Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Moderno > Colocando sua coroa de volta
Colocando sua coroa de volta

Colocando sua coroa de volta

Autor:: Star Cruiser
Gênero: Moderno
Noelle era a filha há muito perdida que sua família procurava, mas quando ela retornou, eles a tratavam com desprezo. Cansada, ela foi embora e se casou com um homem cuja influência poderia abalar o país. Prodígio da dança, campeã de corrida, compositora virtuosa, restauradora de bens culturais... Os segredos de Noelle se revelavam um após o outro, ocupando as manchetes. Os sorrisos presunçosos da sua família desapareceram. O pai voltou correndo do exterior, a mãe chorou por um abraço e os cinco irmãos se ajoelharam implorando. Sob o céu estrelado, o marido puxou Noelle para perto, sua voz cheia de ternura. "Eles não valem a pena. Vamos para casa."

Capítulo 1 Gravador de voz

"Noelle, se ajoelhe agora mesmo e peça desculpas a Willa!" Uma voz masculina ordenou, cortante e gelada, ecoando pela ampla sala de estar.

Noelle Moss permanecia imóvel no centro do cômodo, os cílios longos abaixados, enquanto apertava discretamente o gravador de voz escondido no bolso. Seus olhos, relutantes, se ergueram lentamente até o homem sentado no sofá: Gerard Moss, seu terceiro irmão.

Ao lado dele, serena e artificialmente preocupada, estava Willa Moss - a filha adotiva da família. Embora ela sequer compartilhasse um traço de sangue com eles, era a ela que Gerard defendia com unhas e dentes, e era por ela que ele exigia que Noelle se humilhasse.

"Você empurrou Willa escada abaixo de propósito. Como pôde ser tão cruel? Você é desprezível, Noelle! Eu me recuso a reconhecer alguém como você como minha irmã!", Gerard vociferou.

Desprezível?

A palavra martelou dentro de Noelle como uma pedra arremessada contra vidro. Seus cílios tremularam, e ela lutou contra o peso que se acumulava no seu peito. "Eu não..."

Antes que ela terminasse a frase, Gerard agarrou um copo da mesa e o lançou na sua direção com violência. "E ainda tem a ousadia de retrucar?"

O objeto atingiu o pé de Noelle, ricocheteou e se estilhaçou no chão, espalhando cacos por todo lado.

O ferimento foi imediato: seu pé começou a inchar e ganhar um tom avermelhado, enquanto finas lascas de vidro cortavam sua pele, fazendo o sangue brotar em fios vivos.

Noelle, no entanto, não se mexeu. Ela ficou ali, imóvel, como se isso não lhe causasse dor alguma.

Essa não era a primeira vez que Gerard gritava com ela - tampouco a primeira em que a feria.

"Gerard, por favor... não seja tão duro com Noelle. Ela não me empurrou de propósito. Não foi culpa dela, foi só um acidente. Na verdade, a culpa foi minha", Willa disse com a voz suave, carregada de falsa compaixão.

Gerard franziu o cenho, confuso por um instante, e sua expressão endurecida pareceu suavizar. "E você ainda a defende, Willa? Já pensou no que poderia ter acontecido se ficasse com alguma marca? Você é uma garota. Não pode se dar ao luxo de se machucar assim! E não pode ser negligente com sua aparência!"

"Mas Gerard..."

"Já chega. Pare de protegê-la. Venha cá, deixe eu ver se você está machucada."

"Estou bem, Gerard. Foi só um susto..."

Enquanto os dois encenavam o teatrinho costumeiro, Noelle apenas os observava em silêncio, exausta.

Era sempre o mesmo cenário: Willa como a vítima frágil e inocente, Gerard como o protetor cego. Ninguém se importava com o corte na sua perna, e ninguém notava o sangue escorrendo ou a dor que ela sentia. Para sua família biológica, ela não importava.

Noelle havia crescido sozinha, num orfanato, aprendendo desde cedo que não podia contar com ninguém além de si mesma. Quando foi acolhida por Jeffery e Babette Hobbes, conheceu pela primeira vez o que era afeto genuíno. Eles a trataram com cuidado e nunca a fizeram se sentir um fardo.

Agora, ali diante de Gerard, observando sua preocupação exagerada com a beleza de Willa enquanto ignorava completamente sua própria irmã ensanguentada, Noelle só conseguia sentir um cansaço profundo, quase insuportável.

