Aleksander Petrov
Uma porta branca, se abre e atravessa a minha consciência nebulosa, seguida pela sensação de cair em câmera lenta. Vozes desconhecidas sussurram em algum lugar distante, gradualmente se tornando mais
altas, tão altas que se tornam ensurdecedoras, que quebram a minha mente como um vidro frágil, tudo se torna um borrão, um misto de sensações e vozes gritantes, tento calar a minha mente, me concentrar em uma única sensação, forço a minha mente, até que tudo que posso ouvir são gritos apressados.
-Querido Deus! Você está bem?- Escuto um suspiro suave à minha esquerda, parece a voz de anjo.
Eu tento abrir meus olhos, mas falho. Levo algumas tentativas antes de conseguir abrir minhas pálpebras, mas tudo que posso ver
são formas borradas.
- Aaaah! Me ajuda! - sussurro com o pouco resquício de força que me resta, mas inesperadamente vem a dor. Parece que fui esfaqueado por mil facas, com lâminas alojadas em minha pele. A sensação aguda, abrasadora e que abrange todo o
corpo envolve tudo.
- Calma, você vai ficar bem, eu vou pedir ajuda - O anjo sussurra suavemente, passando sua pele sedosa em minha face.
Eu engasgo com a respiração e tento falar, mas a única coisa que sai é um suspiro ofegante dolorido. Tento abrir os meus olhos novamente, para enxergar o pequeno anjo, mas a única coisa que consigo ver é um pequeno borrão de como sua face verdadeiramente é, e o vazio se fecha novamente. Os sons desaparecem lentamente e eu me deixo flutuar para longe. A última coisa de que me lembro são frases cortadas que interrompem
minha consciência desvanecida até não sobrar nada. Só a dor.
- Irmãos, o Pakhan ¹ ainda está vivo! -uma das vozes grita.
- Jesus! pressione algo sob seu rosto, precisamos parar o sangramento - sinto uma dor aguda em meu rosto, mais forte que a anterior.
- Não tenho certeza se ele vai conseguir - a última coisa que escuto, antes de me entregar a escuridão por fim.
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1. Pakhan: Autoridade máxima, na máfia Rússia;
Isabella Constantine
Ser a irmã mais velha de uma família, não é uma tarefa fácil, principalmente ser a irmã mais velha da família Constantine. Ser treinada como o mais desprezível dos soldados, saber matar qualquer um que se aproximar de você, ter noção que o futuro de uma toda família, está em suas mãos, nunca foi fácil. Toda a minha infância, passei assim, enquanto minhas irmãs mais novas eram mimadas e paparicadas, eu treinava igual uma condenada, mas eu nunca as culpei, eu sempre quis que fossem felizes e estivessem bem. Eu não quero que elas passem pelo mesmo inferno que passei toda a minha infância, eu não quero que elas sejam tratadas iguais soldados sem coração.
Foi nisso que pensei, quando simplesmente concordei em me casar com o ser mais desprezível em toda a face da terra, para selar um acordo entre as máfias russa e italiana. Eu terei que me casar com Aleksander Petrov.
Estou tentando me convencer que vale a pena realmente o meu sacrifício, estou fazendo tudo isso para que minha irmã mais nova, não seja forçada a passar pelo inferno na terra, estando nas mãos de Aleksander Petrov.
- Bella! Meu Deus, você está simplesmente magnífica - Cássia, minha irmã mais nova diz entrando em meu quarto, seu rosto transparece satisfação e admiração.
No auge de seus quinze anos, Cássia exala beleza e jovialidade, ela tão linda e perfeita. Ela uma mistura entre o nosso pai e a nossa mãe, ela tem o cabelo preto do nosso pai e os olhos verdes cristalinos da nossa mãe. Minha segunda irmã Fiorella, é a cópia perfeita da nossa mãe, cabelo loiro, olhos verdes cristalinos e corpo escultural. Diferente das minhas irmãs, eu não me pareço nem um pouco com os nossos pais. Eu tenho um cabelo escuro igual ao do meu pai, mas os meus olhos são negros iguais a noite, sinceramente eu sou muito normal.
