Capítulo 1
O vento gelado entra por uma fresta na janela e passa pelo meu pescoço, me arrancando um leve arrepio. Tento ignorar, mas é impossível.
Estou sozinha na sala de preparação, ajustando a fita da sapatilha com dedos trêmulos, não sei se pela temperatura ou pela ansiedade que me corrói desde que acordei hoje. A fita desliza entre os dedos, e faço o nó com mais força, como se aquele simples ato pudesse me manter ancorada à realidade.
Esta noite é o meu sonho se tornando possível. Talvez. Respiro fundo, tentando afastar o peso desse "talvez". Se eu conseguir impressionar os jurados hoje, pode ser a porta de entrada para academias internacionais, programas de aperfeiçoamento ou até mesmo uma chance de ser convidada para uma companhia profissional. Mais que isso, é minha chance de sair do rótulo de "filha dos políticos" e provar que tenho algo a oferecer por conta própria.
Mesmo que todos sempre duvidam grosseiramente disso.
O espelho na minha frente devolve meu reflexo, mas não parece exatamente meu. Minha maquiagem está impecável: blush suave nas bochechas, batom cor de rosa claro, delineador que destaca os olhos verdes, deixando-os mais expressivos. O coque está perfeito, sem nenhum fio fora do lugar. O figurino, um tom azul-pálido bordado com cristais, brilha à luz das lâmpadas, transformando-me em algo etéreo. Apesar disso, vejo a menina frágil e nervosa por trás da fachada perfeita.
- Você consegue... - Sussurro para mim mesma, tentando transformar aquelas palavras em uma verdade sólida.
Mas minhas mãos estão trêmulas e meu coração dúvida disso com todas as forças. Me sinto como se tivesse desaprendido a andar assim como acontece quando passo por um beco com garotos da minha idade.
Atrás de mim a porta se abre e o som de risadas enche a sala. Outras bailarinas entram, conversando e trocando olhares rápidos na minha direção. Noemie, a abelha rainha do grupo, acompanhada por Charlotte, Vivienne, Sophie, Lila e outras que não conheço pelo nome, mas as duas últimas que citei são as únicas a serem gentis comigo.
Sei o que estão pensando. Sempre sei. Algumas são amigas, ou pelo menos colegas neutras. Mas há aquelas que fazem questão de me lembrar que, para elas, sou apenas uma impostora.
- Amélie, como você está linda... - Noemie diz, sua voz doce como mel envenenado. - Só não deixe o nervosismo te atrapalhar hoje. Seria uma pena, sabe?
Forço um sorriso, porque qualquer reação seria pior. É como atiçar lenha na fogueira. Seja educada com aqueles que a tratam mal. Aprendi isso com a minha mãe.
- Obrigada... - Murmuro, com a voz controlada.
- Isso mesmo. - Charlotte, a mais crítica dentre as garotas murmura, sua expressão neutra como sempre. - É importante manter a calma. Todas vocês sabem como esses jurados podem ser exigentes.
Elas riem como se tivesse sido dito como uma provocação para mim. Mas finjo não ouvir, e o que ouço, absorvo para me fortalecer. Não tenho energia para responder, e francamente, não quero desviar meu foco.
Meu estômago está tão apertado que mal consigo respirar. Nem parece que me preparei toda a vida para isso.
Antes que a conversa possa continuar, a porta se abre novamente. Julien Armand. Nosso professor de dança, e o homem que dirige todo esse espaço de treino e apresentações. Ele é como o tapete vermelho de todas as dançarinas. Passe por ele e tenha a chance de brilhar.
Sua presença preenche a sala de um jeito que poucos conseguem. Ele não precisa dizer nada para que parem o que estão fazendo.
Ele passa por algumas dançarinas, dando-lhes breve elogios e lhes motivando, até que para na minha frente.
- Amélie. - Ele me chama com um sorriso, e algo dentro de mim relaxa.
Sua voz tem um peso de confiança que eu não sinto há dias. Talvez seja porque seja o único que me conhece desde criança que está aqui para me dar suporte.
- Está pronta para brilhar?
- Estou tentando estar. - Respondo e ele ri baixinho.
- Você está mais que pronta. Só faça o que sempre faz. Confie no seu corpo, no seu talento. Hoje é o seu dia.
As palavras dele são como um bálsamo, dissolvendo parte da tensão nos meus ombros.
