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Claire - Uma nova obsessão

Claire - Uma nova obsessão

Autor:: Ana Beatriz Henrique
Gênero: Romance
Liam Stevens é um médico bem sucedido que acaba de retornar de um longo período de licença. Claire é uma psicóloga recém formada que trabalha no no Steven's Center Hospital. Liam pensava estar curado, mas assim que a vê pela primeira vez, ela prova para ele o contrário. Ela o deixou ainda mais doente... de amor. Há algo em Claire que o fascina, há algo nela que o atrai. Com Claire, Liam precisará aprender a amar novamente. Sem ser doentio, sem fazer dela sua obsessão, sem sufocar, sem machucar, Liam precisará aprender a amar do jeito certo. Caso contrário, a perderá.

Capítulo 1 Recaída

Claire – Uma nova obsessão

Capítulo 1 – Recaída

Liam Stevens

*Flashback on*

- Como assim eu não posso ver a minha filha? - Meu sangue ferve dentro de mim quando dois seguranças não me permitem entrar no prédio aonde eu costumava morar com Chloe e a mãe.

- Desculpe, senhor, mas não podemos deixá-lo entrar. - Afirmam novamente e viram as costas para mim.

Imediatamente, pego o celular e seleciono o contato de Maureen esperando que a mesma me atenda. Parecendo esperar por tal ligação, minha recente ex-mulher atende a minha ligação.

- Eu te vi ontem. - Ela afirma antes mesmo que eu a questione. - Liam, você não está bem. Isso não é normal, como você pode ficar me perseguindo pelo hospital? Como acha normal ficar escondido atrás de pilastras me observando? Você está passando de todos os limites, Liam.

- Eu não estou preparado para te perder. Você sabe que a nossa separação não está me fazendo bem, amor.... Maureen, eu te amo! Eu preciso de você, preciso da Chloe! Vamos, libera a minha entrada para que eu entre.

- Eu já contatei os meus advogados. - Ela sinaliza e eu escuto-a fungar, sei que ela está chorando. - Você não pode chegar muito perto de mim, Liam. É uma medida protetiva.

- Não, não, você não fez isso.

- É para o seu bem. - Afirma. - Liam, nós dois sabemos que isso não é de hoje. Você...

- Eu sou normal sim!

- Eu não sou sua primeira mulher, não sou a primeira a sofrer com sua obsessão e tantas desconfianças. Nem todas mulheres são como a sua mãe. - Quando ela cita a mulher que me colocou no mundo, meu estômago dá piruetas de enjoo.

- Não fala dessa mulher.

A mulher que me abandonou, a mulher que abandonou meu pai para fugir com o irmão rico. A mulher que não pensava em nada além de si mesma e dinheiro.

- Você não está psicologicamente bem. É por isso que não poderá ver a nossa filha daqui pra frente até apresentar equilíbrio emocional.

- Maureen, você não pode me impedir de ver Chloe.

- Me desculpa, Liam, mas isso também é pro seu bem. - Maureen afirma. - Eu só aguentei todos esses anos com você, esses cinco anos de casado, por causa da nossa menina. - Afirma entre soluços. - Porque éramos amigos e eu queria te ajudar a talvez descobrir que o amor não precisa ser doentio. Mas eu cansei, Liam! Cansei de tudo! Você me machucou, agora eu tenho medo de tudo e de todos.

- Para... Isso não é verdade. Eu te amei da minha melhor forma.

- Não, você não amou. Você não sabe amar, Liam, você é doente!

- Para de falar que eu sou doente! - Grito na calçada da rua e chamo a atenção dos seguranças que, por precaução, permanecem de pé ao lado da porta principal da portaria. Respiro fundo, fecho os olhos e tento me recompor. - Por favor, eu só quero ver a nossa filha.

- Ela te ama. - Afirma.

- Eu não quero ouvir de você. Quero ouvir dela, deixa eu ver a Chloe.

- Eu não quero que ela veja o monstro que você se transforma quando está tendo aquelas terríveis crises de ciúmes. - Afirma. - Me desculpa, mas eu estou seguindo as ordens da justiça. Os meus advogados já enviaram para os seus, Liam.

