Casei com um bilionário para escapar das minhas raízes no interior de Minas, plenamente ciente de que eu era apenas um peão em seu jogo doentio com Kiara, a mulher por quem ele era verdadeiramente obcecado.
Eu achava que conhecia as regras, até que ele a deixou demolir a casa da minha infância para construir um novo resort, deixando minha mãe surda-muda ferida no meio da poeira.
Ele ficou parado enquanto as amigas dela me espancavam até eu quase perder a consciência. Ele quebrou meu braço.
Quando finalmente revidei, depois que Kiara ameaçou minha mãe, ele o quebrou de novo, seu rosto uma máscara de fúria gélida.
Seu ato final de crueldade foi me forçar a ficar de joelhos em um bar lotado, ordenando que eu latisse como um cachorro para a diversão de seus amigos.
Enquanto eu estava ali, humilhada e destruída, olhei para meu marido em busca de um pingo de misericórdia. Ele apenas se virou e beijou Kiara apaixonadamente, selando meu destino com o batom dela.
Eles pensaram que tinham destruído a "ratinha do interior". Mas, enquanto eu embarcava em um jato particular com um acordo de divórcio que poderia destruir seu império, eu sabia que minha história não tinha acabado. Estava apenas começando.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alana:
O celular vibrou na minha mão, a vibração contra a seda preta do meu vestido. Eu estava de pé ao lado do túmulo do meu pai, a terra fresca ainda macia sob meus saltos. O discurso de despedida estava terminando, as lágrimas silenciosas da minha mãe um contraste gritante com a manhã tranquila de Minas Gerais. Ignorei a notificação. Vibrou de novo, insistente.
Meu polegar deslizou pela tela. Uma mensagem. De Kiara Vasconcelos.
Minha respiração prendeu. Meus dedos tremiam, fazendo o celular balançar.
*Parece familiar, querida?*
Abaixo do texto, uma foto carregou. Era uma selfie, tirada de um ângulo estranho.
Caio. Seu braço estava sobre os ombros nus de Kiara. Kiara, com a cabeça jogada para trás, rindo. Seu batom vermelho estava borrado, uma mancha no maxilar de Caio.
Eles estavam em um carro. Um carro familiar. O sedã preto e elegante de Caio.
E do lado de fora da janela, desfocado, mas inconfundível, estava o arco de mármore deste mesmo cemitério. Aquele que meu pai ajudou a construir com as próprias mãos. Aquele onde ele agora estava enterrado.
Um nó frio se formou no meu estômago. Não era só a foto. Era a mensagem que veio em seguida.
*Ele é meu, Alana. Sempre foi. E sempre será. Você é só uma distração temporária. Um caso de caridade que ele pegou na rua. Feliz aniversário, a propósito. Para o seu papai, quero dizer.*
Minha visão embaçou. Não com lágrimas. Com uma onda súbita e incandescente de fúria.
Meu pai, que trabalhou incansavelmente, suas mãos calejadas de pedra. Meu pai, que me ensinou a ter uma dignidade silenciosa. Desrespeitado. No dia de sua morte.
Bem aqui. Neste estacionamento. Enquanto sua esposa estava de luto. Enquanto sua filha estava paralisada pela perda.
Caio. Meu marido.
Um rosnado baixo vibrou no meu peito. Tão cru que pareceu estranho.
Minha mãe, seu rosto marcado pela dor, alcançou minha mão. Seu toque me trouxe de volta.
Apertei sua mão gentilmente. Meu rosto era uma máscara. Meu sorriso, fino e frágil, não alcançava meus olhos.
*Ainda não*, pensei. *Aqui não.*
Afastei-me, caminhando lentamente em direção à borda da pequena multidão. Meu coração martelava contra minhas costelas. Parecia que estava tentando sair do meu peito.
Peguei o celular pré-pago que mantinha escondido. O número particular de Beatriz Monteiro já estava salvo. Disquei.
Tocou uma vez. Duas. Então uma voz nítida e firme atendeu. "É melhor que seja importante, Alana."
