Estava em meu quarto, observando meu reflexo no espelho. A luz suave da tarde filtrava pelas cortinas de veludo azul, lançando sombras delicadas sobre o papel de parede florido que Mamma havia escolhido anos atrás. Cheguei à conclusão de que, de fato, ela sabia escolher um vestido! O tecido azul escuro, quase preto, abraçava meu corpo como uma segunda pele, com mangas de renda que caíam nos ombros delicadamente, evocando uma fragilidade que contrastava com a força que eu precisava reunir naquela noite.
Era justo até a cintura, mas não vulgar; depois, o tecido se soltava um pouco nos meus quadris, descendo até um pouco acima dos joelhos e me dando um ar de pura elegância.A renda se deslocava por todo o tecido e ultrapassava o pano macio por debaixo, descansando em minhas coxas com uma sensualidade sutil, quase provocativa, que me fazia sentir exposta e poderosa ao mesmo tempo. Meus cabelos castanhos escuros estavam presos em um coque impecável, com algumas mechas soltas - duas adornavam as laterais do meu rosto, fazendo leves cachos até abaixo do queixo, como se fossem fios de seda tecidos para enquadrar minha expressão.
Meus olhos eram de um azul claro, como os de minha mãe, e embora ela sempre me dissesse que cores escuras os realçavam, eu não costumava usar maquiagens tão chamativas. Não achava que, na ocasião atual, isso seria uma boa ideia. Uma camada leve de rímel e um toque de batom nude bastavam; eu queria parecer confiante, não desesperada por aprovação.
Nos pés, coloquei um sapato preto fechado de salto alto, cujos cliques ecoavam no piso de madeira polida como um lembrete de que cada passo contava. Complementei com brincos pequenos de pérola, optando por não colocar colar, já que o decote pouco afundado já chamava a devida atenção. Eu girava devagar diante do espelho, ajustando a postura, sentindo o peso da expectativa que pairava no ar da casa.
Aquela não era uma noite qualquer.
Meu coração batia um pouco mais rápido, não só pelo vestido, mas pelo que ele representava: um jantar que poderia mudar tudo.
Ouvi batidas leves na porta, um toque educado e hesitante. Respondi que entrasse, virando-me ligeiramente para ver quem era.
- Com licença, senhorita Bianchi, seu pai pediu para avisá-la de que o convidado já chegou - disse Sabrina, parada na entrada da porta, uma de nossas empregadas mais antigas. Seu uniforme impecável de saia preta e blusa branca a fazia parecer parte da mobília, mas havia algo em sua voz, uma tensão sutil. A forma como ela se referiu ao homem que acabara de chegar me fez parar de olhá-la pelo reflexo do espelho e me virar completamente. Seu gesto sutil com os olhos me indicou a figura um pouco menor que ela, logo atrás, esperando por sua vez de falar comigo. - Estão no escritório e logo irão chamá-la! - continuou Sabrina, com um aceno rápido.
- Tudo bem, eu já irei descer - dei a ela uma afirmação afetiva com a cabeça, como quem diz "eu cuido disso" , e a jovem se retirou com um passo apressado, permitindo que a adolescente de cabelos negros atrás dela entrasse completamente em meu campo de visão.- Pode entrar, Cat! - A menina não esperou por um segundo convite. Ela cruzou o limiar com a determinação de quem carrega um segredo pesado demais para seus ombros frágeis.
Veio até mim com olhos curiosos e desconfiados, seus cabelos negros ondulados caindo soltos sobre os ombros magros, vestindo um simples vestido de algodão azul-marinho que realçava sua silhueta esguia de criança em transição para a adolescência. Cat era como uma versão mais jovem e selvagem de mim mesma, mas com uma inocência que o mundo ainda não havia corroído completamente.
Seus pés descalços pisavam o tapete persa com leveza, e eu podia ver as unhas roídas de nervoso nas mãos pequenas.
