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Cinzas no Atlântico: A Promessa Final

Cinzas no Atlântico: A Promessa Final

Autor:: Meng Fan Hua
Gênero: Moderno
Eu saí da prisão de Linhó após cinco anos, o ar frio de Sintra a cortar-me a alma. Mais do que a liberdade, o que me esperava era um cancro terminal e apenas um último desejo: que as minhas cinzas repousassem onde um dia prometemos casar. Para realizar esse último adeus, aceitei um emprego de empregada de mesa, e foi lá que o vi. Diogo Almeida, o homem que amei e que me entregou à polícia, estava noivo. Com a minha melhor amiga. O seu amor por mim transformou-se em ódio puro. Ele não só me fez sua assistente pessoal, forçando-me a suportar a sua crueldade e o espetáculo da sua felicidade com ela, como me torturava em cada olhar. Fiquei calada, ajoelhando-me para limpar o vinho que ele derramou, aceitando as notas que ele atirava, os comentários cruéis. Chamavam-me assassina, mas a verdade era uma máscara que eu usava para o proteger. Ele me odiava, e eu queria que fosse assim. O sofrimento era o meu purgatório, e cada humilhação aproximava-me do meu único objetivo. Até que um incêndio e um acidente me levaram ao limite. Salvei-o, uma última vez, e dei a minha vida por quem me roubou tudo. A minha morte, ele acreditava, era a sua vingança. Mas o vazio que deixou forçá-lo-á a descobrir a verdade por trás do sacrifício que poucos verão, e que mudará o seu mundo para sempre.

Introdução

Eu saí da prisão de Linhó após cinco anos, o ar frio de Sintra a cortar-me a alma.

Mais do que a liberdade, o que me esperava era um cancro terminal e apenas um último desejo: que as minhas cinzas repousassem onde um dia prometemos casar.

Para realizar esse último adeus, aceitei um emprego de empregada de mesa, e foi lá que o vi.

Diogo Almeida, o homem que amei e que me entregou à polícia, estava noivo. Com a minha melhor amiga.

O seu amor por mim transformou-se em ódio puro.

Ele não só me fez sua assistente pessoal, forçando-me a suportar a sua crueldade e o espetáculo da sua felicidade com ela, como me torturava em cada olhar.

Fiquei calada, ajoelhando-me para limpar o vinho que ele derramou, aceitando as notas que ele atirava, os comentários cruéis.

Chamavam-me assassina, mas a verdade era uma máscara que eu usava para o proteger.

Ele me odiava, e eu queria que fosse assim.

O sofrimento era o meu purgatório, e cada humilhação aproximava-me do meu único objetivo.

Até que um incêndio e um acidente me levaram ao limite.

Salvei-o, uma última vez, e dei a minha vida por quem me roubou tudo.

A minha morte, ele acreditava, era a sua vingança.

Mas o vazio que deixou forçá-lo-á a descobrir a verdade por trás do sacrifício que poucos verão, e que mudará o seu mundo para sempre.

Capítulo 1

Os portões da prisão de Linhó abriram-se com um rangido metálico.

Cinco anos.

O ar frio de Sintra atingiu-me o rosto, um ar que já não me pertencia.

Peguei na minha pequena mala, que continha apenas algumas roupas velhas e as cinzas da minha dignidade.

A primeira coisa que fiz não foi procurar um lugar para ficar, mas sim encontrar um café com internet.

Com as minhas poupanças, que mal chegavam para sobreviver, paguei o depósito de um serviço online chamado "Última Viagem". Eles espalhariam as minhas cinzas no mar dos Açores.

No local exato onde eu e o Diogo prometemos casar.

O médico tinha sido claro. Cancro terminal. Restavam-me poucos meses.

Esta era a única coisa que eu queria.

Para pagar o resto, precisava de dinheiro.

Encontrei um anúncio para empregada de mesa numa famosa casa de fados em Alfama. Era um sítio caro, frequentado por gente rica.

A dona, uma senhora de idade com olhos tristes, olhou para os meus papéis de libertação da prisão.

"Não me importo com o teu passado," disse ela. "Só preciso de alguém que trabalhe."

Fui contratada.

