Encaro o papel em minhas mãos com um misto de sentimentos. O anúncio do jornal descreve uma vaga como assistente administrativa na mais famosa empresa da cidade de São Paulo. No entanto não tenho a formação acadêmica exigida.
Meu pai nunca permitiu que fizesse faculdade, para ele mulher nasceu para ser dona de casa é triste essa minha realidade, mas como ele mesmo diz: enquanto estiver sob seu teto respeitará suas regras.
Parada em frente prédio imponente da empresa, sentindo-me minúscula diante de sua grandiosidade. Respiro fundo e me dirigindo à recepção, uma mulher de cabelos muito bem alinhados com corte Chanel está sentada atrás de uma bancada olhando para o computador.
- Bom dia! - cumprimento a mulher
-Bom dia! - com seus olhos ainda na tela ela pergunta - tem horário agendado?
- Não - respondo achando engraçado como que alguém do meu nível social teria um horário marcado aqui - na verdade gostaria de deixar o meu cartão, caso precisem de limpeza.
A recepcionista olha de cima para baixo, visivelmente avaliando minha aparência simples, abaixo minha cabeça tentando esconder meu rosto que agora se transformou em um brilho de decepção, tenho consciência que minhas roupas estão gastas, meus sapatos nem vou mencionar, pois comprei a quase um ano em um brechó da igreja, o coitado está tão gasto que não possui as linhas de rastro.
- Claro, pode deixar aqui. - Ela responde com um ar desdenhoso.
Agradeço e saio com meu o coração ainda martelando no peito, as últimas semanas não consegui nenhuma diária de faxina e as contas já estão tumultuadas
Ainda parada em frente ao prédio observo uma Ferrari estacionar, a porta do motorista abre e um homem vestido de terno cinza e óculos escuros sai ao seu lado uma mulher muito elegante o acompanha os dois discutem enquanto ela tenta acompanhá-lo.
- Mathias- ela grita chamando atenção, ele para quando fica na minha frente meu pescoço levanta para olha-lo melhor.
É o homem mais lindo que já vi
- Da para comprar suas drogas, agora saia daqui antes que eu chame os seguranças - a mulher estende algumas notas em minha direção.
- Você deve estar mais necessitada do que eu - respondo virando as costas
Meu corpo inteiro está tremendo, não sei o que me deu para responder de forma tão agressiva, eu não sou assim.
Sentado a mesa aguardo o jantar ser servido , meu pai ao lado da minha mãe enquanto conversam me deixando curioso com tal assunto que não me inclui. Ele olha para mim com um olhar sério.
- Filho te chamei para esse jantar na intenção de termos uma conversa muito seria.
- É de se esperar, seus convites nunca vem de graça - alfineto.
- Estive pensando, está na hora de você assumir completamente o comando das empresa - entre tantos assuntos esse foi o que menos esperei ouvir do meu pai - mas para isso, tem uma condição.
Estava muito fácil
O grande Ávila jamais daria algo sem ter uma troca
- E qual seria essa condição, pai? - pergunto
- Nada de outro planeta - responde e vejo minha mãe colocar a mão sobre a dele, ela sempre intermediou nossas brigas.
- Que bom, pensei que teria que matar um dragão
- Bem depende do ponto de vista.
- E seria?
- Que você se case, Mathias. A empresa precisa de estabilidade, e ter uma família fortalecerá nossa imagem. A tradição quem mantém nosso legado forte, e você está no auge dos seus quarenta anos precisa de uma esposa.
Meu sangue ferve em minhas veias, com sua proposta sem cabimento, como ele acredita que pode controlar até a porra da minha vida particular.
- Pai, você sabe o que aconteceu...- Minha voz trava - Como pode esperar que eu faça algo assim?
- Eu entendo que você filho. Mas está na hora de deixar seu passado lá onde deve estar.
Me levantou abruptamente, arrastando a cadeira que faz um ruído agudo.
- Não vou ceder, dessa vez não vou...
Sempre fiz o que ele quis, desde me tornar o CEO mais respeitado ao filho exemplar, mas agora ceder a sua insana loucura de me arrumar uma noiva, isso é demais para mim.
- Mathias, você foi criado, moldado para assumir esse posto e essa é a minha condição a cerimônia de posse será daqui a seis meses espero que até lá tenha decidido.
- Ou o quê? - pergunto furioso.
Minha vida inteira me dediquei a fazer tudo pela empresa inclusive me vi cercado de víboras esperando para dar o bote.
