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Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

Cicatrizes da Traição: A Herdeira que Tentaram Apagar

Autor:: Jiu Meier
Gênero: Moderno
Fugi de casa por três dias, esperando que meu marido percebesse. Mas Justino, um poderoso Capitão da polícia e Juiz, não me ligou uma única vez. Até que fui parada em uma blitz comandada por ele. Ele não pediu meus documentos para verificar a lei seca. Ele os confiscou, trancou-me em seu carro pessoal e me levou de volta para a nossa mansão fria, agindo não como marido, mas como um carcereiro. No caminho, o celular dele acendeu no painel. Uma mensagem de um contato salvo apenas como "A": *Dói tanto... onde você está?* Ele jurou que era uma testemunha protegida. Mas naquela mesma noite, o homem que me negou um filho por cinco anos tentou me engravidar à força, usando o sexo como uma algema para me distrair daquela mensagem. Trancada no quarto de hóspedes, investiguei e a verdade me destruiu. "A" não era uma vítima aleatória. Era Angele, a meia-irmã dele. Encontrei fotos onde ele a olhava com uma adoração doentia, segurando a mão dela em camas de hospital, priorizando a "frágil" irmã acima da minha própria vida. Eu era apenas o disfarce de normalidade para o incesto emocional deles. No dia seguinte, em um jantar de família, ele apertou minha cintura com força e anunciou sorrindo para todos: "Estamos tentando ter um bebê." O medo deu lugar a uma fúria gelada. Soltei meu braço do aperto dele, encarei-o diante da família inteira e disparei: "A Angele mandou lembranças, Justino? Ou ela só está checando para ter certeza de que você ainda pertence a ela?" A mesa silenciou. A guerra havia começado.

Capítulo 1 1

O teto do quarto de hóspedes no apartamento de Kátia Sena era estranho. Havia uma mancha de infiltração no canto que lembrava um pulmão cheio de hematomas. Kelly Ventura a encarava, contando as rachaduras no gesso, tentando ignorar a britadeira que parecia martelar dentro de seu crânio.

Três dias.

Ela tinha ido embora há três dias.

Setenta e duas horas de silêncio. Setenta e duas horas olhando para um celular que não tocava, depois tocava, e então parava de novo. A tela estava escura agora, virada para baixo na mesa de cabeceira.

A porta se abriu com um rangido. Kátia entrou, segurando duas canecas de café fumegante. Ela parecia não ter dormido muito também. Pousou a caneca no porta-copos com um leve tilintar.

- Você está um caco, Kelly - disse ela, sentando na beirada do colchão. - Assinou os papéis da separação nos seus sonhos?

Kelly sentou-se, o quarto girando levemente. Estendeu a mão para o café, precisando que o calor penetrasse em seus dedos gelados.

- Eu não sonhei. Eu só... esperei.

- Por ele? - Kátia perguntou, a voz afiada.

Kelly não respondeu. Pegou o celular. A conversa com Justino estava aberta. A última mensagem era dela, enviada três dias atrás: Não aguento mais isso. Estou indo embora.

Abaixo disso, não havia nada. Nenhum balãozinho azul. Nenhuma confirmação de leitura. Apenas um espaço branco e vazio.

- Ele nem percebeu que eu fui embora - sussurrou Kelly, o peito apertando. Parecia um peso físico, uma pedra pesada pressionando seu esterno.

Kátia soltou um suspiro longo e frustrado.

- Ele percebeu. Ele só está jogando. O Tratamento do Silêncio é o esporte favorito dele, lembra? - Ela se levantou e abriu as cortinas. O horizonte de Boston estava cinza e melancólico. - Vamos. Precisamos de comida. Comida de lanchonete, gordurosa e nada saudável. E ar fresco.

Meia hora depois, elas estavam no sedã vermelho de Kátia, dirigindo pelas ruas úmidas. As luzes da cidade borravam no espelho retrovisor. Kelly encostou a cabeça no vidro frio da janela, vendo o mundo passar.

- Sabe - disse Kátia, batucando os dedos no volante. - Você podia simplesmente bloquear o número dele. Tornar isso real.

- É real - disse Kelly, embora sua voz carecesse de convicção.