- Obrigada... - Agradeço com um leve aceno e um sorriso tímido.
A chamada para as apresentações ecoa pelo corredor. O primeiro nome sendo o de Lila, sendo chamado. Meu coração dispara. É agora.
Na coxia, a visão do teatro lotado é avassaladora. Espio por uma brecha na cortina, os olhos percorrendo a multidão em busca de rostos familiares. Mas meus pais não estão lá. Tento me convencer de que ainda vão chegar, que estão atrasados por algum motivo trivial. Mas o aperto no peito é inevitável. Eles prometeram.
- Amélie... concentre-se... - Murmuro para mim mesma, fazendo um exercício básico para lidar com as batidas aceleradas do meu coração.
Afasto a decepção. Não posso deixar isso me distrair. Se eles não estão aqui é um problema deles, não meu.
É do que tento me convencer enquanto inspiro e expiro.
As apresentações começam. Uma a uma, as bailarinas entram, dançando, saem sob aplausos.
A minha vez chega mais rápido do que estava esperando. Sinto meu coração bater tão forte que parece ecoar em todo o teatro. Mas assim que coloco o pé no palco, algo muda.
A música começa, e o mundo desaparece.
Eu já deveria estar acostumada com o poder quando e a música e a dança sobre meu corpo.
O medo e toda insegurança vai embora. Eu não me importo com os olhares atentos dos jurados, nem com a plateia ansiosa pela minha apresentação. Meu corpo se move, cado passo é um diálogo entre meu corpo e a melodia.
Plié, arabesque, piruetas que me fazem girar como se estivesse flutuando. Sinto o chão sob meus pés, firme e ao mesmo tempo distante, como se eu pertencesse mais ao ar do que à terra. Meu corpo se move com uma fluidez que só encontro quando danço.
Uma paz que só alcanço quando estou no meu próprio mundinho.
E eu me sinto viva... muito mais viva do que nunca, porque dançar faz parte de quem eu sou.
Quando chego ao clímax, salto em um grand jeté, meus braços abertos como asas. O mundo parece parar por um instante. Encerrando em uma penché, meu corpo se inclina em um ângulo quase impossível, meus dedos tocando levemente o chão, enquanto a música termina.
Eu me sinto... leve.
Silêncio.
Por um segundo, penso que o teatro ficou sem palavras. Então, todas as luzes se apagam.
O som de suspiros coletivos enche o ambiente. Meu corpo se enrijece. Primeiro, penso que é uma falha técnica, mas o estrondo que vem em seguida apaga qualquer esperança disso. É como se algo gigantesco tivesse caído ou sido derrubado.
Meu coração dispara novamente, mas dessa vez não por ansiedade, e sim por medo.
Endireito a minha postura e tento ver além da escuridão, mas não é preciso de muito esforço para isso.
Lanternas surgem, varrendo a escuridão. São muitas, e o brilho corta o espaço, revelando homens armados que entram pelas portas principais. Eles gritam, dão ordens que fazem as pessoas gritarem de medo. A plateia entra em um alvoroço ao perceber a situação.
E eu fico congelada, no centro do palco sem luz.
O primeiro tiro silencia todos, exceto os passos dos invasores, que ecoam ameaçadores pelo o teatro enquanto gritam ordens.
- TODO MUNDO PARA BAIXO, PORRA! AJOELHA! - Um deles grita e eu automaticamente vão ao chão do palco.
Eu tento me esconder atrás de uma das pilastras. Meu corpo inteiro treme, mas minha mente trabalha em um turbilhão. A única coisa que consigo pensar nessa situação é que... não posso ser vista. Não posso ser pega.
São terroristas. Seus uniformes que lembram os de militares revelam isso. Eles estão aqui para algo grande, não é apenas um assalto. Como filha de políticos, sei exatamente o que isso significa. Reféns, barganhas. Eu seria a moeda perfeita...
Eu respiro com dificuldade enquanto tento pensaria em uma solução.
Minha única chance é a saída escondido do escritório de Julien. É o que me dizem os instintos.
Preciso me mover.
Desço do palco, cada passo uma luta contra o terror que ameaça me paralisar. Os sons ao meu redor – gritos, ordens, passos pesados – parecem distantes. Minha única realidade é o caminho que me leva ao escritório.
Não quero pensar no quão cruel esses homens podem ser. Em tudo o que podem fazer comigo ou com as outras garotas. Eles podem me machucar seriamente. Eu preciso conseguir sair e pedir ajuda.
