Havia uma bela cafeteria localizada na 34th, chamada "Ellen's coffe". Era um lugar calmo, geralmente com poucos fregueses e consequentemente silencioso. Perfeito para degustar um café com leite na presença de um romance histórico de Jane Austen, deixar-se envolver num dos romances policiais da dama do crime, vulgo Agatha Christie, ou fazer um acordo que mudará o rumo da sua vida para sempre.
Quando abri a porta um sininho tocou levemente, como que anunciando a chegada de mais um freguês. O espaço era bastante quentinho, contrastando com o clima frio de fora, um lugar aconchegante com paredes de tijolo, e mesinhas em estilo bistrô, que davam a vista para o movimento dos transeuntes à nossa frente. Tão logo aproximei-me do balcão para fazer o meu pedido, uma garota de cabelos ruivos com uma franjinha e um rosto sardento logo notou à minha presença.
__ Bom dia, senhorita. O que deseja?- proferiu com um sorriso cortês.
__ Eu vou querer uma caneca de café puro e sem açúcar e um pão francês com manteiga sem sal light.
Ela anotou rapidamente em seu bloquinho de notas. Dei uma rápida olhada no relógio e ocupei uma mesa mais afastada das demais, aquele ponto de encontro foi escolhido minuciosamente, o meu futuro acompanhante não gostava de atenção indesejada.
Pelo menos foi o que eu pensei antes de vê-lo descendo de uma Ferrari preta novinha em folha, é claro que aquela exibição não passou batida aos olhos dos poucos fregueses dentro da cafeteria e de algumas pessoas que andavam pela avenida.
Embora eu o detestasse com todas às minhas forças no momento, tinha de admitir que Antonio de Santis era um homem de tirar o fôlego, à sua beleza estonteante não passava desapercebida por nenhuma mulher.
Antonio Geovani de Santis, 37 anos de pura prepotência e diretor de um grande império bancário. Apesar da tenra idade ele tinha a astúcia do diabo, sabia usar todo o dinheiro, influência e beleza que possuía ao seu favor.
O homem adentrou o estabelecimento e bastou uma rápida avaliação pelo espaço para que os nossos olhares se cruzassem. Eu senti um calafrio perpassar por minha coluna quando ele começou a caminhar até mim.
Antonio sabia do poder que exercia sobre as pessoas à sua volta e aquilo só alimentava ainda mais o seu ego.
Quando ele ocupou a cadeira à minha frente eu adotei uma expressão sisuda e endireitei à postura como mademoiselle Felicy me ensinara nas suas aulas de etiqueta. O cheiro do seu perfume inebriante trouxe consigo pensamentos libidinosos que envolveram à minha mente de uma forma perversa.
__ Eu trouxe o contrato, quero que você o assine agora.
Antonio de Santis pronunciou sem cumprimentos ou conversas triviais. A sua voz era firme e destacava o facto de estar impaciente.
__ Senhorita aqui está o seu pedido.
A garota ruiva anunciou, parada ao nosso lado com um sorriso nervoso. Os seus olhos estavam presos no homem de expressão séria que estava prestes a esganar-me caso eu não assinasse um maldito contrato que selaria as nossas vidas para sempre caso eu não interviesse.
__ Obrigada querida.__ sorri gentil, ajudando-a a colocar o meu pedido sobre a mesa.
__ O senhor vai querer algo?
A ruiva franziu as sobrancelhas e mordeu o lábio inferior. Antonio fitou-me nos olhos intensamente, um claro aviso de que ele estava a perder a porra da paciência.
__ Os senhores têm whisky?
Eu revirei os olhos e encarei a menina, vendo-a com a boca escancarada.
__ Ele vai querer um café puro.
Ela assentiu e retira-se, parecendo nervosa. Fito Antonio com o sobrecenho franzido, eu não estava disposta a assinar aquele contrato pré-nupcial deliberadamente, à minha liberdade estava em jogo.
__ Se aceitei casar-me com o senhor foi por consideração ao meu pai que lutou tanto para construir o seu império. Iria cortar-me o coração ver os bens que ele se matou para conseguir irem parar à mão de estranhos.
