteceu para Dora e Chico.

Fiquei sozinha, sentindo o peso das palavras de Kaio. Eu odiava dar razão a ele, e ainda esperava que estivesse errado, mas naquele momento eu estava concordando.

Quando voltou, Kaio me encontrou na mesma posição.

- Certo, já expliquei tudo. – ele parecia estar agindo em algum modo de sobrevivência ou resolução de problemas – Eles disseram que não tem problema que nós fiquemos aqui, embora tenha apenas um quarto livre. Faço questão que seja seu, aliás. – Kaio começou a andar de um lado para o outro – Falei que estamos dispostos a repor tudo que comermos e, mesmo que eles tenham dito que não precisa, acho que deveríamos fazer isso mesmo.

Me levantei.

- Obrigada, Kaio.

Observei seu rosto perplexo antes de subir as escadas para o quarto que eu tinha usado antes, provavelmente seria esse o livre, e me deitei. De repente estava me sentindo muito cansada, a ponto de cair no sono por algum tempo – o que seria ótimo porque eu não queria pensar em Xande e em todas as coisas erradas.

Acordei com uma mão suave no meu ombro.

- Querida, já está na hora do almoço.

Me sentei, sonolenta, e vi Dora com um sorriso acolhedor nos lábios.

- Desculpa por mais cedo. – pedi – Eu estava muito nervosa.

- Não se preocupe com isso, querida. Seu namorado já explicou tudo.

- Ele não é meu... – comecei, mas outra vez fui interrompida.

- O vovô disse que está na mesa. – Bento colocou a cabeça para dentro do quarto.

- Ótimo! – Dora exclamou, e saiu do quarto animadamente.

Me arrastei para o andar de baixo. Todos já estavam sentados, então fui para a única cadeira livre – que era a do lado de Kaio.

Estranhamente eu estava sem graça para olhar para ele, então me concentrei no meu prato o tempo todo. Foi uma refeição silenciosa, algo a que eu não estava acostumada – minha família costumava conversar muito nessas ocasiões.

Assim que terminei, pedi licença para voltar para o quarto. Estava cogitando seriamente pedir para Bento me deixar fazer outra ligação para Xande. Tudo aquilo estava além do ridículo. Não era possível que meu namorado não estivesse preocupado com as coisas que eu disse.

- Clara? – Kaio bateu na porta antes de abrir – Você está bem?

- Sim. – eu estava sentada na cama – Por quê?

- Você me agradeceu mais cedo. – ele estava sem jeito, trocando o peso de uma perna para outra.

- Ah, isso. – dei uma risada baixinha – Você me ajudou muito. Ontem com a jaqueta, hoje tomando a frente dos planos enquanto eu estava nervosa demais para raciocinar. – eu odiava ter que admitir aquelas coisas, mas precisava ser justa – Se eu estivesse sozinha, o que era para ter acontecido se você não tivesse se enfiado no carro no último minuto, não sei o que eu teria feito.

Ele sorriu, o que não era muito comum enquanto estávamos interagindo, e veio se sentar ao meu lado na cama.

- Vai ficar tudo bem. – sua mão pareceu ir em direção a minha, mas desistiu no último instante e apoiou no colchão – Logo a ponte vai ser consertada, a chave vai chegar e você vai poder correr para o seu namorado.

Dei um suspiro profundo.

- Olha, quanto a isso...

Bento surgiu na porta com o celular na mão.

- Telefone para você, Clara.

Fiquei em pé de um pulo. Sempre havia uma esperançazinha de estar entendendo tudo errado.

- Oi?

- Amor, sou eu. – Xande parecia bem humorado do outro lado – Eu tentei o celular, mas depois percebi que você tinha me ligado de um número estranho.

- Eu tentei te explicar mais cedo. – mantive meu tom normal, embora aquilo estivesse me deixando irritada – O carro atolou, fiquei presa.

- Mas e esse celular?

Como ele podia focar apenas nisso?

- Estou na casa de umas pessoas que encontrei. – me virei para a parede para ignorar Kaio e Bento, que continuava parado na porta – Eles foram muito gentis em...

- Fico feliz por você ter conseguido ajuda. – Xande me cortou, ainda animado – Isso significa que você vai vir?

- Estou com problemas no carro e uma ponte caiu, então...

- Nossa... – sua voz veio de mais longe, como se ele tivesse afastado o celular do rosto – Sinto muito por isso.

Finalmente um pouco de empatia!

- Acho que logo tudo vai se resolver.

- Mas você não se importa de eu sair com os meninos hoje, não é?

Abri a boca, mas não consegui dizer nada.

- Quero dizer... – Xande se apressou em dizer – É só um churrasco, nada demais. É aqui perto de casa mesmo.

- Bom, é...

- Que bom, amor! – ele exclamou – Nos falamos mais tarde!

Fiquei parada um bom tempo com o celular na orelha. Uma mão o tirou de mim, e vi que era Bento. A expressão no rosto dele era desconcertada, nem mesmo olhava nos meus olhos.

Assim que escutei os passos dele saindo do quarto, me virei e vi que Kaio estava do mesmo jeito. Os dois tinham escutado tudo, toda aquela conversa ridícula.

Cruzei os braços com força para não chorar. Só o que me faltava era chorar na frente de Kaio na casa de pessoas que nós tínhamos acabado de conhecer.

- Clara, eu... – ele se levantou, mas não sabia o que fazer – Você precisa de alguma coisa?

A raiva subiu por mim.

- Como ele pode falar desse jeito comigo? Ele não sabe onde eu estou e nem com quem! E se eu estivesse na casa de um assassino? – depois de começar a desabafar era difícil parar – Como ele pode agir desse jeito?

Eu estava arfando, e olhei para Kaio como se realmente quisesse uma resposta, então não pude reclamar quando ele disse:

- O seu namorado é um idiota.

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