"É", eu disse, minha voz firme, não traindo o terremoto dentro de mim. "Eu quero o divórcio."
Houve uma pausa carregada. "Finalmente", disse Beatriz, um suspiro escapando de seus lábios. "Eu sempre soube que você tinha mais juízo do que ficar nessa farsa. Quais são os seus termos?"
"Meus termos", repeti, as palavras com gosto de metal. "Eu quero metade de tudo que o Caio possui. Não o fundo fiduciário dele. Seus bens pessoais. Aqueles que ele mantém separados."
"Ambicioso", ponderou Beatriz. "Mas alcançável. Os investimentos pessoais do Caio têm sido... significativos. E ele tem sido bastante descuidado com seus registros ultimamente. Influência da Kiara, eu suspeito."
"Eu também quero capital inicial", continuei, meu olhar varrendo as colinas de Minas, minha casa. "Uma quantia substancial. O suficiente para começar um negócio. Qualquer negócio que eu escolher."
"Isso pode ser arranjado", disse ela. "Algo mais?"
"Conexões", eu disse, minha voz baixando para um tom baixo e firme. "Apresentações. Para as pessoas certas. Na Europa. Na indústria da moda. Eu quero um recomeço limpo. Um desaparecimento total."
Beatriz riu, um som seco e sem humor. "Você está pedindo muito, Alana. O seu amor pelo meu filho era realmente tão superficial? Tão facilmente comprado?"
Fechei os olhos por um breve momento. Uma onda de amargura me invadiu. "Meu amor pelo Caio", eu disse, forçando um leve tremor na minha voz, "era a única coisa real na minha vida. Era uma tábua de salvação. Mas até uma tábua de salvação pode quebrar quando esticada demais."
"Garota esperta", disse Beatriz, sua voz desprovida de calor. "Não acredito em você nem por um segundo. Mas com esperteza eu posso trabalhar. Considere feito. Você tem uma semana para finalizar tudo. E então, você some."
"Uma semana, então", concordei. "Obrigada, Beatriz."
Desliguei, segurando o telefone. O gosto amargo de cinzas encheu minha boca.
Caio. Seu rosto, tão bonito, tão alheio. Meu marido. Como eu tinha chegado até aqui?
Tudo começou muito antes do casamento. Caio e Kiara. Uma dança tóxica, uma obsessão destrutiva. Ele fazia loucuras, coisas selvagens e perigosas, tudo para chamar a atenção dela. E Kiara, cruel e calculista, adorava vê-lo se contorcer. Ela se gloriava no poder que tinha sobre ele.
Eu era apenas uma bolsista na mesma universidade de elite em São Paulo. Invisível. Até que deixei de ser.
Uma noite, eu o vi. Na beira de um arranha-céu, se equilibrando precariamente. Kiara lá embaixo, rindo com suas amigas, desafiando-o. Ele estava a um passo de cair.
Liguei para a segurança, anonimamente. Depois de novo. E de novo. Salvei sua vida imprudente, várias vezes. Ele nunca soube que era eu.
Então veio a rejeição pública. Kiara, em um baile de gala beneficente, humilhando-o publicamente. Chamando-o de "um cachorrinho na coleira".
Ele ficou furioso. Humilhado. E eu estava lá, uma garota quieta e despretensiosa, sempre de alguma forma em sua órbita. Ele me viu. Ou melhor, ele viu uma ferramenta. Uma maneira de machucar Kiara de volta.
"Case-se comigo, Alana Rocha", ele disse, seus olhos ardendo com um fogo frio que confundi com outra coisa. "Mostre a ela o que ela perdeu."
Eu disse sim. Uma garota pobre de Minas. Pais surdos-mudos. Uma bolsista que limpava os dormitórios para sobreviver. Ele era um bilhete de saída. Uma chance de segurança. Uma chance de vingança contra um mundo que sempre me desprezou.
A mídia enlouqueceu. "O Bilionário e a Bela Caipira." A alta sociedade zombou. Eles nos deram três meses.
Mas então algo mudou. Brevemente.
