01
NIKOLAI NARRANDO
Olho para meu relógio e vejo que já são sete e vinte da tarde. Estou começando a ficar irritado, tenho mais o que fazer e não posso perder tempo. A garota loira de cabelos cacheados que é minha namorada não chega de uma vez e eu preciso terminar logo com ela. Ela entrou no restaurante onde combinei com ela, no centro da cidade. Ela é uma típica descendente de italianos: Olhos azuis, cabelos loiros e enrolados, sardas no rosto e uma estatura média, cheia de curvas. Sempre foi uma mulher bonita, da qual eu adoraria passar algumas horas na cama me despedindo se não estivesse tão ocupado e precisasse acabar logo com isso. Meu motivo para terminar tem nome e sobrenome.
- Por que estava com tanta pressa de me ver? - Eu respirei fundo ao ouvir o que ela disse.
- Queria olhar nos seus olhos para dizer que está tudo acabado. Não acho justo terminar por ligação, já que namoramos há cerca de um ano. - Ela arregalou os olhos, chocada.
- Você tá brincando comigo? Tá me chutando assim? O que aconteceu? Estávamos bem essa semana, você disse que me amava...
- Eu sei, mas as coisas mudaram. Me desculpa por isso.
- Te desculpar? Você é um cretino. Dá pra me explicar o que tá acontecendo? - Eu girei os olhos e bufei.
- Me apaixonei por outra mulher. Feliz em ouvir isso? Era isso que você queria escutar? Eu olhei para uma garota de dezenove aninhos e desejei tanto ela que fiz um acordo com o pai dela pra que ela fosse minha.
Andressa arregalou os olhos. Ela negou com a cabeça.
- Você não fez isso. - Disse.
- Eu arranjei um casamento ótimo pra ela, e bons negócios para o pai dela. A garota vai ter um cartão de crédito ilimitado e ainda ser casada comigo.
- Você é um cretino egocêntrico, sabia? Como você pode fazer isso estando comigo? - Eu neguei com a cabeça ao ouvir o que ela disse.
- Eu nunca estive com você de verdade. Me desculpe, mas meu interesse era apenas sexual, Andressa.
- Você tá dizendo que nada disso foi real? - Ela disse, com lágrimas nos olhos.
A parte ruim de ser frio desse jeito é que eu não sei como agir. Já me disseram que tenho muitas características de sociopata, mas talvez isso seja bom para os negócios. Eu preciso enfrentar coisas que pessoas normais não teriam estômago.
- Não foi. Desculpe. É melhor você seguir em frente, porque logo mais eu irei me casar... A vida segue, Andressa, existem milhares de homens como eu atrás de uma mulher como você. - Falei.
Ela se aproximou de mim o suficiente pra me acertar um tapa na cara. Um tapa merecido, eu diria, afinal, ela estava apaixonada por mim e eu nem liguei.
- Isso doeu.
- Não doeu tanto quanto meu coração. Espero que sua noivinha arranjada quebre teu coração como você quebrou o meu. Você vai se arrepender de ter nascido quando perceber que o que fez comigo, vai voltar pra você.
A verdade é que eu nunca amei a Andressa. Tenho minhas necessidades de homem e pouco tempo disponível pra arrumar mulher, então me meti em um relacionamento com ela. Era só repetir algumas palavras bonitas e estava tudo certo. Infelizmente, mulher nenhuma chegou ao meu coração... Não até eu conhecer ela: Elena, filha de um grande empresário e investidor do Cartel. Tem dezoito anos e foi criada feito uma princesa.
Depois de terminar com Andressa, fui até o restaurante onde Elena trabalha, porque queria vê-la. Eu fiz minha lição de casa e pesquisei tudo que podia sobre ela, afinal, iremos nos casar... Mas ela ainda não sabe.
Elena é uma mulher linda. Cabelo longo, quase até a cintura. Está trançado por ser atendente de um restaurante caríssimo. Mesmo com o uniforme do restaurante, dá pra ver que suas curvas são perfeitas. Seus lábios são carnudos, maxilar levemente marcado e olhos castanhos expressivos. Dezenove aninhos e pronta para ser esposa do dono do Cartel. Será um prazer vê-la em um vestido de seda vermelho... E depois tirá-lo.
