No início, eu ficava entediada, eu gritava e tentava fugir... Eu tentava escapar, e tentava muito... Contudo, por algum motivo, sempre acabava voltando para esta casa. Talvez, este seja o poder da mestra.
Sim, esta casa tem um dono, ou melhor, uma dona. Porém, não fique tão ansioso, logo mais, ela estará aqui... Tenho certeza que ela já sabe que você está comigo. Quando ela começar a brincar, você se arrependerá de ter vindo, mas já será tarde.
Você deve estar se perguntando que chiqueiro imundo é esse?
Assim que cheguei aqui, eu ficava me perguntando sempre isso... Agora, tanto faz.
Você deve estar se perguntando onde estamos. Aqui, é lugar nenhum! Você pensou no desenho do Coragem, o cão covarde, confesse? Pensando bem, a casa branca de estilo caipira no meio deste deserto lembra bastante. Embora, ainda ache aquele milharal coisa de filme de terror...
A propósito, nunca entre no milharal. Se entrar, não diga que não lhe avisei.
Quando digo lugar nenhum, não estou dizendo que estamos longe, estou falando que não estamos em nenhum lugar e em nenhuma das dimensões...
Existem portais em torno da casa ou buracos de minhoca, como você quiser chamar, afinal... E, é assim que todos nós chegamos aqui, inclusive você.
Por algum motivo desconhecido, estamos entre os mundos e algumas pessoas são atraídas para cá, como insetos são atraídos pela luz... Não sei se é alguma coisa com a energia, estilo de vida, algum sentimento ou pensamento na hora que se está perto de um desses vórtex. O que sei é que, uma vez estando aqui, você nunca mais consegue sair... Não interessa o que você faça.
A mestra? Ah sim, a dona da casa... Não sei ao certo se ela foi atraída para cá como nós, ela me parece ser uma humana. Eu passei muito tempo sem entender o que havia acontecido comigo, até que percebi o que ela tinha feito, foi só então que me toquei... Seja lá o que aquilo for, não existe nenhuma criatura como ela.
Talvez, a existência dela nesse local signifique aquela máxima de que todo o castelo tem uma princesa, pode ser que ela seja o local ou até mesmo que ela o tenha criado. Talvez, estejamos aqui presos com ela, para que ela não fique entediada ou talvez, alguma força superior esteja nos punindo ou até mesmo que nós sejamos a punição dela.
Seus olhos de plástico, não demonstravam a quão pensativa estava olhando para fora da varanda da casa de madeira branca, pro chão de saibro vermelho, para o fim de tarde com seus tons de rosa e vermelho. O extenso milharal, todo banhado por uma luz vermelha, balançava suavemente com a brisa morna e o espantalho solitário, continuava sendo ignorado pelos pássaros que gorjeiam longe.
Para aqueles que moravam na casa, sempre que olhavam para porta, podiam ver, claramente, as grandes espirais negras que traziam as criaturas de outras dimensões até aquele local. Para os moradores daquela casa, nada mais era, do que buracos negros de onde às vezes surgiam pessoas, animais ou alguma outra distração momentânea, que terminaria quando a mestra percebesse.
Não era permitido a ela que saísse de dentro da casa, o limite que podia ir era até a soleira da porta de entrada. Observando, não viu sua mestra do lado de fora e uma esperança aqueceu seu coração. Talvez, ela tivesse partido, desaparecido ou, com muita sorte, morrido.
Esse sútil alívio se tornou uma esperança no desejo de jamais ver aquela criatura novamente, mas o som de um par de coturnos, pisando no chão preguiçosamente, chamou a sua atenção. Levantou a cabeça para poder olhar e lá, parada a seu lado, o rosto sardento sorriu, dizendo:
- Achei você!
As mãos pequenas e sujas a pegou pela cintura e a colocou encostada em seu ombro, enquanto se afastavam da porta. Ela estende as mãos e os frágeis braços, implorando o mais alto que seu corpo permitia:
- Socorro!
