A dor fantasma no meu útero me acordou, trazendo à tona o horror de um passado que parecia ter me abandonado.
Minha barriga estava lisa, vazia, mas a imagem do meu filho, azul e sem vida, e o cheiro de sangue inundando o quarto ressurgiram com força devastadora.
Ali, no limiar da minha morte, estava Clara, minha amada irmã adotiva, com um sorriso vitorioso e palavras que ecoavam: "Como posso deixar uma bastarda me dominar? A culpa é dela e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"
Eu havia sido traída, humilhada e vista perecer pelas mãos das pessoas em quem mais confiava: Clara e Lucas, o Quarto Príncipe, meu marido.
Mas, de repente, abri os olhos. O sol da manhã entrava pela janela do meu quarto na mansão, e uma criada sorridente anunciou: "Senhora, está grávida."
As mesmas palavras que marcaram o início do meu fim, agora o começo da minha segunda chance. Eu renasci. Desta vez, não haveria ingenuidade, apenas uma frieza calculista. O jogo tinha recomeçado e, agora, eu controlaria cada movimento.
A dor fantasma no meu útero me acordou.
Um suor frio escorria pela minha testa, e eu me sentei na cama, ofegante. Meu primeiro instinto foi tocar minha barriga. Estava lisa. Vazia.
O terror da minha vida passada me envolveu como um manto gelado. A imagem do meu filho, azul e sem vida, e o cheiro de sangue enchendo o quarto. E Clara, minha querida irmã adotiva, de pé sobre mim, com um sorriso vitorioso.
"Como posso deixar uma bastarda me dominar? A culpa é dela e daquele bastardo por estarem no meu caminho!"
Sua voz ecoou na minha cabeça, tão clara como se ela estivesse ali.
Eu balancei a cabeça, tentando afastar a memória. Olhei ao redor. Este era o meu quarto na mansão do Quarto Príncipe. O sol da manhã entrava pela janela, iluminando a poeira que dançava no ar. Tudo estava exatamente como antes.
Uma criada entrou silenciosamente.
"Senhora, está acordada? O médico acabou de sair. Ele confirmou..."
A criada hesitou, com um sorriso animado no rosto.
"Ele confirmou que a senhora está grávida."
Aquelas palavras. As mesmas palavras que marcaram o início do meu fim na vida anterior.
Desta vez, não senti a alegria ingênua que senti antes. Senti um calafrio percorrer minha espinha. Renasci. Voltei para o dia em que tudo começou.
"Entendo," eu disse, minha voz surpreendentemente calma.
A criada pareceu surpresa com a minha falta de entusiasmo.
"A senhora não está feliz? É o primeiro filho de Sua Alteza!"
Eu forcei um sorriso.
"Claro que estou. Estou apenas... processando. É uma grande notícia."
Naquele momento, a porta se abriu com um rangido e Lucas, o Quarto Príncipe, meu marido, entrou. Seu rosto, que eu um dia achei bonito, agora parecia apenas superficial e fraco.
"Sofia! Ouvi a notícia! É verdade?"
Ele correu para o meu lado da cama, seus olhos brilhando com uma ambição mal disfarçada. Ele não estava feliz por mim, ou por nós. Ele estava feliz pela oportunidade que um herdeiro representava.
"É verdade, Alteza," eu disse, baixando os olhos para parecer submissa.
"Maravilhoso! Maravilhoso! Precisamos anunciar isso a todos! Uma grande festa!"
Ele já estava planejando, seu cérebro girando com as implicações políticas. Na minha vida anterior, eu concordei com entusiasmo. Desta vez, não.
"Alteza," eu o interrompi suavemente. "Eu preferiria manter isso em segredo por enquanto."
Ele franziu a testa.
"Por quê? Esta é uma notícia gloriosa!"
"É precisamente por ser tão gloriosa que devemos ser cautelosos," eu expliquei, escolhendo minhas palavras com cuidado. "A gravidez ainda está no início. Muitas coisas podem dar errado. Além disso... eu gostaria de compartilhar a notícia primeiro com minha irmã, Clara. Pessoalmente."
A menção de Clara fez Lucas parar. Na vida anterior, ele a desejava secretamente, mesmo depois que ela rejeitou o casamento com ele. A rejeição dela só o fez querer mais.
Eu sabia que o que não se tem é sempre idealizado. Desta vez, eu mesma entregaria o objeto de seu desejo a ele.
Que eles se afundem juntos.
Lucas me olhou, uma expressão complexa em seu rosto.
"Isso é muito gentil de sua parte, Sofia. Dada a história de vocês..."
"Ela é minha irmã," eu disse, com uma sinceridade fingida que me deu náuseas. "A felicidade dela é a minha felicidade. E eu sei que ela ficará emocionada por nós."
Eu sabia exatamente como Clara reagiria. Ela ficaria com inveja. Uma inveja corrosiva que a levaria a fazer exatamente o que fez na vida anterior.