Ela é uma moça boa, trabalhadora. Se formou mais cedo do que o comum, quer ter um restaurante, que é seu sonho, e trabalha como aprendiz em restaurantes desde então. Ajuda o chef durante a manhã, trabalha no mesmo restaurante a tarde e estuda gastronomia a noite.
Respirei fundo, fechando meus olhos. Estou sentado em minha cadeira do escritório, porque meu trabalho hoje é mais sério do que se imagina. Sem mim, o cartel tá ferrado, eles não conseguem fazer nada sem minhas ordens. Eu era apenas um traficante, agora eu sou o maior. Cuido de toda a parte do tráfico de drogas e armas, mas também dos interesses econômicos e políticos. É um trabalho pesado, digamos...
- Leve esses papeis da empresa fantasma do Sam e faça as transferências indicadas. - Entreguei um envelope para ela. Ela concordou, pegou o envelope e saiu.
Lembrei-me do casamento, isso precisa acontecer de uma vez e o mais rápido possível. Eu estou ficando louco só de pensar em ter a Elena Ryans pra mim. Perdi um bom tempo apenas parado, pensando nisso. Eu quero realizar a cerimônia logo. Os eventos do cartel são constantes, e a primeira dama é simplesmente uma peça importante demais para não aparecer. Para ser um cabeça, você deve ter uma esposa do lado. Um rei não é nada sem sua rainha. E eu quero que Elena seja minha rainha logo. E em breve, teremos nosso primeiro encontro.
Elena ainda não me conhece pessoalmente de forma adequada, mas iremos nos conhecer em breve.
Ouvi batidas em minha porta. Aqui, temos uma empresa real que finge fazer contabilidade para uns, enquanto lavamos dinheiro para outros. Aliás, foi trabalhando aqui que descobri que seria muito mais rentável trabalhar com coisas ilegais.
- E aí, bonitão. - Otto cruzou a porta com os papeis que entreguei em mãos. - Tudo assinado.
- Certo. - Peguei da mão dele e coloquei em minha mesa.
- Não querendo apressar você, mas você sabe que sábado vai ser sua apresentação para os mais de cem integrantes do cartel, vão te apresentar como sucessor e você ainda não saiu com sua futura esposa. Sabe, tá na hora de você fazer alguma coisa.
- Eu sei disso. Já estou resolvendo. Você vai me ajudar com isso, ok? - Falo, com olhar sério. Ele sorriu, concordou e saiu da sala.
Peguei meu telefone e finalmente tomei coragem para ligar para Elena. Eu tenho dez anos a mais que ela, qualquer um estaria nervoso.
- Alô? - Ela atendeu. - Nikolai, é você?
- Sim, sou eu. - Respondi.
- Ah, oi... Eu meio que estava esperando sua ligação. Quando vamos nos conhecer? - Ela disse.
- Eu passo às oito horas na sua casa para levá-la para um passeio. Esteja arrumada.
- Quão arrumada? - Perguntou.
- Iremos ao restaurante do Palácio. Conhece? - Ela suspirou em surpresa.
- Quem não conhece? É o restaurante inspirado no Palácio do Rei!
- Ok, iremos lá. Tem roupas apropriadas? - Elena ficou em silêncio.
- Eu acho que não para esse evento em específico, mas eu posso pedir à uma amiga se isso for te agradar. - Respirei fundo, um pouco irritado. Mas depois lembrei que Elena é só uma garota de dezenove anos, filha de um ricaço, e que provavelmente tem uma roupa mas quer uma nova, só não sabe como dizer isso ao seu futuro marido. Talvez ela precise de um empurrãozinho.
- Vou mandar meu segurança buscá-la imediatamente. Compre o que precisar no meu cartão, para esse encontro. Quero que seja perfeito, minha futura rainha.
- Nossa, isso foi bem romântico, futuro marido. Pretende arrancar minha virgindade ou conquista-la? - Questionou, de forma irônica. Aquilo acendeu minha ira.
- Eu sou do tipo sem paciência, mas prometo que irei conquistar você.
