Cassie poderia avaliar e dar nota de 0 a 10 a todas as dores e traumas que já sentiu ao longo dos seus vinte anos. Ela era muito pequena quando perdeu a mãe, mas ainda lembra com clareza de sua expressão dolorida quando encontrou seu corpo deitado de forma serena sob a cama desfeita. Ela morreu enquanto dormia e o que a confortava era saber que pelo menos ela não sentiu dor, porém a dor que se instalou em seu coração com certeza foi mais que 10, diria 1000. Cassie nunca pôde se despedir.
Logo após isso, foi confirmado que ela não tinha nenhum parente vivo, nem mesmo uma tia, e ficou nos cuidados do juizado de menores até conseguir entrar em um orfanato, isso pode ser classificado como 08 de 10. Foi muito difícil ter que seguir em frente sabendo que agora estaria sozinha. Sua mãe não poderia mais enxugar as suas lágrimas e dizer que tudo ficaria bem. Ela sempre foi uma criança quieta e se tornou uma adulta estranha. Crescer e descobrir que a vida não era o conto de fadas na qual a garota encontra o príncipe encantado foi 07 de 10. Mas também teve a vez em que ela passou anos morando em um orfanato, vendo todas as outras crianças mais novas sendo adotadas e quando completou 18 anos, foi literalmente chutada daquele lugar sem ideia nenhuma do que faria daquele momento em diante, isso foi 10 de 10. O medo tomou conta dela e, por vários momentos, se convencia de que seria impossível refazer sua vida. Não foi. Aos 20 anos, trabalhando dia e noite para pagar a faculdade de medicina e morando em um cubículo de apartamento, teve seu coração partido mais uma vez ao descobrir que a pessoa que amava e confiava estava lhe traindo, essa dor foi 06 de 10. Cassie achou que seu mundo iria acabar, mas aí percebeu que de todas as dores que já sentiu, essa foi a mais insignificante. Ela juntou todos os pedacinhos de seu coração e os colou novamente, seguindo em frente.
Em todos esses anos, ela adquiriu um certo controle sobre sua vida, era como aquela velha frase: "você não pode escolher se vai se machucar, mas pode escolher quem vai te machucar", ela não tinha certeza se é bem essa a frase, mas tomou ela como um lema e em sua vida só entrava pessoas que sabia que não iriam lhe machucar ou que eu esperava que não fizesse isso. Era por esse motivo que ela não tinha amigos, ficava em casa todos sábado a noite assistindo algum filme e enchendo seu corpo de carboidratos com a seu gatinho de estimação, que era a única que sempre esteve ao seu lado. Cassie tinha quase certeza que seria aquela típica tia que assiste novela e possui três gatos em casa, mas nem irmãos tinha para ser a tia.
Apesar de ser completamente incomum e estranho para ela, ela estava em um sábado a noite em frente a um pub, tentando se convencer de que estar ali acompanhada de seu quase melhor amigo era melhor que ficar em casa sozinha. Ela sabia que era mentira, nem estava se divertindo no meio daquelas pessoas desconhecidas e completamente bêbadas.
- Acabei de lembrar que não dei comida para o Plutão - falou, tentando fingir decepção, se virando para Raf.
- O quê? - Raf se virou para ela com o cenho franzido. - O seu gato pode esperar algumas horas. Ele não vai morrer por isso.
- Eu não posso deixar o meu filho com fome. - Mordeu o lábio inferior, encolhendo os ombros. - Eu vou para casa rapidinho, dou comida a ele e volto, o que acha?
- Volta mesmo?
- Eu volto. - Ela cruzou os dedos atrás do corpo com um sorriso.
- Tudo bem, eu te espero aqui, então. Você tem 20 anos, Cassie, precisa se divertir e conhecer pessoas novas de vez em quando ou vai morrer sozinha.
O que ele disse é verdade e ela sabia que precisava viver o que o mundo tinha a oferecer, mas Cassie tinha medo de sair da bolha protetora na qual ela mesma criou. Não estava preparada para isso nem de longe.
Cassie concordou com a cabeça e andou em passos largos até a saída, respirando o ar fresco da noite ao finalmente sair daquele ambiente lotado e fechado.
Eram quase meia noite, nenhum táxi passaria ali aquela hora e o jeito era ir andando. Não era tão longe e a parte boa era que ela perderia alguns quilos e faria algum exercício.