Gerard, ao se virar novamente, deu de cara com o leve sorriso zombeteiro que se insinuava no rosto de Noelle, e isso o enfureceu ainda mais. "Está rindo de quê? Quando trouxemos você de volta há dois anos, deixamos claro que Willa foi criada nesta casa. Mesmo que não sejam do mesmo sangue, você deveria tratá-la como uma irmã de verdade. Como a mais velha, seu papel é protegê-la! Mas o que você fez desde então, Noelle?"

Noelle sorriu amargamente. Seus lábios, delicadamente rosados, tremiam levemente.

Dois anos atrás, quando a família Moss a procurou e a reconheceu como filha, Noelle acreditou ter finalmente encontrado seu lugar no mundo. Jeffery e Babette já haviam partido, e ela não tinha mais ninguém. Quando Levi Martin, amigo de longa data de Jeffery, lhe ofereceu abrigo, ela recusou, pois tudo o que queria era conviver com sua verdadeira família.

Durante todo esse tempo, ela tentou se adaptar. Foi paciente e silenciosa, cedeu a Willa tudo o que tinha de melhor e se contentou com as sobras.

Ela se apagou aos poucos, acreditando que, se fosse boa o bastante, um dia eles a aceitariam. Que seus pais e irmãos, aos poucos, a reconheceriam como parte da família.

Mas o que recebeu em troca foi apenas culpa, desprezo e exaltação cega à figura de Willa.

Até que, certa vez, ela ouviu uma frase que a quebrou por dentro. "Se ao menos Noelle tivesse morrido, estaríamos livres desse fardo."

A própria família desejava que ela estivesse morta?

As palavras se alojaram no seu peito como farpas. Ela ficou paralisada, sem conseguir respirar.

Por quê? Por que eles a odiavam tanto? O que havia feito para merecer tanto desprezo? Por que a queriam morta, mesmo depois de terem feito questão de trazê-la de volta?

Noelle fechou os olhos. Dentro de si, tudo havia se tornado silêncio - um lago calmo, vazio, sem qualquer resquício de emoção.

Chega! Ela não queria mais insistir. Não queria mais se apegar a pessoas que só a viam como um erro.

Quando Gerard a encarou novamente, o semblante de Noelle estava irreconhecível, sem dor nem tristeza, apenas uma serenidade inquietante, como se algo finalmente tivesse se rompido.

Isso o deixou perturbado e ele levantou a mão, pronto para esbofeteá-la. "Se você não se ajoelhar agora e pedir desculpas a Willa, eu vou te ensinar uma lição da pior forma!"

Mas antes que ele pudesse tocar nela, uma mão firme segurou seu pulso no ar.

Era Noelle.

Ela havia o parado.

"Você...", Gerard murmurou, atônito. Durante dois anos, ela nunca havia reagido e sempre aceitava os castigos sem questionar. Mas agora ela o desafiava?

Vendo a expressão de choque no rosto do irmão, Noelle soltou uma risada seca, quase debochada. Seu rosto, belo e iluminado, exalava uma confiança nova enquanto ela afirmava: "Eu disse que não empurrei Willa."

Gerard piscou, sem acreditar no que ouvia. "Ainda tem coragem de mentir? Inacreditável!"

"Tenho provas! Se eu puder provar que estou dizendo a verdade, então você e Willa vão se ajoelhar e me pedir perdão", ela exigiu, com a voz firme e olhar gélido.

"O que foi que disse?" Por um instante, ele achou que tivesse escutado errado, mas a indignação explodiu em seguida. "Você quer que eu me ajoelhe para você? Que ousadia é essa, sua insolente!"

Para ele, era inconcebível reconhecer uma pessoa tão vergonhosa como parte da família.

Willa, por sua vez, observava tudo com atenção, saboreando a humilhação iminente de Noelle. Estava certa de que Gerard a colocaria no seu devido lugar. Mas quando ouviu o que Noelle dissera, algo reluziu nos seus olhos.

Provas? Que tipo de provas ela poderia ter?

Embora um pouco nervosa, Willa adotou um semblante gentil e se levantou com doçura encenada. "Gerard, não vale a pena... por favor, não fique mais bravo. Deixe para lá."

Gerard gritou: "Pare de defendê-la! Quero ver essa prova que ela diz ter!"

Sem dizer nada, Noelle enfiou a mão no bolso e tirou um pequeno dispositivo elegante.