Antonio sorri de lado, um sorriso cínico e carregado de escárnio.
__ Poupe-me do seu discurso fraternal, Savanah. Ambos sabemos que é uma mulher egoísta, se aceitou casar-se comigo, é porque está preocupada com o seu futuro. Tem medo que à sua carreira despenque caso as pessoas saibam que à sua família foi à falência e que o seu pai deixou-vos como herança inúmeras dívidas.
Eu olho para os lados, preocupada com a possibilidade de algum curioso estar a ouvir a nossa conversa. Seria o cúmulo para mim se amanhã essa informação estivesse nos principais tabloides de fofocas.
__ Cale à sua boca Antonio. Eu proíbo você de tocar nesse assunto! E o senhor não é nenhum santo que irá casar-se comigo por amor. Essa união irá beneficiar mais a si do que à minha família.
Eu calo-me quando a garçonete chega com o pedido. Ela deixa-o cuidadosamente sobre a mesa antes de retirar-se. E claro, ela não conseguiu segurar um suspiro bobo ao olhar para o Antonio com devoção.
__E você tem muito a perder caso não saiba. Como julga que à sua mãe vai continuar a pagar os seus solos e os críticos para você continuar como a número um da Royal Ballet School?
Eu olhei para o homem à minha frente com incredulidade e ceticismo.
__ O que disse?
A minha voz soara esganiçada e alta demais, fazendo com que os poucos fregueses me encarassem de modo repreensor.
__ Deixe de teatro Savanah. Vai dizer que não sabe que à sua mãe paga uma fortuna à mademoiselle Candace para lhe dar os melhores solos nas peças?
Eu estreito os olhos na sua direção e cerro os punhos.
__ Está a mentir, como sempre quer me humilhar, pois, saiba que eu não sou como você. Não preciso recorrer a "artifícios" para sobressair-me. Se estou onde estou foi graças ao meu sacrifício e dedicação.
À sua risada reverbera pelos meus ouvidos, deixando-me ainda mais encolerizada.
__Eu não minto mia cara. Se tem dúvida do que estou-lhe dizendo pergunta à sua querida mãe.
Eu levanto-me bruscamente, fazendo com que a cadeira caia ao chão, provocando um barulho horrível e tornando-me mais uma vez o centro das atenções. Mas, eu não liguei, abandonei a cafeteria pisando duro.
Eu temia que aquela informação fosse verdadeira, que Antonio não estivesse a jogar só mais um dos seus joguinhos sádicos, pois ele tinha prazer em provocar-me e fazer-me perder a postura.
Amaldiçoo o dia em que nos vimos pela primeira vez a seis anos atrás. Tinha quinze anos e estava deslumbrada com ele. Eu e metade das mulheres que preenchiam o salão onde decorria mais um dos jantares beneficentes organizados por Dakota de Santis, à sua madrasta, que por ironia era uma das pivôs do casamento arranjado que eu e o seu enteado estávamos prestes a protagonizar.
Antonio era demais em todos os sentidos. Grande e alto demais, moreno e esguio demais, sensual e bonito demais, arrogante e prepotente demais, soberbo e cínico demais.
Dentro daquele salão ele olhava para todo o mundo com desdém. E para o meu azar eu havia derramado uma taça de champanhe rosé no seu terno caro, a partir daquele dia ele marcou-me e passou a infernizar-me sempre que nos cruzávamos em algum evento. Ele odeia-me. Mas, não creio que o seu ódio seja apenas por eu derramar aquela bebida na sua camisa feita sob medida por um importante alfaiate italiano como ele fez questão de ressaltar entre dentes.
Eu gostaria de saber o motivo de tanta aversão, que começava a ser recíproca pelo jeito como ele me tratava.
Eu estacionei o carro em frente a mansão Wayne de qualquer jeito. Passei por Klein, o mordomo, sem lhe dirigir a palavra e subi o lance de escadas que levava ao andar superior, onde ficavam as suites.
Quando adentrei o quarto de Georgina Wayne pude vê-la ainda deitada na sua cama, com uma máscara de dormir nos olhos e a sua cadela Maria fifi fazendo-lhe companhia.