Era início do outono, a noite estava fresca, não fria o suficiente para a fazer tremer, mas teve que colocar os braços envolta do corpo para impedir a passagem do vento.
Cassie praguejou mentalmente a escolha daquela saia e da bota de salto baixo que havia escolhido, seria péssimo caminhar assim, seus pés estariam moídos amanhã.
Um barulho em um terreno vazio ao lado fez seu corpo estremecer e parou imediatamente no lugar. Ela tinha certeza de que eram bandidos e que já poderia assinar seu atestado de óbito, porém nada aconteceu, nenhum grito como "passa o dinheiro e o celular!", nada. Era estranho e confortante ao mesmo tempo. Aquilo só servia para lhe deixar ainda mais curiosa com o que estava havendo.
Contrariando a voz em sua cabeça que lhe dizia para correr dali o mais rápido possível, ela foi em direção ao barulho se agachou ao lado de pneus e sofás velhos largados ali, rezando mentalmente para que ninguém a visse.
- Muitos morrerão essa noite se não deixarem os humanos em paz e irem embora! - Um homem com cabelos loiros brilhantes gritou, apontando uma espada reluzente ao outro a sua frente.
- Muitos dos seus morrerão, eu concordo - o homem de cabelos escuros gritou com um sorriso vitorioso. - Não iremos embora! Temos direitos tanto quanto vocês!
- Você sabe dos acordos, não pode quebrá-los - outro homem disse, ao lado do que empunhava a espada.
- Os acordos foram quebrados quando vocês mataram a Muriel!
- Ela corrompeu o Alistair e isso é motivo de morte!
- Chega! - Outro homem segurou o ombro do homem de cabelo escuro. - Viemos para lutar e vamos ganhar!
Foi então que uma verdadeira guerra começou. De uma hora para outra, um exército com 50 pessoas ou mais surgiu atrás do homem loiro vestido de branco e começou a atacar os homens de preto. Talvez fossem gangues rivais? Isso explicaria as roupas de cores padrão, mas não explicava o fato de estarem lutando com espadas e não com armas de fogo. Quem, em pleno século XXI, ainda usava espadas? Cassie poderia jurar que apenas colecionadores possuíam lâminas tão brilhantes e bem polidas como aquelas.
Talvez ela devesse ligar para a polícia e tentar evitar mortes. Do jeito que eles estavam, sairiam dali mortos ou presos, e como futura médica ela não poderia deixar que se matassem bem na sua frente. Ligar para a polícia era uma boa ideia.
Com o coração acelerado, apertou na discagem rápida, aguardou ansiosamente até que um homem atendeu:
- Alô, polícia? - Perguntou em voz baixa, se abaixando para que não lhe vissem. - Tem uns homens com espadas e lâminas afiadas lutando e acho que só vão sair daqui quando todos estiverem mortos... O lugar... hum... eu não sei bem aonde é. É em um terreno baldio, próximo ao The Tunnel Bar.
Ela não conseguiu terminar de falar quando um grito saiu de sua garganta ao ver um homem cair bem na sua frente. Seu corpo paralisou e não sabia o que fazer. Com o susto, deixou o celular cair na terra seca e escura.
"Não ajude-o", era o que sua cabeça repetia incessantemente, mas a vontade de ajudá-lo era maior. Ela seria médica algum dia, por que não começar a salvar vidas agora?
Ignorando a voz da razão em sua cabeça, correu até o homem e se ajoelhou ao seu lado, examinando com olhos atententos todos os cortes em seu corpo.
- Quem é você? - Ele questionou assustado, tentando tirar as mãos dela do seu corpo.
- Eu vou te ajudar, sou médica - ela reveleou, erguendo a camiseta preta e franzindo o cenho ao ver o corte profundo em seu abdômen. - O que está havendo aqui?
- Como você pode nos ver?
- Bem, eu não sou cega, se é o que quer saber.
Ele arfou de dor e mordeu o lábio inferior na tentativa de conter um grito. Cassie tirou sua jaqueta jeans e colocou sob o ferimento, fazendo pressão para parar o sangramento.
- Você precisa ir embora - ele disse, ainda tentando a empurrar para longe.
- Eu chamei a polícia, eles já estão a caminho, não se preocupe.
- Não, você precisa ir...