Ajuda a quem? O teatro é rodeado pela floresta, eu teria que correr por alguns minutos até chegar na área habitada.
Eu poderia pegar meu carro, mas a chave está nos meus armários e seria muito arriscado correr até lá.
O que eu faço?
Chego ao escritório de Julien e rapidamente localizo a porta. A maçaneta está fria contra meus dedos suados. Giro-a, tentando ser o mais silenciosa possível, mesmo quando minhas mãos estão trêmulas e minha respiração pesada. Mas antes que eu possa abrir, sinto uma mão puxar meu cabelo com força.
O grito escapa antes que eu consiga segurá-lo. O coque se desfaz, e meus cabelos caem sobre os ombros enquanto lágrimas surgem nos meus olhos enquanto a grande mão segura a minha nuca, fazendo meu couro cabeludo arder.
- Você achou que ia fugir, gatinha? - A voz é grossa, carregada de sarcasmo e crueldade.
Eu choro, o desespero latente em cada nervo sob a minha pele. Me debato nos braços dele, porém o brutamontes me arrasta pelo cabelo, me fazendo tropeçar e cair. Cada puxão é uma onda de dor que me faz cerrar os dentes, mas eu me recuso a ceder.
Isso não pode estar acontecendo... eu estava tão perto...
Ele me leva de volta ao palco, onde os outros reféns já estão reunidos. Estão todos ajoelhados, com as mãos na cabeça. O terror nos olhos deles é um espelho do meu.
O homem me empurra com brutalidade, e caio de joelhos. Minha testa bate no chão com força, arrancando um gemido de dor.
- Olha só o que eu peguei tentando fugir pelos fundos. - Ele diz rindo, enquanto outros homens armados se aproximam.
Eu prendo a respiração, me apoiando nas minhas mãos doloridas para olhar para eles. Um deles para na minha frente, suas botas pretas e pesadas sendo a primeira coisa que noto.
Um deles para na minha frente. Ele é mais alto, com uma postura que transborda autoridade.
Meus olhos sobem em direção a seu rosto. Ele, assim como todos os outros, usa uma balaclava que revela apenas olhos azuis e gelados. Ele me analisa, e sinto como se estivesse bebendo a minha alma.
- O que fazemos com ela, Kai? - O brutamontes que me trouxe até aqui pergunta ao homem que me analisa.
Kai. Então esse é o nome dele. Ele me olha como se eu fosse uma peça de xadrez, algo a ser calculado e manipulado. Sua expressão não revela nada e é assustador.
- Pode deixar que eu cuido dela. - Ele diz, sua voz baixa, mas carregada de uma promessa que me faz arrepiar da cabeça aos pés.
O medo toma conta de mim, pulsando em cada fibra do meu ser.
Capítulo 2
As luzes retornam abruptamente, ofuscando meus olhos ainda marejados. Antes mesmo que eu possa reagir, sinto dedos firmes ao redor do meu braço. O homem que ouvi ser chamado de Kai está me puxando, com um controle que faz meu coração bater ainda mais rápido. Ele não diz nada enquanto me arrasta até o palco, onde vejo o restante dos reféns já reunidos, todos amarrados. O ar está carregado de pânico, gritos abafados e soluços.
Ele me faz sentar ao lado de uma pilastra. Sua mão aperta meu ombro para me manter imóvel enquanto ele pega cordas e amarra meus pulsos e tornozelos. O tecido áspero arranha minha pele, mas não ouso reclamar. Estou tremendo, tentando conter o que parece ser o início de uma crise de pânico.
Quando Kai termina, ele permanece ajoelhado na minha frente. Seus olhos percorrem meu rosto e, por um momento, penso ver algo mais ali – talvez curiosidade, talvez dúvida. Ele inclina a cabeça levemente, e então sua mão se move para o colar que pende no meu pescoço.
O colar de mais de cem mil dólares que meu pai me deu de presente de aniversário.
- Não... - Murmuro, minha voz quase um sussurro. Tento me afastar instintivamente, mas não consigo ir muito longe com as cordas me prendendo.
- Por favor... - Imploro, quase inaudível, enquanto ele segura o delicado pingente. - Você pode ficar com ele... e com o meu dinheiro... mas me deixa ir... - As palavras saem trêmulas, desesperadas, enquanto lágrimas deslizam pelo meu rosto.
