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Carta Para Hadiya

Carta Para Hadiya

Autor:: Gil Silva
Gênero: Romance
Em um mundo onde barreiras sociais e raciais moldam os caminhos do destino, Hadiya e Kevin construíram uma amizade profunda e secreta, alimentada por risos e confidências. Desde a infância, o laço que os unia parecia inquebrável, mas Kevin escondia um segredo: seu amor por Hadiya, um sentimento que nunca teve coragem de revelar. Quando sua família descobre essa amizade proibida, ele é forçado a deixar sua cidade natal, quebrando o vínculo que parecia eterno. Anos se passam, e Kevin retorna, agora um homem marcado pela dor das perdas e pelos rígidos padrões familiares. Ele tem uma filha, mas vive preso a um casamento sem amor, com uma esposa desinteressada tanto nele quanto na criança. Mesmo com a distância e o passar do tempo, Kevin jamais esqueceu Hadiya. Ao voltar, se encontra numa posição inesperada: é o novo chefe de Hadiya, mas decide esconder sua verdadeira identidade. Por outro lado, Hadiya, sem desconfiar que seu chefe é o amigo de infância que tanto amou, continua acreditando que o amor verdadeiro pode superar qualquer barreira e sonha com o reencontro que sempre esperou. Conforme os dois tentam restaurar os laços rompidos pelo tempo e pelos preconceitos, o passado e seus segredos ameaçam destruir seus sonhos. Quando a verdade vier à tona, será que Hadiya será capaz de perdoar Kevin por esconder sua identidade? Em uma jornada de amor, redenção e reencontros, esta história emocionante mostra como o passado pode desafiar o presente, e como o destino guarda surpresas que mudam tudo.

Capítulo 1 Prefácio

Prefácio

15 anos antes

Meu nome é Hadiya, tenho onze anos e a minha pele é negra. Desde cedo comecei a trabalhar, nunca frequentei uma instituição de ensino e não tive a oportunidade de desfrutar das atividades típicas da infância, como brincar, socializar com colegas e aprontar travessuras.

Jamais pude vivenciar essas experiências, já que minha juventude foi prejudicada pela exigência de trabalhar cedo, e pelo peso do racismo e discriminação.

Quando minha mãe me deu uma família em troca do meu trabalho, fiquei extremamente desanimada, pois ansiava mesmo era por dedicar-me aos estudos.

Entendo os motivos da minha mãe em agir dessa forma. Meus irmãos, Lucas e Heitor, e eu muitas vezes passamos necessidades, morávamos em uma humilde casa feita de tábuas e telhas danificadas. Nos dias de chuva, a água entrava pelos buracos, nos deixando encharcados e doentes. Sempre torcia para que não chovesse, pois sabia que meu irmão mais novo, Lucas, acabaria ficando doente se isso acontecesse.

Não tínhamos mais recursos para nos alimentar, então eu costumava pedir comida em locais próximos. Uma vizinha era bondosa e contribuía sempre que possível, enquanto a outra era cruel e nos mandava procurar comida no lixo para saciar a fome. Infelizmente, eu seguia essa orientação quando encontrava algo minimamente comestível e não totalmente estragado no lixo, apenas para aliviar a sensação de vazio no estômago.

Desejava ardentemente que meus irmãos não sofressem com a fome, pois estavam frágeis. Recordo-me com tristeza da minha mãe amada derramando lágrimas por não conseguir emprego e por não termos sequer um pouco de comida para saciar nossa fome.

Foi nesse instante que minha amada mãe encontrou alguém que buscava uma companhia para seus filhos e em troca oferecia educação, alimentação e roupas, porém a verdade foi bem diferente, pois essa família nunca honrou o acordo de me matricular na escola.

Apesar de a abolição da escravidão ter acontecido há bastante tempo, sou tratada como uma escrava, sim, como uma escrava. Afinal, trabalho sem remuneração alguma, cuidando de duas crianças. Completo um ano nessa posição e essas pessoas, a quem minha mãe me entregou, nunca me deram nem mesmo um centavo, o que configura trabalho escravo.

