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Cativa do Pecado

Cativa do Pecado

Autor: Lady Darkness
Gênero: LGBT+
Beatrice Bianchi Lamberti vive sob a fachada impecável de investigadora de seguros. Cruza fronteiras com contratos limpos, circula entre galerias, cofres e aeroportos com a elegância calculada de quem nunca deixa rastros. Oficialmente, recupera obras de arte roubadas para grandes seguradoras. Nas sombras, decide quais peças retornam aos seus donos e quais desaparecem para sempre, revendidas no mercado negro a colecionadores que pagam fortunas pelo silêncio. Calculista, sedutora, implacável e intocável, Beatrice construiu um império invisível sustentado por mentiras elegantes, e domina o jogo porque raramente é desafiada. Tudo muda quando uma obra rara desaparece do Museu do Louvre. Enviada à França como especialista no caso, Beatrice usa sua rede de contatos para integrar oficialmente a força-tarefa. No submundo, é conhecida como Rainha de Espadas, não por seguir a lei, mas por compreender que ela é apenas mais uma carta no baralho. Ela aprendeu cedo que o crime organizado não teme a polícia apenas a manipula. Ao cruzar o caminho da Comissária Gabrielle De La Fontaine, Beatrice entra em território hostil. Antes mesmo do primeiro toque, já está marcada. pelo ódio contido, pelo desejo incontrolável, pelo olhar que promete guerra e algo perigosamente mais íntimo. O que deveria ser uma investigação de resolução rápida torna-se um jogo obscuro de poder e provocação. Cada pista revela não apenas o rastro do ladrão, mas a tensão crescente entre caçadora e predadora, embora, em certos momentos, seja impossível distinguir quem ocupa qual papel. Beatrice não se contenta em vencer, ela observa, invade, provoca. Impõe presença, controle e desejo com a mesma frieza com que negocia obras roubadas. Gabrielle resiste à manipulação, às mentiras, e à atração que ameaça desarmá-la por dentro. O atrito é imediato. Olhares afiados. Silêncios carregados. Confrontos que queimam sob a superfície profissional. À medida que a investigação se aprofunda, o desejo entre elas torna-se inevitável, intenso, proibido e perigoso. Cada toque é uma ameaça. Cada segredo, uma arma. Entre corredores dourados, noites parisienses e leilões clandestinos, lealdade e traição se entrelaçam enquanto a linha entre justiça e crime se dissolve. Quando a verdade finalmente vier à tona, não será apenas a arte que estará em risco, mas tudo o que arde entre elas. Porque, no fim, ambas precisarão escolher. a lei, o crime... ou uma paixão capaz de destruir tudo. Prepare-se para um romance sáfico, sensual e implacável, onde amar pode ser o golpe mais arriscado de todos.
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Capítulo 1 Prólogo

BEATRICE

O vento gelado era um presságio silencioso.

Não gritava, não advertia, apenas tocava a pele como quem promete algo que ainda não tem nome. Já era tarde da noite, e a cidade pulsava num ritmo insano, elétrico, como se Paris jamais soubesse dormir.

Havia movimento em cada esquina, luzes refletidas no asfalto úmido, vozes misturadas ao som distante de sirenes e passos apressados que nunca se encontravam.

O ar carregava uma mistura quase indecente de aromas. o perfume doce e quente das padarias que resistiam abertas, flores recém-regadas nas varandas antigas, o tabaco intenso que escapava de bares discretos, e o amargor elegante do café recém-passado.

Ainda assim, era a brisa gélida que dominava tudo, anunciando que a primavera se aproximava com sua promessa de chuvas, temperaturas mais brandas e a inevitável troca dos casacos pesados por tecidos mais leves. Uma mudança suave, porém traiçoeira. Como quase tudo naquela cidade.

As cortinas da suíte se moviam em sincronia com o vento, obedientes, quase coreografadas. Sentada na varanda, eu buscava absorver não era apenas ampla, era estratégica. A varanda avançava sobre Paris como um camarote privado acima do mundo, oferecendo uma perspectiva quase insolente da cidade. Dali, o horizonte parecia desenhado à mão, cada linha arquitetônica milimetricamente posicionada para lembrar que poder e beleza sempre caminharam juntos naquela capital.

À esquerda, o rio Sena deslizava em curvas elegantes, refletindo as luzes douradas dos postes antigos que margeavam suas margens. Pequenas embarcações cruzavam a água com movimentos lentos, como pensamentos que se recusam a desaparecer. As pontes de pedra, sólidas, históricas, ornamentadas com esculturas discretas, ligavam margens como promessas silenciosas entre tempos distintos.

À frente, as torres góticas da Catedral de Notre-Dame se erguiam imponentes, recortando o céu noturno com suas agulhas e arcobotantes delicadamente agressivos. Mesmo à distância, era possível perceber a imponência da fachada, a rosácea central como um olho vigilante, os contornos esculpidos que pareciam conter histórias de fé, pecado e redenção. A iluminação noturna realçava cada relevo da pedra, criando sombras profundas que davam à catedral uma presença quase viva.

Mais adiante, os telhados mansardados típicos de Paris formavam uma sequência harmônica de cinza-ardósia, janelas altas e varandas de ferro trabalhado. As fachadas haussmannianas exibiam suas colunas discretas, sacadas simétricas e molduras ornamentadas, uma estética de ordem e sofisticação que escondia, como sempre, as complexidades humanas por trás de cada janela iluminada.

