Sete minutos podem parecer pouco para quem nunca precisou escolher entre pegar o ônibus certo ou comprar almoço.
Para mim, sete minutos eram uma catástrofe cuidadosamente calculada.
Eu estava atrasada para a entrevista mais importante daquele semestre, correndo pela avenida principal da Universidade Santa Aurora com uma pasta azul apertada contra o peito, uma mochila escorregando do ombro e a sensação muito específica de que meu coração estava tentando pedir demissão do meu corpo.
O celular vibrou na minha mão.
Maya:
Você chegou?
Digitei enquanto desviava de dois estudantes que tinham decidido parar no meio da calçada para discutir alguma coisa sobre um trabalho em grupo.
Eu:
Quase.
A resposta veio antes que eu conseguisse atravessar a rua.
Maya:
"Quase" é a palavra que as pessoas usam quando ainda estão longe.
Revirei os olhos.
Eu:
Obrigada pelo apoio emocional.
Maya:
Sempre. Vai dar certo. Só não ameaça ninguém da banca, Lu.
Sorri apesar do desespero.
Maya tinha uma teoria inconvenientemente precisa de que eu parecia "simpática até ser contrariada". Segundo ela, meu rosto tinha o hábito de anunciar uma discussão antes mesmo que eu abrisse a boca.
Eu discordava.
Na maior parte do tempo.
Mas, naquela manhã, com o cabelo preso de qualquer jeito, o café da manhã reduzido a uma banana amassada na mochila e o salto baixo da minha bota batendo com força demais no chão, talvez eu não fosse exatamente a imagem da serenidade.
O Ginásio Afonso Rios ficava na extremidade mais distante do campus, uma espécie de punição arquitetônica para quem estudava Comunicação Social e achava que não precisaria frequentar a área esportiva da universidade.
Do outro lado da praça central, os prédios de Direito, Administração e Engenharia se erguiam em linhas retas, sérias e pretensiosas. Já o ginásio parecia viver em um universo próprio: paredes de concreto claro, enormes janelas de vidro e faixas azuis penduradas na fachada, celebrando vitórias que eu não sabia se eram recentes ou apenas importantes demais para serem retiradas.
Em uma delas, lia-se:
SANTA AURORA FUTSAL - TRADIÇÃO, GARRA E FUTURO.
Abaixo, havia uma foto de jogadores comemorando em uma quadra, todos suados, sorrindo e erguendo algum troféu dourado que, para mim, parecia exatamente igual a todos os outros troféus dourados do mundo.
Não que eu não respeitasse esporte.
Eu respeitava.
De longe.
Com a mesma reverência que se tem por animais grandes, rápidos e barulhentos.
- Luiza Paes? - uma voz chamou atrás de mim.
Virei depressa, já imaginando que alguém da banca tinha saído para me procurar.
Mas era apenas um garoto de boné vermelho, carregando uma caixa de garrafas de água. Ele me olhou como se estivesse tentando confirmar se eu era alguém importante ou se apenas parecia perdida.
- Sala de reuniões? - perguntei, sem fôlego.
Ele apontou para o corredor à esquerda.
- Segunda porta depois dos vestiários.
- Obrigada.
- Boa sorte - ele acrescentou, talvez por pena.
Eu corri pelo corredor.
O problema de correr com uma pasta cheia de folhas impressas é que, em algum momento, você deixa de parecer uma jovem profissional determinada e passa a parecer uma pessoa sendo perseguida por uma enchente de papel.
Eu estava ajustando a pasta contra o peito quando virei a esquina rápido demais.
E bati em alguém.
Não foi uma batida discreta.
Foi do tipo que faz o mundo parar por um segundo, o café voar em câmera lenta e a dignidade escolher um lugar distante para se esconder.
O copo de papel que a pessoa segurava virou completamente sobre a minha pasta.
Minha pasta.
Minha apresentação.
Meu plano de comunicação para a vaga de assistente de mídias esportivas.
Meu futuro, agora salpicado de café com leite.
- Droga! - exclamei, tentando segurar as folhas antes que caíssem no chão.
- Você está bem? - perguntou uma voz masculina.
Era uma voz calma demais para alguém que acabara de destruir o equivalente a três noites sem dormir.
- Eu estaria melhor se o seu café não tivesse decidido participar da minha entrevista.
A pessoa diante de mim ficou em silêncio por meio segundo.
Depois, estendeu algumas folhas de guardanapo.
- Você saiu correndo sem olhar para onde ia.
Ergui os olhos.
E imediatamente entendi por que pessoas bonitas deviam ser obrigadas a carregar uma espécie de aviso prévio.
Cuidado: aparência pode causar irritação desnecessária.
Ele era alto, com os cabelos castanhos um pouco bagunçados, como se tivesse passado a mão por eles várias vezes ao longo da manhã. Vestia uma camiseta preta simples, uma calça de moletom cinza e um casaco azul-marinho com o emblema da Universidade Santa Aurora no peito.
O uniforme não era exatamente chamativo.
O problema era quem o usava.
Ele tinha aquele tipo de rosto que parecia ter sido treinado para campanhas publicitárias: mandíbula marcada, sobrancelhas escuras, olhos claros demais para alguém que acabara de me fazer querer cometer um crime de baixa complexidade.
Mas havia algo irritante em sua expressão.
Não arrogância, exatamente.
Pior.
Diversão.
- Eu estava olhando - respondi, tirando a folha mais manchada da pasta. - Você que estava ocupando metade do corredor.
Ele olhou para os próprios ombros, como se estivesse considerando a possibilidade de diminuí-los por alguns centímetros.
- Isso não parece muito possível.
- Tenta.
O sorriso dele apareceu de lado.
Pequeno.
Quase involuntário.
E, por algum motivo, isso me irritou ainda mais.
Ele se abaixou para recolher duas folhas que tinham caído perto dos meus pés. Quando me entregou uma delas, seus olhos passaram pela primeira página da apresentação.
Plano de Comunicação - Futsal Santa Aurora.
Seu olhar demorou um segundo a mais do que deveria.
- Entrevista? - perguntou.
- Não parece uma inscrição para um concurso de dança.
- Nunca se sabe. Esse campus tem uns clubes bem específicos.
- Você sempre conversa assim com desconhecidas que atropela no corredor?
- Você sempre responde assim quando alguém tenta ajudar?
- Você está ajudando porque se sente culpado.
- Eu me sinto um pouco culpado.
- Ótimo. Continue.
Ele riu.
De verdade, dessa vez.
E eu odiei que a risada dele tivesse sido mais agradável do que deveria.
Peguei as folhas da mão dele, tentando ignorar o fato de que meus dedos tocaram os seus por um instante.
- Obrigada pelos guardanapos - falei, porque minha mãe tinha me ensinado educação antes de me ensinar a desconfiar de homens bonitos.
- De nada.
Ele olhou para o corredor à frente.
- A sala de reuniões é por ali.
- Eu sei.
- Claro que sabe.
- Eu só estava... verificando se você sabia.
- Faz sentido.
A vontade de revirar os olhos voltou.
- Bom dia - falei, deixando claro que aquilo significava "vá embora".
- Boa sorte, então.
Ele se afastou pelo corredor, sem pressa, como se não tivesse acabado de derramar café em um dos poucos documentos capazes de mudar a minha vida naquele semestre.
Fiquei olhando por dois segundos mais do que deveria.
Não porque ele fosse bonito.
Quer dizer, ele era.
