Por cinco anos, fui a sombra de Heitor Montenegro. Eu não era apenas sua assistente; eu era seu álibi, seu escudo, a pessoa que limpava sua bagunça. Todos achavam que eu era apaixonada por ele. Estavam errados. Eu fiz tudo por seu irmão, Juliano - o homem que eu realmente amava, que me fez prometer em seu leito de morte que cuidaria de Heitor.
Os cinco anos acabaram. Minha promessa foi cumprida. Entreguei meu pedido de demissão, pronta para finalmente viver meu luto em paz. Mas naquela mesma noite, a namorada cruel de Heitor, Michelle, o desafiou para uma corrida de rua mortal que ele não podia vencer.
Para salvar sua vida, eu assumi o volante por ele. Venci a corrida, mas bati o carro, acordando em uma cama de hospital. Heitor me acusou de fazer tudo aquilo para chamar a atenção dele, um espetáculo patético, e depois me deixou para consolar Michelle por causa de um tornozelo torcido.
Ele acreditou nas mentiras dela quando ela disse que eu a empurrei, me jogando contra a parede com tanta força que o ferimento na minha cabeça se abriu novamente.
Ele ficou parado enquanto ela me forçava a beber copo após copo de uísque, ao qual ele era mortalmente alérgico, chamando aquilo de um teste de lealdade.
A humilhação final veio em um leilão de caridade. Para provar seu amor por Michelle, ele me colocou no palco e me vendeu por uma noite para outro homem.
Eu havia suportado cinco anos de inferno para honrar o último desejo de um homem morto, e esta era a minha recompensa.
Depois de escapar do homem que me comprou, fui para a ponte onde Juliano morreu. Enviei a Heitor uma última mensagem: "Estou indo encontrar o homem que eu amo."
Então, sem mais nada pelo que viver, eu pulei.
Capítulo 1
No mundo das altas finanças de São Paulo, todos sabiam de uma coisa com certeza: Clara Bastos era a sombra de Heitor Montenegro. Por cinco anos, ela foi mais do que sua assistente pessoal; ela era quem resolvia tudo, seu escudo, seu álibi.
Ela limpava seus escândalos das colunas sociais, amenizava seus problemas legais e uma vez até assumiu a culpa por um acidente de carro que foi culpa dele. Ela era um fantasma em sua vida, sempre presente, sempre silenciosa, sua devoção absoluta.
Todos presumiam que era uma história de amor não correspondido, o tipo de caso trágico e unilateral que alimentava as fofocas do escritório por anos. Acreditavam que ela estaria ao seu lado para sempre, uma peça permanente na tempestade que era a vida de Heitor. Clara não fez nada para corrigir essa suposição. Ela simplesmente existia para ele.
Até hoje.
"Estou me demitindo."
As palavras, ditas com calma no escritório minimalista de Heitor, foram uma bomba detonando no silêncio. Exatos cinco anos desde o dia em que ela começou.
Bruno Corrêa, o melhor amigo de Heitor e conselheiro jurídico da empresa, engasgou com o café. Ele olhou para Clara, com os olhos arregalados de incredulidade.
"Você o quê? Clara, você está falando sério?"
Clara assentiu, sua expressão serena. Ela colocou uma carta simples, de uma página, sobre a mesa polida. "Meu contrato foi cumprido. Todo o meu trabalho foi entregue. Já limpei minha mesa."
Ela não esperou por uma resposta. Virou-se e saiu do escritório, seus passos firmes e sem pressa. O andar inteiro pareceu prender a respiração enquanto ela passava, uma onda de choque se espalhando em seu rastro.
Mas Clara não foi para casa. Ela não fez as malas nem reservou um voo. Pegou um táxi para o cemitério mais silencioso e bem cuidado da cidade, o Cemitério do Morumbi.
Ela parou diante de uma lápide de mármore preto.
JULIANO PALMER.