A própria varanda da suíte era um espetáculo à parte.

O piso era revestido em pedra calcária clara, fria ao toque, polida o suficiente para refletir suavemente as luzes internas do quarto. Um tapete externo persa, em tons profundos de vinho e azul-escuro, delimitava a área de estar com uma opulência sutil.

Duas poltronas de ferro forjado, com arabescos delicados e almofadas de linho cru, estavam posicionadas estrategicamente de frente para a vista, não uma para a outra. Ali, a contemplação era prioridade, confrontos ficavam para ambientes fechados.

Entre elas, uma mesa redonda de mármore branco sustentava uma bandeja de prata escovada. bule de café em porcelana fina, xícaras com filetes dourados, uma pequena jarra de leite e um recipiente minimalista com açúcar mascavo cristalizado. Ao lado, uma garrafa de vinho tinto francês descansava em um suporte discreto de metal negro, acompanhada por duas taças altas de cristal, ainda intocadas, refletindo a cidade como fragmentos líquidos de luz.

O parapeito era em ferro trabalhado, desenho clássico parisiense, curvas elegantes, repetidas em ritmo quase hipnótico. Trepadeiras de jasmim branco se enroscavam parcialmente na estrutura, exalando um perfume suave que se misturava ao aroma do café e ao frio noturno.

Havia também aquecedores externos embutidos, quase invisíveis, garantindo conforto sem comprometer a estética. Pequenas lanternas de vidro fosco, posicionadas no chão, criavam uma iluminação indireta que valorizava os contornos do espaço sem competir com o espetáculo da cidade.

Meu mordomo havia desfeito as malas com precisão cirúrgica, atendido a cada necessidade antes mesmo que eu percebesse tê-la. Tudo estava no lugar. Sempre estava. O controle começava nos detalhes e eu jamais negligenciei nenhum deles.

Levei a xícara de café aos lábios e beberiquei devagar, sentindo o calor contrastar com o frio da noite, um prazer pequeno, calculado, quase cruel. Meus olhos acompanharam o curso lento do rio Sena, serpenteando a cidade como uma veia exposta, carregando histórias, pecados e promessas não cumpridas. Havia algo de profundamente íntimo naquela paisagem, algo que despertava não conforto, mas fome.

Paris nunca foi gentil comigo. Foi exigente, dominante, bela demais para permitir fraquezas. E, enquanto eu observava a cidade respirar sob meus pés, soube com uma clareza perturbadora. aquela noite não era apenas contemplação. Era o início de algo que exigiria mais do que inteligência e estratégia. Exigiria entrega, crueldade contida, e a disposição de perder, ou tomar, tudo.

Sorri contra a borda da xícara.

Algumas cidades seduzem, outras testam limites, Paris... Paris devora.

Há muito tempo eu não sentia sequer o resquício de paz ao voltar para casa. A palavra casa tornou-se um conceito elástico, um endereço temporário, uma suíte reservada, um apartamento estrategicamente escolhido. Os anos passaram como lâminas silenciosas, finas e precisas, retirando excessos, aparando emoções, ensinando-me a não sangrar em público.

Fui moldada para viver de aparências, e moldei, com disciplina quase cruel, a imagem perfeita da investigadora de seguros exemplar, eficiente, elegante e irretocável. A mulher que entra em galerias com contratos impecáveis e sai com obras recuperadas e reputações preservadas. Aprendi a sorrir na medida certa, a apertar mãos com firmeza calculada, a sustentar olhares sem revelar nada além do necessário.

Mas por trás dessa fachada meticulosamente construída, eu me tornei outra coisa.

O mundo acredita que sou apenas uma mediadora especializada em arte, alguém que navega entre seguradoras, museus e colecionadores privados. Uma profissional com contatos úteis e ética maleável. O que poucos sabem, e menos ainda ousariam imaginar, é que, por trás da minha máscara cuidadosamente impecável, existe algo muito mais perigoso do que uma simples mulher ligada ao mercado de arte.

Existe uma predadora.

Durante anos, construí a imagem perfeita. elegante, refinada, intocável. A mulher que frequenta galerias exclusivas, leilões milionários e jantares diplomáticos com a mesma naturalidade com que sorri para fotógrafos e aperta mãos importantes.

E todos acreditaram, porque aprendi cedo que o verdadeiro poder não está em se esconder nas sombras. Está em caminhar sob a luz... enquanto ninguém percebe o sangue em suas mãos.

Meu nome circula entre colecionadores, seguradoras e magnatas como sinônimo de sofisticação e eficiência. Uma especialista em recuperação de obras raras. Uma mulher inteligente demais para cometer erros.

E eu sou, mas essa nunca foi toda a verdade. Porque por trás dos vestidos sob medida, das joias discretas e da postura impecável, existe a mulher que o submundo europeu teme mencionar em voz alta, a Rainha de Espadas.

A ladra de arte internacional que atravessa fronteiras sem deixar rastros. A mulher que invade fortalezas consideradas impenetráveis e desaparece antes mesmo que percebam o roubo. A fantasma elegante que transformou crimes em espetáculo silencioso.

A identidade não foi apenas assumida, foi incorporada. Absorvi o vocabulário, os códigos silenciosos do mercado, a vaidade dos curadores, o desespero elegante dos colecionadores clandestinos. Entrei em leilões fechados sob luz baixa e conversas sussurradas, negociei com homens que compram história como quem compra poder, e sorri para mulheres que sabiam exatamente o que estavam vendendo e o que escondiam.