Quando eu era criança, minha mãe costumava dizer que, embora ganhasse pouco, seu trabalho não era de graça. Ela deixava claro que não era uma escrava e que seus empregadores deveriam cumprir com o combinado, mesmo que fosse um valor baixo.

Eu me encontro presente neste lugar sem receber pagamento algum, e ainda sofrendo com a hostilidade destes indivíduos insensíveis e intolerantes.

Para exemplificar, eles me tratavam de forma desrespeitosa quando íamos ao restaurante, pois me deixavam lá para cuidar exclusivamente de seus filhos, enquanto as crianças brincavam e corriam livres, eu ficava responsável por supervisioná-los, só após as crianças terminarem de comer.

Eu era deixado com fome para que, ao voltar para casa, eu pudesse me alimentar com as sobras que restassem. No entanto, isso nunca me incomodou, pois com o passar do tempo, acabei me acostumando com o descaso.

Não era possível habituar-me a essa situação, contudo, qual era a alternativa? Absolutamente nenhuma! Eu estava na fase infantil e somente almejava frequentar a escola e aprender a ler.

Nunca tive a oportunidade de me dedicar aos estudos, pois precisava cuidar dos meus irmãos enquanto minha mãe trabalhava, e agora preciso me preocupar com o trabalho.

Acho encantador; quem possui habilidade de leitura!

A garotinha pela qual sou responsável, tem apenas sete anos de idade, já domina a leitura completa e consegue lidar com um aparelho estranho que se assemelha a uma televisão, chamado de computador.

Ela coloca um dispositivo lá e as imagens capturadas surgem, enquanto eu jamais tive a oportunidade de assistir televisão, pois em minha casa não era algo presente. Aqui até há aparelho, porém não me permitem assistir e isso não me afeta, pois meu real desejo é ter a chance de me dedicar aos estudos.

A partir da janela do meu quarto, posso observar as crianças a caminho da escola. Acho encantador ver os pequenos com seus uniformes e mochilas, e sempre me pego admirando-os a caminho das aulas.

Caso me questionassem sobre meu maior desejo, eu responderia prontamente: "Adquirir conhecimento para ler, escrever, compreender e desenhar". No entanto, me sinto incapaz... Apenas observo as demais crianças realizando essas tarefas.

Será possível continuar nessa situação de constante escassez?

Qual o caminho para amadurecer e alcançar sucesso?

Minha mãe costumava me dizer que para alcançar algo na vida, é necessário se dedicar aos estudos. No entanto, como eu poderia conquistar algo se nunca fui matriculada em uma escola? Fico pensando no meu futuro, sempre desejando aprender e nunca deixarei de desejar isso. Mas às vezes a vida é tão desigual, com algumas pessoas tendo tudo, enquanto outras não têm absolutamente nada.

Entretanto, é fundamental persistir com os nossos sonhos, pois sem eles, qual será o nosso destino?

Não possuo mais a minha educação formal, portanto, devo apegar-me à esperança de que um dia conseguirei ler e escrever, afinal, as crianças merecem ter acesso à educação, desfrutar da infância e não serem obrigadas a trabalhar. Deveria ser assim, diferente de mim, que sempre fui forçado a trabalhar, seja nesta casa, um lugar onde não sou bem-vindo, ou na minha verdadeira casa, onde todos me amavam.

Neste lugar, os pequenos sentem constrangimento com a minha presença e evitam me ter por perto. Certa vez, as meninas estavam a caminho de uma festa de aniversário e, como de costume, fui convocada para ajudar, embora não saiba ao certo qual seria a minha função, já que acabo apenas carregando as coisas das crianças. Enquanto nos aproximávamos da casa onde seria realizada a festa, uma das meninas pediu que eu me escondesse dentro do carro, para que suas amigas não vissem uma pessoa negra acompanhando-as. No entanto, eu decidi permanecer no meu lugar, sem abaixar a cabeça, apesar dos olhares desaprovadores de Dona Cristina, que optou por não dizer nada.