Ela tirou a blusa para ter mais visibilidade dos cortes, mas acabou esbarrando em uma ponta afiada e cortou a palma da mão.
- Quem é ela?! - Um grito estridente cortou o ar até chegar em seus ouvidos e fazer seu corpo gelar. - Chamaram uma humana?
- O quê? - Outro homem questionou, parando para ver o que o loiro olhava.
- Envolver humanos nisso é baixo até mesmo para vocês!
- Quem é você? - O homem de cabelos escuros gritou, correndo até os dois que estavam no chão. - O que faz aqui?
- Eu... - ela tentou achar alguma resposta, então olhou para o homem caído a sua frente - estou ajudando ele.
- Fizeram mais um acordo apócrifo! - O loiro gritou, apontando a espada para eles. - É uma pena que a humana tenha morrer pelos pecados de vocês.
- Livian! - O homem caído gritou.
- Droga! - Ele revirou os olhos, agarrando o braço dela com força.
Asas enormes e negras como a noite surgiram de suas costas e ocuparam todo o seu campo de visão.
Cassie não conseguiu gritar por mais que quisesse. Ela estava em estado de choque com tudo aquilo. Era demais para apenas uma noite. Ele a tirou de cima do outro homem e fechou seus braços envolta de seu corpo, então tudo ficou escuro e ela perdeu a consciência logo em seguida.
Quando Cassie retomou a consciência, não conseguiu reconhecer o lugar em que estava. Era como um apartamento abandonado, com teias de aranha e poeira por todos os lados e ela estava deitada em um sofá rasgado e velho. Seu corpo estava dormente, suas pernas formigando e parecia fazer dias que estava dormindo naquela posição. Ela não me lembrava com clareza do que havia acontecido, mas conseguia visualizar homens com espadas lutando entre si e sangue.
- Acordou - uma voz falou atrás dela, fazendo seu coração dar um pulo de susto. - Muito bem, vamos começar.
Seu coração estava tão acelerado que doía só de respirar.
- Ela não comeu nada há três dias - o outro homem presente falou. - Precisa se alimentar antes do interrogatório.
- Interrogatório? - Cassie questionou, se forçando a virar para olhá-los. - São da polícia, por acaso?
- Bem melhor que isso.
- CIA?
- Somos demônios - ele respondeu como se fosse óbvio.
- Como é? - Ela colocou as mãos na testa, finalmente lembrando de tudo o que havia acontecido.
- Calma, Livian, ela vai desmaiar novamente - o outro pediu, sentando ao lado dela com cuidado. - Meu nome é Sky, qual é o seu?
- Cassiopeia - respondeu, escutando suas veias pulsarem nos ouvidos. - O que ele disse é verdade?
- É - respondeu com voz baixa, tentando achar as palavras certas. - Eu vou te explicar o que...
- Fala logo que o está acontecendo, assim podemos despachar ela e matar alguns anjos sem interrupções - Livian disse entediado.
- Como eu estava dizendo - Sky continuou, resistindo ao ímpeto de revirar os olhos -, somos demônios, é verdade. Aqueles com quem lutamos são anjos e há uma guerra entre nós, como todas a histórias contam.
Cassie não duvidou das palavras daquele estranho porque havia visto as asas negras do outro que estava parado em pé e parecia real demais para ser uma mentira. E ele disse tudo de uma forma tão rápida, sem pausa ou hesitação, deixando claro que não era invenção.
Ela olhou para Sky sentado ao seu lado se concentrou em seus olhos, tentando decifrar algo. Como dizia sua mãe, os olhos são a janela da alma, e havia dor e até um pouco de maldade escondida no canto dos olhos dele.
- Então, vocês são os vilões da história! - Concluiu com um susto, se levantando rapidamente para sair dali.
- É claro - Livian disse com um suspiro cansado. - Somos os vilões perto dos gloriosos e bondosos anjos. É o que ensinaram os humanos a acreditarem.
- Não somos os vilões - Sky falou. - Quer dizer, acho que não há vilões ou mocinhos nessa história. É só uma questão de percepção.
- Mas vocês machucam pessoas.
- Segundo a Bíblia, sim.
- Eu acredito na Bíblia - ela falou com convicção -, acredito em Deus e em tudo que é religioso.
- Também acreditamos em Deus - Livian respondeu como se ela tivesse dito algo idiota. - Como anjos, demônios ou tudo que há no mundo existiria se não fosse por ele?