Às vezes me pergunto se ainda resta algo da mulher que eu era antes da operação. Se aquela versão mais simples de mim foi enterrada sob camadas de estratégia, controle e mentira.

A infiltração não exige apenas coragem, exige renúncia. Renúncia de vínculos, de certezas, de inocências que não sobrevivem ao convívio diário com a corrupção sofisticada.

Assumi uma identidade e mergulhei no mundo da arte, não como espectadora, mas como peça ativa do jogo. Era uma missão que jamais prometeu que eu sairia ilesa, apenas eficiente.

E eficiência, aprendi cedo, cobra seu preço em silêncio, a única coisa real nessa farsa é o meu irmão.

Meu fiel parceiro, amigo e confidente. O único vínculo que atravessou intacto os anos de mentira, infiltração e silêncio. Foi com ele, e com mais dois agentes cuidadosamente escolhidos, que moldamos a equipe. Não apenas treinada, mas calibrada. Cada um ocupando uma função precisa, cada falha prevista, cada emoção mantida sob controle. Ou assim acreditávamos.

Hoje, no entanto, começou uma jogada ousada demais para admitir margem de erro. Uma jogada que não anuncia vencedores ou perdedores, apenas expõe fragilidades. E qualquer impercalcio, por menor que seja, pode transformar estratégia em colapso.

Há uma hora e meia, joias raras e de valor inestimável foram roubadas do Museu do Louvre. O alarme soou, a cidade reagiu, protocolos foram acionados, egos feridos começaram a disputar protagonismo nos bastidores da investigação. O que ninguém imagina, o que sequer ousariam cogitar, é que eu mesma estou em posse dos itens roubados.

Cada uma delas, o roubo não foi um acidente, foi um convite e uma carta de apresentação a concorrência. Na noite anterior três quadros foram levados, o mesmo grupo que estava perseguindo.

Um movimento calculado para me inserir no coração do museu e, mais importante, dentro da investigação que tenta conter uma sequência de crimes que se estende há mais de um ano e meio. Um fio contínuo, preciso, cirúrgico. Obras desaparecem, retornam mutiladas ou jamais reaparecem. Um padrão invisível para olhos apressados, mas gritante para quem sabe onde olhar.

O plano é impecável no papel.

Meticuloso, elegante, irrepreensível, o problema nunca foi o roubo em si, o problema é o rastro de sangue.

Cada invasão deixa marcas. Cada obra arrancada de seu lugar exige violência, não apenas contra sistemas, mas contra pessoas. Seguranças silenciados, informantes descartados. Corpos que se acumulam longe das vitrines iluminadas e dos discursos oficiais sobre preservação cultural.

Arte custa caro e quase sempre alguém paga com a própria vida. Enquanto observo as cartas agora sob minha guarda, intactas, silenciosas, percebo o peso real da jogada que iniciei. Não é apenas uma infiltração, é uma provocação direta. Um teste de limites, do sistema, da equipe, e do que ainda resta de mim.

- Rainha de Espadas.

A voz grave atravessou meus pensamentos como uma lâmina envolta em veludo, macia no som, afiada na intenção. Coloquei a xícara delicadamente sobre o pires, o tilintar discreto da porcelana ecoando como um aviso contido.

Meus dedos passaram a bater na mesa de mármore em ritmo lento, calculado, denunciando uma impaciência que eu raramente permitia transparecer. Virei o rosto com a precisão de quem decide conceder atenção, não a oferecer.

- Sébastien... - minha voz saiu baixa, firme, perigosamente controlada. - A que devo a sua interrupção sem o devido anúncio?

Revirei os olhos antes de fitá-lo por longos segundos e ele sustentou o olhar.

Olhos castanho-claros, atentos demais, inteligentes demais. Havia ali uma mistura de ironia e cumplicidade que poucos ousariam demonstrar diante de mim. Ele sabia exatamente qual personagem eu vestia naquele momento, e, ainda assim, não se intimidava.

Sébastien caminhou pela varanda como se o espaço também lhe pertencesse. O vento agitava levemente os fios escuros de seu cabelo, mas sua postura permanecia impecável, mãos nos bolsos do casaco, expressão controlada.

- Irmã, seja sensata. - A resposta veio sem hesitação. - Não sou seu criado pessoal.

Houve um breve silêncio.

- Sou seu sócio... e seu irmão. Convém que não se esqueça disso.

Ele tinha coragem, il a des couilles , como dizia minha avó.

Principalmente por sustentar aquele tom enquanto eu ainda estava imersa na persona de Rainha de Espadas, a mulher que não tolera interrupções, que não admite questionamentos, que impõe presença antes mesmo de abrir a boca.

Se fosse outro, qualquer outro, já teria sido esmagado sob o peso da minha autoridade. Talvez não fisicamente arremessado da varanda, embora a ideia tivesse sua poesia, mas certamente reduzido ao silêncio definitivo.

A diferença era que Sébastien conhecia os bastidores, conhecia o rosto por trás da máscara.

Ele se aproximou da mesa, os olhos percorrendo a cidade antes de voltar para mim.

- A equipe já está em movimento. O museu fechou completamente. A polícia francesa está em estado de alerta máximo. - Houve uma pausa sutil. - E você... está sorrindo.