Agora pense só, precisar me esconder apenas por causa da minha cor de pele! O que posso fazer a respeito? Eu nasci dessa forma e sempre serei. Não tenho motivos para esconder, tenho orgulho da minha cor e se alguém acha que ser negra é um problema, a questão é deles, não minha!

Sociedade peculiar que não me aceita, simplesmente devido ao tom da minha pele.

Mas... o que é ser negro? Não conheço a cor.... Não conheço nada! Só sei que sou negra porque tem pessoa que falam:

- "Sua negra nojenta!" - Eu ficava triste, por ser tratada como se tivesse alguma doença de pele contagiosa. Entretanto, o importante é eu, Hadiya, gosto da minha cor e me amo. Eu não posso fazer nada se eles não gostam. Sequer me importo com esse povo, mesmo que doa.

Você sabe, o chefe é bem estranho, uma vez o flagrei olhando de forma curiosa para o meu seio , que ainda está em desenvolvimento.

Antes eu dispensava o uso do sutiã, porém, depois de conversar com minha mãe sobre o que ocorreu no final de semana, ela me aconselhou a começar a usar. Mesmo não sendo nada confortável, sinto que é necessário seguir sua orientação e me acostumar com essa peça que aperta.

Fui informada por minha mãe que meus seios estão se desenvolvendo e que há homens maus por aí. Mesmo sem entender completamente suas palavras, aceitei o presente que ela me comprou e fiquei contente com o gesto.

Ah!

Minha mãe já saiu para o trabalho, mas não sei por que ela não me leva junto. Meus irmãos estão esperando em casa.

Por que não posso ser permitido fazer isso também? Eu realmente desejo estar com minha família, porém minha mãe entra em conflito comigo sempre que menciono meu desejo de retornar, desconheço o motivo pelo qual devo permanecer sofrendo naquele local terrível, sendo maltratado por pessoas pelos quais não tenho afeto e que igualmente não nutrem simpatia por mim.

Com apenas onze anos, ainda não tenho a autonomia necessária para me virar sozinha, senão talvez considerasse fugir em busca de uma realidade mais favorável.

Desde que comecei a utilizar essa peça íntima conhecida como sutiã, notei que meu chefe não mais direcionava olhares para o meu físico. Sinceramente, não tenho afinidade com ele de caráter duvidoso, de que forma poderia ser diferente?

Só o Kevin é gentil comigo, ele é o único que não me despreza e sempre me trata com cortesia e amabilidade. Ele me ajuda secretamente, enxuga minhas lágrimas quando choro e me abraça com carinho, como se fosse meu irmão mais velho. Mesmo sendo apenas um adolescente de treze anos, ele provém de uma família rica, embora saiba que dinheiro não define o caráter de alguém.

Ele mencionou que no futuro, eu conquistarei todos os meus desejos e tenho fé nisso. Em algum momento eu me tornarei quem eu quiser, mas ainda não defini meus objetivos!

Não possuo habilidade para redigir meu próprio nome, porém acredito que algo positivo está por vir. Não tenho conhecimento sobre o que será ou quando ocorrerá, contudo a certeza de que algo bom acontecerá persiste em meu íntimo.

Capítulo 2 Prólogo

Nossa! Esqueci de mencionar! Às vezes ele me ajuda a aprender algumas letras do alfabeto, é o que ele chama, para que eu possa praticar a escrita em um papel. Isso acontece somente quando ele finge estar doente para faltar à escola e ficar comigo, ou de noite, quando espera todos adormecerem para ficar comigo no meu quarto. Não aprovo que ele minta para ficar comigo, mas os pais dele não deixam que ele se aproxime de mim.

Ele fica aqui, contato história que eu nunca ouvi falar, de um tal de Peter Pan... Nem sei quem é, só sei que gosto muito da história e a gente conversa muito.