- A última modelo que você foi visto em um jantar. É moça de família, tenho certeza que se conversarem e saírem mais vezes darão muito certo juntos.
- Não vou me casar só para agradar você. Não vou sacrificar minha vida por uma tradição sem sentido.
Sem esperar resposta, saio batendo a porta com força. Caminho rapidamente, tentando afastar a raiva e a frustração que borbulha dentro de mim. Dirijo sem rumo por um tempo, tentando espairecer. Os pensamentos sobre o passado e as exigências do presente se misturam em minha mente, fazendo as emoções ferverem dentro de mim. Por quase uma hora dirigindo avisto um parque então resolvo estacionar saindo do carro, caminho entre as árvores, sentindo a brisa fresca no rosto.
Meu celular vibra enquanto preparo o café da manhã. Hoje acordei mais cedo porque consegui uma faxina e preciso pegar duas conduções até a casa da minha cliente. Olho na tela e vejo um número de telefone fixo.
- Alô! - atendo, já imaginando ser cobrança, no entanto meu coração quase salta ao ouvir a voz do outro lado da linha.
- Senhorita Simone, aqui é da empresa Ferreiras.
- S-sim - interrompi, gaguejando.
- A senhorita deixou seu telefone aqui na empresa há algumas semanas. Estou ligando para saber se pode nos prestar seus serviços.
Fico em silêncio por alguns segundos antes de soltar um grito eufórico, deixando transparecer minha alegria.
- Para quando seria? - pergunto, tentando manter a compostura.
- Na verdade, estamos com uma vaga fixa, caso tenha interesse.
- Tenho sim!
- Estarei enviando todos os detalhes com data e horário para seu comparecimento da entrevista por e-mail.
- Pode falar por aqui mesmo - me antecipo, ansiosa.
A mulher sorri do outro lado da linha, e sua voz soa paciente:
- São regras da empresa, senhorita, mas não se preocupe, acabei de enviar.
Ela se despede, e corro para abrir o e-mail. Lá estava: a entrevista estava marcada para amanhã às nove da manhã, com uma tal de Vanessa. Havia até uma observação instruindo a usar cabelo preso em um coque e calça de alfaiataria.
- Que sorriso é esse? - esbraveja meu pai.
- Consegui uma entrevista para serviço fixo. - digo animada, esperando, talvez, alguma palavra de incentivo e ele nem se dá ao trabalho de me olhar.
- Grande coisa! - responde com desdém, dobrando o jornal com força, como se minha notícia fosse uma inconveniência.
Respiro fundo me contendo, mas a resposta escapa antes que eu consiga mudar de assunto.
- Grande coisa? Sabe o que seria grande coisa, pai? Se você ou o Pedro mexessem um dedo pra ajudar nesta casa!
Ele ergue os olhos pela primeira vez, me encarando friamente.
- Olha como fala comigo, menina. Sou seu pai, e enquanto você morar debaixo do meu teto, vai me respeitar.
- Respeitar? - minha voz treme e continuo, ignorando o nó na garganta. - Eu passo o dia inteiro trabalhando enquanto você e o Pedro só sabem reclamar e esperar que tudo caia do céu.
Ele bate a mão na mesa fazendo o som ecoar pela cozinha, e por um momento sinto o coração acelerar.
- Tá querendo mandar em mim?- seus olhos escurecem ao falar.
- Não quero mandar, pai. Só queria que você enxergasse que, se não fosse por mim, a gente nem teria o que comer.
Ele solta uma risada amarga.
- Tá se achando agora, é? Não esquece que eu te criei, coloquei comida na mesa todos esses anos.Você é só mais uma como sua mãe, sonhando alto e achando que vai mudar alguma coisa.
A menção à minha mãe faz meu sangue ferver. Fecho os olhos por um segundo, segurando as lágrimas que ameaçam cair.
- Minha mãe batalhou o quanto pode para nos dar algum conforto. Eu só queria que vocês tivessem metade da força dela.
Sem esperar resposta, pego meu prato e saio da cozinha, deixando-o lá com seu jornal e seu orgulho ferido.
No caminho para o quarto, encontro Pedro no sofá, ouvindo tudo com um sorriso de canto de boca.
- E lá vai a santa Simone, salvadora da pátria - ele provoca, sem nem desviar os olhos da TV.
Paro no corredor, as palavras presas na garganta, em vez de responder, balanço a cabeça e sigo em frente. Eles não vão mudar, e eu já perdi tempo demais tentando consertar isso.