Estacionei meu carro em frente ao maior hotel da nossa franquia até o momento. Peguei minha bolsa e casaco já incomodada com esse tempo maluco daqui. Meia hora atrás estava correndo para o ar-condicionado do meu carro, e em menos de dez minutos o tempo escureceu, com uma leve garoa.
- Daphne, é urgente! Eu preciso que você me ligue assim que ouvir essa mensagem. - dizia uma das vinte mensagens deixadas pela Julia na minha caixa postal. Sua voz antes preocupada, agora continha uma nota subjacente de raiva, provavelmente pelas ligações perdidas.
- Encontra-se desligado ou fora da área de cobertura. - ri quando ela imitou a voz eletronica com impaciencia. - Quando pisar os pés na Flórida, e retirar seu celular do modo avião, me liga. Pelo amor que você tem àquele hotel!
Relaxei, pois nada poderia ser tão urgente relacionado ao meu hotel, que eu não pudesse resolver. Tinha tudo sob controle, até as possíveis urgências que poderiam surgir. Portanto joguei meu celular quase descarregado novamente para dentro da bolsa e desci, entregando a chave para o manobrista.
Me direcionei até a recepção em passos largos e postura ereta, me ensinaram que uma mulher bem sucedida faz mais barulho do que um Louboutin no assoalho.
Assim que uma das recepcionistas me viu, limpou sua garganta e se preparou para falar, evidenciando seu nervosismo por me atender.
- Senhorita Vittale, o Sr. Marcos já aguarda no restaurante. - anunciou a moça, antes mesmo de perguntar.
- Ok - falei apenas, encarando o quadro horroroso na parede atrás dela. - Margot.
- Pois não. - se prontificou.
- Eu vou entrar para conversar com o meu pai, e quando eu voltar, - subi o óculos escuro até o alto da minha cabeça enquanto falava. - não quero ver mais esse projeto de porta do inferno atrás de você!
- Creio em Deus pai dona Daphne. - murmurou, fazendo o sinal da cruz. - Vou pedir para tirar, mas vamos precisar de uns cinco homens.
- Estamos com problemas no quadro de funcionários por acaso?
- Não senhora! - respondeu atônita.
- Então chame quantos forem necessário! - concluí, arqueando uma sobrancelha.
- Sim senhora! - assentiu prontamente. Margot ainda arriscou olhar para o quadro.
Caminhei até o restaurante do hotel, e o vi sentado em sua mesa de sempre, dando um gole em seu expresso, como de costume.
Me aproximei da sua mesa, ciente de que estava chamando atenção. Hospedes e funcionários, estes sempre corrigindo sua postura profissional. - Digamos que minha intolerância é bem conhecida por aqui.
- Daphne! - abriu um sorriso assim que notou minha presença.
- Bom dia pai. - deixei um beijo na sua bochecha e me sentei de frente para ele, pegando um morango do prato de frutas intocado. Pelas migalhas e restos de chocolate no prato vazio, suponho que ele tenha acabado de devorar uma duzia de bombas recheadas, suas preferidas.
Marcos não se parece exatamente com um pai convencional. Ostenta seus cinquenta e três anos com um porte atlético e saudável de alguém adepto a esportes radicais, que dão inveja a muitos novinhos. Pena eu tenho é da minha mãe, que sofre com o assédio feminino, embora ela pague na mesma moeda ao aparecer em qualquer local.
Juntos, eles formam o que eu chamo de casal implacável. É o que acontece quando dois magnatas se casam.
- Como foi de viagem? - perguntou. - Por que não ligou quando chegou?
Completamente coruja e autoritário, ele geralmente se esquece de que também é meu chefe, portanto minha viagem não era um assunto para se abordar em um café da manhã entre pai e filha, já que ela é de cunho profissional.
- Cheguei de madrugada, não queria te acordar. Tinha deixado o carro no estacionamento do aeroporto. Quanto a viagem, o de sempre, cansativo. - respondo sem muita emoção.
- Não me conformo com esse tom entediado na sua voz, estava na esquina da pastelaria ou na Times Square? - perguntou, parando tudo o que estava fazendo.
- Fui à trabalho, não à passeio. Quer me ver voltar feliz de uma viagem? É só me mandar de férias para Santorini.
- E você faz outra coisa a não ser trabalhar? Como pode falar de férias, se desde que voltou de lá nunca mais ao menos folgou? - suspirei entediada.
- Pensei que estivesse satisfeito.
- Não disse que não estava. Pelo contrário, como seu chefe, sou o mais orgulhoso e sortudo por ter uma funcionária como você, mas como pai eu me preocupo. Você é jovem, se eu ainda tivesse sua idade, arrastava sua mãe para alguma boate em Las Vegas.
- Voltaram de lá tem dois meses! - arqueei uma sobrancelha simulada.
- Tudo isso já? Santo Deus. - sorri preguiçosamente, passando meu olhar brevemente pelo restaurante.
