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Casei com o Bilionário que eu odiava

Casei com o Bilionário que eu odiava

Autor: Dha
Gênero: Bilionários
Sinopse Crescer como herdeiras de dois impérios bilionários deveria ser um conto de fadas, mas para Charlotte e Noah, foi uma verdadeira guerra. Desde crianças, as famílias de ambos foram sócias nos negócios e inimigas na convivência, unidas apenas pela obrigação e por um ódio mútuo que só fez crescer com os anos. Para Charlotte, Noah Smith não era apenas irritante; ele era a personificação de cada dor de cabeça que ela já havia suportado na vida. Por isso, quando seu pai lhe entrega a notícia de que ela está noiva... de Noah, Charlotte quase desmaia. Literalmente. O motivo não deixa margem para recusa: uma cláusula irrevogável redigida na fundação da sociedade exige que os herdeiros diretos se unam em matrimônio para garantir a sucessão e blindar o conglomerado contra qualquer tentativa de aquisição externa. Ou eles cumprem o acordo, ou tudo o que as duas famílias construíram ao longo de gerações desmorona do dia para a noite. O contrato é implacável: manter as aparências públicas e morar sob o mesmo teto por pelo menos um ano. O problema é que o ódio e a atração são forças perigosamente parecidas. Entre reuniões corporativas sufocantes, provocações venenosas e um teto compartilhado que parece pequeno demais, Charlotte e Noah logo descobrem que a linha entre o desprezo e a rendição é tênue - e que, para salvar a empresa, eles talvez precisem arriscar o próprio coração.
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Capítulo 1 Começo da minha ruína

Capítulo 1

" Não pode ser..."

Era para ser uma noite feliz, mas o meu pai fez questão de acabar com tudo!

O cheiro de trufas brancas e champagne vintage deveria ser suficiente para estômago de qualquer pessoa em uma noite de comemoração. Para mim, no entanto, o estômago revirava não pela sofisticação do restaurante no coração de Manhattan, mas pelo puro nervosismo de estar de volta.

Anos. Foram anos inteiros longe deste país, longe da umbra sufocante da Carter e Smith Enterprises, longe do sobrenome que parecia vir carimbado com algemas na minha certidão de nascimento. Eu tinha ido para a Europa respirar, pintar, existir sem precisar prestar contas de cada pincelada. Mas o diploma de artes finalmente estava impresso, emoldurado e garantido. Era para ser o meu recomeço oficial. O momento em que eu mostraria ao meu pai, Adam Carter, que eu não precisava da aprovação dele para vencer no mundo das artes.

- Um brinde à nossa Charlotte - anunciou meu pai, erguendo a taça com aquela postura de aço que parecia incapaz de curvar, mesmo sentado à mesa de um restaurante cinco estrelas. Sua voz ecoou com uma falsa solenidade que me deu arrepios na espinha. - Formada com honras. E, para coroar essa conquista, o retorno definitivo da nossa herdeira para casa. É o início de uma nova era para a nossa família.

Apertei a haste da minha própria taça com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Minha mãe sorriu de forma mecânica ao lado dele, um sorriso ensaiado para a alta sociedade, enquanto o garçom completava as taças ao redor.

- Obrigada, pai - respondi, tentando soar polida, embora o tom saísse seco como papel velho. - Sinto que finalmente posso começar a minha vida. A galeria na SoHo já está com o aluguel engatilhado, os preparativos para a abertura oficial estão a todo vapor, e...

- Sobre a sua galeria, Charlotte - interrompeu meu pai, com aquela calma calculista que antecedia tempestades de categoria 4 na bolsa de valores. Ele pousou o guardanapo de tecido no colo, cruzou os dedos sobre a mesa de mogno e olhou diretamente para mim com seus olhos frios de predador corporativo. - É melhor você colocar esses planos de vernissage em espera por um tempo. Ou melhor, redirecioná-los para algo mais... produtivo.

O silêncio que se abateu sobre a mesa foi instantâneo, pesado o suficiente para esmagar qualquer resquício de alegria que eu ainda pudesse ter. O garçom recuou rapidamente para as sombras, percebendo que a atmosfera havia azedado de vez.

- O que você quer dizer com "em espera"? - perguntei, sentindo o sangue começar a zunir nos meus ouvidos. Minha respiração falhou por um segundo. - Pai, eu passei os últimos quatro anos ralando para abrir essa galeria. O espaço é meu. O projeto é meu.

- O projeto é insignificante perto do que está em jogo agora que você pisou em solo americano - retrucou ele, inflexível, sem demonstrar o mínimo pingo de empatia ou orgulho de pai. Pelo contrário. Ele parecia estar prestes a assinar um contrato comercial qualquer. - Nós não criamos a Carter & Smith do nada, Charlotte. A fusão com os Smith sempre foi a base da nossa hegemonia. E o contrato que garante essa soberania exige uma união definitiva.

Dei uma risada curta, incrédula, embora o som estivesse completamente desprovido de humor.