Estava anoitecendo na cidade e Laura observou o entardecer pela janela de seu caro escritório, em um dos metros quadrados mais nobres daquela cidade litorânea. De onde estava, ela podia ver a praia e as pessoas passeando e se exercitando no calçadão. Olhou atentamente para o mar calmo, sem ondas e sentiu uma vontade enorme de sair aquela noite para dar uma volta pela orla, sorriu enquanto pensava nisso.
Pegou as chaves do carro e a bolsa, saiu da sala, trancando a porta atrás de si, passou pela sua secretária, que estava sentada atrás da mesa e ao ver sua chefe sair, lhe chamou:
- Senhora Laura, a administração do residencial onde sua mãe está, ligou...
- Resolva com eles.
- Disseram que era importante falar com a senhora...
- Não me importo, Eva. Resolva você.
Nem por um segundo parou de andar enquanto a secretária lhe seguia, quase correndo, para tentar dar-lhe o recado sobre sua mãe. Laura nem sequer olhou no rosto dela, apenas andou até o elevador, torcendo para que Eva a deixasse em paz. Parou na porta do elevador, olhou rapidamente para o rosto da secretaria e questionou com tom rude:
- Quer mais alguma coisa?
- Não, perdoe-me, senhora Laura, mas não seria melhor entrar em contato com eles, pode ter acontecido algo com sua mãe...
- Faça isso. Você trabalha para mim, para que eu não tenha que pensar nisso. Então, resolva.
O som do elevador chegando no andar e abrindo a porta fez Laura se mover e entrar rapidamente, deixando a secretária perplexa observando-a descer. Dentro do elevador, Laura olhou para o lado de fora do panorâmico e sorriu pensando em Anaís e no que ela estaria fazendo agora. Esse era o único assunto que lhe interessava desde que a conheceu.
Sua nova paixão, ou como todos diziam, sua nova namorada troféu, tinha o cabelo cacheado e avermelhado, os olhos esverdeados e a beleza clássica e delicada. Anaís era uma ninfa, faltava-lhe refinamento, com certeza, mas com o auxílio do experiente e qualificado tutor Seth, logo sua aparência seria condizente com seus modos. Afinal, a garota era muito esforçada e Laura adorava isso.
Pegou o celular e viu várias mensagens do residencial para idosos que havia colocado sua mãe quando os médicos lhe falaram que, os frequentes esquecimentos dela e as histórias mirabolantes sobre estar sendo visitada por uma criatura demoníaca que aparecia no espelho, eram parte dos sintomas de um tumor em seu cérebro, grande demais para ser extirpado com uma cirurgia. Quando o médico informou que a idosa podia ficar vegetativa antes de falecer, Laura decidiu interná-la no que o irmão considerou ser "um depósito de velhos". Tudo que ela queria saber sobre a mãe era o quanto essa lhe deixaria de herança, já que o irmão havia sido deserdado ainda quando o pai era vivo e a mãe possuía um patrimônio considerável.
A única prioridade que tinha em relação à mãe era o dinheiro que ela lhe deixaria, passou a mão no telefone e ligou para Anaís. Laura queria ouvir aquela voz delicada e aguardou enquanto o telefone tocava algumas vezes, até que ouviu do outro lado:
- Oi, gostosa!
Laura riu igual uma criança que havia ganhado o presente que desejava no natal. Desceu do elevador indo na direção do carro e questionou:
- O que está fazendo? Vamos dar uma volta agora à noite?
- Estou terminando de ler alguns trabalhos bem interessantes, mas agora à noite? Eu tenho planos...
- Esses planos me incluem?
- Na verdade, não... Eu tenho duas reuniões com clientes em potencial...
- Ah, seus autores! Que horas ficará livre?
Diz Laura revirando os olhos.
Desde que Anaís descobriu o mercado editorial e o mundo de agenciamento e gerenciamento de autores, ela tinha cada vez menos tempo. Pensou: "Maldito Seth, o que está ensinando para o meu trofeuzinho..."
