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Casualidades da vida

Casualidades da vida

Autor:: Mel Pimentel
Gênero: Romance
Sigam meu ins.ta.gram: @melpimentelautora Uma invasão. Uma escolha. Um contrato de trabalho. Uma babá. Um pai solteiro. O nascimento de um amor e a resposta de uma vida. Cassandra Hall, ou só Cass, como prefere ser chamada. Foi abandonada em um orfanato assim que nasceu e sua vida não foi fácil, tudo piorou após a morte de sua mãe adotiva. Sem rumo, e persuadida por seus amigos, tinha apenas um objetivo: Invadir a casa de Isaac Jhonson, mas como nem tudo está em nosso controle, jamais imaginou que ao ser capturada, receberia uma proposta inusitada. Ou, vira babá do filho de Isaac, ou é entregue a polícia. Ser babá nunca esteve em seus planos, menos ainda dos filhos do dono da casa ao qual invadiu. Porém, quando Pietro vê a invasora, se apaixona na mesma hora, a lançando em um emaranhado de confusão e descobrimento. Sem opções, aceita esse desafio que tem prazo determinado. Ao contrário do que a menina imaginava, esse giro de 360° graus em sua vida, não vai ser tão ruim assim. Vai ser bem divertido, um grande aprendizado e revelador. Além de trazer uma maior maturidade e compreensão para a vida da garota, que nunca pensou que a felicidade um dia poderia sorrir para ela. A vida tem meios de nos pregar certas peças e nos fazer viver coisas antes inimagináveis. Cassandra não imaginava que essa invasão seria uma porta para tudo que jamais imaginou ter em sua vida. Ela entra na mansão como uma garota perdida e tem a chance de se tornar uma linda mulher ao aprender muitas coisas novas. 'A existência é feita de tal maneira que, muitas vezes, os pequeninos acasos trazem as grandes catástrofes. -Albert Delpit'

Capítulo 1 Prólogo ★

- 24 anos antes.

- Tem certeza que estamos fazendo o correto? – A mulher olhou para o marido bem apreensiva. - Acho que podemos lidar com isso. É só um bebê. – Aponta.

- Como lidaremos com isso? Ela é uma criança e acabou de gerar outra criança. – O homem disse ríspido, deixando transparecer a fúria em seus olhos cinzentos. - O pai ao menos teve a decência de ficar e assumir, foi embora na primeira oportunidade que teve.

- Vicente, se ela descobrir, jamais nos perdoará pelo que fizemos. – Argumentou chorosa pouco antes do portão do grande orfanato que vivia sempre aberto. - Acha que essa é a melhor alternativa?

- Ela tem apenas dezesseis anos. Nos desrespeitou, se entregou aquele homem e foi abandonada. – Apesar da fúria na voz, a mágoa estava estampada no olhar do homem. Ele sempre confiou na filha e se dedicou ao máximo para dar o melhor, e se sentia traído com essa gravidez não planejada. - Ela vai terminar os estudos, vai ser alguém na vida. Como sempre planejamos e vai viver em paz. Sairemos daqui, seremos felizes!

- Isso é desumano! – Disse chorando.

- Isso é necessário! – Rebateu convicto.

- Nem sempre o necessário é o que se deve fazer. – Continuou. - Ela vai sofrer.

- Ela vai superar.

O homem lá no fundo se sentia mal pela iniciativa que tomou, mas seu coração duro não fez com que qualquer tipo de arrependimento aparecesse. Por isso, se aproximou da porta pouco antes do amanhecer e deixou a pequena caixa. O bebê dentro dormia tranquilamente e as lágrimas que escaparam de seus olhos cinzas, limpou rapidamente.

- Eu prometo que você vai ter uma vida melhor aqui. – Sussurrou se aproximando da porta grande. - Eles vão cuidar de você e vai ficar tudo bem. – As palavras eram mais para si do que para a criança, afinal, ela não entendia nada ainda.

O homem bateu na porta e se afastou, correu até a esposa, a puxando para longe dali. Só foram embora quando viram a porta se abrir e alguém pegar a criança. A mulher procurou ao redor para ver se conseguia saber quem tinha deixado aquela pobre criança ali, mas foi em vão. Nenhuma identificação, apenas um nome em um papel.

Se convencer de que fizera o certo ficou cada vez mais difícil para o homem. Mesmo que enviasse anualmente uma verba boa para o orfanato, sempre no dia do aniversário da neta que foi o anterior a seu abandono, mesmo com isso, começou a definhar ano após ano. Ficando cada vez mais doente e menos comunicativo, se perdendo em seu próprio mundo de acusações e arrependimentos. Pensou estar beneficiando a todos, mas essa escolha afetou não só a eles, mas a todos envolvidos nesse nascimento.

- 22 anos depois

Nervoso ainda com o que leu no papel estirado na mesa em sua frente, o homem passa a mão em seus cabelos castanhos, retirando seus óculos em seguida. O ar sai de sua boca, ainda chocado e sem entender o que aquelas palavras significavam, ou melhor, querendo que aquelas palavras tivessem com algum erro. Que o que estava confirmando ali, fosse mentira, apenas um pesadelo e que fazia questão de acordar.

Seus pensamentos foram interrompidos quando um galho da árvore bateu raivosamente contra a janela. O dia está frio e com uma potencial tempestade forte se formando. Engoliu seco mais uma vez, decidindo levantar e tomar um copo de sua bebida mais forte. Como ela pode fazer isso com ele? Depois de tudo que fez por ela, seu pagamento foi em uma traição que dilacerou o coração.

- Acorda, acorda, acorda. – Sussurrou sentindo as lágrimas escapando de seus olhos.

Nunca foi um homem que demonstrava muito, mas quando se tornou pai, seu mundo se alegrou e tudo passou a fazer sentido. Só que agora um balde de água fria foi jogado em sua cabeça, destruindo um pouco de sua felicidade.

Ainda parado no meio do escritório, ouviu o bater alto de uma porta, que logo assimilou ser a de entrada. Isso o levou a sair a passos largos do cômodo, percebendo que a pessoa que saiu é acompanhada por um choro de bebê.

Ao abrir a porta, pode perceber a cabeça da loira inclinada para dentro do carro. Parecia não se importar com a chuva caindo enquanto prendia o bebê em sua cadeira.

- O que pensa que está fazendo? - Sua voz saiu alta e ao ouvir, a loira recebeu uma carga de tristeza atravessar seu corpo. Ele havia descoberto e ela queria ir embora o mais rápido possível. O exame de DNA deveria chegar para ela, mas infelizmente não obedeceram suas instruções e ele acabou recebendo em seu lugar.

