Eu estava na prisão, o cheiro de mofo e desespero impregnado na pele, uma cicatriz latejando nas minhas costas.
A porta da cela se abriu e Marina, deslumbrante como sempre, mas com um brilho gélido nos olhos, apareceu.
"Gabriela, está na hora."
Meu coração bateu descontrolado. Hora de assinar os papéis para outra doação de órgão.
Eu sabia o que aquilo significava: a morte. Uma pessoa não sobrevive sem os dois rins.
"Eu não vou", minha voz saiu fraca.
Ela apenas sorriu. "É para a Luiza."
Meu mundo congelou. Luiza estava morta.
Mas Marina disse que não. Que Luiza estava em coma e precisava de um doador compatível. Eu.
Tudo se encaixou: a "morte" de Luiza, meu aprisionamento, a primeira doação forçada. Era tudo um plano para me aniquilar.
"Eu já te dei tudo, Marina! Carreia, meu amor, meu rim. Isso vai me matar!"
"Eu sei", ela respondeu, sem uma ponta de remorso. "Mas a Luiza precisa viver. Eu a amo, Gabi. Você nunca entenderia."
Assinei minha sentença de morte sob lágrimas escaldantes de traição.
Senti a agulha, o anestésico, a escuridão. Pensei que era o fim.
Mas, de repente, uma luz. O cheiro de café fresco.
Eu estava na minha cama, na Villa da Primavera, minhas mãos e meu corpo saudáveis. Nenhuma cicatriz.
"Marina, meu amor, a Gabi ainda está dormindo? Ela não vai gostar de me ver aqui no café da manhã", ouvi a voz manjosa de Luiza vindo do andar de baixo.
Corri. O calendário na mesa de cabeceira me atingiu como um soco. Era o dia. O dia em que Luiza reapareceu em nossas vidas.
Eu não morri. Eu renasci.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. A Gabi ingênua e apaixonada morreu.
A mulher que renasceu só tinha um propósito: vingança.
Marina, você me tirou tudo. Agora, eu vou tirar tudo de você.
A consciência voltava aos poucos, turva e pesada. A luz fria da cela da prisão era a primeira coisa que eu via todas as manhãs nos últimos três anos, mas hoje parecia diferente, mais opressiva. Meu corpo todo doía, uma dor surda e constante que vinha da cicatriz na minha lateral, um lembrete diário do rim que doei um ano atrás, na esperança de reduzir minha pena.
Um barulho metálico ecoou pelo corredor silencioso. A porta da minha cela se abriu. Dois guardas entraram, seus rostos impassíveis como sempre.
"Gabriela, está na hora."
Eu não me movi. Meu coração começou a bater descontrolado. Hoje era o dia. O dia em que eu seria forçada a assinar os papéis para outra doação de órgão. Outra cirurgia. Eu sabia o que isso significava. Uma pessoa não sobrevive sem rins.
"Eu não vou", minha voz saiu fraca, um sussurro rouco.
Os guardas se entreolharam, e um deles se aproximou, sua mão pronta para me agarrar. Mas antes que ele pudesse me tocar, uma figura apareceu na porta.
Era Marina.
Ela estava deslumbrante, como sempre. Vestia um terninho caro, de um corte impecável que eu sabia ser de sua última coleção. Seu cabelo estava perfeitamente arrumado, e sua maquiagem era sutil, mas realçava sua beleza fria. Ela parecia uma deusa da moda que desceu de seu pedestal para visitar uma reles mortal.
Ela, que eu tirei da lama, que ajudei a se tornar a designer mais renomada do país.
Ela, que me amou, me usou e depois me jogou nesta cela para apodrecer.
Ela, que me colocou aqui depois que eu "acidentalmente" causei a morte de sua musa, sua ex-namorada, Luiza. Uma morte que me custou a liberdade e a vida.
Marina dispensou os guardas com um aceno de cabeça. Eles saíram, fechando a porta atrás de si, nos deixando sozinhas. O silêncio era denso, carregado de ódio e de memórias dolorosas.
"Gabi", ela disse, seu tom era calmo, quase gentil, o que o tornava ainda mais cruel. "Vim te buscar."
Eu a encarei, sem conseguir acreditar. "Me buscar? Para onde? Para o matadouro?"
Um leve sorriso brincou em seus lábios. "Não seja tão dramática. É para a cirurgia. É para a Luiza."
Meu sangue gelou. Minha mente parou de funcionar por um segundo.
"O quê? Luiza está morta."
"Ela não morreu", Marina respondeu, se aproximando. "Foi tudo um mal-entendido. Ela esteve em coma todo esse tempo, mas agora os médicos encontraram um doador compatível. Você."
As peças do quebra-cabeça se encaixaram em minha mente com uma clareza aterrorizante. A "morte" de Luiza foi uma farsa. O coma. Tudo. Um plano para me tirar do caminho. E agora, elas precisavam do meu outro rim para completar o serviço. Para me apagar de vez.