Naquela noite, o som do fado enchia o ar. Melancólico, pesado. Como a minha vida.

Enquanto servia uma mesa, ouvi uma voz que me fez gelar o sangue.

"Querida, este anel é perfeito."

Era ele. Diogo Almeida.

O herdeiro do império do Vinho do Porto. O homem que eu amava mais do que a minha própria vida. O homem que me odiava com a mesma intensidade.

Ele não tinha mudado nada. O mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos profundos que antes me olhavam com amor, agora olhavam para a mulher ao seu lado com uma ternura que me rasgava por dentro.

Sofia. A minha melhor amiga.

"Diogo, é lindo," disse ela, a voz doce como veneno. "Quando nos casarmos, quero que toda a Lisboa saiba o quanto me amas."

O meu coração parou.

Casamento.

Uma promessa que ele me fez, num penhasco sobre o mar azul dos Açores.

Tínhamos dezassete anos. Estávamos sentados na relva, a olhar para a Lagoa das Sete Cidades.

"Lara, quando formos mais velhos, vamos casar aqui," disse ele, a voz cheia de sonhos. "Só nós, o mar e o céu."

Eu ri e encostei a cabeça no seu ombro. "Prometes?"

"Prometo."

Esse amor, essa promessa, tudo foi destruído no dia em que a mãe dele morreu.

Eu encontrei-a no seu escritório. Uma carta de suicídio na mesa, revelando um caso com um empregado e dívidas de jogo que arruinariam o nome dos Almeida.

Quando o Diogo chegou, o desespero nos seus olhos era algo que eu nunca poderia esquecer.

Para o proteger, para proteger o legado da sua família, fiz a única coisa que podia.

"Fui eu," disse-lhe, a voz fria, vazia. "Discutimos. Eu empurrei-a."

O amor nos olhos dele transformou-se em puro ódio. Ele próprio me entregou à polícia.

Cinco anos na prisão foram o meu castigo. O cancro foi a sentença final do destino.

Agora, o meu único desejo era cumprir a nossa promessa, mesmo que fosse apenas em cinzas.

De volta à casa de fados, a realidade atingiu-me com força.

Os meus olhos encontraram os dele.

O reconhecimento foi instantâneo. O choque, depois a raiva pura.

Ele levantou-se, caminhou na minha direção. Cada passo era uma ameaça.

"O que fazes aqui?", a sua voz era um sussurro perigoso.

Antes que eu pudesse responder, ele pegou num copo de vinho da minha bandeja e entornou-o deliberadamente no chão.

O vinho tinto espalhou-se pelo chão de pedra como sangue.

"Limpa," ordenou ele, alto o suficiente para que todos ouvissem.

Os murmúrios começaram. "É ela, a assassina." "Que descaramento, aparecer aqui."

A humilhação era um fogo que me consumia por dentro, mas o meu rosto permaneceu uma máscara de gelo.

Ajoelhei-me, os joelhos a protestarem na pedra fria, e comecei a limpar a nódoa com um guardanapo.

Senti o seu olhar sobre mim, um misto de ódio e algo mais, algo que me assustava.

Quando terminei, o gerente aproximou-se, o rosto pálido.

"Senhorita, o prejuízo... o chão de pedra manchado... vai custar-lhe todo o seu salário."

"Não se preocupe," a voz de Diogo cortou o ar. Ele virou-se para mim, um sorriso cruel nos lábios. "Ela pode pagar de outra forma."

Ele agarrou-me pelo braço, arrastando-me para um corredor escuro.

"Queres dinheiro, não é?", sibilou ele. "Precisas de dinheiro para sobreviver neste mundo que te despreza."

Ele atirou um maço de notas para o chão, aos meus pés.

"Torna-te a minha assistente pessoal. Fica ao meu lado, 24 horas por dia. Faz tudo o que eu mandar. Eu pago-te."

Era um pretexto. Uma forma de me manter por perto, de me torturar.

Eu sabia-o. E ele sabia que eu sabia.

"Porque farias isso?", perguntei, a voz um fio.

Ele riu, um som sem alegria. "Porque olhar para a tua cara de sofrimento é o único prazer que me resta. Porque ver a assassina da minha mãe a rastejar aos meus pés é a minha vingança."