- Uma união? Do que você está falando? Acabamos de jantar para celebrar a minha formatura, não um acordo de paz medieval. Nós não precisamos fundir mais nada, a empresa está bilionária!

- Empresas bilionárias caem da noite para o dia se a governança familiar for questionada por acionistas majoritários - esbravejou ele, perdendo um pouco da compostura polida. - E os Smith exigiram garantias. Garantias reais.

- Quais garantias, pai? - indaguei, sentindo a raiva começar a ferver na base do meu pescoço, subindo quente pelo meu rosto. Inclinei-me para a frente, encarando-o de igual para igual. - Por que você está falando com essa seriedade toda?

Adam Carter respirou fundo, endireitando o paletó de grife antes de desferir o golpe final, sem um pingo de dó ou hesitação.

- Você vai se casar, Charlotte.

A frase pairou no ar estagnado do restaurante como um veredito de morte.

- Eu... o quê? - sussurrei, sentindo o mundo ao meu redor dar uma guinada violenta. O lustre de cristais acima de nós pareceu girar.

- Você vai se casar - repetiu ele, com uma naturalidade revoltante. - O contrato foi redigido e assinado há exatos vinte e dois anos, quando você nem tinha três anos de idade. Foi um pacto de fundação mútua entre a nossa família e a de Arthur Smith. Uma apólice de seguros em forma de matrimônio para garantir que a liderança do conglomerado permaneça estritamente sob o nosso controle familiar.

Meu estômago despencou em queda livre. A comida que eu havia ingerido parecia chumbo derretido. Minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente, espalhando gotículas de champagne pela toalha de mesa branca. Eu quase tive um troço ali mesmo, sentada na cadeira estofada de veludo. Minha visão escureceu nas bordas por uma fração de segundo, e se não fosse pelo apoio firme que dei nas bordas da mesa, eu teria desabado no chão do restaurante.

- Você... você fez o quê? - gaguejei, a voz saindo fina, estrangulada pela onda avassaladora de pânico e revolta que me consumia por dentro. - Você me vendeu? Antes de eu saber falar o meu próprio nome, você me vendeu para os Smith?!

- Não seja dramática, Charlotte - repreendeu minha mãe pela primeira vez, ajeitando o colar de pérolas com dedos trêmulos, demonstrando que ela sabia de tudo aquilo desde o início. - É uma honra. Você está salvando o legado da família. Milhares de garotas matariam por uma posição dessas.

- Uma posição?! - esbravejei, incapaz de conter o tom de voz, chamando a atenção discreta de algumas mesas ao redor, embora ninguém ousasse se aproximar da mesa dos Carter. - É a minha vida! Eu não sou uma peça de xadrez, eu não sou um ativo financeiro! Eu acabei de voltar para casa! Eu passei anos longe justamente para fugir dessa gaiola dourada que vocês chamam de família!

- Você é minha filha, e o seu dever é com o nosso nome - rugiu Adam, batendo levemente com os nós dos dedos na mesa, impondo aquela autoridade cega que sempre me sufocou. - O contrato estipula que, ao atingir a maioridade e concluir os estudos superiores, a herdeira da família Carter deve oficializar a união com o herdeiro direto da família Smith. A papelada está pronta. A data do civil será marcada para o próximo mês.

O meu coração parecia bater na minha garganta, sufocando-. Eu olhei para o meu pai procurando qualquer vestígio de humanidade, qualquer sinal de que aquilo fosse uma brincadeira de mau gosto, um teste sádico para ver qual seria a minha reação após tantos anos de rebeldia. Mas não havia nada. Apenas a frieza de um CEO analisando um relatório de prejuízos.

- Com quem? - perguntei, com a voz trêmula, embora o fundo da minha mente já estivesse sussurrando a resposta mais aterrorizante possível. - Quem é o infeliz escolhido para essa farsa? Quem é o herdeiro dos Smith que vai assinar essa sentença de morte comigo?

Meu pai desviou o olhar por uma fração de segundo, pigarreando antes de responder, como se soubesse exatamente o tamanho da bomba que estava prestes a detonar.

- Noah. Noah Smith.

O nome caiu sobre mim como um bloco de concreto despencando do décimo andar.

Noah Smith.

O ar sumiu completamente dos meus pulmões. O meu pior pesadelo, materializado em três sílabas malditas.

Não podia ser. Tinha que ser um erro. Uma pegadinha cruel do destino. Qualquer outra pessoa no mundo - um desconhecido qualquer, um velho decrépito, um herdeiro mimado que eu nunca tivesse visto na vida -, qualquer um seria mil vezes preferível àquela opção. Mas Noah Smith? O homem que eu conhecia desde os berços corporativos das nossas famílias? O meu inimigo jurado desde que aprendemos a andar?

A náusea voltou com força total. Lembrei-me imediatamente de todas as vezes em que nossos caminhos haviam se cruzado na infância e na adolescência. Noah era a personificação exata de cada dor de cabeça, de cada humilhação pública e de cada momento de puro ódio que eu havia experimentado na vida. Ele era arrogante, prepotente, dono de um sorriso dissimulado que parecia zombar de tudo o que eu fazia, e possuía uma inteligência fria e cortante que competia diretamente com a minha.