À frente delas, o trânsito começou a diminuir. As luzes de freio pintavam o asfalto molhado com riscos vermelhos.

- Ótimo - gemeu Kátia. - E agora?

Kelly apertou os olhos através do para-brisa. Não era obra na pista.

Luzes azuis.

Flashes de vermelho e azul ricocheteavam nos prédios, rítmicos e desconcertantes. Uma fila de carros estava sendo funilada para uma única faixa.

- Blitz da Lei Seca - disse Kátia, checando a hora no painel. - Mal são nove da noite de uma terça-feira? Sério?

O estômago de Kelly despencou. Um suor frio brotou em sua nuca. Era uma reação irracional. Ela não estava dirigindo. Não tinha bebido. Mas a visão daquelas luzes, do uniforme, da autoridade... acionava um reflexo que ela desenvolvera ao longo de cinco anos de casamento.

A fila andava devagar. Ela afundou no banco do passageiro, puxando o casaco para mais perto do corpo.

- Relaxa - disse Kátia, olhando para ela. - Estamos bem. A menos que você esteja escondendo um mandado de prisão que eu não saiba.

Kelly forçou uma risada, mas saiu como uma tosse seca.

Elas avançaram centímetros. Um jovem policial com uma lanterna acenava para os carros passarem ou os parava. Ele parecia ter acabado de sair da academia, o rosto fresco e ansioso.

Kátia baixou o vidro quando ele se aproximou.

- Boa noite, guarda.

- Boa noite, senhora - disse o novato. Ele iluminou o banco de trás com a lanterna, depois passou o feixe sobre Kátia e, finalmente, sobre Kelly.

A luz atingiu os olhos de Kelly, cegando-a por um segundo. O feixe demorou em seu rosto.

O novato parou. Baixou a luz levemente, a outra mão movendo-se para o rádio em seu ombro. Murmurou algo baixo no receptor. Kelly não conseguiu distinguir as palavras, mas o tom fez os pelos de seus braços se arrepiarem.

- Algum problema? - perguntou Kátia, a voz perdendo a simpatia.

O novato não respondeu. Deu um passo para trás, os olhos ainda em Kelly.

Da escuridão atrás da viatura, uma sombra se destacou.

Botas pesadas trituraram o cascalho e o asfalto. O som era distinto. Deliberado. Autoritário.

O coração dela martelava contra as costelas, um pássaro frenético preso em uma gaiola. Ela conhecia aquele andar. Conhecia a largura daqueles ombros.

A figura entrou no halo do poste de luz.

Juiz Justino.

Ele usava seu uniforme escuro, as barras prateadas de Capitão no colarinho brilhando sob a luz dura. Seu rosto era uma máscara de pedra, ângulos duros e linhas inflexíveis. Ele não olhava para o novato. Não olhava para Kátia.

Seus olhos estavam travados em Kelly.

- Capitão - disse o novato, batendo continência.

Justino nem o reconheceu. Apenas acenou com a mão, um gesto dismissivo que mandou o homem mais jovem recuar para o outro lado da estrada.

Justino caminhou até o lado do passageiro do carro de Kátia. Ficou ali por um momento, pairando sobre elas, bloqueando as luzes da cidade. O ar no carro pareceu sumir, sugado por sua pura presença.

Ele bateu com o nó dos dedos na janela de Kelly. Toc. Toc.

O som ecoou nos ossos dela.

- Abre - ele articulou sem som.

As mãos de Kelly tremiam. Ela as escondeu no colo. Olhou para Kátia. Kátia parecia furiosa, mas também um pouco assustada. Não se dizia não a um homem como Justino, especialmente quando ele vestia o distintivo.

Kelly apertou o botão. O vidro desceu com um zumbido mecânico.

O ar frio da noite invadiu, trazendo o cheiro de chuva, escapamento e dele. Hortelã e tabaco velho.

Justino colocou as mãos na moldura da porta, inclinando-se até seu rosto ficar no nível do de Kelly. Seus olhos estavam escuros, as pupilas dilatadas, engolindo a íris.

- Fugindo para a casa da amiga - disse ele, a voz um estrondo baixo e rouco que vibrou no peito de Kelly. - Três dias, Kelly. Esse era o seu plano?