Mas principalmente porque eu tentava decidir se tinha sido mais irritante a forma como ele sorriu ou a certeza insuportável de que ele sabia disso.
Quando percebi que ainda estava parada no corredor, olhei para o relógio no celular.
Sete minutos de atraso tinham virado nove.
- Perfeito - murmurei.
Ajeitei a pasta, respirei fundo e bati à porta da sala de reuniões.
- Pode entrar - respondeu uma mulher do lado de dentro.
Abri a porta.
A sala era menor do que eu imaginava, com uma mesa oval no centro, cadeiras pretas e uma janela de vidro que dava para a quadra. Do lado de fora, alguns jogadores treinavam passes rápidos, enquanto o som de tênis contra o piso ecoava pelo ginásio.
Havia três pessoas sentadas à mesa.
Uma mulher de cabelos curtos e grisalhos, com um notebook aberto diante de si. Um homem mais velho, de camisa polo azul, que eu reconheci das fotos no site da universidade como o professor Álvaro Mendonça, técnico do futsal. E uma mulher jovem, de blazer bege, que eu imaginava ser alguém da área administrativa.
- Luiza Paes? - perguntou a mulher de cabelos curtos.
- Sim. Desculpem o atraso. O ônibus atrasou e eu...
Ela levantou a mão com gentileza.
- Sem problema. Pode se sentar.
Eu me sentei, apoiando a pasta no colo para esconder a mancha de café na capa.
A mulher sorriu.
- Sou Helena Duarte, coordenadora de comunicação institucional. Este é o professor Álvaro, técnico do time, e esta é Patrícia Lemos, da diretoria de esportes.
- Prazer - eu disse.
- Prazer, Luiza - respondeu Patrícia. - Nós analisamos seu portfólio. Gostamos especialmente do projeto que você desenvolveu para a biblioteca comunitária do bairro São Miguel.
Meu corpo relaxou um pouco.
Só um pouco.
- Obrigada. Foi um projeto pequeno, mas a ideia era tornar o espaço mais acessível para os estudantes do ensino médio.
- Você conseguiu aumentar o número de inscrições em quase quarenta por cento - disse Helena.
- Porque a biblioteca tinha um problema de comunicação, não de falta de público. Muita gente não sabia que podia frequentar o espaço.
- E você acha que o futsal da Santa Aurora tem um problema parecido? - perguntou o professor Álvaro.
Olhei para ele.
Depois, para a janela.
Na quadra, os jogadores se movimentavam em blocos rápidos, acompanhando o apito de alguém que eu não conseguia ver.
- Acho que o time já tem público - respondi. - Mas talvez não tenha uma narrativa.
Helena inclinou a cabeça.
- Explique.
Eu abri a pasta. Algumas páginas ainda tinham marcas de café, mas meu planejamento continuava legível. E, quando comecei a falar sobre trabalho, a ansiedade quase sempre encontrava um lugar para se esconder.
- A comunicação atual foca muito em resultados. Vitórias, treinos, rankings, placares. Isso funciona para quem já acompanha futsal. Mas não cria conexão com quem ainda não acompanha.
Patrícia cruzou os braços.
- E como você faria diferente?
- Eu mostraria histórias. Não apenas do time como instituição, mas das pessoas. Os alunos-atletas, a rotina, as dificuldades, os bastidores. Quem está de fora precisa entender que existe mais do que uma camisa e um placar.
O professor Álvaro me observava com atenção.
- Você acha que os atletas deveriam se expor mais?
- Não necessariamente. Acho que deveriam aparecer de forma mais humana.
- Humana? - ele repetiu.
- Sim. Hoje, as redes sociais do time parecem uma campanha permanente de energia, vitória e superação. Todo mundo sorrindo, todo mundo forte, todo mundo pronto. Mas ninguém é assim o tempo inteiro.
Helena digitou algo no notebook.
- E você acredita que isso atrairia mais público?
- Acredito que pessoas se conectam com pessoas. Não com slogans.
Por um instante, ninguém falou nada.
Eu me perguntei se tinha exagerado.
Talvez tivesse sido direta demais. Maya diria que eu tinha usado meu "tom de apresentação para tribunal", aquele que aparecia quando eu achava que precisava provar alguma coisa.
Mas eu precisava.
A vaga era uma bolsa complementar de trabalho. Se conseguisse, eu teria dinheiro suficiente para continuar no apartamento com Maya, comprar os livros que a faculdade insistia em indicar e, quem sabe, passar um mês sem calcular o preço de tudo antes de colocar no carrinho do mercado.
Não era apenas um estágio.
Era a diferença entre continuar e precisar desistir.
- Você tem experiência com esporte? - perguntou Patrícia.
Eu poderia ter mentido.
Poderia dizer que assistia a jogos com meu pai ou que acompanhava campeonatos universitários. Poderia inventar uma história simpática sobre como sempre fui apaixonada por futebol.
Mas eu não era.
- Não tenho - respondi. - Mas tenho experiência em entender público, construir linguagem e criar conteúdo que faça sentido para as pessoas certas.
Helena sorriu, quase imperceptivelmente.
- Resposta honesta.
- Eu espero que isso conte pontos.
- Conta.
A porta se abriu atrás de mim.
- Desculpem o atraso.
Reconheci a voz antes mesmo de me virar.
Meu estômago fez uma coisa estranha e, por um segundo, eu considerei a possibilidade de me esconder debaixo da mesa.
O garoto do café entrou na sala com a mesma calma irritante de antes, agora segurando uma garrafa de água e um celular na mão.
Ele olhou para mim.
Depois, para a pasta manchada sobre a mesa.
E teve a decência de parecer surpreso.
- Ah - ele disse.
Ah.
Era tudo o que ele tinha a dizer.
Helena se levantou um pouco na cadeira.
- Luiza, este é Caio Vilar. Capitão do time e representante dos atletas no projeto de comunicação.
Claro.
É claro que ele era o capitão.
Porque o universo parecia ter um senso de humor particularmente cruel quando se tratava de mim.
Caio se sentou na cadeira vazia ao meu lado.
Muito perto.
Perto o suficiente para eu sentir o cheiro leve de sabonete e café recém-tomado.
- Prazer - ele disse, estendendo a mão.
Eu olhei para ela.
Depois, para ele.
- Nós já nos conhecemos.
O professor Álvaro franziu a testa.
- Já?
- Um encontro rápido no corredor - Caio respondeu.
- Ele derramou café no meu projeto - esclareci.
Caio levou a mão ao peito em uma expressão dramática.
- Foi um acidente.
- Foi um desastre logístico.
Patrícia tentou esconder um sorriso.
Helena olhou para mim, depois para ele, como se tivesse acabado de encontrar algo muito mais interessante do que uma entrevista de estágio.
- Bem - disse ela. - Parece que vocês já quebraram o gelo.
- Eu não diria isso - respondi.
- Nem eu - disse Caio ao mesmo tempo.
Nossos olhares se cruzaram.
E, por uma fração de segundo, eu tive a sensação de que ele estava me desafiando a continuar.
Helena apoiou os cotovelos na mesa.
- Caio, Luiza estava nos explicando a proposta dela para a comunicação do time.
- Estou curioso - ele disse.
- A proposta é humanizar a imagem dos atletas - explicou o professor Álvaro.
Caio arqueou uma sobrancelha.
- Então ela acha que a gente não parece humano?
- Eu acho que vocês parecem personagens de uma propaganda de bebida energética - falei antes de pensar.
