Eu, João Pedro, o violeiro, vivia uma vida serena na fazenda, ao lado da minha amada Clara, a mulher por quem compunha todas as minhas canções.
Até que a tragédia me atingiu: Clara "morreu" num acidente.
Eu desabei, a viola emudeceu, tentei acabar com a própria vida repetidamente.
Mas a dor do luto se tornou um terror gélido quando ouvi uma voz assustadoramente familiar na casa grande.
Não era um fantasma.
Era Clara, viva, porém personificando sua irmã gêmea idêntica, Carolina.
Ela estava traçando um plano macabro com o pai, o Coronel, para me abandonar e se unir a Ricardo, cunhado dela, visando um herdeiro para a fazenda.
A mulher por quem eu quase morri me humilhou publicamente, me acusou falsamente de crimes que não cometi.
Fui condenado a trabalhos forçados num garimpo infernal, deixado para morrer por ela.
Como a mulher que eu amava, que me via sofrer à beira da loucura, pôde me trair de forma tão fria e calculada?
Para quê? Um herdeiro?
Minha vida virou lixo por um plano distorcido e egoísta dela.
No fundo do abismo, quando tudo parecia perdido, uma mão estendida me ofereceu uma chance de recomeço: o casamento com Sofia.
Eu aceitei.
Deixei o sertão, as lembranças e a mulher que me destruiu para trás, em busca de paz na Bahia.
Mas será que o passado, e ela, realmente me deixariam em paz, ou voltariam para assombrar minha nova vida?
João Pedro era um homem da terra, violeiro de mão cheia, suas canções falavam da vida na fazenda, do gado, do sertão e, principalmente, de seu amor por Clara. Casados há três anos, viviam na fazenda do Coronel Afonso, pai dela, um homem influente e respeitado. A vida parecia um rio manso, até o dia da tragédia.
Clara "morreu" num acidente com o gado.
A notícia correu como fogo em palha seca. Carolina, sua irmã gêmea idêntica, surgiu das cinzas da dor, trazendo um lenço de Clara, manchado de sangue. Era a prova final, o selo da desgraça.
João Pedro desabou. O mundo perdeu a cor, a viola emudeceu.
Ele tentou se matar. Uma vez. Duas. Três.
Em todas, foi salvo por vizinhos, por gente da fazenda que o amparava, mesmo sem entender a profundidade daquele buraco negro que se abrira em seu peito.
"Que amor grande era aquele", comentavam todos, "capaz de levar um homem à beira da loucura."
Dona Cida, uma vizinha de cerca, balançava a cabeça.
"Nunca vi um homem amar tanto uma mulher."
João Pedro ouvia, mas não escutava. A dor era um zumbido constante.
Três meses se arrastaram, pesados como chumbo. A saudade de Clara era uma ferida aberta. Um dia, precisando de algo que a lembrasse, João Pedro foi até a casa grande do Coronel Afonso, buscar algum pertence esquecido de sua amada.
A casa estava silenciosa, mas não vazia.
Ao se aproximar do escritório do sogro, ouviu vozes. A do Coronel Afonso, grave e conhecida. E outra, feminina, assustadoramente familiar.
Era a voz de Clara.
Ele parou, o coração aos pulos, uma mistura de incredulidade e um medo gelado.
"Carolina", dizia o Coronel, "você precisa ter cuidado. Alguém pode desconfiar."
"Pai, eu sei", respondeu a voz que era de Clara, mas que se passava por Carolina. "Mas Ricardo precisa de mim. Ele é frágil, precisa de um herdeiro para a fazenda. É meu dever."
João Pedro sentiu o chão sumir.
A conversa continuou, cada palavra uma facada. A morta era Carolina, a verdadeira Carolina. Clara estava viva, assumindo a identidade da irmã. E por quê? Para "cuidar" de Ricardo, o viúvo de Carolina, seu cunhado. Para lhe dar um filho.
Clara dormia com Ricardo todas as noites.
A revelação esmagou João Pedro. O luto se transformou em uma raiva fria, uma dor ainda mais profunda, a dor da traição. Sua esposa, a mulher por quem ele quase morrera, o abandonara por uma "missão" distorcida, um plano macabro orquestrado com o próprio pai.
Ele se afastou, cambaleando, a cabeça um turbilhão. Precisava entender, precisava confrontar.
Mas o confronto veio de forma inesperada. Dias depois, durante uma pequena festa na fazenda para tratar de negócios da colheita, serviram um bolo com castanha de caju. João Pedro era terrivelmente alérgico, algo que Clara sabia melhor que ninguém.
Ele começou a passar mal, o ar faltando, a garganta fechando.
Procurou por "Carolina", por Clara.