__ Klein ainda bem que chegou, avise a uma das empregadas para preparar o meu banho.
Eu cruzei os braços e soltei um pigarro. Ela retirou a máscara e soltou um sorriso de orelha a orelha quando me viu.
__ Filhinha do coração! A Dakota contou-me que você e o Antonio marcaram de encontrar-se hoje para conversarem sobre o casamento. Fiquei feliz por saber que finalmente ganhou juízo e parou de fugir dele.
Ele divagou com os olhos arregalados.
__ É verdade que a senhora costuma pagar os críticos para darem-me uma boa avaliação?
Eu solto um suspiro e sinto os meus olhos marejando diante do seu silêncio.
__ Quer dizer que eu sou uma fraude. Para a senhora e para as pessoas à minha volta eu não tenho nenhum talento!
Eu acabo gritando, fazendo com que Maria fifi se assuste.
__ Você está deixando à minha bebé assustada. Eu não fiz por mal Savanah, eu queria apenas proteger você. Deveria agradecer-me.
Fito-a incrédula.
__ Agradecer? A minha vida é uma mentira. O balett é a minha vida, eu sempre acreditei que realmente era boa. Eu até aceitei casar-me com o prepotente do Antonio para que a mídia não caísse sobre mim quando soubessem das dívidas que a senhora conseguiu com os seus gastos absurdos.
Ela coloca a mão sobre o peito teatralmente.
__ Esqueceu que o seu carro custa mais do que o salário de um funcionário do governo? Esqueceu que vive numa zona nobre da cidade? Savanah Wayne você sempre teve uma vida de rainha, para de ser ingrata! Eu sempre fiz tudo por você. Sempre comeu e bebeu do melhor, às suas roupas são caríssimas e eu subornei aqueles críticos e à diretora da academia para lhe fazer feliz.
Eu passo a mão no rosto incrédula com à sua falta de senso.
__ Está a dizer que eu deveria agradecê-la por fazer-me acreditar que eu era boa o suficiente para conseguir aqueles solos quando, na verdade não era? Provavelmente eu sou uma piada para todo o mundo mamãe.
Ela levanta-se da cama e veste o seu robe.
__ Deixa de ser exagerada. Você é uma ótima dançarina Savanah, o que eu fiz foi apenas um empurrão para alavancar à sua carreira. Vem cá minha Maria fifi, olhe para a ingrata da sua irmã.
Reviro os olhos.
__ Eu não sou irmã dessa cadela.
Um sorriso debochado molda-lhe os lábios carnudos.
__, Mas, está agindo como uma cadela. Uma cadela burra. Ao invés de lamentar-se por eu ser uma mãe atenciosa e prestativa deveria estar orgulhosa por poder se casar com um homem bonito e milionário como o Antonio. E agradecer-me, é claro, porque graças a mim daqui a pouco será uma lady.
Solto um suspiro frustrado.
__ Eu já não me casarei com ele. Se estava disposta a submeter-me a esse casamento foi devido à minha carreira, mas agora que descobri às suas façanhas não faço questão de casar-me.
Dou-lhe as costas, pronta para abandonar a mansão.
__Se cometer a idiotice de recusar essa proposta irá a acabar ter de pedir esmolas na porta de algum mercadinho de quinta categoria para poder comer. Uma das cláusulas do contrato diz que Antonio irá quitar todas as nossas dívidas, é questão de tempo até que o banco nos receba tudo! Você nunca trabalhou de verdade na vida, não sabe sequer lavar um prato, ou a serventia de uma vassoura então não sei do que viverá.
Engulo em seco. Ela estava completamente certa.
__ E duvido muito que Candace lhe dê mais algum solo quando souber da sua condição financeira, ou quando os nossos amigos rirem-se e nos apontarem o dedo por ficarmos na miséria. Espero bem que use essa sua cabecinha antes de cometer alguma estupidez.
Viro-me para ela com os braços cruzados.
__ Fala como se não fosse afetá-la.
A minha mãe ri-se.
