Correndo pelas ruas molhadas da cidade, com os pulmões ardendo e o capuz encharcado, a liberdade parecia um vazio gelado para Sofia. Sua primeira parada não foi um abrigo, mas um instituto médico para doar seu corpo para a ciência, um último ato para o orfanato Santa Clara, o único lar que conheceu. No entanto, o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) terminal confirmou o que seu corpo já gritava.
Com o cheque de compensação em mãos, seu plano de um adeus final foi brutalmente interrompido: capangas de seu ex-torturador, Pedro, a encurralaram. Em sua fuga desesperada, ela trombou com Gabriel, o grande amor de sua vida, que a olhou com um desprezo cortante. Ao lado dele, Isabella, sua inimiga de infância, regozijava-se. Gabriel, acreditando nas mentiras dela, não só a entregou aos capangas de Pedro, mas a humilhou publicamente, chamando-a de "lixo" diante de Isabella e seus homens.
De volta a um cativeiro ainda pior, Sofia foi abusada, não como um amante, mas como um objeto para despejar ódio. Gabriel a obrigou a planejar o casamento dele e de Isabella, sussurrando sobre a gravidez da noiva e a alegria que ela nunca poderia ter. A dor nas entranhas de Sofia era insuportável, mas o pior ainda estava por vir: em um iate, diante de convidados e após Isabella encenar um incidente, Gabriel a forçou a admitir uma culpa inexistente, derramou uísque sobre ela e a fez ajoelhar e beber, humilhando-a perante a alta sociedade.
Afinal, por que Gabriel se tornou um mostro? Por que ele a odeia tanto e acredita em cada palavra de Isabella? Como uma promessa feita à beira da morte em um incêndio, onde a irmã de Gabriel, Ana, morreu, selou o destino de Sofia? O que ela fez para merecer tanta crueldade, especialmente de alguém que um dia prometeu protegê-la?
Paralisada, sem mais nada a perder, Sofia foi jogada no mar, obrigada a doar medula óssea para Isabella, e finalmente jogada em um incêndio orquestrado por Gabriel. No entanto, mesmo na beira da morte, Sofia protegeu o segredo de Ana, levando consigo a verdade sobre quem realmente salvou Gabriel. Será que um dia ele descobrirá a verdade e a dimensão do sacrifício de Sofia?
Sofia correu pelas ruas molhadas da cidade, o ar frio queimando seus pulmões já fracos, o capuz de seu moletom surrado encharcado pela garoa fina, mas persistente. Cada passo era um esforço, um protesto de seus músculos que já começavam a traí-la. Ela não olhou para trás, não ousava, o medo de ver os portões daquele centro de reabilitação, que mais parecia uma prisão, a impulsionava para frente. Liberdade. A palavra ecoava em sua mente, mas não trazia alegria, apenas um vazio gelado.
Seu primeiro ato como uma mulher livre não foi procurar um abrigo ou comida, mas sim entrar em um prédio de vidro espelhado com uma placa discreta: "Instituto de Pesquisa Médica Avançada". Lá dentro, o cheiro de antisséptico era forte, e uma recepcionista de olhar cansado a observou com desinteresse. Sofia não hesitou, sua voz saiu rouca, mas firme.
"Eu quero assinar o termo de doação de corpo para a ciência."
O homem que a atendeu, um médico de meia-idade com olhos gentis chamado Dr. Lucas, a levou para uma sala silenciosa. Ele a examinou com uma expressão de preocupação, notando sua palidez e a forma como suas mãos tremiam sutilmente.
"Você tem certeza disso, senhorita?", ele perguntou, sua voz calma. "Este é um novo programa experimental, usamos um reagente químico para acelerar a pesquisa. O processo... é irreversível e completo. Seu corpo será dissolvido."
Sofia apenas assentiu, um sorriso fraco e melancólico em seus lábios. "Eu sei, é por isso que estou aqui."
Dr. Lucas suspirou, empurrando uns papéis sobre a mesa. "Há uma compensação financeira significativa. Cinquenta mil reais. Precisamos que você nos diga para quem o dinheiro deve ser enviado após... o procedimento."
"Para o Orfanato Santa Clara", ela disse sem pensar duas vezes. Aquele lugar era a única lembrança boa de sua infância, antes de tudo desmoronar.
Enquanto ela assinava os papéis, sua mão direita falhou por um instante, um espasmo violento a fez borrar a assinatura. Dr. Lucas notou, sua expressão se tornando mais séria. Ele a guiou para uma sala de exames, insistindo em fazer alguns testes rápidos. A verdade veio logo depois, fria e clínica como o ambiente ao redor.
"Sofia", ele começou, com uma delicadeza que ela não ouvia há anos, "seus sintomas... são consistentes com Esclerose Lateral Amiotrófica. ELA. É uma doença degenerativa, e está em um estágio avançado. Você tem pouco tempo. Talvez alguns meses."