Nós nos odiamos com uma intensidade quase visceral. Na época da escola, antes de eu conseguir me mandar para a Europa, nossas brigas eram lendárias nos corredores da academia exclusiva que frequentamos. Ele havia sabotado o meu projeto de feira de ciências no colegial só para provar que as minhas teorias estéticas eram inferiores à lógica exata dele. Eu havia jogado tinta azul importada no terno de grife dele na festa de encerramento do penúltimo ano. Nós éramos fogo e gasolina, um desastre esperando para acontecer a qualquer segundo, a definição exata de incompatibilidade explosiva.

E agora, o meu pai esperava que eu dividisse a mesma cama, o mesmo teto e a mesma vida com ele?

- Você só pode ter perdido o juízo - sussurrei, sentindo as lágrimas de pura raiva começarem a embaçar a minha visão. Pela primeira vez na noite, eu não estava apenas assustada; eu estava furiosa a ponto de querer quebrar tudo o que estava ao alcance das minhas mãos. - O Noah? Você quer que eu me case com o Noah Smith? Aquele... aquele ser insuportável, arrogante e manipulador? Nós nos odiamos! Nós não conseguimos ficar na mesma sala por cinco minutos sem querer arrancar os olhos um do outro!

- O ódio de vocês é irrelevante diante dos interesses da corporação - retrucou meu pai com um desdém irritante, limpando os lábios com o guardanapo como se estivesse discutindo a cotação do aço. - Negócios são negócios, Charlotte. Os sentimentos infantis que vocês cultivaram na adolescência devem ser deixados de lado. Vocês são adultos agora. Vão agir como tal.

- Eu não vou fazer isso! - gritei, desta vez sem me importar com os olhares assustados dos clientes ao redor ou com a carranca furiosa que meu pai fechou instantaneamente. Empurrei a cadeira para trás com força, fazendo-a raspar estridentemente contra o piso de madeira polida do restaurante. - Você está me ouvindo? Eu recuso! Rasgue esse contrato idiota! Pague a multa, declare falência, faça o que quiser com a porcaria da empresa, mas não me meta nisso!

- O contrato não pode ser rescindido sem a perda de noventa por cento do nosso patrimônio líquido - interveio minha mãe, com a voz gélida, tentando manter a compostura diante do meu chilique público. - Você herdará ruínas, Charlotte. É isso que você quer? Destruir o legado de gerações por causa de um capricho de artista mimada?

- Capricho? - ri histericamente, sentindo as lágrimas finalmente transbordarem e escorrerem quentes pelo meu rosto. O peito doía tanto que parecia comprimido por uma morsa. - Um capricho é querer abrir uma galeria de arte! Ser forçada a me casar com o meu pior inimigo é um cárcere privado com alvará judicial!

- Sente-se, Charlotte - ordenou meu pai, levantando parcialmente da mesa com uma expressão tão sombria que por um segundo eu quase recuei por instinto. A aura de homem intocável que o cercava sempre foi a sua arma mais eficiente. - Você não tem escolha. O acordo já foi aceito pelas duas partes. Noah já foi informado e, surpreendentemente, demonstrou muito mais maturidade do que você ao aceitar os termos impostos para o bem dos negócios.

Aquilo foi a gota d'água.

O fato de Noah ter aceitado aquilo sem pestanejar - ou pior, talvez até com um sorriso cínico no rosto sabendo o inferno que aquilo seria para mim - fez o meu sangue ferver a temperaturas estratosféricas. Ele achava que podia me controlar? Que eu seria apenas mais um troféu obediente na estante de conquistas da família Smith?

- Ele aceitou? - perguntei, a voz saindo num sussurro mortal, carregado de um ranço que acumulava anos de inimizade. - Ah, com certeza ele aceitou. Deve estar achando o máximo poder me transformar na prisioneira dele por puro esporte corporativo. Mas quer saber de uma coisa, pai? Pode avisar ao seu precioso sócio e ao filhinho mimado dele que eles vão precisar me arrastar acorrentada para o altar. Porque por bem? Eu nunca vou aceitar isso.

- Você vai - afirmou Adam Carter, voltando a se sentar com uma calma assustadora, cruzando os braços e me encarando com desdém absoluto. - Porque amanhã mesmo a notícia do noivado será publicada em todos os jornais de economia e sociedade de Nova York. A sua galeria? Esqueça os aluguéis. O imóvel já foi comprado por uma holding subsidiária dos Smith nesta tarde. Se você quiser pintar, vai pintar no estúdio da sua nova casa conjugal.

Fiquei estática. O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés pela segunda vez na noite.

Ele havia vendido a minha liberdade, destruído o meu sonho profissional com uma única assinatura e me entregado de bandeja para o meu maior inimigo, tudo antes mesmo da sobremesa.

- Você é um monstro - sussurrei, sentindo o nó na garganta me impedir de continuar respirando direito.