__Querida, você tem vinte e um anos, já não tenho nenhuma responsabilidade consigo. Posso caçar algum milionário viúvo e seguir com à minha vida, nunca deixaria a minha Maria fifi viver como uma ralé. Cabe a você agora usar os neurônios que tem e tomar uma boa decisão.
Eu conseguia ouvir o som dos meus batimentos cardíacos enquanto corria na esteira ergométrica, o suor escorria de forma torturante pela minha testa e as minhas costas nuas. A minha melhor amiga Mandy fitava-me à espera que eu recuperasse o fôlego e terminasse de contar-lhe toda a informação que o imbecil do Antonio de Santis dera-me.
__À sua mãe foi longe demais Savanah, como pode fazer isso com você?
Eu diminuo a velocidade e apoio os braços na máquina, olhando para à sua expressão de incredulidade.
__ Segundo ela estava apenas me ajudando. Para mim o pior foi ter descobrido pela boca do Antonio, aquele crápula provavelmente deve estar a rir-se de mim nesse momento.
Mandy solta um suspiro apaixonado.
__ Antonio de Santis é o homem mais belo que eu já vi em toda à minha vida. Queria ter a sorte de ser a noiva dele, convenhamos que você ganhou na loteria.
Não consigo esconder à minha expressão de desgosto ao ouvir tamanha tolice.
__ Como pode dizer isso depois de tudo que eu lhe contei a respeito daquele homem? Antonio de Santis não passa de um rosto bonito! Nem toda a beleza e charme que possui consegue ofuscar o facto dele ser um tolo arrogante.
Mandy olha para um ponto atrás de mim com os olhos arregalados e a boca escancarada, às suas bochechas coraram violentamente. Virei-me para o lado dando de cara com o bendito fitando-me com as sobrancelhas franzidas e uma expressão enfastiada. Eu acabei-me desequilibrando na esteira com o susto de vê-lo do meu lado, estava pronta para me derrapar no chão quando braços fortes me protegeram.
Engoli em seco ao tê-lo tão perto de mim. O cheiro amadeirado do seu perfume seduziu-me pela segunda vez na semana, tive de conter a vontade de enterrar o meu rosto no seu pescoço e inebriar-me com à sua fragrância máscula.
Afasto-me dele rapidamente ao ouvir o pigarro atrás de mim, à minha melhor amiga encarava-nos com um olhar insolente. Revirei os olhos e encarei novamente Antonio que parecia impassível com o que acontecera.
__ O que faz aqui?__ o meu tom de voz soara rude, mas não me importei em disfarçá-lo.
__ Nós temos assuntos pendentes mia cara.
Eu sabia que aquele apelido para ele não significava nada, e para mim também não, mas Mandy pareceu deliciar-se ao ouvir a sua voz rouca e sensual pronunciando-o com lentidão, dando ênfase ao "cara" que significava querida.
__Deve estar desesperado para que eu assine logo todos os documentos, pois não?
Um sorriso cínico envolve-me os lábios. Antonio aproxima-se o suficiente para invadir o meu espaço pessoal e deixar-me desconfortável. Ele leva à sua boca perto do meu ouvido, fazendo-me respirar com dificuldade.
__Se a senhorita fosse inteligente também estaria desesperada. Está prestes a perder à sua penthouse com vista para o central park e o seu camaro lustroso. Tem mais a perder do que eu cara.
Eu engoli em seco, convencendo-me de que o tremor que senti nas pernas foi devido a sua ameaça e não pelo facto de eu sentir a sua respiração quente beijando a pele do meu ouvido.
__Vamos até ao restaurante da academia.__ digo-lhe após recuperar-me.
__ Eu quero um lugar mais privado. Vamos até ao seu apartamento.
Olho rapidamente para Mandy que tentava disfarçar o facto de estar a ouvir a nossa conversa.
__ Mandy eu ligo para você mais tarde.
Ela assentiu com um sorriso malicioso.
__ Preciso pegar a minha bolsa. Importa-se se nos encontrarmos na portaria?
Antonio assenti com uma frustração palpável. Quando estou prestes a dar-lhe as costas ele segura o meu braço.