Todos os dias, ele vem para meu quarto, fazer carinho no meu cabelo, é tão bom quando estou com meu melhor e único amigo.

De tempos em tempos, Kevin prefere ficar ao meu lado em vez de sair para dar uma volta, compartilhando comigo o que aprendeu na escola. Estou absorvendo um pouco do conhecimento dele, pois ele é como um anjo protetor para mim, sempre disponível para ajudar. Tenho apreço por ele e ele será a única pessoa da qual sentirei falta.

Queria tê-lo por perto incessantemente, pois ao lado dele sou plenamente feliz. Meu coração transborda de alegria, é como se estivesse repleto de borboletas coloridas. Não sei por que são borboletas, porém recordo que certa vez, em minha casa, escutei-o dizer palavras apaixonadas.

Na televisão da casa ao lado, uma jovem está se comunicando:

"Quando estou na companhia dele, sinto um turbilhão de emoções! É como se houvesse um enxame de borboletas voando dentro de mim." Deve ser por isso que meu coração fica assim quando estou perto de Kevin. Quando eu sair dessa casa, que mais parece uma prisão, vou morrer de saudade do meu único amigo.

- Hadiya, não se importe nunca com o que os outros falam de você. Você é muito especial para mim e para a sua família também. - Ele diz. - Não deixe ninguém te humilhar, nunca! Ano que vem eu terei que te deixar aqui, meus pais vão me mandar para estudar em outro lugar.

- Não! Você não pode me deixar aqui sozinha, Kevin. Por favor! - falei enquanto as lágrimas desciam pelo meu rosto.

Sempre tenho Kevin ao meu lado e ia perder meu único amigo, aquele que me ensinou a escrever meu nome e que me protege, eu sempre me sinto segura e muito feliz ao seu lado, inclusive me ensinou a escrever o seu nome.

- Não se preocupe, vai ficar tudo bem! Você vai ver. - Kevin me falava enquanto me abraçava.

Não tenho ideia de como as coisas vão se acertar, no momento em que meu companheiro se afasta de mim!

Ele pretende me abandonar nesta casa, desamparada, sem sua presença para me trazer alegria e segurança.

Eu implorava para que o tempo não voasse, pois assim teria mais oportunidades de aprender e compartilhar momentos com ele. Seu rosto é encantador, com a pele suave e olhos da cor do mar, ou talvez verde, embora as nuances das cores ainda me sejam desconhecidas.

Infelizmente, da forma que não esperava, o ano se foi rapidamente.

Completei doze anos há aproximadamente seis meses, Kevin adquiriu um pequeno bolo em segredo, acendeu uma vela e cantou os parabéns para mim.

Meu coração bate mais forte por Kevin!

Desconheço exatamente o significado do amor, porém acredito que seja o que tenho por ele. É tão agradável estar ao lado dele, porém ele está prestes a partir.

Os pais dele organizaram uma comemoração de quatorze anos em sua homenagem, eu desejava intensamente estar presente nesse evento, contudo, após o encerramento da festa e com todos já dormindo, o meu belo amigo veio ao meu encontro e compartilhou comigo todos os detalhes do que havia na festa.

- Feliz aniversário, Kevin! - falei. - Eu nunca, em toda a minha vida vou te esquecer. Eu amo você! - Acabei chorando de novo, estava muito emocionada.

- Por favor, não fique triste. Eu vou voltar todo ano, prometo. Venho aqui só para te ver. - Ele falava para me confortar. - Não quero que você fique triste, nunca! Não chora, por favor. - Kevin me abraçou e me beijou no rosto. Até hoje eu não sei o motivo de ele ser tão bom comigo, com ele me sentia protegida e amada.

Chegou o momento da despedida do meu amigo, infelizmente, e eu não pude me despedir dele, fui novamente deixada trancada dentro da casa.