- Estou saindo da sua vida. Como sempre quis. – Disse batendo a porta do carro e encarando o homem ainda na varanda da mansão. - Com o meu filho!

- Não quero saber o que aquele papel diz, ele é meu filho e você não vai me fazer aceitar o contrário. – Disse com firmeza enquanto começava a andar em direção a mulher.

Por alguns segundos a mulher pensou, mas sua cabeça ainda estava meio confusa. Os pensamentos conflitantes acompanhavam ela com frequência desde essa última gravidez, estava tudo mais difícil de entender e o toque estridente do celular fez com que voltasse a si. Correu para dar a volta ao carro e conseguir entrar, querendo ir o mais rápido possível.

Percebendo o que a mulher pretendia, o homem correu com rapidez e conseguiu abrir a porta de trás. Ela estava louca e sua insanidade não iria tirar seu filho, mesmo que o exame de DNA dissesse o contrário. Assim que abriu a porta, a mulher conseguiu avançar com o carro, fazendo com que o homem se jogasse para dentro.

- Selene, pare o carro agora. – Gritou enquanto se jogava para frente, para conseguir que o carro parasse.

- Eu não posso. – A mulher respondeu ainda mantendo seus olhos vidrados no portão enorme que se aproximava. - Você não vai me perdoar. Eu sou um monstro... – Acelerava mais a medida que falava. - Eu te trai e preciso consertar isso. Precisamos ir embora!

- Por Deus, não! – Disse em desespero. - Você vai nos matar, pare o carro. – Gritou e finalmente conseguiu empurrar a perna dela no freio.

Isso acarretou em uma chacoalhada para frente, mas nada que fosse tão grave. Ainda bem que o bebê estava preso e não se machucou.

- Eu te perdoo. Vamos entrar e ... – O bebê começou a chorar completamente irritado. - Vamos fazer o melhor pro nosso filho, não faz isso. – Tentou tranquiliza-la, mas não obteve resultado, já que o celular da mulher voltou a tocar e algo despertou nela.

Percebendo que não conseguiria dialogar e chegar a um consenso, se apressou quando ela saiu decidida a abrir o portão. Aproveitando a deixa, conseguiu tirar o bebê do carro, saindo depressa e tentando proteger o pequeno das gotas de chuva.

- Ele vai ficar. Você não vai tirar meu filho. – Continuou o homem, encarando a mulher. - Você não tem esse direito.

- Ele não é seu filho. – Gritou enfurecida. - Eu vou tirar tudo de você e vai ser obrigado a dar ele para mim. - Os olhos vermelhos da mulher denunciavam sua volta ao mundo dos entorpecentes.

- Selene, por favor. – Pediu ele calmamente. - Podemos resolver isso juntos. Vamos entrar, não cometa alguma loucura que possa se arrepender depois. – Apesar da fúria anterior, seu tom saiu calmo e quase gentil, tentando confortar e fazer a mulher mudar de idéia. - Não faz isso, é perigoso. Podemos conversar e resolver isso da melhor maneira.

- Isso ainda não acabou. – Foi tudo que ela disse antes de entrar no carro e ir embora, acelerando como se estivesse em fuga.

Essa também foi a última coisa que ele ouviu ela dizer naquele dia chuvoso. Policiais chegaram em sua casa horas depois, relatando o acidente de sua companheira que estava acompanhada de um homem. Mesmo sendo socorridos, não conseguiram fazer muito por eles, pela gravidade da batida. Não havia mais o que fazer, ela tinha escolhido ir, mesmo quando ele implorou para ficar.

Seu relacionamento com a mulher se iniciou de uma forma acidental quase cinco anos atrás, uma noite que resultou em uma gravidez. Mesmo tentando manter o relacionamento por um tempo e tentando ajudar a mulher, eles nunca chegaram a ter aquilo que muitos almejam em um relacionamento, o amor.

O homem não conseguiu se perdoar por isso. Resolveu criar um muro ao redor de si, protegendo seu coração e também todos aqueles que amava.

O segredo que foi revelado naquela noite, acabou sendo enterrado ali também. O elo entre pai e filho que se formou aquele dia, jamais poderia ser quebrado. Ele fez um juramento a si e ao bebê enquanto voltavam a mansão, que faria de tudo para manter aquele pequeno ser a salvo. Que se fosse preciso, daria sua vida para proteger aqueles a quem lhe foi confiado a paternidade. Ninguém poderia fazer mal a eles e que os protegeria independente de qualquer coisa, mesmo que isso o colocasse em perigo.

Capítulo 2 O início ★

Atualmente

O plano era simples, pelo menos em minha cabeça. Iríamos entrar na Mansão, estudar todo o lugar, achar possíveis pontos para um futuro roubo - sim, eu sei que é errado, mas segundo eles necessário. - e sair como entramos. Parecia um plano perfeito e sem falhas, todos estariam dormindo, ninguém iria se machucar, ninguém seria visto. Bom, pelo menos foi o que pensamos que aconteceria. Ou melhor, eu pensei que seria assim, mas meus amigos não me deixaram a par de todo o plano. Infelizmente nem tudo na vida acontece como planejamos e é aí que começa minha história. A partir do momento que pensei que tudo daria errado em minha vida...

- Ferrou, acho que nos descobriram. - Chace entra correndo no quarto e puxa a porta para fechar. Sem fazer barulho, claro. Todos arregalam os olhos, tensos com a notícia. Eu realmente não deveria ter topado isso.

- Como assim? Fizemos tudo direitinho. - Pergunto baixo e ele se aproxima de mim. Me fazendo recuar um pouco por invadir meu espaço pessoal - Vocês disseram que não daria errado!

- Acho que perceberam a falha na segurança. - Comenta nervoso - Ou alguma câmera nos pegou. Downie ... - Chama a atenção do garoto responsável pela tecnologia.

- Mas isso não é possível! - O magrelo diz pegando o tablet e começando a mexer - Eu fiz tudo certo. Trocou os seguranças e entramos. Desativei as câmeras e ... Ops.

- O que foi, Downie? O que você fez? - Samantha cruza os braços e encara ele seriamente. Vejo seus olhos castanhos tensos e seus cílios longos baterem a cada piscada irritada.

- Uma das câmeras deu interferência na hora que estávamos passando. Que merda! Isso é muita azar! - Diz andando para lá e cá - Um mês planejando e cagar tudo por causa da bosta do sistema. Inferno!