Virei as costas para a mesa, ignorando os chamados autoritários da minha mãe e a ordem seca do meu pai para que eu me sentasse. Saí correndo do restaurante, atropelando os garçons e empurrando a porta giratória para o ar gélido da noite de Manhattan. As luzes da cidade brilhavam intensamente ao longe, mas para mim, naquele exato instante, o mundo inteiro havia se transformado na mais pura e absoluta escuridão. Eu estava de volta, sim. Mas em vez de conquistar a minha liberdade, eu havia entrado direto na cova dos leões. E o pior de tudo: o leão principal estava me esperando de braços abertos.

Capítulo 2 As raízes do ódio

As memórias da infância costumam ser retratadas nos livros e nos filmes como um mar de tardes ensolaradas, sorvetes derretidos e brincadeiras inocentes nos gramados verdejantes de subúrbios ricos. Mas, se alguém decidisse escrever a história dos meus primeiros anos de vida sob essa ótica romântica, estaria cometendo o maior erro da literatura universal. A minha infância não teve nada de doce. Ela teve o gosto amargo de bile, o som estridente de louça quebrada e o rosto perfeitamente simétrico, porém detestável, de Noah Smith cravado em cada segundo da minha rotina.

Para entender o porquê de eu quase ter desmaiado ao ouvir o nome dele no jantar de ontem, é preciso voltar no tempo. Voltar para os dias em que éramos obrigados a conviver porque nossos pais achavam que a amizade corporativa de berço se traduziria magicamente em harmonia familiar. Uma ilusão patética. Desde os nossos primeiros passos, Adam Carter e Arthur Smith pareciam determinados a nos transformar em sócios de alma, ignorando completamente o fato de que eu e Noah éramos duas bombas-relógio colocadas propositalmente na mesma sala de estar.

Nós brigávamos por absolutamente tudo. Não havia trégua. Se houvesse um único prato de biscoitos recém-saídos do forno na mansão dos Smith - porque, por algum motivo inexplicável, minhas visitas à casa deles eram frequentes -, a guerra fria começava antes mesmo de cruzarmos a porta da cozinha. Não importava que a travessa estivesse cheia; a nossa disputa infantil e mesquinha girava em torno de quem pegaria o maior biscoito, quem ficaria com a melhor porção de cobertura de chocolate, quem sentaria na ponta da mesa ou quem dominaria a televisão da sala de jogos. Eram brigas viscerais, daquelas em que puxávamos os cabelos uns dos outros, gritávamos até perder a voz e sempre acabamos terminando de castigo, sentados em cantos opostos da sala, fuzilando com olhares que, se tivessem poder térmico, teriam incendiado a mansão inteira.

Naquela época, meus pais viam tudo isso como uma "rivalidade saudável". Diziam aos quatro ventos, rindo com taças de vinho nas mãos durante as festas de final de ano, que éramos como cão e gato, e que "quem desdenha quer comprar". Só de lembrar dessa frase me dá calafrios. Comprar? Comprar o quê? O meu tormento?

Mas, por piores que fossem as brigas por biscoitos, disputas de brinquedos ou discussões sobre quem tirara a nota mais alta na prova de matemática da oitava série, o verdadeiro epicentro do meu ódio por Noah Smith - a cicatriz profunda que nunca fechou de verdade e que definiu quem eu me tornaria dali em diante - aconteceu em uma terça-feira cinzenta de outono, quando eu tinha apenas quatorze anos.

Aquela idade já é, por si só, uma bomba atômica para qualquer adolescente. Eu estava na fase mais vulnerável da minha vida: cheia de inseguranças, tentando entender o meu lugar no mundo, lutando contra espinhas rebeldes, usando um aparelho ortodôntico que parecia uma cerca metálica na minha boca e me sentindo completamente invisível ou inadequada, exceto pelo peso esmagador do sobrenome Carter que eu carregava nas costas. Eu queria apenas me encaixar. Queria pertencer ao grupo dos garotos e garotas populares da nossa escola exclusiva em Manhattan, não porque eu me importasse com a futilidade deles, mas porque eu estava cansada de ser a herdeira esquisita e isolada que todos olham com temor reverente por causa dos negócios do pai.

Naquele dia, eu havia caprichado no visual. Tinha passado horas em frente ao espelho tentando ajeitar o cabelo, escolhendo uma blusa que achava bonitinha e ensaiando um sorriso natural. Eu tinha uma quedinha secreta - uma dessas paixões platônicas dolorosas e humilhantes da adolescência - por um garoto do penúltimo ano chamado Lucas, o capitão do time de basquete. Durante semanas, achei que ele andava me olhando de um jeito diferente, com um brilho de interesse que fazia o meu estômago dar cambalhotas gostosas.

No horário do intervalo, enquanto os corredores da academia fervilhavam de armários batendo, risadas abafadas e boatos de corredor, eu caminhava apressada em direção ao pátio interno, segurando meus livros de literatura contra o peito como se fossem um escudo protetor. Foi quando passei perto das escadas de incêndio nos fundos do auditório, uma área onde os garotos costumavam se reunir para matar aula e falar sobre esportes.