Willa arregalou os olhos. Seu coração disparou quando ela se deu conta de que se tratava de um gravador de voz. Quando Noelle conseguira um gravador de voz?

Noelle, em silêncio, apertou o botão de reprodução.

Houve um breve chiado de estática e, em seguida, a sala foi preenchida com uma voz doce e cuidadosamente modulada: "Noelle, o que você acha deste lugar?"

Gerard reconheceu de imediato: era a voz de Willa.

Depois, veio outra voz - leve, calma, sem agressividade: "Willa, por que está parada no topo da escada?"

Gerard sabia que esta era a voz de Noelle.

Em seguida, a voz melíflua de Willa soou mais uma vez, mas, agora, havia veneno escondido nas suas palavras: "Noelle, se eu disser a Gerard que você me empurrou escada abaixo... como acha que ele vai te punir?"

Capítulo 2 Indo embora

Gerard se virou bruscamente, o olhar, arregalado de incredulidade, colidindo com o de Willa.

Essa era mesmo sua irmãzinha? A doce, inocente e delicada Willa, que ele sempre protegia como um tesouro frágil?

O coração de Willa disparou. O pânico lhe subiu pelos olhos e, numa tentativa desesperada de se salvar, ela tropeçou nas palavras. "Gerard, não! Não foi assim que aconteceu! Juro que não é verdade!"

Mas a gravação, impassível às suas súplicas, continuava tocando. A voz ecoava clara, implacável, sem deixar espaço para dúvidas.

Logo veio a fala de Noelle - firme, serena, mas carregada de uma advertência discreta: "Willa, você tem certeza de que quer mesmo fazer isso?"

A resposta de Willa surgiu em seguida, cortante, afiada como lâmina: "Mesmo que você tente me impedir, vai ser inútil. Você sabe que Gerard sempre fica do meu lado e nunca acredita em você."

Então, como se interpretasse uma nova personagem, seu tom se transformou. "Aaah, Gerard, rápido! Noelle tá tentando me empurrar da escada! Ela disse que eu não mereço fazer parte da família Moss, que não pertenço aqui! Ela está tentando me expulsar! Estou com medo! Aaah, me ajude, por favor!"

Imóvel, Gerard ouvia a gravação de voz, sentindo as peças do quebra-cabeça se encaixarem com uma dor quase física.

Noelle não havia empurrado Willa. Foi uma armadilha de Willa, que tinha se colocado de propósito na beirada da escada, encenado o medo, manipulado toda a situação.

Ele, cego pela confiança, tinha acreditado em Willa e apontado o dedo para Noelle - julgando e condenando sua própria irmã.

Gerard desviou o olhar, tomado por uma culpa que se enroscava como serpente no seu peito. Sua testa se contraiu, e sua voz saiu baixa, quase defensiva: "Noelle... mesmo que eu tenha me enganado... por que você não disse isso antes?"

Os olhos de Noelle brilharam com uma ironia gélida. Era isso? Seu irmão finalmente percebia que estava errado, mas tudo ainda era culpa dela por não ter explicado.

"Gerard, parece que sua memória está falhando antes mesmo que a idade chegar."

"Eu...", ele tentou falar, mas as palavras morreram na sua garganta.

A lembrança o atingiu como um soco: minutos antes, Noelle havia dito, com todas as letras, que não empurrou Willa.

E o que ele fez? Não acreditando numa só palavra dela, a calou, a ignorou e atirou um copo no chão, cujo estilhaço agora ainda sangrava a perna dela.

A vergonha ferveu por dentro enquanto ele lentamente voltava o olhar para Willa.

Willa estava pálida, os olhos marejados, trêmula. "Gerard... sei que errei. Não deveria ter mentido sobre Noelle. Eu só... só não queria te perder. Nem você, nem ninguém da família."

O homem franziu a testa, confuso. "O que está dizendo?"

Willa percebeu que a postura dele havia amolecido e aproveitou a oportunidade. Talvez ela ainda pudesse consertar as coisas. As lágrimas desciam agora com mais força, escorrendo pelas suas bochechas como se brotassem da alma.

"Cresci nesta casa. Sempre te via como meu irmão de verdade. Sempre amava seus pais como se fossem meus. Mas quando Noelle voltou, eu fiquei com medo. Pensei que vocês fossem deixar de me amar. Que todos vocês iam me deixar de lado. Porque ela é a filha verdadeira... Porque ela é mais bonita... Entrei em pânico, e admito que fiz uma besteira enorme com Noelle. Mas eu juro, Gerard... isso nunca mais vai acontecer!"