- Qual câmera exatamente? - Pergunto ainda nervosa - Sabia que isso ia dar errado. Eu definitivamente não deveria ter vindo. - Começo a surtar um pouco - Mas.. eles sabem sobre nós? Ou desconfiam que alguém invadiu? - Pergunto indo até a janela e olhando para baixo.

Vejo uma mulher a passar pelo quintal e também uma certa agitação. Céus, eu não quero ser presa.

- A câmera só pegou uma silhueta correndo por onde a Samantha passou. Eles devem estar procurando para saber o que ou quem é. - Downie continua.

Ficamos em alerta assim que escutamos um barulho. Posso decifrar pelo som que algumas portas estão sendo abertas e logo fechadas com certa força.

- Eles estão vindo!! - Samantha diz indo para seu esconderijo.

Downie e Chace fazem o mesmo. Subo na cômoda, coloco o pé nas partes elevadas da parede e pulo para a parte mais rebaixada do teto. Tomara que aguente meu peso, parece ser de gesso, porém parece ser firme e bom... não sou tão pesada assim.

Consigo observar o lugar que estou, que é bem estreito, mas não é tão sujo como imaginei. Na verdade, apesar do andar estar imerso em abandono. Ele não é sujo ou regado a poeiras. Minha testa se franze no momento em que vejo uma caixa vermelha bem no cantinho. Sem fazer barulho, estico a mão e puxo o aparelho celular ao lado de uma pequena caixa. Está desligado e como sou curiosa, coloco para ligar torcendo para que não faça tanto barulho ao ligar. Finalmente ele liga e acho bem suspeito, modo avião e silencioso.

Confesso que a pessoa é meio burra, já que a falta de senha revela que talvez tenha pensado que ninguém jamais acharia seu esconderijo 'perfeito.' Entro na galeria e arregalo os olhos ao fazer isso. Não abro as fotos, apenas deslizo para baixo e vejo que tem centenas de fotos seminuas de uma mulher. Isso aguça mais minha curiosidade.

Saio da galeria e vejo as chamadas, várias vídeos call para diversos números diferentes. Que loucura. Deixo o celular de lado e puxo a caixa, ainda ouvindo as diversas portas desse andar da mansão sendo abertas. Na pequena caixa tem dez máscaras, perfeitamente alinhadas e de cores diferentes. Máscaras que antes estavam no rosto da mulher das fotos. Quem seria?

Pego o celular de novo e entro na galeria, rolo com rapidez até a última foto que vi de relance um rosto e concluo meu pensamento. É ela, a atual mulher do dono da casa, mas... o que significa isso? Ela está traindo ele? Isso pode ser bom para nós. Ou, as fotos são para ele, mas isso não explica os diversos números nas chamadas. Noto uma pasta com senha, mas não tenho tempo de tentar abrir.

Me encolho assim que abrem a porta do cômodo e fecho os olhos, assim como prendo a respiração. As vozes estão altas e bem tensas. Assim como chegaram com rapidez, eles se vão. Que seguranças bons esses que contrataram para trabalhar aqui. Sendo driblados por quatro jovens. Ficamos por um bom tempo em silêncio e esperando qualquer som lá fora sumir, talvez eles pensem que foi um animal correndo e não alguém tentando invadir. Tomara.

Quando por fim não escutamos mais nada, Downie diz que podemos sair pois os seguranças já estão no andar debaixo. Segundo as câmeras mostram. Demoro um bom tempo para sair do lugar e preciso que Chace me ajude a descer, minha perna acabou formigando e fico para morrer quando isso acontece.

- Olha o que achei. - Chamo a atenção deles - Parece que a namorada não é tão fiel assim.

Eles se aproximam e mostro a caixa, eles olham as fotos e também mostro as mensagens com os endereços dos encontros da mulher, com dizeres bem pesados.

- Isso é melhor do que poderíamos imaginar. - Chace diz animado.

- Como ela pode trair aquele homem divino? - Samantha solta e atrai nosso olhar. A garota de cabelo loiro nem se abala com nosso olhar feroz. - Que foi? Posso ser ladra, mas não sou cega! - Cruza os braços e revira os olhos.

- Enfim, acho que precisamos ir agora. Eu definitivamente não quero ser pega. - Digo indo até a janela. Vejo os seguranças reunidos e um deles, que parece ser o líder, falando bastante e com gestos bem ameaçadores. - Eles estão distraídos.

- Eu guardo isso. - Downie diz pegando meu achado e guardando na mochila - Talvez não tenhamos nos arriscado em vão. Isso pode nos ajudar. Chantagem é ainda melhor que roubar. - Observo o garoto de cabelos castanhos arrepiados com um brilho em seus olhos também castanhos.

- Pensei que nós iríamos apenas estudar o lugar para depois ...

- Vamos! - Chace me corta tomando a frente e vai ver os possíveis riscos de nossa saída.

Saímos no corredor deserto do andar inutilizado da mansão, o terceiro andar todo está 'lacrado', não sabemos bem o porquê, apenas que ninguém usa ele. Downie continua mexendo no tablet, tentando agora não deixar nossa localização à mostra em câmeras. Chegamos ao pé da escada para descer.

- A câmera que mostra a janela com a árvore está desativada, a da lavanderia também e as outras duas que vocês usaram também. - Aponta para mim e Chace - Teremos cinco minutos para sair. Nos encontraremos na estrada. Cuidado, pois agora eles estão mais atentos do que quando entramos.

- Tudo bem. Boa sorte! - Digo e respiro fundo - De onde tiraram que seria uma boa invadir uma mansão? - Pergunto e eles dão de ombros, antes de ir cada um para sua saída de fuga e me deixar sozinha no imenso corredor.

Eu estou surtando? Sim, claro, mas preciso sair daqui o mais rápido possível. E não ser pega, está no topo da minha lista. Eu fui a que precisei entrar e agora sair pelo lugar mais arriscado, pois preciso passar pela cozinha para sair na garagem e aí sim, me esgueirar pela cerca e sair. Por eu ser mais magra e poucos centímetros menor que Samantha, fiquei com a parte mais difícil. O que não faz sentido algum, pois essa seria a minha primeira vez entrando com eles nas casas, geralmente fico do lado de fora vigiando o local.

A mansão é enorme, assim como o quintal, mas nem por isso ela é cem por cento segura e sem brechas. Foi até fácil entrar, apesar dos dez guardas que deveriam proteger muito bem esse lugar e que com toda certeza recebem uma fortuna por isso. Seis horas da manhã acontece a troca de turno com os seguranças e foi esse o horário que decidimos entrar. Somente depois das sete que os funcionários começam a chegar. O que vai ser, pelo relógio em meu pulso, daqui a vinte minutos. Preciso sair daqui logo. Esse foi definitivamente o pior plano que tivemos.