Kai não responde. Seu olhar fixa o meu, intenso, e por um momento parece que ele está considerando minhas palavras. Mas então, com um movimento brusco, ele puxa o colar. A corrente quebra, e sinto uma dor aguda ao redor do pescoço, onde a pele fica marcada em vermelho. Eu engasgo com um soluço, segurando o grito que ameaça escapar.
- KAIIII! - Uma voz áspera e autoritária o chama. Ele se levanta sem cerimônia, jogando o colar no bolso enquanto se afasta. Fico ali, sozinha, tentando não me desfazer completamente.
Eu ouço fragmentos de conversa enquanto Kai caminha para se juntar aos outros homens. Eles estão discutindo algo sobre uma ligação. Meu coração aperta ao perceber o que está acontecendo: estão planejando entrar em contato com o governo. Querem anunciar a invasão, os reféns, e negociar uma quantia absurda de dinheiro em troca de nossas vidas.
Uma onda de desespero me consome. Não é possível que tudo isso esteja acontecendo. O ar ao meu redor parece mais pesado, difícil de respirar. Tento acalmar meu coração descompassado, mas cada ruído ao meu redor intensifica minha ansiedade.
Do outro lado do palco, ouço um choro abafado. Um dos reféns, um homem mais velho, um dos jurados, murmura algo em voz baixa, implorando pela vida. Um dos terroristas – alto, com um sorriso cruel estampado no rosto – se aproxima dele. Sem qualquer aviso, ele levanta a arma e acerta o homem com a coronha, derrubando-o no chão com um baque surdo.
- NÃO! - O grito escapa da minha garganta antes que eu consiga me conter pelo absurdo da situação.
Os olhos do terrorista se voltam para mim. Um sorriso maligno curva seus lábios enquanto ele se aproxima, devagar, saboreando meu medo.
- Ah, a princesinha está com medo? - Ele se agacha à minha frente, os olhos brilhando com diversão cruel.
Eu tento me encolher contra a pilastra, desejando desaparecer, mas não há para onde ir. Meu corpo inteiro está tremendo, e lágrimas silenciosas deslizam pelo meu rosto.
- Paul, sai fora. - A voz de Kai interrompe a cena.
O outro homem – Paul, aparentemente – levanta-se com um resmungo irritado.
- Sempre se metendo onde não deve, não é, Kai?
Kai não responde, apenas segura firmemente o braço de Paul, forçando-o a se afastar. Eles trocam olhares tensos antes que Paul desista, lançando-me um último olhar lascivo enquanto se afasta. Meu estômago se revira, e eu desvio o olhar, tentando não sucumbir ao pânico.
Kai volta sua atenção para mim por um breve momento, seus olhos avaliando meu estado.
- Fique onde está. - Ele diz, sua voz baixa, quase inaudível.
Como se eu pudesse sair com essas cordas me prendendo.
Não o respondo.
Kai se afasta de mim com a mesma rapidez com que chegou. Agora, os terroristas estão em uma conversa séria, discutindo como irão proceder. Ouço um deles mencionar uma ligação – algo sobre fazer um acordo com o governo. Meu estômago se aperta ainda mais ao imaginar que a única coisa que podemos oferecer a eles é uma troca por dinheiro. Eles não nos veem como seres humanos. Somos apenas mercadoria.
Tudo parece estar acontecendo muito rápido e, ao mesmo tempo, de maneira caótica. Estou perdida, sem saber o que fazer ou para onde olhar. Tento manter os olhos focados no que está à minha frente, mas a cada movimento, o medo parece tomar mais conta de mim.
Então, ouço uma voz familiar.
- É dinheiro que vocês querem? - A voz venenosa de Noemie – minha inimiga – corta o ar, e sua presença, sempre arrogante, parece invadir o ambiente.
Ela está amarrada a outras garotas, com a cabeça erguida, olhando com um sorriso esperto para os homens armados.
- Eu tenho uma informação valiosa. Alguém aqui entre nós vale uma grana.
Meu corpo se tensa instantaneamente.
Não, Noemie... ela não faria isso, não é?
- Eu posso dizer se vocês me libertarem. - Ela continua, com um brilho de confiança na voz, mas algo em seus olhos me diz que ela está desesperada. Ela sabe que está arriscando muito, mas não parece se importar.
