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Com prazer, Senhor Professor

Com prazer, Senhor Professor

Autor: Yniel Leimas
Gênero: Romance
Helena Duarte entrou na universidade determinada a manter o foco, conquistar boas notas e provar que é capaz de construir o próprio futuro sem depender de ninguém. O que ela não esperava era que, logo no primeiro semestre, seu caminho cruzasse com o do homem mais proibido de todos: Matteo Ferraz, o professor brilhante, frio e perigosamente irresistível que parece enxergá-la além de todas as máscaras. Entre olhares demorados, provocações afiadas e uma tensão que cresce a cada aula, Helena se vê presa em um jogo arriscado demais. Matteo é o tipo de homem que impõe respeito com a voz, domina a sala com a presença e desperta nela desejos que deveriam permanecer enterrados. E quanto mais ela tenta fugir, mais se afunda em uma atração intensa, proibida e devastadora.
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Capítulo 1 O preço do atraso

O metrô de Brooklyn parecia ter um pacto secreto contra Helena Duarte naquela manhã.

Ela correu pelas escadas rolantes com a mochila batendo contra as costas, os cabelos cacheados voando em todas as direções enquanto atravessava a estação como uma lunática. O relógio do celular marcava 8h47. A primeira aula de Economia Avançada começava às 8h30.

Dezessete minutos de atraso. Dezessete. Minutos.

Helena amaldiçoou o ônibus que não veio, o metrô que parou por "problemas técnicos", e sua própria estupidez por ter acreditado que chegaria cedo no primeiro dia. A bolsa integral dependia de sua performance impecável. E ela já estava começando com o pé esquerdo.

O campus da Brooklyn University se estendia à sua frente como um castelo de vidro. Alunos com mochilas caras e roupas que custavam mais que o aluguel do restaurante de seus pais caminhavam com a calma de quem nunca precisou correr atrás de nada. Helena desviou deles como uma jogadora de futebol em campo, sua pele morena brilhando sob o sol de setembro.

O prédio de Economia era o terceiro à esquerda. Ela sabia disso porque tinha estudado o mapa do campus durante duas semanas, decorado cada corredor, cada sala, cada possível rota de fuga caso algo desse errado. Mas nada preparou seus pulmões para os três lances de escada que teve que subir em disparada.

O corredor do terceiro andar estava vazio. Silencioso. Apenas o zumbido das luzes fluorescentes e o eco de seus próprios passos desesperados.

Sala 312. Porta fechada.

Helena parou na frente dela, ofegante, tentando recompor o fôlego. O suor escorria pela sua nuca, e ela passou a mão nos cabelos num esforço inútil para parecer minimamente apresentável. A blusa branca estava amassada.

Ótimo. Perfeito. Você já parece uma sem-teto no primeiro dia.

Ela girou a maçaneta devagar, rezando para que o barulho não chamasse atenção. A porta rangeu levemente, e Helena deslizou para dentro como uma sombra, tentando se tornar invisível.

Mas não funcionou.

Trinta e cinco pares de olhos se voltaram para ela. Alguns com curiosidade, outros com tédio, alguns com aquele desdém sutil que alunos ricos.

Mas não foram os alunos que fizeram seu sangue gelar.

Foi o homem no centro da sala.

Ele estava de pé atrás da mesa do professor, os braços cruzados sobre o peito, uma postura que impunha respeito sem precisar de palavras. Helena nunca tinha visto alguém tão... grande. Não apenas de altura, embora ele devesse ter quase 1,90m, mas de presença. Os ombros largos pareciam preencher todo o espaço atrás dele, o terno cinza-escuro ajustado perfeitamente ao corpo másculo, o maxilar definido como esculpido em mármore. Os cabelos escuros, levemente ondulados, caíam com uma negligência calculada sobre a testa.

E os olhos. Deus, os olhos.

Cor verdes. Como duas esmeraldas. Mas absolutamente gelados enquanto a encaravam.