- Eu não acredito que você foi capaz de fazer isso comigo. - Sento-me no chão sem saber como reagir diante de tal realidade. - Está me afastando da minha filha como se eu fosse um criminoso.

- É para o seu bem... Eu já te amei, sabe que eu me sinto péssima em fazer isso, mas eu não tenho outra escolha.

- Não vem me falar de amor, Maureen. Você é a última pessoa que eu penso que me ama em todo o mundo.

- Você pode não acreditar, mas eu só estou cuidando de você. Liam, você é novo, não pode continuar vivendo assim, ou vai terminar amargo, sozinho e se suicidando, como o seu pai.

- Eu não sou como ele... - As lágrimas descem pelo meu rosto, enquanto minhas mãos passam pelos meus cabelos em desespero. - Eu não sou...

- Mas se continuar nesse caminho, aonde acha que vai chegar?

- Eu posso melhorar. - Afirmo tentando convencê-la. - Tire a queixa, tire a denúncia, nós podemos fazer terapia para casais, podemos... - Busco por palavras. - Eu faço o tratamento que você quiser, mas nós não precisamos nos separar para isso, Maureen. Por favor, me dê mais uma chance.

- Não, Liam, me desculpa. - Ela me nega. - Você se trata, melhora e poderá voltar a ter contato com a Chloe. Mas o nosso casamento... - Ela respira fundo. - Acabou, Liam, ele acabou.

*Flashback off*

- Aqui está a sua liberação, Liam. - Doutora Liza me entrega o papel atestando minha ''melhora'' psicológica. - Mas é importante que nos encontremos ao menos uma vez por mês, por favor.

- Estou bem, Liza... Não vou mais me apaixonar por ninguém, agora eu só quero focar no hospital que meu pai deixou para mim e na minha filha. Vou ficar tão ocupado que não terei tempo nem de pensar em amar alguém.

- Meu querido, eu preciso que você entenda que não há problema em amar. - Ela afirma com os seus olhos negros presos aos meus. - Você pode amar, agora você só precisa controlar a intensidade dos instintos que você desenvolveu como forma de defesa. Para o seu bem e para o bem dos outros.

- Eu sei... Mas acho que vai dar menos trabalho, entende? - Solto uma risada e me levanto. - Obrigado por todos esses doze meses de terapia.

- Estarei aqui sempre que precisar, meu querido. - A mulher se levanta e me abraça forte. - Te espero no próximo mês e espero que venha com boas novidades.

- Eu também espero vir com novidades, Liza. Eu também espero...

Foram longos doze meses de terapia. Longas quatro semanas depois do incidente até que meus advogados recorressem e eu conseguisse voltar a ver minha filha, longos dois meses onde eu tive recaída ao descobrir que Maureen ia se casar com outro, tiraram novamente minha permissão para ver minha filha e, só então, eu me permiti cair de cabeça no tratamento.

Me machucaram de todas as formas possíveis. Me tacharam como maluco, me pintaram como o pior pai do mundo para a minha filha. Contudo, no final, tudo isso só me ajudou a ter forças para me reerguer e redirecionar meu foco.

A partir de agora, sou um novo Liam Stevens. A partir de agora a minha vida se resume ao hospital que meu pai deixou para gerir e a minha filha. Serei o melhor profissional, o melhor médico que poderia dirigir o hospital que meu pai tanto lutou para erguer. Serei também o melhor pai que Chloe poderia ter, serei o seu orgulho.

Sem mais distrações, sem mais machucados, apenas eu, minha filha e meu trabalho.

Do consultório da doutora Elizabeth Taylor até o hospital, eu tenho apenas que atravessar a rua. Com meu paletó em minhas mãos, minha maleta em outra, ando pelos corredores às pressas a fim de chegar à minha sala e iniciar os trabalhos do dia.

- O senhor tem uma cirurgia marcada para meio-dia. Outra à noite... - Susan, minha secretária sinaliza assim que entramos no elevador.