- Vocês são...
- Demônios. É, já sabemos disso.
- Então como acreditam em Deus?
- Por Lúcifer, Sky, tire ela daqui ou eu mesmo tiro e a jogo para Miguel - Livian a ignorou e se voltou para Sky sem paciência.
- Cassiopeia, eu entendo que ache que somos vilões, afinal foi isso que te ensinaram desde criança - Sky começou, achando as palavras certas. - Porém, existe uma coisa sobre os anjos que vocês humanos não sabem e eles não são tão bonzinhos assim.
- Como assim?
- Você escutou muito bem quando o Miguel gritou que te mataria por fazer um acordo conosco. É assim que eles lidam com isso: ou você desfaz o acordo ou morre por isso.
- Eu não fiz acordo nenhum com vocês.
- Não diretamente, mas quando você resolveu me ajudar, cortou sua mão e seu sangue se misturou com o meu. - Ele ergueu a camiseta preta e mostrou o ferimento ainda aberto. - É assim que contratos são iniciados.
- Parabéns - Livian disse com um sorriso forçado, batendo palmas. - Está ligada ao Sky agora, você querendo ou não.
Era muita coisa para Cassie assimilar. Primeiro, ela estava no meio de uma guerra entre anjos e demônios, e agora estava ligada a um demônio? Parecia tudo cena de um filme no qual ela era a mocinha indefesa que mal sabia se defender do mundo. A única pergunta que Cassie se fazia era por que ela?
- Vocês precisam conversar - Livian disse, colocando a jaqueta preta. - Eu volto em meia hora. O assunto de vocês é chato e eu não preciso ficar escutando isso.
Livian foi até enorme janela quebrada e pulou sem hesitar.
- Ai, meu Deus! - Ela gritou, correndo até a janela, mas Livian já havia desaparecido entre os prédios.
- Não se preocupe, ele pode voar - Sky revelou o óbvio. - Vamos resolver os termos da nossa relação antes que o Livian volte, assim podemos ir para casa e...
- Não existe nossa relação - ela interrompeu, se sentando novamente ao lado dele. - Eu vou voltar para minha casa e viver minha vida como se nada houvesse acontecido e esquecer de vocês, dessa guerra e de anjos.
- Gostaria que fosse fácil assim, mas você despertou a fúria dos arcanjos e eles não vão parar até matá-la.
- Não. Eles são seres celestiais, não fariam isso.
- Eles fariam.
- Eu sou uma pessoa boa - explicou, segurando as mãos dele sob o sofá na tentativa de convencê-lo disso. - Eu nunca roubei, matei, nem mesmo brigo com as pessoas. Eu quero ser médica justamente pra ajudar as pessoas. Por favor, eu sou uma pessoa boa, não mereço isso. Acredite em mim.
- Eu acredito. - Sky concordou com a cabeça, segurando suas mãos com cuidado. - Sei que não merece isso, nunca deveria ter me ajudado. Eu até tentei fazer com que fosse embora, mas...
- E eu estou condenada apenas por ajudá-lo?
- Não posso dizer nada para amenizar a situação.
Lágrimas se formaram nos olhos de Cassie e, por mais que ela tentasse segurá-las, não conseguiu e elas mancharam seu rosto. Ela odiava ser tão emocional e chorar por qualquer coisa, a fazia parecer tão mole e frágil, como se qualquer coisa fizesse ela desmoronar.
- Eu vou para minha casa - anunciou com voz embargada, se levantando rapidamente. - Não me procure mais.
- Tem mais uma coisa... - Ele tentou ir até ela, mas caiu no chão gemendo de dor e pressionando a barriga com força.
Mais uma vez, Cassie estava na situação em que seu coração lhe obrigava a ajudá-lo. Tudo aquilo havia começado por causa de uma simples ajuda e por mais que ela soubesse que deixá-lo ali sem olhar para trás era o correto a se fazer, não conseguiu fazer isso e deu meia-volta.
- O que foi? - Ela se ajoelhou ao seu lado e segurou sua cabeça com cuidado.
- O veneno - ele disse com dificuldade -, é muito forte.
- O que eu posso fazer para ajudar?
- Eu preciso da ajuda do Livian. - Ele fechou os olhos com força, tentando parar a dor. - Logo ele chegará.