A voz de Noah ecoou alta e clara pela escadaria de metal, cortando o barulho do corredor como o som de uma lâmina.

- Francamente, vocês têm sérios problemas de vista se acham que eu pegaria a Charlotte Carter - dizia ele, com aquele tom de zombaria desdenhosa, arrastado e cínico que sempre me dava vontade de socar os dentes dele um por um.

Parei imediatamente no lugar. O sangue sumiu do meu rosto num piscar de olhos, e o ar pareceu evaporar dos meus pulmões. Meus pés ficaram colados no chão de linóleo.

- Ah, vai dizer que ela não é gatinha, Noah? O velho dela é dono de metade de Manhattan, fora a grana preta que a garota tem - respondeu a voz de um dos amigos dele, rindo de forma debochada. - Se fosse por interesse, qualquer um aqui aguentaria o gênio insuportável dela.

Um coro de risadas masculinas ecoou pela escadaria, fazendo o meu estômago despencar direto para os calcanhares. A humilhação começou a queimar na minha pele como ácido sulfúrico.

- Dinheiro nenhum no mundo compensa aquilo, cara - continuou Noah, com uma crueldade tão casual que doeu dez vezes mais do que se ele tivesse me batido fisicamente. - A Charlotte é completamente chata. A achadinha se acha a dona da razão o tempo todo, vive com a cara fechada, parecendo uma megera azeda, e para piorar? É feia de doer. Aqueles óculos fundos de garrafa que ela usava no ano passado e aquele cabelo desgrenhado parecem espantar qualquer resquício de beleza feminina. Ninguém com um pingo de sanidade mental na cabeça ia querer se aproximar daquela garota, muito menos tentar ser namorado dela. É um caso perdido.

As palavras dele caíram sobre mim como uma avalanche de gelo e fogo. Cada sílaba era um prego enfiado diretamente no centro do meu peito.

Eu me escondi atrás da coluna de concreto do corredor, sentindo as lágrimas quentes e grossas despencar pelos meus olhos antes mesmo que eu pudesse contê-las. Minhas mãos tremiam tanto que os livros escorregaram dos meus dedos, caindo pesado no chão com um estrondo oco que felizmente foi abafado pelas risadas deles lá em cima.

Eu era chata. Eu era feia. Eu era um caso perdido.

As palavras do garoto por quem eu nutria uma paixão secreta, Lucas, que estava ali no meio ouvindo tudo e concordando com um assobio irônico, deixaram de importar. O que importava era que Noah Smith, o garoto com quem eu era obrigada a conviver em jantares de negócios, o ser humano que conhecia cada detalhe da minha infância, havia me ridicularizado publicamente para os seus amigos, reduzindo a minha autoestima a zero e expondo as minhas maiores inseguranças para quem quisesse ouvir.

Naquele instante exato, escondida atrás daquela pilastra fria, com o coração partido em mil pedaços minúsculos e a alma encharcada de vergonha, algo dentro de mim se quebrou para nunca mais voltar ao lugar. A menininha irritada que brigava por biscoitos morreu ali. Em seu lugar, nasceu uma mulher de gelo, revestida de uma couraça indestrutível de revolta.

Eu não saí correndo chorando como uma coitada. Bem, eu chorei, mas esperei até chegar ao banheiro trancada em uma das cabines, abafando os soluços com a manga do casaco para que ninguém me ouvisse. Mas, quando saí de lá de dentro, retocando o rosto borrado de rímel e empinando o queixo com toda a soberba que consegui reunir, eu fiz um juramento silencioso para o teto daquele banheiro escolar.

Eu jurei por tudo o que era mais sagrado que nunca mais deixaria ninguém me fazer sentir pequena. Nunca mais derramaria uma única lágrima por causa da opinião de um homem idiota. E, acima de tudo, eu declarei em alto e bom som, dentro do meu próprio silêncio furioso: Eu odeio Noah Smith. Odeio com cada célula do meu corpo, com cada respiração, com cada gota de sangue que corre nas minhas veias. Se depender de mim, ele vai pagar por cada palavra, por cada risada e por cada migalha de humilhação que me fez engolir hoje.

Nos dias seguintes, a minha postura mudou radicalmente. Quando nos encontramos no jantar de negócios que nossos pais marcaram no fim de semana seguinte, Noah tentou agir como se nada tivesse acontecido. Ele chegou com aquele sorriso arrogante de canto de boca, vestindo um blazer impecável, pronto para me alfinetar com alguma gracinha sobre a escola.

Mas ele não esperava a minha resposta.

Assim que ele abriu a boca para dizer um "E aí, gatinha dos óculos fundos?", eu virei o meu copo inteiro de suco de uva concentrado bem no meio do peito daquela camisa social branquinha que ele tanto amava.

O escândalo foi monumental. Minha mãe quase desmaiou de pavor na mesa do restaurante sofisticado. Meu pai rugiu meu nome com uma fúria cega, exigindo desculpas imediatas. Arthur Smith arregalou os olhos, chocado com a audácia da "sua futura nora" - embora, olhando para trás, acho que os dois velhos sádicos acharam aquilo o ápice da diversão corporativa disfarçada de conflito juvenil.