Um dos terroristas, um homem de expressão dura e impassível, aponta a arma para a cabeça dela. Ele parece divertir-se com a ideia de manipular uma mulher tão arrogante.
- E por que não negociamos assim? - Ele murmura, olhando para ela com um brilho ameaçador nos olhos. - Você diz o nome e continua viva?
Eu me encolho, instintivamente, meu coração batendo forte no peito. Mas o que me assusta ainda mais é a visão de Kai, que se aproxima rapidamente. Ele observa a cena com os olhos fixos, e o ar ao redor parece carregar um peso, como se ele fosse a única coisa que poderia interromper a carnificina iminente.
- Parem! - Ele diz, sua voz firme, mas não agressiva. Ele não hesita. - Ela só está blefando.
O terrorista se afasta de Noemie com um movimento brusco.
- Ah, vai se foder, Kai. - O homem rosna. - Você sempre se mete onde não deve.
Mas Kai não reage. Ele permanece tranquilo, a postura firme, como se estivesse sob controle da situação – e, em algum nível, ele provavelmente está.
Ele olha de volta para mim, e eu sinto a pressão da sua presença aumentar. Ele não se aproxima de mim fisicamente, mas o modo como seus olhos se fixam nos meus me faz sentir que ele está, de alguma forma, se preocupando com o que está acontecendo.
Como se ele soubesse... meu Deus!
De repente, Noemie fala, e sua voz, que antes estava cheia de confiança, agora soa mais desesperada.
- Eu sei o nome dela! Eu sei quem ela é! Não estou blefando! Ela vale muito mais do que vocês conseguiram por todos nós juntos!
Eu congelo. O terror toma conta do meu corpo, e meu estômago se aperta em um nó.
Noemie me entrega sem hesitar.
- A loirinha ali! Ela é filha do deputado mais votado do estado. - Ela diz, com um sorriso cínico. - Eu sei disso porque a instituição regida por esse teatro recebe doações do pai dela todos os anos.
Eu fico atônita. Não consigo acreditar no que estou ouvindo. Isso não está acontecendo. O medo é como gelo nas minhas veias.
Os terroristas se aproximam de mim com um olhar mais atento, e o homem que parecia ser o líder começa a rir, um som baixo e amargo.
- A filha de um dos caras que mandou um dos meus irmãos para a cadeia? - Ele olha para os outros, e eles trocam olhares incrédulos. - Seria muita sorte, não acham?
Ele me agarra com força pelo braço, me levantando do chão, sem se importar com o meu choro contido. Ele me força a olhar para o seu rosto, e posso sentir o cheiro forte de seu suor, a respiração pesada. Ele segura uma faca com precisão, e começa a passar a lâmina bem perto do meu rosto. Eu congelo, meu corpo se encolhendo involuntariamente.
- Seria uma honra desfigurar essa carinha bonita. - Ele sussurra, a lâmina tocando levemente minha pele.
Eu fecho os olhos com força, tentando controlar a onda de pânico que ameaça tomar conta de mim.
- Chega. - Kai ordena, sua voz cortante.
Ele aparece de repente, mais rápido do que eu esperava, e segura a mão do terrorista antes que ele possa me ferir.
- Precisamos verificar se ela realmente é quem estão dizendo ser. Se for, não podemos machucar ela, o preço do resgate será muito mais alto. Não é dia de vingança, e sim se ganharmos dinheiro.
Meu coração dispara. Eu sei o que isso significa: eles descobrirão sobre os meus pais, e o resgate será uma fortuna. Eles não vão me matar – não ainda. Mas isso só faz com que eu me sinta mais impotente. Estou à mercê deles.
- E como vamos saber a identidade dela? - O terrorista me solta bruscamente.
Kai me segura antes que eu caia.
Noemie se apressa em ajudar eles:
- Guardamos nossas carteiras de dançarinas nos nossos armários. Lá guarda o nome dos nossos pais.
Os terroristas se entreolham. Kai segura meu braço com mais força.
- Eu levo ela. - Ele me guia para parte de trás do palácio, onde fica localizado nossos armários.
Outro terrorista agarra o braço de Noemie, a trazendo junto comigo.
Eu vou chorando todo o caminho. Isso só vai confirmar a eles o que Noemie me diz. Vão descobrir quem é o meu pai e vão querer me usar como moeda de troca ou até como vingança. Qualquer possibilidade é muito ruim.
