O desfile foi um sucesso, com flashes e aplausos, confirmando o auge da minha marca "Sofia Dantas" , e tudo o que eu mais queria era celebrar com Pedro, meu noivo e parceiro de negócios que me ajudou a chegar até aqui.
Subi para o escritório dele, no mezanino com vista para a passarela, e foi então que ouvi as vozes: Pedro e Laura, minha eterna rival e ex-noiva dele, tramando contra mim.
Eles planejavam usar minha doença crônica, minha infertilidade, para me desacreditar, me forçar a assinar um contrato que lhes daria controle total sobre o meu legado e, depois, me descartar.
Minha vida desmoronava, mas, em meio ao horror da traição, uma estranha tontura e um enjoo me atingiram: contra todas as expectativas médicas, eu estava grávida do homem que planejava me destruir.
A promessa de uma nova vida pulsava dentro de mim, mas eu sabia que, para proteger meu filho desse monstro, eu teria que morrer para o mundo e renascer das cinhas.
O desfile tinha sido um sucesso absoluto. A ovação, os flashes, os compradores disputando pelas peças da nova coleção... tudo confirmava que a marca "Sofia Dantas" estava no auge. Esgotada, mas com o coração transbordando de alegria, eu só queria comemorar com Pedro, meu noivo e o empresário que me ajudou a chegar até aqui.
Subi para o escritório dele, no mezanino com vista para a passarela agora vazia, esperando encontrá-lo para brindarmos. A porta estava entreaberta e ouvi vozes.
Era Pedro, mas ele não estava sozinho. A outra voz, inconfundível e carregada de um veneno que eu conhecia bem, era de Laura, minha eterna rival no mundo da moda e, ironicamente, ex-noiva dele.
Parei, com a mão no trinco, o coração começando a acelerar por um motivo que não era a euforia do sucesso.
"O nome dela já está consolidado, Pedro. O nome da família dela abriu todas as portas" , dizia Laura, a voz impaciente. "Agora é a hora. Com o talento dela, a minha nova linha vai se tornar a maior do país. Ninguém vai resistir."
Talento dela? Minha linha?
A respiração ficou presa na minha garganta.
"Eu sei, Laura, eu sei" , a voz de Pedro era calma, controladora, como sempre. "O plano está em andamento. Precisamos apenas que ela assine o novo contrato de gestão de marca. Com a assinatura dela, teremos controle total sobre todos os designs, passados e futuros."
Senti um frio percorrer minha espinha. Um novo contrato? Ele me disse que era apenas uma formalidade para expandir os negócios internacionalmente.
"E quanto àquela doença dela?" , perguntou Laura. "É a nossa melhor arma. Ninguém vai acreditar numa mulher instável e doente. Se ela tentar dizer alguma coisa, vamos usar a condição dela para desacreditá-la completamente. Diremos que a doença afetou sua mente, que ela está delirando."
A minha doença crônica. A condição que me impedia de ter filhos, a minha dor mais secreta, que eu só tinha compartilhado com ele. Pedro estava planejando usá-la contra mim.
O mundo girou. O barulho da festa no andar de baixo pareceu distante, um eco de uma vida que não era mais minha.
"É cruel, eu admito" , continuou Pedro, e na sua voz não havia um pingo de remorso, apenas cálculo. "Mas é necessário. Sofia é talentosa, mas é frágil. Ela não tem a garra para levar um império adiante. Nós temos. Ela vai assinar, vai nos dar tudo o que precisamos, e depois... cuidaremos para que ela tenha uma vida 'confortável' , longe de tudo. Ela nem vai entender o que aconteceu."
A bile subiu pela minha garganta. O homem que eu amava, o homem com quem eu ia me casar, estava me descrevendo como um animal a ser abatido depois de ter servido ao seu propósito.
O choque era tão grande que meu corpo inteiro tremia. Agarrei-me à parede para não cair.
E foi nesse momento, em meio ao turbilhão de traição e desespero, que uma estranha sensação tomou conta de mim. Um enjoo súbito, uma tontura diferente da que o choque me causava.
Levei a mão à barriga, instintivamente.
Impossível.
Os médicos foram claros. Minha doença, as medicações... eu não podia ter filhos. Era um fato, uma cicatriz na minha alma.
Mas aquela sensação... eu conhecia. Era a mesma que minha irmã descreveu tantas vezes.
O sangue fugiu do meu rosto. Eu estava grávida. Contra todas as probabilidades, contra toda a ciência, eu carregava um filho de Pedro. Um filho que ele nunca saberia que existia, um filho que nasceria no meio da maior traição da minha vida.