Era frequente essa situação, quando havia pessoas em casa, eu era obrigada a me isolar, não podia me mostrar de forma alguma, eles me castigavam se eu me mostrasse. No entanto, eu já não derramava mais lágrimas e isso os deixava ainda mais zangados, por eu não demonstrar tristeza diante das punições que recebia em minhas mãos, que ficavam doloridas e extremamente vermelhas.

Constantemente, Kevin ocupava meus pensamentos e eu recordava do modo como ele me tratava. Por isso, evitava derramar lágrimas, pois ele havia pedido que eu não chorasse e eu obedeci. É uma pena que ele tenha partido sem me visitar antes, mas procurei não me abalar com isso. Já nos despedimos e estou confiante de que ele retornará no ano seguinte para me ver.

Com o decorrer dos dias, comecei a perceber que ele não tinha tanto apreço por mim como demonstrava. Poucas pessoas se importam comigo, além da minha mãe, meus irmãos e Maitê.

Acredito que eles não têm mais o mesmo carinho de antes, pois desapareceram. Estou sem saber o paradeiro de minha mãe, ela não veio me buscar, assim como meus irmãos.

Estou extremamente ansiosa em relação a eles!

Será que não terei a oportunidade de vê-los novamente?

Ainda bem que eu sei andar sozinha por aí e posso ir até a minha casa. Acredito que dê para ir a pé, pois não tenho dinheiro. Aliás, nunca peguei dinheiro na minha vida. Contudo, preciso ir ver minha mãe e meus irmãos. Isso se eu conseguir chegar lá.

Anos antes...

Atualmente tenho catorze anos e recebi uma carta de Maitê, que é a funcionária gentil da casa. Ainda não a mencionei, mas ela é muito atenciosa comigo, inclusive mencionou que gostaria que eu fosse sua filha. Prometeu que quando se aposentar, irá me levar para viver em sua casa.

Como eu ansiava por isso!

- Minha filha, o menino Kevin deixou para você.

- Mas, eu não sei ler. Maitê quem vai ler para mim?

- Minha filha, ele pediu para te falar, que ele não quer que você a abra enquanto não aprender a ler e escrever muito bem e realizar o seu sonho. Que é para o desculpar, pois, os pais o proibiram de te ver.

- Mas Maitê, como os pais dele sabiam que ele vinha ao meu quarto? - Perguntei.

- Eles descobriram, minha filha, mas, fica calma, eles não vão te bater mais. O Kevin pediu e eles podem ser ruins, mas respeitam o filho. Ele só foi para esse lugar para se afastar de você, os pais não gostavam de vê-lo com você e é por isso também que Carina e Micaela não conversam com você, os pais não deixam.

- Maitê, conta.

Qual será o meu destino neste lugar? Já não há mais necessidade de permanecer aqui, as meninas já estão crescidas. Vou escapar pela janela e procurar por Kevin, para onde ele terá ido? Mesmo que a janela esteja muito alta, estou disposta a pular para ver meu amigo, o único companheiro que já tive.

- Vou encontrar meu amigo, Maitê! - Falei.

- Não fala bobagem, criança. Ele foi para outro país. Muito longe meu amor, agora pare de chorar, vou fazer o almoço e daqui a pouco eu trago o seu. - Ela fala e vai para cozinha.

Maitê é uma mulher deslumbrante, com um olhar incrível que nunca vi igual, embora os olhos mais bonitos fossem os de Kevin, mas ele se foi e agora os de Maitê me cativam como um horizonte de água azul. Eu nunca nadei em uma piscina, mas consigo imaginar sua beleza, pois meu amigo me mostrou uma foto no celular.

Foi exatamente o nome que ele mencionou, nesse aparelho conhecido como celular, eu presenciei uma piscina pela primeira vez e era muito parecida com os belos olhos de Maitê!

