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Como Contratar um Mafioso

Como Contratar um Mafioso

Autor:: Sylvvia R.
Gênero: Máfia
Eu contratei um acompanhante para fingir ser meu marido por uma noite. Um jantar apenas para contar uma mentirinha pequena para os meus pais. Ele se apresentou como "Enzo" -- um homem bonito demais, com um ar perigoso e de mãos firmes o suficiente para me fazer lembrar que meu coração ainda acelerava. O problema? Ele não era um acompanhante. Ele era Don Lorenzo Maranzano, o mafioso mais temido de Verticália. E quando ele descobriu quem eu era - vítima do meu ex-marido - ele decidiu que era seu dever me proteger, e que eu nunca sairia mais do alcance dele. Nem do olhar dele. Nem de seu controle. Porque na cidade de Verticália, proteção e prisão usam o mesmo sobrenome. Enquanto meu ex, Jonas Guerra, tenta me aterrorizar mesmo atrás das grades, Lorenzo cumpre promessas que eu nunca pedi... com a naturalidade de quem acha que meu corpo é um território. Eu devia fugir. Mas é difícil correr quando a única pessoa capaz de me manter viva também é um homem taciturno, perigoso, e que confunde proteção com sequestro. E agora eu estou aqui: meio bêbada, assistindo ao casamento dele com outra... depois de ele ter me feito amar o homem errado. Se eu contratei um Don por engano... quem foi que assinou o contrato da minha vida?

Capítulo 1 Tudo Começou Numa Massagem

ISADORA GUERRA

Sim, contratei um acompanhante sem saber que era um mafioso.

Só depois do encontro, soube que se tratava de Don Lorenzo Maranzano.

Então, ele se achou no direito de me sequestrar.

O odiei por isso, mesmo sendo para minha proteção.

Agora? Olha para mim aqui: tô meio bêbada, assistindo a seu casamento com outra... ah, não, Lorenzo, depois de me fazer te amar?

Não mesmo. Isso não vai ficar assim!

***

Umas Semanas Antes...

Despertei com o som de uma galinha cacarejando.

Até passou pela minha cabeça a ideia de estourar o celular na parede. Felizmente, lembrei que escolhi aquele alarme de propósito: de tão irritante, era capaz de me arrancar dos pesadelos com meu ex, Jonas. Apesar da irritação, era melhor do que acordar com os gritos dele. Ou com o silêncio de quando ele me trancava no quarto, por vários dias. Mutei o aparelho e encarei o teto decorado com adesivos fotoluminescentes, em formato de estrelas. Durante o dia, absorviam a luz e, à noite, brilhavam. Na manhã seguinte, voltavam a desaparecer na cor branca do gesso.

"Por que só no escuro as estrelas conseguem brilhar?", filosofei brevemente, afinal, filosofar não pagaria minhas contas.

Com grande esforço, me sentei na cama. Às vezes, meu corpo parecia prestes a se partir, como se eu fosse uma boneca de porcelana jogada no lixo.

As paredes do quarto eram pintadas num tom azul-bebê. Também eram repletas de adesivos: foguetes e astronautas numa missão secreta. Havia ainda uma estante de livros infantis e bonecos de super-heróis: era o quarto de Noah, filho dela, que passava uma temporada com o pai, na Rússia. Em breve, ele voltaria.

Havia alguns meses que eu morava no apartamento de Camila, desde que fugi de Jonas e ele foi preso. Ela, a amiga da faculdade com aquela vibe de mãezona, me acolheu sem fazer muitas perguntas. E eu precisava me mudar antes do pequeno Noah regressar. Não queria ser a amiga intrusa. Precisava trabalhar o dobro para levantar uma grana e vazar o quanto antes.

Ao sair do quarto, como nos desenhos animados, cheguei a ver o cheiro de torradas me puxando para a cozinha. E me deixei ser levada para encontrar Camila cantando uma música em inglês. Ela dançava enquanto esperava a cafeteira apitar.

- Acordou, Bela Adormecida? - brincou, sem olhar na minha direção. - Sonhou com príncipes ou com sapos?