- Ah, só quero te avisar que eu não estou satisfeita com esse casamento. Estou fazendo pelo meu pai e nem morta vou pra cama com você. Você vai passar o resto da vida resolvendo seus problemas com a sua própria mão.
- Veremos, querida. Veremos. - Desliguei o telefone e me levantei, indo até a porta e a abrindo. - Secretária! - Chamei.
- Sim, estou aqui, senhor.
- Chame o meu motorista e diga que tenho um serviço para ele. E mande o Otto vir aqui. - Ela concordou e foi fazer o que pedi.
Alguns minutos depois, ele entrou, e eu pedi que fechasse a porta. Apenas eu e Otto sabemos do meu noivado, então, eu precisava segurar as pontas.
- Posso ajudar, senhor? - Otto disse.
- Bom, hoje você conhecerá minha noiva pessoalmente. Ela está precisando de uma ajuda, vamos jantar juntos. Preciso que a busque e leve para comprar o que quiser para essa noite. Deixe que ela faça o que quiser e gaste quanto quiser, não se preocupe.
- Entendido, chefe. Preciso saber de mais alguma coisa?
- Convença-a de que sou um excelente homem com essa sua persuasão maravilhosa. - Eu pedi. - Eu sinto que ela me odeia.
- Vou tentar. - Sorriu de forma sincera. - Posso levá-la ao salão que faço as unhas. O que acha?
- Vá. Faça também.
- Na sua conta? - Ele riu.
- É... Tá, vai. - Girei os olhos.
- Vou estourar seu cartão pela segunda vez na vida. Que prazer. - Otto riu.
- Você não seja nem louco, seu filho da puta. Faça o que eu preciso. Nada a mais, nada a menos. - Agora, foi a vez dele girar os olhos.
- Chato e mau humorado como sempre.
ELENA NARRANDO
- Senhorita Ryans? - Um homem ruivo de terno disse meu sobrenome. Eu o olhei rapidamente e sorri de forma simpática.
- Sim, sou eu.
- A senhorita é a noiva do meu chefe, Nikolai? - Eu não sabia o que responder.
Estava irritada com isso, mas não tinha escolha. Meu pai me arranjou um casamento e eu tive que terminar com meu namorado, agora, estou sozinha e com o coração partido... Em breve estarei com um desconhecido, que tentará ir pra cama comigo a todo tempo. Mas eu não posso dizer não, não depois que meu pai enfiou todo o dinheiro da família no único cassino ilegal da cidade.
- Sim.
Entramos em um carro preto muito bonito. Observei a paisagem pela janela e percebi que estamos indo para a rua de lojas mais caras da cidade, não esperava menos de um homem como Nikolai. Ele quer uma esposa troféu, e está disposto a gastar com isso. Eu pareço ser a esposa troféu perfeita. Os negócios do meu pai serão super beneficiados com esse casamento, então, eu estou tentando não ser otária e concordar. Estou fazendo isso pelo bem da família, sabe? Mas é difícil controlar meu gênio. Eu não sou uma pessoa muito dócil.
- Gosto daquela loja. - Apontei para o lado de fora, enquanto estávamos parados no semáforo.
- Querido, estacione o carro, vamos em uma loja. - Otto disse.
Estava ansiosa. Ao entrarmos na loja, vi todos os tipos de vestido que imaginei. Um específico me chamou atenção, era simples, verde e longo.
- O que acha desse. - Ele logo negou com a cabeça.
- Não faz o tipo do Nikolai. - Dei os ombros. Um atendente da loja se aproximou, Otto o olhou de cima a baixo. Se seu olhar mordesse, teria arrancado um pedaço. Não o culpo, o homem é bonito.
- Posso ajudá-los? - Questionou.
- Com certeza. - Otto respondeu. - Queremos um vestido muito sensual e inesquecível, essa moça vai sair com o noivo no restaurante Palácio hoje. - O homem sorriu. - O preço não importa, o noivo dela é Nikolai das empresas NK enterprise. - Seu sorriso aumentou mais ainda.
- Já tenho um em mente. Você, com esse corpo, garota... Vai ficar um arraso.
