Por cinco anos, eu tolerei as traições do meu marido, Ricardo. Minha única condição era simples: mantenha isso longe dos meus olhos.
Então a paixão da faculdade dele, Lorena, voltou. Ele não só a exibia por aí, como roubou o centro comunitário que eu projetei em memória do nosso falecido filho e deu a ela de presente.
Quando fotos do caso deles vazaram no evento de lançamento dela, ele a protegeu das câmeras e apontou o dedo para mim. Ele disse ao mundo que eu era uma esposa instável e de luto que estava tendo um caso.
Ele me forçou a confessar publicamente, destruindo minha reputação. Depois, voltou para casa e me disse que Lorena estava grávida e que eu precisava sair da nossa cobertura para dar a ela um "ambiente calmo".
"Você sabe o quanto se importa com crianças, Clara", ele disse, usando minha dor mais profunda contra mim.
Naquela noite, assinei os papéis do divórcio. No aeroporto, enquanto ele gritava meu nome atrás do portão de segurança, eu calmamente tirei o chip do meu celular, joguei no lixo e embarquei no avião.
Capítulo 1
Eu tolerei as infidelidades dele por cinco anos. Cinco anos de aceitação silenciosa, de fingir que os boatos não existiam.
Minha única condição era simples: mantenha isso fora da minha vida. Longe da minha vista. Essa era a frágil fronteira sobre a qual nosso casamento se sustentava.
Então Lorena Mattos voltou ao nosso mundo. Um nome que eu só tinha ouvido em sussurros, um fantasma do passado de Ricardo.
Ela era a paixão da faculdade dele, aquela que ele nunca superou. Aquela que todo homem secretamente deseja ter tido.
Ela se movia com uma graça arrogante, seu império de tecnologia construído por conta própria adicionando um toque de poder à sua beleza. Ela não apenas entrava em um lugar; ela o dominava.
Ricardo mudava perto dela. O magnata frio e calculista da Faria Lima se derretia em um garoto que ainda ansiava. Era nojento de assistir.
Esta noite, na badalada gala de caridade, ele nem tentou esconder. Ele a exibia em seu braço, uma esposa-troféu em tudo, menos no nome.
Minha coluna permaneceu perfeitamente reta, meu sorriso educadamente fixo. Minha compostura era um escudo, protegendo os pedaços que desmoronavam por dentro.
Mas algo havia mudado. Uma resolução silenciosa havia se solidificado dentro de mim, um plano secreto já criando raízes.
Lorena fez sua grande entrada tarde, como esperado. O ar crepitou de antecipação no momento em que ela apareceu.
Ela usava um vestido que desafiava as convenções, um contraste gritante com os vestidos brilhantes, quase uma rebelião sutil.
Ricardo havia mandado um colar de diamantes para ela. Ela o recusou abertamente, colocando-o de volta em uma bandeja de prata segurada por um garçom assustado. "Não faz meu estilo", ela ronronou, alto o suficiente para que todos nós ouvíssemos.
"Estou aqui pela causa, não por bugigangas", ela acrescentou, seus olhos varrendo a multidão, pousando brevemente em mim. Um desafio.
O salão de festas ficou em silêncio, um suspiro coletivo engolido pelas cortinas de veludo.
Observei Ricardo, um nó se formando no meu estômago. O que ele faria? Como ele me defenderia, sua verdadeira esposa?
Ele apenas sorriu, um olhar suave e indulgente. "Ela sempre foi ferozmente independente", ele anunciou, como se explicasse uma peculiaridade encantadora.
Ele então pegou a mão dela, puxando-a para mais dentro do salão, abandonando o colar onde estava.
Os olhos dela, por cima do ombro dele, encontraram os meus. Um brilho de triunfo. "Você realmente acha que pode mantê-lo?", ela parecia perguntar.
Ela se soltou da mão dele, um movimento ensaiado, e caminhou em direção ao canto mais silencioso do salão, deixando Ricardo momentaneamente perdido.
Sem um segundo olhar para mim, ele a seguiu, seu rosto uma máscara de preocupação.
Eu fiquei ali, em meio à multidão brilhante, de repente sozinha de uma forma muito pública.
Um garçom ofereceu espumante. Peguei duas taças, esvaziando uma quase imediatamente. As bolhas fizeram pouco para anestesiar a dor aguda.
Pedi licença da mesa, uma mentira educada sobre procurar o toalete. Mas eu não estava procurando um toalete. Estava procurando por eles.