- Com boletos atrasados. E, pra ser sincera, tô preferindo sapos falantes a príncipes.

Apenas riu em resposta. Mesmo em um moletom velho, com o cabelo preso de qualquer jeito e de pés descalços, parecia mais firme que o prédio antigo onde morávamos.

- Tem cliente hoje. Pediu diretamente por você.

- Diretamente? Como assim?

- Disse que ouviu falar das suas mãos milagrosas num meeting de empresárias. Está passando por problemas difíceis e acredita que uma massagem com... sensibilidade... poderia ajudar. E, antes que você pergunte: é mulher. Relaxa.

Como relaxar se, nos últimos dias, minha vontade era correr até sumir?

- Seria muita sacanagem você me pedir para massagear homens, depois do que passei, né? Não tô pronta. Nem sei se estarei um dia.

- Eu nunca faria isso. - Me fitou com um olhar maternal, sem deixar, no entanto, sua visão de empresária. - E, de certa forma, o spa é seu também. Você me ajudou a montar tudo. Se quiser atender só mulheres, ótimo. Se quiser ficar na recepção também. Só não se sabota no meio do caminho.

Permaneci observando o vapor do café, até que soltei:

- Eu não tô me sabotando. Tô só... testando o terreno. Passo a passo, não é isso que diz a música que você estava cantando?

- Além de testar o terreno, você está carregando um bote inflável, um GPS e um sinalizador. Gosto muito do sinalizador, inclusive. Fica mais fácil de eu te encontrar. O importante mesmo é que você tá indo. Seguiremos juntas e não vamos parar!

- Você acha que voltarei a ser uma profissional completa? Melhor dizendo, uma pessoa completa?

- Eu acho que você já está sendo, só não percebeu ainda.

Assenti, como se concordasse cem porcento. Embora fosse reconfortante ouvir aquelas palavras, eu me sentia bem longe de ser completa.

***

O verão em Verticália era pegajoso.

Embora se situasse no Distrito Central, a clínica ficava a poucas quadras de onde morávamos. Por isso, íamos a pé. Camila seguia à frente, com os passos de quem sabe o que quer da vida. Eu tentava aproveitar cada pedacinho de sombra pela calçada, torcendo para que suor não colasse a blusa nas minhas costas. A fachada da clínica era discreta: uma porta verde-clara com uma placa, onde se lia "Espaço Ombros Leves". Um nome para não atrair tarados nem afugentar donas de casa.

Por dentro, o ambiente era modesto. Duas poltronas de vime na recepção, almofadas floridas, um difusor em seu trabalho de aromatizar o ambiente. Além disso, quadros de anatomia misturados a ilustrações de flores, mãos entrelaçadas e frases de empoderamento.

Tudo ali era feminino e feminista.

Minha sala era a última do corredor. De paredes claras, uma maca no centro, uma estante com óleos e toalhas dobradas - tudo que eu precisava para trabalhar. Uma pequena janela com cortina de renda deixava a luz do dia entrar sem, no entanto, incomodar a vista. Com um pano úmido deslizando sobre o couro, comecei a limpar a maca em movimentos automáticos. Era o único momento do dia em que me sentia no controle - menos dos meus pensamentos, que pareciam presos ao passado.

A campainha tocou.

Pouco tempo depois, passos de salto alto ecoaram pelo corredor. Primeiro, uma leve batida; logo em seguida, a porta se abriu. A mulher, que surgiu à minha frente, trazia um bronze bonito na pele; seu cabelo caía pelos ombros em cachos volumosos; em seu corpo, um vestido de alças com estampas de rosas. Era bonita de um jeito que poderia ser uma modelo. Só que sua atitude não era de quem dominava as passarelas, mas de quem comandava tudo dos bastidores.

- Boa tarde - saudei, em tom profissional. - Eu sou a Isadora. Seja bem-vinda.

- Boa tarde, sou Amélia - seu olhar curioso analisava cada detalhe do ambiente.