Alguns minutos depois, o atendente me trouxe um vestido vermelho, de comprimento midi, uma fenda lateral enorme e as costas nuas. Seu decote era em formato de V, porém, não profundo.
- Meu Deus, que coisa linda. - Abri um grande sorriso e toquei no tecido do vestido, tão macio que parecia estar tocando em uma nuvem. Eu amei, sinceramente.
- É de seda pura. Tecido delicioso... Vai servir em você como uma luva. Vamos ao provador, querida. - Ele disse eu o acompanhei. Otto estava vendo alguns vestidos na arara, distraído.
Removi minhas roupas dentro do provador. Coloquei o vestido no corpo e arregalei os olhos, realmente, parecia ter sido feito para mim.
- Pode me ajudar a fechar? - Falei ao atendente. Saí do provador e ele colocou as duas mãos no próprio rosto.
- Menina, esse vestido foi feito pra você. - Disse. Eu apenas sorri de forma educada. Ele veio até mim com as mãos prontas para me ajudar com o zíper, e eu me virei de costas.
- Acha que meu noivo vai gostar? - Questionei, fingindo interesse.
- Gostar? Você está praticamente embrulhada para presente, querida. - Ele riu e eu também. Subiu o zíper em minhas costas, e eu virei para me olhar no grande espelho. - O que acha?
- Realmente, é perfeito. Ótima escolha. - Olhei para a parte de trás, as costas, a bunda...
Saí para me mostrar ao Otto, que aplaudiu ao me ver. Eu dei graças a Deus que resolvemos isso rápido.
O restante do dia foi mais interessante ainda. Fomos a um spa, tomei banho de ofurô, fiz massagem, máscara facial de não sei o que, fizemos as unhas e o cabelo. Otto participou de tudo.
O sapato que escolhemos era cravejado de cristais, a bolsa era perfeita, os brincos e o colar também.
Na hora correta, Otto me levou até meu ponto de encontro com Nikolai. Nunca estive tão linda, cheirosa, maquiada e arrumada na minha vida.
- Boa sorte e divirta-se. - Otto falou e eu sorri.
- Obrigada pelo dia, Otto. Eu me senti uma Cinderela. - Ele segurou minhas duas mãos e uma delas, ele puxou e deu um beijo carinhoso.
- Você é. Espero passar muitos dias no spa com você. Por favor, divirta-se com meu chefe e tire o mau humor dele na base da sentada. - Ri ao ouvir. Nosso dia realmente foi divertido, gostei dele.
Desci do carro e fiquei ao lado da estátua esperando aquele homem. Eu já o vi por foto: Loiro de olhos azuis, descendente de italianos.
Um carro preto, ainda mais bonito do que andei durante o dia, estacionou e um homem de terno começou a vir em minha direção. Meu coração acelerou e por um instante, mas eu me lembrei que esse homem me roubou do garoto que gostava e fechei a cara. Ter um relacionamento com um príncipe encantado parece bom para qualquer pessoa, menos pra mim. Considerando que estou sendo obrigada a ficar com ele, não é interessante. Casamentos arranjados são uma grande bosta.
Nikolai se aproximou de mim olhando-me de cima a baixo. Ele sorriu de forma maliciosa e me ofereceu a mão.
- Parece que minha princesa foi muito bem cuidada hoje. - Eu entreguei minha mão. Ele aproximou minha mão de sua boca e enquanto a beijava, me olhou nos olhos, com seus grandes olhos azuis.
- Fui. Otto é um excelente amigo. - Sorri, tentando esconder o nervosismo. A verdade é que ser chamada de princesa por um homem desse fez meus joelhos virarem gelatina. E eu odiei isso. Foco, Elena, você odeia esse homem e você não vai ficar encantadinha por esse cretino. Não mesmo.
- Você está uma deusa. - Disse, com um sorriso canalha no rosto. Ele me ofereceu o braço, para que eu o pegasse. - Vamos.
Caminhamos até o carro, onde ele abriu a porta para que eu entrasse. Depois, entrou também.