Aperto o botão do último andar, as portas do elevador começam a se fechar, mas uma mulher corre em nossa direção e grita chamando minha atenção e fazendo Susan rir por tamanho desespero.

- Segura a porta, por favor! - É o que ela pede e me faz colocar a mão na frente para que as portas não se fechem.

A mulher nos alcança, entra no elevador e só então eu tiro minha mão da frente das portas permitindo que as portas se fechem.

- Bom dia e obrigada.

Com um sorriso gentil em seus lábios vermelhos, tingidos por um batom, a mulher me olha com seus olhos, dotados de um intenso verde e brilhantes como duas esmeraldas, contrastam perfeitamente com a cor de seus cabelos, escuros como a noite. Ela é linda. Pequena, como uma fada, se me abraçasse, sua cabeça bateria facilmente no meu peito, mas isso só a torna ainda mais encantadora. Dona de lábios volumosos, sobrancelhas grossas, nariz levemente arrebitado e um sorriso cativante, a mulher ainda possui um perfume extremamente familiar.

- Chanel nº 5. - Falo em voz alta o nome do seu perfume. - Suave e floral...

A mulher, um tanto quanto envergonhada, olha para Susan que está parada como um poste ao meu lado e digita freneticamente em seu celular. Depois, com o cenho franzido, ela olha para mim.

- Já disseram que é estranho falar o nome dos perfumes alheios? E mais estranho ainda descrevê-los?

Seus olhos são instigantes como um mistério, me faz querer desvendá-lo, ou até mesmo sentar e ficar o admirando pelo dia inteiro.

O andar dela chega e eu não consego dar-lhe uma resposta.

- Bom dia, Doutor. - É tudo o que ela diz antes de virar as costas para mim e sair da grande caixa de metal que nos trouxe até aqui.

- Bom dia, doutora... - Aceno com uma das minhas mãos livres e a vejo voltar seu olhar para mim novamente e sorri.

Seu perfume lembra minha mãe. Ele é uma das poucas memórias boas que me remetem à mulher que me colocou no mundo. Seu perfume me lembra as vezes em que ela me colocava para dormir sobre o seu peito nas noites de tempestade, ou então às tardes chuvosas que passávamos juntos no sofá assistindo filmes enquanto meu pai não chegava do trabalho. Ele também me lembra de todas as vezes que ela ia me buscar na escola.

- Quem é essa garota? Eu nunca a vi por aqui. - Eu pergunto a Susan que deixa o celular de lado quando alcançamos nosso andar e as portas do elevador se abrem.

- Às vezes eu a encontro no refeitório. Ela começou como psicóloga há pouco tempo.

Psicologia...

- Trabalha lá na oncologia. - Completa a informação.

- Tem nome? - Debruço-me sobre a mesa de Susan quando a mulher para ali e senta.

- Claire, doutor. Claire Morris.

Eu pensei ter controle sobre mim mesmo até vê-la. Mas não, agora eu sei que eu estava muito enganado... Enquanto o seu perfume permanece em minhas narinas e seu olhar ainda assombra minha mente, eu só consigo pensar no quão beijáveis os seus lábios pareciam ser. Eu pensava estar curado daquele sentimento doentio que eu costumava chamar de amor.

Eu não tive culpa. Foi só a ver que tudo saiu do meu controle mais uma vez.

Capítulo 2 Claire Jude Morris

Claire – Uma nova obsessão

Capítulo 2 – Claire Jude Morris

Liam Stevens

Eu não consigo explicar o que aconteceu. Todo o meu mundo girou em volta da moça de baixa estatura que eu encontrei no elevador mais cedo. Claire permeou meus pensamentos antes, durante e depois de todas as duas cirurgias que tive ao longo do dia.

- Conseguiu o que te pedi? - Pergunto para Susan escorando-me em sua mesa pouco antes do seu horário de saída.

- Como sempre. - Ela sorri vitoriosa e me estende o envelope de papel pardo. - Entreguei aquele papel de alta que a sua terapeuta te deu. Seus advogados disseram que amanhã te retornam com uma resposta.