Mas desta vez, eu estaria esperando. Desta vez, eu controlaria o jogo.
Lucas, o tolo ambicioso, sorriu, convencido pela minha demonstração de virtude.
"Como desejar, minha querida. Você tem um coração de ouro."
Eu sorri de volta, um sorriso vazio.
Meu coração não era de ouro. Era de pedra, forjado no fogo da traição e da morte. E estava pronto para a vingança.
No dia seguinte, comecei a mover minhas peças.
Chamei minha criada pessoal, Lúcia. Na vida passada, Lúcia foi a primeira a me trair. Foi ela quem, a mando de Clara, começou a adicionar "ervas nutritivas" à minha sopa, ervas que enfraqueceram meu corpo e meu filho.
Lúcia entrou e fez uma reverência.
"Senhora, chamou?"
"Lúcia, há quanto tempo você me serve?" eu perguntei, examinando-a.
Ela parecia confusa com a pergunta.
"Desde que a senhora se casou e veio para a mansão, senhora. Quase um ano."
"Você tem sido uma criada leal e trabalhadora," eu disse, e vi um brilho de orgulho em seus olhos. "Acho que seu talento está sendo desperdiçado apenas cuidando de mim."
O brilho em seus olhos se intensificou, misturado com curiosidade.
"Senhora?"
"O Príncipe Lucas precisa de pessoas de confiança ao seu lado, especialmente agora, com tantas coisas acontecendo na corte. Eu estava pensando... você gostaria de ir trabalhar diretamente para ele? No escritório dele."
A mandíbula de Lúcia caiu. Trabalhar no escritório do príncipe era uma posição de prestígio e poder, muito acima de ser uma simples criada de quarto. Era uma oportunidade de ouvir segredos, ganhar influência e, o mais importante para alguém como Lúcia, receber subornos.
Eu sabia que a ambição dela era seu ponto fraco.
Em minha memória, a imagem de Lúcia me forçando a beber a sopa amarga surgiu. "É para o seu bem, senhora. A senhorita Clara disse que isso fortalecerá o bebê." As mentiras dela queimaram em minha garganta novamente. Ela não fez isso por lealdade a Clara, mas pelo ouro que Clara lhe prometeu.
Agora, eu ofereceria a ela uma oportunidade muito maior.
Vendo a hesitação gananciosa em seu rosto, eu sabia que a tinha fisgado.
"Senhora... eu... eu não sou digna de tal honra. Meu dever é servi-la," ela disse, as palavras soando falsas até para ela.
"Bobagem," eu disse com um aceno de mão. "Sua lealdade a mim se traduzirá em lealdade ao príncipe. Pense nisso como uma extensão de seus deveres. Você estará me ajudando, mantendo os olhos e ouvidos abertos para mim no lugar mais importante da casa."
A lógica era perfeita. E a isca, irresistível.
Mais tarde naquele dia, abordei Lucas.
"Alteza, eu tive uma ideia para ajudar a garantir sua segurança e influência."
Ele ergueu uma sobrancelha, intrigado.
"Continue."
"Minha criada, Lúcia. Ela é inteligente, discreta e, o mais importante, completamente leal a mim. Gostaria de transferi-la para o seu escritório. Ela pode servir seu chá, organizar seus papéis e, ao mesmo tempo, ser meus olhos e ouvidos, garantindo que ninguém esteja conspirando contra você."
Lucas franziu o cenho.
"Sua criada pessoal? Por que você abriria mão dela?"
"Porque seu bem-estar é o meu bem-estar, e o bem-estar do nosso filho," eu disse, colocando uma mão protetora sobre minha barriga. "Com ela lá, eu ficarei mais tranquila. E você terá alguém que não pode ser facilmente comprado por seus irmãos."
A menção de seus irmãos rivais o convenceu. A paranoia era uma constante na família real. A ideia de ter uma espiã que respondia à sua esposa, que por sua vez dependia inteiramente dele, pareceu-lhe uma estratégia brilhante.
"Uma excelente ideia, Sofia. Sua mente para estratégia é notável."
Ele sorriu, satisfeito consigo mesmo por ter uma esposa tão "útil".
Naquela noite, a mãe de Lúcia, que trabalhava na cozinha, veio me ver. Ela se prostrou no chão, chorando de gratidão.
"Senhora, muito obrigada! Minha Lúcia... trabalhar no escritório do príncipe! Nunca sonhamos com tal honra! A senhora é uma deusa benevolente!"
Eu a ajudei a se levantar, um sorriso gentil no rosto.
"Ela merece. Ela é uma boa moça."
Enquanto a mulher se afastava, cheia de orgulho, eu olhei para a escuridão do jardim.
Lúcia era uma cobra. E eu a estava colocando no ninho de outra cobra. Deixem que se mordam. Deixem que o veneno se espalhe. Eu apenas assistiria de longe, segura e protegida.
O primeiro passo do meu plano estava completo.