Ela traçou as letras do nome dele, os dedos suaves. Uma fotografia estava gravada na pedra, um jovem com um sorriso que poderia iluminar uma sala. Ele tinha o mesmo maxilar afiado e olhos intensos de Heitor, mas onde o olhar de Heitor era selvagem e imprudente, o de Juliano era preenchido por um calor profundo e constante.
Sua compostura finalmente se quebrou. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha.
"Juliano," ela sussurrou, a voz embargada por uma tristeza que cinco anos não conseguiram apagar.
"Eu consegui. Cumpri minha promessa."
A lembrança era nítida como o dia em que aconteceu. Cinco anos atrás, o guincho de pneus, o esmagar de metal. Juliano, me protegendo com seu corpo.
O mundo era uma confusão de luzes piscando e o cheiro de gasolina. Ele estava preso, sua respiração superficial.
"Clara," ele havia sussurrado, sua mão encontrando a dela. "Prometa-me."
"Qualquer coisa," ela soluçou.
"Heitor... ele é uma bagunça. Ele é meu irmão. Cuide dele. Apenas... dê a ele cinco anos. Cinco anos para amadurecer."
Ela entendeu o verdadeiro significado dele. Juliano não estava apenas pedindo para ela proteger Heitor. Ele estava lhe dando uma saída. Estava impedindo que ela se afogasse em sua dor, que o seguisse para a escuridão. Ele estava lhe dando uma sentença de cinco anos para que ela pudesse finalmente ser livre.
Então ela concordou. Tornou-se a assistente de Heitor Montenegro, a mulher que atendia a todos os seus caprichos, que absorvia cada golpe destinado a ele. Ela fez tudo pelo homem que jazia sob a pedra fria.
Os cinco anos acabaram. Sua promessa foi cumprida. Seu próprio desejo, suprimido por tanto tempo, não havia mudado.
"Estou indo, Juliano," ela murmurou, uma finalidade silenciosa em seu tom. "Estou tão cansada. Só quero descansar com você."
Ela estava pronta para se entregar.
Seu celular vibrou, uma intrusão áspera e indesejada. Era Bruno.
"Clara! Graças a Deus você atendeu. É o Heitor." Sua voz estava frenética. "A Michelle está aprontando de novo."
O corpo inteiro de Clara enrijeceu.
Michelle Barros. A namorada de Heitor. Uma mulher que tratava o amor como uma série de jogos perigosos e de alto risco.
"Ela o desafiou para uma corrida contra a gangue das Víboras," disse Bruno, suas palavras saindo atropeladas. "O vencedor leva os direitos da estrada da costa por um ano. Heitor vai mesmo fazer isso. Ele está louco."
Clara fechou os olhos. As Víboras não eram apenas corredores de rua; eram criminosos, conhecidos por sua violência. A corrida não era sobre velocidade; era sobre sobrevivência.
Ela se viu correndo antes mesmo de tomar uma decisão consciente, chamando um táxi com a mão trêmula.
A corrida estava sendo realizada na traiçoeira Estrada Velha de Santos, escorregadia com o spray do mar. Uma multidão se reunira, seus rostos iluminados pelo brilho dos faróis. Na linha de partida estava o carro esportivo personalizado de Heitor e, ao lado, o ameaçador muscle car tunado das Víboras.
Heitor estava encostado em seu carro, um cigarro pendurado nos lábios. Michelle se agarrava ao seu braço, sua expressão uma mistura de excitação e preocupação fingida.
Bruno correu até Clara. "Você veio." Ele parecia aliviado.
"Por que ele está fazendo isso?" Clara perguntou, a voz tensa.
"Por ela," Bruno cuspiu, gesticulando com a cabeça em direção a Michelle. "Ela disse que se ele vencer, saberá que ele a ama de verdade. Aquela mulher é veneno puro."
Jeremy Santos, outro amigo de Heitor, deu um tapa no ombro dele. "Não dê ouvidos ao Bruno, cara. Michelle está apenas te testando. Mostre a ela do que você é feito."
Mas Bruno não deixou por menos. Ele se virou para Heitor. "Você está louco? Clara passou cinco anos te mantendo fora da cadeia, e você vai jogar tudo fora por uma emoção?"