- Eu não fugi - Kelly conseguiu dizer, a voz trêmula. - Eu fui embora.

- Semântica - disse ele.

- Ei, se afasta - disse Kátia, inclinando-se sobre o console. - Ela não quer falar com você.

Os olhos de Justino se voltaram para Kátia, afiados e cortantes como uma lâmina de barbear.

- Fique fora disso, Srta. Sena. A menos que queira que eu comece a verificar a profundidade dos pneus do seu carro.

Kátia fechou a boca, o maxilar travado.

Justino voltou sua atenção para Kelly. Estendeu a mão, palma para cima. Uma exigência.

- Identidade, Kelly.

- Por quê? - perguntou Kelly. - Eu sou passageira.

- Porque eu pedi - disse ele. - Identidade.

Kelly tateou a bolsa, os dedos dormentes. Puxou a carteira e extraiu a carteira de motorista. Entregou a ele.

Justino pegou. Olhou para a foto, depois para o nome. Kelly Ventura. Passou o polegar sobre o nome, um gesto possessivo, de reivindicação.

Então, seus dedos se fecharam ao redor do cartão de plástico. Ele não devolveu.

Atrás delas, um carro buzinou. Justino não se mexeu. Nem piscou.

Acionou o rádio.

- Unidade 4, segurem este veículo. Estamos conduzindo uma verificação de rotina.

- Sim, Capitão - o rádio crepitou de volta.

A respiração de Kelly falhou. Ele não estava apenas parando-as. Estava detendo-as. Por causa dela.

- Justino, me devolve a carteira - disse Kelly, o pânico subindo na garganta.

Ele deslizou o cartão para o bolso do peito, logo atrás do distintivo. Um refém.

- Saia do carro, Kelly.

Capítulo 2 2

- Isso é assédio - Kátia disparou, as mãos apertando o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. - Você não pode simplesmente ordenar que ela saia do veículo.

Justino a ignorou. Olhava para a traseira do carro de Kátia.

- Sua lanterna traseira esquerda está queimada, Srta. Sena. Isso é uma infração. O Guarda Meireles vai preencher a autuação. Pode demorar um pouco.

Ele sinalizou para o novato.

- Cuide da motorista. Eu cuido da passageira.

Era uma mentira. Kelly sabia que o carro de Kátia estava em perfeitas condições. Kátia era meticulosa com a manutenção. Mas discutir com um Capitão em uma blitz era uma batalha perdida.

Justino abriu a porta de Kelly. A luz interna inundou a cabine, expondo-a.

- Para fora - disse ele. Duas palavras. Nenhuma inflexão.

Kelly agarrou o cinto de segurança sobre o peito.

- Não.

Justino se curvou mais. O rosto dele estava a centímetros do dela. Ela podia ver a barba por fazer no queixo, as linhas de exaustão ao redor dos olhos.

- Não faça uma cena, Kelly. Não me obrigue a te tirar desse carro na frente da sua amiga e dos meus oficiais.

O calor subiu ao rosto de Kelly. Vergonha. Ele sabia exatamente qual botão apertar. Sabia que ela odiava conflito, odiava ser um espetáculo.

Ela soltou o cinto. O som foi como um tiro no espaço pequeno.

Kelly saiu para o asfalto molhado. Suas pernas pareciam fracas, feitas de água.

Kátia começou a abrir a porta.

- Kelly...

O Guarda Meireles entrou no caminho dela.

- Senhora, por favor, permaneça no veículo.

Justino não esperou. Sua mão se fechou ao redor do braço de Kelly, logo acima do cotovelo. O aperto era firme, beirando o doloroso. Não o suficiente para deixar marca, mas o suficiente para guiar. O suficiente para controlar.

- Me solta - sibilou Kelly, tentando se desvencilhar.

Ele não soltou. Marchou com ela passando pelas viaturas, pelas luzes piscantes, em direção a um SUV preto estacionado nas sombras do acostamento. Não era uma viatura marcada. Era o veículo pessoal dele.

- Eu posso chamar um Uber - disse Kelly, fincando os saltos no chão.

Justino parou. Virou-se para ela, o corpo bloqueando o resto do mundo.

- Você não vai entrar no carro de um estranho a essa hora da noite.