Eu os encontrei perto do jardim de inverno, parcialmente escondidos por uma palmeira imponente. A voz de Ricardo era baixa, carregada de uma ternura que eu não ouvia há anos.
Ele estava acariciando suavemente o cabelo de Lorena, murmurando algo sobre como o mundo tinha sido injusto com ela.
Lorena se inclinou em seu toque, depois recuou um pouco. "Eu não preciso de pena, Ricardo", disse ela, sua voz afiada. "Eu preciso provar meu valor. Sozinha."
Seus olhos, geralmente tão calculistas, suavizaram ainda mais. "Você merece todo o sucesso, Lorena. Mais do que qualquer pessoa que eu conheço."
Então ele tirou uma pasta grossa de couro de dentro do paletó. Era familiar demais. Meu coração despencou.
Ele a colocou nas mãos dela. "Este projeto do centro cultural comunitário. Ele precisa de uma visionária. Alguém com a sua garra."
"Mas isso é... imenso", Lorena hesitou, mas seus dedos já traçavam a capa. "Isso faria o ano da minha fundação."
"E será creditado a você", disse Ricardo, sua voz firme. "Cada pedaço dele."
Minha respiração falhou. O sangue rugiu nos meus ouvidos. Saí de trás da palmeira, minhas pernas parecendo chumbo. "Esse é o meu projeto", afirmei, minha voz tremendo apesar dos meus melhores esforços.
Ricardo se virou, sua expressão endurecendo rapidamente. "Clara. O que você está fazendo aqui?" Seu tom era desdenhoso.
"Aquela pasta", insisti, apontando um dedo trêmulo. "É o projeto do meu centro cultural comunitário. Para o nosso filho."
Ele suspirou, como se eu estivesse sendo inconveniente. "Lorena precisa disso, Clara. Ela está construindo algo do nada. Você tem tudo."
"Você não construiu nada do nada", retruquei, minha voz falhando. "Aquele projeto era minha alma. Era para nós. Para ele."
A mandíbula de Ricardo se contraiu. "Não seja dramática. É apenas um projeto. E vai fazer muito bem, agora. Para a Lorena."
O silêncio se estendeu entre nós, denso e sufocante. Lorena agarrou a pasta com mais força, um sorriso malicioso surgindo em seus lábios.
"Obrigada, Clara", disse Lorena, sua voz pingando falsa sinceridade. "Farei questão de honrar sua... visão original."
Ricardo abriu a porta do jardim de inverno para Lorena. Ela passou por mim, seu perfume enjoativamente doce. Ele não olhou para trás.
O carro preto elegante partiu, deixando-me sozinha na grande e vazia entrada. As primeiras gotas de chuva salpicaram meus ombros nus.
Tirei meus saltos. O asfalto frio parecia gelo sob meus pés. Eu andei, sem me importar para onde. A chuva começou a cair forte.
Através do aguaceiro, eu ouvi. A risada deles. Livre, alegre, totalmente alheia. Cortou a noite como uma faca.
Lembrei-me dos votos de Ricardo, cinco anos atrás. "Para sempre", ele havia prometido, seus olhos brilhando. "Sempre."
Ele não era sempre. Ele era nunca. O homem que estava ao meu lado no dia do nosso casamento era um estranho. Aquele que realmente me machucou foi ele.
De alguma forma, consegui voltar para a cobertura. As luzes da cidade se borraram através das janelas manchadas de chuva. Senti uma tontura súbita e vertiginosa.
Minhas pernas cederam. Caí no chão de mármore frio, minha cabeça batendo no chão com um baque surdo. Tudo girou.
Horas depois, a porta do quarto rangeu ao abrir. Ricardo. Ele me encontrou ali, um monte no chão. Seus olhos se arregalaram.
Ele correu até mim, levantando-me em seus braços. "Clara? O que aconteceu?" Sua voz estava carregada de uma preocupação que parecia estranha.
Ele me carregou para a cama, acariciando meu cabelo. Seu toque era quase terno. Era como ele costumava me segurar.
Um cheiro enjoativo do perfume de Lorena grudado nele. Estava em toda parte. Na camisa dele, no cabelo dele, na pele dele.
"Você está cheiroso", eu disse, minha voz mal um sussurro. Minhas próprias palavras tinham gosto de cinzas.
Ele recuou, um brilho de culpa em seus olhos. "Não é nada. Apenas... negócios."