Ele foi surpreendentemente atencioso no início. Comprou-me roupas, joias. Não por amor, eu sabia. Mas por orgulho. Eu era seu troféu agora.
Uma vez, um repórter escreveu um artigo particularmente desagradável, zombando da minha criação, me chamando de "a ratinha do interior". Caio, sem uma palavra, comprou toda a publicação e a fechou.
Ele disse: "Ninguém fala da minha esposa assim."
O mundo ficou chocado. Duramos três anos. Um casamento aparentemente perfeito. Uma gaiola dourada.
Então Kiara voltou. Como uma infecção persistente.
As mensagens começaram. Anônimas no início. Cruéis. Degradantes.
*Você ainda é só uma caipira, Alana. Nenhuma quantidade de dinheiro pode consertar isso.*
*Ele chama meu nome enquanto dorme. Não o seu.*
Depois as fotos. A mão de Kiara, pousada na coxa de Caio em um restaurante. O batom de Kiara em seu colarinho.
A última. A do cemitério. Foi o golpe final e brutal.
Olhei para a tela preta do meu celular. Não. Eu não era Alana Rocha, a garota caipira que limpava dormitórios. Não mais. Eu era Alana Monteiro. E a memória do meu pai não seria desrespeitada. Nem por Kiara. Nem por Caio.
Minha infância. Passou pela minha mente. A casa velha e rangente. As roupas gastas. As provocações das crianças da cidade.
"Filha dos mudinhos. Não ouve, não fala, não pode ser nada."
Kiara. A primeira vez que a vi. Em um evento da universidade. Ela riu do meu vestido gasto, derramando vinho em mim de propósito.
"Oh, olhe", ela zombou, seus olhos percorrendo minha figura envergonhada. "A serviçal. Você realmente não deveria tentar se misturar com seus superiores, querida."
Aquele momento. Foi uma faísca. Um voto silencioso. Eu nunca mais seria "a serviçal". Eu nunca mais seria desprezada. Eu iria subir. Eu iria lutar para chegar ao topo. Eu teria poder.
Caio era um meio para um fim. Eu sabia disso. Eu admitia, até para mim mesma. O dinheiro dele. O nome dele. O acesso.
Mas eu nunca pensei que ele chegaria tão baixo. Nunca pensei que ele me trairia tão completamente. Desrespeitaria meu luto.
Agora, Kiara era implacável. Ela o queria de volta. E Caio, como uma mariposa para a chama, continuava circulando em torno dela.
Eu tinha visto em seus olhos. Ele podia ser possessivo comigo, mas era obcecado por ela. Qualquer pingo de dúvida que me restava, qualquer vislumbre de esperança de que ele pudesse realmente se importar, morreu naquele estacionamento de cemitério. Ele não tinha limites quando se tratava de Kiara. Nenhum.
Eu tinha que sair. Mas não apenas sair. Eu tinha que garantir meu futuro. E eu os faria pagar. Ambos.
Mais tarde naquele dia, de volta à cobertura, eu os encontrei. Kiara empoleirada no braço do sofá de Caio, seus dedos traçando a linha de sua mandíbula. Caio, recostado, um sorriso presunçoso no rosto. Pareciam dois predadores, satisfeitos e arrogantes.
"Alana, querida", Kiara ronronou, seus olhos brilhando com malícia. "Você voltou. Estávamos justamente discutindo sua... casa de infância bastante rústica."
Caio pigarreou. "Kiara tem algumas... ideias interessantes para um novo projeto de resort. Ela acha que sua cidade natal, Vale da Rocha, tem potencial."
Meu sangue gelou. "Minha casa?", consegui dizer, minha voz mal um sussurro. "O que tem ela?"
Kiara deu uma risadinha, um som agudo e tilintante. "Oh, nós vamos transformá-la, docinho. Demolir todas aquelas cabanas charmosas e dilapidadas. Abrir caminho para o luxo. Sua casinha? Fica bem no meio do terreno principal."
Caio se mexeu desconfortavelmente. "É só negócio, Alana. Ofereceremos um preço justo. Mais do que justo, na verdade."