"Marina, por favor", eu implorei, o desespero tomando conta de mim. "Eu já te dei tudo. Eu te tirei da rua, eu te dei uma carreira, eu te dei meu amor. Eu já doei um rim aqui dentro. Você não pode fazer isso. Isso vai me matar."
Ela parou na minha frente, seu olhar era desprovido de qualquer emoção. Nenhuma culpa, nenhum remorso. Apenas uma determinação gélida.
"Eu sei", ela disse, sua voz baixa e firme. "Mas a Luiza precisa viver. Eu a amo, Gabi. Você nunca entenderia."
Ela estendeu a mão, não para me ajudar, mas para me mostrar os papéis que segurava. O termo de doação. Minha sentença de morte.
"Assine."
As lágrimas que eu segurava finalmente rolaram pelo meu rosto. A traição era tão profunda, tão absoluta, que queimava mais do que qualquer dor física. O amor da minha vida estava ali, me condenando à morte pelo bem de outra pessoa.
Eu fui levada para a sala de cirurgia. As luzes ofuscantes acima de mim eram as últimas coisas que eu via. Senti a picada da agulha no meu braço, e o anestésico começou a correr pelas minhas veias. Minha consciência começou a se esvair, meu corpo ficando pesado.
O rosto frio de Marina foi minha última visão. O ódio que senti por ela era a última emoção. Meu coração doía, não pela morte iminente, mas pela totalidade da sua traição.
Então, tudo ficou escuro.
Eu pensei que estava morta, flutuando em um vazio sem fim. Minha alma estava a caminho do inferno, eu tinha certeza.
Mas, de repente, uma luz. Um som. Uma dor aguda na minha cabeça.
Abri os olhos, piscando contra a claridade. Eu não estava em um hospital. Eu estava em um quarto familiar. O nosso quarto. O quarto que eu dividia com Marina na nossa casa, a Villa da Primavera.
A luz do sol entrava pela janela, e o cheiro de café fresco pairava no ar.
Minha cabeça latejava. Eu me sentei na cama, confusa. Olhei para minhas mãos. Elas não eram as mãos de uma prisioneira, magras e pálidas. Eram minhas mãos de antes, saudáveis. Olhei para meu corpo. Nenhuma cicatriz da primeira doação de rim.
O que estava acontecendo?
Então, eu ouvi vozes vindo do andar de baixo. A voz de Marina, e outra voz. Uma voz que me assombrou por três anos.
A voz de Luiza.
"Marina, meu amor, a Gabi ainda está dormindo? Ela não vai gostar de me ver aqui no café da manhã", dizia Luiza, com um tom manhoso e provocador.
"Não se preocupe, querida. Ela vai ter que se acostumar. Eu cuido dela", respondeu Marina.
Meu coração parou. Eu olhei para o calendário na mesa de cabeceira. A data me atingiu como um soco no estômago.
Era o dia. O dia em que Luiza reapareceu em nossas vidas. Três anos no passado.
Eu não morri.
Eu renasci.
Uma risada baixa e amarga escapou dos meus lábios. A dor, a traição, a sentença de morte... tudo era real. A memória estava gravada em minha alma.
Elas planejaram tudo. A "morte" de Luiza foi uma farsa para me incriminar. A prisão, a doação forçada de órgãos. Tudo um grande e cruel plano.
As lágrimas secaram em meu rosto. O desespero deu lugar a uma frieza cortante. A Gabi ingênua e apaixonada morreu naquela mesa de cirurgia. A mulher que renasceu só tinha um propósito.
Vingança.
Eu olhei meu reflexo no espelho. Meus olhos, antes cheios de amor por Marina, agora queimavam com um ódio gelado.
Marina, você me tirou tudo. Agora, eu vou tirar tudo de você. Sua carreira, seu status, seu dinheiro. E o mais importante... eu vou destruir o que você mais ama. Eu vou fazer você e a Luiza pagarem, centavo por centavo, por cada gota de dor que me causaram.
Desta vez, a história seria diferente.
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Desci as escadas devagar, cada passo deliberado. Minha mente estava clara como cristal. Lá estavam elas, sentadas à mesa do café da manhã, exatamente como na minha memória. Marina, com um sorriso radiante, colocava uma fatia de bolo no prato de Luiza. Luiza, com seu rosto de anjo e olhos de demônio, fingia uma fragilidade que não possuía.
Quando Marina me viu, seu sorriso vacilou por um instante.
"Gabi, querida. Você acordou. Quero te apresentar a Luiza. Nós... nos conhecíamos há muito tempo."
Luiza me olhou, um brilho de triunfo em seus olhos. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Na minha vida passada, eu fiquei em choque. Gritei, chorei, exigi uma explicação. Joguei na cara de Marina tudo o que fiz por ela, como ela podia trazer sua ex-namorada para dentro da nossa casa.
Desta vez, eu apenas sorri. Um sorriso calmo, que não alcançou meus olhos.