Não percebi que estava, um sorriso mínimo, quase imperceptível. Não de prazer, mas de antecipação.

- O caos é previsível - respondi, erguendo o queixo com leveza calculada. - O que me interessa é a reação.

Ele inclinou a cabeça, analisando-me como só ele ousava fazer.

- Você está confiante demais.

- Eu sou confiante demais.

Nossos olhares se prenderam por um instante mais longo do que o necessário. Entre nós não havia apenas sangue compartilhado, havia história, estratégia, lealdade construída sob risco real. Ele confiava em mim porque conhecia meu limite.

E também sabia que, quando eu cruzava esse limite, não havia retorno. O vento voltou a soprar, mais frio, mais cortante e Sébastien quebrou o silêncio primeiro.

- E quanto à Comissária ?

O nome não foi dito, não precisava. Meu olhar voltou-se para o horizonte, para as torres da Notre-Dame iluminadas na distância.

- Ela fará exatamente o que eu preciso que faça. - respondi, com uma calma que beirava a crueldade.

Porque naquela jogada ousada, a arte roubada era apenas a isca. E Gabrielle... Era a variável mais fascinante do jogo.

- Por que tem tanta certeza? - ele perguntou, a curiosidade mal disfarçada.

A resposta morreu antes de nascer, o toque estridente do meu celular cortou o ar como um disparo. Não me apressei, deixei que tocasse uma, duas vezes, só atendi no terceiro chamado. O controle começa nos silêncios.

Meus lábios se curvaram num sorriso lento, calculado, antes de levar o aparelho ao ouvido.

- Boa noite, chefe - disse com sutileza estudada.

Do outro lado da linha, a voz veio solene, quase reverente.

- Boa noite, Beatrice. Mil perdões por incomodá-la durante suas férias, mas precisamos da sua consultoria. Houve um roubo de grandes proporções em Paris. Precisamos que se envolva diretamente na investigação.

Por um instante, deixei meus olhos vagarem pela varanda, pela cidade iluminada, pelo rio que parecia assistir a tudo em silêncio. Foi mais rápido do que eu havia previsto. Os quadros valiam milhões e nenhuma seguradora aceitaria arcar com um prejuízo dessa magnitude sem a promessa concreta de recuperação.

- É o seu dia de sorte. - respondi, com uma calma quase insolente. - Cheguei a Paris há poucas horas para aproveitar algumas férias atrasadas. Mas você sabe... isso vai custar mais caro.

Não era ameaça, era constatação e houve uma breve pausa antes da resposta.

- Você vale cada euro investido. Sempre que sua equipe entra em cena, não pagamos seguro. Recuperamos a obra.

Sébastien, à minha frente, tensionou o maxilar. Ele odiava quando me ouvia negociar como se tudo, inclusive o caos, tivesse preço.

- Onde começo? - perguntei, já um passo à frente do jogo.

- Preciso que use seus contatos. Quero você oficialmente inserida na investigação. Quero seus olhos e ouvidos acompanhando cada movimento, cada peça deslocada nesse tabuleiro.

Concordei em silêncio, absorvendo as instruções enquanto o vento frio me envolvia. Quando desliguei, movi apenas os dedos em um gesto curto. Sébastien entendeu imediatamente. Levantou-se sem dizer uma palavra, indo buscar o restante da equipe. Não havia tempo para explicações longas, apenas execução.

O primeiro passo seria obter a mais alta autorização possível, porte de arma, acesso irrestrito e selos oficiais. Servi meu país por anos demais para que isso não significasse algo. Minha ficha era impecável, limpa demais para levantar suspeitas, afiada o suficiente para abrir portas que permaneciam fechadas para quase todos. Era um orgulho silencioso. E uma arma, a ficha era real, mas os nomes eram editados.

Depois, a infiltração, entrar oficialmente na investigação. Assumir o papel de consultora técnica e tornar-me indispensável, e, sobretudo, aproximar-me de Gabrielle.

Ela era a chave, sem ela, o plano não avançava e com ela... tudo se encaixava.

Derrubar carta por carta daquele baralho podre. Desmontar a rede com paciência cirúrgica. Derrubar o Rei, prender o Valete e expor os curingas, fazer ruir a estrutura que vinha aterrorizando Paris havia mais de um ano.

Mas, quando o jogo acabasse, eu faria questão de estar de pé, observando os destroços.

Capítulo 2 1

GABRIELLE

Eu pensei que, na minha noite de folga, teria algo próximo da paz. Um jantar discreto com uma mulher linda, vinho suficiente para relaxar os ombros tensos e, se o humor ajudasse, terminar a noite com um bom sexo, sem promessas, sem perguntas.

Tenho uma queda assumida por loiras, meu ponto fraco, um detalhe inconveniente que costumo ignorar com disciplina quase militar.

O casaco longo de lã xadrez pesa sobre meus ombros, sinto o tecido roçar minhas pernas a cada passo, discreto, controlado... mas nunca inocente, com a autoridade de quem sabe exatamente onde está pisando. É o tipo de peça que esconde tanto quanto revela e eu gosto disso.

Por baixo, a blusa de seda azul-marinho desliza sobre minha pele como um toque demorado. O tecido frio me arrepia quando visto, depois se aquece comigo, moldando meu torso sem esforço. O decote em V não me protege, ele concentra o desejo, segura tudo no lugar certo, cria expectativa.

Eu sei o efeito que causa, sei porque sinto os olhares demorarem.