Ouviu a dizer com tom pensativo na voz, obviamente ela estava sorrindo:
- Lá pelas vinte e uma se tudo der certo, aí sim, serei toda sua.
- Ótimo! Passo na sua casa, até mais tarde!
Laura desligou o telefone, estava entrando no seu carro quando ouviu:
- Ei, você...
Foi tudo o que ela ouviu antes de sentir o golpe forte em seu rosto seguido do impacto de seu corpo contra o chão.
A jovem, de olhos esverdeados, largou o celular na mesa baixa que estava na sua frente, apertou os olhos pensativa, olhando para o relógio, sorriu pensando:
"Time perfeito!"
Seth saiu do quarto abotoando a camisa no peito e viu o sorriso enigmático no rosto dela, não parecia estar lendo nada na tela do computador portátil, mas sim, estar pensando em algo. Ele se jogou no sofá próximo de onde ela estava sentada e chamou:
- Aniridiazis?!
Ela o olhou mortalmente, o tom aveludado que ela se forçava para manter na voz desapareceu, ela rosnou:
- Nunca mais me chame assim... Anaís, esse é meu nome e você sabe muito bem disso!
- Por que está se esforçando tanto para se tornar esta personagem que criou, afinal? Eu gosto de Aniridiazis.
- Só você gostava dela, querido.
Respondeu ela, forçando um sotaque francês, um pouco pedante demais para os ouvidos de Seth. Ele suspirou frustrado e questionou:
- Ainda vai estudar um pouco mais antes de suas reuniões de hoje?
- Claro, preciso ser convincente ou essas autoras não me darão nem a chance de negociar com elas.
Seth franziu os olhos, passando a mão nos longos dreadlocks vermelhos ajeitando os num rabo de cavalo, suspirou frustrado:
- Por que insiste tanto nisso? Por que se dá tanto trabalho para aparentar ser outra pessoa?
Ela ergueu uma das sobrancelhas e sorriu ardilosa, dizendo:
- Eu gosto desse trabalho, é charmoso... Aparentar ser o que não sou? Seth, ainda mostrarei para você que eu sou exatamente o que desejo.
- Você não precisa me provar nada...
- Eu sei disso, mas eu preciso provar para mim mesma que posso ser a mulher que imagino. Está na hora de você ir, não quero que Laura te encontre aqui e não quero que me atrapalhe em minhas reuniões...
Ele balança a cabeça frustrado, não entendia o porquê Anaís se esforçava tanto para fugir de suas origens. Ambos eram órfãos e tiveram uma vida difícil, mas sempre conseguiram se virar, principalmente por causa dela e de sua capacidade de adaptação de usar qualquer meio para apreender o que pudesse lhe servir para melhorar suas vidas. Havia passado muito tempo trabalhando em uma empresa de marketing onde aprendeu muita coisa e fez muitos contatos interessantes. Nada tirava da cabeça de Seth que o atual interesse dela em autores, agenciamento e assessorar suas carreiras se devia a alguma informação importante que ela obteve de alguém. Enquanto se dirigia à saída do apartamento, uma série de questões lhe surgiam na cabeça, inclusive o motivo que a levou a ter aquele relacionamento com Laura. Para ele não fazia sentido o interesse dela por aquela mulher, tudo que ela lhe dizia quando questionada era: "Laura é importante para mim."
Cada vez menos, aquela afirmação fazia sentido para ele. A impressão era que Anaís passava a maior parte do tempo tentando evitá-la, então por que ela alegava que Laura tinha importância?
Assim que abriu a porta para sair, ouviu:
- Te ligo antes de dormir, amor.
- Vou esperar, boneca, te amo.
Anaís olhou sobre o ombro, percebendo que estava sozinha, passou a mão no telefone, discando rapidamente e o perguntou:
- Oi amiga, teve notícias dela?