- Está tudo bem? - perguntei, inclinando-me ligeiramente para ficar no nível dela. Ela assentiu, mas olhou novamente para a porta, como se esperasse que alguém surgisse das sombras. Compreendendo seu desconforto imediato, fui até a mesma e a fechei com um clique suave, isolando-nos do burburinho distante da casa. Voltei até ela e nos guiamos até a cama, sentando-nos na beirada coberta por uma colcha de linho bordado. Olhei em seus olhos castanhos profundos, procurando qualquer sinal do que poderia estar sentindo, e só encontrei confusão misturada a uma determinação teimosa. - Temos poucos minutos até que Mamma venha atrás de nós. Diga-me, o que houve? - Ela balançou a cabeça negativamente, mordendo o lábio inferior.
- Parece que tem alguma coisa... errada. Sinto que todos estão me escondendo alguma coisa. Nem mesmo as empregadas me falam nada - eu sabia exatamente do que ela estava falando. A casa inteira vibrava com uma energia elétrica, um silêncio carregado que só quem crescera ali reconheceria. Mas uma parte de mim ainda queria adiar aquela conversa e manter minha palavra com meus pais, de que não diria nada a Cat até que Mamma decidisse lhe contar.
Era uma promessa feita em voz baixa, no escritório de Papà, onde o cheiro de charuto e uísque pairava como uma névoa de segredos.
- Não falam nada sobre o quê? - tentei ganhar tempo, alisando uma mecha solta de seu cabelo para disfarçar o nervosismo.
- Sobre esse jantar! Quem é tão importante que parece ter deixado todos nervosos, até mesmo o Dom? - Seus olhos se arregalaram ao dizer aquilo, como se as palavras tivessem escapado sem permissão.
- Não o chame assim, sabe que não é permitido! - censurei em sussurros, olhando rapidamente para a porta, como se alguém pudesse estar atrás dela, escutando. Pois, às vezes, as paredes tinham ouvidos nessa casa. Crescer na sombra da máfia nos ensinava isso cedo: palavras eram armas, e ouvidos invisíveis estavam sempre à espreita. Lembrei-me de uma noite, anos atrás, quando uma conversa sussurrada entre empregadas custara a um motorista a lealdade - e talvez mais - do chefe.
- Desculpe... - ela baixou os olhos e apertou as mãos uma na outra, uma mania que tinha desde pequena quando ficava nervosa. Seus dedos tremiam levemente, e eu segurei-as para lhe passar conforto; não queria que sentisse que eu estava brigando com ela. Minha palma contra a dela era quente, um laço silencioso entre irmãs improváveis.
- Só não quero que se meta em problemas com isso, está bem? - Ela assentiu, os semi-cachos negros balançando. - Mas... acha mesmo que todos parecem nervosos? - Ela bufou de frustração, cruzando os braços magros.
- Eu não acho, tenho certeza! O cozinheiro derrubou uma panela hoje de manhã, e Sabrina está limpando o chão pela terceira vez. Até o cachorro parece agitado! - Assenti, refletindo sobre suas palavras.
Caterina era, de fato, uma garota muito observadora. Crescer na máfia fazia com que ficássemos alertas, especialmente na situação dela - órfã de mãe, acolhida por nós desde que nascera, há 11 anos atrás após um "acidente" que ninguém mencionava. Também não ousei discordar; de fato, Damiano Rossi parecia abalar qualquer um com a simples menção de sua presença, até mesmo meu pai, que comandava com punho de ferro.
Eu havia ouvido histórias sobre ele: o Underboss implacável, braço direito de meu pai, que havia sido preso após complicações com a polícia e um bar em chamas, o rastro de lendas sombrias sobre seus atos ecoando pelos corredores.
De qualquer forma, eu sabia em meu íntimo que esconder a verdade era injusto, pois era direito dela saber... Saber que aquele jantar não era só uma recepção, mas uma aliança selada em pratos de porcelana fina...
- Cat... - Quando comecei a falar, decidida a lhe contar pelo menos uma fração da verdade - que Damiano era o homem que Papà havia escolhido para ser meu marido -, ouvi passos familiares vindos da escada, firmes e ritmados como um relógio marcando o destino. - Olha, não tenho tempo para lhe explicar tudo agora, mas prometo explicar tudo hoje à noite, ok? - Ela me pareceu preocupada, os olhos úmidos de dúvida, mas assentiu com relutância. - Vamos, finja que está me ajudando com o vestido.
