No princípio, havia apenas o tédio.
E a falta de dinheiro.
E de perspectivas de futuro.
Até que Cristina encontrou Maurício e fez-se a luz.
Ela não tinha nenhuma inteligência aproveitável. Pelo menos academicamente. No ano do vestibular, e estudando no caro e exclusivo Colégio das Irmãs Beneditinas, então, isso se tornava óbvio. Não era que ela fosse burra, só não tinha paciência. E, além disso, ela não precisava de inteligência. Já era bonita e peituda. O que era suficiente para seus projetos, que basicamente constituíam em encontrar um cara com grana, conseguir casar com ele e viver então da grana matrimonial. Se ele fosse bonitinho seria, claro, melhor.
Então, quando ela conheceu Maurício Resende, recém-solteiro, no colégio e soube que ele era rico – não o suficiente para seu papai estar na Forbes, verdade, mas rico para ter várias coberturas básicas pela cidade -, Cristina soube o que tinha que fazer.
Porque interpretar uma adolescente burra que engravidava por acidente era fácil. Muito fácil. Mais tarde, ela perceberia o erro de avaliação sensacional que fizera ao ter essa ideia, mas só mais tarde. Naquele momento, foi isso que ela fez. Foi difícil, bem difícil. Maurício parecia ter tanta vontade de ser seduzido sexualmente por uma garota quanto de arrancar um dente sem anestesia, mas acabou acontecendo. Precisou quase de uma chave de braço para arrastá-lo até algum lugar que tivesse uma cama, no caso, na sua casinha de subúrbio. Cristina era muito mais humilde do que seus colegas de sala, e só tinha a vaga naquele colégio porque sua mãe era pedagoga lá, mas estava disposta a se igualar a eles. Por qualquer método.
Mas não deu certo. Quase como se estivesse escrito que não daria, se ela acreditasse naquelas bobagens. Porque era seu dia fértil e eles não usaram nada, porque Maurício foi otário em acreditar que ela tomava realmente pílula. E porque ela tinha 18 anos, o auge da fertilidade feminina. Mesmo assim... não deu certo, e ela menstruou. E fim de história, já que ela tinha um pressentimento que não era bom tentar novamente, que não daria em nada. Era meio paradoxal, mas, ao mesmo tempo em que Cristina não acreditava em destino, acreditava em pressentimentos. E em astrologia. Era Leão, e achava que seu mapa astral batia direitinho com ela. Assim como aqueles eventuais presságios com o que eventualmente acabava se realizando.
Naquele dia específico de início de setembro, quando ela completava seis meses de namoro, ela teve um desses presságios. De que as coisas mudariam para ela dali em diante. Que a maré mudaria a favor dela.
Vendo esses pressentimentos depois em longo prazo, isso foi bem relativo.
- Ah, Maurício, eu estava pensando.
E fez uma pausa.
Maurício parou de ler e olhou para ela com uma interrogação metafórica no rosto. Bom aluno, ele conhecia as notas de Cristina e devia ter medo quando ela pensava.
- Estamos namorando há seis meses – continuou ela, cruzando as pernas, sentada com ele num banco relativamente discreto do pátio, onde esperava que as irmãs beneditinas que dominavam aquele colégio não viessem gritar com eles. Na verdade, gritar com Cristina. Maurício nunca fazia nada errado.
E fez outra pausa.
Maurício fechou o livro com o cuidado de quem nada entende. Compreensível. Cristina sabia que era mesmo confuso, e irritante, mudar o modo de falar tão radicalmente, de falar rápido e bastante para falar devagar e pouco. Bem, agora ela tinha a atenção dele.
- Sim, eu sei – disse ele, cuidadoso, bem devagar.
Cristina controlou-se para não sorrir. Ela não era sentimental, mas, quando ficava confuso, Maurício ficava parecendo um cachorro basset chutado pelo dono, com seus cabelos escuros indomáveis (não por falta de tentativa) e os olhos escuríssimos, quase como poços de petróleo. E isso era adorável.
- E então.
E a pausa.
- E então o quê? – perguntou ele com um tiquinho de impaciência.
Cristina decidiu ir direto ao assunto.
- Você sabe. Seis meses e nem conheço sua família.
Ele ergueu as sobrancelhas, respirou fundo e pegou nas mãos dela.
- Cristina, eu gostaria disso. Mas acontece que você tem alguns probleminhas que deveríamos consertar antes de apresentar você à minha mãe.
Cristina franziu a testa. Maurício falara aquilo como que dizia apresentar você à Sua Majestade, a rainha. Imaginou-se fazendo a reverência a toda poderosa Sra. Resende.
- Quais problemas, Maurício?
- Não é nada grave – começou ele, sem graça – É que minha mãe é católica, entende? Ela tem ideias sobre o que é uma mulher decente, e você...
- Nem parece com elas? – completou Cristina, um tantinho aborrecida.
- Não. Você está ligeiramente fora delas. Um dedinho, juro – parou e corrigiu, contrafeito, depois que reparou no esmalte vermelho dela – Talvez dois.