Helena esqueceu como se respirava.

- A senhorita deve ter um bom motivo para interromper minha aula. - A voz era grave, rouca, com um tom de autoridade que fazia a sala inteira prender a respiração. - E deve ser extraordinariamente bom.

Helena engoliu em seco. Todas as palavras que ela ensaiou durante a corrida evaporaram da mente.

- A senhorita é a...

- Eu... metrô... houve um problema técnico, e o ônibus...

- Estou perguntando seu nome, não uma lista de desculpas.

O corte foi seco, frio, e Helena sentiu o rosto queimar. Alguns alunos riram baixinho. Ela apertou a alça da mochila com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

- Helena. Helena Duarte.

- Pois bem, senhorita Duarte. - Ele pegou uma caneta e anotou algo em um caderno. - Aqui, atraso é falta. E três faltas significam reprovação automática. Estamos entendidos?

- Sim, professor. - A palavra saiu mais baixa do que ela gostaria.

Ele a encarou por mais um longo segundo. Os olhos percorreram seu rosto, seus cabelos desalinhados, sua roupa amassada, com uma expressão que Helena não conseguiu decifrar. Não era desprezo. Também não era compaixão. Era avaliação. Como se ela fosse um número em uma planilha que ele estava prestes a riscar.

- Sente-se. E não se atrase novamente.

Helena encontrou o único lugar vago na última fileira, perto da janela. Caiu na cadeira como se as pernas tivessem desistido de sustentá-la. O coração ainda batia rápido demais, mas agora não era apenas da corrida.

Ela não conseguia tirar os olhos dele.

Matteo Ferraz. O nome estava escrito no quadro branco com uma caligrafia firme. Ele se virou e começou a aula como se a interrupção nunca tivesse acontecido, a voz grave preenchendo a sala com conceitos de microeconomia. Helena tentou se concentrar, abriu o caderno, pegou a caneta. Mas sua mente se recusava a cooperar.

Ele é lindo. Ele é absolutamente, ridiculamente, perigosamente lindo.

E cruel. Não se esqueça de cruel.

O professor Ferraz não olhou para ela novamente durante toda a aula. Pelo menos, não abertamente. Mas Helena sentia seu olhar às vezes, um peso invisível na lateral do rosto, como se ele soubesse exatamente onde ela estava sem precisar virar a cabeça.

Quando ele fazia perguntas para a turma, a voz cortava o ar como uma navalha. Ninguém ousava responder errado. Um aluno chamado Thomas arriscou uma resposta hesitante e foi destroçado com uma correção tão precisa que o garoto pareceu encolher na cadeira.

- Economia não é sobre adivinhar - Matteo disse, os olhos de mel brilhando com algo que parecia prazer sádico. - É sobre saber. Se não sabem, não falem. Economizem minha paciência e a de seus colegas.

Helena mordeu o lábio para não revidar. Cada fibra do seu ser queria levantar a mão e mostrar que ela sabia. Que ela tinha estudado. Que ela não era apenas mais uma bolsista desgrenhada que chegou atrasada.

Mas ela ficou quieta. E odiou cada segundo de silêncio.

Quando o sinal tocou, anunciando o fim da aula, Helena foi a primeira a se levantar. Precisava sair daquela sala. Precisava de ar. Precisava de um lugar onde o fantasma daquele homem não pairasse sobre ela como uma nuvem de tempestade.

- Ei! Espere!

Uma voz feminina a alcançou no corredor. Helena se virou e viu uma garota alta, magra, com cabelos loiros presos em um coque perfeito e olhos verdes que brilhavam com uma energia contagiante. Ela usava um vestido floral que parecia ter saído de uma revista de moda, e sorria como se já conhecesse Helena há anos.

- Você é a Helena, né? - A garota estendeu a mão. - Sou Rebecca. Rebeca, na verdade, mas todo mundo me chama de Beca. Também sou de Economia. Sentei na sua frente, te vi chegando. E que cena, hein? O professor Ferraz é um carrasco mesmo.