- Não se preocupe comigo, gosto de como as coisas estão. - nada era mais importante do que meu sonho se realizando nesse momento.
- Chega de falar nisso. É tão teimosa quanto a mãe! - grunhiu exausto. Ele sabe que essas conversas sobre minha vida pessoal não vão à lugar algum.
- Sabe que isso soa como um elogio. Mas, você disse que queria conversar comigo urgentemente, algum problema enquanto estive fora? - ele deixou a xícara na mesa e respirou fundo.
Problema!
- Não sei como te dizer isso, e nada que eu fale ira amenizar, portanto vou ser bem direto. Perdemos mais um Hotel! - despejou, ativando seu modo magnata.
- O quê?
- Não queria te preocupar logo cedo, mas a verdade seja dita, aqueles sangues sugas mandam bem. - ele odiava admitir isso, mas eu estava preocupada demais tentando lembrar de qual projeto meu pai estava falando.
- Não entendo, pai, você estava interessado em algum empreendimento e não me avisou?
Esboçou estar ainda mais apreensivo.
- Filha, seu hotel, eles compraram o projeto daquele hotel que você estava interessada. - disse de uma vez. Na mesma hora eu me tranquilizei.
É uma longa história.
- Não. - sorri despreocupada. - Pai impossível, aquele hotel ja é nosso.
É claro que eu não poderia explicar a ele ainda. Na verdade, parte da negociação meu pai nunca nem poderá sonhar como aconteceu. Para todos os efeitos, o hotel é meu.
- Eles têm lábia minha filha.
- Uma ova! - zombei. - É o terceiro esse ano e podem haver quatro, cinco, quanto mais quiserem, mas o meu hotel, é impossível. Essa possibilidade nem existe mais. - ele começou a se alterar com minha tranquilidade, como se eu não compreendesse a gravidade da situação. Como meu pai não sabe de nada, considerei que era cabível uma preocupação maior da minha parte, pelo menos para ele não desconfiar. - Acabei de finalizar a compra pai, o projeto é meu! Fora que eu mesma cuidei da finalização, eu não estaria tão confiante se não soubesse que está tudo sob controle.
- Daphne! - me repreendeu, dizendo com o olhar que o pior aconteceu. Só então comecei a realmente me preocupar, pelo simples fato dele estar se referindo aos sangues sugas dos Benevides. - Já disse, eles foram melhores na proposta.
- Que mané proposta pelo amor de Deus!? Simplesmente não existe essa possibilidade! - eu estava ficando realmente nervosa.
- Não só existe, como já aconteceu, a construtora entrou em contato com nosso pessoal há pouco. - agora tudo não passava de confusão na minha cabeça, já que o que ele falava, não fazia sentido algum.
Há sete anos atrás meu pai me ofereceu uma faculdade no exterior, e tomada pela minha paixão, escolhi estudar na Grécia. Me formei em arquitetura, mas no que realmente me descobri, foi óbvio demais até mesmo para a filha do Marcos Vitalle. Administração em Hotelaria, alguns cursos técnicos foram suficientes para minha formação, e eu tive a oportunidade de exercer minhas duas profissões.
Acontece que meu pai não colocou credibilidade nos meus planos, dizia que eu era nova demais para investir tanto em um projeto como aquele. Que era empolgação de recém formada. Exigiu primeiramente uma experiência, desde então trabalhei somente na parte corporativa, sem vinculo direto com seus empreendimentos.
Como ele queria!
Apenas recentemente, aceitou "estudar" meu projeto, mas tem uma coisa que poucos sabem sobre mim: eu não dou ponto sem nó!
Sem meu pai saber, eu abri minha própria construtora em sociedade com um grande amigo meu, Bento, parceiro da Universidade.
Quando encontrei o local perfeito, derrubei tudo o que tinha nele e entrei em parceria com uma corretora renomada em Nova York, e assim fizemos todos os tramites. Como uma das principais arquitetas da corporação, eu atuo nas pesquisas de campo e, hoje, aprovo os projetos para novos investimentos e empreendimentos. Recetemente, meu pai aceitou entregar um de seus hotéis para que eu pudesse administrar, e como eu havia planejado, aprovei a compra do meu próprio hotel.
Eu era a construtora por trás da obra bilionária, e a compradora. A que financiou e a que desembolsou muita, mas muita grana, pois eu precisava de mão de obra, intermediador, e uma corporação de alto padrão para colocar seu nome lá.
Agora me expliquem, como que alguém que não fosse eu ou eu mesma, ligaria para os funcionários do meu pai, que foram designados a mim, desistindo da venda?
Só resta uma opção, a corretora!
- Você não vai fazer nada?
- O que quer que eu faça Daphne? Brigue por um projeto com eles? - desdenhou. - Deixem que façam bom proveito. Econômicamente eu saio ganhando, afinal o mercado nem está propício para novos investimentos. Isso significa uma queda nas ações deles muito em breve, logo, as nossas decolam! - não podia acreditar que ele ainda estava feliz por ter "dado errado". - Preciso ir, vai visitar sua mãe, Eva já estava aflita sem notícias suas. - diz se levantando.