Um pai não deveria ser impedido de ver sua filha por meses como eu fui. No mínimo, se eu dei a eles um atestado, eles deveriam liberar imediatamente minhas visitas à Chloe.

- Obrigado. - Seguro o papel e volto para minha sala onde me tranco.

Eu não consigo me controlar. Eu quero saber mais sobre Claire, quero saber muito mais sobre a mulher de olhar tão marcante que me fez pensar nela o dia inteiro. Quero saber mais sobre tudo que a torna tão inocente, meiga, mas ao mesmo tempo tão atrevida.

Tudo está começando novamente. O mesmo sentimento de ansiedade, aquela curiosidade, vontade de saber toda a vida da pessoa em apenas um segundo, vontade de estar perto, fazê-la sorrir, escutar suas risadas... O mesmo sentimento de estar mergulhando de cabeça em uma piscina.

Antes de abrir o envelope e saciar minha curiosidade sobre a vida da menina, vou até a minha mesa e sento-me sobre a minha cadeira. Respiro fundo, livro-me do meu jaleco, abro alguns botões da minha blusa social e, só então tiro os papéis do envelope pardo.

- Claire Jude Morris, vinte e cinco anos... - Leio atentamente o currículo da moça.

Ela é nova, bem nova.

- Passou como primeira da turma do seu curso de Psicologia, se formou com honras no colegial... Aluna exemplar e... - Meus olhos percorrem outra informação importante. - Solteira. - Meus olhos continuam lendo palavra por palavra do papel e, pouco mais abaixo do seu estado civil, o endereço de sua residência.

Respiro fundo, largo o papel sobre a mesa e levanto-me da cadeira secando minhas mãos que começaram a suar. Andando de um lado para o outro, eu só consigo lembrar-me de todas as sessões de terapia e as palavras de Liza direcionadas a mim.

''Nem todas as mulheres são como a sua mãe.''

''Você não precisa agir como o seu pai.''

''Liam, você é você. Precisa confiar em si mesmo e controlar seus impulsos.''

Depois de escutar a voz de Liza ecoando na minha cabeça em mais um de seus sermões dotados de sua extrema razão, volto até minha mesa às pressas, pego o papel com o currículo da moça, o amasso e jogo o mesmo dentro da lixeira como se o papel estivesse contaminado.

O problema não é o papel, o problema sou eu mesmo.

Eu não posso me dar ao luxo de recair. Eu preciso ser mais forte que minha impulsividade...

Sem vontade nenhuma de dar chance para que eu mude de ideia, pego meu paletó, minha maleta e saio da minha sala. Vejo a recepção, já está escura e vazia. Susan já se foi, me deixando só no andar. Quando verifico as horas no relógio de parede, vejo que já passa das sete da noite e só então compreendo o ambiente deserto. Caminho pelo corredor, aperto o botão do elevador que não demora a atender o meu chamado. Entro na grande caixa de metal, antes vazia, aperto o botão que se refere ao subsolo e a porta se fecha descendo os andares. Cantarolo alguma musiquinha de desenho infantil e fecho os olhos tentando recordar-me de Chloe, minha filha, para que eu não tenha espaço nos meus pensamentos para a moça de mais cedo.

Infelizmente, sinto um impulso no meu corpo. O elevador para e abre as portas, fazendo-me abrir os olhos em um instinto de defesa contra prováveis surpresas. E... para minha surpresa, por estranha coincidência, Claire entra no elevador.

Não consigo ver seu olhar já que sua cabeça está baixa. Escuto um fungar vindo de sua direção e isso só me deixa ainda mais inquieto e preocupado.

Por que ela tinha que aparecer? Eu não deveria estar sentindo o que estou sentindo...

A moça que distribuía sorrisos hoje cedo não parece tão alegre... O que deve ter acontecido?

- Dia ruim no trabalho? - Pergunto e rapidamente tiro do bolso do meu blazer um lenço, estendo na direção da moça e espero que ela aceite.