Eu mal encontro mais essas pessoas, diariamente me deparo com a carta do meu amigo e fico imaginando quando conseguirei aprender a ler e compreender suas mensagens. A saudade que sinto dele é tão intensa que parece que meu coração vai saltar do peito a qualquer momento. Fui dispensada pelos patrões, disseram que era hora de ter minha liberdade, afirmaram ainda que não queriam mais sustentar uma negra, considerada sem valor, que não possui fezes no intestino para eliminar. Não entendo o motivo pelo qual disseram que eu não tinha fezes no intestino para eliminar, pois faço cocô todos os dias, minha mãe sempre diz que devo falar cocô e não cagar. Povo estranho, afirmar que não há fezes no intestino para eliminar, só se for eles que não possuem, pois eu tenho e bastante.

- Os patrões falaram que você vai embora, pode deixar as roupas aí.

- A nova empregada disse, se referindo às três peças de roupas que eu tenho para vestir. - Vou dar para outra moça que vem para cá.

Tenho até pena dessa outra moça, só espero que não seja uma criança. Eu hoje sei que lugar de criança é na escola e não trabalhando. Eu sempre soube na verdade, mas não podia obrigar esse povo que só sabe maltratar, me colocar na escola.

- Mas eu vou vestir o quê? - Perguntei.

- Nada, vai com a roupa que você entrou aqui, sua morta de fome.

- A patroa gritou.

Eu me encontrava em prantos sem direção, quando Maitê se aproximou, entregou-me uma chave e algum dinheiro. Inexperiente com valores monetários, fiquei encantada ao receber aquilo e percebi que ela também me entregou um papel com um local indicado.

Ela me informou o itinerário do ônibus que devo tomar até chegar ao terminal, e ao descer do coletivo, eu teria que solicitar orientações para encontrar o caminho até o destino indicado no papel, uma vez que tenho dificuldades com a leitura.

Deixo para trás a casa onde vivi durante tanto tempo, sentindo-me aliviada por finalmente conquistar minha liberdade tão almejada, porém ao mesmo tempo melancólica pela ausência de Kevin ao meu lado.

Após chegar ao ponto, verifiquei o número do ônibus. Quando o ônibus certo finalmente apareceu, entrei e busquei um assento. Enquanto me acomodava, pensei que, agora longe daquela multidão, teria a oportunidade de estudar e quem sabe até frequentar a faculdade no futuro, mesmo que eu já esteja mais velha na época.

Ao alcançar o destino final conforme orientações da Maitê, exibo o endereço ao motorista do ônibus e recebo as instruções de que direção seguir. Caminho por um trecho e alcanço o número apontado no papel, tratava-se de uma casa encantadora. Abro a porta e adentro imediatamente.

Maitê possui uma boa situação financeira?

Capítulo 3 Hadiya

Iniciei meus estudos aos quinze anos, tudo graças à ajuda de Maitê. Se não fosse por ela, não consigo nem imaginar como estaria minha vida hoje, nem onde estaria. Sinto que foi um verdadeiro ato de Deus colocá-la em meu caminho naquele momento de extrema necessidade. Ela me abrigou sob seu teto após ser dispensada sem nenhum apoio pela outra família.

Depois que Kevin se foi, as coisas ficaram ainda piores para mim... Dona Cristina intensificou seu ódio por mim, me tratava com hostilidade, proferia palavras ofensivas sem nem ao menos entender o significado delas, me obrigava a lavar um grande volume de roupas e sapatos, além de arrumar os pertences das crianças inúmeras vezes ao longo do dia, dizendo: "- Se você não fizer isso direito, sua maldita, terá que refazer tudo de novo."

Vivi muitos anos naquela casa suportando maus tratos daquela senhora, que Deus a perdoe por todo mal que ela causou devido ao preconceito que carrega consigo. Não tenho certeza se consigo perdoar, mas tenho certeza que Deus perdoa sim!

Ele absorve todas as falhas que cada indivíduo comete, pois Deus é misericordioso, enquanto eu guardo ressentimento em meu coração. Parti daquele lugar com tanta raiva daquelas pessoas por me fazerem passar dificuldades, além de proibirem Maitê de se aproximar de mim e ameaçarem mandá-la embora caso tentasse me ajudar como Kevin fazia.