Noah ficou estático, com o suco roxo escorrendo pelo tecido nobre, colado à pele, enquanto os olhos dele encontravam os meus. Naquele olhar, não havia mais o deboche de antes. Havia surpresa, confusão e, pela primeira vez, um vislumbre de respeito forçado pela minha fúria.

Eu não pedi desculpas. Olhei bem nos olhos dele, limpei os cantos da boca com o guardanapo com toda a elegância do mundo e disse com a voz mais gélida e venenosa que consegui formular:

- Foi um acidente, Noah. Assim como a sua existência na minha vida. Se voltar a falar o meu nome para os seus amiguinhos de galinhagem, da próxima vez o líquido vai ser ácido sulfúrico. Não teste os meus limites.

A partir daquele dia, a nossa relação civilizada - que nunca existiu de fato - transformou em uma zona de guerra declarada. Nós nos ignoramos nos corredores, trocamos farpas venenosas nas raras reuniões em que nossos pais nos arrastavam para posar para fotos institucionais, e fazíamos questão de nos sabotar mutuamente em todas as oportunidades possíveis. Quando fomos um pouco mais velhos, na época dos bailes de formatura do colégio pré-universitário, ele tentou me sabotar espalhando boatos de que eu não iria à festa, e eu fiz questão de aparecer no braço do maior rival dele nos esportes só para ver a mandíbula dele trancar de puro ódio contido.

E agora, anos depois daquela tarde traumática na escadaria da escola, depois de eu ter fugido para a Europa para tentar respirar longe daquele ambiente sufocante, depois de ter construído uma nova identidade artística onde o nome Carter e Smith não significavam absolutamente nada... o meu pai me joga de volta na cova dos leões.

Ele quer que eu me case com o monstro da minha infância. Quer que eu divida o mesmo teto com o garoto que me chamou de feia e chata para os amigos, destruindo o pouco de autoestima que eu tentava cultivar na adolescência.

Enquanto eu caminhava pelas ruas gélidas de Manhattan ontem à noite, com o vento cortante batendo no meu rosto molhado de lágrimas de raiva, percebi o tamanho da ironia macabra que o destino havia preparado para mim. O ódio que nasceu daquela humilhação aos quatorze anos não era apenas um resquício da adolescência. Era a fundação sólida de uma guerra que nunca terminou.

Noah Smith achava que podia me controlar, que podia me tratar como uma mercadoria em um contrato de fusão bilionária e me transformar na prisioneira perfeita de sua torre de vidro corporativa. Ele pensava que eu ainda era aquela garota assustada atrás da coluna de concreto, chorando por causa de palavras cruéis.

Ele não fazia ideia do monstro que ele mesmo havia ajudado a criar. Se eles quisessem um casamento forçado, eles teriam. Mas eu faria da vida de Noah Smith o mais absoluto e impiedoso inferno na terra. Ninguém pisoteia a dignidade de Charlotte Carter duas vezes sem pagar o preço.

Capítulo 3 O circo armado e a fuga

Abri a porta do apartamento da minha melhor amiga, Lívia, sentindo como se estivesse carregando uma tonelada de chumbo em cada ombro. Meus pés arrastavam pelo piso de madeira escura com uma lentidão dolorosa, reflexo direto do esgotamento mental e físico que vinha me consumindo desde aquela noite fatídica no restaurante. Eu não apenas estava exausta; eu estava em estado de choque permanente, uma mistura explosiva de revolta incontrolável e um pânico surdo que ameaçava me paralisar a qualquer segundo.

Assim que a porta se fechou atrás de mim, trancando a fechadura com duas voltas audíveis, desabei. Minha bolsa caiu de ombro, despencando no chão com um baque abafado pelo tapete da sala, e eu encostei as costas na porta fria, escorregando devagar até sentar no chão. Minhas pernas simplesmente haviam decidido parar de funcionar.

- Ei, calma, respira - a voz doce e urgente de Lívia cortou o silêncio do apartamento. Em segundos, ela estava agachada na minha frente, com os olhos arregalados de pura preocupação, segurando o meu rosto entre as mãos trêmulas. - Meu Deus, Charlotte... você está pálida como um cadáver. O que aconteceu? Sua mãe me mandou uma mensagem dizendo que a data do noivado foi fixada, mas que você estava... bem, que você tinha surtido.

Dei uma risada fraca, sem o menor humor, enquanto sentia as lágrimas quentes começarem a queimar o meu rosto novamente. Eu já estava farta de chorar, mas o meu corpo parecia não ter mais nenhum outro mecanismo de defesa contra aquela avalanche de humilhação.

- Dois dias, Lívia - sussurrei, a voz saindo engasgada, rasgando a minha garganta. - O meu pai marcou o meu noivado para daqui a exatos dois dias. Em quarenta e oito horas, eu vou ter que colocar um vestido ridículo, dar um sorriso falso para a alta sociedade de Manhattan e encarar o meu pior pesadelo na mesma sala. Eu vou ter que olhar nos olhos de Noah Smith e aceitar que a minha vida foi roubada de mim por causa de um pedaço de papel assinado há vinte e dois anos.

