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Cicatrizes de um Passado Amargo

Cicatrizes de um Passado Amargo

Autor:: Rice Kelsch
Gênero: Romance
A memória daquela noite ainda queimava, com Heitor me segurando em seus braços e me dizendo que ninguém nunca me entendeu como eu. Na manhã seguinte, ele estava frio e distante, e eu descobri que para ele eu era apenas uma ferramenta em um jogo cruel para reconquistar sua ex-namorada, Isabela. Ele me humilhou publicamente na frente dela, me objetificou, e a deixou me agredir, tudo para seu próprio ganho. Eu não era uma pessoa para ele; eu era um nada, patética, apenas um corpo para sua diversão, e vê-lo com ela depois me aprisionar em seu apartamento, me quebrou. Mas eu não ia ser sacrificada, e com a ajuda de um aliado inesperado, eu forjei minha própria morte e desapareci, pronta para me reerguer das cinzas.

Introdução

A memória daquela noite ainda queimava, com Heitor me segurando em seus braços e me dizendo que ninguém nunca me entendeu como eu.

Na manhã seguinte, ele estava frio e distante, e eu descobri que para ele eu era apenas uma ferramenta em um jogo cruel para reconquistar sua ex-namorada, Isabela.

Ele me humilhou publicamente na frente dela, me objetificou, e a deixou me agredir, tudo para seu próprio ganho.

Eu não era uma pessoa para ele; eu era um nada, patética, apenas um corpo para sua diversão, e vê-lo com ela depois me aprisionar em seu apartamento, me quebrou.

Mas eu não ia ser sacrificada, e com a ajuda de um aliado inesperado, eu forjei minha própria morte e desapareci, pronta para me reerguer das cinzas.

Capítulo 1

A memória daquela noite ainda queimava.

Heitor me segurava contra o corpo dele, o cheiro dele em todo lugar, o som da respiração dele no meu ouvido. Estávamos na varanda do apartamento dele, a cidade inteira brilhando lá embaixo como um mar de estrelas caídas. Ele afastou uma mecha de cabelo do meu rosto.

"Ninguém nunca me entendeu como você, Lara."

A voz dele era baixa, quase um sussurro. A sinceridade naqueles olhos escuros me desmontou. Eu acreditei nele. Naquele momento, eu acreditaria em qualquer coisa que ele dissesse. Entreguei a ele tudo que eu era, sem reservas, sem medo. Foi a primeira vez para mim, em todos os sentidos que importavam. E pareceu o começo de tudo.

Na manhã seguinte, o sol entrava fraco pela janela, mas o lado dele da cama estava frio e vazio.

Encontrei Heitor na cozinha, já vestido em um terno caro, falando ao telefone. Ele não sorriu quando me viu. Apenas fez um gesto com a cabeça e continuou a conversa, a voz dele agora era outra, fria e profissional. A intimidade da noite anterior tinha desaparecido como fumaça.

Ele desligou o telefone e se virou para mim.

"Bom dia."

Ele me entregou uma xícara de café. A mão dele nem sequer roçou na minha.

"Dormiu bem?"

A pergunta era automática, vazia. Ele olhava para um ponto qualquer por cima do meu ombro. Uma ansiedade começou a crescer no meu peito.

"Dormi," eu respondi, a minha voz mais fraca do que eu queria. "Heitor, sobre ontem à noite..."

Ele me interrompeu.

"Eu preciso ir para uma reunião. Tenho um presente para você no quarto, na mesa de cabeceira."

Ele pegou a pasta dele, ajeitou a gravata e caminhou até a porta. Ele parou e olhou para mim.

"Fique à vontade. A casa é sua."

E saiu. Sem um beijo, sem um abraço. A porta se fechou com um clique suave, mas soou como uma batida de porta na minha cara.

A confusão me deixou paralisada por um momento. O Heitor da noite passada e o homem que acabou de sair pareciam duas pessoas diferentes. Voltei para o quarto e vi a pequena caixa de veludo azul na mesa de cabeceira. Abri. Era um colar delicado, de ouro branco, com um pequeno pingente. Era lindo e caro. E parecia um pagamento.