A calça de alfaiataria clara, de cintura alta, me envolve com precisão. Marca meus quadris, alonga minhas pernas, sustenta minha postura. Quando enfio as mãos nos bolsos, não é desleixo, é domínio. É conforto calculado. É saber que não preciso me expor para ser notada.

Os colares dourados, em camadas, descansam sobre a seda como correntes delicadas, capturando a luz dos postes e devolvendo em brilho contido. As argolas nas orelhas balançam suavemente quando caminho, acompanhando meu ritmo.

Eu atravesso a rua e sinto Paris me observar, não porque mostro demais, mas porque me contenho.

Levei uma hora aprontando meu cabelo, cachos longos, densos, indomáveis na medida exata. Eles descem pelos meus ombros como uma cascata escura e viva, cada fio com movimento próprio, como se respirasse comigo. Quando o vento da rua me alcança, ele se espalha ao redor do meu rosto, criando uma moldura quase selvagem para a expressão que mantenho firme.

Há volume, há textura, há força. Brilha sob a luz dourada dos postes, revelando nuances profundas entre o castanho e o ébano. Quando inclino levemente a cabeça, sinto os cachos roçarem minha clavícula, meu pescoço, deslizando sobre a seda da blusa.

Mas a noite foi interrompida antes mesmo de começar.

Meu superior ligou anunciando uma nova emergência. O tom era diferente. Não havia pânico na voz, havia cautela. Não era como os roubos que vínhamos investigando há meses. Nenhum ferido. Nenhum alarme gritante. Apenas uma extração rápida e cirúrgica de obras valiosíssimas.

Limpa e silenciosa demais, um pesadelo anunciado, porque significava holofotes, imprensa, pressão política. E, como sempre, o risco de empurrarem para dentro da investigação algum caçador de recompensas sem cérebro, esses adoram aparecer quando não são necessários e só atrapalham o que exige precisão.

Levei meia hora para chegar ao Museu do Louvre. Por sorte, ou hábito, eu sempre carrego uma arma reserva, e o distintivo nunca sai do bolso. Estacionei, saí do carro e encaixei a arma no coldre com um gesto automático. Não havia tempo para trocar de roupa. O vestido que eu usava não era apropriado para uma cena de crime, e o universo masculino tratou de me lembrar disso com piadas sujas e olhares demorados. Ignorei todos.

- Boa noite, chefe - disse minha subordinada, uma das poucas pessoas em quem eu confiava naquele lugar. - Não me disse que viria de femme fatale. Vejo que sabe aproveitar a noite de folga.

Ela piscou, maliciosa e revirei os olhos.

- Boa noite, Héloïse.

Ela reprimiu o sorriso e me estendeu um par de luvas azuis. Calcei-as com calma, puxando o látex entre os dedos, enquanto cruzávamos a fita de isolamento.

- Me deixe a par do que aconteceu esta noite.

- Foi uma operação limpa e precisa - respondeu, guiando-me pelo corredor amplo e silencioso. - Equipe pequena. Desligaram as câmeras e elevaram a temperatura em algumas salas. O calor inutilizou os sensores e menhum registro aproveitável.

Paramos diante do espaço vazio onde antes pendia o primeiro quadro. O corte na moldura era perfeito. Profissional. Não houve pressa, isso significava tempo e falha dos alarmes silenciosos.

- Então eles inutilizaram câmeras, alarmes, entraram e saíram sem serem vistos - murmurei. - Funcionários disfarçados?

Loise balançou a cabeça.

- Checamos todos os pontos e todo o pessoal em serviço. Ninguém fora do padrão, eles passaram invisíveis.

Ela me entregou um saco plástico de evidências. Dentro, uma carta.

Ás de espadas, senti o estômago afundar com uma familiaridade irritante. Havia quase seis anos, uma série de roubos de obras de arte se espalhava pelo mundo. Algumas peças eram retiradas com justificativas jurídicas sofisticadas demais para serem coincidência. Outras simplesmente sumiam. E em todas as cenas, sem exceção, havia uma carta de baralho. Uma assinatura e uma provocação.

- Está pensando o mesmo que eu, Comissária ? - Héloïse perguntou, com a voz mais baixa.

Segurei o olhar por um segundo antes de responder.

- Sim. A Rainha de Espadas está em Paris.

Ela era um fantasma elegante. Roubos milionários, execuções impecáveis, nenhuma prova concreta, nenhum erro.

Nem sequer um rosto para colocar num mural de procurados. Sabíamos que era uma mulher porque eu mesma havia conduzido a maior parte da investigação. a silhueta captada em ângulos impossíveis, os movimentos precisos, quase graciosos, subindo e descendo por pontos estratégicos com uma suavidade que beirava o deboche.

Fria, brilhante e intocável, o oposto de mim em quase tudo e, ainda assim, perigosa de um jeito que me acendeu algo sob a pele.

Adiante, notei a curadora do museu batendo o solado fino do salto contra o mármore, num ritmo seco e impaciente que ecoava pela galeria quase vazia. Ela estava visivelmente irritada, não histérica, não descontrolada, mas ofendida. Como se o roubo tivesse sido uma afronta pessoal, um gesto íntimo de violência.

Assim que seus olhos encontraram os meus, a expressão se suavizou. Não por fraqueza, mas por reconhecimento. Ergueram-se levemente as sobrancelhas, a mão subiu num gesto contido e ela veio ao nosso encontro com passos firmes.