Lívia recuou um pouco, sentando no chão ao meu lado, chocada demais para conseguir formular uma frase de imediato. Ela conhecia a minha história com Noah. Ela sabia de cada cicatriz deixada por aquela infância sufocante e pela humilhação na adolescência.

- Isso é loucura - disse ela finalmente, balançando a cabeça em um gesto de negação absoluta, como se quisesse expulsar a realidade através da força do pensamento. - Estamos no século XXI, Charlotte! Eles não podem simplesmente te obrigar a casar como se você fosse uma princesa feudal sendo entregue em um acordo de paz entre reinos vizinhos! Onde já se viu uma barbaridade dessas? Você ameaçou chamar a polícia? Um advogado?

- De que adianta um advogado se o meu próprio pai vendeu a minha liberdade antes mesmo de eu aprender a escovar os dentes sozinha? - retruquei amargamente, enxugando as lágrimas com as costas das mãos com força suficiente para deixar a pele vermelha. - Eles fecharam o cerco, Lívia. A minha galeria de arte? Foi comprada por uma subsidiária dos Smith nesta tarde. Se eu tentar fugir ou recusar de vez, eles me deixam na rua da amargura, sem um centavo, sem os fundos para os meus projetos, completamente isolada. Meu pai fez questão de cortar todas as minhas rotas de fuga.

O horror na expressão de Lívia era palpável. Ela estendeu o braço e me puxou para um abraço apertado, onde eu permiti, por alguns minutos, desabar completamente, afundando o rosto no ombro dela e apertando o tecido da sua blusa até meus dedos doerem.

Mas o alívio provisório durou pouco. Logo a raiva voltou a ferver nas minhas veias, espalhando uma onda de adrenalina pura que me fez levantar de um salto do chão.

Tudo havia começado logo no momento em que eu pus os pés de volta em casa, após o tal jantar desastroso. Minha mãe havia me esperado no hall de entrada da mansão dos Carter, com aquela postura impecável de quem parecia viver em função de agradar às convenções sociais da elite financeira. Ela tentou vir em minha direção com uma expressão fingida de comiseração, segurando uma prancheta prateada onde constava o cronograma oficial do evento.

"Charlotte, querida, precisamos acertar os detalhes do buffet e a lista de convidados com urgência," dissera ela com aquela voz mansa e calculista, como se estivéssemos discutindo a decoração de uma festa de aniversário qualquer e não a minha execução em praça pública. "Seu pai conversou com os assessores dos Smith. Ficou decidido que o noivado será íntimo, mas com ampla cobertura da imprensa econômica. É fundamental que vocês pareçam unidos desde o primeiro segundo para afastar qualquer boato de instabilidade nas empresas."

Eu olhei para ela como se ela tivesse perdido a sanidade mental por completo. A minha mente gritava de revolta.

"Vocês perderam a noção da realidade?" eu havia gritado, perdendo o resquício de paciência que ainda me restava. "Vocês estão marcando o meu casamento com o meu pior inimigo e ainda têm a audácia de me pedir para escolher o buffet? Saiam daqui! Saiem do meu quarto agora!"

Quando minha mãe tentou insistir, argumentando sobre a honra da família e o peso do sobrenome, eu simplesmente peguei um abajur de cristal da mesinha de cabeceira e o lancei contra a parede, estilhaçando em mil pedaços no chão. O estrondo foi suficiente para fazê-la recuar horrorizada, balançando a cabeça e dizendo que eu havia emlouquecido antes de bater a porta do meu quarto com força.

Nos dois dias seguintes, a mansão se transformou em um quartel-general de guerra e em um verdadeiro circo corporativo. Funcionários de cerimonial, estilistas, floristas e assessores de imprensa entravam e saíam da nossa casa como se estivessem preparando um casamento real. Era uma movimentação frenética, barulhenta e completamente asquerosa.

Sempre que tentavam me incluir em alguma decisão - como provar vestidos de alta-costura que pareciam trajes de gala fúnebre ou discutir a paleta de cores da decoração -, eu simplesmente recusava de forma categórica. Me tranquei no quarto, coloquei fones de ouvido com o volume no máximo e ignorei cada batida na porta. E, quando a pressão se tornou insuportável, quando o som dos saltos da minha mãe no corredor parecia o tiquetaque de uma bomba relógio prestes a explodir, eu tomei a única decisão sensata que me restava: fiz as malas às pressas, joguei algumas roupas dentro de uma mochila, pulei a janela do escritório dos fundos para evitar cruzar com os seguranças na entrada principal e vim direto para o apartamento de Lívia.

Eu não iria participar daquele circo. Se eles quisessem um show de marionetes, teriam que me buscar a força, porque eu não daria o meu consentimento sorrindo para câmeras enquanto enterravam o meu futuro.