Quando ele voltou, no final da tarde, eu estava sentada no sofá, esperando. O colar estava de volta na caixa. Eu precisava de respostas. A incerteza estava me matando.

Ele entrou, tirou o paletó, afrouxou a gravata. Finalmente, ele pareceu me notar de verdade.

"Você ainda está aqui."

Não era uma pergunta, era uma constatação.

"Precisamos conversar," eu disse, tentando manter a voz firme. "O que nós somos, Heitor? O que tudo isso significa?"

Ele me olhou por um longo tempo, o rosto indecifrável. Eu esperei que ele dissesse que eu estava imaginando coisas, que ele estava apenas estressado com o trabalho. Esperei uma desculpa qualquer. Em vez disso, um sorriso lento se formou nos lábios dele, um sorriso que não alcançou os olhos.

"Você quer saber o que nós somos?"

Ele se sentou ao meu lado, perto demais.

"Eu quero te apresentar ao meu pai."

O choque me calou. O pai dele. O senador, um dos homens mais poderosos do país. Isso era mais do que eu jamais poderia ter sonhado. Era um compromisso. Era um futuro. A dúvida e a mágoa se dissolveram, substituídas por uma onda de alívio e esperança.

"Sério?"

"Muito sério," ele disse, a voz suave de novo. "No jantar de gala da fundação dele, na semana que vem. Quero que todos te conheçam."

Eu sorri, um sorriso genuíno e estúpido. Eu o abracei, e desta vez ele não recuou. Ele me abraçou de volta, mas o abraço dele era contido, quase calculado.

Mais tarde, ele pediu que eu esperasse por ele no escritório enquanto ele tomava um banho. Ele disse que sairíamos para jantar, para comemorar. Eu estava flutuando. Andei pelo escritório dele, passando os dedos pelos livros caros nas estantes. Senti uma ponta de orgulho, de pertencimento. Eu faria parte daquele mundo.

Meu cotovelo esbarrou em uma pilha de papéis na mesa dele, e eles caíram no chão. Eu me agachei para juntá-los, rindo da minha própria falta de jeito. Foi quando eu vi.

Não era uma pilha de papéis qualquer. Era um dossiê. E na capa, em letras grandes, um nome: ISABELA TORRES.

Abri a pasta, a curiosidade mais forte que o bom senso. Havia fotos dela. Uma mulher linda, elegante, com um sorriso confiante. Havia relatórios detalhados sobre a rotina dela, os lugares que frequentava, as pessoas com quem falava. Parecia o trabalho de um detetive particular. E então, no meio dos papéis, encontrei anotações com a caligrafia de Heitor.

Eram notas de um plano.

"Isabela ainda reage a mim. Bloqueou meu número, mas o pai dela disse que ela sempre pergunta. Preciso de uma jogada mais forte."

Meu coração começou a bater descontroladamente.

"A garota nova, Lara. Ela é perfeita. Apaixonada, um pouco ingênua. Submissa. Usar Lara para provocar ciúmes na festa da fundação. Isabela precisa me ver com outra pessoa, alguém que pareça sério. Precisa sentir que está me perdendo para sempre."

O ar saiu dos meus pulmões. Cada palavra era uma facada.

Ingênua. Submissa. Perfeita para o plano.

Eu continuei lendo, as mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar os papéis.

"Avaliação de Lara: emocionalmente dependente, busca aprovação. Vinda de uma família simples, vai ficar deslumbrada com o meu mundo. Fácil de controlar. O colar foi um bom teste. Ela ficou, mesmo depois da minha frieza. Ela vai fazer exatamente o que eu mandar."

As náuseas subiram pela minha garganta. A noite mágica, a promessa de futuro, o "eu te entendo" . Tudo uma mentira. Uma performance fria e calculada. Eu não era uma pessoa para ele. Eu era uma ferramenta. Um objeto a ser usado e descartado.