Eles conversavam abertamente na minha presença, sem se importar com discrição, e eu permanecia em silêncio para evitar que ela magoasse a única pessoa que me queria bem neste universo.

Maitê, é guerreira e já está envelhecida e com questões de saúde e eu fico me questionando o que farei se a minha única mãe partir, estou apreensiva com essa possibilidade, mesmo assim, saio para o trabalho deixando-a sozinha. Preciso trabalhar, se fosse possível, não a deixaria e ela compreende isso, afirmando:

- Minha querida não se preocupe comigo, eu vou ficar bem como todos os dias eu fico. Vai para o seu trabalho com Deus e que ele sempre te acompanhe, meu amor.

- Amém, minha mãe. Espero que quando chegar aqui, você esteja bem. Vou falar com a vizinha para ficar de olho em você e vir aqui te ajudar no que precisar, o almoço já está pronto e a casa limpa, não quero ver você fazendo nada. Me ouviu, dona teimosa? Tchau, te amo.

- Também te amo, minha filha!

Para mim, ela representa tudo, pois foi quem me incentivou a frequentar a escola e é minha guardiã.

Hoje tenho 24 anos de idade e já exerci diversas funções, incluindo trabalhos domésticos, serviços em São Paulo e atualmente estou empregada em um restaurante de alto padrão. Apesar de não ser uma chef renomada, desempenho o papel de recepcionista no estabelecimento, o que garante minha subsistência.

Atualmente possuo habilidades de leitura e escrita e embora não tenha ingressado na universidade, mantenho a esperança de cursá-la no futuro. Por ora, a falta de tempo tem sido um obstáculo, mas tenho planos de realizar meu sonho de frequentar a faculdade em breve.

Tenho o desejo de me tornar professora, no entanto, devido à minha idade, não tenho certeza se seria viável. Já atuo na área financeira há precisamente seis anos, então pretendo seguir algo nesse ramo.

Jamais tive notícias sobre o destino da minha mãe e dos meus irmãos, não faço ideia do que ocorreu, eles simplesmente desapareceram.

Eu me sentia um fardo para minha mãe e acredito que ela não me queria por perto, no entanto estou bem e contente do jeito que sou. Comentei com minha mãe Maitê que desejava aprender a pilotar uma moto, acho tão elegante e seria prático para me deslocar até o trabalho, considerando o caos do trânsito em São Paulo. Ainda não iniciei minhas aulas de direção e não adquiri minha própria moto, pois os custos são elevados e não disponho de recursos financeiros para isso.

Minha mãe sempre demonstra preocupação em relação a mim devido à depressão que enfrentei, quase enlouquecendo, porém agora encontro-me em controle da situação.

Já não necessito mais fazer uso dos medicamentos, o médico interrompeu o tratamento e afirmou que minha saúde está em perfeitas condições, contudo, alertou que qualquer sintoma recorrente devo procurá-lo imediatamente.

Frequentei o psicólogo por um longo período, felizmente no posto de saúde havia esse serviço disponível, o que me permitiu não interromper o acompanhamento, já que naquela época eu trabalhava como empregada doméstica, ganhava pouco e temia acabar em um hospital psiquiátrico. Como conseguiria pagar por sessões de terapia?

Foi um começo muito desafiador, antes mesmo de receber o diagnóstico e iniciar o tratamento. Eu não tinha vontade de realizar nada, apenas desejava permanecer no escuro, em solidão, sem me comunicar com ninguém, tomada por uma tristeza no meu coração que nunca parecia desaparecer, com pensamentos negativos constantemente me assombrando naquela fase marcada pela depressão.

Não me dirigia mais ao trabalho, os pesadelos com minha mãe e meus irmãos não me davam trégua. Era uma situação terrível!

Isso ocorreu quando eu completava vinte anos, minha amizade sumiu e eu experimentava um desejo intenso de partir, pois todos aqueles que eu amava haviam me deixado.