- Obrigada. - Ela levanta sua cabeça, pega o lenço e enxuga seu rosto molhado pelas lágrimas.

Seus olhos perderam todo brilho que tinham mais cedo, seus olhos estão em um tom mais escuro, quase castanhos, agora sem vida e em sua volta, possuem um tom avermelhado que me deixam ainda mais apreensivo.

- Dia péssimo, aliás. - Ela força um sorriso, mas eu sei que não há verdade nele. Ela apenas está sendo irônica.

A mulher não tem tempo de terminar seu desabafo, logo chegamos ao subsolo e ela parece cair em si de que não está no local desejado. Sei disso, pois vejo o jeito como bufa estressada e a sua mão vai à sua testa. É instantâneo, eu rio.

- Até você? - Ela me olha com a testa franzida e um olhar bem raivoso.

- Vamos fazer assim? Eu te pago uma bebida e escuto suas lamúrias. - Proponho.

- Eu não sei... - Ela parece analisar a situação enquanto olha para o visor do celular.

Ela está esperando alguém? Tem algum compromisso? Alguém a esperando em casa?

- A não ser que você tenha algo para fazer, aí...

- Eu nem te conheço. - Ela diz quando conclui, me levando a acreditar que tem medo. - E eu não vou mesmo entrar em um carro com um estranho. - Declara. - Nada contra o senhor, ok?

- Sem essa de senhor. - Rio de lado. - E, olha, eu posso deixar minhas coisas no carro e podemos ir andando até um pub que tem na esquina.

- Eu não bebo nada alcoólico, acho que é perda de tempo. - Ela balança a cabeça um tanto envergonhada e coça a nuca.

- Tem uma cafeteria aqui na frente também. - Dou a ela uma solução. - A gente pode ir para onde você preferir, eu só não acho que devo deixar alguém triste ir embora sem nem ouvir.

- Não é problema seu, sabia? - Ela abre um sorriso largo. - Você é do tipo que tenta ajudar todos e ignora os próprios problemas? - Ela dá um passo em minha direção e me olha nos olhos.

Não é que ela acertou mesmo?

- Talvez. - Devolvo-lhe o mesmo sorriso desafiador. - Você pode descobrir tomando um café comigo. - Dou de ombros.

Com uma risada tão gostosa quanto a risada de um bebê, Claire se dá por vencida e assente com sua cabeça aceitando meu convite. Sendo assim, em passos largos, eu alcanço meu carro no qual eu abro, deixo minha pasta, meu paletó e arrumo minha blusa de forma que eu me sinto muito mais à vontade sem a gravata e com alguns botões abertos.

- Podemos ir. - Me coloco ao lado da mulher que cruza os braços e segue a caminhada ao meu lado.

Capítulo 3 Quem é ele

Claire – Uma nova obsessão

Capítulo 3 – Quem é ele?

Juntos, saímos do estacionamento do hospital ainda em silêncio. Preciso adicionar à minha lista que a moça, além de tudo, ainda é tímida. Passamos por algumas pessoas que nos encaram descaradamente e, através dos seus olhares nada discretos, eu sei o que estão pensando.

Eles conhecem a minha história. Há um ano que eles não me veem acompanhado de ninguém e isso, me ver andando ao lado de Claire, deve está sendo uma boa razão para novas fofocas. A última foi o término do meu casamento com Maureen que também era médica aqui do hospital. Depois dessa fofoca, veio o casamento da Maureen, meus escândalos e eu sendo impedido de ver minha própria filha.

O que me deixa esperançoso é que Claire parece nem saber quem eu sou, muito menos do meu passado podre, no entanto, até quando isso deve durar?

Quando saímos do hospital, escuto o telefone de Claire tocar e a vejo olhar rapidamente para a tela e negar a ligação, voltando a guardar o aparelho no bolso traseiro da calça, em seguida.

- Trabalha aqui há muito tempo? - Ela puxa conversa enquanto andamos lado-a-lado na calçada até a cafeteria que sugeri.