A raiva veio em seguida, uma onda quente e sufocante. A humilhação queimava meu rosto. Ele não só me usou, ele me analisou, me dissecou como um inseto em um laboratório. E o pior de tudo, ele estava certo. Eu tinha caído em cada parte do truque dele.

Ouvi o chuveiro ser desligado. Rapidamente, juntei os papéis, coloquei a pasta exatamente onde estava. Sentei-me na cadeira, forçando meu corpo a relaxar, meu rosto a parecer normal. O choque deu lugar a um gelo estranho nas minhas veias.

Heitor entrou no escritório, enrolado em uma toalha, o cabelo molhado. Ele sorriu para mim, o mesmo sorriso sedutor da noite anterior.

"Pronta para a nossa comemoração?"

Eu olhei para ele, o homem que eu pensei que amava, e vi um monstro.

"Eu estava lendo umas revistas enquanto esperava," eu menti, a voz surpreendentemente calma. "Vi uma matéria sobre a socialite Isabela Torres. Ela é sua amiga?"

Eu observei o rosto dele com atenção. Por uma fração de segundo, vi um brilho de alarme nos olhos dele, rapidamente substituído por um tédio estudado.

"Ah, a Isa. Conheço a família dela há anos," ele disse, casualmente. "Ela é uma garota complicada. Por que a pergunta?"

"Curiosidade," eu disse, dando de ombros. "A revista dizia que vocês tiveram um romance."

Ele riu, uma risada falsa.

"Imprensa. Inventam qualquer coisa por uma boa história," ele disse. "Não se preocupe com isso. O passado é passado. O que importa é o agora. É você."

Ele se inclinou para me beijar, mas eu virei o rosto.

"Estou com um pouco de dor de cabeça," eu disse. "Acho que prefiro ficar em casa hoje."

A decepção no rosto dele era almost imperceptível, mas eu vi. Não era decepção por não passar a noite comigo. Era a irritação de uma peça de xadrez que não se movia como o esperado.

"Claro," ele disse, se afastando. "Como quiser."

Naquela noite, deitada ao lado dele na cama, fingindo dormir, eu não senti mais dor. Não senti mais humilhação. Senti uma clareza fria e afiada. Ele achava que eu era um peão no jogo dele. Ele não sabia que eu tinha acabado de ver o tabuleiro inteiro. E eu não ia ser sacrificada. Eu ia virar o jogo.

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Capítulo 2

Uma semana depois, Heitor entrou no meu pequeno apartamento com uma caixa de presente grande e retangular. Ele não vinha aqui com frequência, preferia o território dele, onde ele tinha o controle. A presença dele aqui parecia uma invasão.

"Tenho algo para você usar no jantar," ele disse, colocando a caixa na minha cama.

Abri. Dentro, um vestido vermelho. O tecido era caro, mas o corte era ousado. Um decote profundo, as costas nuas, a fenda na perna subindo quase até o quadril. Não era um vestido para apresentar à família. Era um vestido para causar uma cena. Era a minha fantasia para a peça dele.

"É... chamativo," eu disse, a voz neutra.

"É perfeito," ele respondeu, os olhos brilhando. "Quero que você seja a mulher mais bonita da festa. Quero que todos os olhos estejam em você."

Ele queria que os olhos de Isabela estivessem em mim. E nele.

"Vista para mim. Quero ver como fica."

O pedido era uma ordem disfarçada. No momento em que ele disse isso, uma dor aguda me atingiu no estômago, tão forte que me curvei, ofegante. O estresse, a raiva, a dor reprimida dos últimos dias se manifestaram como um soco físico.

"O que foi?" ele perguntou, a voz carregada de impaciência.

"Nada. Só uma cólica," eu murmurei, apoiando a mão na parede.

Ele me olhou com desprezo.

"Não seja dramática, Lara. É só um vestido."

Ele se virou, pegou o celular e começou a digitar, já perdendo o interesse. A indiferença dele era mais dolorosa do que qualquer insulto. Para ele, a minha dor era um inconveniente, uma distração do plano maior. Respirei fundo, empurrando a dor para baixo, junto com todo o resto.