__ Eu estou a ficar irritado Savanah. Estou cansado de ter de ceder aos seus caprichos, se estou me submetendo a esse casamento é porque não vejo a hora de adquirir as ações da vadia da Dakota.
Solto-me bruscamente do seu aperto.
__ Não fale assim da minha madrinha. E eu não sou sua subordinada para fazer as coisas ao seu tempo.
Dou-lhe as costas e afasto-me às pressas para não ouvi-lo retrucando.
Foi bastante estranho tê-lo no meu apartamento. Antonio não fez questão de disfarçar o olhar em cada um dos detalhes que compunham o meu lar.
Eu era apaixonada por arte, principalmente quadros artísticos. Tinha diversos espalhados pelos cantos, alguns ofertados por homens ricos que queriam agradar-me, outros comprados e outros pintados por mim em momentos de inspiração.
O amor que eu tinha pelo ballet era o mesmo que tinha pelos desenhos. Sentia-me livre quando manifestava os meus piores e melhores sentimentos por meio da dança ou numa tela branca.
Mas, depois da revelação de Antonio eu havia guardado às minhas sapatilhas no fundo do meu closet. Não tinha coragem de calçá-las após saber que eu não era boa o suficiente.
Eu chorei quando senti que mais um pedaço meu havia sido arrancado. Primeiro o meu pai e depois a dança.
__ Quer beber algo?__ perguntei-lhe na tentativa de afastar a melancolia.
__ Eu estou bem.
Ocupamos o sofá que ficava de frente a lareira, estava nervosa e exausta. Pressentia que aquela união me desgastaria emocionalmente.
__Dakota disse-me que você já leu algumas cláusulas do contrato.
Eu assenti sem emoção.
__A maior parte delas causou-me aversão. Não pretendo deixar de trabalhar ou dar-lhe herdeiros. Na verdade, não pretendo dividir a cama consigo quanto mais dar-lhe filhos.
Antonio assenti.
__ Também achei a ideia absurda. Eu nunca me deitaria com você, continua a ser uma criança mimada e insolente.
Sinto um leve constrangimento, seguido de ira ao ouvi-lo enunciando tais palavras.
__ Poderia ao menos fingir ser um cavalheiro uma vez na vida? Como ousa falar-me tais palavras?__ digo-lhe com os dentes rangendo.
__ Estou apenas sendo sincero cara. Quanto a isso acredito que estamos ultrapassados, riscarei os herdeiros da lista. Mais alguma objeção?__ pergunta irónico.
__Não quero dividir o mesmo quarto com o senhor e quero que a nossa união tenha um prazo de validade. Eu não pretendo ficar casada com um homem que não amo durante toda a vida.
Antonio ri-se com sarcasmo.
__ Não sabia que mulheres como você se interessavam com o facto de existir amor ou não. Uma conta bancária cheia de zeros não lhe basta?
Sinto uma vontade de esbofetear o seu belo rosto.
__Ou quer o caminho livre para encontrar outro milionário?
Levanto-me ofendida.
__ Pare de falar assim comigo. Não sou dessa categoria de mulher que está a conjeturar!
Ele também levanta-se, olhando-me desafiadoramente.
__ Com as professoras que tem, duvido muito. Deve ser tão interesseira quanto à sua mãe e Dakota, você não passa de uma pessoa frívola e astuta, sedenta por dinheiro.
Ele estava-me provocando, queria fazer-me perder o juízo. Antonio divertia-se quando me tratava daquele jeito.
__ Saia do meu apartamento agora! Não vou permitir que me humilhe dessa forma.
Ele menospreza-me com o olhar antes de caminhar até ao elevador. Jogo-me no sofá, sentindo o coração aos pulos.
O que eu fiz para ele tratar-me desse jeito?
...
Quando toquei a campainha da mansão da minha madrinha fui recebida por Richard, o seu mordomo. O homem de cabelo e barba grisalha recebeu-me com um sorriso acolhedor.
