Ponto de vista de Percival:
"Sr. Percival, sinto muito, mas o Sr. Ronald não está no escritório agora. Talvez seja melhor o senhor voltar uma outra hora."
Era a quarta vez esta semana que isto acontecia e claro que eu já sabia que essa era apenas uma desculpa do Sr. Ronald para não me receber. Por anos, eu sonhei em trabalhar com esse homem, mas quando finalmente surgiu a oportunidade, ele se revelou um cara à moda antiga.
Sua condição para se associar a mim era que eu fosse casado. Ele acredita que só pode confiar no discernimento dos homens casados, pois esse era o verdadeiro significado de estabilidade para ele.
Isso era um absurdo. Eu achei que ele estava apenas blefando.
Mas sua atitude me dizia que ele estava falando sério.
Então, era isso que eu tinha que fazer agora...
"Não tem problema. Eu não vim aqui para falar de trabalho com o Sr. Ronald. Eu só queria contar a ele que vou me casar em breve. Por favor, passe o meu recado adiante."
Assim que terminei de falar, o assistente do Sr. Ronald me olhou em choque. Afinal, eu tinha acabado de inventar essa notícia no improviso.
Casar não seria um problema para mim porque já tenho alguém com quem quero passar o resto da minha vida.
Entretanto, minha noiva, Violet Howell, é uma cantora mundialmente famosa, cuja carreira está no seu auge. Eu sei que jamais conseguiria convencê-la a se casar comigo neste momento e eu a entendo completamente.
Mesmo assim, ainda preciso de uma esposa. Agora que havia dado minha palavra, era meu dever cumpri-la.
***
Com um suspiro, liguei para a minha avó. Ela era a única em quem podia confiar para resolver esse assunto.
"Vovó, preciso que você me arranje uma esposa. De preferência, uma bem feia que não se deixe afetar pela minha fortuna e que saiba bem qual é o seu lugar."
"Percy, não sei se acho essa uma boa ideia. Quero dizer, Violet concordou mesmo com isso?"
"Ela me entende. Não posso desperdiçar essa oportunidade por causa de um motivo ridículo desses!"
Eu sabia que Violet não se oporia a nada que pudesse me ajudar a expandir meu império no mundo dos negócios.
"Tudo bem então. De que tipo de garota você precisa?" Minha avó questionou.
Claro que quanto mais fácil de manipular, melhor.
"Uma garota que se contente com uma boa quantia para que não venha me incomodar sobre o divórcio depois."
***
Ponto de vista de Regina:
"Depressa, limpe lá também!" Uma empregada, colega minha, gritou, fazendo com que eu largasse o vaso na minha mão imediatamente para limpar o lugar que ela mandou.
Já faz uma semana que trabalho aqui. Como ainda estou em período de experiência, tenho que fazer tudo que meus superiores mandam porque preciso muito manter esse emprego! A cirurgia da minha mãe não podia mais esperar!
"Vocês duas! Parem o que estão fazendo! A dona Katherine pediu para nos ver na sala agora mesmo." Nossa colega, Thalia, veio avisar.
"Está bem, está bem", respondemos juntas.
Sempre que a dona Katherine chamava, era melhor estar lá num piscar de olhos.
Esta foi a primeira coisa que aprendi desde que comecei a trabalhar aqui.
***
Todas as empregadas, incluindo a mim, encontravam-se paradas diante da dona Katherine.
A mulher idosa nos encarou uma por uma.
Achei aquilo estranho, pois parecia que ela estava nos avaliando a um nível mais profundo, como se quisesse enxergar dentro de nossas almas.
"Você!" De repente, ela apontou na minha direção, fazendo-me engolir em seco.
O que foi que eu fiz?
Será que eu a ofendi?
Ela vai me demitir?
"Me siga."
Pisquei por um instante antes de segui-la em silêncio até o escritório.
Com a cabeça baixa, mantive meu olhar no chão enquanto me perguntava o que havia feito de errado. Será que a patroa queria me despedir?
"Case-se com o meu neto", ela declarou.
O QUÊ? Levantando a cabeça de supetão, eu a encarei em choque. Ela estava mesmo falando comigo? Eu olhei por cima do ombro, mas não havia ninguém atrás de mim.
"Senhora... eu..." O que estava acontecendo?