Kai me guia até o meu armário. Ele coloca uma mão no meu ombro, e a sensação do seu toque inesperado me faz sentir algo estranho – talvez uma mistura de conforto e apreensão.
- Fique calma. - Ele sussurra, sua voz suave. Ele se aproxima ainda mais, seu rosto perto do meu. - Predadores gostam de caçar presas submissas. Não seja uma presa fácil.
As palavras dele me atingem de uma forma inesperada. Não sei por que, mas aquilo me dá uma força que eu não sabia que possuía. Assinto, sem falar nada, e abro o armário. Dentro, está o cartão de identificação que toda dançarina ganha ao realizar apresentações, aquele cartão que usamos para facilitar o acesso a alguns lugares.
Eu hesito por um momento, mas então entrego o cartão a Kai, sentindo o peso da decisão. Ele o examina rapidamente, e seus olhos se estreitam.
Os terroristas olham o cartão com desconfiança. Um deles franze a testa.
- Isso não diz nada sobre ela ser filha de algum deputado.
Eu fico tensa, mas Kai não parece surpreso. Ele entrega o cartão a um dos outros terroristas, que o examina por mais tempo. A tensão no ar cresce enquanto espero pela confirmação. Quando o homem finalmente olha para os outros, vejo a frustração em seu olhar.
- Thomas Moreau. Quem deputado se chama Thomas Moreau? - Um dos terroristas apontam, zombando.
Meus olhos se arregalam, porque esse definitivamente não é o nome do meu pai. Os terroristas parecem ficar descontentes. O que está segurando Noemie simplesmente a joga no chão e lhe dá um chute raivoso. Eu arregalo os olhos, me encolhendo contra o armário.
- Sua vadia mentirosa! Nos querendo fazer perder tempo!
- Não, eu juro! Ela é filha de um deputado!
- Cala a boca, vadia!
Ele começa a bater nela como se ela fosse a responsável por tudo. Noemie grita em dor enquanto os golpes continuam, e eu vejo tudo em choque.
Me sinto culpada. Eu sei que ela me traiu, mas eu poderia evitar tudo isso se apenas dissesse a verdade. Sou egoísta por não admitir?
Abraço meu próprio corpo, tentando me afastar mentalmente de tudo o que está acontecendo.
Uma mão nas minhas costas me faz saltar. Olho rapidamente para Kai, que está atrás de mim, sua presença confortável, mas ao mesmo tempo, perturbadora. Ele não diz nada.
Mas eu não posso pensar no que ele está fazendo ou tentando fazer. Eu sinto o estômago revirar e, sem querer, tapo a boca, sentindo a necessidade de vomitar.
- Eu preciso vomitar. - Murmuro, com a voz rouca de tanto chorar.
Capítulo 3
O ar ao meu redor parece sufocante, como se cada respiração que eu tentasse tomar fosse interrompida pelo medo, que nesse momento parece estar materializada como uma pedra no meu peito.
Kai me guia pelo corredor estreito, suas mãos firmes segurando meu braço, mas não apertado. Há algo estranhamente reconfortante em seu toque, e eu não sei dizer o porquê.
Ele está calado, o que pode deixar tudo ainda mais perturbador, no ponto de vista de uma vítima.
Talvez ele só esteja pensando em coisas triviais, Amélie...
Tento me acalmar, evitando lembrar da forma brusca em que ela arrancou o colar do meu pescoço.
Quando chegamos ao banheiro, ele abre a porta com cuidado, mas não me solta imediatamente, olhando dentro do cômodo com um olhar aguçado. Então seu olhar parece pesar sobre mim quando me solta, avaliando cada movimento meu, como se pudesse prever o que eu faria.
- Entre. - Ele diz, sua voz baixa, quase um sussurro.
Eu entra, porém meus pés criam raízes no chão quando percebo a situação. Ele não pretende fechar a porta. Eu o encaro, esperando que ele faça alguma coisa, mas ele apenas aponta rm direção a privada.
Okay... zero privacidade...
Tremendo e sentindo meu estômago dar várias voltas, eu me ajoelho diante da privada. Meu corpo cede muito rapidamente. Todo o pânico, o medo e a ansiedade acumulados desabam de uma só voz. Vomito, sentindo minha garganta arder e as lágrimas escorreram dos meus olhos.
A sensação é horrível...