Quando chego ao primeiro andar, a casa está mergulhada em silêncio e com algumas luzes ainda apagadas. As poucas acesas, devem ter sido pela correria do seguranças pouco tempo atrás.

Quando escuto barulho de passos vindos da cozinha e barulho da porta da frente sendo aberta, a única coisa que consigo pensar é subir a escada de novo correndo e me enfiar em uma das diversas portas do longo corredor. É isso que faço, fecho a porta e apoio a cabeça nela, mas ao escutar certa movimentação. Me viro lentamente e encaro três pares de olhos, dois infantis e um arregalado.

- Oi. - Abro um sorriso bem medroso e respiro fundo - Por favor. Não é o que está pensando. - Digo calmamente a mulher que suponho ser a babá.

- Quem é você? - Pergunta ficando de pé, pois estava ajoelhada ajeitando a roupa de uma das crianças, a menor.

Que, aliás, me encara com seus grandes olhos cor de mel, que parecem vasculhar cada parte do meu ser. Os olhos da mulher não estão arregalados como antes e sim com muita curiosidade.

- Eu sou... uma... amiga. - Tento sorrindo forçadamente, mas ela ri disso, cruzando os braços em seguida - Eu estava com o pai deles e ... - Ela arqueia a sobrancelha - Quer saber? Estou tentando fugir. - Falo baixo para o menino maior não ouvir e ela se afasta, agora me encarando com medo e vejo que está bem tensa. - Por favor, não grite. Me chamo Cassandra e moro no quadrante C, da comunidade 9. Meus amigos acharam que seria uma boa invadir para roubar. Eu acabei topando e bom, parece que levei a pior. - Sussurro e ela se afasta. Não quero que as crianças escutem isso e saiam gritando que tem bandidos na casa. - Pelo amor do bom Deus, não me entrega. Eu faço o que quiser, menos me entregar, é claro. Tem um policial desse distrito, ele me odeia e se me pegar...

- Quantos anos você tem? - Seu olhar antes assustado e sua postura antes tensa, mudam consideravelmente e agora ela me encara com mais curiosidade ainda. Mal fico irritada por me interromper. Até fico grata, pois quase expus toda a minha vida a ela, por puro medo.

- Vinte e quatro. - Vejo um lampejo de tristeza passar por seu olhar. - Eu sei que pareço ter menos e também sei que deveria estar fazendo algo de útil da vida, mas..

- Concordo. - Diz arqueando a sobrancelha e me encarando com certa fixação. Outra vez me interrompendo. Só não argumento sobre tal ato, pois estou em desvantagem aqui. - Você me lembra muito alguém que eu conheço. A princípio pensei que você fosse alguma acompanhante do senhor Isaac, mas ele agora não faz mais isso, tomou jeito. - Argumenta parecendo bem feliz por essa parada na vida pessoal de seu chefe. - Eu sinto que te conheço de algum lugar. Que estranho! - Cruza os braços realmente tentando lembrar, levantando uma das mãos ao queixo.

Ela é branca, tem os cabelos ondulados castanhos e olhos escuros, apesar de parecer comum, nunca vi ela na vida. Pelo menos eu acho que nunca vi. Já passei por tanta gente por aí pelas ruas, mas o sentimento de já ter visto ela em algum lugar, não me assola.

- Nós podemos fazer um acordo. - Estou realmente com medo dela recusar e começar a gritar socorro. - Você me deixa ir e eu ... - Apenas respiro fundo tentando não me irritar por mais uma interrupção. Mentalizando que não estou em meu direito de contrariá-la.

- Eu realmente não poderei fazer isso. Sabe, não te conheço e olha que sendo antiga moradora dessa comunidade que você faz parte, eu saberia. - Sua expressão denuncia que não sairei bem dessa. - Já que você tem vinte e quatro anos e morei lá um tempo. - Sinto meus olhos marejarem no momento. Céus, por que eu concordei em fazer isso?

- Por favor!! - Suplico com as mãos frente a boca. - Não faz isso.

- To com fome, Sílvia! - O garoto jogando no celular diz levemente irritado e totalmente alheio a nós.

- Nós já vamos tomar café, Andrew. - Diz ao garoto irritadinho e ele bufa. O garoto menor, ainda está imóvel e me encarando - Estou resolvendo um probleminha.

- Humm. - Resmungo enquanto tento arrumar outro argumento convincente. - TALVEZ... - Grito ao pensar em algo, mas logo baixo a voz. - Talvez você tenha conhecido minha mãe. Ela era bem conhecida por seus trabalhos na comunidade, ela era enfermeira, Elizabeth Hall e também trabalhava no casarão que cuida de crianças para adoção. - A expressão da mulher se transforma assustadoramente. Aleluia!

- Cassandra Hall? Não acredito! - E se aproxima, prendo a respiração enquanto seus olhos me estudam, mas essa sua euforia some e ela recua, levemente constrangida pela sua reação exagerada. Que foi segurar em meus braços e abrir o maior sorriso que já vi. - Não te reconheci, você está enorme garota. Bom, metaforicamente. - Se retrata e sinto vontade de rir. Não tanto por isso, mas por sentir que sairei dessa com a cabeça no pescoço. - Conhecia muito bem sua mãe e creio que ela não ficaria nada feliz com o que está fazendo. Não ouço falar dela desde que me mudei de lá, como ela es... - Sua voz some quando encaro meus pés, mordendo minha bochecha por dentro, no processo. - Oh. Sinto muito. - Sua voz denuncia seu sentimento e suspiro grata por isso.

- Tudo bem. Olha, eu prometo que não me meterei em problemas futuros, só me ajuda a sair daqui. Silvia, não é? Então, se me deixar ir embora. Prometo não cometer mais nenhuma loucura.

- Deveria ter pensado nisso antes de invadir a casa dos outros, não é? - Pergunta e dou de ombros.

- Nunca deu errado antes. Não pensei que ... - Abro um sorriso tentando disfarçar quando me ligo no que falei. - Eu tô brincando. Essa é minha primeira invasão e aparentemente a última, mesmo que eu saia dessa de boa, nunca mais farei isso. - Ela faz menção de falar, mas o menino menor que parecia vasculhar minha alma, fala.

- Tia. - O menino pequeno de grandes olhos cor de mel segura em minha mão e abre um sorriso.

- Sim? - Pergunto e observo bem suas feições.