- Oh! Minha linda, você está parecendo uma princesa - elogio com o meu melhor sorriso, não quero que ela perceba o meu desânimo.
- Fiorella pediu para informar que os convidados estão chegando, você está pronta? - Cass interroga andando de um lado para o outro pelo quarto.
- Fale para ela que já estou descendo - retruco com calma para não transparecer o meu desânimo.
- Mamãe disse que você não quis nenhum dos vestidos escolhidos por ela - ela diz torcendo os lábios - Mas eu gostei desse, você está simplesmente magnífica, está parecendo uma deusa - elogia novamente, seus olhos brilham de admiração.
- Ela comprou um vestido vermelho, muito colado ao corpo, não gostei - informei e ela me olhou absorta, a verdade é que eu e minha mãe, não temos um relacionamento muito bom e eu nunca entendi o porquê - Papai disse que esse vestido é lindo, eu gosto dele - completei com um sorriso e minha irmã mais nova retribuiu.
Observo a minha imagem refletida no espelho, realmente estou magnífica. O meu vestido é da cor verde escuro, feito de cetim, colado ao corpo no peito e desce do busto para baixo, as costas totalmente nuas que me dão um ar sofisticado. Para acompanhar, escolhi uns saltos finos na cor preta, um batom nude e cabelos soltos.
- Você está ridículo, parece uma prostituta - Fiorella, minha segunda irmã, ela segue a mim e nunca gostou de mim.
Eu não entendo o porquê de ela e a minha mãe, transformarem a minha vida num inferno, eu fiz tudo por ela e Cássia, concordei em participar dos treinos dos soldados, concordei em me casar com o diabo na terra, por elas. Mas mesmo assim, minha irmã não gosta de mim.
- Por quê está fazendo isso Fiorella, eu fiz isso por você - retruquei magoada com a minha irmã, eu não entendo o porquê desse ódio gratuito.
- Ah! Por favor irmã, eu não preciso de seu favor - revira os olhos com desprezo.
Ela está simplesmente magnífica, parece um anjo de tão linda que está, seus olhos verdes cristalinos brilham em contraste com sua maquiagem, seu corpo curvilíneo se destaca em seu vestido colado, na cor vermelha. Ela parece um verdadeiro anjo.
- Eu só aceitei me casar com Aleksander Petrov, por sua causa, ele quer você, não a mim - retruco extremamente irritada e magoada. Me casarei com o próprio diabo na terra por ela, mas ela não está nem um pouco preocupada com a minha segurança nem com o meu bem.
- Dizem que o rosto dele foi destruído, ele parece um monstro e dizem que na cama, ninguém sobrevive - destila seu veneno com um sorriso de deboche, ela está adorando ver o meu sofrimento e o meu desespero.
Eu não darei o gosto de ela me ver amedrontada, nem assustada. Fiorella espera que eu chore e espernei, por causa do casamento com o diabo, mas ela está muito enganada. Eu sobrevivi ao treinamento dos soldados, um treinamento pesado e desumano. Não será um casamento forçado que vai me derrubar.
- Não se preocupe irmã, se eu sobreviver a noite de núpcias, enviarei uma mensagem para você - retruco com deboche e a deixo estagnada no centro do quarto.
Saio do quarto e Fiorella vem a minha atrás, ainda do corredor, consigo escutar vozes falando em russo. Assim que chegamos a sala, o ambiente todo está preenchido por homens altos, fortes e extremamente assustadores. Eles vestem ternos pretos e estão com cara de poucos amigos, eles são os seguranças. Existem outros convidados em outro canto da sala, eles conversam em russo, afinal é o que o meu futuro noivo é, um russo de merda. De todas as pessoas que estão presentes, só uma pessoa parece importante, uma mulher de idade, mas muito elegante, ela com certeza deve ser a mãe do meu futuro noivo.
