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Casa di Giulietta

Casa di Giulietta

Autor:: Ana Beatriz Henrique
Gênero: Romance
Uma escritora romancista com bloqueio criativo se desespera e decide sair de sua cidade e embarcar em um avião em busca de inspiração para seu novo livro. O que a viciada em trabalho não esperava era viver seu próprio romance. Helena vai para Verona, cidade de Romeu e Julieta, onde conhece Giovanni de Luca, ou melhor, o grande amor de sua vida.

Capítulo 1 A realização de um sonho

- Helena, você não acha loucura da sua parte viajar para escrever um novo livro? - Mariane, minha melhor amiga, anda de um lado para o outro pelo meu quarto enquanto eu me preocupo unicamente em guardar poucas peças de roupas dentro da única mala que levarei para minha viagem.

- Loucura é eu ficar sem fazer nada diante desse bloqueio criativo. Nanny, esse é o pior bloqueio que eu já tive! Nunca fiquei mais de três meses sem escrever nada... - Mordo meus lábios nervosa e me sento sobre a mala já cheia. - Eu preciso respirar novos ares e buscar por alguma inspiração, algo que me destrave, entende?

- Geralmente, dar um tempo é o suficiente. - Minha amiga caminha até mim e senta do meu lado me abraçando.

Sei que ela está preocupada assim como todos da minha família. Não disse nada sobre meu destino para ninguém, sinto que essa viagem precisa ser algo só meu, sinto que ela pode ser a chave para o melhor livro de romance que já escrevi. Portanto, prefiro que cada detalhe dessa viagem seja inédito.

-Não vai mesmo me dizer para onde vai? - Com sua cabeça deitada no meu ombro, Mariane tenta mais uma vez arrancar de mim a informação que todos querem.

- Não vou contar para ninguém. - Digo pela... Milésima vez? - É uma coisa que eu preciso viver comigo mesma antes de mostrar para todos através da minha escrita. - Me ajuda a fechar, vai! - Me ajoelho sobre a mala e aguardo Mariane fechar o zíper da mesma.

- Vai levar só uma mala mesmo? - Pergunta ao estranhar minha única mala de tamanho médio.

- E minha mala de mão. - Estendo a mala de mão com meu computador para que ela veja. - É mais que o necessário. - Dou de ombros sobre seu olhar julgador.

- Helena, seja verdadeira e me responde uma coisa... - Mariane me olha maliciosamente e sorri - Você não arranjou um namoro virtual e está indo conhecer o cara não, né?!

É impossível não rir diante da desconfiança absurda da minha melhor amiga. Mariane sabe, melhor do que ninguém, o como tenho dificuldade de me relacionar com pessoas, quem dirá namorar.

- Somos amigas tempo o suficiente para você saber que eu sou ótima ao escrever romances e terrível vivendo-os.

- Isso me preocupa. - Diz ao colocar minha mala no chão. - Depois do...

- Não fala o nome dele. - Um arrepio toma minha espinha quando percebo de quem Mariane quer falar.

Pode passar cinco, dez, quinze, vinte anos... Ethan nunca será um assunto fácil para mim.

- Ele gostaria de te ver feliz. - Toca meu ombro e acaricia ao local com seus dedos.

- Estou feliz. - Sou curta e grossa. - Toma - Estendo a chave do meu apartamento para Mariane que pega depois de revirar os olhos para mim. - O carro que vai me buscar chegou. - Me apresso a abraçá-la depois que percebo a notificação no visor do meu celular. - Não se preocupe comigo. Manterei contato e voltarei em breve.

- Nem vai me deixar te levar até o aeroporto, Lena?

- Nops. - Sorrio e separo o abraço encarando-a - É algo só meu, Nanny... - Saio do meu quarto com minhas malas e Mariane atrás de mim. - Até breve, amiga! - Digo assim que abro a porta do apartamento e atravesso-a sem me dar a oportunidade de ouvir Nanny responder-me.

Fecho a porta do meu apartamento e apresso-me a pegar o elevador. Para minha alegria, o elevador não demora a atender o meu chamado e logo abre as portas para mim. Em pouquíssimos minutos eu já estou dentro do carro cumprimentando o motorista de aplicativo de meia idade que descubro se chamar Francisco. Chico, como pediu que eu o chamasse, me trouxe, entre risadas e um papo bem descontraído, até o aeroporto internacional onde tive que me despedir dele.

Com o passaporte em mãos, na sala de embarque, olhando pela imensa janela transparente aviões decolarem, um sorriso se instala em meu rosto. É um novo início para mim.

O maior desespero para um escritor é precisar entregar um livro e vivenciar o bloqueio criativo. Estou há meses no olho do furacão do pior bloqueio que já tive. Já rascunhei incontáveis enredos que não foram para frente. Já chorei, me desesperei, enfrentei crises de ansiedade. Porém, finalmente consegui enxergar uma luz no fim do túnel. Para sair desse terrível poço, preciso me libertar, preciso me permitir explorar novas táticas e viajar será uma delas.