Continua...
Me levantei às pressas e logo Cat estava de pé, descendo o zíper do meu vestido para então subi-lo devagar e fazer a encenação perfeita para a mulher que acabara de abrir a porta sem bater.
- Alessia! - Nós nos viramos com a aura de mais pura inocência, e eu percebi a desconfiança nos olhos que refletiam os meus - os mesmos olhos azuis, mas endurecidos por anos de decisões implacáveis. - Achei que já estivesse pronta!
- Oh, sim, Mamma. Estava, mas precisei ajustar meu sutiã; estava um pouco apertado e Cat me ajudou - menti com a facilidade de quem crescera praticando.
Valentina Bianchi, minha mãe, não pareceu convencida, seus lábios se apertando em uma linha fina, mas assentiu mesmo assim, como se decidisse que o momento não era para confrontos.
- Muito bem! Seu pai aguarda na sala de jantar, não o deixe esperando! - Ela indicou a porta com um aceno de cabeça e sua postura rígida mudou de imediato quando se voltou para Cat. - E você, querida, venha comigo. Margareth está fazendo o seu bolo preferido! - Ela passou o braço afetivamente pelos ombros de Caterina e a guiou pelo corredor, como uma leoa, protegendo sua cria adotiva.
Caminhei atrás delas, sentindo o cheiro floral do perfume de Mamma se misturar ao ar carregado de tensão. Nunca me incomodei com o fato de o afeto de minha mãe sempre ter sido mais direcionado à Cat. Na verdade, me sentia feliz por ela ter uma figura materna que a acolhia, especialmente depois de perder a sua em circunstâncias que Papà descrevia como "lamentável".
Mas uma vez ou outra eu gostaria que minha mãe fosse tão compassiva comigo também - um abraço sem condições, um elogio sem estratégia.
Deixando de lado meus pensamentos egoístas, desci as escadas de mármore, cada degrau ecoando como um batimento cardíaco acelerado, e fui direto para a sala de jantar. Mamma entregou Cat à Sabrina, que andou em direção à cozinha junto à garota, rindo de algo que só elas entendiam, e veio até mim para que entrássemos juntas.
A tão respeitada Sra. Bianchi vestia um vestido justo e de corte reto na cor vinho, com mangas até os cotovelos, liso, que descia até abaixo de seus joelhos. O sapato lhe dava um ar ainda maior de elegância - um scarpin da mesma cor da roupa. Os cabelos negros soltos, com as pontas cacheadas, adornavam seu belo rosto, realçando os traços afiados e os lábios pintados de um vermelho sutil.
Ela era a personificação da graça mafiosa: bela, letal e impecável.
- Respire fundo, querida. Poderia ser bem pior, acredite! - Ela sabia bem como isso poderia ser pior. Minha mãe ainda era muito jovem se comparada à idade de meu pai quando se casou com ela; ela tinha 17 anos e ele 30. Um casamento arranjado que dera certo, pelo menos na superfície, mas que me ensinara lições sobre sacrifício cedo demais. Por esse motivo, não me irritei com as palavras que me disse. Apenas assenti e caminhei para dentro do cômodo, me concentrando em apenas colocar um pé diante do outro para não tropeçar com os saltos.
A sala de jantar era um espaço amplo e imponente, com paredes forradas de painéis de madeira escura que absorviam a luz suave das velas em candelabros de prata, e uma mesa longa de carvalho polido no centro, posta com porcelana fina de Limoges, talheres de prata esterlina e cristais reluzentes sob um lustre de cristal que pendia como uma coroa de luz, lançando prismas dançantes no ar. O aroma de assados, ervas frescas e vinho envelhecido preenchia o ambiente, misturando-se ao leve perfume de charuto que Papà sempre deixava para trás. Reuni coragem para erguer meus olhos e encarar o homem ao lado de meu pai.
Damiano Rossi.