Ele com certeza não tem ideia da importância que isso tem para mim.
Como poderia?
Ele me observou durante alguns segundos, suspirou e beijou o topo da minha cabeça, saindo logo em seguida.
Sai do restaurante ainda atordoada, passando e repassando mentalmente todas as minhas decisões tão precisas e seguras.
Eu não podia ter errado. Me negava acreditar que essa falha era realmente minha. Deve ter alguma explicação.
Ao passar pela recepção, quatro homens ainda olhavam para o quadro gigantesco da parede. Provavelmente buscando uma forma de tirar da maneira mais fácil.
- Será que eu é quem vou ter que tirar essa porcaria daí? - praticamente gritei, fazendo eu mesma meu check in em um dos quartos.
- Desculpe dona Daphne, só estamos discutindo a melhor logística. - respondeu um deles.
- Melhor logística? - repeti indignada. Meu humor definitivamente não era dos melhores. - Eu vou te dizer qual é a melhor logística! Dois de vocês irem para o almoxarifado agora buscar duas empilhadeiras hidráulicas enquanto os outros dois fazem a proteção do porcelanato. Dane-se o quadro, a moldura e tudo de mais brega que tem nessa parede, usem as garras de pressão e sincronizem uma única puxada, uma vez no chão, dois de vocês seriam suficientes para carregar até o depósito. Está bom pra você ou é necessário mais algumas horas de planejamento?
Despejei cada vez mais impaciente, e sem esperar uma resposta, subi para o quarto. Deixando bem claro para qualquer um que eu não estava no meu melhor dia.
Eu já tinha todo o projeto em mãos, trabalhei durante meses na negociação da área. Ali não era perfeito, não era favorável e estava longe do foco de qualquer investidor, mas eu tive visão, e hoje está exatamente como eu sempre sonhei. Eu acompanhei tudo! Dois anos de estudo e trabalho, visitando a obra todos os dias, eu vi aquilo nascer, cada viga e bloco.
São dois anos da minha vida em total dedicação, personificando a paixão de uma vida inteira.
Está na reta final. Financiei o acabamento por conta da VBlanco, fora a verba que eu já tinha designado a isso, para sair tudo perfeito, adiantei 50% do valor acordado com a corretora, e fui para Nova York finalizar os detalhes pessoalmente, diretamente com o dono, que me garantiu satisfação no desenrolar de toda burocracia.
Quanto aos Benevides, são uma rede de hotelaria e investimentos que não se cansam dessa competição ridícula. Difícil mesmo é admitir que meu pai tem grande culpa nisso, mas eu não!
Por algum motivo, no último semestre eles estão investindo com força total, cobrindo todas as negociações. Eu estava ficando pocessa, pois como arquiteta, eu sou a responsável pelos novos investimentos. Isso estava me esgotando, eram meses de pesquisa de campo jogadas no lixo. Me sentia usada. Eles usavam a porra do meu trabalho e depois simplesmente cobriam a oferta.
Acontece que, em nenhum deles houve uma perca emocional.
Mas o meu hotel não!
O Olimpo já é meu, sendo assim, é impossível negociar outra venda. É claro que meu pai nem sonha que foi dado algum dinheiro na obra, para ele estávamos apenas em fase de negociação, mas em minha defesa, eu tinha tudo sob controle.
Basicamente, eu dividi esse projeto em três pilares. Três pessoas de altíssima confiança que me ajudaram a tirar esse sonho do papel, inclusive com o levantamento e fragmentação de ações, que patrocinaram toda a obra, além de outras fontes pessoais, que eu apliquei sem dó nem piedade.
Foi tudo minuciosamente pensado, sem chance de dar errado.
E como se o Bento houvesse lido meus pensamentos, seu nome apareceu no visor do meu celular que vibrava nas minhas mãos tremulas, enquanto eu andava de um lado para o outro.
- Pronto! - atendi, tentando respirar mais tranquilamente. Essa era a ligação que eu estava aguardando desde que embarquei no avião de volta para casa. Onde ele iria finalmente dizer, que estava tudo certo. Que havia sido tudo exatamente como planejamos. Mas, a sua demora em me responder, foi capaz de inoperar imediatamente meus pulmões, como se eu tivesse simplesmente esquecido como respirar.
- Daphne... alguma coisa deu errado. Você precisa voltar para Nova York agora mesmo.
- Bento... - rosnei de olhos fechados, em busca de controle. - Eu espero muito, muito mesmo, que eu seja a responsável por isso. Porque eu sou capaz de matar, quem quer que esteja tentando passar a perna em mim!
- Não sei dizer ainda o que está acontecendo. A transação foi feita, mas, o contrato foi assinado por um representante da Benevides. Como isso é possível?
- Eu vou pegar o primeiro vôo de volta, me envie tudo o que você tiver, e prepare o terreno, porque quando eu pisar os pés ai... - fechei os punhos, imaginando ter o pescoço de um dos Benevides entre os dedos. - vai dar pra ouvir meus passos até do inferno!