Com relutância, Cassie ergueu a camiseta dele lentamente, e virou a cabeça rapidamente para evitar ver a carne exposta em tom escuro. Parecia estar apodrecendo mais a cada minuto.
- Você precisa de um médico - ela falou, ajudando-o a se levantar.
- O que você acha que médicos poderiam fazer a um demônio? - Ele questionou, tentando dar um sorriso. - Além disso, remédios humanos não funcionam em mim.
- Então, como vai se curar?
- Certos demônios possuem magia para curar outros.
Assim que Sky terminou de falar, Livian entrou voando pela mesma janela em que havia pulado e dessa vez suas asas estavam com penas reluzentes sob a luz do pôr-do-sol. Eram lindas e pareciam ser tão macias. Cassie teve que resistir ao ímpeto de tocá-las e matar a curiosidade para saber se eram ásperas ou macias.
- Precisamos ir, espero que tenha convencido ela - Livian falou, segurando Sky. - Você não vai aguentar muito se não se tratar.
- Convencer de quê?
- A vir conosco.
- Para onde?
- Para o Pandemonium - Livian respondeu. - Temos ilhas habitadas por demônios de diferentes origens. É claro que não queríamos levá-la conosco, mas como uma humana não pode morar no mundo humano sob ameaça e você tem um contrato com o Sky...
- Eu não tenho contrato com ninguém. - Ela passou por eles em passos largos, indo em direção à porta. - Olha, espero que se recupere, Sky. Eu estou indo para a minha casa e espero nunca mais ver vocês. Boa sorte com os anjos e tudo mais.
Antes que eles pudessem dizer ou fazer algo, Cassie correu para fora do apartamento e desceu as escadas se segurando no corrimão para não cair e morrer de vez, convicta de que agora ficaria longe de problemas e esqueceria de vez esse episódio de sua vida.
Já fazia dias que Cassie havia voltado para o seu apartamento e tudo estava perfeitamente normal e ainda melhor que antes. Ela estava se concentrando nas provas finais e tudo indicaria que se formaria com sucesso e até já havia arrumando estágio como residente em um dos maiores hospitais de Nova York.
Talvez aqueles homens haviam se enganado. Ela não tinha feito nenhum contrato e nenhum anjo estava atrás dela. Ela nem sabia porquê havia acreditado no que eles diziam.
- É o último mês - Raf falou com animação, empurrando levemente os ombros dela. - O pessoal está planejando uma viagem para Cancun como formatura. Eu já confirmei sua presença.
- Não, Raf - ela reclamou, franzindo o cenho. - Você sabe que mal falo com eles.
- É o nosso último ano - ele disse, ainda na tentativa de convencê-la. - Talvez nunca mais vejamos algumas pessoas. A Emma, por exemplo, está pensando em se mudar para a Itália e ficar perto dos avós.
- Eu tenho certeza que eles não darão falta da minha presença.
- Mas eu quero você lá.
Cassie olhou para ele e viu o brilho em seus olhos. Raf era uma das pessoas pessoas, se não a única, que se importava verdadeiramente com ela e almejava a sua presença. Ela não poderia deixar um amigo sozinho nessa viagem, precisava fazer esse sacrifício por ele.
- Não sei - falou, passando pelas enormes portas da saída. - Vou pensar.
- Você sempre fala isso e me dá um bolo.
- Dessa vez é verdade, eu vou tentar. - Entrelaçou seu braço no dele e desceu as pequenas escadas para fora da universidade. - Você sabe que eu não sou como eles, não tenho pais ricos e meu único salário é de garçonete, que não sobra quase nada. Não sei se vou ter como bancar uma viagem da classe deles.
- Eu pagaria para você - ele sugeriu com um sorriso, retomando suas esperanças.
- Ah, qual é, Raf? Eu sei que você é meu amigo, mas não posso deixar você pagar uma viagem dessas para mim. É muito caro.
- Por que não? Meus pais são ricos, eles não vão se importar, nem vão se dar conta, na verdade.
Era exatamente por isso que ela não queria. Ela sabia que Raf poderia pagar sem problemas, mas não queria ficar em dívida com ninguém, ainda mais uma dívida grande como essa e com pessoas que não tinha tanta intimidade.
- Vamos fazer assim, eu vou fazer um esforço para tentar ir nessa viagem, ok? - Ela segurou os braços dele com um sorriso.