Chegamos ao salão de baile do hotel de luxo. O lugar brilhava com cristais e prata. Políticos, empresários, celebridades. O poder e o dinheiro pairavam no ar, densos como fumaça de charuto. Heitor segurava meu braço com força, me guiando pelo salão. Eu me sentia como um acessório caro no braço dele.

Os olhos dele não estavam em mim. Estavam varrendo a multidão, caçando. Eu vi o momento exato em que ele a encontrou. A postura dele mudou. O corpo dele ficou tenso, alerta. Um predador que localiza a presa. Isabela estava perto da fonte de champanhe, conversando com o pai de Heitor, o Senador. Ela usava um vestido branco, elegante e discreto. O oposto exato do meu.

Heitor sorriu. O show ia começar.

Ele me conduziu até a mesa principal, reservada para a família e os convidados de honra. Havia dois lugares vazios ao lado do Senador. Eu presumi que um era meu. Mas Heitor não parou. Ele me deixou de pé ao lado da mesa, um alvo exposto no meu vestido vermelho, e caminhou direto para Isabela.

Ele pegou a mão dela. O Senador sorriu, cúmplice. Diante de todos, Heitor levou Isabela até a cadeira de honra ao lado do pai dele. A cadeira que deveria ser minha. Ele se sentou na outra, deixando-me para trás, sozinha e humilhada.

O murmúrio se espalhou pelo salão. Os olhares curiosos se voltaram para mim. A garota de vermelho, abandonada no centro do palco.

Um garçom se aproximou.

"Senhora? A senhora está com o grupo do Senador?"

Eu olhei para a mesa principal, para Heitor rindo de algo que Isabela disse, completamente alheio à minha existência.

"Não," eu respondi, a voz firme. "Estou apenas de passagem."

Eu me virei e caminhei até a mesa mais distante do salão, em um canto escuro. Sentei-me, as costas retas. Se ele queria um show, eu não seria a vítima indefesa.

Minha atitude o irritou. Ele se levantou e veio até a minha mesa, o rosto uma máscara de fúria contida.

"O que você está fazendo aqui?" ele sibilou.

"A vista é melhor," eu disse, calmamente.

Ele me agarrou pelo braço, a força dele me machucando.

"Levante-se. Agora."

Ele me arrastou de volta para a mesa principal, para a humilhação.

"Isabela," ele disse, com um sorriso forçado. "Quero que conheça Lara. Uma... amiga."

A palavra "amiga" pairou no ar, carregada de veneno.

Isabela me olhou de cima a baixo, um sorriso de desprezo nos lábios. O olhar dela demorou no meu decote.

"Amiga?" ela disse, a voz doce e afiada. "Heitor, você sempre foi tão generoso com suas... amizades."

Eu sorri de volta, o sorriso mais doce que consegui produzir.

"É verdade. Ele é especialmente generoso quando quer muito alguma coisa."

O sorriso de Isabela vacilou. Heitor apertou meu braço com mais força.

Para completar a cena, ele passou o braço pela minha cintura, me puxando para perto, colando o meu corpo no dele. A mão dele pousou perigosamente perto da parte nua das minhas costas. Ele não olhava para mim. Ele olhava para Isabela, desafiando-a, usando a minha proximidade, a minha semi-nudez, como uma arma contra ela.

"Lara é muito especial para mim," ele disse, a voz rouca, os olhos fixos em Isabela.

Eu me senti suja. Usada. Exposta.

Isabela não aguentou. O rosto dela se contraiu em uma máscara de dor e raiva.

"Eu preciso de um pouco de ar," ela disse, abruptamente.

Ela se levantou e caminhou rapidamente em direção à saída, os ombros tensos.

No instante em que ela se moveu, Heitor me largou. Como se eu fosse um objeto quente que ele não precisava mais segurar. Ele não disse uma palavra. Não olhou para trás. Ele simplesmente correu atrás dela, deixando-me, mais uma vez, sozinha no meio do salão, o eco das risadas e conversas soando como uma zombaria. A missão dele estava cumprida. A minha utilidade, por enquanto, havia acabado.

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