O silêncio foi imediato.
Patrícia soltou uma risada curta.
O professor Álvaro pigarreou.
E Caio apenas me olhou.
Por um instante, achei que ele ficaria ofendido.
Mas então ele inclinou a cabeça e sorriu daquele jeito lento, irritante e perigosamente bonito.
- Talvez seja porque quase nunca deixam a gente falar de outra coisa além de jogo.
A resposta me pegou desprevenida.
Não porque fosse profunda.
Mas porque era honesta.
E porque eu não esperava honestidade dele.
Helena fechou o notebook.
- Ótimo. Acho que já temos um ponto de partida.
Meu coração disparou.
- Isso significa...?
- Significa que gostaríamos de oferecer a você uma experiência inicial no projeto - disse ela. - Duas semanas de trabalho com a equipe de comunicação esportiva. Você acompanhará o time, produzirá um plano de conteúdo e trabalhará diretamente com alguns jogadores.
Eu quase parei de respirar.
- Eu aceito.
Talvez eu tenha respondido rápido demais.
Mas ninguém pareceu se importar.
- Ótimo - disse Patrícia. - Começamos na segunda-feira.
Helena olhou para Caio.
- E, como parte da estratégia, você será a principal pessoa acompanhada pela Luiza nesse primeiro período.
O sorriso dele desapareceu por um segundo.
Só por um segundo.
Depois voltou, mais discreto.
- Entendi.
Eu fechei a pasta devagar.
Caio virou o rosto na minha direção.
- Então vamos trabalhar juntos.
A frase parecia simples.
Inofensiva.
Mas havia alguma coisa no jeito como ele disse aquilo que fez meu instinto inteiro acender em alerta.
Não era apenas o café.
Não era apenas o sorriso.
Era a sensação de que Caio Vilar era exatamente o tipo de pessoa que aparecia na sua vida no momento errado, bagunçava todas as gavetas e ainda fazia você se perguntar se a culpa era sua por ter deixado a porta aberta.
Quando saí da sala, dez minutos depois, fui direto para o corredor e encostei as costas na parede fria.
Meu celular vibrou.
Maya:
E aí? Você conseguiu?
Olhei para a porta da sala.
Caio ainda estava lá dentro, falando com o técnico. Pela janela de vidro, eu o vi passar a mão pelos cabelos e rir de alguma coisa que o professor Álvaro tinha dito.
Então abri o aplicativo de notas.
Criei uma nova lista.
E escrevi:
Regras de sobrevivência no futsal universitário.
Parei por um instante.
Depois acrescentei:
Regra número um: não misturar trabalho com atletas.
E, abaixo, porque parecia importante ser específica:
Especialmente com Caio Vilar.
Existe uma diferença entre ser conhecido e ser visto.
Ser conhecido é ter seu nome gritado nas arquibancadas quando você marca um gol.
Ser visto é alguém perguntar por que você está sentado sozinho no escuro de uma quadra vazia, com uma bolsa de gelo no joelho e a sensação de que um erro pode custar tudo.
Na Universidade Santa Aurora, eu era conhecido.
O capitão do futsal.
O camisa dez.
O garoto que "nasceu para jogar".
O tipo de cara que recebia tapinhas nas costas no corredor, pedidos de foto em festas e mensagens de pessoas que só lembravam que eu existia quando o time ganhava.
Mas ninguém parecia interessado no resto.
Talvez porque eu também tivesse passado anos fingindo que não havia resto nenhum.
- Vilar! - o professor Álvaro gritou do outro lado da quadra. - Se você perder mais uma bola dessas, vou começar a considerar a possibilidade de te aposentar aos vinte e dois.
- Dramático como sempre, professor - respondi.
- Eu sou técnico. É meu dever ser dramático.
A bola veio na minha direção outra vez.
Dominei com o pé direito, passei pelo marcador e avancei alguns metros. Gustavo, nosso ala esquerdo, estava livre perto da linha lateral. Eu podia ter tocado para ele.
Mas tentei finalizar.
A bola bateu na trave.
De novo.
Um coro de reclamações surgiu atrás de mim.
- Egoísta! - Davi gritou, sem muita convicção.
- Eu ouvi isso - respondi.
- Era para ouvir mesmo.
O apito do professor Álvaro cortou o ar.
- Parou! Todo mundo para!
Os jogadores foram diminuindo o ritmo até se agruparem no centro da quadra. O treino já durava mais de uma hora, e o ginásio estava quente demais. O cheiro de borracha, suor e desinfetante se misturava no ar de um jeito familiar.
Eu conhecia aquele cheiro desde os treze anos.
Na época, ele significava liberdade.
Agora, às vezes, significava pressão.
O professor Álvaro caminhou até nós com os braços cruzados.
- Vocês sabem qual é o problema deste time? - perguntou.
Ninguém respondeu.
Quando um técnico fazia uma pergunta assim, era porque ele não queria ouvir uma resposta. Queria abrir espaço para um discurso.
- O problema é que vocês estão tentando salvar a temporada sozinhos. Cada um quer ser o responsável pelo gol bonito, pela jogada decisiva, pela manchete no site da universidade.
Ele parou diante de mim.
Eu já sabia o que viria.
- Principalmente você, Caio.
Alguns jogadores desviaram o olhar. Outros fingiram estar ajeitando as meias.
Não era exatamente uma surpresa.
Depois da derrota na semifinal do campeonato estadual, eu tinha começado a jogar como se cada partida fosse uma chance de apagar o resultado anterior.
Como se correr mais rápido, chutar mais forte e carregar a bola por tempo demais pudesse me devolver os últimos quarenta segundos daquele jogo.
Não podia.
Nada devolvia.
- A equipe não precisa de um herói - continuou o professor. - Precisa de alguém que saiba liderar.
Eu encarei o chão por um instante.
A quadra refletia as luzes brancas do ginásio em pequenos riscos brilhantes. Meu tênis estava gasto na lateral, embora eu ainda não tivesse dinheiro - ou coragem - de comprar outro par.
- Entendido - respondi.
- Espero que esteja.
O professor assobiou.
- Dez minutos. Água. Depois voltamos para o coletivo.
Os jogadores se espalharam.
Gustavo passou por mim e bateu de leve no meu ombro.
- Você está bem?
- Estou ótimo.
Ele me olhou como quem sabia que eu estava mentindo, mas decidiu não insistir.
Gustavo era meu melhor amigo desde o primeiro semestre. Nós tínhamos entrado no time no mesmo ano, quase sido cortados no mesmo teste e dividido banco durante tempo suficiente para aprender a odiar o som do apito final quando não tínhamos entrado em quadra.
Ele conhecia minhas respostas prontas.
E, felizmente, sabia quando não tentar desmontá-las.
- Tá - ele disse. - Mas tenta não matar ninguém no segundo tempo. Principalmente eu.
- Você se acha importante demais.
- Eu sou importante demais.
- É isso que você diz quando perde a bola.
- Eu nunca perco a bola.
- Você perdeu duas vezes hoje.
- Eu estava testando a defesa.
Sorri, apesar de mim mesmo.
Gustavo apontou para a arquibancada.
- Aliás, a sua nova sombra já chegou.
Segui a direção do olhar dele.
Luiza Paes estava sentada na terceira fileira, com um notebook apoiado nas pernas e uma garrafa de água ao lado. Usava uma calça preta de alfaiataria, uma camiseta branca simples e uma jaqueta jeans larga demais para os ombros.