Meu coração se partiu em um milhão de pedaços. Não era só a foto. Não era só a humilhação pública. Minha casa. A memória do meu pai. Até isso era apenas um pedaço de terra a ser demolido para o resort dela.
"Vocês não podem", eu sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Essa é... essa é a terra da minha família."
Caio deu de ombros, recusando-se a encontrar meus olhos. "Já foi assinado, Alana. Kiara amou o local. Vai acontecer."
Meu mundo inclinou. O ar saiu dos meus pulmões. Ele a deixou fazer isso. Ele assinou. Meu marido.
Kiara sorriu, uma curva triunfante e venenosa em seus lábios. "Não se preocupe, Alana. Nós te mandaremos um cartão postal da nova área da piscina."
Eu me virei, meu olhar fixo em Caio. Seu rosto estava impassível. Ele a tinha escolhido. Acima de tudo.
Minha determinação endureceu, transformando-se em aço sólido. *É isso*, pensei. *É aqui que termina. E onde eu começo.*
Ponto de Vista de Alana:
A notícia me atingiu como um golpe físico. Vale da Rocha. Minha casa. Sendo demolida. A memória do meu pai, ainda mais desrespeitada. O mundo girou. Eu tinha que ir. Agora.
Saí correndo da cobertura, ignorando as chamadas de Caio, as mensagens zombeteiras de Kiara. Minha infância. Minha família. Estava sendo apagada.
A viagem foi um borrão de ansiedade frenética. As estradas da serra eram familiares, sinuosas e estreitas. Cada curva me aproximava do coração da minha dor. Mais perto do pouco que me restava.
Quando cheguei, o caos reinava. O barulho de máquinas pesadas ecoava pelo vale. Minha pequena casa de madeira, aquela que meu pai construiu com as próprias mãos, permanecia desafiadora em meio à poeira rodopiante. Mas não por muito tempo. Uma escavadeira enorme já estava arrancando as fundações da casa ao lado.
Minha mãe. Minha mãe surda-muda. Ela estava parada na frente da nossa casa, seu pequeno corpo rígido, braços estendidos. Um protesto. Um grito primal que ninguém ouvia. Ela não podia ouvir o rugido das máquinas. Mas podia sentir a terra tremer. Podia ver a destruição.
Seu rosto era uma máscara de terror e dor. Ela parecia tão completamente perdida, tão vulnerável.
Um operário, um homem corpulento com o rosto vermelho, estava gritando com ela. Ele não entendia seus apelos silenciosos, seus gestos frenéticos com as mãos. Ele agarrou seu braço, tentando puxá-la para longe.
"Saia da frente, velha!", ele berrou. "Isso agora é propriedade privada!"
A raiva, fria e pura, surgiu dentro de mim. Minha mãe. Minha mãe quieta e gentil. Sendo maltratada.
Eu corri. Meus pulmões ardiam. Minhas pernas doíam.
"Deixe ela em paz!", gritei, minha voz rouca.
Empurrei o operário para longe da minha mãe. Ele cambaleou para trás, surpreso.
"Quem diabos é você?", ele rosnou, esfregando o braço.
"Eu sou Alana Monteiro", eu disse, me endireitando, embora meu coração estivesse batendo como um tambor. "E esta é minha mãe. Você não vai tocar nela."
Ele zombou. "Monteiro, hein? Bem, Sra. Monteiro, seu marido vendeu esta terra. Não é mais sua."
Meus olhos se voltaram para minha mãe. Ela estava chorando agora, lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto. Suas mãos se agitaram, fazendo sinais para mim. *Nossa casa. Nossas memórias. Foram-se.*
Uma dor súbita e aguda atravessou meu braço. O operário me agarrou. Ele era mais forte do que eu. Ele me puxou bruscamente, tentando me arrastar para longe da casa.
"Eu disse para sair!", ele rugiu.
Eu lutei contra ele, chutando e me debatendo. Minha mãe, vendo meu desespero, soltou um grito sufocado. Ela se lançou contra o operário, seus pequenos punhos se agitando.