Ela estava ao lado de Ricardo, que, de repente, começou a se queixar de uma dor de cabeça inexistente, fazendo uma cena.
Clara, ou melhor, "Carolina", olhou para João Pedro, viu seu estado, mas virou-se para Ricardo.
"Oh, meu querido, venha, vou cuidar de você", disse ela, amparando o cunhado, ignorando o marido que sufocava.
João Pedro, com a ajuda de outros, conseguiu um antialérgico a tempo. Mas a imagem de Clara priorizando Ricardo ficou gravada em sua mente. Aquilo não era só uma farsa, era um abandono cruel e calculado.
Ele observava Clara, agora como "Carolina", e Ricardo. Eles agiam como um casal. Ela cuidava dele, sorria para ele. Em público, eram o viúvo enlutado e a cunhada prestativa. Em particular, eram amantes construindo uma nova vida sobre a mentira.
João Pedro sentia o gosto amargo da humilhação. Ele era o marido "morto" em vida, uma sombra do passado que ela parecia querer apagar.
A gravidez de "Carolina" foi confirmada pouco tempo depois. O médico da vila, um senhor já de idade e um tanto alheio às fofocas mais recentes, parabenizou o Coronel Afonso pela futura chegada do neto.
Clara, no papel de Carolina, exibia uma alegria contida, mas seus olhos brilhavam com um tipo de esperança que João Pedro começava a decifrar.
Ela acreditava que o filho com Ricardo seria a chave para, de alguma forma, justificar tudo, talvez até para, no futuro, ter João Pedro de volta, como se ele fosse um objeto a ser retomado quando conveniente.
"Com um filho, Ricardo se acalma, a fazenda prospera, e então...", ela confidenciava ao pai, sem saber que João Pedro, por vezes, ouvia fragmentos de suas conversas.
A fazenda de Ricardo precisava de um tipo raro de capim para o gado, e a única pessoa na região que tinha sementes de qualidade era João Pedro, que as guardava de uma safra antiga, dos tempos felizes com Clara.
Ricardo, instruído por Clara, foi até João Pedro.
"João Pedro, meu caro", disse Ricardo, com uma falsa cordialidade, "soube que você tem aquelas sementes de capim angola. Eu pagaria bem por elas. Sabe como é, a fazenda precisa se reerguer depois da... perda da Carolina."
João Pedro o encarou. A ironia era cruel. O homem que roubara sua esposa agora pedia sua ajuda para a fazenda que ele herdaria com ela.
"São sementes especiais", respondeu João Pedro, a voz neutra.
"Eu sei, por isso vim até você. 'Carolina' me disse que você é o único."
Clara, usando seu conhecimento do passado para beneficiar o presente com Ricardo.
Apesar da dor, da raiva, João Pedro concordou. Talvez fosse uma forma de manter alguma dignidade, ou talvez uma última, masoquista, ligação com o que restava de seu passado. Ele pensou no sangue que corria em suas veias, o mesmo sangue que um dia Clara dissera amar, agora servindo aos propósitos dela com outro.
Ele entregou as sementes.
"Obrigado, João Pedro. Você é um bom homem", disse Ricardo, com um sorriso que não alcançava os olhos.
Dias depois, houve uma pequena quermesse na vila. Clara, como "Carolina", estava lá com Ricardo. Ela preparara doces, os mesmos que fazia para João Pedro. O cheiro de cocada queimada e bolo de fubá invadiu o ar, trazendo lembranças dolorosas para João Pedro, que observava de longe.
Eles riam, Ricardo passava o braço pelos ombros dela. Pareciam um casal feliz, celebrando a nova família que estava por vir.
As pessoas comentavam.
"Veja só, a Carolina está se refazendo bem. E o Ricardo parece feliz com ela."
"É bom que ela esteja cuidando dele. Perder uma esposa é duro."
Ninguém sabia a verdade. João Pedro era uma nota dissonante naquela melodia fabricada.
Em certo momento, o Coronel Afonso, querendo solidificar a imagem pública, aproximou-se de João Pedro, com Clara e Ricardo a tiracolo.
"João Pedro, meu filho", disse o Coronel, a voz embargada de uma emoção calculada. "Ainda bem que você está aqui. É bom ver você tentando seguir em frente. Carolina", ele se virou para Clara, "tem sido um anjo para Ricardo. E você, João Pedro, sempre será como um irmão para nós, não é mesmo?"
Clara, como Carolina, sorriu docemente para João Pedro. Um sorriso que era uma punhalada.
"Claro, Coronel. Como um irmão", respondeu João Pedro, a voz saindo mais firme do que ele esperava. Aceitar aquele papel era engolir mais um pedaço da humilhação. Era o selo final de seu deslocamento.