- Espero que estejam todos a vontade - Ouço minha mãe falar num tom de voz doce e suave, ela parece uma pessoa simpática. Nunca ouvi minha mãe falar assim com outra pessoa, para além de minhas irmãs mais novas. Com certeza ensaiou antes de receber as visitas - Isabella já está vindo - completou assim que surgi no topo da escada.
- Estou bastante ansiosa por conhecer a minha futura nora - uma senhora extremamente elegante comenta, provavelmente é a mãe do meu futuro noivo.
- Boa noite senhores, sejam bem vindos, espero que estejam muito bem acomodados - cumprimento com toda a minha educação.
Fui muito bem educada, apesar de ter sido criada como um homem, também houve momento para educação de mulher da máfia, fui educada para ser uma boa esposa, como cuidar de um homem da máfia, como agradar um homem e como cuidar do lar.
- Obrigada minha querida, você é muito linda - minha futura sofra elogia com um sorriso sincero.
Apesar da idade, ela é uma mulher extremamente linda, olhos azuis claros intensos, uma cabeleira morena, lábios cor de rosa igual as flores de cerejeira, muito bonita. Espero que o meu futuro marido seja assim, a verdade é que eu nunca vi o meu noivo, só sei seu nome e de sua crueldade para com seus inimigos. As histórias sobre Aleksander Petrov, são tenebrosas, ninguém escapa a sua ira. Por esse e mais motivos que, eu fui sacrificada no lugar de minha irmã Fiorella.
- Obrigada senhora - agradeço timidamente e olho para os meus dedos envergonhada. Não gosto de ser o centro das atenções, não gosto de estar na mira das pessoas, eu prefiro ficar no meu cantinho sem provocar a ninguém, sem ser notada.
- Senhora está no céu, me chame de Ivana, seremos família em breve - comenta sorrindo e isso faz com que eu sorria também.
Talvez a minha vida não seja um verdadeiro inferno na casa Petrov, se minha sogra for uma pessoa tão amável como aparenta ser, talvez tudo corra bem.
- Vamos nos sentar, o jantar será servido em breve - minha mãe informa educadamente.
Somos todos guiados a mesa de jantar, mas em nenhum momento, eu vejo meu futuro noivo se juntar a nós, só está a minha sogra e os seguranças e mais ninguém.
- E Onde está Aleksander? - meu pai interroga assim que nos sentamos a mesa. Minha sogra sorri sem graça, mas todos nós sabemos a resposta, ele não virá ao jantar de noivado, ele sente nojo de mim e eu dele.
Quando o enlace matrimonial foi feito, Aleksander Petrov foi muito claro em seu pedido, ele queria minha irmã Fiorella para selar o acordo de paz. Todos ficaram surpresos com seu pedido, menos eu. Fiorella é muito linda, educada excepcionalmente para ser uma mulher da máfia, tem mãos delicadas e tem uma voz de anjo, ela é o que muitos chamariam de anjo. Ela é uma exímia bailarina, quando ela dança, parece que está flutuando no ar, não existe coisa igual. O Petrov se apaixonou por ela a primeira vista, ele a viu se apresentar no lago dos cisnes de Paris, logo de cara ele propôs um acordo de paz, caso meu pai concedesse a mão da minha irmã. Tudo estava certo, inclusive, meu pai concordou com o casamento, mas minha irmã e mãe não concordaram com ideia, de dar a mão da princesinha da máfia italiana, para um Russo desgraçado, ao invés disso, elas sacrificaram o cordeiro da máfia, o que sempre está sendo sacrificado, isso mesmo, eu.
- Ah! Ele não está muito bem, as dores no rosto pioram no inverno - minha sogra tenta justificar a ausência dele, mas está totalmente desconfortável com as interrogações do meu pai.
- Oh! Ele vai ficar bem? Ele viu um médico? - questiono realmente preocupada, só porque ele é o diabo, isso não siginifica que não merece compaixão. Não nego que uma parte minha, está feliz em ouvir que ele está doente, mas ele ainda é um ser humano.