- Boa noite, Comissária . Finalmente alguém com quem posso conversar e que me entende.

Já havíamos trabalhado juntas em outro roubo. Ao contrário do que muitos insinuaram na época, tornamo-nos amigas. Nada além disso. Miranda admirava minha frieza e eu respeitava a devoção quase religiosa que ela nutria pela arte.

- Boa noite, curadora, Miranda. Sinto muito que esteja passando por isso novamente. Faremos todo o possível para recuperar as obras.

Não era uma promessa vazia. Era um compromisso silencioso que eu fazia comigo mesma toda vez que alguém ousava desafiar minha jurisdição.

- Assim espero. - Ela respirou fundo, controlando o tremor na voz. - Pelo visto, estão enviando um investigador externo para auxiliar. Mas eu confio em você.

A frase veio baixa, quase conspiratória.

- O roubo me deixou sem palavras - continuou. - Cortes limpos nas três obras mais valiosas do museu, um diamante e uma coleção de joias. Uma das obras recém-adquirida, emprestada para a coleção, isso vai se tornar um inferno diplomático.

Cinco, aumentaram o jogo.

- Precisamos acessar tudo. Meus homens cuidarão dos detalhes técnicos. Pode me levar até as outras molduras vazias?

A suavidade no meu tom foi calculada. Miranda precisava de firmeza, mas também de cuidado. Ela assentiu imediatamente.

- Claro, me acompanhe.

Caminhamos pelas galerias silenciosas, onde o vazio nas paredes gritava mais alto que qualquer sirene. Observei os pontos escolhidos, distintos e estratégicos. Cada equipe agiu com precisão cirúrgica, sincronizada, nada improvisado, nada caótico, como no crime anterior.

Capítulo 3 2

GABRIELLE

Eles haviam estudado o fluxo de visitantes, os ângulos cegos, a variação térmica das salas. Desligaram câmeras, manipularam sensores, alteraram a temperatura ambiente para comprometer os equipamentos. Depois, convergiram para um ponto de extração perfeitamente calculado.

Uma van estacionada na calçada, vidro cortado com delicadeza quase artesanal, descida ágil e retirada épica, nenhuma imagem útil, nenhum rosto e nenhuma falha.

Era bonito e e eu odiava admitir isso, foi então que a vi.

Uma mulher ultrapassara o perímetro da cena. Isso, por si só, já bastava para me irritar. Aproximei-me com passos firmes, pronta para repreendê-la.

- Boa noite, senhorita. Esta é uma cena de crime. Não deveria estar aqui sem.. - A frase morreu na minha boca.

Ela se virou lentamente, os longos fios loiros se moveram com o gesto, deslizando pelo ar como seda sob luz dourada. Os olhos cor de mel encontraram os meus, não com susto, não com culpa, mas com um brilho intenso que misturava desafio e cálculo.

Ela usava luvas de látex, a loira caminhava como quem sabe que o mundo a observa e aprova. O macacão em tom terracota moldava seu corpo com precisão quase indecente, caindo em linhas longas que alongavam a silhueta. O tecido fluía a cada passo, leve, mas estruturado emtre elegante e dominante.

O decote profundo em V revelava pele na exata medida do perigo. O suficiente para sugerir, nunca para entregar. A cintura era marcada por um cinto largo dourado, metálico, que capturava o olhar como uma insígnia de poder. Dividia o corpo com intenção, transformando curvas em arquitetura.

As mangas três-quartos traziam equilíbrio à ousadia do corte, enquanto a calça de pernas amplas descia até os tornozelos, criando movimento e imponência. O tecido abria e fechava a cada passo, revelar, conter, provocar.

Os acessórios dourados, colar geométrico, argolas, pulseiras, refletiam a luz como extensões naturais dela. Nada ali era casual e nada era inocente.

Ela era o oposto de mim.

- Acredito que minha presença foi solicitada e devidamente autorizada. - disse ela, com uma voz clara, quente, segura. Não havia pressa nas palavras.

Apontou para o crachá preso à cintura.

- Talvez seus homens precisem de melhor instrução, Comissária. Estamos lidando com obras de arte. Todo cuidado é pouco. Um suor excessivo, um toque imprudente... e uma pintura inestimável pode ser perdida.

O modo como pronunciou toque fez algo se contrair dentro de mim, ela sustentou meu olhar sem vacilar, sem submissão ou medo.

Eu estava acostumada a controlar salas, pessoas, situações. Mas ali, sob a luz fria do museu, senti uma tensão diferente, densa, elétrica, perigosa.

Ela era o inverno disciplinado, contido, preciso, afiado e eu parecia verão. luminoso, expansivo, impossível de ignorar. E, pela primeira vez naquela noite, tive a desconfortável certeza de que o verdadeiro problema não eram as molduras vazias nas paredes.

Era a mulher de olhos cor de mel parada à minha frente, sustentando um sorriso que não era cortesia nem provocação gratuita, era cálculo. Como se soubesse exatamente quem eu era. E, pior, como me desestabilizar.

- Talvez devesse me dizer seu nome. - Minha voz saiu mais dura do que eu pretendia, quase um reflexo de defesa.

Ainda assim, estendi a mão, eu já sabia quem ela era, a enviada da seguradora. O que não fazia sentido era terem enviado uma mulher, nunca enviavam.

Nunca assim.