Helena apertou a mão dela, ainda sem fôlego.

- Ele sempre é assim?

- Pior. - Beca riu, um som gostoso e despreocupado. - Todo mundo tem medo dele. Dizem que ele reprova quarenta por cento da turma no primeiro semestre. E que nunca ninguém tirou um A com ele.

- Ótimo. - Helena suspirou. - Perfeito.

- Mas você parece esperta. - Beca a avaliou com um olhar rápido - E meio perdida também. Vem, vamos ao refeitório. Você precisa comer alguma coisa. Eu preciso comer alguma coisa. E a gente precisa de uma estratégia para sobreviver ao Senhor Ferraz.

Helena hesitou. Sua mãe sempre disse para desconfiar de estranhos. Mas havia algo em Beca que parecia genuíno. Uma abertura, uma falta de pretensão que contrastava com a elegância do vestido.

- Tudo bem - ela concordou, um sorriso tímido aparecendo em seus lábios.

O refeitório da Brooklyn University era enorme, com mesas de madeira clara espalhadas por um salão iluminado por janelas de vidro do chão ao teto. O cheiro de comida quente preenchia o ar, hambúrgueres grelhados, batatas fritas, macarrão com queijo. Helena sentiu o estômago roncar. Ela tinha saído de casa tão apressada que nem tomou café da manhã.

Beca a puxou para uma fila curta e pegou uma bandeja.

- O que você quer? - perguntou, olhando o cardápio na parede.

- Um hambúrguer simples está bom - respondeu Helena, calculando mentalmente o dinheiro na carteira. Ela tinha exatamente doze dólares para a semana inteira.

- Dois hambúrgueres com batatas - Beca pediu para a atendente, antes que Helena pudesse protestar. - E dois refris - Ela virou para Helena com um sorriso. - É por minha conta. Não discute.

- Beca, não precisa...

- Eu sei que não precisa. Eu quero. - Ela pagou antes que Helena pudesse argumentar, entregando uma nota de vinte à atendente. - Amigas de primeiro dia têm que se ajudar. É a regra.

Elas encontraram uma mesa perto da janela, longe do burburinho central. Helena mordeu o hambúrguer com um prazer quase culpado, a carne suculenta, o pão macio, as batatas crocantes. Fazia dias que ela não comia algo tão bom.

- Então - Beca começou, inclinando-se para frente, os olhos verdes brilhando.

- Me conta. De onde você veio?

que te trouxe para Economia? E por que você parecia uma fugitiva de filme de ação quando entrou na sala?

Helena riu, limpando os lábios com um guardanapo.

- Morei em Brooklyn a vida inteira. Meus pais têm um restaurante perto de Crown Heights. - Ela encolheu os ombros. - Nada chique, mas é nosso.

- E você quer abrir um restaurante também?

- Não. - Helena balançou a cabeça. - Quero entender como o dinheiro funciona. Como as pessoas ficam ricas. Como sair do lugar onde eu estou. - Ela fez uma pausa. - Economia parece a chave para tudo isso.

Beca assentiu, mastigando uma batata.

- Eu entendo. Meu pai é advogado, minha mãe é médica. Eles queriam que eu fizesse Direito. Mas eu olhei para eles e vi duas pessoas que trabalham feito condenadas e nunca têm tempo para nada. - Ela sorriu. - Quero fazer dinheiro sem precisar vender minha alma. Economia parece o caminho.

- E você acha que vai conseguir? - Helena perguntou, sincera.

- Não sei. - Beca riu. - Mas vou tentar. E se o professor Ferraz não me destruir antes.

As duas riram juntas, e Helena sentiu algo que não sentia há muito tempo: a sensação de encontrar alguém que a entendia.

- Ele realmente é tão assustador assim? - Helena perguntou, mordendo mais uma batata.