O cabelo estava preso em um coque alto, mas algumas mechas tinham escapado e caíam perto do rosto.
Ela parecia concentrada.
Séria.
Como se estivesse tentando entender uma coisa muito difícil.
Ou como se estivesse fazendo uma lista mental de todos os motivos pelos quais eu era insuportável.
Talvez fossem as duas coisas.
- Não é minha sombra - falei.
- Claro que não.
- Ela está trabalhando.
- Claro que está.
- Você quer parar de repetir tudo o que eu digo?
- Não.
Gustavo pegou a garrafa de água da mão de um dos reservas.
- A garota tem cara de quem vai acabar com a sua paz de espírito.
- Eu não tenho paz de espírito.
- Exatamente. Ela vai acabar com o pouco que sobrou.
Olhei novamente para Luiza.
Ela não estava olhando para mim.
O que, estranhamente, parecia mais ofensivo do que deveria.
A maioria das pessoas, quando descobria quem eu era, mudava um pouco de comportamento. Algumas ficavam mais gentis. Outras mais interessadas. Outras fingiam que não sabiam, mas sempre davam um jeito de mencionar o time ou uma partida específica.
Luiza não.
Luiza tinha me conhecido por menos de cinco minutos e já parecia profundamente convencida de que eu era um problema.
E eu não sabia por que aquilo me incomodava tanto.
O treinamento terminou quase uma hora depois.
Dessa vez, eu não tentei resolver tudo sozinho.
Passei a bola quando precisava passar. Marquei quando precisava marcar. Ouvi as instruções do professor Álvaro e fiz o que um capitão deveria fazer.
No fim, vencemos o coletivo por quatro a dois.
Gustavo marcou dois gols e fez questão de comemorar cada um como se tivesse acabado de conquistar uma Copa do Mundo.
- Vai colocar isso no relatório? - perguntou, apontando para Luiza enquanto tirava a camisa molhada.
Ela estava descendo as escadas da arquibancada, ainda com o notebook aberto.
- Não sei - respondi.
- Coloca que eu fui o melhor em quadra.
- Você foi o jogador mais barulhento em quadra.
- Isso também é talento.
Luiza se aproximou quando o resto do time começou a seguir para os vestiários.
Ela segurava uma pequena prancheta agora, não o notebook, e tinha uma expressão neutra demais para alguém que acabara de assistir a um treino inteiro.
- Você tem alguns minutos? - perguntou.
- Tenho.
- Ótimo. Preciso fazer algumas perguntas.
Gustavo abriu um sorriso largo.
- Eu vou deixar vocês trabalharem.
- Você vai tomar banho - eu disse.
- Tecnicamente, isso também é trabalhar. Pela saúde coletiva.
Ele se afastou antes que eu pudesse responder.
Luiza esperou até que ele estivesse longe o suficiente.
- Ele é sempre assim?
- Pior quando está feliz.
- Então ele está feliz com frequência?
- Infelizmente.
Ela quase sorriu.
Quase.
- Podemos conversar em algum lugar menos... - ela olhou ao redor, para os jogadores, para as garrafas espalhadas no chão, para a toalha de alguém jogada perto da linha lateral. - Menos úmido?
- Você acabou de definir o ambiente do futsal em uma palavra.
- Eu sou boa com palavras.
- Isso eu já percebi.
Ela me lançou um olhar rápido.
- Sala de reuniões?
- Está ocupada.
- Arquibancada?
- Menos úmida.
- Perfeito.
Subimos os degraus em silêncio.
O ginásio estava mais quieto agora. O barulho dos jogadores vinha abafado dos vestiários, misturado ao som de chuveiros e conversas que eu não conseguia distinguir.
Luiza se sentou na terceira fileira, no mesmo lugar onde tinha passado a maior parte do treino.
Sentei duas cadeiras ao lado.
Ela abriu a prancheta.
- Antes de começar, quero deixar uma coisa clara.
- Isso parece ameaçador.
- Não é ameaçador.
- Você disse com uma prancheta na mão.
Ela respirou fundo, como se estivesse decidindo se valia a pena discutir comigo.
- Eu não estou aqui para construir uma versão falsa de você.
A frase me fez olhar para ela com mais atenção.
- Não?
- Não. Mas também não estou aqui para defender cada erro que você já cometeu.
- Justo.
- A ideia é entender o que o time representa para quem acompanha, o que representa para vocês e por que as pessoas deveriam se importar.
- Acho que as pessoas já se importam.
- Algumas se importam - corrigiu ela. - Mas não é a mesma coisa.
Ela folheou algumas páginas.
- Por exemplo: nas redes sociais, o time tem muitos seguidores, mas pouco engajamento fora de dias de jogo. As postagens com melhor desempenho são as que mostram bastidores. Vídeos de comemoração. Entrevistas mais pessoais. Coisas que não parecem produzidas demais.
- E qual é o problema disso?
- O problema é que vocês só mostram a parte fácil.
- A parte fácil?
- Vitória, treino, piada interna, aniversário de jogador. Tudo parece muito controlado.
Cruzei os braços.
- E você acha que deveria ser diferente?
- Acho que poderia ser mais verdadeiro.
- Verdadeiro como?
Ela levantou os olhos da prancheta.
Pela primeira vez desde que sentamos, pareceu hesitar.
- Como pessoas reais.
- Você falou isso na entrevista.
- Porque é importante.
- Pessoas reais não ficam bem em vídeo o tempo todo.
- Eu sei.
- Pessoas reais erram.
- Eu sei.
- Pessoas reais perdem.
Ela ficou em silêncio.
O som de uma porta batendo ecoou no ginásio.
Luiza fechou a prancheta devagar.
- Eu sei - repetiu, mais baixo. - E talvez seja exatamente por isso que as pessoas deveriam ver.
A resposta me pegou desprevenido.
Não porque fosse revolucionária.
Mas porque eu tinha passado tanto tempo ouvindo que precisava parecer forte, seguro e impossível de abalar, que a ideia de mostrar qualquer coisa diferente parecia perigosa.
Meu pai costumava dizer que o problema dos atletas da minha geração era querer ser amado demais.
"Quem quer ser aplaudido o tempo inteiro não aguenta quando começam as vaias."
Era uma frase que ele repetia desde que eu era adolescente.
Na época, eu achava que era um conselho.
Hoje, eu sabia que era uma ameaça.
- Você entende alguma coisa de perder? - perguntei antes de pensar.
Luiza piscou.
A pergunta tinha saído mais dura do que eu pretendia.
Ela poderia ter se ofendido.
Poderia ter dito que eu não tinha o direito de perguntar aquilo.
Mas apenas olhou para a quadra vazia.
- Sim - respondeu.
A certeza na voz dela fez com que eu não perguntasse mais nada.
Por alguns segundos, o silêncio entre nós deixou de ser desconfortável.
Ela pegou a prancheta outra vez.
- Vamos voltar ao trabalho?
- Vamos.
- Certo. Primeira pergunta: o que você gostaria que as pessoas soubessem sobre o Caio Vilar que elas não sabem?
Eu ri sem humor.
- Essa é uma pergunta péssima.
- Por quê?
- Porque eu não sei.
- Você não sabe ou não quer responder?
- Qual é a diferença?
Ela apertou os lábios.
Parecia contrariada.
- Se você não quiser responder, tudo bem. Mas eu não consigo criar uma comunicação humana se a pessoa principal da campanha age como se fosse uma parede.
- Eu não sabia que era a pessoa principal da campanha.