- Não vou entrar no seu também. - Kelly enfiou a mão no bolso do casaco para pegar o celular. Precisava chamar uma carona. Precisava fugir dele.

A mão dele disparou. Arrancou o telefone das mãos dela antes que ela pudesse desbloquear a tela.

- Ei! - Kelly tentou pegar de volta.

Ele deslizou o aparelho para o bolso, bem ao lado da carteira de motorista dela.

- Eu sou seu marido. Estou te levando para casa.

- Estamos separados - disse Kelly, a voz subindo o tom.

- Estamos tendo uma briga - corrigiu ele. - Entra.

Ele abriu a porta do passageiro do SUV preto. Não a empurrou, mas sua presença era uma parede que a impelia para trás até ela cair no banco de couro.

Ele bateu a porta.

Antes que Kelly pudesse alcançar a maçaneta, ouviu o baque das travas centrais sendo acionadas.

Justino deu a volta pela frente do carro. Sua silhueta cortou os feixes dos faróis. Ele se movia com a graça de um predador, calmo e letal.

Subiu no banco do motorista. O interior do carro cheirava a ele. Era avassalador.

Ligou o motor. O V8 rugiu ganhando vida. Saiu para o trânsito, entrando agressivamente, cortando um táxi.

Kelly sentou com os braços cruzados, olhando pela janela. A cidade passava em um borrão de néon e chuva.

Sua mente vagou de volta para três dias atrás. A cozinha. O azulejo frio sob seus pés descalços.

Flashback.

- Não podemos continuar esperando, Justino - Kelly dissera, segurando o folheto da clínica de fertilização. - O Dr. Chagas diz que meus níveis estão caindo. Se quisermos fazer isso, tem que ser agora.

Justino nem tinha levantado os olhos do arquivo.

- Agora não, Kelly. O momento não é certo.

- Nunca é o momento certo! - Kelly gritara, jogando o folheto no balcão. - Já faz cinco anos. Por que você não quer um filho comigo?

Ele olhara para ela então, os olhos frios.

- Porque você não está estável o suficiente agora. Você é emotiva demais.

Então o telefone dele tocara. Ele olhara para a tela, a expressão mudando instantaneamente de aborrecimento para preocupação. Pegara o telefone e caminhara para o escritório, trancando a porta atrás de si.

Fim do Flashback.

Kelly estremeceu. A memória era mais fria do que o ar da noite.

Justino estendeu a mão e ajustou o botão do ar-condicionado. Ar quente explodiu das saídas.

- Você está com frio - disse ele. Não era uma pergunta. Ele notava tudo. Fazia parte do trabalho, parte da natureza dele. Conseguia identificar um suspeito tremendo a cinquenta metros de distância.

- Estou bem - disse Kelly, embora seus dentes estivessem batendo.

- Para com isso - disse ele suavemente. - Para de lutar comigo em tudo.

- Você me sequestrou - disse Kelly.

- Eu te resgatei de uma parada na estrada.

- Você causou a parada.

Ele não negou. Apenas manteve os olhos na estrada.

Kelly olhou para as placas de rua. Estavam indo para o oeste. Para o subúrbio. Para a casa.

- Não vou voltar para lá - disse Kelly, o pânico explodindo novamente. - Me leva de volta para a casa da Kátia.

- Não - disse Justino. - Você já provou seu ponto. Ficou longe por três dias. Me assustou. Agora vamos para casa.

- Te assustei? - Kelly riu, um som amargo. - Você nem ligou.

O maxilar dele se contraiu. Um músculo saltou em sua bochecha.

- Eu sabia onde você estava. Estava te dando espaço. Até hoje à noite.

- O que mudou hoje à noite?

Ele não respondeu. Apenas pisou mais fundo no acelerador.

Capítulo 3 3

- Justino, encosta o carro - exigiu Kelly. - Eu não vou voltar para aquela casa.

Ele a ignorou. O velocímetro subia. 100. 110. Costurava o trânsito com facilidade treinada, a mão esquerda descansando casualmente no topo do volante.

Kelly afundou no banco, derrotada. Não havia sentido em lutar contra ele quando ele estava assim. Era uma parede de granito.

O silêncio no carro se esticou, denso e sufocante.