- Assustador? - Beca baixou a voz, como se Matteo pudesse ouvi-las dali. - Ele é o cara que fez uma aluna chorar na primeira semana. Em público sem dó. A garota errou uma fórmula e ele disse, na frente de todo mundo, que se ela não sabia o básico, não merecia estar ali.

Helena sentiu um calafrio.

- Que horror.

- Pois é. Mas também dizem que ele é justo. Que se você realmente sabe o conteúdo, ele reconhece. - Beca deu de ombros. - O problema é que quase ninguém sabe o suficiente para ele reconhecer.

O sinal tocou, anunciando o início do próximo período.

- Qual é a sua próxima aula? - perguntou Beca, levantando-se e pegando a bandeja.

- Estatística. Sala 204.

- Estamos juntas! - Beca bateu palmas. - Vem, vou te mostrar um atalho.

Elas caminharam juntas pelo corredor, e pela primeira vez desde que entrou naquela universidade, Helena sentiu que talvez, só talvez, as coisas pudessem dar certo.

Capítulo 2 O silêncio de Caio

O sol de Brooklyn começava a se pôr quando Helena desceu do ônibus na esquina da rua onde seus pais moravam. O ar cheirava a asfalto quente e comida de rua, um cheiro que ela conhecia desde que nascera. As casas eram antigas, algumas com fachadas descascadas, outras recém pintadas por inquilinos que tentavam dar um ar de dignidade ao bairro.

Ela caminhou rápido, a mochila pesando nos ombros, os pés doendo depois de um dia inteiro de aulas. Estatística tinha sido exaustiva, com uma professora idosa que falava baixo demais. Helena tinha tomado três páginas de anotações e ainda sentia que não entendia metade do conteúdo.

Mas isso não importava agora. O que importava era chegar em casa a tempo de ajudar no restaurante.

O Duarte's Diner ficava na esquina da rua principal, um estabelecimento pequeno, com fachada vermelha e uma placa de néon que piscava há quinze anos sem nunca ter sido consertada. As janelas eram largas, permitindo que os clientes vissem as mesas de fórmica branca e as cadeiras de vinil vermelho lá de dentro. Não era chique. Mas era o restaurante que mantinha sua família viva, e Helena amava cada centímetro daquela fachada surrada.

Ela empurrou a porta e o som de uma campainha antiga ecoou no salão.

- Helena! - A voz de sua mãe, Rosa, veio da cozinha, quente e familiar. - Chegou bem? Comeu alguma coisa?

Helena sorriu, deixando a mochila em um canto perto do balcão.

- Comi sim, mãe. Uma amiga me pagou um hambúrguer no refeitório.

- Amiga? - Rosa apareceu na porta da cozinha, enxugando as mãos no avental branco. Tinha o mesmo tom de pele que Helena, os mesmos cabelos cacheados, mas os seus já estavam salpicados de fios grisalhos, e o rosto carregava marcas de anos de trabalho pesado. - Fez amiga no primeiro dia?

- Ela se chama Beca. É muito legal. E estudamos juntas.

- Que bom, filha. - Rosa sorriu, mas havia um cansaço profundo em seus olhos. - Vai ajudar seu pai? O movimento está fraco hoje, mas o Carlinhos pediu uma porção extra de batatas. Ele diz que as nossas são as melhores do bairro.

Helena riu.

- Ele diz isso toda semana.

- E ele está certo.

Helena passou para a cozinha, onde o calor era mais intenso. O pai, João, estava diante da chapa, uma espátula na mão, virando hambúrgueres com a precisão de quem fazia aquilo há trinta anos. Era um homem baixo, de ombros largos e mãos calejadas, com um bigode grisalho que ele recusava a raspar. Quando viu Helena, seu rosto se iluminou.

- Minha menina! - Ele largou a espátula e a abraçou, mesmo com as mãos sujas de gordura. - Como foi? A faculdade é tudo o que você esperava?