- Consegui reservar o jatinho da VBlanco. O lado bom é que você vai chegar lá mais cedo, e o lado ruim é que seu pai vai descobrir mais rápido. - comunicou Júlia do outro lado da linha.
- Com o lado ruim eu me viro depois. O importante agora é chegar lá o mais rápido possível. - respondi fechando minha mala com uma só.
- Tudo bem. Como sempre é você quem sabe, mas já adianto que ele vai ficar furioso. Tem uma reunião na sua agenda para depois de amanhã, parece que é importante, espero que tenha um bom motivo para eu segurar sua bronca dessa vez.
- E você sabe do que se trata?
- Não, mas pelo o que a secretária dele disse, já tem presença confirmada de um representante da Benevides, parece que vem bomba por aí. - ótimo, as coisas estavam cada vez mais estranhas.
- Bomba vai ter se eu estiver presente nessa reunião. Você não tem ideia das coisas absurdas e terroristas que já passaram pela minha cabeça. - me exaltei mais uma vez. - Júlia, sabe que eu nunca me meti nessa briga, mas mexeram com a pessoa errada. Dane-se o que meu pai acha, eu vou massacrar está entendo? Acabou a palhaçada!
- Res-pira! Perder o controle agora não é a melhor opção. - ri amargamente. Júlia não é nem um pouco racional, surtar geralmente é algo que ela faria nessa situação, todavia, ela também era meu ponto neutro na maioria das vezes, a serenidade e sensatez que uma turbulência exige.
- Não estou perdendo o controle, muito pelo contrário, agora eu é que estarei no controle. Anote aí, acabou a concorrência, eles vão cair! - declarei, categórica e eloquente.
- É, eu não vou nem tentar dialogar, boa viagem!
- Eu terei!
Desliguei já colocando minha mala no carro, que por sinal, era minha paixão, não a Land Rover em si, mas carros em geral. O Evoque preto blindado é um dos meus bebês favoritos que apelidei de Kratos, - Mania de colocar nomes em carros que herdei da minha mãe. - a personificação do poder, o herói espartano que vingou sua família de Ares. Após mata-lo, ele se tornou o novo Deus da Guerra no Monte Olimpo.
Qualquer semelhança é mera coincidência.
Minha escolha foi pragmática, por motivos de discrição e praticidade, já que ele estava na vaga mais próxima.
A favorita entre eles era Penélope, a "fêmea" da minha coleção. A Lamborghini Aventador dourada, usada apenas em ocasiões especiais ou quando quero atravessar a cidade em vinte minutos.
Horas depois estava desembarcando em Nova York, uma hora e meia antes do previsto. Fui direto para o hotel, cheguei exausta constatando que esse foi definitivamente, o pior e mais longo dia da minha vida!
Estava no meu pior humor possível e só desejava uma cama confortável para uma boa noite de sono, e sendo praticamente a dona do hotel que estava hospedada, sabia que esse seria o menor dos problemas, pois muito em breve eu terei.
- Rachel. - chamei a atenção de uma das recepcionistas, lendo seu nome no uniforme, ela se assustou ao notar de quem se tratava.
- Senhorita Vittale, como foi de viagem? - se prontificou, digitando algo no computador. Retornei minha atenção para o celular enquanto falava.
- Pior impossível! Libere meu quarto e mande algo leve para comer. Sem glúten, sódio e sem carboidrato, de preferência orgânico, com suco natural. - invés de fazer o que falei, ela ficou me encarando, então devolvi o olhar. - Algum problema?
- É que a senhorita chegou uma hora antes, ainda estamos preparando o seu quarto. - respondeu receosa.
- Então arrumem outro! Isso não é uma pousada, é um hotel. - pontuei.
- Estamos com todos os quartos ocupados, o seu acabou de ser liberado, mas em meia hora no máximo poderemos fazer o check-in. - bufei exausta. - Enquanto isso não gostaria de fazer sua refeição no restaurante?
- E eu tenho outra opção? - ela respirou fundo para manter sua postura. Eu disse que não estava de bom humor!
- Desculpe, foi só uma sugestão.
- Seu trabalho é calcular uma margem de erro de no mínimo uma hora para mais e para menos, para garantir, que nenhum hóspede chegue tão cansado quanto eu e tenha que ficar aguardando. Mas, se você tiver mais sugestões, coloca na caixinha, alguém também é pago só para lê-las! - puxei um formulário de sugestões e observações, junto com uma caneta e coloquei encima do balcão.
- Desculpe. - pediu, assentindo com uma postura ainda mais profissional do que quando eu cheguei.
- Chame alguém para guardar minha mala. - deixei o local impaciente. Jantei enquanto analisava tudo o que o Bento me enviou.
Deixei bem claro a todos que não era o meu melhor dia, sinceramente não devia bons modos a ninguém, apenas o salário do mês, e este posso garantir que está em dia.