__A senhora espera por si no jardim.
Ele acompanhou-me em silêncio até ao extenso jardim onde eu costumava brincar com as filhas das amigas da minha mãe e da minha madrinha quando tinha doze anos enquanto elas fofocavam e jogavam póquer.
__Savanah Wayne, minha querida afilhada!
A voz animada de Dakota de Santis fez-me abrir um grande sorriso. Como sempre estava elegante em um dos seus vestidos de marca, o cabelo loiro na altura dos ombros num corte moderno dava-lhe um ar mais jovial.
__ Revê-la é sempre um prazer madrinha!
Beijei-lhe as bochechas antes de sentar-me à sua frente.
__ Querida sirva o chá.__disse à empregada.__ Conte-me como correram as coisas com o Antonio Savanah.
Eu esperei que a empregada nos servisse e então ousei contar tudo à minha madrinha. Ainda estava muito magoada com tudo o que aquele homem de Neandertal me dissera.
__ Não ligue para o que aquele tolo diz minha querida. E quanto ao ter pedido-lhe que anulasse a cláusula acerca dos herdeiros foi uma idiotice, os filhos dariam-te segurança caso ele quisesse aprontar algo contigo. Antonio é bastante sagaz filha.
Eu balanço a cabeça, descartando a sua ideia.
__ Eu não quero ter de usar uma criança como escudo numa possível briga madrinha. Prefiro a morte antes de envergar-me nos lençóis daquele canalha.
Ela ri-se.
__ Não diga dessa água não beberei. O caminho é longo, e na volta, pode sentir sede! Vocês são jovens e cheios de desejos.
Acabo rindo-me também da sua expressão maliciosa.
__ Ai, madrinha! Nesse caso eu prefiro morrer de sede. Se estou me casando é porque não quero acabar sendo humilhada pelos nossos amigos, eu não suportaria ser alvo de fofoca por perder tudo. Mamãe tem razão, eu estou habituada a uma vida de rainha, não estou disposta a perder o meu trono.
A mulher à minha frente parece orgulhosa das minhas palavras. Eu sorvo um gole no meu chá, pensando que o preço que estou prestes a pagar para continuar a ser da realeza é muito alto.
Depois da dança e da pintura, fazer compras é que o mais me anima nesse mundo. Mas, pela primeira vez na vida eu abria uma grande exceção para aquela prática que eu considerava um delicioso e magnífico robe.
__ Olhe para essa revista Savanah, na página oito tem um glorioso vestido desenhado pelo estilista Hugo Sanchés. É belíssimo.
A minha mãe solta um suspiro, reforçando à sua satisfação pelo vestido. Recebo a revista com desinteresse e avalio a peça que molda o corpo esquelético de uma modelo.
__ Não gostei, é pomposo demais para um casamento falso. Eu não amo o Antonio então não faço questão de gastar milhões num vestido.
Entrego-a de volta e fito a mesa repleta de revistas de vestidos de casamento e acessórios.
__Minha filha, dane-se o amor. Quem em pleno século XXI ainda se preocupa em casar por amor? O que você tem que fazer é rezar para que o seu marido morra rápido e deixe toda a fortuna no seu nome. Sirva-me mais champanhe Robert.
A minha mãe solta a fumaça do seu charuto e ri-se com cinismo do comentário da minha madrinha.
__ Não se esqueça de rezar também para que não venham dívidas e hipotecas no testamento.
Elas caem numa sonora risada. Eu reviro os olhos e pego outra revista sem nenhuma pretensão de achar um vestido que me agrade.
__ O único amor que você deve ter nessa vida é por si mesma. O resto é historieta criada por roteiristas da Disney para agradar as grandes massas.
Dakota de Santis enuncia com desdém.
__ Quanto pessimismo madrinha. Eu acredito que existam pessoas que se amam de verdade e decidem casar-se fruto dos seus sentimentos.
Refuto com os olhos presos num vestido simples com um decote V nas costas. De todos os modelos que eu vira até agora, este é o que me chamou mais atenção.
__ Veja este, mamãe. É lindo.
Ela recebe a revista e analisa o vestido, os seus olhos avaliam-no por longos segundos até entregá-lo à minha madrinha com indiferença.