Os olhos de Heitor piscaram em direção a Clara. Por um segundo, algo indecifrável cruzou seu rosto. Então desapareceu, substituído por sua arrogância habitual.
"O que foi, Bastos?" ele disse arrastado, suas palavras afiadas e frias. "Veio me ver quebrar a cara? Ou está esperando para juntar os cacos de novo?"
As palavras atingiram Clara com força. Uma dor aguda floresceu em seu peito, dificultando a respiração. Mas ela a ignorou. Ela a ignorou por cinco anos.
Ela caminhou para a frente, bem na frente dele. Pegou as chaves do carro da mão dele.
"Que diabos você está fazendo?" Heitor exigiu.
"Eu corro por você," disse Clara, a voz firme. "Sou uma motorista melhor. Você só vai se matar."
Bruno concordou com a cabeça. "Ela está certa, Heitor. Deixe-a fazer isso. Tudo o que Michelle quer é a vitória, ela não se importa com quem está ao volante."
Clara não esperou por sua permissão. Ela deslizou para o banco do motorista, o couro frio contra sua pele. Ligou o motor, seu rugido um conforto familiar.
Heitor ficou paralisado de espanto, observando-a. Ele tentou protestar, puxá-la para fora, mas ela já havia trancado as portas.
"Clara, saia do carro!" ele gritou, batendo na janela. "Isso é uma ordem!"
Ela apenas olhou para ele, seus olhos calmos e vazios. Deu um leve aceno negativo com a cabeça.
A bandeira de partida caiu.
O mundo se dissolveu em um borrão de velocidade e ruído. O motor gritava enquanto ela o levava ao limite, os pneus lutando por aderência na estrada sinuosa.
Heitor ficou congelado, seus olhos grudados nas luzes traseiras de seu carro enquanto ele desaparecia na primeira curva. Ele sentiu um aperto estranho e desconhecido no peito. Viu o rosto dela em sua mente, tão calma, tão disposta a se jogar no perigo por ele. De novo.
A corrida foi brutal. O carro das Víboras batia repetidamente no dela, tentando forçá-la para fora da estrada e para o penhasco. A multidão ofegava a cada quase-acidente, a cada guincho de metal contra metal.
Mas Clara era inabalável. Ela dirigia com uma fúria fria e precisa.
A reta final. Os carros estavam lado a lado. Com um último e violento solavanco, o carro das Víboras a fez girar. Por um momento de parar o coração, pareceu que ela ia cair do penhasco.
Então, um barulho ensurdecedor de colisão.
O carro dela bateu de lado contra a face da rocha, logo após a linha de chegada. Vitoriosa.
O silêncio caiu sobre a multidão.
A porta do motorista estava amassada. Clara emergiu, mancando. Sangue escorria de um corte em sua testa, empastando seu cabelo.
Ela caminhou direto para Heitor, seu corpo balançando. Pressionou o símbolo da vitória - um broche brega em forma de víbora - na mão dele.
"Você venceu," ela disse, a voz mal um sussurro.
Então seus olhos reviraram, e ela desabou.
Heitor reagiu sem pensar. Ele se lançou para a frente, pegando-a pouco antes de ela atingir o chão.
Ela parecia assustadoramente leve em seus braços, frágil como um pássaro. Um sentimento que ele não conseguia nomear, algo agudo e doloroso, percorreu seu corpo.
"Clara?" ele chamou, a voz tingida de um pânico que ele não reconhecia. "Clara!"
Enquanto perdia a consciência, ela pensou ter sentido a mão de Juliano na sua. Uma leve sensação de paz a envolveu antes que tudo ficasse preto.
O cheiro estéril de antisséptico encheu os sentidos de Clara enquanto ela acordava lentamente. Estava em um quarto de hospital, os lençóis brancos ásperos contra sua pele.
Heitor estava perto da janela, de costas para ela. Sua postura era rígida, sua silhueta cortando uma linha nítida e raivosa contra a luz da manhã.