Seu olhar tímido me sugere muitas coisas. Além da vergonha, ele me sugere que ela quer desviar-se do assunto, não quer que eu foque na ligação que ela acabou de ignorar.

Será algum namorado? Dispenso o pensamento quando olho para suas mãos e não encontro nenhum sinal de aliança.

- Eu praticamente fui criado aqui. - Conto. - Quando adolescente, eu passava mais tempo na sala de espera da cirurgia do que os próprios estagiários. - Compartilhamos uma risada.

E preciso salientar que sua risada é uma das mais belas que eu já tive o prazer de ouvir.

Quando chegamos à cafeteria, abro a porta para que a moça entre e a acompanho ficando em seu encalce. Escolhemos uma mesa, a mais discreta em um canto no fundo, onde procuramos não chamar tanta atenção. O ambiente, não muito cheio, mas nem tão vazio, é aconchegante e até mesmo um tanto mais aquecido que o ambiente externo. O cheiro de café, acompanhado do cheiro de bolo de chocolate sendo assado, torna o lugar ainda mais aconchegante e com cara de casa.

- Eu amo os bolos daqui. - Claire respira fundo e fecha os olhos enquanto sorri.

- São bons mesmo... - Sorrio e a vejo abrir os olhos.

Eles não estão mais tão vermelhos, apenas levemente inchados e com um tanto acinzentados, não verdes, ainda sem o brilho que exibiam mais cedo, pela manhã.

- Boa noite! O que o casal gostaria de pedir? - Somos surpreendidos por uma garçonete.

Uma senhora que deve ter por volta dos seus cinquenta e poucos anos, um sorriso gentil nos lábios e alegria no olhar. Ela gosta de trabalhar aqui, dá para sentir em sua voz e no fundo dos seus olhos.

- Sem essa, Mandy, ele é apenas um amigo. - Claire me surpreende ao mostrar que conhece a mulher. - Vou querer aquele chocolate quente com muitos marshmallows e aqueles seus cookies maravilhosos.

- Foi um dia ruim, minha menina? - Mandy lê a mulher ao meu lado como nunca.

- Sim. - Ela força o sorriso. - E você, Moço que eu percebi só agora que não sei nem o nome... - Ela vira-se para mim sorrindo.

- Liam. - Estendo a mão para ela que sorri e a aperta.

- Claire. - Declara me cumprimentando.

Só então eu percebo que era para eu nem saber o nome dela antes disso.

- E eu vou querer o mesmo que ela, Mandy. - Encaro a mulher que nos observa com o mesmo sorriso angelical nos lábios.

- Já, já eu trago os pedidos de vocês. - Com um piscar de olhos, uma voltinha, a mulher sai de perto de nós com o seu bloquinho em mãos e some do nosso campo de visão.

- Cliente vip? - Pergunto para Claire que levanta as mãos em rendimento.

- Touché. - Brinca. - Digamos que eu sou péssima cozinhando e também tenha um pouco de preguiça pela manhã... então eu prefiro tomar meu café aqui todos os dias da vida, ao invés de aprender a cozinhar.

- Sábia escolha. - Declaro a fazendo rir.

- Obrigada, sabe? - Ela desfaz o sorriso e brinca com o porta-guardanapos na mesa. - Me tirou de uma tristeza que eu nem imaginava ser possível.

Nesse momento, eu sinto que seu olhar se transforma novamente. Ele volta a ficar triste, seu semblante, abatido.

- Quer contar o que aconteceu? - Pergunto cobrindo a sua mão com a minha.

- Todos sempre dizem que precisamos nos acostumar a perder os pacientes. - Ela revela e levanta seu olhar para encontrar o meu. - Eu sei que precisamos, mas as pessoas... - Ela gesticula com as mãos e parece estressada. - Eu ainda sou nova nisso, mas sinto que nunca vou me acostumar a perdê-los. Hoje eu já pensei até em desistir, entende? Sei lá... Senti como se aquilo não fosse mesmo para mim. Como se eu não pertencesse àquele lugar.