- Você é o capitão.
- Isso não significa que eu queira estar em todos os vídeos.
- Não quer?
- Não.
Ela me estudou por um instante.
Não com curiosidade invasiva.
Com atenção.
Como se estivesse tentando entender um texto que ainda não tinha sido escrito até o fim.
- Então por que você aceitou ser representante dos atletas? - perguntou.
A resposta simples seria porque o professor Álvaro tinha pedido.
A resposta verdadeira era mais complicada.
Porque eu precisava manter minha bolsa esportiva.
Porque, depois do que aconteceu na semifinal, eu precisava provar que ainda era útil para o time.
Porque ser capitão era uma posição que eu não podia perder.
Porque, se eu parasse de ser o garoto que todos esperavam que eu fosse, eu não tinha certeza de quem sobraria.
- Porque alguém precisava fazer - falei.
Luiza inclinou a cabeça.
- Essa é a resposta oficial?
- É a resposta que eu tenho.
- Entendi.
Mas ela não tinha entendido.
Eu vi isso no jeito como ela fechou a prancheta mais uma vez.
E, contra a minha vontade, senti uma pontada de culpa.
- Meu pai jogou futsal - falei.
Ela levantou os olhos.
- Profissionalmente?
- Por pouco tempo. Ele se machucou cedo.
- Sinto muito.
- Ele não gosta que as pessoas sintam muito.
Ela não respondeu de imediato.
- E você? - perguntou.
- Eu o quê?
- Você gosta?
A pergunta foi simples.
Mas ninguém me fazia perguntas simples sobre aquilo.
As pessoas perguntavam sobre títulos, oportunidades, propostas, campeonatos, estatísticas.
Ninguém perguntava se eu gostava.
Olhei para a quadra.
- Eu gostava mais antes.
Luiza ficou quieta.
E, por alguma razão, aquilo foi melhor do que qualquer conselho que ela pudesse ter dado.
Quando saímos do ginásio, o sol já estava mais baixo.
A luz atravessava as árvores do campus e deixava o caminho até o estacionamento coberto por sombras compridas. Havia estudantes espalhados pela praça central, alguns sentados na grama, outros atravessando o gramado com livros nos braços.
Luiza caminhava ao meu lado, mas não perto demais.
Ela tinha a mochila pendurada em um ombro e a prancheta apertada contra o peito.
- Você vai escrever que eu sou emocionalmente indisponível? - perguntei.
- Eu ainda estou decidindo.
- Isso parece uma acusação.
- Não é uma acusação. É uma observação.
- Você observa rápido.
- Você fala pouco.
- Então estamos equilibrados.
Ela parou perto da escadaria do prédio de Comunicação.
- Eu preciso ir.
- Certo.
- Amanhã vou entrevistar mais alguns jogadores. Depois, queria conversar com você de novo.
- Você vai continuar tentando me transformar em uma pessoa interessante?
- Não. Você já parece interessante. O problema é que se esforça muito para parecer insuportável.
Fiquei olhando para ela.
Luiza pareceu perceber o que tinha dito e desviou os olhos por um momento.
- Boa noite, Caio.
- Boa noite, Luiza.
Ela começou a subir as escadas.
No terceiro degrau, virou o rosto para trás.
- E tenta não derramar café em mais nenhum projeto.
- Sem promessas.
Dessa vez, ela sorriu.
Não muito.
Não o suficiente para eu chamar aquilo de sorriso de verdade.
Mas o bastante para que eu ficasse parado mais tempo do que precisava, olhando para a porta se fechar atrás dela.
No caminho para casa, meu celular vibrou três vezes.
A primeira mensagem era de Gustavo.
Gustavo:
Você e a garota da comunicação estavam conversando por mais de uma hora. Devo me preocupar?
Ignorei.
A segunda era do professor Álvaro.
Professor Álvaro:
Não esqueça da reunião com a diretoria amanhã, 9h. Precisamos discutir o episódio da semifinal e a postura nas redes.
Essa eu não ignorei.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela.
O episódio da semifinal.
Era assim que chamavam agora.
Como se o que tinha acontecido pudesse ser reduzido a uma expressão neutra, burocrática e confortável.
Não "a discussão".
Não "o empurrão".
Não "a expulsão".
Muito menos "a derrota".
Apenas o episódio.
Guardei o celular no bolso e continuei andando.
Meu apartamento ficava a quase vinte minutos do campus, em uma rua antiga, com prédios baixos e calçadas rachadas. Eu dividia o lugar com Gustavo desde o começo do ano.
Era pequeno, quente no verão e frio no inverno. A pia da cozinha vazava quando alguém esquecia de fechar a torneira direito. O sofá da sala tinha uma mola quebrada que espetava qualquer pessoa que ousasse sentar do lado esquerdo.
Mas era nosso.
Quando entrei, Gustavo estava largado no sofá, com uma tigela de macarrão instantâneo equilibrada no colo.
- Olha só quem resolveu voltar para a vida civil - ele disse.
- Você come isso todo dia?
- Não. Às vezes eu como pizza congelada.
Joguei minha mochila perto da porta.
- A reunião com a diretoria é amanhã.
O sorriso dele desapareceu um pouco.
- Por causa do vídeo?
- É.
- Eles vão fazer o quê?
- Não sei.
Gustavo colocou a tigela na mesinha de centro.
- Caio, aquilo foi há meses. Você já pediu desculpas. O outro jogador pediu desculpas. O técnico pediu desculpas. Até a torcida esqueceu.
- A internet não esquece.
- A internet esquece tudo depois de três dias.
- Não quando alguém decide lembrar.
Ele ficou quieto.
Era difícil explicar o medo que eu sentia sem parecer exagerado.
O vídeo tinha sido gravado durante a semifinal do estadual. Faltavam menos de dois minutos para o jogo acabar. Estávamos perdendo por um gol.
O adversário provocou Gustavo depois de uma falta. Eu fui defender meu amigo. Ele me empurrou. Eu empurrei de volta.
Só que, no vídeo, não parecia uma reação.
Parecia agressão.
Parecia que eu tinha perdido o controle.
Talvez eu tivesse.
A expulsão veio logo depois.
E, sem mim em quadra, o time perdeu.
Desde então, cada derrota parecia ligada àquele momento.
Cada crítica parecia repetir a mesma frase, ainda que ninguém dissesse em voz alta:
Você não soube liderar.
Meu celular vibrou pela terceira vez.
Dessa vez, não era uma mensagem.
Era uma notificação.
Você foi marcado em uma publicação.
Franzi a testa.
Abri o aplicativo.
O vídeo apareceu antes mesmo que eu pudesse respirar.
A imagem estava granulada, mal iluminada, gravada da arquibancada. Eu reconheci a camisa azul. Reconheci o ginásio. Reconheci o instante exato em que meu corpo avançava contra o jogador adversário.
A legenda dizia:
"Esse é o verdadeiro capitão da Santa Aurora? Violência, arrogância e zero espírito esportivo."
Em menos de cinco minutos, já havia dezenas de comentários.
Alguns me defendiam.
Outros pediam meu afastamento.
Outros pareciam felizes demais por terem encontrado mais um motivo para odiar alguém que não conheciam.
Gustavo pegou o celular da minha mão.
- Filho da mãe.
- Me devolve.
- A gente precisa falar com o professor Álvaro.
- Amanhã.
- Caio
- Amanhã, Gustavo.
Peguei o aparelho de volta.
A tela continuava iluminada.