- Beatrice Lamberti - respondeu, com naturalidade perigosa. - Pelo visto, eu fiz a lição de casa a caminho daqui.

Ela não se intimidou com meu olhar, não apressou o gesto, não recuou um centímetro. Apenas tomou minha mão entre os dedos com uma firmeza tranquila, segura demais para ser casual. Elevou-a lentamente até os lábios e ali permaneceu por segundos longos demais para serem educados, curtos demais para serem inocentes.

Quando senti o calor da boca contra a minha pele, um formigamento percorreu meu braço, subindo como uma descarga lenta, insistente. Não era apenas o toque. Era a intenção por trás dele. O domínio sutil. A certeza silenciosa de quem entra num território alheio já sabendo onde pisar.

Beatrice ergueu os olhos para mim enquanto ainda segurava minha mão, e naquele instante compreendi, com um desconforto quase físico, que ela não estava ali apenas para investigar um roubo.

Ela estava ali para virar o jogo e, contra toda a minha disciplina, meu corpo entendeu isso antes da minha razão.

- Comissária Gabrielle... - disse ela, com uma suavidade que não enganava ninguém - serei sua parceira até resolvermos o caso e recuperarmos as obras.

A frase veio envolta em falsa cortesia. Beatrice soltou minha mão com uma delicadeza calculada demais para ser inocente, como se o gesto fosse parte de um protocolo íntimo que só ela conhecia.

- Você não é policial - respondi, a raiva aflorando sem esforço.

Ela apenas sorriu. Não um sorriso aberto, mas um recorte preciso de malícia contida. Deu dois passos na minha direção e parou a poucos centímetros de mim, invadindo meu espaço com uma naturalidade insolente. Inclinou o rosto, e senti a respiração quente roçar meu pescoço antes de alcançar meu ouvido. Quando falou, a voz melosa encontrou um ponto sensível dentro de mim, um lugar que eu mantinha trancado à força.

- Já servi no Exército. Tenho permissão, porte de arma, acesso irrestrito a tudo o que for necessário - murmurou. - O governador quer isso resolvido rápido. Por isso chamaram a melhor.

Houve uma pausa mínima. Cruel.

- Ou seja... você é toda minha até recuperarmos os quadros e as joias.

Ela se afastou um passo, recompôs a postura com elegância insolente. Percebeu meus olhos brilhando de raiva e gostou. Eu vi e aquilo a alimentava.

- Veremos - respondi, seca.

Girei o corpo e me afastei antes que dissesse algo que não pudesse retirar. Caminhei até a fita de isolamento, ergui-a com a ponta dos dedos e passei por baixo. Ela veio atrás, mas não para trabalhar. Sentou-se com calma excessiva, cruzou as pernas num movimento deliberadamente ousado e, por um instante, perdi o foco da cena do crime. O gesto foi pequeno, mas devastador, um erro, meu erro.

Beatrice pegou o celular e fez uma ligação curta. Falou baixo demais para que eu ouvisse, mas o suficiente para que eu sentisse. Intuição afiada é uma maldição. eu soube, naquele instante, que ela seria minha ruína.

Minutos depois, meu telefone tocou. Era meu superior.

A voz veio tensa, irritada, não comigo, mas com algo que vinha de cima. Ordens diretas. Sem margem para interpretação. Tratar a convidada com o devido respeito. Ser cortês. Facilitar. Agradar.

Desliguei com a mandíbula travada, o sangue ferveu nas veias. Quando levantei o olhar, Beatrice me observava como quem assiste ao desabrochar exato de uma reação química esperada. Havia triunfo ali. Não escancarado, refinado e controlado.

Ela não precisava tocar em mim para exercer domínio, bastava existir.

- Todos saiam da sala. Agora. - minha voz cortou o ar com autoridade. Apontei diretamente para ela. - Menos você.

Héloïse me lançou um olhar confuso, mas obedeceu. Em segundos, a sala se esvaziou às pressas, deixando para trás o silêncio tenso, carregado de eletricidade. As paredes brancas pareceram se fechar ao nosso redor.

- Está irritada, Gabrielle? - a pergunta veio com uma doçura venenosa.

Aproximei-me. Beatrice permanecia sentada, as pernas cruzadas com um descaso estudado, o decote visível demais, indecente na medida exata para provocar. O tecido revelava mais do que deveria e do que eu queria admitir que meus olhos insistiam em acompanhar.

- É commissaire . - corrigi, seca.

Ela sorriu. Não havia gentileza ali. Apenas desafio.

- Claro... Comissária . - o sorriso se alargou, lento. - Prefere Gabrielle só quando dizem seu nome em situações menos... formais?

O golpe foi preciso, senti o impacto antes mesmo de reagir.

- Não ouse, tenha cuidado com a língua. - rosnei. - Não sou uma distração sua, nem objeto do seu jogo. Você é apenas uma mercenária bem paga, uma caçadora de recompensas com verniz caro, nada mais.

As palavras saíram afiadas, carregadas da raiva que eu vinha segurando desde o primeiro olhar. Mas Beatrice não recuou, ela se levantou.

Num movimento rápido demais para ser evitado, reduziu a distância entre nós. Me fez andar para trás sem tocar, apenas impondo presença. Imponente e calculada, antes que eu pudesse entender quando perdi terreno, minhas costas encontraram a parede fria.