- A massagem dura cerca de cinquenta minutos. Uso óleo aquecido e movimentos de relaxamento profundo. Se sentir qualquer desconforto, é só me avisar. O toalete fica ali. Você pode se despir e voltar de lingerie.

A cliente assentiu e seguiu na direção indicada. Respirei fundo, buscando me concentrar no zumbido do ventilador. Quando voltou - completamente nua -, deitou-se na maca com naturalidade. Cruzou os braços sob a cabeça, deixando os seios mais expostos. Sua pele bronzeada ficou ainda mais dourada sob a luz. Relaxada, de olhos fechados, como os de quem se prepara para dormir.

- Com final feliz, né? - pediu.

Não foi a primeira vez que recebi aquele pedido, nem seria a última. Ainda assim, cada vez era um pequeno terremoto. "Foco, Isadora", ordenei a mim mesma. "Até uns meses atrás, isso não seria um problema." A feição dela demonstrava que não estava brincando, nem provocando - só pedindo, com a certeza de que tinha o direito. Me apeguei ao valor da sessão: três vezes mais. Se todas as clientes sempre pedissem por isso, eu desocuparia o quarto do Noah em pouco tempo. Refleti sobre o que podia controlar - e no que estava muito além do meu controle.

- Vamos começar com a cervical - expliquei, passando uma boa quantidade de óleo nas mãos. - Depois, passamos para a lombar.

Um sorriso estampou seu rosto; seu corpo se entregou ao toque. Sua expressão emanava confiança e consentimento. "Será que um dia vou conseguir voltar a me entregar assim? A quem eu quero enganar? Eu sei que não", viajei em pensamentos. Ela abriu os olhos por um instante.

- Você tem mãos tão firmes. Boas para massagem, também ótimas para manusear armas.

Parei por um segundo, querendo entender o significado daquela frase. Depois, continuei o movimento - não era como se eu tivesse escolha. Mas, por dentro, algo se acendeu: um arrepio na espinha que pareceu um alerta. Aquela mulher não tinha ido ao spa só para contratar meus serviços - disso, eu tinha certeza. Só que, naquele dia, eu não tinha como adivinhar qual era seu verdadeiro motivo.

Hoje, sei bem: ela desejava conhecer a mulher que sobreviveu a Jonas Guerra.

Capítulo 2 Um Don Nunca Dorme

LORENZO MARANZANO

Sequestrei, sim, a massagista Isadora Guerra. E, querem saber? Não me arrependo.

Nem mesmo da mentira de que foi só para protegê-la. Queria mesmo era fazer dela mia Donna.

Ah, Isadora... finalmente você está livre deste criminoso que, apesar de querer teu bem-estar, é incapaz de amar como você merece.

Agora, olha só pra mim: indo me casar com uma filha da Máfia, como eu.

Como deve ser. Não seria prudente te puxar comigo para a lama onde estou enfiado.

Se me preocupo em puxar minha futura esposa?

Não mesmo, ela é bem pior que eu.

***

Umas Semanas Antes...

O Cassino Maranzano Palace, situado no coração do Distrito Golden, nunca dormia.

Eu também não: se o controle da Família era meu, cabia a mim manter tudo em ordem. Se eu não tolerava erros de ninguém - como toleraria os meus? Caso alguma merda acontecesse quando eu baixasse a guarda, teria que me matar? Me parecia muito injusto continuar vivo depois de todos que executei por erros tolos.

Minha chegada ao Cassino não precisava de anúncio.

Mesmo que ninguém tivesse bolas o suficiente para me encarar, todos sabiam distinguir o som dos meus sapatos entrando no meu território - sempre de passos firmes, ritmados. Assim que me percebiam, os garçons endireitavam a postura, as dançarinas forçavam ainda mais a sensualidade, e os apostadores seguravam a respiração por mais tempo do que o necessário.