- Sim minha querida, ele viu um médico, obrigada pela preocupação - minha sogra retrucou sem graça e o jantar continuou sem problemas.
Para impedir o casamento entre Aleksander Petrov e minha irmã Fiorella, minha mãe e minha irmã, forjaram os exames de fertilidade dela, fizeram com que todos nós, pensássemos que ela é incapaz de gerar vida. Quando o Petrov recebeu a notícia, da até então infertilidade da minha irmã, ele quis continuar com o enlace matrimonial, mas a família Petrov não viu com bons olhos essa decisão, no final das contas propuseram um novo enlace e eu fui a escolhida, o cordeiro sacrificado, a maluco que casará com o diabo, um homem tão cruel que até o próprio diabo ele derrotou.
- Sinto muito pela ausência do meu filho, mas eu prometo que amanhã ele estará aqui para levá-la num jantar - minha sogra se desculpa sem graça.
Ela é uma mulher educada que, sente necessidade de justificar as burradas do filho que já é um adulto.
- Não se preocupe Ivana, eu entendo perfeitamente - falo simples para não deixá-la mais constrangida ainda.
No final de tudo, Ivana me entregou um anel cravejado de safiras azuis e diamantes e foi-se embora. Está na cara de todos, que ele não me quer, só concordou com o casamento porque é importante para um capo, ter uma esposa fértil, caso não, ele estaria aqui hoje feliz da vida, colocando este anel no dedo da minha irmã Fiorella.
- Viu só irmãzinha, ninguém quer você, nem mesmo um rato de esgoto russo - Fiorella destila seu veneno quando ficamos só entre familiares.
Meu pai me dá um olhar de pena e sorri nervoso. Todos já devem estar comentando por aí, se não estão, Fiorella fará a gentileza de espalhar para todos os quatro cantos do mundo, como meu noivo russo, não quis nem mesmo colocar o anel no meu dedo, porque a mulher que ele quer, não sou eu, mas sim, minha irmã.
- Fiorella pará com isso, não vê que sua irmã está sofrendo? Ela está se sacrificando por você! - meu pai berra batendo com a mão na mesa.
- Está tudo bem pai, não foi nada, se não se importam eu vou me deitar - me retirei da mesa sem esperar pela concessão do meu pai, estou tão cansada e esgotada que a única coisa que quero no momento, é dormir e esquecer o que está acontecendo comigo.
Eu vou selar o meu destino do lado do próprio diabo, para piorar a minha situação, ele quer a minha irmã mais nova. Se o diabo é cruel que qualquer pessoa, até mesmo pessoas de seu próprio sangue, como será que ele vai me tratar? Sabendo que ele não me ama, sabendo que ele nem sequer me deseja ou quer.
Aleksander Petrov
Meus sapatos ecoam no salão vazio do Paris Opera Theatre, misturando-se com as notas de abertura fracas do Lago dos Cisnes que vêm do corredor à esquerda. Com o balé já começando, a entrada está desocupada. Eu aceno para o segurança, então me viro e sigo o longo corredor em direção às portas duplas de madeira na
extremidade, onde um pôster pendurado na parede atrai minha
atenção. Mudaram a foto. A anterior mostrava toda a trupe no meio do
salto do grupo, tirada de longe para que todo o palco ficasse visível, mas a nova mostra apenas uma bailarina, a cena ampliada antes da imagem. Sem pensar em nada, minha mão sobe e traça o
contorno de seu rosto, suas maçãs do rosto afiadas, sua boca de flor de cerejeira, seu pescoço esguio, então de volta sob o contorno de seus olhos, que parecem estar olhando diretamente para mim. Seus olhos brilham que nem dois cristais celestiais, é ela, sem sombra de dúvidas.