Ele é diferente do irmão mais velho. Enquanto o viciado em celular tem os cabelos loiros, olhos azuis e pele bem branquinha. Esse tem o cabelo mais castanho, olhos cor de mel, pele um pouco mais morena que a do irmão e é bem magrelinho, acho que não é normal para um menino de aproximadamente três anos e que aparentemente tem tudo para comer.

- A senhora é muito bonita! - Diz sorrindo e abro outro retribuindo. Olho para a babá que tem uma expressão indecifrável no rosto.

- Obrigada, o senhor também é um charme em pessoa. Parece um príncipe. - Afago seus cabelos lisos, que é a única coisa parecida com o irmão e ele começa a rir, totalmente tímido e se divertindo.

- Posso te mostrar minha coleção de carrinho? Ela é enorme. - Faz um gesto com a mão e olho alarmada para a mulher. Esperando por alguma resposta. Quero gritar 'ME SALVA'.

- Andrew, pode ir tomar café, que já te acompanho. Vou levar seu irmão à sala de brinquedos rápido.

- Mas... - Ele nos encara.

- Pode comer bolo de chocolate. - Ela diz relaxando os ombros. - Mas somente hoje.

- Ebaaaa!! - Ele joga o celular na cama e sai correndo do quarto. Passando perto de mim e nem me olhando, acho que ele só fez isso quando eu entrei e não durou mais que um minuto.

- Qual seu nome? - Pergunto ao pequeno, mesmo já tendo plena noção básica sobre eles e seus nomes.

- Pietro Jhonson. - Diz piscando os olhinhos, soltando minha mão e estendendo novamente para que eu aperte. Que coisa mais fofa.

- Então vamos conhecer sua coleção de carros, Pietro. - Ele assente sorrindo. Já eu, entro nessa brincadeira real, pois ele gostou de mim. Isso pode amolecer o coração da mulher para me deixar ir.

Dizem que crianças são sensitivas em relação a pessoas boas e ruins. E eu não sou ruim, apenas sem juízo e que faz algumas merdas. Isso deve bastar.

(...)

Confesso que o menino me deu uma canseira, ele não parou de falar um segundo e me fez andar pela casa toda. Acho que devo ter conhecido o primeiro andar todo e que casa grande. Credo. Imagina limpar tudo. Deve ser uma tortura.

Durante a caminhada, pude procurar possíveis lugares para minha fuga, mas não encontrei nenhum que pudesse me conceder a escapada perfeita.

O menino que descobri ter três anos e meio, disse que estava empolgado por eu ser a nova babá. Tadinho, a inocência das crianças às vezes me derrete um pouco. A babá deles de verdade não saiu do meu encalço um segundo e até relaxou mais quando viu que eu entrei em sintonia com a criança. Ela ainda me encara de maneira estranha e quase perguntei como conheceu minha mãe. Se bem que, todos conheciam ela. Sua perfeição e bom coração a tornaram bem conhecida.

- O que conseguiram descobrir? Alguém invadiu ou não? - A voz forte e grossa berra irritado e travo antes de entrar na sala ao qual estou sendo levada e tem um enorme arco dividindo.

Arco esse que não tem uma porta em si, para meu azar.

Isaac Jhonson pousa seus olhos em mim e logo desvia para seu filho segurando minha mão, puxando-me para adentrar ao cômodo ao qual tento exasperadamente fugir. Sua expressão que antes demonstrava raiva, agora está um misto de curiosidade e confusão. É, eu senti o mesmo quando seu filho pousou os olhos em mim.

- Tia, vou pegar biscoito pra gente comer. É muito gostoso. - O menor diz puxando minha mão para baixo, para que olhe para ele e assinto. Ele aprecia o gesto e sai correndo saltitante.

- Sai, eu quero respostas até meio dia. - Diz ao chefe dos seguranças e se aproxima. - Quem é ela? - Pergunta a mulher ao meu lado. Me encarando de baixo para cima, revirando minha alma como seu filho fez. Sinto um leve arrepio com seu ato.

- Ela é... um... filha de uma antiga amiga. - A mulher não ajuda em nada com sua fala pausada.

- E o que ela faz aqui? - Seus olhos incrivelmente azuis, igual ao do filho mais velho voltam a me avaliar logo depois de olhar rapidamente para ela. - Não é o momento para visitas banais. - Iria retrucar, mas já estou dispersa demais analisando suas feições.

Nenhuma capa de revista ou jornal, faz jus a real beleza do homem à minha frente. Me sinto uma formiga por toda imponência que ele exala. O rosto desenhado, a barba cheia e bem feita, além dos cabelos bagunçados e bem castanhos como o do filho mais novo. O cabelo assim, deixa ele totalmente diferente do que vemos em fotos, por estar sempre tão arrumado e alinhado, e não a vontade como agora. Eu queria morar nesse conjunto moletom cinza de academia que aparentemente escondem um belo corpo. Samantha tem razão, devo concordar, ela estaria babando agora, descaradamente. Como alguém trai um homem desse? Ele é lindo demais, mas como nem tudo é perfeito. Deve ser um ogro como muitos dizem.

Sinto um aperto forte em meu braço e acordo do transe. Vejo que ambos me encaram como se esperassem uma resposta, que eu não faço ideia de qual foi.

- Você estava malhando? - Pergunto mudando totalmente o assunto.

Eu não vi nenhuma academia e geralmente as mansões por aqui tem esse espaço virado pro quintal, separado por portas enormes de vidro. Downie disse que entraríamos para estudar o lugar para um possível futuro roubo, pois ele não havia encontrado um jeito de estudar o local de outra forma. O que estou pensando agora, pode ser mentira, pois ele sabia muito bem certos lugares. É, eu sou muito lerda.

- Sim. - Responde meio incerto, franzindo suas sobrancelhas grossas.

Dito isso, fico atenta a tudo e olho pros lados, sou atraída pela porta de correr aberta até a metade e consigo ver alguns aparelhos de academia dentro do ambiente. Eu preciso tentar, não tem como piorar, certo? Ou, sou pega agora ou, pega fugindo. E eu prefiro pelo menos tentar. Já que certamente sinto que irei me ferrar de uma forma ou de outra.

- Ele quer saber seu nome. - A babá me cutuca novamente.

- Me chamo Cassandra. - Abro um sorriso inocente. - Mas pode me chamar de Cass. Foi um prazer conhecer vocês, mas... Eu preciso ir agora. Gostaria de ficar mais e conversar, mas não vai dar. Você tem péssimos seguranças. - E como uma louca, saio correndo em direção a academia e empurro a porta antes, fazendo ela bater com força na parede para fechar.

