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Cicatrizes de Concreto

Cicatrizes de Concreto

Autor:: Helen
Gênero: Moderno
O barulho da broca de impacto ecoava pelo meu crânio, mas o estrondo que veio a seguir foi o do meu mundo a desabar. Presa debaixo de uma viga de concreto, com a perna esmagada, e a água da tempestade a subir rapidamente. O meu telemóvel, com o ecrã estilhaçado, ainda funcionava. Com a mão trémula, disquei o número do Pedro, o meu marido. A voz da minha cunhada atendeu, leve, quase alegre: "O Pedro está a conduzir. O que se passa?" Consegui balbuciar que o prédio onde eu estava tinha desabado, que estava presa. Então ele veio ao telefone. Gritei: "Pedro! Ajuda-me! Estou presa no estaleiro! O prédio ruiu!" A resposta dele foi fria como o aço. "Helena, para de fazer drama. Estou ocupado. O Trovão está a passar mal." "A minha perna está esmagada, a água está a subir!" "Liga para os bombeiros, eles são pagos para isso." E desligou. O som do "tu-tu-tu" foi mais devastador que o desabamento. Escolheu salvar o cão da irmã em vez de mim. A ironia amarga: o cão chamava-se Trovão, e a tempestade que me matava era uma piada cruel. Quando acordei, a minha perna tinha desaparecido. Amputada. E ele? A sua "preocupação" era com o cão. Vi a foto da minha cunhada nas redes sociais: Pedro abraçando o Trovão, legenda "O meu herói!". Enquanto eu perdia a perna, ele "recuperava do susto". Perdi a perna, mas ele perdeu o meu coração. Eu não queria o dinheiro dele. Eu queria justiça. E o meu advogado tinha uma surpresa para ele: a gravação da minha chamada aos bombeiros e o registo do GPS do carro dele. Ele podia ter chegado a tempo. Mas não se importou. Eu ia provar que a minha vida valia mais do que o desconforto de um animal. E que a minha força não se media em pernas, mas na capacidade de me levantar. Eu era a Helena. E ele ia pagar por ter escolhido o Trovão.

Introdução

O barulho da broca de impacto ecoava pelo meu crânio, mas o estrondo que veio a seguir foi o do meu mundo a desabar.

Presa debaixo de uma viga de concreto, com a perna esmagada, e a água da tempestade a subir rapidamente.

O meu telemóvel, com o ecrã estilhaçado, ainda funcionava.

Com a mão trémula, disquei o número do Pedro, o meu marido.

A voz da minha cunhada atendeu, leve, quase alegre: "O Pedro está a conduzir. O que se passa?"

Consegui balbuciar que o prédio onde eu estava tinha desabado, que estava presa.

Então ele veio ao telefone.

Gritei: "Pedro! Ajuda-me! Estou presa no estaleiro! O prédio ruiu!"

A resposta dele foi fria como o aço.

"Helena, para de fazer drama. Estou ocupado. O Trovão está a passar mal."

"A minha perna está esmagada, a água está a subir!"

"Liga para os bombeiros, eles são pagos para isso."

E desligou.

O som do "tu-tu-tu" foi mais devastador que o desabamento.

Escolheu salvar o cão da irmã em vez de mim.

A ironia amarga: o cão chamava-se Trovão, e a tempestade que me matava era uma piada cruel.

Quando acordei, a minha perna tinha desaparecido.

Amputada.

E ele? A sua "preocupação" era com o cão.

Vi a foto da minha cunhada nas redes sociais: Pedro abraçando o Trovão, legenda "O meu herói!".

Enquanto eu perdia a perna, ele "recuperava do susto".

Perdi a perna, mas ele perdeu o meu coração.

Eu não queria o dinheiro dele.

Eu queria justiça.

E o meu advogado tinha uma surpresa para ele: a gravação da minha chamada aos bombeiros e o registo do GPS do carro dele.

Ele podia ter chegado a tempo.

Mas não se importou.

Eu ia provar que a minha vida valia mais do que o desconforto de um animal.

E que a minha força não se media em pernas, mas na capacidade de me levantar.

Eu era a Helena.

E ele ia pagar por ter escolhido o Trovão.

Capítulo 1

O barulho da broca de impacto ecoou pelo meu crânio, mais alto do que o trovão lá fora.

Eu estava presa debaixo de uma viga de concreto, com a perna direita esmagada.

Chovia torrencialmente, e a água gelada subia rapidamente, já me chegando à cintura.

O meu telemóvel estava a poucos centímetros de distância, com o ecrã estilhaçado mas ainda a funcionar.