- Somos seres humanos. Sempre sofreremos com a perda, isso é um fato. Se alguém disse que você não deve sentir isso, essa pessoa não é humana. - Declaro acariciando a macia pele de sua mão.

Quando o olhar de Claire recai sobre a minha mão e ela se dá conta da nossa ''proximidade'', ela retira a sua mão de perto da minha e sorri sem graça.

Um leve clima de tensão se instaura entre nós, mas logo passa já que Mandy volta com uma bandeja, duas canecas cheias de marshmallows e um prato com alguns cookies.

- Obrigada, Mandy. - Claire agradece e recebe um sorriso de gratidão da mulher que nos atende.

Tudo isso sobre a mesa me cobre de nostalgia.

- Minha mãe costumava fazer biscoitos e chocolate quente nas tardes de véspera de natal. - Revelo para Claire e surpreendo-me comigo mesmo.

Há anos eu não consigo nem me referir à mulher que me trouxe ao mundo e depois em abandonou para fugir com o amante. Só hoje eu já falei sobre ela algumas boas vezes. Detalhe: Lembrei-me e falei de coisas boas. O que está acontecendo comigo?

- A minha também. - Ela afirma levando a caneca à boca com as duas mãos.

Por segundos, a mulher que apesar de doce, expira independência, parece uma criança indefesa segurando a louça de porcelana quente.

- E depois ela deitava minha cabeça em seu colo e me contava histórias enquanto me fazia cafuné. - Revela um pouco mais depois de bebericar alguns goles do líquido doce e quente. - E é por isso que eu sempre tomo chocolate quente quando um dia está sendo péssimo.

- Por quê?

- Porque ele me dá a sensação de que eu estou segura e bem. Que as coisas podem ter não saído como o esperado, mas mesmo assim eu ainda vou ficar bem e segura. - Afirma com um sorriso de lado. - Você deve estar me achando um saco, né?

- Na verdade, não. - Eu respondo com pressa, para não a deixar pensar que eu concordo. - Você faz o que lá no hospital?

- Sou psicóloga e acompanho alguns pacientes da oncologia. - Ela responde meigamente.

Um sorriso orgulhoso brinca em seus lábios ao citar sua profissão.

O jeito que sua boca se mexe é tão... tão loucamente beijável!

- E você? - Desperto-me dos meus pensamentos quando entendo sua pergunta direcionada para mim.

- Cardiologista. - Digo.

Não é só isso, mas não sei se ela está preparada para saber que eu praticamente sou o chefe dela, agora.

- O que te levou a escolher isso? Digo... consertar corações? - Ela sorri.

- Meu pai era um... um dos melhores. - Sorrio orgulhoso. - Consertar corações, era o que ele fazia de melhor. - Aproprio-me das suas palavras para respondê-la.

Na verdade, a única coisa que ele fazia bem.

Como pai, ele foi bom, mas as marcas que ele deixou em mim foram a raiz do meu problema. Ele tentou, mas não conseguiu. Como médico, era excepcional, um verdadeiro espelho para mim e a razão pela qual estou aqui hoje.

- Parabéns. - Ela me parabeniza e finge bater palmas antes de seus dedos agarrarem um biscoito e ela morder um generoso pedaço.

Faço o mesmo e sinto o biscoito derreter deliciosamente sobre a minha língua.

- Esse biscoito é mágico, só pode! - Exclamo colocando uma mão sobre a minha boca para falar enquanto ainda me delicio com o sabor do cookie com gotas de chocolate.

- Agora você me entende? Ele é simplesmente o melhor! - Ela ri catando mais um biscoito do prato.

O celular dela toca novamente e eu a vejo desfazer o sorriso tão rápido quanto ela engole o biscoito que tinha acabado de levar à boca.

- Eu tenho que atender, pode me dar só um minutinho? - Ela pede com o celular ainda tocando, em mãos. Assim que eu assinto, a vejo correr para fora do estabelecimento e levar o telefone ao ouvido.