- E agora, amiga? O que você planeja fazer? - perguntou Lívia, olhando para mim com uma expressão de profunda apreensão enquanto me servia uma xícara de chá quente que ela acabara de preparar.

Aceitei a xícara com as mãos trêmulas, sentindo o calor do recipiente contrastar com o gelo que parecia habitar o meu peito. Dei um gole pequeno, ponderando sobre as únicas opções miseráveis que me restavam naquele tabuleiro de xadrez armado pelo meu pai.

- Eu não sei, Lívia - confessei, a voz saindo num murmúrio quase inaudível, carregado de um cansaço infinito. - Por um lado, eu tenho vontade de sumir deste país de novo. Pegar o primeiro avião para qualquer canto do planeta onde o nome Carter ou Smith jamais tenha sido ouvido. Viver de pintar quadros em uma calçada qualquer em Paris ou Londres, sem um tostão furado, mas com a minha liberdade intacta.

Lívia suspirou pesadamente, sabendo tão bem quanto eu que aquela fuga romântica era quase impossível na prática.

- Mas você sabe que seu pai congelaria suas contas em segundos, mandaria investigadores particulares atrás de você e transformaria a sua vida em uma caçada implacável, não sabe? - ponderou ela com a lucidez dolorosa que os melhores amigos sempre têm a coragem de nos lembrar. - Adam Carter não aceita ser desmoralizado publicamente. Se você fugir agora, ele vai atrás de você até no inferno.

- Eu sei... é exatamente isso que me aterroriza - fechei os olhos com força, encostando a cabeça no sofá da sala e respirando fundo para conter o tremor nas pálpebras. - Se eu fugir, eu mostro fraqueza. Eu fujo como uma garotinha acuada, exatamente do jeito que Noah Smith sempre achou que eu era. Ele vai rir da minha cara. Vai pensar que eu fui derrotada antes mesmo de a batalha começar.

- Então você não vai fugir? - os olhos de Lívia brilharam com uma centelha de surpresa e curiosidade intensa. Ela me conhecia o suficiente para saber que, quando eu chegava a esse ponto de exaustão silenciosa, algo perigoso e imprevisível costumava nascer na minha mente.

Abri os olhos lentamente, encarando a parede em frente com um olhar vazio que, gradualmente, foi se transformando em algo muito mais sombrio, determinado e cortante. A dor da humilhação, o desespero de ver meus sonhos pisoteados e a revolta contra o destino imposto começaram a se reorganizar dentro de mim, fundindo-se em uma armadura de pura resiliência fria.

Se eu não podia fugir sem perder tudo o que lutei para conquistar, e se eu seria obrigada a subir naquele altar para me unir ao meu maior carrasco... então eu jogaria as regras no lixo e mudaria o jogo por conta própria.

- Não, Lívia. Eu não vou fugir - respondi, e a minha voz saiu firme, revestida de uma calmaria gélida que assustou até a minha própria alma. Um sorriso irônico, cortante e perigoso desenhou lentamente nos cantos dos meus lábios. - Se eles querem me dar de presente para os Smith, se eles acham que vão me controlar como a uma boneca de porcelana na mansão deles... eles estão cometendo o maior erro da história dos negócios da família.

Lívia engoliu em seco, recuando levemente no sofá ao perceber a mudança drástica na minha postura. Ela conhecia aquele olhar. Era o olhar de quem estava prestes a declarar guerra total.

- O que você vai fazer, Charlotte? - perguntou ela num sussurro cauteloso, quase com medo da resposta.

- Eu vou aceitar o noivado - falei pausadamente, saboreando cada palavra como se fossem os preparativos para a vingança perfeita. - Vou comparecer àquela festa ridícula em dois dias. Vou colocar o maldito anel de diamantes no dedo, vou sorrir para os jornalistas, vou fingir ser a noiva dócil e perfeita que o meu pai tanto deseja ver nos jornais de economia.

Fiz uma pausa dramática, inclinando para a frente, fixando meus olhos nos dela com uma intensidade que fazia a temperatura da sala parecer cair dez graus.

- Mas, no segundo em que aquele contrato for assinado e eu estiver sob o mesmo teto daquele arrogante insuportável... eu vou transformar a vida de Noah Smith em um verdadeiro inferno na terra. Se ele acha que vai me dominar, ele vai aprender da maneira mais dolorosa possível o que acontece quando se mexe com uma mulher que já não tem mais nada a perder.

O silêncio reinou na sala por longos segundos, denso e carregado de eletricidade estática. Lívia me olhou boquiaberta, dividida entre o choque pela ousadia do meu plano suicida e a admiração pela força avassaladora que irradiava de cada poro do meu corpo.

O circo estava armado. Os ingressos já haviam sido vendidos para a alta sociedade de Nova York, e o espetáculo da minha ruína estava preste a começar em quarenta e oito horas. Mas o que o meu pai, os Smith e o próprio Noah ignoravam completamente era que eu não estava subindo ao palco para interpretar o papel de vítima indefesa.

Eu estava entrando na arena para arrancar a cabeça do leão por dentro. E que venha o noivado.

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