Depois da emboscada feita pelos italianos, metade do meu rosto ficou dilacerado, fiz incontáveis cirurgias plásticas para tentar recuperar o meu rosto, mas ele foi destruído demais e as cicatrizes me assombram por todas as noites. Depois que recuperei a consciência, a primeira coisa que fiz, foi procurar pelo anjo que salvou a minha vida. Foram longos os meses procurando por um rosto compatível, ao rosto do anjo, até que encontrei alguém compatível. Por ironia do destino, ela é segunda filha do rato desgraçado de Roberto Constantine, o capo da máfia italiana. Por alguma brincadeira do destino, ela teve que ser filha do homem que tentou me matar e destruiu o meu rosto e a minha vida.
- Pakhan¹! Precisamos ir, os italianos estão chegando - um dos soldados informa. Dou-lhe um olhar assassino, por me interromper num momento tão mágico, como esse - Perdão, não quis te interromper - se desculpou tremendo.
- Deixe que cheguem até mim, não tenho mais medo da morte, eu derrotei ela - retruco sem tirar os olhos da palco. O anjo desliza na pista de dança, como se flutuasse no ar, como se tivesse asas, como um verdadeiro anjo.
O soldado sai de perto de mim e continuo assistindo ao show do meu anjo, ela chama a atenção de todos para si, para cada um de seus movimentos, ela dança com tanta leveza que é praticamente impossível não imaginar, fodendo ela com as roupas de bailarina, como será o gemido dela, será que ela canta no lugar de gemer?
- Petrov, o que faz aqui? Perdeu o caminho de casa? - Roberto Constantine, meu maior inimigo, o homem que quase me matou está diante de mim, com um sorriso zombeteiro nos lábios.
- Constantine - murmuro seu nome com toda a minha raiva contida, se ao menos pudesse mata-lo - Muito pelo contrário, em breve está será minha casa - termino com um sorriso mais diabólico que o dele.
Roberto Constantine, armou uma emboscada para me matar, mas não conseguiu. Eu subestimei ele no passado, acreditando que era fraco e um fantoche da mulher dele, mas fui enganado, ele é um homem inteligente, muito inteligente, só não foi tão inteligente assim quando tentou me matar pelo fogo. Eu fui forjado pelo fogo, uma Fênix nunca morre pelo fogo, ela renasce das cinzas. Ele cometeu um grande erro ao tentar me matar com o carro bomba naquele dia, mas por outro lado, eu agradeço a ele porque se não fosse pelo acidente, eu não teria encontrado o meu anjo.
- Esta nunca será sua casa, russo de merda - berra tentando se aproximar de mim, mas meus soldados são mais rápidos que ele e o impedem de sequer se aproximar de mim.
- Aí é que você se engana Constantine - levanto me do meu assento e vou até próximo dele, quero ver ele tentar me matar - Toda esta área, está cercada de soldados russos, é só eu estalar uma vez que, toda sua família será morta, aqui e agora - completo sorrindo diabolicamente.
O homem parece que foi possuído por algum espírito demoníaco, pula em meu pescoço mas um dos meu soldados é mais rápido e o imobiliza. Seus soldados são poucos na sala, meus soldados imobilizaram todos eles, se eu quiser, posso matar ele aqui e agora e pegar o meu anjo para mim, mas isso criaria um grande constrangimento no nosso relacionamento e eu não quero que a futura mãe dos meus filhos, me odei para todo o sempre.
- Calma sogrinho, eu não vou matar ninguém hoje, até porque, tenho uma proposta por te fazer - comunico ainda sorrindo debochada mente. Com um aceno de cabeça, o soldado solta o velho italiano que espuma feito um verdadeiro Bulldog.
- O que você quer? - faz a questão que eu tanto esperei, é isso que eu queria ouvir. O que eu quero.
- Agora estamos falando a mesma língua, vamos nos sentar e tomar um bom whisky - o velho me segue sem muita vontade, se pudesse ele me mataria agora mesmo, mas assim como eu, ele é um homem de negócios e sabe que não tem muita escolha.
- Bom, eu quero selar um acordo de paz entre a Bratva e a Cossa Nostra, o que me diz - falo sem rodeios, nunca fui uma pessoa de dar muitas voltas e não gosto disso, sou directo e curto.