- Estou à sua altura ou esperava mais? - Questionei, enquanto estávamos no carro. Ele soltou uma risada anasalada, enquanto dirigia com apenas uma das mãos. Apoiou a outra em minha coxa, próxima ao joelho. Aquilo me fez sentir um frio na barriga.
É a primeira vez que saio com um homem mais velho.
- Você conseguiu fazer com que eu ficasse inseguro, Elena. Estou ansioso e inseguro. Essa é a verdade.
- Obrigada. - Eu fingi estar confiante. Levei minha mão até a dele e entrelacei nossos dedos. Ele continuou olhando para frente, dirigindo. - Devo ser carinhosa com você? Eu não sei o que fazer. Estou puta com você mas ao mesmo tempo, tenho medo de você cancelar o casamento... Esse casamento é importante para os meus pais e eu não quero decepcioná-los.
- Vou fazer com que isso não seja difícil pra você. Eu nunca a forçarei a nada, acredite. - Eu respirei fundo ao ouvir.
- Tá.
- Sim. Aliás, hoje irei te pedir em casamento, afinal, nosso casamento está marcado e eu nunca sequer saí com você. Finja surpresa, chore, me abrace, faça o que quiser. Estou te avisando para que se prepare pois a noite será linda.
- Não se preocupe. Sou uma boa atriz, vou fingir estar adorando tudo isso. - Ele virou o rosto finalmente para mim. Soltei a mão dele e cruzei os braços, olhando para frente.
- Minha "boa atriz" parece raivosa. Dê um balo sorriso e me devolve minha mão. - Falou, agarrou minha mão e lançou um olhar para nossas mãos agora unidas, enquanto um sorriso lateral surgiu em seus lábios. Senti meu sangue subir por meu rosto. Não apenas pelo sorriso, mas pela forma com que ele me olhou. Confiança, Elena. Exale confiança.
- Elena ficou vermelha? - Debochou. - O que faz quando está se sentindo assim, Elena?
- Assim como, Nikolai?
- Quando se sente constrangida. Sem confiança nenhuma. O que faz? - Perguntou.
- Eu finjo. - Ele sorriu com satisfação.
- Continue assim. No meu mundo, ou você é confiante, ou é pisado. Você vai encontrar mulheres extremamente fúteis e agressivas. Seja melhor que elas. E mais confiante também... Seu pai te arranjou um casamento com um ricaço, mas esse ricaço também é dono de um Cartel. Por favor, se comporte como rainha da porra toda.
- E se eu não estiver confiante... - Ele me interrompeu enquanto eu tentava falar.
- Você finge. Como disse que faz. - Ele piscou um dos olhos para mim e continuou dirigindo.
Meu Deus, essa noite vai ser complicada. Isso porque eu serei pedida em noivado por Nikolai, um homem que não conheço, rico pra caralho e que trabalha com negócios duvidosos e ilícitos. Controlar a tremedeira e manter a confiança está se tornando cada vez mais difícil.
NIKOLAI NARRANDO
Elena é perfeita. Essa mulher vai me deixar louco, sinto isso. Vai ser muito difícil controlar meus instintos perto dela, mas espero conseguir.
- Elena, como hoje irei te pedir em casamento... Precisaremos nos beijar. Sabe disso, não sabe? Sei que é a primeira vez que nos vimos, mas os fotógrafos estarão lá e precisamos validar esse noivado. Precisamos parecer apaixonados.
- Sei.
- Serei o mais respeitoso que puder. Você é minha noiva, as coisas tem que parecer intensas... Mas tomarei cuidado para não ir longe demais. As pessoas precisam acreditar que...
- Que eu te amo e que você me ama. Eu já entendi. Eu estou com raiva disso, queria deixar claro, mas como disse... Estou disposta a fazer o que for preciso. - Ela disse, sorrindo de leve. - Sou boa em atuar.
- Então vai dar tudo certo.
- Acredito que sim.
Estacionei o carro no estacionamento do Palácio.
- Preciso ser carinhosa com você? - Ela questionou. - Preciso, né?
- Exatamente.
- Eu não gostei da parte que tenho que morar com você. - Reclamou. - Eu queria... Eu queria viver minha vida normal e... Ai, que droga, eu devia ter dito não para o meu pai.