- Foi bom, pai. - Helena apoiou a cabeça no ombro dele por um segundo. - A primeira aula foi de Economia Avançada. O professor é... - Ela hesitou. - Exigente.

- Exigente é bom. - João a afastou, pegando a espátula novamente. - Professores exigentes ensinam melhor que os bonzinhos. Você vai aprender muito.

Helena sorriu, mas não disse nada sobre Matteo Ferraz. Como explicar para o pai que o professor era tão bonito que doía, e ao mesmo tempo tão frio que parecia uma estátua de gelo? Não havia palavras para aquilo.

Ela pegou um avental pendurado na parede e o amarrou sobre a blusa. Enquanto ajudava seu pai a preparar os pedidos, e servindo os poucos clientes que entravam, Helena sentiu seu corpo relaxar pela primeira vez em todo o dia. A rotina era previsível. Confortável. Na cozinha, ela sabia exatamente o que fazer.

Foi quando ouviu a porta dos fundos se abrir.

Helena levantou os olhos e viu Caio entrar. Seu irmão mais velho estava com um jeans e uma camiseta preta, mas havia algo diferente nele. O corpo estava mais magro, as olheiras mais profundas, e ele evitava o olhar dela enquanto passava pela cozinha em direção ao corredor que levava aos quartos.

- Caio! - chamou Helena, largando a espátula. - Você não veio jantar ontem. A mamãe ficou preocupada.

- Tive que trabalhar até tarde - respondeu ele, sem parar.

- Que trabalho? Você não falou de nenhum trabalho novo.

Caio parou. As costas ficaram rígidas, e Helena viu seus ombros subirem e descerem numa respiração profunda. Quando ele se virou, seu rosto estava neutro e um pouco tenso.

- Não é nada, Helê. Só uns bicos aqui e ali. Um amigo me chamou para ajudar na construção de um prédio.

- Construção? - Helena franziu a testa. - Desde quando você sabe construir alguma coisa?

- Aprendo rápido. - Caio forçou um sorriso que não chegou aos olhos. - Relaxa, mana. Eu sei o que estou fazendo.

Helena abriu a boca para insistir, mas algo na postura de Caio a fez parar. Ele parecia tenso, os músculos do maxilar contraídos, as mãos enfiadas nos bolsos. Havia um segredo ali, ela sabia, sempre soube quando Caio escondia algo. Mas o cansaço do primeiro dia de aula pesava em seus ombros. As anotações de Estatística a esperavam. E, no fundo, ela confiava que seu irmão mais velho sabia o que fazia.

Ele sempre deu um jeito. Sempre.

- Tudo bem - ela disse, baixando a guarda. - Mas não some de novo, okay? A mãe fica ansiosa.

- Combinado. - Caio assentiu, e o sorriso forçado continuou. - Vou dormir um pouco. Estou exausto.

Ele desapareceu no corredor, e Helena ouviu o rangido da porta do quarto se fechando. Durante um instante, ela ficou parada, olhando para o vazio que ele deixou. Algo a incomodava. Uma sensação no estômago, como se tivesse esquecido de alguma coisa importante.

- Helena! - A voz de seu pai veio da chapa. - Os pedidos estão prontos!

- Já vou, pai! - Ela balançou a cabeça, afastando o pensamento. Não é nada. É só cansaço.

O movimento no restaurante aumentou quando a noite chegou. Famílias com crianças, trabalhadores que voltavam do expediente, um casal de idosos que vinha todas as sextas feiras. Helena serviu mesas, pegou pedidos, limpou o balcão. O suor escorria pela sua testa, e seus cabelos cacheados ficavam cada vez mais volumosos com o calor da cozinha.

Quando o último cliente saiu, já passava das 22h. Rosa estava na porta, desligando a placa de néon.

- Ótimo movimento hoje, não foi? - ela disse, com um sorriso cansado. - O Carlinhos trouxe cinco amigos. Todos pediram as batatas especiais.