O vídeo continuava rodando.
O som da torcida, distorcido e distante, enchia a sala pequena.
Por um segundo, pensei em Luiza.
Na forma como ela tinha dito que pessoas reais erravam.
Na forma como ela tinha ficado em silêncio quando eu não soube responder se ainda gostava de jogar.
Ela queria histórias verdadeiras.
Bem.
Agora teria uma.
Só não tinha certeza de que eu estava pronto para ela.
A primeira coisa que aprendi trabalhando com comunicação esportiva foi que uma crise nunca começa quando o problema acontece.
Ela começa quando alguém decide postar.
Às oito e dezessete da manhã, o vídeo de Caio Vilar já tinha mais de vinte mil visualizações.
Às oito e vinte e três, alguém tinha feito um corte em câmera lenta do momento em que ele empurrava o jogador adversário.
Às oito e trinta, o perfil anônimo que publicou o vídeo já tinha recebido comentários suficientes para transformar um erro de poucos segundos em uma sentença coletiva.
Eu sabia disso porque tinha acordado às seis e quarenta, aberto o celular antes mesmo de levantar da cama e encontrado Maya sentada à mesa da cozinha, com uma caneca de café nas mãos e a expressão de quem estava esperando uma tragédia.
- Não entra em pânico - ela disse.
A frase, por definição, significava que eu devia entrar em pânico.
- O que aconteceu?
Maya virou o celular na minha direção.
A publicação ocupava a tela inteira.
O vídeo era ruim. Granulado. Tremido. Gravado da arquibancada por alguém que provavelmente nem imaginava que aquele registro voltaria meses depois para assombrar uma pessoa.
Caio aparecia no centro da quadra, com a camisa azul da Santa Aurora, o corpo tenso e o rosto tomado por uma raiva que eu ainda não conhecia.
O outro jogador dizia alguma coisa que não dava para ouvir.
Caio avançava.
Havia um empurrão.
Gritos.
O apito do juiz.
E então a imagem congelava no pior ponto possível: a mão de Caio contra o peito do adversário, os músculos do braço contraídos, a expressão dura.
A legenda dizia:
"Esse é o exemplo de capitão que a Universidade Santa Aurora quer defender?"
Abaixo, uma sequência de hashtags:
#FutsalUniversitário
#ViolênciaNoEsporte
#AfastemCaioVilar
#SantaAuroraSemViolência
Eu li os comentários sem querer.
O primeiro dizia que ele devia ser expulso do time.
O segundo dizia que atletas populares sempre eram protegidos.
O terceiro sugeria que a universidade só se importava com imagem quando havia patrocinador envolvido.
O quarto dizia que Caio tinha "cara de quem acha que pode fazer qualquer coisa".
Fechei a tela antes de continuar.
- Isso aconteceu ontem? - perguntei.
- Não. Pelo que vi, foi em um jogo do semestre passado.
- E por que voltou agora?
Maya deu de ombros.
- Alguém encontrou, compartilhou e pronto. Internet adora uma fogueira.
Eu me aproximei da pia, tentando ignorar o aperto no estômago.
Não era meu problema.
Ainda não.
Eu tinha aceitado duas semanas de experiência no projeto de comunicação esportiva. Nem contrato definitivo eu tinha. Não era responsável pela imagem do time. Não era amiga de Caio. Não conhecia a história completa.
Mas eu conhecia o suficiente para saber que aquilo não era apenas sobre uma discussão em quadra.
Era sobre narrativa.
Quem publicou o vídeo não queria discutir contexto. Queria uma reação. Queria indignação. Queria que as pessoas escolhessem um lado antes de saberem o que realmente tinha acontecido.
E, por mais desconfortável que fosse admitir, a publicação estava funcionando.
- Você está com aquela cara - Maya disse.
- Que cara?
- A cara de quando alguma coisa te irrita tanto que você começa a planejar uma apresentação em PowerPoint.
- Eu não tenho essa cara.
- Tem, sim. É uma cara assustadora. Parece que você está prestes a fazer uma planilha sobre os erros morais da humanidade.
Peguei a caneca de café da mesa.
- Não vou fazer nada.
- Claro.
- Não vou.
- Você está indo para o ginásio em quarenta minutos.
- Eu tenho trabalho.
- Você tem uma experiência de duas semanas.
- Que pode virar trabalho.
Maya me observou por cima da caneca.
- Então é isso.
- Isso o quê?
- Você quer mostrar que merece ficar.
Não respondi.
Porque ela estava certa.
Eu queria.
Precisava.
A oportunidade na Santa Aurora era pequena, temporária e cheia de condições que ninguém tinha se dado ao trabalho de explicar com clareza. Ainda assim, era a primeira vez que alguém olhava para meu portfólio e dizia que eu talvez tivesse espaço em um projeto maior.
Eu não podia deixar uma crise me assustar.
Não quando crises eram exatamente o tipo de coisa que separavam quem sabia apenas fazer posts bonitos de quem entendia comunicação de verdade.
O ginásio estava diferente quando cheguei.
Não havia nada visivelmente fora do lugar.
As mesmas faixas azuis penduradas na entrada. O mesmo cheiro de borracha e produto de limpeza. O mesmo segurança cochilando perto da porta principal, fingindo que não estava cochilando.
Mas o ar parecia mais pesado.
Como se todo mundo soubesse que havia alguma coisa acontecendo e estivesse tentando decidir se comentava ou se fingia que não.
Encontrei Patrícia Lemos no corredor administrativo, falando baixo ao telefone.
Ela encerrou a ligação assim que me viu.
- Luiza. Ainda bem que você chegou cedo.
- Vi o vídeo.
A expressão dela mudou.
Não muito.
Apenas o suficiente para confirmar que aquilo era maior do que uma postagem inconveniente.
- Vamos ter uma reunião daqui a pouco.
- Com quem?
- Com a diretoria de esportes, a comunicação institucional, o professor Álvaro e Caio.
- Ele sabe?
Patrícia soltou o ar devagar.
- Sabe.
Não perguntei como.
Não precisava.
Alguém provavelmente tinha mandado o vídeo para ele antes mesmo de a postagem ganhar força. Era assim que as crises funcionavam. Elas chegavam primeiro por mensagem privada, depois viravam assunto em grupos, depois apareciam como notícia, comentário, print, meme.
Quando uma pessoa finalmente conseguia entender o que estava acontecendo, o resto do mundo já tinha formado uma opinião.
- E o time? - perguntei.
- O treino foi suspenso esta manhã.
Meu coração apertou.
- Suspenso?
- Temporariamente. A diretoria quer avaliar a situação antes de decidir qualquer coisa.
- Vão afastá-lo?
Patrícia me olhou com cautela.
- Ainda não sabemos.
A resposta dela não ajudou.
- O vídeo é antigo - falei. - Não sei o que aconteceu no jogo, mas ele é antigo.
- Sim.
- E o contexto?
- É exatamente o que precisamos entender.
Ela fez um gesto para que eu a acompanhasse.
- A reunião vai começar em cinco minutos. Você não precisa participar, mas pode ficar na sala ao lado. Talvez eu peça que você organize alguns materiais depois.
"Organizar materiais" era o tipo de frase que adultos usavam quando queriam dizer "não sabemos o que fazer, mas você parece competente".
Assenti.
- Claro.
A sala ao lado da reunião era pequena, sem janelas e com uma mesa retangular ocupada por uma impressora antiga. Havia cartazes de campeonatos anteriores empilhados em um canto e duas cadeiras de plástico encostadas na parede.