A notícia não a chocou, era apenas a confirmação do que seu corpo já lhe dizia aos gritos. Ela se sentiu estranhamente calma, como se uma jornada longa e dolorosa estivesse finalmente chegando ao seu destino. A morte não era mais um monstro no escuro, era uma certeza, uma espécie de libertação.
Com o cheque da compensação em mãos, ela saiu do instituto. O plano era simples: depositar o dinheiro e depois visitar o túmulo de sua família uma última vez. Mas ao virar a esquina, seu coração gelou. Dois homens de terno, com rostos familiares e cruéis, estavam parados ao lado de um carro preto. Eram os homens de Pedro, o diretor do centro de reabilitação.
"Sofia, sua ladra de merda!", um deles gritou, apontando para ela. "Onde você pensa que vai com o dinheiro que roubou?"
O pânico a dominou. Sofia se virou e correu, o corpo protestando a cada movimento. Ela não olhava para onde ia, apenas fugia dos demônios de seu passado recente. Em sua pressa desesperada, ela trombou com força em alguém, o impacto a jogando no chão frio e molhado.
"Olha por onde anda, sua...", a voz masculina parou abruptamente.
Sofia ergueu os olhos, e seu mundo, que já estava em ruínas, se partiu em mais um milhão de pedaços. Aquele cheiro, uma mistura de sândalo e tabaco caro, ela o reconheceria em qualquer lugar. Gabriel. Seu Gabriel. Ele a olhava de cima, a chuva escorrendo por seu rosto perfeitamente esculpido, mas seus olhos, aqueles olhos que um dia a olharam com tanto amor, agora estavam cheios de um desprezo cortante.
"Sofia?", ele cuspiu o nome dela como se fosse veneno.
Os homens de Pedro a alcançaram, a agarrando pelos braços. "Aí está ela, senhor Gabriel! Essa vadia roubou o centro de reabilitação!"
Gabriel não se moveu, seu olhar fixo nela, frio como gelo. Ele a analisou no chão, suja, magra, patética. "Então é isso que você se tornou? Uma ladra?"
Antes que Sofia pudesse dizer qualquer coisa, uma voz feminina e doce soou ao lado de Gabriel. "Gabi, o que está acontecendo? Quem é essa... mulher?"
Isabella. Sua inimiga de infância, a garota que sempre a atormentou, agora estava ali, agarrada ao braço de Gabriel, usando um vestido caro e um anel de diamante que brilhava mesmo na luz fraca do dia chuvoso. Ela olhou para Sofia com um misto de pena e triunfo.
Gabriel passou o braço ao redor de Isabella de forma protetora. "Não é ninguém, meu amor. Apenas lixo."
A humilhação a atingiu com a força de um soco. Gabriel, o mesmo garoto que a defendia dos insultos de Isabella na escola, agora estava ao lado dela, a chamando de lixo. Uma memória rápida a assaltou: o pátio da escola, Isabella a empurrando na lama, e um jovem Gabriel correndo para ajudá-la, limpando seu rosto e dizendo que sempre a protegeria.
Outra memória, mais forte, mais dolorosa, veio em seguida. Eles, mais velhos, deitados na grama, olhando as estrelas. Ele prometendo a ela um futuro, uma vida inteira juntos. "Eu te amo, Sofia. Para sempre." O "para sempre" dele havia sido destruído por um incêndio, por uma mentira. Um incêndio onde a irmã dele morreu, e Sofia, por um juramento feito à beira da morte, assumiu uma culpa que não era sua. E Gabriel, em sua dor, a odiou. Um ódio que Isabella alimentou com prazer, até tomar o lugar que um dia foi de Sofia.
"Levem-na", a voz de Gabriel a trouxe de volta à realidade brutal. Ele se virou, abraçando Isabella e a guiando para longe da cena, como se a simples presença de Sofia fosse uma contaminação.
Enquanto os homens a arrastavam, Sofia não lutou, seu corpo doente e seu coração partido não tinham mais forças, ela apenas observava as costas de Gabriel se afastarem, levando com ele os destroços do que um dia foi o amor de sua vida.
Pedro agarrou o braço de Sofia com força, suas unhas cravando na pele fina dela. "Achou que podia fugir, sua vadia? Achou que podia roubar de mim?"
A dor física era aguda, mas foi o toque dele que a fez congelar. O mesmo toque que ela sentiu inúmeras vezes naquele quarto escuro no centro de reabilitação. Um calafrio percorreu sua espinha, um medo tão profundo e instintivo que paralisou seus pensamentos. Seus ombros se encolheram, sua cabeça baixou, uma resposta condicionada a meses de tortura. Ela se tornou pequena, submissa, esperando o próximo golpe.
"Deixem-na", a voz de Gabriel cortou o ar, fria e autoritária.