- Você terá seu quarto. Não sou um monstro, não está vendo? Eu paguei um dia maravilhoso pra você com meu amigo Otto, você não gostou?
- Gostei... Foi bom, mas eu estou com medo. - Ela confessou.
- Nós teremos uma conversa sobre seus medos. Eu não pretendo fazer nada que você não queira, Elena, acredite.
Olhei para os olhos castanhos, bem maquiados. Por Deus, que mulher linda. Ela tirou o batom da pequena bolsa que carregava e também um espelhinho. Passou o batom nos lábios e os juntou para espalhar melhor.
- Já está linda do jeito que está. - Comentei. - Não precisa de mais maquiagem.
- Uma futura esposa de um homem como você não pode ser apenas linda. Tem que ser perfeita, pelo que entendi. Meu pai me disse o tipo de homem que você é... Eu vou dar o meu melhor pra não estragar tudo. - Ela piscou um dos olhos para mim e eu sorri de forma maliciosa.
- Boa garota.
Eu saí do carro, dei a volta e abri a porta para ela. Ofereci minha mão, que ela pegou e eu gentilmente a ajudei a sair do carro. Ofereci meu braço e ela o pegou, e assim, caminhamos para o restaurante juntos. Assim que chegamos na recepção, eu varri o local com os olhos. Vi vários dos meus colegas do Cartel, outras pessoas desconhecidas e aquilo me fez sorrir de forma lateral. Na fila, esperando para sermos atendidos, parei atrás de Elena e apoiei minhas duas mãos em sua cintura. Ela estava de costas, virou o rosto para mim e eu sorri. Ela apoiou as duas mãos nas minhas e puxou meus braços, para que eu a abraçasse. Fiquei surpreso quando ela fez isso.
- Está confortável? - Sussurrei, próximo ao ouvido dela. Vi sua pele arrepiar e eu comecei a pensar em todo tipo de promiscuidade possível. Ela respirou fundo, parecia nervosa, talvez por ser a primeira vez dela fazendo algo assim, afinal, ela era apenas uma garotinha... Uma garotinha gostosa de dezenove anos, pronta para ser devorada pelo lobo mau.
- Estou. Sou sua noiva, preciso agir como tal...
Finalmente fomos atendidos. Eu a soltei, por mais que não quisesse. Além de gostosa, estava deliciosamente cheirosa. Passar as mãos nas costas dela, quase despidas, me deu vontade de puxar o zíper que segurava o vestido no lugar. Não faria isso no meio dos outros... Mas em particular, com certeza faria se ela deixasse.
Sentamos à mesa, e eu pedi um vinho caro. Apoiei minha mão na mesa e ela levou a mão até a minha.
- E você, está confortável? - Ela perguntou. Eu sorri de forma maliciosa.
- Mais do que imagina. Enquanto o vinho não chega, que tal uma dança na pista do outro lado do restaurante? - Eu apontei para o local.
Há uma linda pista de dança, onde uma música ao vivo tocada em um violino e um piano. Vez ou outra o pianista canta, como é o caso dessa música. É um cover de Heather, de Conan Gray. Uma música extremamente bonita, e bem lenta. Alguns casais se divertem na pista. Ofereço minha mão para Elena, em pé, para que se levante. Ela segura minha mão e sorri, me acompanhando até a pista. Ao chegar ali, apoio minhas duas mãos em sua cintura e ela apoia ambas em meu peito, as deslizando por ali. Seu rosto baixo, logo se levanta para olhar em meus olhos. Ela passa os braços ao redor de meu pescoço e sorri.
- Gosto de dançar. - Comentou.
Fiquei em silêncio. Minhas mãos em sua cintura foram ousadas o suficiente para tocar em sua pele exposta das costas, e eu a sentia, deslizava meus dedos por suas costas como se fosse um livro em braile.
Ela começou a mexer no cabelo de minha nuca, em um carinho leve.
- Já disse que está linda, mas preciso dizer novamente. Você é a mulher mais linda daqui. - Ela sorriu e olhou para baixo por alguns instantes. O cabelo dela é longo, quase até a cintura, e está solto e com ondas leves.