Vejo que minha constatação estava certa quando o enorme quintal dos fundos se abre em minha frente, passo pela porta de vidro totalmente aberta e logo estou na pequena varanda correndo até o lado que tem a escada que leva a parte baixa do quintal. Corro em direção aos fundos do espaço, indo em direção ao grande muro. Ignorando os gritos vindo lá de trás. O muro é alto, mas eu consigo pular.

Calculo tudo em minha corrida até o lugar e quando me aproximo, piso na pedra grande e pulo pro banco, pulo novamente e seguro no galho da árvore. Balanço o corpo para frente, solto o galho e agarro no muro, içando meu corpo e sentando. Respiro fundo e olho para trás.

Vejo o homem parado de boca aberta, apenas pisco e faço um gesto de bater continência, antes de pular para frente e sair correndo floresta adentro.

Se eu ficasse lá, não via um jeito de sair sem que me descobrissem, então a melhor opção foi fugir e realmente pensei certo. Certeza que aquela mulher iria me entregar, seu olhar para mim certamente era de pena. Ela parece certinha demais, talvez quisesse conversar com ele para achar a melhor opção para mim, que certamente seria a prisão. Não sairia impune por algo assim.

Capítulo 3 A proposta ★

Encaro o homem a minha frente com meu ódio explícito e me irrita mais ainda o fato dele estar fingindo que não estou aqui, enquanto analisa alguns papéis calmamente. E eu? Uma mera pessoa insignificante em sua frente.

Lá estava eu, escondida no lugar que decidimos ser o esconderijo perfeito, caso fôssemos seguidos. Uma caverna com a entrada coberta por folhas, bem camuflada por sinal. Esperei um bom e entediante tempo, antes de finalmente sair e tentar chegar em casa. Para o meu azar a floresta estava tomada pelos malditos seguranças, que conseguiram me capturar e trazer para esse homem, que possivelmente vai me entregar para a polícia. Eu fiquei lá o dia praticamente todo, a-t-o-a. Que ódio. Estou com fome, suja de lama e machucada. Um combo maravilhoso. O que me faz ter certeza de que se eu sair dessa, eu nunca mais volto a invadir casas alheias. Continuarei em casa e eles que lutem. Acho que vou embora, tomar um novo rumo na vida, totalmente convicta de que sou lerda demais para esse ramo.

Já estou aqui há quase meia hora pelo que mostra o relógio na mesa e ele sequer me olhou. Já estou prestes a levantar da cadeira, mandar ele se lascar e sair correndo. Quando apoio as mãos nos braços da poltrona e penso em levantar, ele bate os papéis na mesa para alinhar e coloca ao lado. Seu olhar foca em meu rosto, o que me faz engolir seco pelo contato direto, mas tento não demonstrar que estou com um pouco de medo. Ele coloca uma mão sobre a outra, apoiada na mesa e ouso dizer que está tentando ler minha alma. Mania feia.

- Quantos anos você tem? Dez? - Pergunta observando minha pose largada na poltrona. Estou quase deitada e faço careta, revirando os olhos calmamente.

- Pra você? Oito! - Continuo na mesma posição e vejo que ele suspira fundo, antes de revirar os olhos como eu. - Estou cansada de ficar mofando aqui.

Geralmente me dão quinze anos, não pelo jeito que costumo agir como ele acabou de fazer, mas sim pela aparência. Meu cabelo liso de tamanho médio é castanho claro, já os meus olhos - que são o que mais gosto - são cinzentos e grandes, mas o que mais chama a atenção é meu rosto de criança, que não entrega que tenho na verdade quase dez anos a mais do que geralmente me dão.

- O que estava fazendo em minha casa? - Direto.

- Apreciando as decorações. Você tem quadros lindos e um ótimo gosto. - Digo sem interesse e percebo que isso irrita ele.

Por que ele não me manda embora logo ou manda me prender? Claro que a última opção eu preferia que não existisse, mas esse diálogo está me deixando agoniada.

- Quem estava com você? Creio que não estava sozinha. - Ele me analisa calmamente e isso me incomoda um pouco. Não devo estar em melhores condições na minha aparência. Devo estar com o cabelo desgrenhado, além de estar bem suja de terra, pois cai algumas vezes na floresta. Tento me ajeitar, mas quando percebo que ele me analisa, paro e volto a fingir despreocupação.

- Sou capaz o suficiente de me aventurar sozinha por casas alheias. - Agora me ajeito e o encaro séria. Não vou entregar meus amigos, mesmo que metade disso seja culpa deles e da minha falta de sorte.

- Não duvido, mas creio que para entrar aqui, outras pessoas estejam envolvidas.

- Pra falar a verdade, acho que você deveria trocar seus seguranças. Foi até fácil invadir e encontrar brechas para entrar em sua preciosa mansão. Se não tivesse uma interferência na câmera, ninguém saberia que estivemos aqui. Acredita que eles entraram no cômodo que estávamos e nem procuraram? Péssimos. - Digo debochada. - Está jogando dinheiro fora, senhor Jhonson.

- O que vocês queriam? - Ignora totalmente minha fala e prossegue com seu questionamento.

- Por que não chama logo a polícia?

Por favor, não chama. Bancar a durona é um tanto tenso e medonho. Eles já não gostam muito de mim, pois sempre estou me safando com meus amigos de seus flagrantes e outras coisas mais.

- Por que não responde o que perguntei? É tão simples. - Ele está claramente perdendo a paciência e eu não estou ajudando muito.

- Por que você ainda está falando ao invés de ligar? Nem é tão difícil. É só pegar o celular e discar três números. Até criança sabe. Você não sabe? Quer que eu te ajude? - É mais forte que eu.

- Haja paciência. - Diz respirando fundo e fechando os olhos por alguns segundos, enquanto massageia as têmporas. - Você faz parte daquele bando de delinquentes com síndrome de Robin Hood? - Abro um sorriso, eu até que curto esse nome. É genial.

- Por que estou aqui ainda? Eu realmente acho que não quer saber de fato sobre minha frustrante entrada e fuga daqui. Se não, já teria me entregado a muito tempo. - Constato o óbvio - Você quer algo a mais, Isaac. Diga o que precisa e te direi se concordo ou não.

- Bom ... - Ele pega um iPad e começa a mexer, logo vira em minha direção a tela. - Tenho um vídeo seu entrando pela garagem de madrugada, o que pode provar que entrou escondido.

- Quem te garante que sou eu? - Cruzo os braços.