Ele havia parado e se virado, observando a cena com uma expressão de nojo. Isabella se agarrava a ele, sussurrando algo em seu ouvido, provavelmente veneno.
Pedro soltou Sofia com um empurrão. "Senhor Gabriel, essa mulher é uma criminosa. Ela precisa ser punida."
Gabriel se aproximou lentamente, seus sapatos caros pisando nas poças d'água. Ele não olhou para Sofia, mas para Pedro. Tirou a carteira do bolso, pegou um maço de notas e o jogou no chão, aos pés de Pedro. O dinheiro se espalhou na calçada molhada e suja.
"Isso é o suficiente para cobrir o que ela 'roubou'?", Gabriel disse, a voz pingando sarcasmo. "Agora suma da minha frente."
Pedro e seus homens olharam para o dinheiro, depois para Gabriel, e rapidamente se abaixaram para pegar as notas, como cães famintos. A humilhação era palpável. Sofia sentiu as lágrimas queimarem seus olhos, não por si mesma, mas por como Gabriel a via: um problema que podia ser resolvido com dinheiro, uma mercadoria sem valor.
Assim que os homens de Pedro foram embora, Gabriel se virou para ela, seu rosto uma máscara de fúria contida. "Você é inacreditável. Além de tudo, agora você também rouba?"
Ele a agarrou pelo queixo, forçando-a a olhá-lo nos olhos. "O que aconteceu com você, Sofia? Onde está aquela garota que eu conheci? Ou ela nunca existiu? Foi tudo uma mentira?"
A garganta de Sofia se fechou. Ela queria gritar, queria contar a verdade, mas o rosto de Ana, a irmã de Gabriel, apareceu em sua mente. A fumaça, o calor, a promessa.
O fogo crepitava ao redor delas, a fumaça negra enchendo o ar. Ana estava presa sob uma viga de madeira, seu rosto pálido coberto de fuligem, a respiração curta e difícil. Sofia, com o braço queimado e a cabeça sangrando, tentava desesperadamente movê-la.
"Sofia... me escute", Ana tossiu, sangue manchando seus lábios. "Foi minha culpa. Eu... eu acendi as velas perto da cortina. Fui descuidada. Gabriel... ele não pode saber. Ele vai se culpar por ter saído e me deixado sozinha. Ele vai se destruir."
"Não, Ana, nós vamos sair daqui! Gabriel vai nos ajudar!", Sofia soluçou, o desespero a consumindo.
"Não há tempo", Ana agarrou a mão de Sofia, seu aperto surpreendentemente forte. "Jure para mim, Sofia. Jure que você nunca vai contar a ele a verdade. Deixe-o pensar que foi qualquer outra coisa... que fui eu a heroína que tentou te salvar, ou até mesmo... que foi você. Deixe-o te odiar. O ódio o manterá vivo. A culpa o matará. Jure!"
As lágrimas escorriam pelo rosto de Sofia, misturando-se com o suor e a fuligem. Olhando nos olhos da garota que era como uma irmã para ela, ela sussurrou a palavra que selaria seu destino. "Eu juro."
"Responda!", Gabriel gritou, sacudindo-a.
Sofia olhou para ele, o homem que ela amava mais que a própria vida, e tomou uma decisão. Ela cumpriria sua promessa, mesmo que isso a destruísse. Com uma frieza que não sentia, ela forçou um sorriso zombeteiro.
"Aquela garota morreu, Gabriel. No mesmo incêndio que matou sua irmã. A pessoa que está na sua frente é quem eu sou agora. Uma ladra, uma mentirosa. Você não gostou?"
A dor nos olhos dele foi quase imperceptível, mas ela a viu, um vislumbre do homem que ele costumava ser. Mas foi rapidamente substituído por uma fúria gelada.
"Você me dá nojo", ele sibilou, soltando-a com tanta força que ela cambaleou para trás.
Ele se virou para Isabella, que observava tudo com um sorriso vitorioso. "Leve-a. Faça o que quiser com ela. Eu não quero mais vê-la."
Isabella se aproximou de Sofia, seu sorriso se alargando. "Você ouviu, querida. O Gabi não te quer mais por perto."
Dois seguranças, que haviam surgido silenciosamente, agarraram Sofia. Ela não resistiu. Enquanto era arrastada para um carro, ela viu Gabriel se afastar sem olhar para trás. Ele pensava que a estava mandando para longe, para qualquer lugar. Mas Sofia sabia, pelo brilho nos olhos de Isabella e pela presença daqueles homens, que seu destino era muito pior. Ela não estava sendo libertada. Estava sendo levada para uma nova cela, uma prisão pessoal criada pelo ódio de Gabriel e pela maldade de Isabella. E o pior de tudo, era Pedro quem dirigia o carro. Ele olhou para ela pelo espelho retrovisor, um sorriso sádico se espalhando por seu rosto.
"Bem-vinda de volta, Sofia. Senti sua falta."