Uma voz alta se faz ouvir. Ela não chama meu nome. Ao invés disso, ela chama pelo nome do meu destino e o número do meu voo. Meu estômago quase salta pela minha boca e põe para fora todo o milkshake que tomei durante a tortuosa espera. Com as pernas trêmulas, me levanto e caminho até o portão de embarque. O caminho não é muito longo até eu estar sentada em minha poltrona admirando a linda manhã de céu azul no Rio de Janeiro. Aquele sorriso largo? Ele ainda está bem aparente enfeitando meu rosto. É impossível não sorrir.

Daqui a poucas horas eu estarei pisando na cidade que foi inspiração para o grande Shakespeare romancista. Um frio na barriga me assombra ao cair a ficha de que eu realmente estou fazendo valer a ideia maluca que tive antes de dormir há uma semana atrás. Como eu cheguei aqui eu não sei, no entanto, tenho plena certeza que estou no caminho certo. Às vezes é necessário sair do casulo, ter novas perspectivas, explorar novas táticas, para se chegar no destino almejado. Eu estava saturada demais para escrever algo bom. Eu precisava me libertar e foi isso que fiz.

Mas não é uma viagem qualquer.

Como uma romancista e eterna admiradora de Shakespeare, me permitirei viajar até a cidade de um dos casais mais famosos dos romances. Verona sempre foi uma cidade que me chamou atenção e que me seduziu. Espero que tal cidade me proporcione inspiração suficiente para escrever um novo romance. Verona sempre foi um sonho meu. Depositei na realização desse sonho, todas as minhas esperanças para conseguir superar-me e entregar no meu novo livro, o melhor de mim.

Capítulo 2 Giovanni de Luca

Milão foi minha primeira parada. Diferente de muitos turistas que deixaram o voo comigo, não me prendi à metrópole italiana e apressei-me a procurar a estação de trem mais próxima para prosseguir. Enquanto as pessoas buscam pelos ares fashionistas, eu só quero aspirar o ar romancista que, só de fechar os olhos e pensar, Verona me permite sentir.

De trem e com minhas poucas malas, mais 155 km são percorridos. Já no próprio trem, preocupo-me em avisar a todos sobre minha chegada com apenas uma simples mensagem no meu próprio status do whatsapp.

''Estou bem, não se preocupem! Estou me desconectando das distrações para conectar-me comigo mesma. Em breve terão notícias de mim. Amo todos vocês!''

A objetividade foi bem clara em minha curta mensagem. Para muitos, posso até ter soado grossa demais, contudo, a mensagem foi necessária. Eu precisava disso. Sem celular, sem distrações, uma bolsa, meu notebook e óculos de sol. Além disso, tudo o que eu mais preciso é de alguns dias de passeios pela cidade sem distrações que me façam perder o foco de observar tudo e sentir-me inspirada o suficiente para digitar até que meus dedos caiam sobre o meu teclado.

Minha primeira parada? O meu foco principal aqui de Verona. A tão famosa casa de Julieta.

...

Um sorriso persiste em vestir meu rosto resplandecente de alegria por estar a caminhar pelas ruas de Verona. O céu já está alaranjado com o pôr do sol e minhas pernas não se cansam de caminhar por mais que tenham trabalhado pelo dia inteiro. Conheci todos os pontos turísticos que planejei conhecer. Por fim, agora repouso no pátio da casa de Julieta com meu computador aberto à minha frente esperando que uma onda de inspiração me cubra e eu comece a digitar alguma coisa que preste para o meu livro.

O sorriso presente no meu rosto começa a ser desfeito quando eu me frustro com a falta de palavras. Há tanto em minha mente, no entanto, as palavras não saem dela. Nada parece ser o bom o suficiente. Ao mesmo tempo que ideias borbulham, quando as digito, parecem vãs.

Ao bufar, fecho com força meu notebook e debruço sobre ele. Já sinto meus olhos ficarem úmidos, a ponta do meu nariz arde e minha garganta se comprimi com a pressão do choro que se forma em meu estômago. Por mais que eu tenha tentado, o bloqueio não se foi. É como se todas as horas de viagem, toda a minha renúncia de uma vida normal não fossem o suficiente para o êxito no trabalho.

- Ragazza? - Uma mão toca meu ombro e uma voz se faz ouvir perto de mim.

Para completar, eu não falo italiano. Levanto meu rosto a fim de não ser mal educada com o moço e enxugo minhas lágrimas rapidamente antes de encará-lo para repetir a única frase em italiano que aprendi há poucas horas através do tradutor.