Me surpreendo com o toque suave de Kai segurando meu cabelo, afastando mechas do meu rosto com uma delicadeza surpreendente. Ele fica ali, em silêncio, esperando que eu termine com a minha própria tortura, quase como se não fosse a mesma pessoa que faz parte do pesadelo que me envolve.
Quando meu estômago para de forçar a pouca comida de hoje para fora e eu me afasto da privada com um gemido frustrado, ele me estende um lenço. Suas mãos enluvadas são grandes. As minhas provavelmente ocupariam apenas a palma das suas. Porém o mais surpreendentemente é o quão gentis elas agem comigo.
- Obrigada... - Murmuro, minha voz fraca e rouca.
Ele me segura pelo cotovelo e eu levanto-me devagar, tentando encontrar algum resquício de dignidade em meio a humilhação. Mas não consigo olhar em seus olhos, minhas bochechas coradas demais pela vergonha para eu conseguir.
Meus olhos fixam-se no chão, nas rachaduras do azulejo branco.
- Preciso... preciso fazer xixi... - Sussurro, mal reconhecendo a minha própria voz.
Me sinto fraca e vulnerável diante dessa situação. Não é nada legal.
Kai inclina ligeiramente a cabeça ao me analisar, mas assente, finalmente me devolvendo um pouco da minha dignidade ao dizer:
- Vou te esperar do lado de fora. - A porta se fecha atrás dele quando me deixa sozinha.
Um suspiro de alívio escapa pelos meus lábios e minhas mãos tremem mais do que o normal. Por alguns segundos eu apenas fico ouvindo seus passos lentos do lado de fora. Meu coração bate tão forta que parece ensurdecedor.
Essa é a chance perfeita para eu conseguir algo para fugir.
Mas e se ele estiver me testando? Quer dizer, ele deve ter visto a janela acima da privada... ele está esperando que eu suja? Ele quer ver se eu terei coragem apenas para me pegar no ato e então me castigar?
O banheiro está gelado, o ar pesado com o cheiro da neve. Meu corpo treme - não apenas pelo frio, mas pelo medo que se enraiza em mim.
Eu tentei olhar disfarçadamente para a janela acima do tanque da privada, mas agora posso olhar melhor. Uma onda de esperança invade o meu peito. Talvez, apenas talvez, eu possa escapar.
As engrenagens trabalham constantemente na minha cabeça enquanto tento lutar contra o meu medo. Em um impulso de adrenalina, subo na privada e me apoio no tanque acima dela, tentando não fazer barulho. A janela é pequena, mas eu sou uma bailarina magra e eu cuido do meu corpo desde os meus doze anos.
Eu consigo passar!
Apoio minhas mãos nas laterais, minha respiração curta e ofegante com o esforço.
Consigo colocar metade do meu corpo para fora do prédio, sentindo o vento gélido do lado de fora em envolver. Os sussurros da noite, que normalmente costumam me amedrontar, dessa vez parece uma promessa de liberdade. Estico-me o máximo que posso, tentando fazer meu quadril deslizar pelo pequeno espaço da janela, mas se meus seios passaram, os quadris não deveria estar sendo um problema tão grande.
- Amélie. - A voz de Kai chama, baixa, mas clara.
Meu coração dispara. Não respondo.
- Amélie! - Ele chama novamente, dessa vez mais firme.
Eu o ignoro com lágrimas nos olhos, forçando meu corpo para deslizar pela janela. O material de ferro machuca a minha pele, mas não me importo. Meu quadril está quase livre, mas a pressão contra a moldura da janela é quase insuportável.
Só mais um pouco...
De repente, ouço a porta do banheiro se abrir com força.
- Porra! - Ele xinga, a voz cheia de frustração.
Pelo pequeno espaço da janela, percebo ele tentar alcançar as minhas pernas, porém me empurro para fora com tanta força que consigo deslizar para fora.
Meu corpo cai com força no chão gelado do lado de fora, e um baque doloroso percorre minhas costas. Solto um gemido, lágrimas de dor escorrendo pelos meus olhos.
Sinto vontade de me encolher e chorar, mas nesse instante Kai já deve estar dando a volta para me alcançar.
Vamos, seja forte, Amélie. Não pare por conta de uma dor tão pequena... você é maior do que ela.
Ignorando o latejar no meu corpo, me apoio nas minhas próprias mãos e me ergo, forçando minhas pernas a correr. A neve fria cobre o chão, dificultando meus passos, mas eu continuo. A floresta adiante é a minha única chance.