"Claro", eu disse, olhando fixamente para o teto. "Negócios. E quando os negócios acabarem, você vai voltar para mim, não vai? Como um bom garotinho."
Ele suspirou, um som longo e cansado. "Clara, você sabe que eu sempre volto para casa para você."
Mas suas palavras não traziam conforto. Eram apenas promessas vazias. Eu não conseguia nem chorar. Minhas lágrimas haviam secado há muito tempo.
Eu o encarei, entorpecida. Ele era meu marido. E ele era um estranho.
O som agudo de metal me acordou. Minha cabeça latejava. Sentei-me de repente na cama, desorientada.
Lorena estava no meu escritório, vasculhando meus projetos. Meu espaço privado. Meus desenhos.
Ela segurou um pergaminho enrolado, um projeto para um centro comunitário, aquele que significava tudo para mim. "Estou com problemas na integridade estrutural aqui", disse ela, sem um pingo de vergonha. "Você é a especialista. Me ajude a consertar."
Eu a encarei, minha garganta apertada de nojo. "Não", consegui dizer, minha voz rouca. "Eu não vou."
Seus olhos se estreitaram. "Não seja difícil, Clara. Ricardo disse que você seria cooperativa."
"Ricardo disse muitas coisas", retruquei, levantando-me da cama. Minha cabeça ainda girava.
"Olha, eu sei que isso é difícil para você", ela continuou, sua voz falsamente gentil. "Mas este projeto é minha grande chance. Eu preciso dele."
Ela deu um passo mais perto, gesticulando com o projeto. Em seu descuido, o canto do pergaminho pesado arranhou bruscamente meu braço. Uma fina linha de sangue surgiu.
"Meu Deus! Sua desastrada!" Lorena gritou, agarrando a própria mão como se eu a tivesse atacado. "Você tentou me machucar!"
Nesse exato momento, Ricardo entrou na sala, seus olhos caindo instantaneamente na angústia fingida de Lorena. "O que aconteceu aqui?" Sua voz era fria.
Lorena explodiu em lágrimas teatrais. "Ela... ela me atacou, Ricardo! Ela não quer que eu tenha sucesso!"
Ele nem olhou para o meu braço sangrando. Seu olhar estava fixo em Lorena, depois se voltou para mim com puro desprezo. "Clara, o que você fez?"
"Ela me arranhou", eu disse, estendendo meu braço, um gesto fútil. "Ela fez isso em si mesma."
A expressão de Ricardo suavizou por uma fração de segundo quando seus olhos pousaram no sangue. Mas desapareceu tão rápido quanto veio. "Não se faça de vítima, Clara", ele rosnou. "Você é melhor que esse truque barato."
"Peça desculpas à Lorena", ele ordenou, sua voz de aço. "E então você vai ajudá-la com este projeto. Você vai ensiná-la tudo o que ela precisa saber."
Meu queixo caiu. "Pedir desculpas? Pelo quê? E você quer que eu... entregue o trabalho da minha vida para ela?"
"Os negócios da sua família", disse Ricardo, sua voz baixando para um sussurro perigoso, "ainda dependem muito dos meus investimentos, Clara. Não se esqueça disso."
Minha respiração ficou presa na garganta. Minha família. Minha lealdade a eles era minha maior vulnerabilidade. Ele sabia disso.
Engoli em seco, o gosto metálico de sangue enchendo minha boca. "Tudo bem", engasguei. "Eu vou ajudá-la."
Observei, entorpecida, enquanto Lorena reunia meus projetos, fazendo perguntas que eu respondia mecanicamente. Cada palavra parecia uma traição à minha própria alma.
Quando ela finalmente saiu, um sorriso triunfante no rosto, eu desabei no chão. As lágrimas vieram então, quentes e ardentes.
Ricardo reapareceu na porta. Ele me observou, seu olhar indecifrável. "Chorando de novo?", ele perguntou, uma nota estranha em sua voz.
Eu rapidamente enxuguei meus olhos, forçando uma compostura que não sentia. "Apenas cansada", murmurei. "E meu braço está ardendo."
Ele pareceu relaxar, uma mudança sutil em seus ombros. "Bom. Porque amanhã, você estará no meu braço. No evento de lançamento da Lorena."
Ele se virou e saiu. Deixei as lágrimas caírem livremente então. Não para ele ver. Nunca mais para ele ver.