"Se casar com meu neto, você ganhará 50 milhões de dólares. Metade do pagamento será feito hoje mesmo e a outra metade você receberá quando terminar o trabalho daqui um ano."
Agora entendi tudo. Ela queria me pagar para que eu ficasse casada com o neto dela por um ano.
Mas por que eu? O herdeiro de um homem tão rico não deveria se casar com uma garota de família nobre? Por que oferecer isso logo para mim, que não tinha onde cair morta? Eu sou praticamente uma figura insignificante no mundo dela.
No entanto, dona Katherine não me deu a chance de perguntar nada e prosseguiu: "Se não aceitar, posso fazer a mesma proposta à Thalia ou Russell."
Ela não quis me dar nenhuma informação a mais. Eu não sabia como era o neto dela ou se eles fariam alguma exigência exorbitante, como me obrigar a ter um bebê ou algo do tipo. Na verdade, ela não parecia estar me perguntando nada. Ela só estava me informando.
Porém... 50 milhões de dólares... Isso era muito dinheiro...
Naquele momento, não pude deixar de pensar nos custos hospitalares da minha mãe.
Sem dúvidas, esse valor cobriria tudo.
E ainda sobraria muito dinheiro para mim.
Talvez eu finalmente pudesse continuar meus estudos.
"Está de acordo?" Dona Katherine perguntou com seriedade. Pelo seu tom, aquela parecia ser a última oportunidade que ela me daria de responder. Eu não podia mais enrolar ou acabaria perdendo minha única chance de salvar minha mãe.
Eu não pertencia a uma família particularmente nobre, sem falar que precisava do dinheiro.
Minha mãe me tirou de um orfanato e me criou como se fosse sua própria filha. Após a empresa do meu pai adotivo falir, ele morreu por conta de um infarto do miocárdio e logo depois, minha mãe foi diagnosticada com câncer. Dessa forma, todo o peso de nos sustentar caiu sobre os meus ombros, mas eu precisava aguentar firme. Não podia perder minha mãe. Nada era mais importante do que ela!
Pensando nisto, eu assenti com firmeza.
A idosa anuiu satisfeita antes de finalmente me explicar os detalhes daquele contrato ridículo. "Vocês não vão ser um casal de verdade. Você não deve se aproximar do meu neto. Seu trabalho é fingir ser esposa dele quando for necessário."
Por sorte, eu não precisaria fazer sexo ou ter filhos com ele. Mas que tipo de mulher esse homem poderia querer que não tinha para ter que se casar com uma empregada como eu?
"Entendi, serei apenas uma empregada." Eu sabia que ela estava preocupada de eu ser o tipo de pessoa que poderia se deixar envolver pelo neto dela. Então, fiz questão de mostrar minha determinação.
"Você é muito esperta. Agora, assine os papéis se estiver de acordo com tudo." Ela colocou um contrato sobre a mesa e me entregou uma caneta.
Depois de ler cada cláusula minuciosamente, assinei meu nome com uma expressão solene.
Em seguida, engoli em seco.
Era difícil acreditar que estava me casando aos dezenove anos.
"Certo, agora, vamos para a casa dele." Não havia mais como voltar atrás. Dona Katherine ordenou que eu me mudasse para a mansão do meu marido desconhecido imediatamente.
Fiquei admirada ao passar pelos portões enormes da mansão.
Eu não conseguia parar de olhar o lugar pela janela do carro antes de seguir dona Katherine casa adentro.
Outra empregada com quem havia feito amizade, Thalia, tinha vindo conosco.
"Siga-me, vou te mostrar onde é o seu quarto", disse Thalia.
Sem dizer uma palavra, eu subi as escadas brancas atrás dela e passei por dois corredores até estarmos diante de uma grande porta.
Ao abri-la, eu ofeguei.
O quarto era enorme.
"Este é o quarto do Sr. Percival, mas me disseram que você terá que dormir ali." Thalia apontou para um divã do outro lado do cômodo.
Não pude deixar de fazer beicinho. A verdade era que eu estava de olho naquela cama enorme. Já que esse homem não me queria por perto o tempo todo, por que ele não podia simplesmente me dar outro quarto para dormir?
No entanto, eu sabia que não tinha o direito de fazer essa pergunta.
"Thalia, você poderia dizer à dona Katherine que eu preciso ir para casa pegar algumas coisas minhas, por favor?"
Thalia assentiu. "Claro."