- Mi dispiace, non parlo italiano. Sono brasiliana. - As palavras italianas saem por minha boca antes de eu ficar paralisada ao olhar para um certo par de olhos verdes como esmeraldas ao sol.

- Para sua sorte, sono brasiliano anche. - Os lábios rosados naturais abrem-se em sorriso para mim. - Tudo bem?

- Sim sim. - Respondo-o levemente atordoada pela sua beleza.

- Me chamo Giovanni. Giovanni de Luca. - O alto homem de pele clara e cabelos medianos estende sua grande mão em minha direção.

Para cumprimentá-lo e terminar com o grande contraste de alturas entre nós, me coloco de pé e aperto sua mão.

- Helena Viana. - Cumprimento-o e sou surpreendida quando minha mão é levada aos lábios do homem que permanece a me encarar com suas esmeraldas que brilham sem parar.

Deus, deveria ser crime ter olhos tão belos!

- Você está bem, Helena? Eu juro que, de longe, pensei te ver chorar.

- Estou bem. - Abro um pequeno sorriso e puxo minha mão fugindo do seu toque com o máximo de delicadeza que consigo. - Obrigada por se preocupar, mas eu já estava de saída.

Viro as costas para o homem e guardo meu notebook rapidamente na minha bolsa para fugir dele.

- Desculpe-me. Eu fui rude? Invasivo? Eu só... - Tomado por um nervosismo que faz sua voz estremecer, o homem começa a especular toda minha pressa repentina para fugir da presença dele.

Não o culpo. Eu não fui nada discreta.

- Eu te vi... Você não chorava como as outras. Não parecia ter um coração partido. - Permanece a continuar se explicando. - Eu só me preocupei. Desculpe-me.

Quando me viro novamente para encará-lo e dar-lhe uma boa resposta, ao ver suas costas e não me deparar com seu rosto, calo-me e o deixo partir.

Ele não precisa saber dos meus problemas. Eu não preciso que sintam pena de mim.

Não desisto da ideia de partir. Por hoje já chega de frustrações. Coloco minha bolsa sobre meu ombro e começo minha caminhada até o hotel no qual me hospedei. Com a mente borbulhando em pensamentos, desvio meu corpo dos corpos de outros turistas que passeiam pelo local. Grande parte dos turistas são mulheres e é esse fato que me leva de volta há alguns minutos atrás...

''Você não chorava como as outras.''

Passei boa parte do dia sentada na rua onde várias pessoas ficam para escrever cartas para Julieta. Vi muitas mulheres sentadas escrevendo cartas para as secretárias de Julieta e, infelizmente, as vi chorar. Bom, Giovanni tem razão. Não sou como elas. Sofrer por amor está bem longe da minha realidade. O amor em si está bem longe da minha realidade. Aliás, acredito que existem dois tipos de pessoas, apenas dois. As que nasceram para viver o amor e as que nasceram para escrever sobre ele. No meu caso, escrevo.

Capítulo 3 O guia de turismo

- Oi! - Digo assim que entro no estabelecimento onde julgo que Giovanni trabalha e o encaro a ler um livro.

- Olá! - Fecha o livro e sorri gentilmente mesmo que não esteja parecendo entender muito minha presença inusitada.

- Estou te assustando? - Logo pergunto.

Sim, eu tenho noção do quão estranho agi ontem. Enquanto ele só quis ser educado, eu fui o oposto.

- Assustando não, surpreendendo. - Sorri deixando suas covinhas aparecerem e guarda seu pequeno livro dentro de uma gaveta do balcão antes de caminhar para mais perto de mim. - O que traz a senhorita até meu humilde estabelecimento?

Giovanni é muito bonito. Alto, pele clara, no entanto, possui um bronze natural, seus cabelos curtos e lisos são de um dourado angelical que combina perfeitamente com seus olhos verde-esmeralda e seus dentes perfeitamente alinhados em um sorriso perolado. Agora sei porque não dormi direito. Imagina um homem desse pensando no quão mal educada eu sou.

- Eu acho que te devo desculpas... - Mordo meu lábio inferior nervosa pelo sorriso de lado que Giovanni me lança.

- Por que pensa assim? - Ele pergunta ao se debruçar sobre o balcão do antiquário.

Seus olhos encaram os meus ao ponto de eu não conseguir piscar enquanto raciocino uma resposta para ele. Giovanni é como um personagem milimetricamente projetado para um livro.

- Porque enquanto você tentou ser gentil com uma estranha, eu fui um tanto rude ao me desvencilhar de sua ajuda. - Explico.

- Porque as mulheres de hoje em dia não são acostumadas com caras educados e, quando se deparam com um, logo pensam que estão sendo cortejadas. - Ele dá de ombros ao me retrucar.

- Talvez... - Meio que concordo. - Caras como você não são tão comuns no país que venho.