Ele a empurrou violentamente. Ela caiu, batendo a cabeça em um pedaço de madeira solto. Seus olhos reviraram. Ela ficou imóvel.
"Mãe!", gritei, um som cru, animal.
Soltei-me do operário, correndo para o lado da minha mãe. Sua testa estava sangrando. Sua respiração era superficial.
O pânico me dominou. Aconcheguei sua cabeça. "Mãe, por favor. Acorde."
O operário pareceu momentaneamente atordoado. Então ele apenas resmungou. "Ela não deveria estar aqui."
O rugido da escavadeira ficou mais alto. Estava virando, indo diretamente para nossa casa.
Minha casa. Minha mãe. Tudo.
Nesse momento, um SUV preto e elegante parou. Caio. E Kiara. Claro. Eles vieram para se gabar. Para assistir à destruição final.
Caio saltou para fora, seu rosto uma máscara de irritação. "Que comoção é essa?", ele exigiu, vendo a cena. "Alana, o que você está fazendo aqui?"
Kiara saiu atrás dele, um sorriso cruel no rosto. Ela parecia perfeitamente arrumada, totalmente fora de lugar na poeira e na devastação. "Oh, olhe, Caio. Sua esposinha está tendo um colapso. E a mãe dela. Que... pitoresco."
Meus olhos queimaram nos de Caio. "Você fez isso", sussurrei, minha voz tremendo de fúria. "Você a deixou fazer isso."
Ele franziu a testa. "Não seja dramática, Alana. É só uma casa. Nós construiremos uma nova para ela. Uma muito mais bonita. Na cidade."
"Não é só uma casa!", gritei, o som rasgando minha garganta. "É o legado do meu pai! É nosso lar! Nossa história! Como você pôde?"
Kiara riu. "Ah, por favor. Era uma monstruosidade. Uma mancha na paisagem. Isso é uma melhoria, querida. Um toque moderno."
Caio colocou a mão nas costas de Kiara, um gesto possessivo. "Kiara queria este lugar. É uma localização privilegiada para o resort. Vamos compensar sua mãe generosamente, Alana. Mais do que generosamente."
Compensar. Como um brinquedo quebrado. Como um incômodo.
Minha mãe gemeu, mexendo-se ligeiramente.
"Tirem-nas daqui", disse Caio, sua voz fria. Ele gesticulou para os operários. "E coloquem essa escavadeira para funcionar. Tempo é dinheiro."
Dois homens corpulentos me agarraram, me puxando para longe da minha mãe. Eu lutei, mas eles eram muito fortes. Eles me seguraram, me forçando a assistir.
A escavadeira virou sua lâmina maciça em direção à nossa varanda. O balanço da varanda, ainda lá. A cadeira de balanço da minha mãe. A bancada de trabalho do meu pai.
A máquina rugiu. Então, com um estrondo ensurdecedor, rasgou a madeira. Lascas voaram. A poeira explodiu.
Minha casa. Desapareceu. Em um instante.
Minha mãe soltou um som sufocado. Seus olhos se fecharam. Ela desmaiou de novo.
"Não!", gritei, me debatendo contra meus captores. "Me soltem! Minha mãe!"
Eles me arrastaram para o lado, longe do perigo imediato. Eu assisti, impotente, enquanto a casa desmoronava. Pedaço por pedaço. Todas as minhas memórias. Enterradas sob escombros.
Caio e Kiara ficaram ali, assistindo também. Kiara, um sorriso triunfante no rosto. Caio, sua expressão indecifrável.
Depois de alguns minutos brutais, acabou. Apenas uma pilha de madeira e poeira.
Minha mãe foi levada às pressas para o pequeno posto de saúde local. Sentei-me ao lado de sua cama, segurando sua mão, a raiva crua uma brasa ardente em meu peito. Caio e Kiara tinham ido embora, provavelmente para celebrar sua vitória.
Meu corpo doía. Meu coração parecia oco. Eu nem tive tempo de lamentar totalmente meu pai, e agora isso.
Minha mãe acordou. Seus olhos, geralmente tão expressivos, estavam cheios de uma tristeza profunda e silenciosa. Ela viu meu rosto manchado de lágrimas.