O salão principal do cassino era iluminado... demais. Sem relógios, sem janelas - ninguém devia perceber o tempo passando. Eu atravessava o espaço com a consciência de que não podia parar o tempo - mas manipulá-lo era o bastante. Para dar mais impressão desse "dia que nunca dorme", os tapetes de cor vinho cobriam o chão, enfeitados pelas lágrimas que os lustres dourados derramavam sobre eles. Tomando toda essa área, os jogos: roleta, Blackjack, pôquer e uma fileira interminável de caça-níqueis. E, claro, as mulheres bonitas que, em roupas sexies, serviam drinques com sorrisos forçadamente sedutores. Quanto mais álcool, mais apostas, mais jogos perdidos.

Todos elogiavam meus ternos de três peças, sempre alinhados. Entretanto, o que realmente chamava atenção era - e ainda é - a cicatriz que divide minha sobrancelha direita. Algumas mulheres diziam que se excitavam ao vê-la. Para mim, sempre foi uma marca visível do meu pai - as outras ninguém via. Greco, um dos meus seguranças mais antigos, abria caminho entre as mesas de pôquer. Um cliente VIP, entretido com seus ganhos, não se deu conta da minha chegada. Riu da própria sorte até me perceber às suas costas. Empalideceu. Pediu desculpas, como se eu fosse acusá-lo de trapaça. Eu nada disse, apenas o encarei e foi o bastante: ele sabia que perder meu respeito era pior que perder dinheiro, pois significava perder a vida. Aprendi com os que vieram antes de mim: "Nada pessoal, é só negócio". E, no meu negócio, se eu deixasse um homem vivo por piedade, era certo de que ele voltaria para me matar alguns dias depois.

Abaixo do salão, ficava a boate.

Propositalmente escura, para que as mãos bobas não ficassem acanhadas. As luzes coloridas dançavam sobre as silhuetas das dançarinas profissionais. Algumas delas presas em jaulas; outras se contorcendo nos poles. A festa começava às 21h e só terminava quando o último bêbado era expulso.

Nela, meu lugar preferido: a mesa do Don. Ficava num mezanino, pairando sobre todos. Na parede ao lado, telas com as câmeras de segurança. No ouvido, o ponto de escuta. À frente, um pequeno palco. Havia sempre uma mulher dançando ali. Contudo, meus olhos sempre rondavam os clientes.

Observava homens e mulheres ricos fazendo o mesmo de sempre: beber champanhe, rir alto, enfiar notas nas laterais das lingeries. Fingiam estar ali por diversão.

Porém, todos bem sabiam: ninguém frequentava meu clube só para beber e admirar gostosas. O dinheiro, que passava por mim, vinha de crimes fiscais, tráfico, corrupção. Muita gente do Distrito Golden dependia de mim para manter as contas limpas com a Receita Federal. Era isso que me dava poder.

Naquela noite, um segurança se aproximou, me passando informações sobre um possível golpe no cassino. Quando ele se retirou, olhei, pela primeira vez, para a stripper que rebolava à minha frente. Fiz um gesto para que ela descesse da mesa. Vestia apenas uma calcinha preta minúscula e, puxando a renda desta, depositei ali uma nota de cem. Me levantei. Ela pôs as mãos no meu peito, desejando sentir meus músculos sob o terno.

- Don, é minha primeira semana... me disseram que sou bem paga para ser sua. É verdade? - provocou.

Segurei os punhos dela com força. Não para machucar - ainda. Só para deixar claro que não esperasse delicadezas. Aproximei minha boca de sua orelha e murmurei:

- Tem certeza de que o valor é alto o suficiente pra se arriscar?

Ela acenou com a cabeça, roçando seu rosto no meu.

- Você acredita mesmo que rebolar a bunda na minha frente te levaria pra minha cama? - minha voz saiu ainda mais fria.

Apesar de não ter a intenção de machucá-la, apertei seus punhos com mais firmeza. Queria afugentá-la.

- É o que dizem... quem dança bem e agrada ao Don ganha um vale-noite.

Outra pessoa riria da ingenuidade. Não eu.

- Dizem muitas coisas sobre mim - dessa vez, usei um tom de ameaça. - Quem acredita geralmente morre antes de descobrir se era verdade.