E precisei de toda a minha compostura para sustentar seu olhar, pois em nada estava preparada para a beleza do homem à minha frente...
Ele estava de pé, uma presença imponente que dominava o espaço sem esforço, como se a sala tivesse sido construída ao seu redor. Os olhos de um castanho escuro, quase preto, me encaravam indecifravelmente, profundos como abismos que guardavam segredos inconfessáveis. Diferente da grande maioria, seus olhos não percorreram meu corpo com a lascívia habitual de homens como aqueles; se mantiveram nos meus, desafiando, avaliando, hipnotizando. Os cabelos escuros, recém-cortados, estavam um pouco maiores do que o habitual para um homem da máfia costumava usar; a barba estava rala, mas tudo isso só o deixava ainda mais bonito, com um ar de rebeldia controlada. Os lábios eram finos e rosados, nariz reto que aparentava ter sido emoldurado por deuses... Ele vestia um terno preto e elegante, sob medida, com uma camisa branca imaculada por baixo, o colarinho aberto revelando um vislumbre de pele bronzeada.
Era muito mais alto do que eu, pelo que reparei ao me aproximar. Considerando que usava saltos naquele momento e mesmo assim precisei erguer o queixo para continuar nosso embate de olhares, ele devia medir bem mais de um metro e noventa.Meu pai, sentado à cabeceira, sorria com orgulho, seu terno cinza contrastando com a gravata vermelha que simbolizava sangue e lealdade. Ele ergueu a voz, quebrando o silêncio carregado.
- Alessia, esse é Damiano Rossi. Meu Underboss que finalmente está de volta! - Fiz uma nota mental de não entrar nesse assunto, já que sabia bem o que significava "estar de volta" no caso dele: anos sumido atrás de grades, comendo o que lhe era oferecido em um ambiente tão hostil quanto a cadeia podia ser, e agora, voltava para reclamar seu lugar - e talvez mais.
- Damiano, essa é minha filha, Alessia Bianchi. - Sorri e aceitei a mão que ele me ofereceu sem desviar os olhos dos seus.
Sustentei o contato enquanto mantinha o olhar, percebendo a aspereza de suas mãos - marcas de lutas passadas, calos de poder - e a firmeza da mesma, como se ele pudesse esmagar mundos com um aperto.
- É um grande prazer, Sr. Rossi - falei, já um pouco constrangida com a troca de olhares que parecia durar uma eternidade.
- O prazer é todo meu, senhorita. - A voz rouca e grave quase fez minhas pernas fraquejarem e como se não bastasse, ele fez algo que me tirou o fôlego. Com o seu aperto firme em minha mão, ele a levou até os lábios, beijando delicadamente o dorso, ainda mantendo os olhos em mim. O toque de sua boca era quente, reverente, enviando um arrepio pela minha espinha. Senti as bochechas esquentarem e um calor incomum subir pelo meu pescoço, traçando um caminho até as orelhas.
Olhei de relance para Papà, que me pareceu mais do que satisfeito - um brilho calculista em seus olhos -, e fomos nos sentar à mesa de jantar. As cadeiras de encosto alto rangeram levemente sob nosso peso, e o vinho foi servido em taças que tilintavam como promessas frágeis. A noite mal começara, mas eu já sabia: Damiano Rossi não era só um convidado. Ele era o futuro, e eu, parte do acordo já acertado.
O lustre de cristal pairava sobre nós como uma guilhotina de luz, fragmentando reflexos em mil prismas que dançavam sobre a mesa de carvalho polido. O ar da sala de jantar estava saturado com os aromas do jantar servido: alho caramelizado do risoto de funghi, o suculento gotejar do molho bordelaise no filé mignon, e agora, o doce café de um espresso fresco, misturado ao cacau amargo do tiramisù. Cada garfada era um ritual, mas meus sentidos estavam afiados para as palavras não ditas, os olhares que cortavam como lâminas.
Don Domenico Bianchi, o Boss incontestável da Outfit em Chicago (e meu pai) - presidia a cabeceira, seu terno cinza impecável contrastando com a gravata vermelha-sangue. À sua direita, Mamma, Valentina Bianchi, com seu vestido vinho que abraçava suas curvas maduras como uma segunda pele, mal deixava não transparecer sua empolgação com a união.