Com a mão a tremer, disquei o número do meu marido, Pedro.

A chamada foi atendida quase instantaneamente.

Mas não foi a voz dele que ouvi.

"Cunhada, o Pedro está a conduzir, não pode atender agora. O que se passa?"

Era a voz da minha cunhada, Sofia. O tom dela era leve, quase alegre.

Tentei falar, mas a dor na minha perna era tão intensa que só consegui soltar um gemido.

"Alô? Estás aí? Se não é nada importante, vou desligar. Estamos quase a chegar ao hospital."

Hospital?

"Aconteceu alguma coisa?", consegui perguntar, com a voz rouca.

"Oh, não é grande coisa", disse ela, com uma risada abafada. "É só o meu cão, o Trovão, que comeu chocolate por engano. O Pedro está super preocupado, coitadinho. Insistiu em levá-lo ao veterinário de urgência."

O meu mundo parou.

"Sofia", disse eu, com a respiração ofegante. "Eu... eu estou presa. O prédio onde eu estava a fazer a vistoria... desabou."

Silêncio do outro lado da linha.

Depois, ouvi a voz do meu marido ao fundo, impaciente. "Sofia, o que foi? Passa-me o telemóvel."

"Pedro!", gritei, usando toda a força que me restava. "Ajuda-me! Estou presa no estaleiro da Rua das Flores! O prédio ruiu!"

A resposta dele foi fria como o aço.

"Helena, para de fazer drama. Estás a brincar numa altura destas? Estou ocupado."

"Não estou a brincar!", a minha voz falhou, misturando-se com o som da chuva. "A minha perna está esmagada, a água está a subir!"

"Já te disse que estou ocupado! O Trovão está a passar mal! Liga para os bombeiros, eles são pagos para isso."

E desligou.

O som do "tu-tu-tu" foi mais devastador do que o barulho do desabamento.

Olhei para a minha perna, presa sob o concreto. A água suja já me chegava ao peito.

Eu ia morrer aqui.

O meu marido, o homem com quem partilhei a cama durante cinco anos, escolheu salvar o cão da irmã em vez de mim.

A ironia era amarga. O cão chamava-se Trovão, e a tempestade que me estava a matar parecia uma piada cruel do destino.

Desmaiei.

Capítulo 2

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco e estéril de um hospital.

O cheiro a antisséptico invadiu-me as narinas.

Uma enfermeira estava a ajustar o meu soro.

"Finalmente acordou", disse ela, com um sorriso cansado. "Teve sorte. Os bombeiros encontraram-na mesmo a tempo."

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda atravessou a minha perna direita.

Olhei para baixo.

Onde deveria estar a minha perna, havia apenas um volume coberto por lençóis.

O meu coração afundou.

"A sua perna...", começou a enfermeira, com a voz suave. "Tivemos de a amputar abaixo do joelho. Não havia outra opção."

As palavras dela não pareciam reais. Eram apenas sons vazios.

Amputada.

A palavra ecoou na minha cabeça.

A porta do quarto abriu-se e a minha mãe entrou, com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.

"Minha filha!", soluçou ela, agarrando a minha mão. "Graças a Deus que estás viva."

Eu não conseguia chorar. Sentia-me oca por dentro.

"O Pedro?", perguntei, com a voz fraca.

A expressão da minha mãe endureceu. "Ele não veio. Liguei-lhe dezenas de vezes. A sogra disse que ele estava muito abalado com o que aconteceu ao cão e que precisava de descansar."

Abalado. Ele estava abalado.

Uma risada seca escapou dos meus lábios.

"Mãe, quero o divórcio."

Ela olhou para mim, chocada. "Helena, agora não é altura para..."

"É a altura perfeita", interrompi-a, com uma calma que me assustou a mim mesma. "Liga ao meu advogado. Diz-lhe para preparar os papéis."

O meu telemóvel, que os bombeiros tinham recuperado, estava na mesinha de cabeceira.

Peguei nele. Havia dezenas de chamadas perdidas da minha mãe.

Nenhuma do Pedro.

Nenhuma da minha sogra.

Nenhuma da Sofia.

Abri as redes sociais.

A primeira coisa que vi foi uma publicação da Sofia.

Uma foto do Pedro a abraçar o Trovão no sofá. A legenda dizia: "O meu herói! Salvou o nosso menino. O susto já passou, agora é só mimos."

A foto tinha sido publicada há poucas horas.

Enquanto eu estava a ser operada, a perder a minha perna, ele estava em casa, a "recuperar do susto".

Senti uma onda de náusea.

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