- Tudo bem. - Ele sorriu, revirando os olhos sem opção. - Quer carona para o trabalho?
- Quero... - Cassie se virou para frente com o sorriso ainda em lábios, então seu corpo paralisou no lugar e desfez o sorriso instantaneamente. - Na verdade, não. Eu vou andando mesmo.
- Cassie, tudo bem?
- Tudo, sim - respondeu, jogando um beijo no ar para ele. - Te vejo amanhã.
Cassie deixou Raf sem entender o que acontecia e saiu em passos largos, quase correndo pela rua movimentada na esperança de chegar logo no trabalho que era próximo dali.
- Cassiopeia! - A voz grossa e familiar gritou, a fazendo parar imediatamente no lugar com o susto.
- O que você quer? - Ela se virou para ele, sentindo sua cabeça doer só de vê-lo em sua frente novamente. - Eu disse para nunca mais me procurar!
- Eu gostaria que fosse simples assim, mas temos um acordo e os anjos estão planejando outro ataque.
- Isso é problema seu.
- Não sei se esqueceu, mas está na mira deles também. Você está bem na ponta da espada de Miguel e ele não vai parar até matá-la.
- Bom, se houver mesmo um contato como você diz, é só desfazê-lo. Você mesmo disse isso é possível.
- É possível, mas não é fácil. Talvez traga a sua morte. - Ele se aproximou, diminuindo o tom de voz. - Vamos para outro lugar. Você está parecendo uma louca gritando no meio da rua, eles não podem me ver.
Cassie olhou envolta e realmente algumas pessoas curiosas a olhavam como se estivesse doida, tentando entender o que eu estava fazendo.
- Vamos para minha casa - falou por fim, tentando se convencer de que não era uma péssima ideia. - Mas a conversa terá que ser breve, preciso trabalhar.
(•••)
Assim que os dois saíram do elevador no décimo primeiro andar, Cassie sentiu que havia algo errado. A porta estava entreaberta, com arranhões na madeira e, quando ela abriu a porta, se deparou com móveis jogados no chão e coisas quebradas por toda parte.
- Não! - Ela colocou as mãos sobre a boca sem reação. - Será que roubaram algo?
- Espera. - Sky a puxou para trás de si, então entrou primeiro, verificando se não havia mais ninguém. - Não foram ladrões, foram os anjos.
- Sky, por favor...
- Nossa ligação está ficando mais forte, eu sinto isso. Meu sangue manchou a espada de Miguel, então ele pode me encontrar em qualquer lugar, assim como pode encontrar você também.
E tudo só piorava a cada palavra dita. Quando o assunto era Sky ou qualquer um que estivesse ligado a ele, era sem sombras de dúvidas um atestado de óbito e uma lista com vários problemas.
- Plutão! - Cassie chamou, tentando evitar as lágrimas. - Aonde você está?
- Quem é Plutão? - Sky questionou, a ajudado vasculhar as bagunças mesmo sem saber o que procurava.
- Meu gato - respondeu rapidamente, limpando as lágrimas que caiam de preocupação.
- Serve esse?
Ela virou para olhá-lo e soltou um suspiro aliviado ao ver Plutão nos braços de Sky.
- Obrigado. - Pegou o gatinho preto das mãos dele e acariciou sua cabeça com cuidado.
- Você estava chorando por causa de um gato? - O olhar de Sky era incrédulo.
- Eu só tenho ele na minha vida - respondeu, fechando os olhos ao encostar o rosto na cabeça de Plutão.
- E sua família?
- Minha mãe morreu quando eu era criança e cresci em um orfanato. Sem parentes próximos.
- E aquele garoto da faculdade não é seu namorado?
- Não. - Ela balançou a cabeça negativamente, como se ele tivesse dito uma piada. - O Raf é só meu amigo.
- Você disse isso a ele?
- Ele sabe. - Cassie franziu o cenho, tentando entender o que aquilo significava.
- Voltando ao que realmente importa, você precisa vir comigo agora.
- O quê?
- É isso mesmo. Enquanto você tiver um acordo comigo, estará em risco e eu não posso te proteger em território humano comandado por anjos.
- Você e aquele outro são loucos. Eu não posso largar minha vida assim.
- Você pode morrer, então. Mas eu garanto que seu nome não estará na lista da entrada do céu.