Ela segurou meu pulso e o ergueu contra a superfície lisa, firme o suficiente para não machucar, e forte o bastante para não permitir fuga. A outra mão prendeu meu outro pulso mais abaixo, perto da cintura. Beatrice estava perigosamente perto.

Intimamente perto, a perna dela pressionou minha coxa, abrindo espaço com naturalidade indecente. O corpo próximo demais. O perfume quente demais. A respiração, uma provocação constante contra a minha pele.

- Eu sou muito boa com a língua, ma belle. - murmurou, a voz baixa, controlada. - Posso me inclinar e tomar seus lábios como correção. Um beijo não pedido, um lembrete de domínio. Eu não sou qualquer caçadora, sou a pessoa que faz as coisas acontecerem.

Tentei me soltar. Em resposta, ela apertou um pouco mais. Não força, intenção. O toque queimava como brasa sob a pele.

- Me solte, agora! - minha voz saiu firme por fora, falha por dentro.

Ela negou com um mínimo inclinar de cabeça e aproximou os lábios da curva do meu pescoço. O sopro quente me atravessou inteira. Um arrepio traiçoeiro correu pela espinha.

- Peça com carinho... - disse, quase gentil.

Balancei a cabeça em negativa, mas o corpo me traiu. Quando seus lábios roçaram minha pele, lentos, precisos, fechei os olhos por instinto. Não por rendição, por sobrevivência. Ela estava me conduzindo para um território perigoso. E eu estava permitindo.

Minhas pernas vacilaram e o calor entre elas me denunciou. Praguejei em silêncio, odiando cada segundo daquela fraqueza.

- Se não me soltar, eu te prendo - ameacei, a voz rouca, instável.

Ela sorriu de novo.

- Adoro quando falam em algemas... - respondeu, soltando meu pulso com lentidão calculada, levando minha mão aos lábios num gesto deliberadamente íntimo. - Mas algo me diz que aquela ligação que você recebeu veio com instruções bem claras... para ser boazinha comigo.

O sorriso malicioso permaneceu, intacto. E, naquele instante, entendi com uma clareza perturbadora. Beatrice não precisava de força para me dominar, bastava saber exatamente onde tocar.

- Eu vou gritar. - minha voz saiu baixa, vibrando de fúria e algo mais perigoso.

Beatrice apenas sorriu, não houve pressa em sua reação e não houve surpresa. Apenas aquele controle infuriador, aquela certeza insolente de quem já sabe o desfecho antes mesmo do primeiro movimento.

Eu abri os lábios para cumprir a promessa, mas ela foi mais rápida. O beijo não teve delicadeza. Foi possessivo. Quente. Cheio de uma fúria que espelhava a minha. Seus lábios esmagaram os meus sem pedir licença, como se a ameaça tivesse sido apenas um convite disfarçado.

Estremeci.

Ela soltou meu pulso no mesmo instante em que uma das mãos desceu firme para minha cintura, puxando meu corpo contra o dela, enquanto a outra subiu até meu pescoço, dedos longos se fechando ali com domínio silencioso. Não para machucar, para guiar.

Para comandar, o beijo se aprofundou. Eu deveria tê-la empurrado. Deveria ter recuperado o controle, lembrado quem eu era, lembrado da parede branca, da cena do crime, da hierarquia, da regra que sempre mantive intacta.

Nunca se envolver com colegas de trabalho, mas minhas mãos falharam. Em vez de afastá-la, enroscaram-se em sua cintura, puxando-a para mais perto.

O choque dos nossos corpos enviou uma descarga elétrica pela espinha. Nossos lábios se chocavam e se moviam com fome, com urgência, como se cada segundo fosse uma batalha perdida e vencida ao mesmo tempo.

Ela tinha gosto de desafio, de perigo e eu respondi à altura. Foi a aproximação de passos no corredor que rasgou o momento. A voz de Héloïse, ainda distante, aproximando-se.

Beatrice se afastou bruscamente. O ar frio atingiu minha boca inchada, minha pele sentiu a ausência do toque como se tivesse sido privada de calor essencial.

Mas antes de dar um passo atrás, ela roçou a ponta dos próprios lábios com os dedos, devagar, como quem prova um vinho raro, confirmando silenciosamente que meu gosto ainda estava ali.

- Vou investigar as outras cenas - disse, a voz novamente controlada, profissional demais para combinar com o que acabara de acontecer. - Nos reunimos em breve, Comissária . Estou ansiosa para trabalhar com você.

Aproximou-se o suficiente para que apenas eu ouvisse o sussurro seguinte.

- E provar seu gosto outra vez. Mas sou paciente... espero que tome a iniciativa.

Meu coração batia forte demais. Rápido demais.

- Chefe? - Héloïse chamou, entrando na sala.

Ajeitei a roupa com movimentos contidos, recompus a postura, mas sabia que meus lábios estavam vermelhos demais, minha respiração irregular demais. Beatrice já se afastava, o sorriso nos lábios refletindo a plena consciência do que havia feito. Do que havia despertado.

Ela não corria, não precisava. Deixou para trás apenas o eco da presença e o frio súbito na minha pele. Fiquei ali por um segundo a mais, tentando controlar o ritmo do próprio corpo, consciente de que estava à beira de um precipício.

Um único passo em falso e eu quebraria a única regra que sempre protegi com rigor quase obsessivo.

Nunca dormir com colegas de trabalho e Beatrice Lamberti não era apenas uma colega. Era o tipo de erro que se comete sabendo exatamente o tamanho do abismo.

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