Ele se virou, o rosto uma máscara fria.
"Você acordou," ele afirmou, a voz desprovida de calor. "O que você estava pensando, fazendo uma cena daquelas? Achou que isso me faria sentir alguma coisa por você?"
Clara tentou falar, mas sua garganta estava irritada. Uma tosse seca escapou de seus lábios.
A expressão de Heitor não se suavizou. "Deixe-me ser claro, Clara. Eu não te amo. Nunca vou amar. Todo esse seu sacrifício... é patético."
Ela baixou os olhos, encarando o cobertor branco. Qual era o sentido de contar a ele sobre Juliano? Sobre a promessa? Ele não acreditaria nela. Apenas veria isso como mais uma manobra desesperada por sua atenção. Ela aprendera há muito tempo que, com Heitor, o silêncio era sua única defesa.
"Eu entendo, Sr. Montenegro," ela disse, a voz rouca.
Ele a observou, um lampejo de algo - irritação? confusão? - em seus olhos. Parecia desconcertado por sua aceitação silenciosa. Ele esperava lágrimas, discussões.
Seu tom se suavizou quase imperceptivelmente. "Tire algumas semanas de folga. Descanse."
Então, como se movido por um impulso que não entendia, ele puxou uma cadeira para o lado da cama dela. "Eu fico."
Pela primeira vez em cinco anos, uma centelha de luz apareceu nos olhos de Clara. Era uma coisa pequena e frágil, mas estava lá.
"Por que você está tão feliz?" Heitor perguntou, genuinamente perplexo.
Ela olhou para o rosto dele, tão parecido com o de Juliano. "Apenas... feliz em te ver," ela sussurrou.
Ele sentiu uma pontada estranha no peito, uma emoção que não conseguia identificar. Estava prestes a dizer algo, qualquer coisa, quando seu telefone tocou.
Era Michelle. Sua voz estava chorosa e em pânico. "Heitor, querido, eu... eu caí. Meu tornozelo dói tanto. Você pode vir? Estou com medo."
O olhar de Heitor instintivamente se voltou para Clara. Ele viu o lampejo de esperança nos olhos dela morrer, substituído por uma resignação familiar e cansada.
"Você deveria ir até ela," disse Clara, a voz monótona. "Ela precisa de você."
Ele hesitou por uma fração de segundo, uma guerra travando dentro dele. Então ele se levantou.
"Certo," ele disse, a voz seca. Ele se virou e saiu, sem olhar para trás.
No momento em que a porta se fechou, o leve sorriso de Clara desapareceu. Seus olhos ardiam, mas nenhuma lágrima veio. Depois de cinco anos, ela havia esquecido como chorar.
Uma comoção explodiu do lado de fora de sua porta. As enfermeiras conversavam animadamente.
"Você ouviu? O Sr. Montenegro acabou de reservar todo o andar VIP para a namorada dele!"
"Apenas por um tornozelo torcido? Ele deve amá-la muito."
Clara ouviu, o rosto uma máscara de indiferença. Ela sabia. Sempre soube.
Mais tarde, o ferimento em sua cabeça precisava de um novo curativo. Ninguém veio. Heitor havia pago pelo quarto, mas sua atenção, e a atenção da equipe, estava focada em Michelle, um andar acima.
Clara saiu da cama, o corpo doendo, e cuidou do ferimento sozinha. Encontrou um pequeno kit de primeiros socorros no banheiro.
Suas mãos tremiam enquanto aplicava o antisséptico. Ardia, uma dor aguda e limpa.
O pequeno frasco de desinfetante escorregou de sua mão, quebrando-se no chão de azulejo.
Ela se abaixou para pegar os cacos, uma onda de tontura a atingindo. O movimento puxou os pontos em sua cabeça, enviando uma nova pontada de dor através dela. Ela tropeçou, seu mundo inclinou, e caiu no chão.
Seu joelho bateu no azulejo duro com um estalo doentio. Uma nova e aguda agonia explodiu, e sua visão escureceu nas bordas.