A dor no meu peito era física, aguda. Pior que a traição, pior que o roubo dos meus sonhos, era a constatação de que eu tinha dado tudo a ele, até mesmo um milagre que eu nem sabia que era possível, e ele estava planejando me destruir.
Lembrei-me de suas promessas, sussurradas em noites como esta. "Nós vamos construir um império juntos, meu amor. Você e eu, contra o mundo." "Não se preocupe com filhos, Sofia. Você é tudo o que eu preciso."
Mentiras. Cada palavra, uma mentira cuidadosamente construída para me manter dócil, para me fazer entregar meu talento, meu nome, minha vida.
"Só tenha certeza de que ela não suspeite de nada" , alertou Laura. "Se ela descobrir antes de assinar o contrato, perdemos tudo. E não se esqueça de queimar o ateliê antigo dela depois. Nenhuma prova, nenhum rascunho pode sobrar."
Queimar meu ateliê. O lugar onde tudo começou, onde cada sonho meu tomou forma. Eles queriam apagar a minha existência.
O desespero era uma onda escura me engolindo. Eu não tinha ninguém. Meus pais já haviam falecido, e Pedro tinha se encarregado de me afastar de todos os meus amigos, dizendo que eles tinham inveja do nosso sucesso. Eu estava sozinha.
Não.
Não completamente.
Uma imagem surgiu na minha mente, uma tábua de salvação no meio do naufrágio. Meu padrinho. Um estilista renomado, hoje recluso, que me ensinou tudo o que eu sei. Ele sempre me protegeu, sempre viu a verdade por trás das aparências. Ele era minha única esperança.
Sem pensar duas vezes, dei as costas àquela porta, ao meu futuro destruído. Desci as escadas de serviço, ignorando os olhares curiosos. Ignorei meu motorista, meu carro, minha vida.
Corri para a rua, o ar frio da noite batendo no meu rosto coberto de lágrimas. Eu não sabia para onde ir, apenas que precisava fugir. Eu tinha que chegar até meu padrinho.
Mas eu sentia os olhos deles nas minhas costas. Pedro e Laura não me deixariam escapar tão fácil. Eles me seguiriam, e fariam de tudo para me destruir.
O frio cortava minha pele, mas não era nada comparado ao gelo que se formava no meu coração. Passei a noite andando sem rumo pelas ruas, a mente em branco, o corpo entorpecido. O choque inicial deu lugar a um vazio profundo. A cada passo, as vozes deles ecoavam na minha cabeça. As mentiras, o plano, a crueldade.
O sol começou a nascer, pintando o céu com cores suaves que pareciam uma zombaria para a escuridão dentro de mim. Eu estava exausta, física e emocionalmente. Encostei em um muro em uma rua qualquer, a mão protetoramente sobre minha barriga.
Uma nova vida estava começando dentro de mim, no exato momento em que a minha estava sendo incinerada.
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Voltei para o nosso apartamento antes que Pedro acordasse. O lugar, que antes eu chamava de lar, agora parecia um palco, um cenário montado para a farsa da nossa vida. Cada objeto de decoração, cada porta-retrato com nossos sorrisos, era uma mentira.
Tomei um banho frio, tentando lavar a sujeira da traição, mas ela estava impregnada na minha alma. Vesti um roupão e fiquei sentada na beira da cama, olhando para o nada.
Ouvi a porta do quarto se abrir. Era Pedro. Ele entrou, sorrindo, o mesmo sorriso caloroso que ele usava para me enganar todos os dias.
"Bom dia, meu amor. Você saiu cedo ontem, te procurei por toda parte" , ele disse, a voz cheia de uma falsa preocupação que me revirou o estômago.
Ele se aproximou e tentou me beijar.
Virei o rosto.
O beijo dele acertou minha bochecha. Senti um calafrio de repulsa. Afastei-me um pouco, um movimento sutil, mas que não passou despercebido por ele.
"O que foi, Sofia? Cansada da festa?" , ele perguntou, sentando-se ao meu lado, ainda muito perto. Sua mão pousou no meu ombro. O toque dele queimava.
"Só estou exausta" , respondi, a voz saindo mais fria do que eu pretendia.
Tirei o ombro do seu alcance, levantando-me para ir até a janela. Precisava de distância, de ar.
Pedro me observou, os olhos estreitos por um segundo. Ele era um mestre da manipulação, sentia qualquer mudança no ambiente. Mas logo o sorriso falso voltou ao seu rosto.