- Um acordo de paz? Entre nós? Por quê? O que quer em troca da paz? - esse velho faz muitas perguntas, é tão lerdo que não consegue perceber que eu quero a filha dele.
- Não quero muito, só quero sua filha Fiorella - informou sem delongas. O semblante do velho transparece alívio, como se ele estivesse feliz por eu ter escolhido a mais nova e não a mais velha.
- É só isso que quer? - indaga incerto da minha calma, o negócio flui com tanta facilidade que o velho suspeita. No lugar dele, eu ficaria do mesmo jeito, ninguém em sã consciência, faz um negócio com tanta facilidade junto do diabo.
- Sim, eu só quero sua filha Fiorella, ela é muito bonita, inteligente, encantadora, muito bem educada, ela é um verdadeiro diamante da temporada - explico o que ganharei nessa barganha. Para além da paz que nós dois teremos e precisamos, eu terei uma mulher linda, que todos querem e desejam, não existe coisa melhor que essa.
- Tudo bem, eu concordo com você, precisamos dessa paz e eu concedo a mão da minha filha- o filho fala com calma e solta o ar aliviado.
A família Constantine é uma verdadeira farsa, o casamento de Roberto e Giana Constantine foi um fracasso, fadado a tantas traições que até surgiram alguns bastardos no caminho.
- Minha gente entrará em contacto, farei o contrato e entregarei a vocês amanhã mesmo - informo satisfeito e me retiro do salão sorrindo, com o contrato assinado amanhã, eu terei o meu anjo para mim e em uma semana, eu me casarei com ela.
(...)
Quando dei a notícia de um possível casamento, com a segunda filha da família Constantine, minha mãe achou um verdadeiro absurdo, afinal não existe uma possibilidade de essas duas máfias se unirem, mas assim que expliquei as vantagens de um possível casamento entre russos e italianos, minha mãe amoleceu um pouco o coração.
- Eu fiz um contrato que vai favorecer as duas máfias, tome cuidado - minha mãe informa me entregando os papéis. Para além de serminha mãe, ela é a advogada da máfia, ela trata todos os assuntos burocrático da mesma.
Conhecendo bem minha mãe, eu sei que ela colocou várias cláusula no contrato, só para proteger os nossos interesses, não preciso ler o contrato para saber que posso confiar nela.
- Eu sei disso, eu confio em você, tudo está perfeito com certeza - completo com um beijo em sua testa e me retiro da sala.
Combinei de me encontrar com o Constantine num ponto neutro para os dois, que neste caso é a França, ela é um território não tomado por nenhum máfia europeia, por conta disso, ela é muito usada para negócios. Encontrarei o Constantine no Paris Opera Theatre, o mesmo salão onde meu anjo costuma se apresentar.
- Petrov, vejo que é um homem de palavra - Roberto Constantine cumprimenta com seu melhor sorriso, mas ao lado dele está sua esposa com cara de poucos amigos, ela não está nem um pouco contente com esse enlace.
Minha máscara de ferro, esconde metade do meu rosto e a outra metade, eu escondo com o cabelo, que ficou comprido, nos meses em que fiquei em coma.
- Senhora Constantine, é um prazer finalmente conhecê-la - cumprimento a mulher por trás de todos os planos da Cosa Nostra, com certeza, a mesma que planejou a minha morte. Beijo o dorço de sua mão e falta só a mulher vomitar de nojo.
Não me espanta que Fiorella seja tão magnífica, a mãe dela é simplesmente estonteante, mesmo com a idade, a senhora Constantine continua sendo bela. Corpo curvilíneo, seios fartos mas não muito cheios, cabelo loiro natural e olhos verdes cristalinos, me espanta que com uma mulher dessas, o Roberto tenha pensado em procurar outras.
- Ah! Obrigada senhor Petrov, eu vim acompanhar o meu marido, espero que não se importe com a minha presença aqui - a mulher retruca sem medo e afasta sua mão da minha. Como pensei, é ela quem toma as decisões na Cosa Nostra, Roberto Constantine é só um pau mandado.