Eu me sentei perto da porta, com o notebook aberto e a tela vazia.
Na sala principal, as vozes começaram baixas.
Não dava para entender tudo.
Mas dava para entender o bastante.
- ...a publicação já foi compartilhada por perfis grandes...
- ...não podemos agir como se não tivesse acontecido...
- ...o patrocinador entrou em contato esta manhã...
- ...Caio já pediu desculpas na época...
- ...uma coisa é pedir desculpas, outra é administrar a repercussão atual...
Fiquei olhando para o cursor piscando na tela do notebook.
Depois abri uma apresentação nova.
Não porque eu tivesse sido chamada.
Não porque alguém tivesse pedido.
Mas porque precisava fazer alguma coisa com as mãos.
Na primeira página, escrevi:
GESTÃO DE CRISE - FUTSAL SANTA AURORA
Parei.
Apaguei.
Títulos assim pareciam frios demais.
Como se Caio fosse uma marca em dificuldade, e não uma pessoa com uma história que ninguém tinha se dado ao trabalho de ouvir.
Tentei novamente.
PLANO DE RESPOSTA E REPOSICIONAMENTO
Também não gostei.
Fechei os olhos por alguns segundos.
A porta da sala de reunião se abriu.
O professor Álvaro saiu primeiro, falando ao telefone. Patrícia veio logo atrás. Depois Helena Duarte, com uma pilha de documentos apertada contra o peito.
Caio foi o último.
Ele não me viu de imediato.
Estava olhando para o chão, com as mãos fechadas ao lado do corpo. Usava uma camiseta cinza escura e uma jaqueta azul do time, mas não parecia o mesmo garoto que tinha sentado ao meu lado na arquibancada no dia anterior.
Não havia sorriso.
Não havia provocação.
Não havia aquela calma irritante de quem parecia sempre saber exatamente o que dizer.
Havia apenas cansaço.
Quando ele levantou os olhos e me viu, sua expressão se fechou ainda mais.
- Você está aqui.
Não era uma pergunta.
- Eu trabalho aqui - respondi, tentando manter a voz neutra.
- Por enquanto.
A frase me atingiu mais do que devia.
- É.
Ele deu um passo em direção ao corredor.
- Caio - chamei.
Ele parou.
- O quê?
Eu olhei para a sala ao lado, depois para ele.
- Você tem cinco minutos?
- Para quê?
- Para eu fazer uma pergunta.
- Você gosta muito de perguntas.
- É meu defeito mais simpático.
Ele soltou uma risada sem humor.
- Não sei se tenho tempo.
- Tem. Você está evitando tudo desde que saiu daquela sala.
Caio me encarou.
Eu quase me arrependi.
Quase.
- Você nem sabe o que aconteceu - ele disse.
- Não sei.
- Então não fala como se soubesse.
- Eu não estou falando como se soubesse. Estou dizendo que você está agindo como alguém que já decidiu perder.
A mandíbula dele se contraiu.
Por um segundo, achei que ele iria embora.
Mas então fez um gesto com a cabeça para a arquibancada vazia.
- Cinco minutos.
A quadra estava silenciosa.
Era estranho vê-la sem jogadores, sem apitos, sem o eco de passos correndo de um lado para outro. As traves pareciam menores quando não havia ninguém tentando defender um gol.
Sentamos na primeira fileira da arquibancada.
Dessa vez, Caio ficou duas cadeiras distante de mim.
Como se a proximidade fosse um risco.
Ou como se eu fosse.
- Você quer saber o que aconteceu? - perguntou.
- Quero.
Ele ficou olhando para a quadra.
- O jogador que aparece no vídeo fez uma falta no Gustavo.
- Seu amigo.
- Sim.
- Foi uma falta grave?
- Foi.
- E o juiz não marcou?
- Marcou. Mas ele ficou provocando. Falando que o Gustavo era fraco. Que eu era um capitão de fachada. Essas coisas.
- E você perdeu o controle.
Caio respirou fundo.
- Eu perdi.
Não tentou justificar.
Não tentou transformar o outro jogador em vilão.
Não tentou dizer que qualquer pessoa teria feito o mesmo.
A honestidade da resposta me fez baixar um pouco a guarda.
- Você se arrepende?
Ele virou o rosto na minha direção.
- Você acha que não?
- Eu não sei. Estou perguntando.
- Claro que me arrependo. A gente perdeu o jogo por minha causa.
Havia algo diferente na voz dele agora.
Não era raiva.
Era vergonha.
E eu conhecia vergonha.
Conhecia a sensação de pensar em uma escolha tantas vezes que ela deixava de ser um acontecimento e passava a ser um quarto fechado dentro da sua cabeça.
- O que a diretoria disse? - perguntei.
- Que ainda vão decidir se eu jogo a próxima competição.
Meu corpo ficou tenso.
- Eles podem te afastar?
- Podem.
- Mesmo sendo um vídeo antigo?
- Eles podem dizer que a repercussão prejudica a universidade, o patrocinador, o time. Não precisam de muito mais do que isso.
- E o patrocinador?
- Parece que quer uma resposta pública.
A palavra "pública" ficou entre nós por alguns segundos.
- Você quer dar uma resposta? - perguntei.
Caio riu sem humor.
- Você quer dizer um vídeo de desculpas com música triste e fundo neutro?
- Não.
- Uma nota escrita pela universidade?
- Também não.
- Então o quê?
Olhei para a quadra vazia.
A resposta veio antes que eu pudesse medir se era ousada demais.
- Uma conversa honesta.
Ele franziu a testa.
- Isso é o que todo mundo diz quando quer que você se exponha.
- Não estou dizendo que você tem que contar sua vida inteira para estranhos. Nem que precisa transformar um erro em espetáculo.
- Então qual é a diferença?
- A diferença é que, agora, a única versão de você que as pessoas têm é um vídeo de vinte segundos.
Ele ficou quieto.
- Você não precisa fingir que aquilo não aconteceu. Isso seria um erro. Mas também não precisa deixar que aquilo seja tudo o que existe sobre você.
- E como você sugere que eu faça isso?
Meu coração acelerou.
Era a primeira vez que ele perguntava de verdade.
Não para me provocar.
Não para testar se eu tinha uma resposta pronta.
Eu abri o notebook sobre as pernas.
- Primeiro, a gente precisa entender o tamanho da crise. Quem está falando, o que está sendo dito, quais são os riscos reais. Depois, precisamos decidir o que merece resposta e o que não merece.
- "A gente"?
- Você pode dizer não.
- E se eu disser?
- Eu vou ficar muito irritada.
Ele me olhou de lado.
- Isso eu imagino.
- Mas vou respeitar.
Caio encostou os cotovelos nos joelhos.
- Você acha que consegue resolver isso?
- Não.
Ele pareceu surpreso.
- Não?
- Não existe "resolver" uma crise assim em um dia. Não existe apagar vídeo, desfazer comentário ou convencer todo mundo de que você é perfeito.
- Ainda bem, porque eu não sou.
- Eu sei.
Ele levantou as sobrancelhas.
- Você sabe?
- Você derramou café no meu projeto no primeiro dia em que nos conhecemos.
- Isso foi um acidente.
- E agora você está fugindo de uma conversa importante porque está com medo de que as pessoas pensem coisas horríveis sobre você.
- Isso não é fugir.
- É o quê, então?
- Estratégia de sobrevivência.
- Mesma coisa, com nome mais bonito.
