Na noite em que o meu apartamento pegou fogo, a minha barriga de nove meses era a nossa esperança.
Liguei dezoito vezes ao meu marido, Mateo, mas ele nunca atendeu.
Quando finalmente consegui falar com ele, a sua voz estava cheia de irritação.
«Eva, para de ser tão dramática, não é só um pequeno incêndio?»
Antes que eu pudesse dizer que a nossa mãe, com problemas cardíacos, estava presa comigo, ele desligou.
A fumaça densa enchia os meus pulmões enquanto a minha mãe desmaiava.
Eu arrastei-a para a varanda, grávida e desesperada.
No hospital, disseram-me que o bebé não tinha sobrevivido.
A minha mãe estava em cuidados intensivos e, quando liguei novamente ao Mateo, ouvi a voz doce e chorosa da minha irmã, Sofia, ao fundo, enquanto ele a confortava por um tornozelo torcido.
O colar de diamantes da minha avó, que deveria ser meu, surgiu no pescoço dela.
Como ele se atreveu a chamar-me egoísta por querer o divórcio, mesmo depois de a minha mãe também morrer?
A verdade era que eles não se importavam comigo, nem com a nossa família.
Eles queriam-nos mortos.
A dor gelou-se em raiva, e eu sabia que eles iriam pagar por cada lágrima.
Eu ia desmascará-los e destruí-los, usando a sua própria arrogância contra eles.
Na noite em que o meu apartamento pegou fogo, o meu marido, Mateo, estava a confortar a minha irmã, Sofia, que tinha torcido o tornozelo.
Eu liguei-lhe dezoito vezes, mas ele nunca atendeu.
Quando finalmente consegui falar com ele através do telefone de um vizinho, a sua voz estava cheia de irritação.
"Eva, para de ser tão dramática, não é só um pequeno incêndio? Os bombeiros não estão aí? Eu estou ocupado."
Antes que eu pudesse dizer que a nossa mãe, que tinha problemas cardíacos, estava presa comigo no apartamento, ele desligou.
A fumaça densa encheu os meus pulmões, e eu olhei para a minha mãe, Clara, que já estava inconsciente no chão.
A minha barriga de grávida de nove meses parecia um peso enorme, puxando-me para baixo.
O desespero tomou conta de mim.
Foi nesse momento que eu soube que o nosso casamento tinha acabado.
Consegui arrastar a minha mãe para a varanda, o único lugar com um pouco de ar fresco. O som das sirenes aproximava-se, mas parecia vir de outro mundo.
O meu mundo estava a desmoronar-se.
Mais tarde, no hospital, o médico disse-me que, devido à inalação de fumaça e ao stress extremo, eu tinha entrado em trabalho de parto prematuro.
O bebé não sobreviveu.
A minha mãe estava na unidade de cuidados intensivos, o seu coração fraco tinha sofrido demasiado.
Eu estava deitada na cama do hospital, o meu corpo dorido, a minha barriga agora vazia e flácida. O vazio dentro de mim era maior do que a dor física.
O meu telemóvel, que um bombeiro simpático me devolveu, estava rachado, mas ainda funcionava. Não havia chamadas perdidas do Mateo.
Ele não se importava.
Ele não se importava comigo, com a nossa mãe, ou com o nosso filho por nascer.
Liguei-lhe. Demorou uma eternidade para ele atender.
"O que foi agora, Eva?"
A sua voz soou distante, impaciente.
Ao fundo, ouvi a voz doce e chorosa da minha irmã.
"Mateo, o meu tornozelo dói tanto. Podes trazer-me um pouco de gelo? Obrigada por estares aqui. Se não fosses tu, eu não sei o que faria."
Senti uma náusea amarga.
"Mateo," a minha voz saiu rouca, um sussurro que mal reconheci. "O nosso bebé... morreu."
Houve um silêncio. Não um silêncio de choque ou tristeza, mas um silêncio desconfortável, como se eu o tivesse interrompido.
"Eva, ouve," ele disse finalmente, a sua voz baixa e controlada. "Foi um acidente. Estas coisas acontecem. A Sofia precisava de mim. Ela estava em pânico."
"Ela torceu o tornozelo, Mateo. A nossa mãe e eu estávamos num incêndio."
"Não comeces com isso," ele cortou-me. "Eu sei que estás chateada. Mas não podes culpar-me. Eu não comecei o fogo. E a Sofia estava sozinha, ela não tem ninguém."
Ela não tem ninguém? E eu? E a nossa mãe?
As lágrimas que eu tinha segurado começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes.
"Vamos divorciar-nos," eu disse, a decisão firme na minha voz.
Ele riu, uma risada seca e sem humor.
"Divórcio? Eva, estás a ser histérica por causa do stress. Perdemos um bebé, é trágico, eu sei. Mas não deites fora o nosso casamento por causa disso. Pára de ser tão egoísta."