- Eles sabem o que é bom. - João saiu da cozinha com um pano no ombro, tirando o avental. - Helena, filha, vai descansar. Você trabalhou demais.

- Eu ajudo a fechar, pai.

- Não precisa. Sua mãe e eu damos conta. - Ele a beijou na testa. - Vai dormir. Amanhã você tem aula.

Helena concordou, desamarrando o avental. Subiu as escadas que levavam ao apartamento no andar de cima. O banheiro minúsculo estava livre, e ela aproveitou para tomar um banho rápido. A água gelada, já que o aquecedor estava com problemas de novo, fez seus músculos relaxarem.

Já no quarto, vestindo um pijama de algodão, Helena deitou na cama e olhou para o teto. As anotações de Estatística ainda estavam na mochila, esperando para serem revisadas. Mas seus olhos pesavam. Sua mente, também.

Caio.

Ela pensou nele. Na magreza, nas olheiras, naquele sorriso que não parecia genuíno. Na forma como ele evitou seu olhar.

Você precisa confiar nele. Ele já é adulto.

Helena fechou os olhos, tentando convencer a si mesma.

Ela se virou na cama, enterrando o rosto no travesseiro.

Amanhã seria outro dia. Ela perguntaria a Caio. Descobriria o que estava acontecendo.

Por enquanto, o sono a venceu, e Helena caiu num sono profundo e pesado.

Capítulo 3 As duas faces de Matteo Ferraz

As 6h da manhã encontraram Matteo Ferraz, na sua mansão em Brooklyn. O sol mal havia começado a nascer, pintando o horizonte em tons de laranja e rosa, mas ele já estava de pé há duas horas.

A academia particular ocupava uma ala da sua propriedade, Matteo se movia com precisão cirúrgica entre os aparelhos, os músculos contraindo sob a pele morena enquanto levantava pesos que fariam a maioria dos homens desistir na primeira série. O suor escorria por seu torso definido, escorrendo pelos abdominais marcados e desaparecendo na faixa da calça de treino.

Ele não pensava em nada enquanto malhava. Esse era o ponto. O corpo em movimento permitia que sua mente descansasse, algo raro para um homem que carregava o peso de dois impérios.

Terminado o treino, Matteo tomou um banho rápido e vestiu o primeiro terno do dia, cinza escuro, corte impecável, camisa branca sem gravata. No espelho, seu reflexo era o de um homem no auge da forma: 1,89m de altura, músculo e presença, cabelos escuros levemente úmidos, olhos verdes que pareciam enxergar através de qualquer mentira.

Mas o homem no espelho não era apenas Matteo Ferraz, professor de Economia.

Era também o Sr. F.

Duas horas depois, Matteo estava sentado em uma sala de reuniões no 45º andar de um edifício em Wall Street. A mesa de mármore negro refletia os rostos de dez executivos que o encaravam com uma mistura de admiração e medo.

- Os relatórios do terceiro trimestre estão aluém do esperado - disse Matteo, sua voz grave ecoando no silêncio da sala. - Alguém quer me explicar por quê?

Nenhum executivo ousou responder. Matteo os encarou um por um, seus olhos frios como gelo.

- Sr. F - começou um deles, um homem de meia-idade com terno azul e suor na testa -, houve uma flutuação no mercado de ações que afetou nossos investimentos no setor...

- Eu sei o que aconteceu no mercado. - Matteo o interrompeu, a voz cortando como uma lâmina. - O que eu quero saber é por que ninguém aqui previu essa flutuação. Vocês são pagos para antecipar, não para reagir.

O silêncio se estendeu, denso e desconfortável. Matteo se levantou, sua altura impondo uma presença avassaladora sobre a mesa.

- Tenho uma reunião em Paris em três horas. Até meu retorno, quero um plano de contingência completo. E quero que o responsável por essa falha seja identificado.

Ele saiu da sala sem olhar para trás. Ninguém ousou segui-lo.

No corredor, sua assistente, uma mulher loira chamada Diana, caminhava ao seu lado com um tablet na mão.