Já eu, Alessia, à esquerda de meu pai, sentia o tecido azul escuro do meu vestido colar à pele suada pela tensão, tentando não me ofender com esse acordo que tinha a mim como recompensa e tentando considerar que apesar de tudo, eu me casaria com um homem jovem e arrebatadoramente lindo, ao invés de algum velho nojento e agressivo.
Bem, essa última parte eu teria que conferir, afinal, Damiano é conhecido por ser implacável em seu trabalho...
À frente, Damiano Rossi parecia uma estátua viva de poder contido: o terno preto sob medida lhe caía mais do que bem, barba rala emoldurando lábios finos, olhos castanho-escuros que pareciam engolir a luz e os cabelos negros como o breu.
- Damiano, esses onze anos te mudaram! - disse Papà, girando o copo de Brunello di Montalcino, o vinho rodopiando como sangue em veias. - Mas acredito que não deveria esperar por menos, depois desse tempo é claro que voltaria um homem feito! - Papà inspirou profundamente - seu pai teria orgulho.
Damiano cortou um pedaço preciso de tiramisù, o garfo deslizando como uma navalha. Seus olhos não piscaram.
- Eu agradeço o reconhecimento, Don. Agora que voltei pretendo prosseguir com meu trabalho mais ativamente do que quando estava longe. - sua voz era baixa e controlada. Um homem intocável, analisei hipnotizada.
Eu não sabia ao certo o motivo da prisão de Damiano anos atrás, era pequena no e me envolviam bem menos do que agora com a família. Um "homicídio" pelo que ouvi e por motivos que eu desconhecia Papà lhe devia agradecimentos e daí o meu noivado, prometida à ele quando tinha apenas 10 anos.
Papà assentiu devagar, limpando os lábios com o guardanapo de linho enquanto comia. Eu tentava fazer o mesmo, mas meus olhos se voltavam para Damiano como se fossem imãs atraídos.
- Estou mais do que satisfeito por ter meu underboss de volta, mas adoraria que por hoje não falássemos tanto de negócios... Com uma excessão, é claro! - senti os olhos de Papà em mim e então ergui os olhos para me deparar com as pupilas negras que me avaliavam. Corei instantâneamente e voltei meu olhos para a taça de vinho à minha frente, tentando ao máximo não engasgar tão explicitamente com a comida que travou ao tentar engoli-la.
- Como preferir, se estiver confortável para todos, é claro. - fui obrigada a erguer meu olhar novamente após notar os segundos silenciosos que se seguiram após ele falar e encontrei me encarando, esperando por uma resposta.
Pela expressão de meu pai, a pergunta implícita de Damiano não o agradou: ele não achava nada relevante pedir opinião às mulheres quando os homens eram claramente o sexo dominante em nosso mundo.
Minha mãe parecia... Chocada, para dizer o mínimo, mas o pequeno sorriso no canto de seus lábios me dizia que ela aprovara a postura de seu futuro genro.
- Sim! - voltei-me para meu futuro marido. - Eu adoraria. - Papà pigarreou e erguer sua taça.
- Um brinde então, a uma nova união! E que possamos fortalecer os laços como família!
Nós brindamos, o cristal tilintando como algemas se fechando. Eu sorvi o vinho, sentindo seu tanino amargo na língua, enquanto minha mente girava: lealdade eterna incluía o meu noivado, comprometimento e deveres, de uma esposa deveriam ser cumpridos... Tentei não demonstrar meu nervosismo com a linha de raciocínio que seguia em meus pensamentos. Fui prometida anos atrás como "agradecimento" pelo sacrifício dele e agora teria que me dar por satisfeita.
"Poderia ser pior", a voz de Mamma ecoou em minha cabeça e sabia que de certa forma, ela tinha razão.
Senti o peso da observação de Damiano em meus ombros e como parecia ser o costume de agora em diante, meus olhos foram atraídos. Não sabia dizer se algo o desagradava ou não, pois sua expressão era ilegível, mas jurava ter visto um brilho de descontentamento em seus olhos, antes que ele os desviasse.