__ Você está prestes a se tornar uma de Santis querida. Esse vestido é simplório demais, queremos que as pessoas comentem sobre o quão esplêndido o seu casamento foi durante semanas ou até mesmo meses. Por isso não estrague tudo com o seu mau gosto.
A minha mãe diz por fim. Eu levo a minha taça de champanhe aos lábios com desânimo e ouço-as falando sobre o vestido ideal para mim.
__Espero que não se desleixe dos treinos só porque decidiu abandonar a academia. Quero que esteja magra o suficiente para que o vestido de noiva molde-lhe com elegância.
Mamãe diz, parada perto do seu carro. Ela e a tia Dakota haviam chegado ao acordo que o meu vestido seria desenhado e costurado por um renomado estilista italiano, ele era bastante conhecido por seus desenhos versáteis no mundo da moda. Nem mesmo a rainha da Inglaterra resistia ao seu talento, já tendo desfilado por alguns eventos com trajes feitos por ele e a sua equipa.
__Eu continuo com os meus treinos intensivos. Sabe que tenho pavor de engordar. E como sabe que larguei a academia?
Um sorriso cínico molda-lhe os lábios pintados de vermelho.
__Candace ligou-me. Pelos vistos os meus cheques têm-lhe feito imensa falta.
Cruzo os braços, ainda estava ressentida com à sua traição.
__Ela também ligou-me. Fiz questão de dizer-lhe que não voltaria a pisar os pés na sua academia.
Mamãe dá de ombros.
__ Ninguém é insubstituível. Alexandra Young já pegou o seu lugar. O que pretende fazer doravante?
Eu ignoro o sentimento ruim que assola o meu peito. Alexandra sempre me confrontou, dizendo que eu não era digna de pegar os papéis que eu já pegara, no final das contas ela estava completamente certa.
Eu não passo de uma fraude.
__Pensei em voltar a pintar para ocupar o meu tempo. Mas, não pretendo vender os meus quadros. Não quero arriscar que alguém compre-os por piedade ou suborno.
Ela arregala os olhos.
__ Pare de drama Savanah. Não vai parar de jogar-me à cara o facto de eu ter ajudado você?
Estalo a língua no céu da boca e rio-me.
__Se vê o que fez como uma ajuda então tem sérios problemas, mamãe. Eu sinto-me ridicularizada, sempre julguei que tudo o que alcancei foi por mérito, todavia não passo de uma inútil.
Mamãe arregala os olhos e encara o seu relógio de ouro, cintilante sob os raios solares.
__Esqueça isso, você será uma mulher milionária. Terá de se preocupar apenas em seduzir o seu marido ao ponto dele não conseguir mais olhar para outras mulheres e tê-lo completamente na sua mão.
Eu dou um passo para trás.
__ O que disse? Pensei que teria de casar-me com ele apenas para sanar as nossas dívidas. Não pretendo seduzi-lo de modo algum.
Ela solta um suspiro e rola os olhos.
__ Tola! Tola! Tola! Deus por que não me destes uma filha com mais neurônios? É bom que tenha o seu marido aos seus pés, as hipóteses dele apunhalar-lhe são mínimas.
Sinto a confusão derretendo os meus miolos.
__ Como assim apunhalar?
A sua mão envolve o meu pulso e os seus olhos castanhos fitam-me com uma intensidade assustadora.
__Os homens não prestam. São traiçoeiros, se você não for mais esperta do que eles acabará tendo de se contentar com uma pensão que não chega perto da quantia que ele possui no banco.__ mamãe segura o meu rosto.__ Quer ser pobre? Quer ser o motivo de piada dos nossos amigos?
Meneio a cabeça em negação. Eu não quero ser pobre, não quero que as pessoas apontem-me o dedo por perder tudo. Quero continuar a frequentar as melhores festas, comendo nos melhores restaurantes, vestir roupas de griffe e viajar pela Europa quando me apetecer.
Eu não mereço menos do que isso!
Quando adentrei o meu apartamento senti um alívio me preenchendo. Estava a sentir um grande mal-estar, as minhas têmporas pulsavam, fruto da enxaqueca.