- Sr. F, a reunião em Paris foi confirmada. O avião particular está pronto no aeroporto. O senhor tem ainda duas horas antes do embarque.

- O suficiente. - Matteo apertou o botão do elevador. - Leve o carro até a universidade.

- A universidade, senhor? - Diana franziu a testa. - O senhor tem uma aula hoje?

- Tenho. E não vou faltar.

Diana não perguntou mais nada. Trabalhava com o Sr. F há cinco anos e sabia que perguntas desnecessárias eram desencorajadas.

Matteo entrou na sala 312 exatamente às 8h28. Dois minutos antes do sino.

A turma já estava toda presente, exceto uma cadeira vazia na última fileira. Seus olhos percorreram a sala rapidamente, registrando cada rosto, cada expressão. A maioria dos alunos parecia tenso, o que era esperado. Ele tinha uma reputação, e cultivava-a com cuidado.

Foi quando a porta se abriu.

Helena Duarte entrou com a mochila pendurada em um ombro, os cabelos cacheados presos num coque frouxo, a pele morena brilhando sob a luz fluorescente. Ela estava sem fôlego, como se tivesse corrido, mas seus olhos encontraram os dele com uma firmeza que o surpreendeu.

- Senhorita Duarte - Matteo disse, sua voz neutra. - No horário hoje. Impressionante.

Houve um riso abafado na sala. Helena não riu. Ela apenas inclinou a cabeça, um gesto mínimo de reconhecimento, e foi para seu lugar.

Matteo observou-a enquanto ela se sentava. Algo nela chamava sua atenção, não a beleza, embora fosse inegável. Era a postura. A forma como ela se recusava a encolher, mesmo sendo a bolsista da sala, mesmo tendo chegado atrasada no primeiro dia. Havia uma teimosia ali que ele reconhecia.

Interessante, pensou. Mas irrelevante.

Ele virou-se para o quadro e começou a aula.

- Hoje vamos falar sobre elasticidade de preços. Conceito simples, mas que a maioria de vocês vai errar na prova.

O conteúdo fluiu com a precisão de quem ensinava há anos. Matteo fazia perguntas, derrubava respostas incorretas com a ponta seca de sua língua, e observava os alunos se encolherem sob seu domínio. Era o que ele fazia de melhor e o que mais gostava.

Até que fez uma pergunta:

- Se o preço de um bem essencial aumenta em 10% e a demanda cai em apenas 2%, qual é o coeficiente de elasticidade?

Silêncio.

Matteo esperou, os olhos percorrendo a sala. Thomas, o garoto que ele havia humilhado na semana passada, olhou para a mesa. Beca, a loira falante, mordeu o lábio.

Então Helena levantou a mão.

Matteo franziu a testa.

- Senhorita Duarte?

- 0,2 - ela respondeu, a voz firme. - Demanda inelástica. O bem é essencial, portanto a mudança no preço não afeta proporcionalmente o consumo.

Matteo a encarou por um longo segundo. A resposta estava correta, não apenas correta, mas completa. Ela não apenas deu o número, mas explicou o raciocínio.

Ele não esperava isso.

- Correto - ele disse, sua voz mantendo-se neutra. - Alguém mais quer tentar?

Ninguém respondeu. Matteo continuou a aula como se nada tivesse acontecido, mas algo havia mudado. Ele não conseguia evitar que seus olhos voltassem para Helena de vez em quando. Ela anotava tudo com atenção, a testa franzida em concentração, a caneta deslizando pelo caderno com uma caligrafia pequena e organizada.

Ela estudou, pensou. Ela realmente estudou.

No final da aula, quando os alunos começaram a se levantar, Matteo falou:

- Senhorita Duarte. Um momento.

Helena parou, a mochila já na mão. Os outros alunos saíram, alguns lançando olhares curiosos. Beca tocou no ombro de Helena, um gesto silencioso de apoio, e saiu.