Ele desligou.
Olhei para o ecrã do telemóvel. Ele tinha-me chamado de egoísta.
A porta do meu quarto abriu-se e uma enfermeira entrou, o seu rosto sombrio.
"Senhora Costa? É sobre a sua mãe... O coração dela parou. Tentámos de tudo, mas..."
O telemóvel caiu da minha mão, o som abafado pelo cobertor do hospital.
O meu bebé. A minha mãe.
Tudo perdido numa noite.
E o meu marido, o homem que jurou proteger-me, estava a cuidar de um tornozelo torcido.
O funeral da minha mãe foi num dia cinzento e chuvoso, que combinava perfeitamente com o meu estado de espírito.
Mateo estava ao meu lado, a desempenhar o papel do genro de luto na perfeição. Ele segurava a minha mão, mas o seu toque era frio, vazio.
Sofia estava do outro lado, a chorar dramaticamente no ombro dele. O seu tornozelo estava envolto numa ligadura impecável, e ela mancava ligeiramente, garantindo que todos notassem o seu "sofrimento".
"Oh, Eva, eu sinto muito," ela soluçou, os seus olhos a encontrarem os meus por cima do ombro do Mateo. "Se eu soubesse... eu teria insistido para que o Mateo fosse ter contigo."
Ela era uma atriz brilhante.
Eu não disse nada. A minha dor era uma armadura pesada que me impedia de falar, de sentir qualquer coisa para além de uma raiva fria e profunda.
Depois do funeral, voltámos para o apartamento silencioso. O cheiro a fumaça ainda pairava no ar, um lembrete constante daquela noite.
"Eva, precisamos de conversar," disse Mateo, finalmente largando a minha mão. "Isto tem de parar. Esta tua atitude silenciosa está a assustar-me."
"O que queres que eu diga, Mateo?" perguntei, a minha voz monótona.
"Quero que pares de me culpar! Foi uma tragédia. Aconteceu. Não podemos mudar o passado. Temos de seguir em frente, juntos."
"Juntos?" repeti a palavra, que soava estranha e falsa. "Não houve 'juntos' naquela noite, Mateo. Havia eu e a minha mãe, e havia tu e a Sofia."
O seu rosto endureceu. "Não sejas injusta. A Sofia é a tua irmã. Ela estava magoada."
"Ela torceu o tornozelo," eu disse, a minha voz a subir ligeiramente. "A minha mãe morreu."
"Não compares as duas coisas!" ele explodiu. "Achavas que eu era um super-herói? Que podia estar em dois lugares ao mesmo tempo? Eu fiz uma escolha. Tive de ajudar quem precisava mais de mim naquele momento!"
As suas palavras ecoaram na minha cabeça. Quem precisava mais de mim naquele momento.
Na sua mente, a sua cunhada com um tornozelo torcido precisava mais dele do que a sua esposa grávida de nove meses e a sua sogra com problemas cardíacos, presas num incêndio.
A lógica era tão distorcida que quase me fez rir.
"Eu quero o divórcio, Mateo," eu disse calmamente. "Desta vez é a sério. Não há nada para discutir."
Ele olhou para mim, os seus olhos escuros cheios de uma raiva fria.
"Tu não me vais deixar, Eva. Depois de tudo o que passámos. Tu amas-me."
"Eu amava uma versão de ti que não existia," corrigi. "O homem que eu amava nunca teria deixado a sua família para morrer."
Virei-lhe as costas e fui para o quarto. Comecei a arrumar as minhas coisas numa mala, os meus movimentos mecânicos e deliberados.
Cada peça de roupa, cada objeto, era uma memória de uma vida que agora parecia uma mentira.
Ele seguiu-me, a sua presença a encher o pequeno espaço.
"O que estás a fazer? Pára com isto!"
"Estou a ir embora," eu disse, sem olhar para ele. "Vou ficar num hotel até os advogados resolverem tudo."
Ele agarrou o meu braço, a sua força a surpreender-me.
"Tu não vais a lado nenhum. Tu és minha esposa."
"Larga-me, Mateo."
"Não até parares com esta loucura."
Nesse momento, o seu telemóvel tocou. Ele olhou para o ecrã e a sua expressão suavizou instantaneamente. Era a Sofia.
Ele largou o meu braço e atendeu.
"Sofia? O que se passa, querida? Estás bem?"
A sua voz era pura preocupação e ternura. Uma voz que ele não usava comigo há anos.
Saí do quarto, deixando-o a consolar a minha irmã.
Na sala, peguei na minha mala. Antes de sair, os meus olhos pousaram num porta-retratos na prateleira. Era uma foto do nosso casamento. Nós parecíamos tão felizes, tão cheios de esperança.
Peguei na fotografia, olhei para ela uma última vez, e depois deixei-a cair no chão. O vidro partiu-se, estilhaçando a imagem perfeita.
Era um final adequado.