Eu me perguntei se eu não estava sendo um fardo para Maitê... Até que sua irmã parou de aparecer para visitá-la, desde que ela me acolheu em sua casa, uma dor profunda tomou conta do meu ser, a melancolia não ia embora.

Apenas derramei lágrimas até me sentir melhor, agradeço a Deus, a Maitê e minha amiga Lara, sem elas, não sei o que seria de mim. Não estou em um relacionamento e só tive relações sexuais porque minha amiga ficava insistindo.

- Minha querida, está na hora de você encontrar um namorado. - Ela comentou.

Naquele período, eu estava interessada em um rapaz chamado Gustavo, uma pessoa bastante agradável que também sentia atração por mim.

Um dia ele me convidou para sair e eu aceitei, depois de um mês de namoro, decidimos ter relações íntimas. Continuamos namorando por mais um tempo, mas logo em seguida decidi terminar tudo. Já não queria mais um relacionamento sério, apenas buscava momentos de prazer quando tinha vontade. É assim que funciona entre nós: quando desejo realizar nossas fantasias e sei que ele está disponível, nos encontramos e nos divertimos juntos. Depois, cada um segue seu caminho, ele vai para casa dele e eu fico na minha. Essa amizade com benefícios é positiva para ambos.

Estou agora no meu local de trabalho refletindo sobre a vida, e como sempre, lembrando do meu amigo de infância, que deve estar agora um adulto. Ainda não abri a carta que ele me enviou, mas em breve irei ler. Não estou com pressa, prefiro mantê-la fechada, como uma lembrança de que um dia tive um grande amigo, o pequeno Kevin, que jamais esquecerei. Espero um dia revê-lo e sentir aquela sensação de proteção novamente, que só ele e mais algumas pessoas, como minha mãe Maitê e minha amiga Lara, me proporcionam. Com ele era algo especial, incapaz de explicar, apenas desfrutava de sua presença.

Ele expressava palavras tão encantadoras para mim, que fico admirada com a sua capacidade de aprender tantas coisas belas para me dizer ou será que ele criava? Acredito que não, pois ele era o rapaz mais perspicaz que já encontrei.

Sinto falta do meu companheiro, sinto um vazio no peito que parece nunca se preencher, tudo por conta da sua falta. Tenho a certeza de que um dia nos encontraremos novamente e poderei dizer o quanto o amo, mesmo que ele nunca tenha expressado esse sentimento por mim.

Será que a afeição que ele sentia por mim era real? A questão é que, atualmente, não sei se seria capaz de reconhecê-lo caso o encontrasse. Parece que a imagem dele foi apagada da minha memória e só consigo lembrar que ele tinha pele clara. O resto do seu rosto não consigo mais recordar, mesmo tendo doze anos quando nos conhecemos. É estranho como essa parte da minha mente bloqueou essa lembrança, pois diversas vezes tento recordar o semblante do meu amigo e não consigo visualizá-lo claramente. A única certeza que tenho é de que ele tratava muito bem de mim.

Ele deixava de lado todas suas responsabilidades para estar ao meu lado, me ensinou a gravar meu próprio nome. Tenho certeza que não era uma farsa da parte dele toda aquela preocupação comigo.

Admirava profundamente ele, mesmo com apenas doze anos de idade naquela época, porém meus sentimentos eram genuínos e continuam vivos até hoje. Kevin sempre terá um lugar especial em meu coração, independentemente de sua idade atual. Minhas memórias mais queridas são da época em que ele era apenas um garoto pequeno.

Por que razão todas as coisas precisam ser tão complicadas? Seria tão bom se ele resolvesse surgir, pelo menos aliviaria a melancolia que habita em meu coração. A simples visão de seu sorriso quando ainda era uma criança era capaz de me trazer imensa alegria. Recordo-me claramente de como ele sorria e conseguia também me fazer sorrir. Incrível!

Desejava muito recordar dele. Sofri de amnésia em relação ao meu amigo, nunca questionei ao médico se isso é comum, não lembrar de alguém de sua aparência.

Onde você se encontra, meu amigo?

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