Eu olhei para o dinheiro no chão. Depois para os seus olhos.

O dinheiro significava os Açores. Significava paz.

Inclinei-me e apanhei as notas.

"Aceito."

Ele sorriu, um sorriso vitorioso. Puxou-me de volta para a sala principal, a tempo de ver Sofia a beijá-lo apaixonadamente.

"Vês? Esta é a tua vida agora. Vais assistir à minha felicidade, todos os dias."

E assim começou o meu sacrifício final.

Capítulo 2

O carro de luxo de Diogo deslizava pelas ruas de Lisboa, mas eu sentia-me como se estivesse num carro funerário a caminho do meu próprio enterro.

Ele e a Sofia sentavam-se no banco de trás, as suas vozes e risos a ecoarem no espaço confinado.

Eu estava no banco da frente, ao lado do motorista, uma sombra silenciosa.

"Amor, a festa no iate vai ser incrível," dizia Sofia. "Toda a gente importante vai estar lá."

"Só o melhor para ti," respondeu Diogo.

Eu olhava pela janela, para as luzes da cidade a passarem, mas não sentia nada. Era como se o meu corpo estivesse presente, mas a minha alma já tivesse partido. Um cadáver ambulante, como ele queria.

Não chorei. As minhas lágrimas secaram na prisão.

Chegámos ao seu apartamento, uma penthouse com vista sobre o rio Tejo.

Ele ordenou-me que preparasse o quarto deles.

"E depois, limpa tudo. Não quero vestígios."

Sofia tentou intervir, uma falsa bondade no seu olhar. "Diogo, não sejas tão duro com ela. Afinal, éramos amigas."

"Isto não é sobre dureza, Sofia. É uma transação justa. Ela quer o meu dinheiro, eu quero a minha vingança."

A sua crueldade era fria e calculada.

Os dias seguintes foram um borrão de humilhação.

Ele levava-me para todo o lado. Jantares de negócios, festas exclusivas, eventos de caridade.

Forçava-me a beber até quase cair, a servir a Sofia como uma criada, a ficar de pé durante horas enquanto eles dançavam.

Depois de cada evento, ele atirava-me dinheiro. Notas amarrotadas, sujas, como se eu fosse lixo.

Eu apanhava cada uma delas.

Em silêncio.

O meu objetivo era claro. Juntar dinheiro suficiente para pagar a "Última Viagem" e desaparecer para sempre. Sem deixar vestígios.

A festa de aniversário da Sofia foi o auge da sua ostentação.

Um iate luxuoso navegava pelo Tejo, a música alta, o champanhe a jorrar.

Sofia usava uma pulseira de diamantes deslumbrante.

"Foi um presente da mãe do Diogo," disse ela a uma amiga, alto o suficiente para eu ouvir. "Ele disse que ela gostava muito de mim."

Uma mentira. A mãe dele mal a suportava. A pulseira... tinha sido um presente para mim, no meu décimo oitavo aniversário.

Eu observava a cena, uma dor surda no peito. Lembrei-me do nosso próprio noivado, planeado para ser grandioso, uma celebração do nosso amor.

Ouvi os comentários à minha volta.

"Como é que ele a consegue manter por perto?"

"Ela merece cada segundo disto. Matou a mãe dele a sangue frio."

Eu era a vilã da história deles. E tinha de continuar a ser.

Mais tarde, Sofia encontrou-me sozinha no convés.

"Sabes, Lara, eu sempre o amei," confessou ela, sem qualquer vestígio da sua doçura fingida. "Tu tinhas tudo. E arruinaste-lhe a vida."

"Eu vou desaparecer em breve," disse eu, a voz cansada.

Ela riu. "Não acredito em ti. Vais sempre tentar voltar para ele."

Num movimento rápido, ela tirou a pulseira de diamantes do pulso.

"Vês isto? Agora é meu. Tudo o que era teu é meu."

E com um sorriso malicioso, atirou a pulseira para as águas escuras do Tejo.

"Ups. Acho que a deixei cair. És a assistente dele, não és? Vai buscá-la."

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