"Claro que está. Foi uma noite e tanto" , ele disse, levantando-se e vindo me abraçar por trás. "Mas valeu a pena. Você viu a reação deles? Estamos no topo do mundo, querida. E isso é só o começo."
Ele descansou o queixo no meu ombro, falando perto do meu ouvido.
"Assim que você assinar aquele novo contrato, vamos expandir para a Europa, Ásia... O nome 'Sofia Dantas' será global. E você será a rainha do império que construímos."
Sua voz era sedutora, mas tudo o que eu ouvia era o eco das suas palavras da noite anterior: "Ela vai nos dar tudo o que precisamos" .
Meu corpo estava tenso sob o seu toque. Lutei contra a vontade de gritar, de cuspir na cara dele toda a verdade. Mas eu não podia. Não ainda. Eles me destruiriam, usariam minha condição, minha gravidez... meu filho.
A mão dele desceu pela minha cintura, parando na minha barriga.
"Imagine só, Sofia. Nosso império" , ele sussurrou.
Por um segundo de pânico puro, pensei que ele sabia. Pensei que ele podia sentir a vida que pulsava ali. O ar me faltou.
"Pedro, eu..." , comecei a falar, a voz trêmula. Eu estava prestes a ceder, prestes a dizer tudo, a implorar por uma explicação, por qualquer coisa que fizesse sentido.
Naquele exato momento, o celular dele tocou, estridente, quebrando a tensão no quarto.
O som foi como um balde de água fria, me trazendo de volta à realidade. Cale-se, Sofia. Cale-se ou você perde tudo.
Pedro suspirou, irritado com a interrupção. Ele se afastou para pegar o telefone na mesa de cabeceira.
"O que foi? Estou ocupado" , ele atendeu, ríspido.
Houve uma pausa. A expressão de irritação no rosto dele se transformou em preocupação genuína.
"O quê? Como assim, um acidente? Ela está bem? Onde vocês estão? Estou indo para aí agora."
Ele desligou o telefone, o rosto uma máscara de pânico. Ele nem olhou para mim. Começou a se vestir apressadamente, jogando as roupas pelo quarto.
"O que aconteceu?" , perguntei, a voz um fio. Eu já sabia a resposta.
"É a Laura" , ele disse, sem me encarar, enquanto abotoava a camisa. "Ela sofreu um pequeno acidente no ateliê dela. Parece que uma estrutura de iluminação caiu. Preciso ir até lá."
A mentira era tão descarada, tão mal construída, que era quase um insulto. Um "pequeno acidente" que o deixava em pânico total?
"Laura?" , repeti, sentindo o gelo se espalhar pelas minhas veias. "Sua ex-noiva? Achei que vocês não se falavam mais."
Ele finalmente olhou para mim, e pela primeira vez, vi um lampejo de irritação nos seus olhos, a impaciência de quem não tem tempo para o teatrinho.
"Sofia, agora não é hora para isso. Ela é uma figura importante no mercado, uma parceira de negócios. Seria ruim para a nossa imagem se eu não fosse prestar apoio" , ele disse, a voz dura.
Parceira de negócios. A palavra ficou suspensa no ar, carregada de todo o veneno que eu tinha ouvido na noite anterior.
Ele pegou a carteira e as chaves, pronto para sair. Parou na porta por um instante.
"Nós terminamos nossa conversa depois. E não se esqueça do contrato. O advogado vai trazê-lo hoje à tarde. Apenas assine, querida. É para o nosso futuro."
E com isso, ele se foi.
Fiquei parada no meio do quarto, ouvindo o som dos seus passos apressados no corredor e o bater da porta da frente.
Ele me deixou. No meio de uma conversa, depois de uma noite que deveria ser nossa, ele me abandonou para correr para os braços da mulher com quem planejava me destruir.
A preocupação no rosto dele não era falsa. Era real. Mas não era por uma "parceira de negócios" . Era por ela.
A ficha caiu com a força de um soco. Não era apenas sobre negócios. Nunca foi. Ele ainda a amava. E eu... eu era apenas uma ferramenta. Um degrau.
Senti uma dor aguda no ventre, um espasmo de medo. Abracei minha barriga, as lágrimas que eu segurei a noite toda finalmente rolando quentes pelo meu rosto.
"Ele se foi, meu bebê" , sussurrei para o silêncio do quarto. "Ele nos deixou."
E pela primeira vez, eu entendi a profundidade do abismo em que eu havia caído.
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