Seu rosto, desfeito em lágrimas, tocou o coração de Gerard e sua confissão emotiva o comoveu.

Talvez ela não fosse má, só estivesse assustada e quisesse proteger o amor da família. Nada além disso.

Gerard se voltou para Noelle, com o tom mais brando: "Willa só mentiu porque estava com medo. Você não se machucou gravemente... Não pode deixá-la pagar por isso. Como irmã mais velha, não poderia ser generosa e perdoá-la desta vez?"

Uma risada amarga cresceu dentro de Noelle.

Gerard acabara de descobrir que ela foi falsamente acusada, manipulada, ferida. Mesmo assim, em vez de apoiá-la, ele pedia que perdoasse sua agressora.

Era inacreditável.

Ela não aguentava mais. O peso dessa casa, dessas pessoas, e das expectativas a esmagava.

Gerard, alheio ao absurdo do que dizia, ergueu a voz num tom que soava como um ultimato: "Noelle, se você vai continuar presa a isso e se recusar a perdoar Willa, então não me culpe se eu te mandar embora desta casa!"

Noelle não se abalou. Seu rosto permanecia sereno, mas seus olhos estavam frios como uma noite de inverno.

"Não precisa me expulsar. Já decidi. A partir de agora, não tenho mais nada a ver com a família Moss. Não passo mais um minuto nesta casa."

Noelle se virou e saiu, seus passos firmes rumo ao quarto, o lugar que, por dois anos, tentou fazer de lar, mas que nunca lhe pertenceu de verdade.

As malas foram feitas rapidamente, pois eram poucas as coisas que lhe pertenciam. Ela juntou documentos e algumas roupas, apenas o necessário.

Então, enfaixou a perna machucada como pôde, abafando a dor, vestiu um longo vestido que cobria os curativos improvisados, fechou a mala e atravessou o corredor frio, arrastando consigo os últimos vestígios de uma vida que jamais foi sua.

Quando Gerard a viu sair com a mala, compreendeu - ela não estava apenas irritada, e estava realmente indo embora, cortando todos os laços com a família Moss.

O rosto do homem se contorceu de raiva. "Noelle, pense bem antes de fazer isso. Se sair por essa porta, não espere voltar rastejando! Você vai se arrepender amargamente!"

Noelle não vacilou, nem sequer se virou. Ela apenas disse, firme: "Não vou me arrepender."

Willa, ao lado, sentia o peito explodir de alegria. Finalmente! Noelle estava indo embora! Tudo o que fora de Noelle agora seria seu - atenção, afeto, fortuna e, principalmente, o lugar na família Moss!

Ainda assim, ela tinha que fingir tristeza.

Borbulhando de entusiasmo, mas assumindo o papel de irmã preocupada, ela disse: "Gerard, vá atrás dela! E se algo acontecer com ela lá fora? Ela está sozinha, e se alguém a machucar?"

"Deixe ela ir. Vai implorar para voltar em poucos dias. E quando voltar, vai aprender a se colocar no lugar dela", Gerard rebateu, com a voz carregada de desprezo.

Foi nesse instante que um segurança entrou apressado, quase tropeçando nos próprios pés.

O funcionário passou por Noelle sem sequer lhe lançar um olhar. Ali, todos sabiam que era Willa a quem eles obedeciam, e que Noelle, sem status ali, não importava, então não precisavam lhe mostrar respeito.

A voz do segurança soava alta e urgente: "Senhor, senhorita Moss! Um visitante ilustre acaba de chegar! O carro deles está lá fora... Acredito que seja da família Martin!"

O anúncio caiu como um raio.

Gerard e Willa trocaram um olhar de puro assombro, animados.

A família Martin era a mais poderosa de toda Cielrora.

Enquanto os Moss tinham status e fortuna, os Martin ditavam o jogo. O poder deles se estendia por gerações. Eles eram a definição de verdadeira nobreza.

Durante anos, a família Moss tentou se aproximar deles, sonhando com uma aliança de negócios, mas nada nunca havia acontecido.

E agora, de repente, os Martin estavam ali?

"Rápido, vamos recebê-los!", Gerard exclamou, ajeitando o paletó com pressa e sinalizando para o segurança conduzi-los.