"Olá, Luiza. Prazer em conhecê-la."
O choque no rosto das duas foi impagável. Elas esperavam um escândalo, uma briga. Minha calma as desarmou completamente.
"Gabi, você não está... brava?", Marina perguntou, confusa.
"Brava? Por quê? Somos adultas, não é? O passado fica no passado", eu disse, me servindo de uma xícara de café. Minha mão estava firme. "Espero que goste de morar conosco, Luiza."
Luiza, a mestre da manipulação, se recuperou rapidamente.
"Oh, Gabi, você é tão compreensiva!", ela disse, com a voz embargada. "Eu não tenho para onde ir. Marina é a única pessoa que tenho no mundo."
Ela começou a chorar, lágrimas de crocodilo escorrendo por seu rosto perfeito.
"Marina me contou o quanto você a ajudou. Eu sou tão grata a vocês duas."
Marina imediatamente a abraçou, lançando-me um olhar de reprovação, como se eu fosse a vilã insensível.
"Está vendo? A Luiza está passando por um momento difícil. Precisamos apoiá-la."
Revirei os olhos internamente. O mesmo show, a mesma peça de teatro. Só que desta vez, eu conhecia o roteiro de cor.
"Claro", eu disse, com um tom monótono. "O que ela precisar."
De repente, Luiza soltou um gritinho e apontou para a escada.
"Ai! Uma barata!"
No instante seguinte, ela "tropeçou" e caiu em minha direção, como se estivesse se desequilibrando. Na vida passada, eu a segurei instintivamente. Mas desta vez, eu dei um passo para o lado.
Luiza caiu com tudo no chão de madeira. O som foi satisfatório.
Ela olhou para mim, chocada, antes de começar a chorar de verdade.
"Ai, meu tornozelo! Acho que quebrei!"
Marina correu para o lado dela, furiosa.
"Gabriela! O que você fez? Você a empurrou!"
"Eu não encostei nela", respondi friamente. "Ela tropeçou sozinha."
"Mentira! Eu vi!", gritou Marina, com o rosto vermelho de raiva. "Você está com ciúmes! Como você pode ser tão cruel?"
Antes que eu pudesse responder, senti uma dor aguda nas costas. Marina, em um acesso de fúria, me deu um chute forte. A dor me fez cambalear para frente, e meus olhos se encheram de lágrimas, não de tristeza, mas de pura raiva.
Na vida passada, esse chute me quebrou. Chorei por horas, implorando para que Marina acreditasse em mim.
Desta vez, eu apenas me virei e a encarei. A dor física não era nada comparada à memória da mesa de cirurgia.
"Você me chutou", eu disse, minha voz perigosamente calma.
Marina pareceu se assustar com a minha reação. Ela esperava lágrimas, não essa frieza.
"Você mereceu! Olhe o que você fez com a Luiza!", ela disse, ajudando a "vítima" a se levantar. Luiza se agarrou a ela, mancando dramaticamente, e me lançou um sorriso provocador por cima do ombro de Marina.
Elas subiram as escadas, Marina sussurrando palavras de consolo para sua amada. A Villa da Primavera, nossa casa, de repente ficou silenciosa e vazia. Apenas o cheiro do café e a dor latejante nas minhas costas eram reais.
Fui até a cozinha e peguei um saco de gelo, pressionando-o contra o local do chute. A dor era um lembrete. Um lembrete de que nada mudou no coração de Marina. Ela sempre escolheria Luiza.
Lembrei-me do que aconteceria a seguir. Nas próximas semanas, Luiza encenaria vários "acidentes" e problemas de saúde, todos convenientemente causados por mim. Marina, cega de amor, acreditaria em cada mentira. A culminação seria a grande farsa no terraço, onde Luiza se jogaria, fazendo parecer que eu a empurrei.
A farsa que a levaria a um "coma" e a mim, para a prisão. A farsa da sua "morte".
Não desta vez.
Fui até o nosso quarto. Sobre a minha penteadeira estava o nosso porta-retrato. Uma foto do nosso casamento. Nós duas sorrindo, felizes. Era uma mentira. Tudo era uma mentira.
Peguei a foto. Na vida passada, eu a teria guardado, me agarrando à memória de um amor que nunca existiu de verdade.
Desta vez, eu a rasguei ao meio. Pedaço por pedaço. Depois, peguei meu anel de casamento da caixinha de joias. Era um anel de diamante que eu mesma desenhei. Um símbolo do meu amor e dedicação.
Com um sorriso amargo, peguei uma pequena faca de artesanato da minha gaveta e, com força, risquei a superfície do diamante. Uma, duas, três vezes, até que a pedra preciosa estivesse arranhada e sem brilho.
O anel, assim como o meu amor, estava destruído. Irreparável.
Joguei os pedaços da foto e o anel danificado no lixo.
A Gabi que amava Marina estava morta. Agora, era hora da vingança.
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