Mordendo o lábio para não gritar, ela se levantou, ignorando o sangue que agora vazava por sua camisola de hospital. Ela limpou meticulosamente o vidro e depois cuidou de seu novo ferimento.
Nos dias seguintes, ela às vezes caminhava pelos corredores para se exercitar. Em uma dessas caminhadas, passou pelo quarto de Michelle. A porta estava entreaberta.
Ela viu Heitor sentado ao lado da cama de Michelle, descascando uma maçã para ela, seus movimentos gentis, sua expressão cheia de uma ternura que Clara nunca tinha visto.
Ele realmente a amava.
Um pensamento estranho entrou em sua mente. Se ela pudesse ajudá-los, fazê-los felizes juntos, talvez Juliano também ficasse feliz.
No dia em que recebeu alta, ela arrumou seus poucos pertences. Ao sair de seu quarto, deu de cara com Michelle, que estava sendo empurrada em uma cadeira de rodas por uma enfermeira.
Clara instintivamente se moveu para o lado para deixá-la passar.
De repente, Michelle soltou um grito e se jogou da cadeira de rodas, caindo em um monte no chão.
"Ah! Meu tornozelo!" ela lamentou.
Heitor veio correndo do corredor. Seus olhos pousaram em Clara, depois em Michelle soluçando no chão. Ele viu apenas uma narrativa.
Ele se lançou para a frente, seus dedos se fechando em torno do pulso de Clara como um torno. "O que você fez com ela?" ele rosnou.
"Eu não fiz nada," disse Clara, a voz firme apesar da dor em seu pulso.
Michelle, entre lágrimas, fez um show de magnanimidade. "Heitor, não a culpe. Tenho certeza de que ela não quis. Foi um acidente."
"Eu vi você!" A voz de Heitor era um rosnado baixo. Ele se recusou a ouvir. Ele a empurrou para longe dele, com força.
Clara tropeçou para trás, batendo na parede. O impacto sacudiu seu corpo inteiro, e o ferimento em sua cabeça, que mal começara a cicatrizar, se abriu novamente. Um fio quente de sangue escorreu por sua têmpora.
Heitor se inclinou sobre ela, o rosto uma máscara de fúria. "Nunca mais toque nela. Você me entendeu?"
Ele então se virou, sua expressão se derretendo em uma de preocupação. Ele gentilmente pegou Michelle em seus braços, seu toque infinitamente suave. "Está tudo bem, querida. Estou aqui."
Enquanto a carregava para longe, Michelle olhou para trás por cima do ombro dele para Clara. Seus lábios se curvaram em um sorriso triunfante e malicioso.
Clara deslizou pela parede, caindo sentada no chão frio. O sangue fresco manchou o colarinho de sua camisa branca.
Pela primeira vez em muito, muito tempo, ela sentiu um esgotamento tão profundo que se instalou em seus ossos. Um cansaço da alma.
O apartamento estava vazio, o silêncio pressionando-a. Clara se movia como um autômato, limpando e enfaixando seus ferimentos com uma eficiência desapegada.
Ela tirou uma pequena caixa de metal trancada de seu armário. Dentro estavam seus únicos tesouros: uma foto desbotada dela e de Juliano, uma flor seca que ele lhe dera, um ingresso de cinema do primeiro encontro deles.
Ela traçou o contorno do rosto dele na foto, a ponta do dedo tremendo.
"Estou tão cansada, Juliano," ela sussurrou para a imagem silenciosa. "Não sei se consigo mais fazer isso."
Seu telefone vibrou, quebrando o silêncio. Era Heitor. Sua voz era fria e seca, uma ordem, não um pedido.
"Michelle quer um bolo específico de uma confeitaria do outro lado da cidade. Vá buscá-lo para ela."
A linha ficou muda antes que ela pudesse responder.
Lá fora, uma tempestade havia começado. A chuva açoitava as janelas.