- Bom, talvez escolher um tênis amarelo para contrastar com uma roupa preta não tenha sido tão inteligente assim. - Diz e automaticamente coloco os pés mais para trás, deixando escondidos embaixo da poltrona. Ele vê que me calou de possíveis argumentos contra ele e prossegue. - E também o vídeo de você fugindo pela academia. Surpreende, eu diria.

- Cacete. Você tem uma câmera na árvore? - Pergunto assistindo o vídeo do meu movimento perfeito para pular o muro. Eu sou fera nessas manobras. Que orgulho.

Chace é expert em parkour , ele nos ensinou algumas manobras para fugir quando necessário e essas coisas, que poderiam ser úteis em nossas invasões e fugas. Vejo que a roupa preta e colada, valorizou minha bunda. Gostei.

- Minha bunda tá... - Sou interrompida. Ok, acho que falar sobre minha bunda não convém nesse momento.

- Tenho câmeras espalhadas por todo esse lugar e quintal. Enfim, eu posso entregar esses vídeos à polícia agora mesmo e você seria presa. Invasão a domicílio e essas coisas, sozinha, pois seus amigos conseguiram fugir sem deixar nenhum rastro, mas ... - Ele guarda o iPad na gaveta, fazendo suspense e isso me irrita. Odeio isso.

- Maaas?

- Tenho uma proposta para você! - Fico surpresa com isso e nem sei o que responder. Uma proposta? Nunca vem coisa boa nessas situações. Só falta ele querer meu lindo corpo em troca desse livramento da cadeia. Bom, não sou esse tipo de garota, mas eu pensaria com carinho nessa proposta. Não seria um sacrifício. - Não vou entregar essas gravações à polícia com uma condição. Que você vire a babá do meu filho, do menor especificamente. - Ele mal termina de falar e já estou me acabando de rir. Ele é louco, só pode. Até minha imaginação pensou em algo mais provável que essa proposta sem cabimento.

- Eu invadi a sua casa e você quer que eu vire babá? Você tem problema? Quem te garante que sou uma boa pessoa? Que não farei nada de errado? Tipo, tentar te matar agora mesmo, com o canivete escondido em meus tênis amarelo chamativo.

- Por isso você vai ficar o tempo todo acompanhada de um segurança e se possível, sem objetos cortantes por perto. - Vejo que nem abalou ele o fato de eu ter um lindo canivete escondido. Que bom, pois realmente não tenho um canivete. - Aparentemente, Silvia acha você confiável e levo muito em conta a opinião dela.

- Isso não faz sentido algum. - Fico de pé decidida a sair daqui, mas sinto dor e sento logo. Esfolei o joelho quando cai na floresta, está bem ralado e dolorido. Posso ser ótima fazendo certas manobras, agora andar com cautela já é pedir muito.

- Eu nem conheço aquela mulher e ela me acha confiável? Certamente ela também tem problemas. Vocês todos tem problemas.

- Segundo ela, você é filha de uma antiga amiga, que a ajudou muito no passado e mesmo tendo cometido esse delito, isso não condiz com sua índole. Além de ser uma ótima lição para você. - Diz todo centrado, mas logo sua pose finalmente desmorona. Revelando seu verdadeiro cansaço. - Estou desesperado por ajuda. Qualquer coisa insana no momento, para mim parece normal.

- Não! - Cruzo os braços e ele fecha o semblante.

- Tem noção do que estou te oferecendo? Qualquer uma em seu lugar se sentiria honrada. Prefere ser presa?

- Sim! - O que é uma mentira deslavada.

Talvez eu irrite ele tanto, para que ele apenas me mande embora. Imaginando que posso ter algum tipo de maluquice aguda, que não valha a pena envolver a polícia. Vai que cola, mas acho que não vai, pois por algum motivo, ele está desesperado e é notório.

- Paciência. - Murmura e suspira fundo, recostando na cadeira massageando as têmporas novamente - Pietro gostou de você e por isso preciso que seja a babá. Por algum motivo você conseguiu encantar ele e isso em poucos minutos se mostrou benéfico. - Começa a falar, acho que tentando me fazer uma certa chantagem usando a criança fofa de olhos grandes.

- Eu não vou aceitar, não adianta tentar usar seu filho. Ainda acho que você é louco e ...

- Ele está doente, nada grave agora, mas se continuar como está, vai piorar gradativamente. Ele não conversa com ninguém e muito menos como, ele está abaixo do peso normal e ninguém conseguiu mudar isso. - Começa a explicar, coisa que eu não queria. - Até você aparecer e Silvia contar que ele não parou de falar um segundo. No momento, estou desesperado como já disse e fazendo qualquer coisa pro meu filho não definhar. Isso inclui tentar contratar uma delinquente para ver se funciona. - Fico sem palavras quando ele termina de falar.

Fica até difícil de acreditar, pois o garotinho não parou de falar cedo e ainda comeu algumas uvas, que dividiu comigo. Parando para pensar, ele realmente é bem magrelo e apesar de ser da minha cor, ele está mais amarelado.

- O que ele tem? - Talvez a chantagem tenha funcionado um pouco e eu esteja com pena.

- Aparentemente uma anemia bem grave, que pode evoluir para algo pior se continuar assim. Ele ficou assim depois que começou a sentir falta da mãe. - Diz e vejo que seu olhar se perdeu um pouco. Lembro da notícia de dois anos atrás, dele perdendo a esposa e mãe de seus dois filhos, em um acidente.

- Mas fazem dois anos que...

- Sim! - Me corta, mesmo que eu já não soubesse como prosseguir. Esse povo adora me interromper. - Agora que ele passou a ter consciência das coisas, fotos e afins. Apesar de toda ajuda psicológica e pediátrica, ele não se abre com ninguém.

- Eu ainda acho que você é maluco, meio desesperado pela situação, mas não posso... - Nem sei o que pensar, não quero mesmo ser presa, mesmo tentando demonstrar a ele que não me importo. Cair de paraquedas em um drama familiar é tudo que não quero no momento. Já tenho meus próprios problemas.

- Eu irei te pagar! Cinco mil por mês e tudo que tem direito. Não vai trabalhar de graça. - Abro a boca alarmada, isso é muito dinheiro. - Então não vai ser injusto ou uma troca de favores.

- Quero dez mil por mês.

- Fechado!

- Que? - Quase grito sem acreditar que ele aceitou. - Não, isso está errado. Você não tá seguindo o roteiro, você deveria dizer que sou louca e recusar. Pelo amor de Deus homem, coopere. - E ele não se abala, parece ter focado apenas em sua vitória.

Ele realmente quer que eu fique, a situação do pequeno deve ser grave mesmo. Quero chorar no momento e não sei ao menos o por quê. Essa é uma ótima oportunidade se eu avaliar bem.