O telefone dele estava no porta-copos entre eles. Virado para cima.

Zzzzt.

A tela se iluminou.

Os olhos de Kelly dispararam para ela automaticamente.

Uma prévia de mensagem apareceu na tela bloqueada.

Remetente: A

Mensagem: Dói tanto... onde você está?

O coração de Kelly falhou uma batida, depois bateu com força contra as costelas. A intimidade daquilo. O desespero. Seu olhar prendeu-se não apenas nas palavras, mas no número desconhecido abaixo da inicial. Uma sequência de dígitos, código de área 617. Sua mente, uma armadilha estranha e involuntária para números e padrões, arquivou aquilo sem seu consentimento.

A reação de Justino foi instantânea.

Sua mão largou o volante e bateu com a palma para baixo sobre o telefone. O movimento foi tão rápido, tão brusco, que o SUV guinou levemente para o acostamento. As faixas de alerta vibraram sob os pneus - brrrrt - antes que ele corrigisse o curso.

Ele agarrou o telefone e o enfiou fundo no bolso da calça.

Kelly encarou o perfil dele. Ele olhava para frente, o rosto rígido.

- Quem é? - perguntou Kelly. Sua voz soou oca aos seus próprios ouvidos.

- Spam - disse ele. - Número errado.

- Mensagens de spam não dizem "Dói tanto" - disse Kelly. - E você não quase bate o carro tentando esconder um número errado.

Ele apertou o volante com mais força. Os nós dos dedos estavam brancos.

- É uma vítima de um caso em que estou trabalhando. Ela é... instável. Mentalmente.

- Então você tem uma vítima salva no seu telefone pessoal como "A"?

- É um codinome - disse ele rapidamente. Rápido demais. - Para proteger a identidade dela.

- Você está mentindo - sussurrou Kelly.

Ele exalou bruscamente pelo nariz.

- Não começa, Kelly. Não brinque de detetive. Você não é boa nisso.

- Eu não preciso ser detetive para saber quando meu marido está mentindo para mim.

- Estou protegendo uma testemunha! - ele explodiu. A voz encheu o carro, alta e irritada. - É o meu trabalho. É confidencial. Para de forçar.

Ele estava virando o jogo contra ela. Fazendo dela a irracional. A esposa bisbilhoteira que não entendia as complexidades do trabalho heroico dele.

Viraram na entrada do condomínio fechado. Os portões de ferro se abriram quando o transponder dele enviou o sinal. Subiram a entrada sinuosa até a grande casa estilo colonial que Kelly passara cinco anos tentando transformar em um lar.

Parecia uma fortaleza agora.

Justino entrou na garagem. A porta pesada desceu atrás deles com um estrondo, bloqueando as luzes da rua, selando-os lá dentro.

Ele desligou o motor. O silêncio voltou, mais pesado do que antes.

Soltou o cinto de segurança e virou-se para olhar Kelly. Sua expressão havia suavizado. A raiva se fora, substituída por uma paciência cansada e paternalista.

- Estamos em casa - disse ele. - Vamos entrar. Comer alguma coisa. Dormir. Podemos conversar de manhã.

Kelly olhou para ele - esse homem bonito e poderoso que um dia fora o mundo inteiro dela. Sentiu uma onda de náusea.

- Não quero falar com você - disse Kelly. - Não quero nem olhar para você.

Ela abriu a porta e saiu desajeitada. Precisava fugir do cheiro dele, da mentira que pairava no ar.

Justino foi mais rápido. Alcançou-a na porta da área de serviço. Agarrou o pulso dela.

- Kelly...

O celular dela, ainda no bolso dele, vibrou.

Ele o puxou. A tela se iluminou com o nome de Kátia. Uma mensagem.

Ele olhou. Os olhos se estreitaram.

Então, segurou o botão de desligar.

- O que você está fazendo? - Kelly tentou pegar.

- Desligando o barulho - disse ele.

A tela ficou preta. Ele colocou o telefone morto de volta no bolso.

- Você está me cortando do mundo - disse Kelly, percebendo a extensão do que ele estava fazendo. - Está me isolando.

- Estou te ajudando a focar - disse ele, abrindo a porta da casa. - Em nós.

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