Matteo se aproximou da mesa dela, sua sombra cobrindo o caderno.

- Sua resposta hoje foi correta - disse ele, sem rodeios. - Mas correta não é suficiente. Você precisa entender por que a elasticidade varia entre bens essenciais e supérfluos. Esse é o tipo de nuance que separa os bons alunos dos excelentes.

Helena o encarou, sem piscar.

- Eu sei disso, professor. A utilidade marginal do bem essencial é maior, portanto o consumidor absorve o aumento de preço em vez de substituí-lo.

Matteo sentiu algo, um pequeno choque de surpresa. Ela não estava apenas repetindo o que ele havia dito. Ela entendia.

- Ler o livro não é o suficiente - ele continuou, sua voz ainda fria, mas com um traço de algo novo. - Você precisa aplicar o conhecimento em situações reais. Por isso, quero que você seja minha monitora.

Helena piscou, claramente surpresa.

- Monitora?

- Ajudar os alunos com dificuldade. Tirar dúvidas. Preparar material de apoio. - Ele se endireitou, olhando-a de cima. - É uma posição remunerada. E conta como horas de estudo extracurricular.

Ela hesitou.

- Eu... não sei se tenho tempo, professor. Meu pai precisa de ajuda no restaurante...

- Você terá um horário flexível. - Matteo não aceitava recusas. - Pense nisso. Me dê sua resposta amanhã.

Helena o encarou por um longo segundo, seus olhos escuros buscando algo no rosto dele. Mas o rosto de Matteo era uma máscara - fria, impenetrável.

- Vou pensar - ela respondeu, finalmente.

- Bom. - Ele virou as costas, indo em direção à mesa do professor. - Pode ir.

Ela saiu, e Matteo ouviu a porta se fechar.

Ficou sozinho na sala vazia, os olhos fixos na janela. Seu telefone vibrou no bolso - Diana, confirmando a viagem para Paris.

Sr. F, a mensagem dizia que o avião está pronto.

Quatro horas depois, Matteo estava em Paris.

O carro preto deslizava pelas ruas de paralelepípedos enquanto ele revisava documentos em seu tablet. A reunião era com um conglomerado francês, uma fusão bilionária que só o Sr. F poderia orquestrar.

Na sala de reuniões, ele era uma figura imponente, o terno substituído por outro igualmente impecável, o olhar tão frio quanto em Brooklyn. Os executivos franceses tremiam diante dele, não só por medo físico, mas por respeito ao poder que ele representava.

- O Sr. F é um homem difícil de encontrar - disse um deles, com sotaque carregado. - Sua reputação o precede.

Matteo inclinou a cabeça, um gesto mínimo.

- Minha reputação é baseada em resultados. Nada mais.

A negociação durou horas. Quando finalmente fechou o acordo, Matteo assinou os papéis com uma caneta de ouro e se levantou.

- Enviarei meus advogados para os detalhes finais. - Ele estendeu a mão. - Foi um prazer fazer negócios.

O executivo francês apertou sua mão, claramente aliviado.

Mais tarde, no avião particular a caminho de Nova York, Matteo ficou olhando pela janela, as luzes da cidade se estendendo abaixo dele como um mar de diamantes.

Seu telefone vibrou. Uma mensagem da universidade: Confirme sua presença para a reunião de professores amanhã.

Ele respondeu com um simples "sim" e guardou o telefone.

A mente de Matteo vagou, contra sua vontade, para a sala 312. Para a garota de cabelos cacheados que respondera sua pergunta com precisão cirúrgica.

Helena Duarte.

O nome ecoou em sua mente por um segundo.

Ele fechou os olhos, afastando o pensamento. O sono veio rápido, o cansaço do dia finalmente pesando sobre ele. Mas mesmo no limiar do sonho, a imagem daqueles olhos escuros e firmes permaneceu.

Irrelevante, ele repetiu para si mesmo.

Mas sua mente discordou.

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