Sua mão se ergueu, tocando suavemente minha bochecha. Ela fez sinais, devagar, dolorosamente. *Não é sua culpa, meu amor.*
Eu balancei a cabeça. "É sim, mãe. Eu o trouxe para nossas vidas."
Ela fez sinais novamente. *Ele nunca te amou. Não de verdade. Ele só amava a si mesmo.*
As palavras me cortaram. Mas eram verdadeiras. Eu sabia. Eu só não queria admitir.
"Eu sei", sussurrei, a admissão com gosto de cinzas. "Eu também nunca o amei. Não de verdade. Eu só... queria sair. Queria uma vida melhor. Segurança. Estabilidade."
Ela apertou minha mão. *Você merece. Agora, vá buscar.*
Sua força, mesmo agora, me humilhava. Ela estava certa. Eu tinha que ir. Tinha que terminar o que comecei.
Liguei para o médico do posto. Minha mãe ficaria bem. Uma concussão, alguns hematomas. Ela precisaria de tempo. E de um novo lar.
Eu me certificaria de que ela tivesse um novo lar. Um seguro. Longe de tudo isso.
Saí do posto de saúde, minha determinação fria e afiada. Kiara. Caio. Eles me levaram longe demais.
Meu divórcio já estava em andamento. Os papéis seriam finalizados em breve.
Eu precisava voltar para São Paulo. Para minha gaiola dourada. Uma última vez. Eu tinha a sensação de que Kiara não tinha terminado seus jogos. Ela iria querer ver o ato final.
E eu daria a ela.
Ponto de Vista de Alana:
O frio se infiltrou nos meus ossos. Meu vestido, ainda úmido da bebida derramada, grudava em mim como uma segunda pele. Arrepios surgiram nos meus braços.
"Vamos, Alana", a amiga de Kiara, Bruna, arrastou as palavras, sua voz pingando falsa simpatia. "É a sua vez. Apenas diga a frase. 'Me desculpe, Kiara, eu sei que ele te ama mais.'"
Eu fiquei paralisada. Minha mente estava em branco. As palavras não vinham. O túmulo do meu pai. A queda da minha mãe. Minha casa, desmoronando. Tudo girava dentro de mim, um turbilhão de dor e fúria.
Kiara deu um passo à frente, seu rosto perfeitamente esculpido uma imagem de desdém. "Oh, a bonequinha do interior quebrou", ela zombou. "Que pena. Eu estava gostando da nossa pequena encenação."
Sua mão disparou. Suas unhas longas e pintadas cravaram no meu braço. Ela torceu. Uma dor aguda me atravessou.
"Você realmente acha que pertence a este lugar, Alana?", ela sussurrou, seu rosto a centímetros do meu. Seu hálito cheirava a champanhe caro e veneno. "Você não é nada. Uma pobre coitada, um caso de caridade, se aproveitando do dinheiro do Caio. Você nunca será uma de nós."
Algo estalou dentro de mim. Os anos de resistência silenciosa se dissolveram.
Tentei me afastar. Mas Bruna e outra das comparsas de Kiara, uma loira chamada Tiffany, agarraram meu outro braço. Elas me seguraram com força.
"Segurem-na!", Kiara sibilou.
A encenação. Isso não era um jogo. Era uma execução pública. Elas estavam encenando todas as vezes que Kiara me humilhou em público. O vinho derramado. As palavras cruéis. Mas desta vez, era real.
A mão de Kiara foi para o meu cabelo. Ela agarrou um punhado, puxando minha cabeça para trás. Meu pescoço queimou.
"Você realmente achou que alguns vestidos bonitos e um anel mudariam quem você é?", ela cuspiu, seus olhos brilhando com alegria maliciosa. "Você ainda é apenas aquela bolsista patética, implorando por migalhas."
Meu peito arfava. A dor era excruciante. Não apenas de seu aperto, mas da humilhação crua. A memória de suas palavras no evento da universidade, o vinho encharcando meu vestido barato, ecoava em meus ouvidos.