Ela ficou em silêncio, sem esperanças sobre mudar de ideia.
- Tudo bem, Cassiopeia, me escute - ele continuou com seriedade, indo até ela. - Você não queria que aquilo acontecesse, eu também não queria estar em um acordo com você, acredite, mas aconteceu por algum motivo e agora precisamos dançar conforme a música. Existe muito mais que apenas um acordo entre um demônio e uma humana.
- Não vou mudar de ideia, Sky.
- O contrato não pode ser desfeito a menos que faça um desejo e que esse desejo seja cumprido.
- Você é tipo um gênio da lâmpada?
- Quase isso. A diferença é que você tem apenas um desejo e não três.
- Bom, se é a única forma de acabar com isso, eu aceito. Depois eu volto para a minha vida completamente normal.
Sky sorriu com alívio e colocou as mãos na cintura, olhando envolta. Algo a dizia que havia muito mais do que o que ele estava dizendo e o olhar dele era preocupado, não só pelo presente mas pelo futuro também.
- Eu já falei com o seu chefe e disse que sou um parente próximo que precisa de alguém que fique com uma tia doente - ele disse, indo até a janela e abrindo a mesma com força. - Ele vai pagar um adiantamento pelas três semanas.
- Você me demitiu? - Ela quase gritou em surpresa.
- Sim.
- Não pode fazer isso! Eu preciso daquele emprego!
- Se for esperta, vai descobrir que não precisa. As lendas de famosos que ficaram ricos após fazerem pactos não são só lendas. Você pode ter o que quiser, Cassiopeia.
A ideia era tentadora. Saindo dos lábios de Sky parecia algo mais proibido ainda, o que fazia Cassie ter mais vontade de fazê-lo. Ele, com toda certeza, sabia como manipular alguém e ela precisava tomar muito cuidado com suas ofertas tentadoras e o preço que teria pagar por isso.
Sky tirou um livro antigo feito de couro de dentro do blazer perfeitamente passado, então entregou a ela com relutância.
- O que é isso? - Ela questionou, passando as pontas dos dedos pela capa de couro.
- É o livro dos demônios, aí tem tudo o que você precisa saber - ele respondeu com os olhos fixos nela. - Ele é muito poderoso, Cassiopeia. Ele não contém só informações sobre os acordos, ele possui feitiços e até o portal para o Pandemonium.
De repente, aquele livro havia se tornado mais pesado do que era. Cassie sabia que uma responsabilidade daquele tamanho seria perigoso, ela nem sabia se conseguiria guardar aquilo. O nome "livro dos acordos", era bonito e muito valioso.
- Não sei se posso guardar isso, Sky - ela disse, estendendo o livro a ele novamente.
- Eu sei que pode. - Ele se aproximou e colocou as mãos nos ombros dela. - Esse livro possui todos os nossos segredos, a nossa casa, a minha vida... estou entregando tudo nas suas mãos. Consegue fazer isso?
E mais uma vez, tudo piorava.
- Se os anjos vierem atrás de mim, vão me matar por isso. Não vou poder guardar isso morta.
- Quanto a isso, não precisa se preocupar - ele assegurou com um sorriso. - Ninguém vai tocar em você enquanto estivermos juntos nessa.
- Está bem - Cassie concordou com um sorriso. - Vou guardá-lo com a minha vida.
- E eu vou te proteger com a minha.
Sky soltou Cassie e limpou a garganta, percebendo que segurou os ombros dela por muito mais tempo do que planejava, então sentou no chão e esperou que ela fizesse o mesmo.
- Vamos? - Ele perguntou.
- Eu preciso levar algumas roupas.
- Você tem tudo o que precisa lá.
- Tudo bem, mas o Plutão vem comigo.
- Sem problemas. Eu até que gosto de gatos.
Então Cassie se sentou no chão em frente a ele e colocou Plutão em seu colo, ainda segurando o livro.
- Você precisa ler esse feitiço de conjuração enquanto segura as minhas mãos - ele explicou, abrindo o livro na página certa.
Sky deixou o livro no chão e Cassie passou os olhos por cada palavra em latim escrita nele. Ela tinha medo de dizer aquelas palavras que não conhecia em voz alta porque sabia as histórias que contavam sobre demônios, mas o toque quente das mãos de Sky fez ela acreditar que não precisava temer nada, então recitou as frases em voz alta.