Larguei seus braços.

- Você não é uma dançarina. E é burra demais pra ser uma espiã. Então, da próxima vez que eu te vir por aqui, te apresento a Valentina. Ela não tem o meu código moral de não bater em mulher.

Na boca de outro, isso soaria cômico. Na minha, não.

- Nunca mais ouse me fazer perder tempo.

Ela recuou, com o olhar voltado pro chão. O modo como saiu, curvada, só confirmou minhas suspeitas: uma jovem que não fazia ideia de onde estava se metendo. Terminei meu uísque sem pressa

Subi dois lances de escada, enquanto verificava se meu terno estava alinhado. Ajustei as mangas da camisa.

No andar acima do salão de jogos, ficavam meu escritório e o de Dante - meu irmão e advogado. As salas eram à prova de som e de balas. Do outro lado do corredor, a sala de espera dos capangas e o vestiário das dançarinas. Antes de entrar no meu escritório, parei diante de uma das tantas molduras antigas que decoravam o ambiente com membros da Família. Naquela, a foto do meu pai. Por um segundo, vi o meu rosto na imagem dele.

- Ainda não, Sr. Ettore - murmurei. - Ainda não sou igual a você.

Capítulo 3 O Cheiro De Amélia

ISADORA

Me vi sozinha na sala, ainda hipnotizada pelo cheiro que, de tão adocicado e forte, se sobrepujava ao dos óleos. Amélia havia saído com um sorriso vencedor - ou melhor: de quem se acostumou a ter todos os seus desejos realizados. Eu, por outro lado, me sentia como se tivesse perdido alguma coisa; só não tinha ideia do quê. Era como se ainda a massageasse.

Lavei-as com mais força do que o necessário. Apesar da água quente escorrer pelos dedos, não levava consigo a sensação de tê-la tocado. De luva na mão direita, higienizei a maca de novo... e de novo. Porém, o aroma doce dos óleos, misturado ao perfume da cliente, pairava no ar. E o corpo dela ainda se encontrava ali, de algum jeito: sua pele bronzeada, seus olhos fechados, sua entrega sem medo.

"Com final feliz, né?" Esse sussurro indecente ecoava na minha cabeça. Não era a primeira vez que alguém me pedia, entretanto, foi a primeira vez que eu me senti... violada. Como se, naquela sala, não fosse eu quem estivesse no controle; como se tudo fosse além de uma mera massagem. Guardei os frascos, recolhi as toalhas, desliguei o ar-condicionado. Abri a janela para deixar o ar circular, mas nada disso ajudou. Amélia permanecia ali. Fui até a copa da clínica, liguei a velha cafeteira e busquei pelo pó. Inspirei o vapor amargo - tinha virado um vício -, tentando me ancorar no presente. Concluí que a visita de Amélia me incomodara tanto porque ela me lembrava de quem eu fui um dia.

"Eu não era assim, frágil", refleti. "Eu era livre. Eu era... eu. Era livre antes de Jonas, do quarto trancado, da cicatriz no pulso."

A cafeteira chiou.

Ao me servir, percebi o tremor em minhas mãos - o que era considerado um crime no trabalho de massagista. Sinal claro de que teria uma crise de pânico. Pelo meu corpo, correu um daqueles arrepios de alerta - "tem algo errado", e me vi incapaz de controlar. Sentei-me e larguei a xícara na mesa, para que ela não se espatifasse no chão. "Será que um dia vou me entregar a alguém de novo? Como ela se entregou a mim?" A imagem de Amélia - nua, relaxada, confiante - voltou com força. "Não. E nem quero isso. Não quero ser vulnerável de novo. Nunca mais."

- Amiga? - a voz de Camila me trouxe de volta.

De tão perdida em pensamentos, nem me dei conta de quando ela entrou na copa. Minha amiga se ajoelhou à minha frente, pousando as mãos nas minhas coxas.

- Tô aqui, tá? Respira comigo.