Por um instante, ele sorriu.
De verdade.
Pequeno, mas real.
E alguma coisa dentro de mim relaxou.
- Você é impossível - ele disse.
- Você é muito fácil de irritar.
- Não sou.
- Caio, você ficou bravo comigo porque eu disse que as redes sociais do time pareciam propaganda de bebida energética.
- Foi uma observação injusta.
- Foi uma observação precisa.
- Você não entende nada de esporte.
- E você não entende nada de comunicação.
- É por isso que estamos nessa situação?
- Em parte.
Ele riu de novo, e dessa vez o som não parecia pesado.
Eu desviei os olhos antes que ele percebesse o quanto aquilo me afetava.
- Minha proposta não é fazer você parecer bonzinho - continuei. - Nem fingir que não errou. É mostrar responsabilidade. Mostrar que você reconhece o que aconteceu, que entende a consequência e que está disposto a fazer diferente.
- Isso parece muito ensaiado.
- Só parece ensaiado se for mentira.
Caio não respondeu.
Naquela manhã, eu tinha visto dezenas de pessoas falando sobre ele com uma certeza assustadora. Pessoas que não sabiam o nome do jogador envolvido, não sabiam o placar da partida, não sabiam o que Caio tinha feito depois.
Mas também era verdade que ninguém precisava saber tudo para se incomodar com uma atitude errada.
A questão era o que vinha depois.
O que uma pessoa fazia com o próprio erro.
- Você já pediu desculpas para o outro jogador? - perguntei.
- Sim.
- Publicamente?
- Depois do jogo. E em uma nota do time.
- Vocês ainda têm contato?
- Não.
- Você toparia falar sobre responsabilidade no esporte? Sobre pressão, sobre liderança, sobre o que você aprendeu?
Caio passou a mão pelos cabelos.
- Eu não sei se quero colocar minha cara na internet para mais gente me chamar de agressivo.
- Eu também não sei se quero ser a garota que chegou ontem e sugeriu transformar seu pior momento em campanha.
Ele olhou para mim.
- Você acabou de sugerir isso?
- Não. Eu sugeri que você não deixasse outras pessoas decidirem, sozinhas, o que aquele momento significa.
O silêncio voltou.
Mas não era o mesmo silêncio de antes.
Esse parecia cheio de possibilidades.
Caio se levantou.
Por um segundo, achei que ele tinha decidido ir embora.
Mas ele ficou diante de mim, com as mãos nos bolsos da jaqueta.
- Faz o plano - disse.
- Sério?
- Faz o plano. Eu vou ouvir.
Meu peito apertou.
Não de medo.
De expectativa.
- Ótimo.
- Mas não prometo aceitar tudo.
- Nem eu aceitaria, se fosse você.
- E não tenta me fazer chorar em vídeo.
- Você acha que eu faria isso?
- Você tem cara de quem colocaria violão triste de fundo.
- Eu odeio violão triste.
- Todo mundo odeia até precisar dele.
- Está decidido. Sem violão.
Ele assentiu, e começou a caminhar em direção à saída da quadra.
- Caio.
Ele olhou para trás.
- Obrigada por confiar em mim.
A expressão dele mudou por um instante.
Quase imperceptivelmente.
- Eu ainda não confio.
- Ah.
- Mas você parece teimosa o suficiente para tentar mesmo assim.
- Isso foi um elogio?
- Não se acostuma.
E então ele saiu.
Fiquei sentada na arquibancada, com o notebook aberto e um sorriso involuntário tentando aparecer no meu rosto.
Eu não devia sorrir.
A situação era séria.
O futuro dele no time estava em risco. Meu primeiro projeto real dentro da universidade podia desmoronar antes mesmo de começar. Havia patrocinador, diretoria, comentários, pressão e uma crise inteira crescendo diante dos nossos olhos.
Mas, pela primeira vez desde que eu tinha chegado ao ginásio, eu sentia que havia algo concreto para fazer.
Abri um documento novo.
E escrevi:
PLANO DE RESPOSTA - CAIO VILAR
Objetivo: transformar silêncio em responsabilidade.
Duas horas depois, eu tinha criado uma planilha de monitoramento, separado os comentários em categorias e listado tudo o que precisaria saber antes de sugerir qualquer publicação.
Repercussão negativa.
Possíveis aliados.
Mídia universitária.
Posicionamento da diretoria.
Patrocinadores.
Linha do tempo do episódio.
Depoimentos possíveis.
Risco de parecer oportunismo.
Estava tão concentrada que só percebi a presença de alguém quando uma sombra caiu sobre a mesa.
- Você está fazendo uma autópsia digital?
Levantei os olhos.
Era Caio.
Dessa vez, ele tinha trocado a jaqueta por uma camiseta preta e carregava uma garrafa de água. Parecia menos tenso do que antes, embora ainda houvesse cansaço em seus olhos.
- Estou fazendo monitoramento de crise.
- Parece perigoso.
- Tudo que envolve planilhas é um pouco perigoso.
Ele puxou uma cadeira e se sentou ao meu lado.
- O professor Álvaro disse que você pediu os registros da partida.
- Pedi. Preciso ver o que aconteceu antes do vídeo.
- Você quer mesmo tudo?
- Quero.
- Mesmo que me faça parecer pior?
- Principalmente se te fizer parecer pior.
Caio me encarou.
- Você é brutal.
- Eu sou honesta.
- Isso é quase a mesma coisa.
- Não é.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois colocou o celular sobre a mesa.
- Tem mais uma coisa.
Na tela, havia uma nova notificação.
Uma postagem recente.
Não do perfil anônimo.
De uma página de fofoca universitária.
A foto mostrava os dois no corredor do ginásio, pouco depois de nossa conversa na arquibancada. Eu estava de braços cruzados, com o notebook apertado contra o corpo. Caio estava inclinado na minha direção, falando alguma coisa.
Pela imagem, parecia que estávamos discutindo.
Ou prestes a nos beijar.
A legenda era simples:
"Novo casal da Santa Aurora? Capitão do futsal é visto em clima intenso com estudante da Comunicação."
Abaixo, já havia centenas de comentários.
Alguns rindo.
Outros fazendo perguntas.
Alguns marcando amigos.
E, em meio a tudo, uma enquete:
Vocês shippam?
Sim
Com certeza
Olhei para Caio.
Ele olhou para mim.
- Isso é ruim? - perguntei.
Ele soltou uma risada curta.
- Você trabalha com comunicação. O que você acha?
Eu deveria ter respondido imediatamente.
Deveria ter dito que era uma distração desnecessária. Que boatos complicavam crises. Que a universidade não precisava de mais uma narrativa fora de controle.
Mas, em vez disso, fiquei olhando para a foto.
A maneira como ele parecia estar me ouvindo.
A forma como eu parecia irritada.
O contraste entre o caos nas redes e o silêncio que tinha existido naquela arquibancada.
Então meu celular vibrou.
Uma mensagem de Maya apareceu na tela:
Maya:
LU. VOCÊ ESTÁ NAMORANDO O CAPITÃO DO FUTSAL?
Abaixo, uma sequência interminável de pontos de interrogação.
Fechei os olhos por um segundo.
Quando os abri, Caio ainda estava me olhando.
- Acho - falei, lentamente - que acabamos de ganhar um problema novo.
Ele sorriu de lado.
- Ou uma oportunidade.
E eu tive a sensação incômoda de que, naquele momento, o jogo tinha acabado de mudar.