Eu ainda consigo ter visão dela pela janela de vidro da frente da loja. Seus lábios se movem freneticamente a pronunciar palavras que eu não consigo ler neles. Claire anda de um lado para o outro, o nervosismo é evidente e pelo jeito que sua mão brinca no ar, eu só tenho certeza de que ela está brigando com alguém do outro lado da linha.

Seria um namorado? Noivo? Algo do tipo?

Cento e vinte segundos se passam. Dois minutos exatos desde que Claire saiu pela porta e só então ela entra novamente na cafeteria.

- Desculpa, Liam, mas eu preciso ir embora. - Ela está nervosa. Há algumas lágrimas em seus olhos e eu consigo ver seus lábios tremerem.

Ela quer chorar.

- Hey, tudo bem? - Minha mão encosta em seu braço, mas ela afasta-se rapidamente do meu toque.

- Tudo sim... Eu só preciso ir para casa. - Ela afirma buscando por alguma coisa dentro da sua bolsa grande. Quando parece achar, ela tira uma carteira de lá de dentro, saca algumas notas e faz menção em colocá-las em cima da mesa, mas eu não deixo.

- Eu convidei, eu que pago. - Afirmo e a vejo revirar os olhos.

- Eu brigaria com você se tivesse mais tempo. - Dito isso, tiro do meu bolso da calça a minha carteira e deixo algumas notas sobre a mesa.

Talvez um pouco além do suficiente para pagar pelo que comemos, mas eu não me importo. Eu só quero que ela me deixe levá-la até sua casa. Eu preciso saber o que está acontecendo. É uma necessidade, uma urgência.

- Eu pago da próxima. - Dito isso, ela vira as costas para mim e sai do estabelecimento novamente.

Mandy até tenta acenar para a mulher, mas é ignorada.

Claire está transtornada, eu me sinto mal por vê-la assim.

- Podemos ir com meu carro. - Já na rua, eu preciso dar passos um pouco mais acelerados para alcançar a mais baixa que para em um ponto de táxi e parece esperar por um.

- Eu agradeço muito toda a sua ajuda, suas palavras e seu apoio. Mas eu não quero que você me leve em casa. É difícil entender isso? - Ela fala e parece estar com raiva. - Só... vai embora? Por favor. - A mulher quase grita para mim enquanto luta para lágrimas não rolarem pelo seu rosto por mais uma vez.

Porém, é uma missão quase impossível, já que seus olhos parecem não mais suportar o peso de tantas lágrimas.

- Claire... - Eu toco seu cotovelo, mas ela dá um passo para trás.

Um carro para à nossa frente e dele sai um cara que foca seu olhar em mim, enquanto ignora a mulher.

- Claire, meu doce, entra no carro. - É tudo o que ele fala antes que a mulher o obedeça cegamente e faça o ordenado.

- Boa noite. - Ele diz para mim.

O homem deve ser uns cinco centímetros mais baixo que eu. Possui olhos azuis, pele um pouco mais escura que a minha, barba por fazer e braços nada musculosos. É um esquelético, tatuado, com marra de dez lutadores, mas que não deve aguentar um soco.

- Péssima. - Respondo. - Sabe por qual motivo ela está chorando assim? - Pergunto impaciente.

- Apenas uma briga de casal. Nada que não se resolva em casa. - Ele diz. - Algum problema? - Seus olhos me ameaçam e eu só consigo rir.

- Até amanhã, Claire. - Abaixo-me rapidamente e aceno para ela. - Até amanhã.

Claire mal me olha e isso é o que mais me angustia.

O cara mal-humorado volta a entrar no carro e, ao bater a sua porta com força e fechar todos os vidros do seu carro, dirige para longe de mim deixando-me ainda mais enfurecido e preocupado.

Quem é esse homem? O que está acontecendo com Claire? O que ele fez para deixá-la tão nervosa em tão pouco tempo?

Eu não pude impedi-lo hoje, mas eu sei que vou conseguir dar um jeito de ajudar a mulher que dominou os meus pensamentos o dia inteiro. Não sei se é uma disputa, mas eu sei que vou conseguir. É uma questão de necessidade a partir de agora.

Eu preciso, quero e vou ter Claire.

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