Me permiti chorar. E não foi um choro contido, de quem está triste. Foi um choro de quem se entregou ao pânico de vez: com direito a soluços, gritos abafados, fungadas e a garganta arranhando. Ela não disse nada, apenas permaneceu ali, até que murmurei:

- Quase joguei a cafeteira no chão - ri, naquele estado entre lágrimas e humor bobo.

- Ouchi! Se fizer isso, vamos ter que coar café em meia furada!

Se ergueu e abriu os braços e, num primeiro momento, recebeu minha hesitação. No entanto, decidi que me entregaria, sim, ao seu abraço. Encostei a cabeça no ombro dela e fechei os olhos.

- Eu sinto saudades de mim mesma - confessei. - Ou melhor, de quem eu achava que era.

Mais uma vez, nada comentou.

- Lembra de quando a gente montou o projeto do spa? Toque, cura, prazer, liberdade... E agora eu tô aqui, fazendo massagem com final feliz só pra pagar as contas. Eu traí a mulher que eu era!

- Você não traiu nada, Isa. Você sobreviveu!

- Mas eu não quero apenas sobreviver...

Camila se afastou, serviu o resto de café em outra xícara. Depois, jogou a cafeteira no chão, para meu espanto.

- Então, vamos começar a viver hoje - decidiu, sentando e me estendendo a caneca. - Começaremos com uma cafeteira nova. Esse café está horrível!

Me pus a rir de maneira espontânea. Sim, aquela era eu: de riso fácil. Livre para sorrir.

- Obrigada... por tudo.

Bebemos em silêncio, e nem foi desconfortável. Era uma cena que gritava: "amiga, você não está sozinha". Só então catamos os cacos pelo chão.

Mais tarde, em casa, tomei um banho demorado. A água quente ajudava a soltar os músculos, mesmo assim, os pensamentos continuavam presos a Amélia. Enxuguei bem os fios do cabelo, vesti um pijama de tecido mais espesso e me joguei na cama com o notebook no colo. "Quem é essa mulher, afinal?" Abri o navegador e digitei: "Amélia Verticália empresária" - e não encontrei nada significativo. Tentei "Amélia" e sua descrição física. Novamente, nada demais. Então, por impulso, digitei: "Amélia Verticália socialite". E eis que a encontro: Amélia Calderón, vestida num maiô exuberante, ao lado de uma piscina tão azul quanto o céu de verão.

O site dizia que era uma importante influenciadora digital de lifestyle, com quase um milhão de seguidores. Dona de uma linha de cosméticos e sempre postando suas opiniões ácidas sobre moda e celebridades. Casada com Alberto Calderón, empresário do setor de importação e exportação. E, segundo uma matéria antiga, ele fora indiciado por tráfico de armas - nunca condenado por falta de provas. Senti meu estômago revirar. Calderón - eu já ouvira esse nome. E não foi na TV ou em sites da cidade, como se eu fosse apenas uma cidadã vendo as últimas notícias. Ouvi aquele nome na boca de Jonas.

"- Os Calderón são os reis do porto. Se conseguirmos ser úteis pra eles, conseguiremos armas num preço bem mais em conta." - Jonas comentou certa vez para um amigo, achando que eu não ouvia.

Abri o perfil de Amélia numa rede social: fotos em jantares de gala, viagens internacionais, campanhas publicitárias. E, entre uma selfie e outra, uma legenda que fez gelar meu sangue: "A beleza é uma arma. E, olha só, eu nasci pronta para atirar!" Fechei o notebook com a mesma força com que meu coração batia - rápido, descompassado, fazendo meus tímpanos tremerem. Aquela mulher... ela não era só uma cliente.

Me levantei da cama, fui até a janela, tentando respirar um pouco. No entanto, do outro lado da rua, um carro preto estacionado. Com vidros escuros, permanecia de motor e faróis ligados.

- Ou estou sendo paranoica... ou estou sendo vigiada. - Fechei as cortinas, como se fosse o suficiente para me proteger. - Se Jonas a enviou - sussurrei para mim mesma, - é porque ainda não estou livre de seu amor doentio.

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