Eu vi Caio então. Do outro lado da sala lotada. Seus olhos encontraram os meus. Por uma fração de segundo, vi algo piscar neles. Preocupação? Arrependimento?
Ele deu um passo à frente.
Mas então, seu amigo, Marcos, colocou a mão em seu ombro. "Não, cara", ele murmurou, alto o suficiente para eu ouvir. "A Kiara está chateada. E a Alana... bem, ela procurou por isso. É só uma brincadeira."
Caio hesitou. Seu olhar mudou de mim para Kiara. Kiara, parecendo frágil e injustiçada. Ele parou. Seus ombros caíram.
Meu coração, já uma casca oca, rachou um pouco mais. Ele não me ajudaria. Não por mim. Nunca por mim.
Meus olhos encontraram Kiara novamente. Seu rosto, triunfante. Suas unhas, cravando mais fundo.
Eu revidei. Um instinto primal. Eu não os deixaria me quebrar. Não assim.
Torci minha cabeça, me debatendo. Meus dentes encontraram carne. Um grito agudo. Kiara gritou.
"Ela me mordeu, sua psicopata!", Kiara berrou, segurando a mão. Sangue brotou em seu dedo.
Caio estava instantaneamente ao lado de Kiara. "Kiara! Você está bem?" Sua voz, cheia de preocupação, foi uma faca em meu estômago.
Bruna e Tiffany ainda me seguravam, seus apertos como aço.
"Ela é um animal selvagem!", Tiffany gritou, seus olhos arregalados com indignação fabricada. "Ela mordeu a Kiara!"
"Eu não estou jogando o seu jogo!", eu ofeguei, minha voz rouca. "Eu nunca concordei com isso!"
"Oh, a coitadinha acha que tem escolha", Bruna zombou, revirando os olhos. "Você está na nossa casa, Alana. Você joga pelas nossas regras."
Kiara, agora com o dedo enfaixado por um Caio frenético, me fuzilou com o olhar. "Caio, ela precisa aprender uma lição. Uma de verdade."
O rosto de Caio endureceu. Seus olhos, quando encontraram os meus, estavam frios e distantes. "Levem-na." Sua voz era desprovida de emoção. "Levem-na para a ala oeste. E certifiquem-se de que ela entenda as regras."
Meu sangue gelou. "Caio", eu implorei, minha voz falhando. "Por favor. Você prometeu. Você prometeu que me protegeria." As palavras tinham gosto de poeira. A promessa que ele fez no dia do nosso casamento. De cuidar. De proteger. Uma mentira.
Ele desviou o olhar. "Kiara está chateada, Alana. Você a insultou. Você a machucou. Os sentimentos dela importam."
Minha respiração prendeu. Os sentimentos dela. Meu corpo quebrado. Minha casa destruída. Meu coração partido. Não importavam.
Elas me arrastaram, Bruna e Tiffany, por uma porta lateral. Por um corredor longo e mal iluminado. Meu braço ainda latejava onde Kiara tinha me mordido. Meu corpo doía da luta.
Elas me jogaram em um quarto pequeno e sem janelas. A porta bateu atrás de mim.
Então, a surra começou. Punhos, pés. Uma chuva de golpes. Por toda parte. Minha cabeça, meu estômago, minhas costelas.
Eu me encolhi em uma bola, tentando me proteger. Mas não havia proteção. Apenas dor. Dor implacável e brutal.
Elas não pararam até que Kiara, sua voz abafada através da porta, gritou: "Já chega. Ela aprendeu a lição."
Elas me deixaram lá. No chão frio e duro. Machucada. Quebrada. Sangrando.
Sozinha.
A dor era uma coisa viva. Ela me consumiu. Meu corpo gritava. Mas uma nova sensação, fria e clara, me invadiu. Clareza.
Ele não me amava. Ele não se importava. Nunca. As promessas eram vazias. A proteção, uma fachada. Eu era um peão. E agora, eu era um peão quebrado.
Mas um peão quebrado ainda pode se mover. E um peão quebrado, sem nada a perder, é o tipo mais perigoso de todos.