Minha respiração sai em nuvens brancas, e meu coração parece prestes a explodir no peito. O silêncio da floresta é interrompido apenas pelos meus passos apressados e mancos e pelo som do vento soprando entre as árvores.
Então, ouço.
Passos.
Pesados e rápidos, vindo atrás de mim.
Meu coração para e o pânico toma conta. Corro mais rápido, mas meus pés escorregam na neve, meu corpo já cansado pela dor e pelo medo.
Por favor, vá mais rápido...
- Não, por favor, não... - Sussurro no desespero, minha voz quase se perdendo no vazio da floresta.
Antes que eu possa ir mais longe, sinto um peso enorme me derrubar, arrancando o ar dos meus pulmões. Caio no chão, a neve fria queimando minha pele.
- NÃO! - Grito, me debatendo com todas as minhas forças.
Mas é inútil.
Kai está em cima de mim, suas mãos segurando meus pulsos acima da minha cabeça. De alguma forma, ele conseguiu me virar para encará-lo. Sua balaclava negra parece muito mais assustadora nesse cenário sombrio.
- Amélie... - Ele sopra, sua voz firme, mas não agressiva.
- Por favor... - Choramingo, sentindo o desespero escorrer pela minha voz, minha voz quebrada por soluços. - Por favor, me deixa ir. Eu faço qualquer coisa. Entrego todo o meu dinheiro, apenas me deixa ir. Eles vão me machucar.
Ele inclina-se para mais perto, seus olhos azuis perfurando os meus.
- Olhe para mim. - Ele diz, sua voz mais suave agora. - Eles não vão te machucar. Eu prometo. Olhe para mim.
Eu tento desviar o olhar, mas algo em seus olhos me impede. Eles estão cheios de uma intensidade que eu não consigo decifrar, mas que me faz congelar.
Não de medo...
- Não vou deixar que te machuquem. - Repete, sua voz baixa, quase um sussurro.
As lágrimas continuam a escorrer pelo meu rosto, e é quando sinto seus dedos cobertos pela luva tocarem a minha pele, limpando-as com uma delicadeza que não faz sentido vindo de alguém como ele. Ele está sentado em meu quadril, sem realmente colocar força.
Estou paralisada, o encarando.
- Por quê? - Pergunto, minha voz falhando enquanto tento entender suas motivações. - Por que você faria isso por mim, se Noemie foi espancada na sua frente e você não fez nada? Por que eu confiaria em você?
Ele hesita por um momento, seus olhos cravados nos meus, então, para a minha surpresa, seus lábios se movem sob sua balaclava. Seus lábios formam um sorriso.
Um pensamento idiota me ocorre: eu gostaria de ver.
- Eu vi a sua apresentação... - Kai responde como se fosse algo óbvio.
Eu pisco, surpresa.
- Você viu?
Ele estava na plateia? Ou me vendo de fora?
Ele assente, ainda sorrindo.
- Estava incrível. Parecia que você nasceu para dançar.
Minhas lágrimas cessam por um momento enquanto eu o encaro. É difícil entender o que ele está dizendo. Como alguém que faz parte de um grupo de terroristas pode ter assistido a minha apresentação e usar isso como motivo para não me machucar?
Quer dizer, ele apreciou a minha apresentação?
- Você usou uma referência no final. - Continua. - A coreografia foi inspirada em Le Jeune Homme et la Mort, certo?
Meus olhos se arregalam. Ele sabe. Ele sabe exatamente a referência que eu usei, que nem mesmo meu professor de dança notou.
- Quer saber o motivo? - Kai pergunta, inclinando-se para mais perto, seu rosto muito perto do meu agora, nossas respirações se misturando. - Quero ver você dançar outra vez. - Ele sussurra.
Eu sinto meu rosto esquentar. Ele me olha por um momento, seus olhos nunca deixando os meus.
- Então, minha doce bailarina... - Algo em meu estômago se contorce com o tom da sua voz. - Eu não posso deixar você fugir...
Seus dedos traçam a minha clavícula, deslizando pelo decote da minha roupa, um toque leve, mas que faz minha pele arrepiar.
- Mas prometo que ninguém vai te machucar. - Ele completa, ainda me olhando.
Algo dentro de mim muda nesse momento. Não é medo, mas algo mais profundo, algo que eu não quero admitir.
Eu não sei se confio nele.
Mas, nesse momento, eu escolho acreditar.