Estava me levantando quando o garçom se esbarrou em mim e levou ao ar sua bandeja com tudo o que tinha de mais melequento, uma mistura de sopa, salada e líquidos caíram sobre mim.
Meu dia não poderia ficar pior.
Respirei profundamente tentando não surtar de vez.
- Você é cego? - perguntei entre os dentes. Essa era a única maneira de manter meu tom de voz baixo nesse momento. O garoto por outro lado, estava tão verde quando a sopa que caiu em mim.
- Desculpe senhora, pelo amor de Deus me desculpe, a senhora levantou e... e... e eu não estava preparado...
- Está dizendo que a culpa é minha?
- Não, com certeza a culpa é minha.
- Sorte sua que eu não sou uma hóspede. - falei em um tom fingido de paz, ele pareceu se acalmar. - E sorte a minha que sou a filha do dono.
- Oh meu Deus. - ele sorriu aliviado.
Procurei com o olhar alguém responsável por perto, ao lado do hall principal encontrei o gerente.
- Demita o garoto. - ordenei enquanto passava por ele. Voltei para a recepção recebendo olhares e isso não melhorou minha situação. - Minha mala? - assustei a tal Rachel mais uma vez.
- Já foi para o seu quarto senhorita, em vinte minutos ele estará pronto.
- Vinte minutos a mais do prometido você quer dizer. - corrigi. - Preciso de uma roupa, urgente.
- Só... - ela arregalou os olhos, só agora notando meu estado. - só temos uniformes. - arqueei uma sobrancelha, duvidando daquela informação.
- Que seja, estou fedendo a cebola! - grunhi, ainda mais irritada. Ela me acompanhou até o vestiário feminino, onde me entregou uma muda de roupa dobrada, ao abrir constatei que era um uniforme de camareira. Vesti e sai escondida. Ignorando a expressão satisfatória que Rachel sustentava.
Decidi que iria esperar no próprio corredor do meu quarto, o último andar daquele prédio.
Estava saindo do elevador quando um hóspede me chamou.
- Ei, você! - procurei com o olhar e encontrei um homem parado em frente a uma porta semiaberta. Ele me encarava, mas mesmo assim olhei para trás, procurando quem ele chamava com tanta autoridade.
- Eu? - apontei para mim.
- Está vendo mais alguém aqui? Eu chamei tem quatorze minutos! - meu cérebro deu pani e por muito pouco eu não ri.
- Está falando comigo? - a expressão que ele fez, confesso que me deu um friozinho na barriga, principalmente pelo seu tamanho e aparência intimidadora.
- Só tem você aqui, ou eu por acaso tenho cara de doido para conversar sozinho? - permaneci estarrecida. - Eu não tenho a noite toda mocinha. - ralhou, pegando-me de surpresa. Ele deu espaço para eu entrar e então caiu minha ficha. Olhei para baixo e revirei os olhos com o uniforme.
- Você está me confundindo. - usei meu tom mais pacifico, pelo único motivo dele se tratar de um hóspede. Minha paciência estava por um fio. Eu só queria chegar no meu quarto e dar esse dia por encerrado.
Esse parecia um daqueles pesadelos em que tentamos correr, mas não conseguimos sair do lugar.
- Santo Deus menina, vai deixa-lo esperando até quando? - uma outra camareira surgiu, empurrando o carrinho de limpeza para dentro do quarto me puxando pela mão.
Eu mal tive tempo de protestar, sua mão gelada e ainda úmida agarraram meu pulso com firmeza, mas isso não me impediu de notar uma risadinha de canto que o rapaz me lançou ao me ver passar por ele.
- Tire a mesa do café da manhã, preciso desse quarto organizado em meia hora. - comunicou, ainda sorrindo de canto.
- Eu não vou limpar nada, vocês não sabem quem eu sou não? - a mocinha me encarou estupefata, já ele arqueou uma sobrancelha desdenhando.
- Mil perdões, ela deve ser a novata. - pediu ela com pesar, ele por sua vez não deixava a expressão presunçosa, e diria até que divertida ceder. - A bruxa está a solta menina, fica zanzando por aí sem fazer nada que a próxima no olho da rua é você!
- Bruxa? - repeti boquiaberta. O hóspede riu baixinho. Ela não me olhava, estava apressada demais recolhendo as louças de porcelana sob a mesa, até que seu bip apitou no bolso.
- Finaliza aqui pra mim, vou correr para ajudar a outra menina no quarto do Dragão. - em disparada, ela agarrou seu carrinho e saiu do quarto, voltando apenas para deixar um bombom na cama.
Eu não conseguia descrever meu estado agora. Meus pés estavam pregados no chão, minha expressão espantada, mas eu me via sem reação. O que me puxou de volta para a realidade fora a risada que novamente o homem soltou.
Era nítido, ele sabe quem eu sou.
Inflei o peito, cruzei os braços, e endureci meu semblante. Esperando que ele parasse de rir.