Mamma também observava tudo com olhos azuis calculistas, idênticos aos meus. Ela pousou a colher no prato vazio de tiramisù e sorriu, quebrando a tensão.
- Homens e negócios... sempre o mesmo. Damiano, talvez esteja cansado de lidar com tudo tão categoricamente. Talvez seja bom lembrar que a vida aqui fora pode ser um pouco mais descontraída. Por que não toma um tempo a sós com Alessia após o jantar? O terraço tem uma vista linda da cidade à noite. Ar puro para... esclarecer assuntos e se conhecerem um pouco. - Seu tom era maternal, mas afiado como uma lâmina de manteiga. Ela sabia do acordo desde que fora firmado; fora ela quem costurara os detalhes do vestido hoje, sussurrando: "Ele ficará encantado com você". - Um casamento não é feito apenas de negócios, não é querido? - Papà assentiu a contragosto, mas até mesmo ele reconhecia a necessidade de conhecer ao menos um pouco o seu cônjuge antes do casamento.
Damiano virou-se para mim, um sorriso lento que não subia aos olhos curvando seus lábios rosados.
- Uma ideia excelente, signora. Alessia? - Meu coração martelou, mas assenti, as bochechas aquecendo sob seu olhar.
Papà grunhiu aprovação, acendendo um charuto cubano, a fumaça subindo em espirais preguiçosas.
- Falaremos sobre a data do casamento posteriormente - 01 de novembro. Mamma havia me dito que está seria a data ofertada por Papà. Ocorreria na capela da família Bianchi em Lake Michigan.
Tais palavras caíram como um martelo. 01 de Novembro seria daqui há quatro meses. Eu, aos 21, casada com o homem de 30, o Underboss temido por toda a Organização, rico, impiedoso e lindo... Mamma parecia mais do que orgulhosa quando apertou minha mão sob a mesa, um gesto de "aceite".
Antes que Damiano respondesse, ele limpou a garganta, assentindo e então Mamma assumiu novamente a conversa, antes que o silêncio constrangedor se instalasse.
- E tenho certeza que Caterina irá adorar as boas notícias!
Damiano a olhou de imediato, os olhos suavizando pela primeira vez.
- Caterina? - A pergunta saiu casual, mas eu o vi fechando o punho. Entendi o que ele queria saber e então respondi.
- Mamma achou uma boa ideia manter o desejo de sua falecida esposa sobre o nome de sua filha... - ele me olhou, quase como se fosse uma agradecimento contido.
- Eu jamais poderia desonrá-la! - Mamma pôs a mão sobre o peito e pude ver o afeto estampado em seus olhos. - Sua filha é uma garota brilhante, Damiano. Sentirá orgulho ao conhecê-la!
Damiano abriu a boca para responder, os olhos escuros já não demonstravam sua emoção como há poucos segundos atrás, havia retomado a postura - 11 anos sem ver sua filha, anos trocados por lealdade à Outfit. - Eu...
CRASH!
A porta dupla da sala de jantar explodiu aberta com um estrondo de madeira contra parede. Uma figura pequena tropeçou para dentro, caindo de joelhos no tapete persa, as duas mãos magras apoiadas no chão para se equilibrar. O tilintar de talheres nos pratos ecoaram em uníssono.
Papà olhou calmamente na direção dela, estreitando os olhos, e Mamma engasgou com o vinho.
Eu apenas permaneci intacta, as talheres que antes estavam em minhas mãos caídas no prato enquanto olhava para o chefe de nossa família e a menina de cabelos negros que claramente ouvia detrás da porta.
Era Cat.
Seus cabelos negros ondulados cascateavam sobre o rosto corado, o vestido de algodão azul-marinho amarrotado da cozinha. Ela ergueu o olhar devagar, os olhos - castanho-escuros profundos, quase pretos, idênticos aos de Damiano - arregalados em choque puro e medo. O ar pareceu congelar. Os olhos dela correram para os dele do outro lado da mesa, de quatro no chão, como um cervo avistando o lobo. O reconhecimento era instintivo, elétrico: mesma intensidade, mesmo formato arredondado do rosto, o mesmo breu dos olhos.