Deixei a bolsa sobre o sofá e caminhei até a cozinha, determinada a tomar um paracetamol quando o toque do meu celular chamou a minha atenção.
Pensei em ignorar, mas a pessoa do outro lado da linha insistiu tanto que me forcei a atender o celular.
__ Alô?__ sentei-me no sofá e fechei os olhos, massageando de leve as têmporas.
__ Posso saber por que demorou tanto para atender o celular? Está com algum amante no seu apartamento?
A voz alterada do Antonio faz-me gemer de insatisfação.
__Eu não estou com nenhum amante. O que quer?__ pergunto com rudeza.
__O meu chofer está irá pegar-lhe daqui a uma hora. Vamos a um jantar na mansão do Theodor Carter.
Franzo o nariz.
__ Você não me perguntou se estou disponível ou se quero ir a esse jantar. Quem pensa que é?
A dor parece piorar a cada segundo.
__Eu sou o seu futuro marido. Esteja pronta, não gosto de atrasos.
Olho para o celular, incrédula ao constatar que ele desligou na minha cara. Ligo rapidamente à minha mãe e explico-lhe o que aconteceu.
__ Daqui a um mês irão casar-se, Savanah. As pessoas têm que vos ver juntos, deixe de dramatizar. E use o seu melhor vestido, não queira envergonhá-lo usando qualquer trapo.
Mamãe diz num tom firme.
__ Eu sinto que a minha cabeça vai explodir. Não vou conseguir sair.
Bebo um pouco de água.
__Por favor, filha! É só um mal-estar, tome um comprimido e um banho. Beijos.__ ela também desliga na minha cara.
Deixo o celular de lado e tomo o comprimido.
__Dulce!__arrependo-me imediatamente por gritar.
__Si señora, Savanah?__ a mulher baixinha aparece a porta da cozinha carregando várias sacolas.__ Desculpe-me, eu fui à mercearia comprar algunas cosas que faltavam.
Dulce estava nos Estados Unidos há meses e ainda tinha dificuldade em pronunciar algumas palavras, eu relevava isso apesar de às vezes incomodar-me um pouco. O facto dela não estar ilegal no país para mim já era uma benção, sem contar que não roubava.
Eu já ouvi relatos sobre mexicanos que pedem emprego com humildade e depois acabam se aproveitando da bondade dos patrões, furtando os seus bens. Esperava que esse não fosse o caso de Dulce.
__ Tudo bem, vá preparar o meu banho. Faça como eu lhe ensinei. Não se esqueça dos sais e dos óleos essenciais.
Ela deixa as compras sobre a mesa.
__ E não se esqueça de colocar uma música relaxante. A sonata op.35 de Frédéric Chopin é perfeita... Deixe para lá! Deve conhecer apenas mariachis e músicas típicas do seu país.
...
Como combinado, o chofer do Antonio esperava por mim na entrada do edifício. Eu estava melhor, o banho deixou-me mais leve e relaxada.
Trajava um vestido verde de cetim com um belo decote nas costas e o meu cabelo estava preso num coque que entrava nos padrões da moda.
Antonio estava numa reunião de negócios, eu achei bastante humilhante ter de esperá-lo no carro com o chofer até que terminasse. Respirei fundo e olhei para o relógio, eu teria de ficar à espera dele durante meia hora.
__ O senhor adora ridicularizar-me.
Digo-lhe quando ele se acomoda do meu lado, estava muito bonito no seu terno Giorgio Armani preto e a fragrância continuava a ser tentadora.
__ Eu não quero falar com você. Realizaremos todo o trajeto em silêncio, aliás, não acredito que da sua boca saia boa coisa.
Ele diz alto o suficiente para o seu chofer ouvir. Envergonhada, retraio-me no banco e olho para a janela enquanto ele pega o seu Ipod e começa a digitar algo.
__Durante o jantar quero que sorria e dê apenas respostas triviais. Faça bem o seu papel de esposa trofêu.
Eu trinco a mandíbula e encaro com os olhos embaraçados a cidade de New York tomada pela penumbra através do vidro escuro.