- Obrigada. - Seus olhos mais uma vez encontraram os meus.
Nossas bochechas, levemente encostadas, se desencostaram quando fiz meu rosto ficar de frente para o dela novamente. Encostei minha testa na dela, fazendo também que nossos narizes se tocassem. Ela continuava acariciando meu cabelo da nuca, de forma despreocupada. Fechou os olhos, deixando a música a levar. Eu a guiava sem pressa, ao ritmo da música. Uma mulher bem educada como ela sabe mesmo como dançar e seguir um homem. Ela deve ter tido aulas com os melhores professores.
Minhas mãos caminharam por suas curvas, até o final de suas costas. É, eu me aproveitei um pouco. Pouco tempo depois, vi que nosso vinho estava sendo colocado em nossa mesa.
- Vamos, o vinho chegou. - Avisei. Desfizemos o abraço e eu a levei até nosso lugar novamente. O garçom serviu o vinho em nossas taças e eu tomei um gole. Me impressionei ao ver que ela cheirava o vinho, rodando-o dentro da taça de forma leve.
- Excelente. - Comentou.
- Entende de vinhos? - Perguntei, curioso.
- Entendo de muita coisa, Nikolai. - Eu sorri ao ouvir o que ela disse. Minha futura esposa é surpreendente.
Tomei um gole do vinho e ao soltá-lo, peguei sua mão.
- Vou me ajoelhar na sua frente e te pedir em casamento, Elena. - Avisei.
- Faça. Estou ansiosa para ser pedida pelo meu amado namorado... Que acabei de conhecer. - Ela riu de si mesma, debochando.
- Não zombe, Elena. Você vai acabar se apaixonando por mim. Acredite.
- Só um homem muito solitário e incapaz de arrumar uma mulher por conta própria seria capaz de aceitar um casamento arranjado. - Ela disse.
Garotinha rebelde.
- Ou talvez um homem que tenha batido os olhos na filha de seu amigo e dito "é essa que eu quero e vou ter a todo custo." - Pisquei um dos meus olhos ao falar.
- Não seria mais fácil tentar me conquistar? - Perguntou.
- Não seria mais fácil tentar te conquistar depois de você já ser minha? Elena, sou eu contra eu mesmo agora. A chance de te conquistar é quase cem por cento.
- Você é um cretino egocêntrico. - Ela resmungou. - Esse casamento é culpa sua.
- É, é culpa minha, mas seu pai amou a ideia de fazer esse casamento. Ele vai ter um lucro do caramba e a empresa falida dele vai crescer. - Ela cruzou os braços ao me ouvir e bufou. - Desfaz essa cara agora.
- Sim senhor. - Resmungou.
Eu tirei uma caixinha preta, me ajoelhei na frente de Elena e abri a caixinha. Ela colocou as duas mãos em seu próprio rosto, fingindo surpresa.
- Elena, quero que seja minha esposa. Você é tudo que eu procurava em uma mulher. Aceita?
Ela parecia realmente nervosa, e essa foi a parte mais divertida. As pessoas ao redor começaram a observar. Ela concordou com a cabeça e ofereceu a mão.
- Sim, Nikolai! Você tem alguma dúvida? - Eu me levantei após colocar o anel no dedo dela, e ela se levantou também, me dando um abraço apertado. Eu a abracei de volta também. Elena me odeia e está fingindo tão bem que eu quase acreditei que seu abraço foi real. O que uma filha não faz pelo pai falido, não é mesmo?
Elena encostou os lábios nos meus de forma demorada, e eu apenas correspondi. Afastou o rosto do meu e sorria, olhando em meus olhos.
- Isso foi perfeito. - Comentei.
Viramos o centro das atenções e fomos aplaudidos após o sim.
- Dei o meu melhor. - Eu ri de um jeito bastante cretino. Ainda estávamos abraçados e falávamos baixo um com o outro.
- Se tivesse dado seu "melhor", Elena, estaria sem roupa na minha cama. - Ela sorriu de forma maliciosa.
- Tadinho de você, Nikolai. O único "melhor" que você vai ver, é esse: Eu, dando um selinho em você na frente dos outros.