Eu não estava surpresa, lidava com isso o tempo todo. Estar à frente de uma obra sozinha, me custou muita frieza, posso dizer que estou calejada.
- Vai demitir ela também? - perguntou irônico, cruzando os braços. A julgar pelo bronzeado, bermuda branca, camiseta polo e mocassim social, pude concluir que era um desocupado, que torra todo seu dinheiro com hotéis e viagens, e seu precioso tempo em academias, tendo seu único compromisso o post de "o de hoje está pago" do dia.
- Não é da sua conta! - grunhi, me preparando para sair dali.
- Vê se aprende a falar com seus funcionários, senhorita mimada Blanco. - sua expressão mudou dramaticamente.
Revirei os olhos mais uma vez, pensando seriamente em me olhar no espelho. Só podia estar escrito na minha testa: Estou com tempo sobrando, testem minha paciência!
- Você não me conhece! - bufei, colecionando mais uma para fechar esse dia com chave de ouro.
- E nem quero conhecer, o pouco que vi me deu náuseas. O que você faz é assédio profissional, abuso de autoridade e um excesso de papai me deu tudo isso! - eu forcei meus pés a saírem dali, mesmo querendo quebrar a fuça do crossfiteiro.
- Fica aí achando que estou comovida. Você é o quê, defensor dos subordinados? - verdade seja dita, eu estava sem psicológico nenhum, só me restava sair com o clássico deboche. - O dia que "você" quiser pagar o salário de todos eles, pode até opinar no jeito que trato meus funcionários. Para isso tem que ter muita bala na agulha. - bati a porta do quarto com força, sequer olhei sua expressão final.
O dia que eu não conseguir rebater uma indireta, direta, provocação ou cinismo, me enterra, mas hoje realmente eu estou com minha cabeça em outro lugar, problemas incalculávelmente maiores.
Ao entrar no meu quarto, em frente ao dele, peguei a primeira coisa que encontrei e lancei contra a parede em um momento de descontrole. Não acreditava que aquele dia pudesse ser real.
Também foi uma das piores noites da minha vida, mesmo exausta, não preguei o olho. Passei a madrugada inteira lendo, estudando e investigando todos os meus passos até aqui. Ainda bem cedo, pedi um café no quarto, e enquanto tomava, liguei para Júlia pelo telefone do Hotel, com tudo o que precisava de cabeça.
Primeiro pedi à ela que entre em contato com os advogados da empresa para marcar uma reunião ainda hoje com o representante daqui, depois pedi uma reunião com a corretora para o final da tarde ou amanhã cedo, no máximo.
Júlia atualmente trabalha como meu braço direito, assistenciando tudo o que meu tempo não permite, é minha melhor amiga, e um dos três pilares que mencionei. Atua comigo no tempo livre, enquanto advoga na vara criminal. Um doce de pessoa, um demônio nos tribunais.
Além dos meus pais, ela é a única que não tem medo de me falar a verdade sempre, e em qualquer circunstância. Moramos juntas desde o falecimento da sua mãe, quando ainda tinha quatorze anos, meu pai também bancou seus estudos, nos formamos juntas, trabalhamos juntas, e moramos juntas. E hoje ela já cursa seu doutorado, é meu maior orgulho!
Ela é completamente diferente de mim, e ainda me pergunto como nos damos tão bem. Ela é meiga, delicada, centrada, romântica incurável, ótima conselheira, mas não consegue se resolver emocionalmente.
Completamente apaixonada pelo Bento, eles namoraram o período do curso inteiro, mas então tivemos que voltar e ela não abriu mão da sua vida aqui, assim como ele se recusa a sair de Santorini, acharam melhor terminar e eu apoiei essa decisão, eles eram novos demais para mudar de vida.
Cheguei no hotel exausto pelo dia intenso de reuniões e negociações, mas nada tiraria minha satisfação e bom humor de hoje. Foi melhor do que eu imaginava.
Pedro me aguardava no restaurante do hotel, e esse encontro não requisitava terno e gravata. Passei na recepção antes para acertar os débitos da noite passada, estava esperando pela chave extra do quarto quando vi uma loira tão linda, que não duvidaria se me dissessem que eu estava vendo uma miragem por conta do cansaço. Cogitei até estar dormindo em pé.
Ao estilo intocável.
Sexy, elegantemente impossível, mas infelizmente, um dragão diabólico com asas de anjo. A personificação do pecado!
Destratou a funcionária que pouco tinha a ver com seu maldito humor. A paciência que ela teve ao lidar com a situação foi admirável, por pouco não a coloquei no lugar eu mesmo.
- Aqui está senhor... - a recepcionista desviou minha atenção daquela cena. Ela estava com os olhos arregalados, provavelmente lendo meu sobrenome na tela do computador.
- Segredo nosso? - pisquei, sorrindo na maior cara de pau. Ela assentiu cúmplice. - Tenha uma boa noite então! - abri um sorriso ainda maior e fui ao encontro do Pedro.