Eu segurei a respiração, o coração na garganta, um pânico gelado me invadindo. Não agora. Não assim.
Cat acabara de descobrir tudo - ou o suficiente para ruir seu mundo. Ela sabia que o pai havia sido preso por cumprir com os deveres de um Homem de Honra, mas ninguém havia lhe contado que ele sairá, que viria até ela como seu pai, ou que se casaria com salua considerada irmã mais velha que agora seria sua madrasta.
Ela tropeçara na porta escutando, o que por si só já era motivo suficiente para que Papà ou Mamma a punissem.
Levantei-me num salto, o som de meus passos ecoando alto, clicando no piso, enquanto corria para ela.
- Cat! Você está bem? - A segurei pelos braços, colocando-a de pé. Detrás de mim ouvi cadeiras sendo empurradas e não precisei me virar para saber que Damiano estava de pé. - Venha, levante-se! - Minha voz saiu em um sussurro, mas Cat não olhava para mim, encara algo a diante e escutei passos vindo em nossa direção até ver o par de sapatos preto social ao meu lado.
Embora não precisasse olhar para saber que era ele, ergui meus olhos para me deparar com Damiano Rossi parado ao meu lado de pé, enquanto eu estava agachada ao lado de sua filha.
Ela piscou, ignorando-me, fixada em Damiano.
Ele não disse nada, sua atenção voltada para a menina. Oferecer-lhe a mão educadamente, como um cavalheiro que nós dois sabíamos que ele não era.
- Desculpe... - murmurou baixo, a voz trêmula, as mãos ainda no tapete, unhas cravadas nas fibras enquanto lentamente tentava se levantar, aceitando relutantemente a mão enorme que lhe era oferecida.
- Vejo que puxou a sua mãe no que se trata de curiosidade e rebeldia... - disse ele, em um tom sério.
Me levantei ao mesmo tempo que Cat, acompanhando-a de perto, me mantendo ao seu lado e pronta para defendê-la do próprio pai se necessário.
E o que pensei que seria uma reprimenda, tornou-se algo desconhecido me trazendo uma sensação completamente nova e confusa quando o vi sorrir pela primeira vez.
- Fico feliz em perceber que ela não me decepcionou. - a reação de Cat foi parecida com a minha, mas logo a menina relaxou e sorriu de volta e eu poderia jurar que seu sorriso abalou por um milissegundo a armadura impenetrável de Damiano quando seus olhos brilharam com afeto pela filha.
Papà grunhiu em desaprovação, colocando seu charuto no apoiador.
- Mas que diabos! Suas empregadas não conseguem manter uma criança sob vigilância , Valentina? - Mamma tentou responder, mas ele se levantou, resignado.
- Domenico, por favor... - falou Mamma, mas em nada ela poderia ajudar se ele decidisse puni-la.
Ao ver nosso pai se aproximar, a garota tremeu e encolheu perto de mim, olhos assustados e o aperto forte em meu braço quando inconscientemente me coloquei diante dela, encarando meu pai.
- Ela não fez por mal, Papà... - apertei levemente a mão dela em apoio.
- Saia da frente, Alessia. - ordenou, mas me mantive no lugar.
O homem a minha frente assumia a postura do Boss da Outfit e não de meu pai, agora irritado pela a minha audácia em contradizê-lo e enfrentá-lo.
Papà deu de ombros, já conhecendo bem a cena, acostumado com minha proteção com Cat e claro, estando mais do que disposto a infligir o castigo de sempre.
- Que assim seja, então. - Domenico Bianchi ergueu sua mão e eu esperei pelo tapa, ainda protegendo Cat, que choramingou baixinho por eu, mais uma vez, apanhar em seu lugar.
Esperei pelo tapa e meu rosto virou bruscamente para o lado quando a mão pesada de meu pai atingiu meu rosto, o gosto de sangue inundou minha boca segundos depois.