- Me provoca mesmo, menina. Em duas semanas ou menos você vai estar sentada em mim, gemendo meu nome. - Vi a pele dela se arrepiar ao que eu disse isso.
- Você não sabe nada sobre mim. Eu sou muito resistente. - Afirmou.
Como se eu não gostasse.
- Eu só estou controlado porque estamos na frente dos outros, se não, estaria te provocando o suficiente pra você engolir cada uma das suas palavras sobre resistência. - Ela riu maliciosamente.
- É? Eu tenho pena de você, porque se você acha que eu vou ceder fácil, você está enganado. Você pode ser meu futuro marido, mas eu não vou facilitar as coisas pra você.
- Eu acho que você vai cair na minha lábia como um patinho, amor. - Afirmei.
- Egocêntrico.
Ela me soltou, e voltamos a sentar à mesa. Pedimos um prato, mas sinceramente, eu já não conseguia pensar em nada que não fosse comer a Elena. Eu não sei nem se vou conseguir me segurar dentro do carro, ou se aguentarei chegar lá. Eu a quero, porra, eu a quero muito. Como vou fazer pra me controlar? Sério, como vou me controlar com uma mulher assim?
Depois de um belo jantar, eu estava cheio e ela aparentemente também.
- Vamos embora? - Disse.
- Vamos, vamos sim. - Falou.
Ela parecia assustada, afinal, pela primeira vez iria ser levada para a minha casa. Agora, Elena é oficialmente minha noiva. As coisas dela haviam chegado hoje a tarde na minha casa e os empregados organizaram tudo no guarda roupa no quarto que preparei para ela.
Fiquei pensando em como foi dançar com ela naquela pista. Vai ser difícil resistir à essa mulher e por algum motivo, tudo que ela disse e fez despertou algo dentro de mim que eu não sou capaz de lidar. Não mesmo.
- Tudo bem? - Perguntou.
- Sim.
- Parece atormentado. - Eu dei risada. Estou atormentado porque eu tenho a porra da mulher perfeita no meu banco do carona, ela vai casar comigo... Porém não pelo motivo que eu gostaria.
- Estou. Muitos problemas no meu trabalho, se você quer saber. - Eu menti de forma descarada.
Ela olhou para a janela e suspirou.
- É um saco, problemas de trabalho sempre são um saco. Quer conversar?
- Não tem muito o que falar. Pessoas são falsas, pessoas cobrando coisas de mim que não estão ao meu alcance de resolver... Enfim. - Eu continuava dirigindo e apoiei a mão em uma das coxas dela. - Nós vamos nos casar no mês que vem. Precisa ser logo, como você sabe.
Ela respirou fundo e deu os ombros.
- Tudo bem, eu não tenho muita escolha, fazemos como for melhor pra você. Quer ajuda para preparar isso? Eu já cuidei de festas de casamento no restaurante e ao menos será divertido... Eu acho. - Concordei com a cabeça.
- Pode ser. Pareça uma noiva feliz e ansiosa para casar comigo, não se esqueça. Não é legal que você fique com aquela cara de bunda que você fez quando estávamos prestes a ficar noivos.
- Cara de bunda? - Ela deu risada. - Não se preocupe. Vou até escolher o vestido dos meus sonhos, acredite, estou suuuuper ansiosa pra me casar com você. - Ela deu risada.
- Por que está rindo? - Perguntei.
- Porque eu nunca quis me casar. A vida é engraçada... Minha irmã está surtando porque sou eu que vou casar com você, não ela. Ela tentou de todo jeito casar contigo, sabia?
- Ah, ela queria? - Concordou comigo ao me ouvir.
- Queria. Ela acha você o maior gato. Aliás, por que não escolheu ela? - Falou.
- Porque eu queria você.
- Eu deveria me sentir lisonjeada? - Perguntou e eu ri.
- Entenda como quiser. Foi amor a primeira vista.
- Que amor mais puro o seu... Oferecer dinheiro pra se casar com uma mulher é realmente muito romântico. - Ela disse, piscando os dois olhos de maneira irônica.
Tudo que eu podia fazer era rir.