Dava para ver que ela se sentia desconfortável na minha presença agora.
Eu precisava deixar claro para ela que ainda éramos amigas.
"Tudo aconteceu tão de repente. Ainda estou me acostumando com a ideia. Quero dizer, dá para acreditar? Eu me casei com uma pessoa que nem sequer conheço. Essa situação toda é tão estranha que estou começando a pensar que ele poder se feio ou talvez barrigudo."
Thalia riu. "Pode acreditar, ele não tem nada de feio. Ele é o homem mais lindo que eu já vi."
Pude detectar um toque de inveja no tom de Thalia.
"Você o conhece? Conte-me mais sobre ele."
"Logo, logo você irá conhecê-lo também." Depois de dizer isso, Thalia deixou o quarto depressa.
Franzi a testa. Isso estava ficando cada vez mais inquietante.
***
Ao cair da noite...
Já estava deitada no divã para dormir quando ouvi o som da porta se abrindo.
Minha garganta se moveu descontroladamente.
Será que era meu marido misterioso?
O que eu deveria fazer?
Deveria me levantar e cumprimentá-lo?
Deveria me apresentar a ele?
Então, lembrei que dona Katherine queria que eu vivesse como um fantasma naquela casa. Eu só deveria falar quando se dirigissem a mim.
Mesmo assim, ainda estava curiosa. Não pude deixar de abrir um pouco os olhos apenas para vê-lo tirar a roupa.
Com suas costas viradas para mim, seus músculos flexionavam enquanto ele tirava a camisa.
Eu encarei a tatuagem em suas costas.
Inclinando a cabeça, tentei decifrar a palavra escrita ali.
Como se pudesse sentir meu olhar, ele se virou e eu rapidamente fechei os olhos, cobrindo o meu rosto com as mãos.
Eu não fazia a menor ideia de como fingir ser invisível.
Como uma pessoa de carne e osso poderia agir como um fantasma?
***
Ponto de vista de Percival:
Dei um sorrisinho ao ver a garota no divã tentando se passar despercebida.
Deixei meus olhos correrem pela figura magra dela e cheguei a conclusão de que a moça não fazia mesmo o meu tipo.
Precisava dizer que minha avó fez um bom trabalho. Como ela conseguiu achar uma mulher tão pouco atraente?
Depois de me lavar, desci as escadas para jantar sem nem sequer olhar para a garota encolhida no divã.
***
"Adivinha quem é o mais novo recém-casado da cidade? Percival Saunders."
Fuzilei meu irmão, Austin, com o olhar.
Como esperado, ele tinha que fazer um estardalhaço.
"Ela não é minha esposa de verdade", eu repeti pela enésima vez.
"Ah, peço desculpas!" Não havia um pingo de sinceridade em seu pedido.
"Ela ficou quieta e manteve a discrição? Se ela se comportou de maneira inadequada, me avise para que eu possa substituí-la", disse minha avó.
Eu sorri satisfeito. "Não vai ser preciso substituir ninguém por enquanto."
"Ótimo."
"Ela é bonita?" Austin perguntou.
Eu revirei os olhos. "Não vi o rosto dela, mas pouco me importa se ela é bonita ou não. Só preciso começar a prepará-la para encontrar o Sr. Ronald."
Ponto de vista de Percival:
Estava prestes a começar a jantar quando meu celular tocou.
Sorri ao ver que era Violet ligando.
"Então, meu noivo se casou hoje. Será que eu deveria parabenizá-lo?" Ela falou com sarcasmo.
"Ah, qual é, querida. Já conversamos sobre isso."
"Ela é alguém com quem eu deva me preocupar?"
"Nós confiamos um no outro, Violet. Isso é tudo que importa. Você não precisa se preocupar com nada."
"Coloque no viva-voz, eu quero falar com ela", pediu minha avó, animada.
Assim que fiz isso, Austin disparou:
"Faz meses que eu não a vejo, Violet. Estou com saudades."
"Own! Também estou com saudades suas. Agora, me fale sobre a garota. Ela é bonita?"
Fechei meus olhos brevemente.
Lá vamos nós de novo.
"Não, ela não é e irei me certificar de que ela continue feia", minha avó respondeu.
É, minha avó sempre foi assim. Ela desprezava qualquer pessoa de classe inferior.
"Ela já comeu?" Perguntei à minha avó, que balançou a cabeça em negativo.