Willa o acompanhou, os dedos alisando o vestido. Suas bochechas estavam ruborizadas, e o coração acelerado. Ela não pôde deixar de se perguntar quem da família Martin estava ali. Seria ele?

Capítulo 3 Seu futuro marido

Gerard e Willa apressaram o passo e, de alguma forma, chegaram à entrada da vila antes mesmo de Noelle.

Assim como o segurança havia mencionado, um carro preto, elegante e discretamente luxuoso aguardava silencioso na calçada.

Ao identificar claramente o modelo do veículo, Gerard sentiu o ar faltar e seu coração disparou, batendo com força contra as costelas. Era uma limusine de edição limitada...

Só existia um homem em Cielrora que poderia ter esse carro - Ethan Martin.

Ethan, o poderoso líder da família Martin e CEO do Grupo Martin, era muito mais do que um magnata dos negócios - ele era uma figura quase mítica na cidade, alguém que raramente aparecia em público, a menos que fosse absolutamente necessário.

O fato de ele ter vindo pessoalmente era algo fora do comum.

Tomado por uma súbita empolgação, Gerard correu até o veículo, sua voz transbordando uma mistura de reverência e ansiedade. "Senhor Martin! Bom dia! Não fazíamos ideia de que nos visitaria. Por favor, nos perdoe por não termos preparado uma recepção à sua altura!"

Ele abriu um grande sorriso, à espera de alguma reação de Ethan.

Mas o carro permanecia imóvel - nenhuma janela se abriu, e nenhuma porta se moveu, como se ninguém dentro do veículo tivesse ouvido suas palavras.

Gerard se perguntava o que estava acontecendo enquanto seu sorriso congelava no rosto.

Willa então se adiantou, ajeitando com delicadeza uma mecha de cabelo atrás da orelha, adotando um tom doce e encantador: "Senhor Martin, que honra tê-lo aqui. Posso perguntar o motivo da sua visita?"

Silêncio. Nenhuma resposta. Nenhum movimento.

Gerard e Willa trocaram olhares, visivelmente confusos.

Não havia dúvidas de que esse era o carro de Ethan. Ainda assim, por mais que tentassem ser corteses, não obtinham qualquer retorno.

O ar parecia carregado até que, finalmente, a porta do passageiro da frente se abriu e um homem, aparentemente o assistente, saiu.

Gerard o reconheceu na hora - Ruben Douglas, o braço direito de Ethan.

Tudo fazia sentido agora. Considerando a posição atual da família Moss, seria mesmo improvável que Ethan os visitasse pessoalmente. Ainda assim, enviar Ruben já era um gesto generoso.

Ruben não era um simples assistente - sua influência era significativa. Conquistar seu respeito ainda podia abrir portas valiosas para os Moss.

Recobrando a compostura, Gerard se adiantou novamente, se esforçando para soar amigável. "Senhor Douglas, bom dia! O que o traz..."

Mas Ruben, sem sequer olhar para ele, passou direto por ele e por Willa, seguindo em direção a Noelle, que observava a cena a uma curta distância.

Gerard e Willa ficaram paralisados. Um arrepio subiu pela espinha de ambos enquanto permaneciam imóveis, boquiabertos.

Ruben parou diante de Noelle e se curvou respeitosamente. "Bom dia, senhorita Moss. Estou aqui em nome do senhor Levi Martin para escoltá-la até a propriedade Martin."

Levi Martin?

O nome ecoou dentro de Noelle, aquecendo suavemente seu peito. Então era ele.

Apesar de ter passado os primeiros anos num orfanato, Noelle fora mais tarde adotada por Jeffery e Babette, que a criaram com afeto.

Levi, amigo próximo de Jeffery, sempre estivera presente durante sua infância.

Ruben trazia nas mãos um relógio, o mesmo modelo que Levi costumava usar. Só isso já bastava para confirmar que ele realmente havia sido enviado por ele.

Diante de um convite vindo do velho amigo de Jeffery, Noelle não tinha escolha a não ser aceitar. Então inclinou levemente a cabeça em sinal de respeito. "Obrigada."

"É um prazer, senhorita Moss", Ruben respondeu com um sorriso cordial, pegando sua mala com gentileza. Ele a guardou cuidadosamente no porta-malas antes de abrir a porta traseira do carro.