- Você ficou maluco? - ralhou, assim que me sentei sorrateiro de frente para ele.
Sua reação? Bom, talvez o fato de logo eu estar hospedado no hotel da concorrência explica isso.
- Estou financiando minhas sinceras desculpas, conseguimos o empreendimento, nada como uma hospedagem bem avaliada para amenizar os nervos. - ele riu desacreditado. Realmente era muito cinismo da minha parte.
- Você é um trambiqueiro debochado isso sim! Se prepare para a bomba, não foi fácil encontrar a corretora, tampouco finalizar a compra. Quando a mídia souber, vão cair matando, aí vai ser tiro porrada e bomba com a VBlanco. - ele para de falar quando nosso jantar chega.
Pedi que ele fosse fazendo o pedido quando já estava chegando. No meio tempo observei a expressão de cansaço do Pedro, embora sua pose de imbatível ainda dê para assustar alguns. Nossos dias foram extremamente corridos.
Eu estava de olho no empreendimento que estava sendo construído no melhor ponto da costa de Miami há um bom tempo. Desde então procurei mais informações sobre ele, apenas especulações, mas nada era encontrado. Conforme o prédio foi tomando forma e expandindo pelos quarteirões, eu tive a absoluta certeza de que era uma grande empresa do ramo ou um nome muito forte estava chegando. A partir daí, coloquei o Pedro para começar uma investigação, ele dizia que só podia ser lavagem de dinheiro pois nada era encontrado, nenhum nome era associado a obra, mas se ela estava acontecendo, alguma empreiteira era responsável.
Há seis meses atrás todo o prédio foi coberto por redes quilométricas de proteção, suspensas por guindastes estrategicamente posicionados em volta da fachada. Sobrevoei de helicóptero inúmeras vezes, mas nada além do que eu já tinha visto era visível, um mistério total! Mas, como eu previa, meu amigo é ótimo no que faz e descobriu com base nas últimas construtoras e empreiteiras registradas e legalizadas pelo estado no mesmo período em que a obra começou. Só não foi mais difícil, porque ele foi na mais óbvia, a única sem nenhum histórico de registro.
Foi então que supomos ser uma empresa laranja, fantasma não, pois havia uma construção, mas se realmente fosse isso, seria perfeito, pois em breve colocariam à venda e eu queria ser um dos primeiros nomes na fila.
Como sempre, os Vittale Blanco já estavam em negociação com a única corretora intermediadora em Nova York, e para conseguir, tive que investir pesado na quebra de contratos com outras corretoras, para ganhar uns pontos extras com o Luigi.
Basicamente, eu cobri todas as últimas três ofertas em três empreendimentos diferentes, todos imóveis que estavam com ele e seus concorrentes ao mesmo tempo, sendo assim, ele deu a preferência da transação para mim, e nessa brincadeirinha eu consegui! Hoje assinei as últimas papeladas e agora o resto da burocracia será em Miami.
- E sabe o que isso significa? Patrocinadores! - ele assentiu, com o garfo apontado para mim.
- Isso sim, espere até divulgar. Lembrando que a obra está na reta final. Você precisa se preocupar apenas com a decoração, funcionários, repartições e inauguração!
- Sim, tenho uma lista de design de interiores que irão cuidar disso, os funcionários virão da mesma empresa que terceirizamos sempre. O projeto que ele nos apresentou tinha um escritório na cobertura, com integração no andar inferior, ainda preciso pensar se é viável, embora tenha elevadores exclusivos para esse setor, é algo de se pensar. - eu não conseguia esconder minha empolgação. - A inauguração sem dúvidas ficará por conta da Callegari's, é um pouco acima do orçamento de qualquer empresa, mas todas que presam por qualidade e excelência a contratam, as melhores inaugurações foram eles que fizeram e ainda não pensei sobre, mas vai ter que ser algo grande e inovador!
- Nada difícil, já que estamos falando da Isabela. - eu já tinha percebido há muito tempo seus constantes elogios a ela, mas agora, além disso, seus olhos também brilham.
Isabela é a CEO da Callegari's, foi inúmeras vezes capa da Forbes e seu trabalho é mundialmente reconhecido.
- Claro, aquela mulher é realmente muito boa no que faz.
- Pode apostar que sim. - ele falava enquanto bebericava seu vinho.
- Pedro Ferrara, o único bastardo solteiro que age como se estivesse em um relacionamento. Ela pelo menos sabe que você rejeita milhares de mulheres por causa dela? - rimos mais uma vez de boca cheia, meu amigo às vezes foca demais em trabalho e se esquece de viver, se não fosse eu na vida dele, nem sei se já teria perdido a virgindade.
Desde o ensino médio eu sempre fui mais ligeiro e desimpedido, Pedro por ter levado uma vida mais humilde, tinha na cabeça que não podia perder a bolsa da escola em que estudávamos, tanto que sua dedicação o proporcionou uma bolsa em uma das melhores universidades do mundo.