Pisquei, incrédulo. "Ela não é uma escrava aqui. Se não a tratarmos direito, como posso esperar que ela coopere na frente do Sr. Ronald?"
"Está bem, vou pedir que mandem comida para ela regularmente, mas ela está proibida de comer nesta mesa de jantar. Essa garota pode até salvar sua pele por um ano, mas ela não deve se esquecer qual é o lugar dela."
"Alôôô... Eu ainda estou aqui", Violet voltou a dizer do outro lado da linha.
"Desculpe, querida." Após pegar meu celular, saí da sala de jantar para falar com ela em particular.
Ai, como eu queria que ela já fosse minha esposa.
Odeio ter que aturar outra mulher por um ano.
***
Ponto de vista de Regina:
No dia seguinte...
Ninguém havia trazido minhas coisas.
Ninguém.
Eu pedi tanto para que minhas coisas fossem entregues a mim, mas fui totalmente ignorada.
Apesar de este ser meu segundo dia nesta casa, eu não via meu marido desde da noite que tive um vislumbre de suas costas.
Era frustrante ter que ficar no quarto o dia todo.
"Como vou tomar banho sem meus pertences?" Murmurei enquanto caminhava na direção do banheiro. Talvez já o tivessem arrumado para mim.
Como o quarto tinha dois banheiros, presumi que um fosse para ele e outro para mim.
Ousei abrir as duas portas para ver qual banheiro era maior. Obviamente, era o dele.
Eu sabia qual era o dele porque apenas um dos banheiros tinha dois roupões, que com certeza pertenciam a ele, enquanto o outro não tinha nada.
Não tinha nem mesmo um sabonete.
"Isso já é demais..." Eu apenas me atrevi a sussurrar em desagrado.
No final, não tive outra escolha senão entrar no banheiro e usar seu sabonete líquido para tomar um bom banho. No entanto, como não tinha um roupão ou pijama, tive que secar minhas roupas com o secador e vesti-las úmidas mesmo depois de lavá-las na banheira.
Depois que acabei, fui até a porta do quarto. Desde ontem, eu ainda não havia saído deste cômodo! Hoje de manhã, pelo menos, tiveram o bom senso de me trazerem o café da manhã, apesar de apenas me deixarem comer no quarto. Eu vou enlouquecer se as coisas continuarem assim.
"Não tem problema se eu sair, tem? O contrato só exigia que eu ficasse longe dele, não falava nada sobre eu ser mantida presa aqui." Aproximei-me da porta devagar.
A casa era ainda mais linda do que eu tinha imaginado. Com cada azulejo brilhando, o lugar todo cheirava a dinheiro...
Eu estava prestes a ir lá para fora quando, de repente, alguém me segurou.
"Ah!" Gritei, descontrolada. Ao olhar para cima, vi um homem sorrindo para mim.
Ele tinha um cabelo loiro escuro e era muito atraente.
Será que este era o meu marido? Não lembro de ele ter essa cor de cabelo naquela noite.
No entanto, como o quarto estava meio escuro, eu não tinha como ter muita certeza do seu tom de cabelo.
"E pensar que a vovó disse que você não era bonita. Ela sequer sabe qual é o significado dessa palavra?"
Vovó?
Ele deve estar falando da dona Katherine.
Ele só podia ser meu marido, certo?
"Venha, você ainda não pode sair do seu quarto", comentou ele suavemente.
"Você é... hum... Não sei se devo perguntar, mas estou curiosa. Você é meu marido?"
Voltamos para o quarto e ele assentiu com um sorriso.
"Sim." Pensei que meu marido misterioso seria um homem distante, alguém quem eu temesse falar, mas, agora, ele parecia tão amigável.
"Você é linda", ele disse, aproximando-se de mim.
Pisquei os olhos por um instante.
Por que a expressão em seu rosto mudou de repente?
"Suba na cama, minha esposa!" Ele ordenou.
Dona Katherine havia dito que não haveria nenhum tipo de intimidade entre nós.
Sendo assim, afastei-me dele e balancei a cabeça com medo.
"Não..."
"Não seja tímida. Tenho certeza de que você vai gostar", ele sussurrou de maneira sedutora.
"Ah..." Quando estava prestes a fugir dele, ele me segurou e me atirou na cama.
Não! Desse jeito não!