"Senhorita Moss, por favor, entre."

Noelle fez menção de entrar, mas hesitou ao notar uma presença já ocupando o banco de trás.

Um homem.

Sentado com uma perna cruzada sobre a outra, ele exalava uma tranquilidade imponente em uma camisa branca impecavelmente abotoada até o colarinho. Seu porte era sereno e meticuloso.

Nas suas mãos, havia uma pilha de documentos bem organizados, que ele examinava com dedos longos e precisos.

Quando a porta se abriu, ele levantou os olhos lentamente, interrompendo a leitura para fitá-la.

Seu olhar escuro, profundo e indecifrável parecia conter mais do que revelava.

"Sou Ethan Martin. Estou aqui em nome do meu avô para levá-la para casa", ele disse, a voz rouca e controlada, com uma segurança despretensiosa.

Ethan Martin?

O nome soou familiar e ao mesmo tempo distante, despertando em Noelle lembranças antigas.

Jeffery lhe falara, anos atrás, sobre um arranjo de casamento. O futuro marido escolhido para ela era o neto de Levi, Ethan.

E agora, o homem diante dela... era ele? Seu futuro marido?

Noelle entrou devagar no carro, tentando processar os pensamentos enquanto o veículo preto se afastava silenciosamente da propriedade da família Moss.

Enquanto isso, Gerard e Willa ainda estavam imóveis, como se não acreditassem no que acabara de acontecer. Seus rostos estavam petrificados - choque e incredulidade disputando espaço nas suas expressões.

Após anos tentando impressionar os Martin, finalmente um deles aparecia por causa de Noelle?

Ruben, com toda a sua deferência, havia convidado Noelle para o carro de Ethan? E os ignorara por completo, como se nem existissem?

Como isso era possível?

A mandíbula de Willa se retesou, e o doce sorriso que ela mantinha havia desaparecido por completo. Isso parecia um tapa no rosto, já que ser ofuscada por Noelle sempre a incomodava.

Dentro do carro, Noelle mantinha os olhos baixos, lançando olhares discretos ao homem bonito do seu lado.

Era impossível não se perguntar: ele se lembrava do arranjo de casamento?

Deus, ela esperava que não.

A ideia parecia absurda agora, ingênua, antiquada, quase ridícula.

Nesse momento, Ethan ergueu uma sobrancelha, como se lesse seus pensamentos com espantosa facilidade.

Ele falou, sua voz firme e tranquila: "Eu me lembro."

O coração de Noelle disparou.

Entre todas as possibilidades que ela imaginara, essa era a que mais temia.

A verdade era que o relacionamento entre eles sempre fora complicado.

Apesar de adotada, Noelle teve uma infância confortável, na qual Jeffery a rodeava de boas conexões - entre elas, Levi, patriarca da poderosa família Martin, e com ele, sempre Ethan.

Foi assim que ela e Ethan se conheceram e passaram muito tempo, talvez demais, juntos quando crianças. Os adultos, encantados com a amizade precoce, viram ali uma oportunidade: um casamento arranjado.

Na época, Noelle era jovem demais para compreender o peso disso. Mas, com o passar dos anos, a ideia passou a incomodá-la profundamente. Estar perto de Ethan só piorava as coisas, e ele parecia ainda mais incomodado do que ela.

À medida que cresciam, ele se tornava cada vez mais distante, frio e, às vezes, até hostil, especialmente quando ela se aproximava de outro garoto da vizinhança. Suas palavras tinham o poder de irritá-la como ninguém.

Os desentendimentos passaram de provocações infantis para brigas reais, cheias de mágoa. Finalmente, eles não se suportavam mais.

No ensino médio, Noelle entrou numa fase rebelde. Um dia, ela declarou a Jeffery que queria cancelar o arranjo, pois estava apaixonada por um colega de classe.

Quando Ethan soube, foi até o quarto dela como se tivesse atravessado uma tempestade. Sua voz era fria como gelo ao perguntar se ela havia perdido completamente a cabeça.

Noelle jamais o vira tão irritado. Eles discutiram alto, se ferindo com palavras. E, naquela noite, tudo desabou.

Depois disso, Ethan foi estudar no exterior e eles nunca mais se viram.

Por isso, quando o reencontrou no carro, Noelle mal o reconheceu.

O garoto que ela um dia conheceu havia desaparecido. O homem à sua frente agora parecia um completo estranho.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022