- Não, claro que não, será muito bom ter uma figura feminina nas negociações - informo com um sorriso galante nos lábios e parece que o velho Constantine vai me matar, ele espuma como búfalo mas tenta disfarçar.
- Vamos logo com isso Petrov, não temos o dia todo - o velho Constantine entra no recinto do Paris Opera Theatre, sem esperar por nós e a esposa dele o acompanha.
Está mais do que claro que quem fará as negociações será a esposa dele e não ele, ele só ficará pianinho num canto e só vai se pronunciar no momento das assinaturas. Acompanho meus futuros sogros até o interior do teatro, e me sento de frente para ela.
- Eu tenho o contrato comigo, eu já assinei, podem ler e assinar, qualquer coisa que queiram alterar me informem - informo entregando os papéis a mulher e não ao marido, não vai mudar absolutamente nada, se eu entregar para ele, ele passará para a mulher na mesma.
- Vamos ler primeiro - a mulher informa já com os papéis na mão.
A mulher levou cerca de dez minutos lendo os documentos, nesse meio tempo tive que me distrair com qualquer coisa, a única coisa que encontrei foi observar a fisionomia da minha sogra. Fiorella é a cara da minha sogra, se envelhecer da mesma forma que ela, serei o homem mais sortudo na face da terra. Assim que a mulher concluiu a leitura, ela deu o marido para assinar os mesmos.
- Bom, negócio feito, fico feliz em informar que o casamento será em uma semana - informo feliz da vida, mas o sorriso de pura chacota da velha Constantine me deixa em alerta.
- Com certeza senhor Petrov, Bella será preparada para o senhor - a velha informa satisfeita e isso me desperta e desperta o velho Constantine.
- Como assim Bella, eu fui claro ao informar que quero a Fiorella - me sobressalto e a velha na se abala nem por um segundo. Roberto Constantine olha para sua esposa como se ela tivesse duas cabeças.
- Sim, o senhor foi claro e nós entendemos, mas no contrato existente uma cláusula que informa que se a Constantine mais nova não for fértil, ela pode ser substituída pelas outras irmãs - Giana Constantine fala satisfeita e aponta a para a cláusula.
Eu cometi um erro por não ler o contato, mas como é que, eu podia imaginar que a minha mãe Faria tal coisa, eu confio cegamente nela.
- Tudo bem, eu compreendo, mas onde Isabella entra nisso - murmuro derrotado, não posso transparecer a minha fúria, se não farei figura de palhaço por assinar um contrato sem ler , uma página sequer.
- Acontece que senhor Petrov, minha filha Fiorella é infértil - a velha solta a bomba e eu e o marido dela a olhamos espantados.
- Bom, eu quero os testes de fertilidade dela, para ontem - murmura fazendo todo o possível para controlar minhas emoções. Deixo os dois na sala e volto para casa, como pude deixar isso acontecer? Se eu tivesse lido o contrato antes de assinar, talvez tivesse como evitar isso, se os resultados derem positivo e atestarem que Fiorella é realmente infértil, terei que me casar com a mais velha da casa Constantine e perderei meu anjo para sempre.
(...)
- O teste deu positivo para infertilidade, Fiorella não pode te dar filhos - minha mãe lê os documentos com pena - Sinto muito meu filho, não quis te meter nisso, se tivesse me explicado que queria Fiorella somente, eu não teria colocado a cláusula - minha mãe me abraça por trás.
Mas a verdade é que ela não tem culpa de nada, eu é que fui burro, por não ter sido cuidadoso ao ponto de ler os documentos antes de assinar eles, agora eu estou preso a uma mulher que não conheço, desejando a irmã dela. Para Fiorella, eu dei o meu coração, ela é o meu anjo na terra, seria tratada como tal, mas a Isabella, ela receberá o pior de mim, ela casará com o diabo e não com Aleksander Petrov.