E hoje, antes dos trinta, é um dos advogados mais procurados do país por sua excelência no mundo corporativo. Meu amigo já deixou muito advogado criado e renomado no chinelo! Não tente debater com ele se não tiver bons argumentos, ele te devora em poucos minutos, tem a capacidade de te fazer sentir culpado por qualquer crime se quiser.
- Eu não rejeito mulheres por causa dela! Tenho minha vida pessoal seu bastardo. A diferença é que não a tenho exposta em todos os sites de fofoca como você. E a Isabela é diferente!
- Deve ser mesmo, pra você ter que passar tanto tempo se dedicando em... seja lá no que ela precisa tanto de um advogado.
- É confidencial. Sabe que minha lealdade profissional está acima de qualquer coisa... puta merda! - ele arfou assustado, e seu olhar foi para um conflito que se formou a alguns metros da gente. O pobre de um garçom deixou uma bandeja recheada de coisas cair bem encima da loira. A mesma grossa da recepção, isso só me fez rir. O universo tratou de revidar bem rapidinho. Pena eu tenho é do garoto, que ficou apavorado.
Ela veio em direção a nossa mesa, que ficava logo no inicio do restaurante, e passou com uma carranca demoníaca. Se tivesse alguém no seu caminho, ela teria passado por cima.
- Se ela está aqui significa que... - Pedro ficou pensativo e eu o fitei completamente alheio.
- Significa o quê? Quem é ela? - perguntei desinteressado.
- Daphne! - falou como se eu realmente precisasse saber. - Filha do Marcos Vittale, como você não sabe quem é? Se ela está aqui significa que a bomba já estourou, ou está prestes a estourar. - agora era ele quem estava apavorado. - Eu avisei que ia dar merda, se prepare!
Levantei as sobrancelhas levemente surpreso.
- Isso explica tanta arrogância. - travei a mandíbula, aflorando aos poucos todo sentimento que me ensinaram nutrir por qualquer membro daquela família. - Filha do magnata. A princesinha oculta. Preciso ir! - iria correr para o quarto e fazer algumas ligações. Apenas por segurança.
Sai da mesa antes que alguma pergunta fosse feita, deixando o Pedro para trás.
Andei em passos largos em direção ao elevador, saber quem ela é me deixou ainda mais indignado, alguém na sua posição deveria ter no mínimo educação ao falar com seus funcionários, embora, ela assim como eu, não é dona de nada.
Filha do dono impõe à ela somente o papel de zelar pelo nome do seu pai. Mas, nada disso impediu meu sorriso traiçoeiro. Já tinha ouvido muito sobre sua reputação.
Estava quase entrando no quarto quando o elevador presidencial se abriu, e para minha surpresa, a própria saiu de lá, vestida com um uniforme de camareira. Qualquer um que olhasse seu cabelo perfeitamente escovado e alinhado, com a pele radiante de tão bem cuidada, saltos e as poucas joias delicadas a mostra, saberia que ela não é funcionaria de ninguém, mas uma lâmpada se ascendeu sob da minha cabeça.
- Ei, você! - chamei sem pensar duas vezes. Ela procurou um pouco antes de parar seu olhar em mim, tendo os mesmos, o efeito de uma bala ao ser lançado na sua direção. Pareciam duas pedras de esmeralda no lugar da íris. Um lobo em pele de cordeiro, de fato.
Ela em nenhum momento se intimidou, mas sua postura petulante e presunções, reiterou sua fama de dragão. Se fosse combinado não teria sido mais perfeito, pois uma segunda camareira apareceu, e desbancou a loira.
Seu ar de superioridade deu lugar a surpresa, e por alguns segundos eu pude vislumbrar inocência no seu olhar, sem o peso das expressões, ela ficava ainda mais linda, mas, logo ela arrumou sua postura para me afrontar.
Eu podia ouvir a voz do meu pai falando dessa família, hipócritas metido a superiores, gente da pior espécie, que estão acostumados a serem constantemente reconhecidos. Eles esperam que você analise sua aparência, e haja respeitosamente, apenas porque ele se julga visualmente melhor. E quando vêm acompanhado de um sobrenome tão poderoso quanto o dela, esperam que o mundo inteiro saibam de onde vem, quanto vale seu berço, e consequentemente, qual o nível de tratamento que esse patamar "exige".
Tinhosa! Não tinha nada que eu falava que a abalasse. Sua arrogância estava em um nível tão deplorável, que ela sequer conseguia se por no lugar de outra pessoa. Seus lábios carnudos se comprimiam, evidenciando sua raiva.
E pelo jeito ela também não me conhecia.
E tão presunçosa quanto chegou, saiu, de cabeça erguida, mas antes de passar pela porta ela se virou mais uma vez. Debochada e amarga, também fazem parte das suas definições. - Tem que ter muita bala na agulha. - disse batendo a porta do quarto com força. Me deixando confuso, se sua frieza era realmente sua marca registrada, ou se aquela frase continha alguma fagulha de confronto, e indireta.