Clara olhou para a foto uma última vez, depois fechou a caixa. Pegou um guarda-chuva e saiu para o dilúvio.
A fila na confeitaria era longa. Quando comprou o bolo, estava encharcada até os ossos, seu corpo tremendo com um frio profundo e persistente.
Ela o entregou na cobertura de Heitor. Michelle, envolta em um cobertor de caxemira, pegou a caixa dela.
"Você está toda molhada," disse Michelle, com uma doçura falsa na voz. "Vai sujar o chão." Ela se virou para Heitor, que observava do sofá. "Não é mesmo, querido?"
O olhar de Heitor varreu a forma encharcada de Clara, sua expressão indecifrável.
Michelle deu uma mordida no bolo e fez uma careta. "É muito doce. Não gostei. Vá me buscar outro. Da filial do centro desta vez."
Clara ficou em silêncio por um momento, a água pingando de seu cabelo no chão de mármore. Então ela assentiu. "Ok."
Ela voltou para a tempestade.
Isso se tornou o padrão. Michelle encontrava uma nova exigência impossível, uma nova maneira de atormentá-la. Um café específico que tinha que ser comprado em uma cafeteria a uma hora de distância. Um livro que só estava disponível em uma loja especializada. Cada vez, Clara tinha que enfrentar a tempestade, seu corpo ficando mais fraco, uma febre persistente se instalando.
Após a quarta viagem, Michelle finalmente se declarou satisfeita. Ela se aninhou contra Heitor.
"Querido," ela arrulhou, "estou entediada. Vamos dar uma festa. E você tem que beber comigo."
Bruno e Jeremy, que haviam chegado, ficaram chocados.
"Michelle, você sabe que ele não pode," disse Bruno. "Ele é gravemente alérgico a álcool. Poderia matá-lo."
"Se ele realmente me ama, ele fará isso," insistiu Michelle, seus olhos se enchendo de lágrimas. "É só um pequeno teste."
Jeremy, que uma vez fora o maior apoiador de Michelle, finalmente explodiu. "Um teste? Você quer que ele arrisque a vida por um 'teste'? Qual é o seu problema?"
Michelle explodiu em soluços, virando-se para Heitor em busca de conforto. "Eles estão sendo maus comigo."
Heitor, com o rosto sombrio, pegou um copo de uísque. "Tudo bem."
Ele estava prestes a beber quando Clara, que estava em silêncio no canto, de repente se moveu. Ela arrancou o copo da mão dele.
"O que você está fazendo?" Heitor exigiu, zangado e confuso.
"Você vai parar no hospital," ela disse, a voz rouca por causa da febre. "Ou pior." Ela se virou para Michelle. "Ele não pode beber. Eu bebo por ele."
Michelle sorriu, um brilho cruel e triunfante em seus olhos. "Por mim, tudo bem."
Antes que Heitor pudesse protestar, Clara tirou um pequeno pacote de pílulas antialérgicas e as enfiou na mão dele. "Tome isso. Por via das dúvidas."
Então ela começou a beber.
Ela bebeu copo após copo de uísque, o licor forte queimando sua garganta e estômago. A sala ficou em silêncio, todos a observando.
Heitor ficou paralisado, o pacote de pílulas esmagado em seu punho, seus nós dos dedos brancos. Uma dor surda e latejante começou em seu peito. Ele observou o rosto pálido dela, suas mãos trêmulas, sua determinação inabalável.
Ele se lembrou de todas as outras vezes. A multa de trânsito que ela levou por ele. O negócio que ela salvou trabalhando por 72 horas seguidas. O investidor furioso que ela enfrentou em seu nome.
Ele sempre disse a si mesmo que não significava nada. Que a devoção dela era uma obsessão que ele não queria.
Mas observando-a agora, envenenando-se por ele, ele sentiu a garganta apertar.
Ele tentou ignorar a sensação estranha e sufocante. Ele amava Michelle. Tinha que amar Michelle. Repetia isso para si mesmo como um mantra, uma tentativa desesperada de abafar a visão do sacrifício silencioso de Clara.