- Eu só me preocupei. - Giovanni se explica e eu acabo me sentando sobre uma banqueta que tem no balcão do antiquário. - Você ficou boa parte do seu dia por aqui e terminou ele chorando... Foi triste de se ver.

- Parte do meu trabalho. - Explico.

- As pessoas geralmente vêm aqui pelo oposto. Talvez devesse fazer isso... Relaxar pode ser bom.

A porta do estabelecimento é aberta. Sei disso, pois um singelo som de sino se faz ouvir e o olhar de Giovanni se direciona até três senhoras que acabaram de entrar no estabelecimento. Acho que essa é a minha deixa.

- Bom, agora que eu já me desculpei, acho que já posso ir em paz. - Sorrio e desço da banqueta.

- Fica mais um pouco. Quero saber mais sobre o que traz uma mulher à Verona para trabalhar e chorar enquanto tenta. - Giovanni pisca para mim.

Isso é o bastante para eu querer fugir de sua presença novamente. Ele é tão lindo e, suas palavras me permitem me sentir tão à vontade que, por segundos eu me lembro de Ethan e de onde eu fui parar por me permitir relaxar e viver o momento.

Como uma criança, eu o obedeço. Giovanni se vai para atender as três senhoras. Seu sotaque Italiano é impecável, sua voz rouca foi perfeitamente produzida para combinar com sua nacionalidade e o seu carisma... Se eu pudesse ler o pensamento das mulheres, diria que elas só vieram aqui para vê-lo.

- Já te disseram que é feio encarar as pessoas por muito tempo? - A voz de Giovanni se faz ouvir perto de mim mais uma vez e, só então, eu percebo que estamos a sós novamente.

- Seduzir faz parte do seu trabalho aqui? - Pergunto com certo humor na voz. - Sabe, não digo por mim, mas aquelas senhoras... Vi uma delas olhar a sua bunda enquanto você se virava para pegar um broche.

- É o fardo que carrego por ter escolhido dar continuidade ao negócio da família. - O homem leva as mãos ao alto antes de soltar uma risada e voltar a se debruçar à minha frente. - Foi isso que te trouxe aqui?

- Óbvio que não! - Exclamo. - Eu só me senti mal por ter sido mal educada e quando eu cheguei ao ponto do nosso encontro, te vi me olhando novamente e decidi vir me desculpar.

- Está sem computador hoje. Desistiu de trabalhar?

- Meu orientador costumava me falar que se estamos com bloqueio, às vezes é bom se distanciar um pouco da escrita.

- E está sendo bom?

- Agoniante, para dizer a verdade. - Rio sem humor. - Estou começando a pensar que a viagem foi um passo gigante que dei e acabei caindo em um buraco negro.

- Para uma romancista, você é bem pessimista. - Giovanni faz uma careta para mim.

- Como sabe que sou romancista?

- Escritores de terror não procuram Verona. - Me responde como se isso fosse o óbvio. - E eu concordo com o seu orientador. Você está tão focada em escrever que acaba esquecendo de viver e isso está sendo fatal.

- É o meu trabalho, Giovanni.

- O problema é que pra você, neste momento, procurar loucamente por uma inspiração não vai te levar a lugar algum. Poxa, vive um pouco!

- Para um vendedor de Antiquário, você seria um ótimo terapeuta. - Estendo a mão para Giovanni que sorri mais uma vez antes me retribuir o gesto.

- Estou ao seu dispor, Senhorita. - Beija minha mão novamente. - Bom, e digo que posso te ajudar. O que acha de colocar essa ideia em prática?

- Como assim?

- Você tem um guia de turismo por aqui em Verona?

- Não. Porque inicialmente eu queria apenas explorar a casa da bonita da Julieta e escrever sobre alguma coisa do tipo, sabe?

- Prazer... - Giovanni estende novamente sua mão para mim me fazendo encará-lo sem compreender nada.

- Você está doido? - Franzo meu cenho ao encará-lo tomada pela confusão.

- Eu serei seu guia de turismo.

- Giovanni, não sei se deu para você me entender, mas eu quero dizer e deixar bem claro que eu preciso muito escrever.

- Você precisa é parar de dar murros em pontas de facas. Para de buscar inspiração e se permite viver um pouco! Há quanto tempo você se pune ao invés de se compreender e dar o que você precisa?

Diante de tamanha teimosia, me rendo à voz da razão. Mesmo sem me conhecer, Giovanni acerta em cheio boa parte da minha vida. É tanto tempo que eu cumpro com os meus deveres, que acabei me esquecendo das minhas próprias necessidades. Talvez tudo o que eu precise seja viver um pouco e me desligar.

- Pode ser que a inspiração venha como um estalo quando você parar de se preocupar em achá-la.

Bom, assim eu espero.

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