- Temos apenas algumas coisas para acertar. Além do segurança, você não vai poder sair daqui durante o tempo que ficar, vai ter que morar aqui.

- Isso é sequestro. - É, retiro o que disse. Certeza que as regras vão ser equivocadas.

- Temos visões diferentes do que é um sequestro então, pois estou te dando uma escolha, ou fica aqui, seguindo as ordens e trabalhando como babá, ganhando dez mil por mês ou vai para uma cela fria, sofrer e essas coisas. - Gesticula com a mão como se não fosse nada.

- Então, preciso escolher entre prisão domiciliar ou uma cela fria? Realmente acho que nenhuma das duas são favoráveis para mim. Eu poderia chegar cedo e ir quando ele dormir. Não preciso ficar aqui. - Argumento.

- Você não é confiável. Prefiro que fique onde eu possa ver. Você pode muito bem ir embora e fugir. Creio que já esteja acostumada a fazer isso e se você for a única salvação dele no momento, prefiro usar isso ao meu favor.

- Vou querer a filmagem. Quero que me entregue uma cópia e que exclua todo o resto. - Digo firme.

- Farei isso, mas só quando seu serviço aqui terminar. - Odeio quando ele usa argumentos convincentes.

- E quando seria isso?

- Quando meu filho estiver melhor novamente. Deixo você livre para ir, com aquilo que pode te incriminar em mãos e depois disso, nunca mais precisaremos nos encontrar.

- Quando eu começaria? Caso aceitasse. - Prefiro fingir que ainda posso escolher outra opção.

- Agora! - Curto, grosso e direto.

- Quero ir em casa pegar minhas coisas. - Minhas pouquíssimas, mas importantes coisas.

- Não sei se é uma boa ideia. Posso pedir que comprem coisas novas. Você ainda não concordou totalmente com o que foi proposto e mesmo achando que estou sendo muito louco nesse momento, preciso da sua ajuda.

- Se eu aceitar essa sua loucura, que na verdade não tenho muita escolha, pois não quero polícia envolvida. Vou ficar presa nessa casa, durante sei lá quanto tempo. Acho que ir em casa pegar algumas coisas, seria o mínimo a se fazer por mim. - Cruzo os braços irritada - Já vai me privar de minha liberdade e ainda quer me privar de pegar minhas coisas. Me ajude a te ajudar, Isaac.

- Tudo bem. Irei mandar um segurança com você. Amanhã você se apresenta devidamente aos meus filhos e começa seu novo trabalho.

- Invadi sua casa e agora serei a babá. Vai entender o que se passa na cabeça de vocês ricos. Só podem ser alguns neurônios queimados.

- Já estou começando a me arrepender. - Murmura, mas consigo escutar.

- Nem pense nisso. Agora não tem mais volta. Você conseguiu me convencer com seus argumentos. Prefiro ter uma cama macia para dormir, do que dormir naquele chão duro da cadeia. É uma lembrança que realmente não gostaria de reviver. Deixei isso no passado. - Sinto calafrios só de pensar.

- Eu deveria ter analisado bem a situação antes de expor tudo. Agora estou de fato preocupado com sua estádia aqui. Sinto que me precipitei e isso não vai ser bom. Afinal, não sei ao menos se Sílvia te conhece bem. As pessoas mudam com o tempo. - Vejo a pontada de indecisão em sua voz e arrependimento no olhar.

- Já era, tiozão. Sou sua mais nova e nada obediente funcionária. - Tento fazer uma expressão fofa, mas o ódio que me passa de volta, chega a me causar calafrios, porém finjo que não percebi e mantenho o sorriso debochado - Prometo cuidar do seu filho com o maior zelo e também prometo transformar sua vida em um caos, na mesma proporção. - Pisco diversas vezes para ele.

- Você sabe que no momento eu estou no controle da situação, não é? Posso te entregar a qualquer momento.

- Sim, mas também sei que posso ser insuportável quando quero e posso fazer você desistir dessa ideia, sem que eu de fato seja culpada. E que sou sua última tentativa para ajudar ao seu filho e não vai querer perder isso por nada. Ou seja, estou no controle da situação. - Eu poderia colocar um óculos escuro agora e cruzar os braços. Por tamanha satisfação que sinto.

- Arrependimento total. Merda!

- Pois é, se precipitou e não pensou na besteira que estava cometendo. Sou bem difícil de lidar quando quero. - Abro um sorriso - Já estou me acostumando com todo esse luxo. - Suspiro calmante e coloco as mãos atrás da cabeça, enquanto recosto na poltrona.

- Definitivamente dez anos de idade, talvez menos. Não é possível que tenha mais que isso. - Ele balança a cabeça enquanto fala baixo. Seus olhos voltam para mim e ele abre um sorriso bem sinistro - Irei pedir uma papelada detalhada sobre você. Quem sabe isso me deixe no controle da situação, pois terei detalhadamente toda a sua vida em minhas mãos.

- Não!! - Minha voz sai alta em quase um grito, ele até se assusta por não estar esperando essa reação, vejo a merda que fiz quando seu sorriso se alarga mais - Vou tentar me comportar, mas não manda ninguém investigar meu passado. Por favor! - Agora quem coloca a mão atrás da cabeça e recosta relaxadamente é ele.

- Parece que te tenho novamente em minhas mãos. - Que vontade de dar um soco em seus dentes alinhados e tirar esse sorriso zombeteiro.

- Preciso pegar minhas coisas. - Fico de pé, lutando com a dor no joelho - Pode pedir para alguém me levar? - Esse assunto me deixa desestruturada e nem pareço mais a garota afrontosa de minutos atrás.

Vejo que ele pensa em continuar sua provocação, mas parece pensar melhor e apenas faz uma chamada. Pedindo para alguém vir me pegar para buscar as coisas.

Quando escuto alguém bater na porta, nem espero que ele mande entrar, apenas me apresso para sair do local. O homem de terno me encara sem entender, mas depois me segue quando vou me afastando.

Não quero que ninguém vasculhe minha vida, não quero que ninguém descubra que fui abandonada igual um cachorro na porta do lar de adoção, recém nascida. Elizabeth Hall é minha mãe e salvadora, ninguém além dela pode merecer esse título. Devo tudo a ela, mesmo que não esteja honrando muito bem sua memória, cometendo essas coisas erradas que ela nunca aprovou.

Vou tentar de tudo para ajudar esse menino em um mês. Quanto mais rápido ele melhorar, mais rápido eu posso voltar para casa e continuar com meus amigos.

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