- Qual é o problema?
- Usar camisas mais fechadas seria bom, mas...
Esse tipo de reação ajudava Cristina a pensar que, na real, ele era gay. Que espécie de homem reparava nos peitos de uma mulher e não esboçava nenhuma reação positiva? Ele nem mesmo pegava direito neles, por Deus.
-... acho que o pior é o cabelo.
- O quê?
- Desculpa por isso, mas parece de prostituta. Segundo minha mãe, ao menos.
Cristina passou os dedos pelos cabelos ondulados, contrafeita. Ela tinha orgulho da beleza de seus cabelos acajus, adquirida via tintura. Mas mauricinhos eram mauricinhos.
- Não parece natural, você quer dizer?
- Não – confirmou ele, fazendo um sinal de negativo com a cabeça e, pegando Cristina pelos ombros e virando-a, começou a análise – Você realça muito a cor. Ele podia ser cobre, ou castanho-avermelhado, e não...
Cristina desligou. E ainda falava como um cabelereiro. Não dava para negar mesmo.
-... enfim, não...
- Dá – concluiu ela, girando de volta e olhando-a bem nos olhos – Saquei. Vou pintar de uma cor mais natural. Talvez vermelho escuro, sei lá.
Maurício sorriu e a abraçou meio num rompante. Surpresa e desconcertada por um gesto tão atípico, Cristina demorou em abraçá-lo de volta.
- Você entende – disse ele meio aliviado. Pelo visto, já tivera algumas namoradas reprovadas pela mãe tirana – Obrigado.
Embora sem entender muito porque ele agradecia por ela tirar aquela tinta no cabelo, Cristina assentiu.
- Sabe – prosseguiu ele, sorrindo – É por essas coisas que eu te amo.
Cristina paralisou. Era a primeira vez que ele dizia isso.
Bonitinho, rico e a amava. Era seu dia de sorte. Absolutamente perfeito.
Maurício era o melhor de dois mundos: era rico sem ser um feio escroto, como era desagradavelmente comum em tal meio. E Cristina estava começando a perceber que ele estava encantado o suficiente por ela para não precisar de muita coisa para continuar com ele. Só ser ela mesma.
Ou quase. Existiam coisas que ele não iria suportar. Tipo ela tentar ficar grávida de propósito. Aliás, ela começava a ver aquilo como uma grande estupidez. Pareceu valer a pena por algumas semanas, sim, mas apneia também parecia, e muitas pessoas se escapelavam.
Mas nada disso entrou no mérito da questão depois que Cristina conheceu seu cunhado, o irmão gêmeo não idêntico (como Maurício fizera questão de destacar quando ela lhe pedira que falasse sobre sua família) de seu namorado. Porque Miguel era o melhor de três mundos: rico sem ser feio escroto E bem gostoso, como todo bom escorpiano era e Maurício era incapaz de ser. Portanto, mesmo que ela considerasse que ele precisava lavar aquela camisa preta e cortar o cabelo abominavelmente sem corte, tão indomável quanto o de seu irmão, era pegável até dizer chega. Não que Cristina planejasse dizer chega.
Até porque ela podia cobiçá-lo o quanto quisesse, já que jamais o teria. Primeiro, por que... era seu cunhado, oras. Simplesmente não se podia ficar com o cunhado. Era uma questão moral e lógica. Por mais que Miguel fosse um belo pássaro voando, ela já tinha Maurício bem preso dentro da gaiola, e não ia arriscar um para pegar o outro.
Segundo, porque ele não era exatamente um pássaro voando livre. Ele tinha uma namorada, como Cristina descobriu em 15 minutos. Uma namorada grávida. E queria casar com ela.
A mãe dele, a já semi lendária Teresa Resende, discordava da intenção, e manifestava isso com toda intensidade naquele momento. O rosto da mulher já estava vermelho de nervoso, condição realçada pelos cabelos loiro-escuros despenteados de forma muito calculada.
- Você tinha um futuro tão bom! – choramingava ela, com os olhos cheios de lágrimas – Por que vai fazer isso? Você mal a conhece!
Miguel a olhou com impaciência.
- Ela é irmã de um amigo meu do colégio, conheço ela há anos.
- Conhecendo o nível dos seus amigos, não pode ser nada bom – disse Teresa asperamente, parecendo soluçar em cada sílaba.
Enquanto isso, Cristina via televisão e fingia que nem estava ali. Porém, enquanto observava distraidamente um documentário sobre a reprodução de moluscos, estava tentando arquivar cada palavra em sua mente.
Então, Teresa começou a chorar. A expressão determinada de Miguel ficou abalada.
- Mãe, esse não é o fim do mundo.
A cara dela dizia exatamente o contrário. Talvez estivesse deprimida com a perspectiva de um neto sem pedigree.
- O que você acha? – perguntou ela para Cristina de súbito, parecendo menos histérica.
Miguel descruzou os braços e a encarou como se a visse pela primeira vez.
Cristina desligou a TV e respirou fundo enquanto a imagem ia embora.
- Bem – começou ela, alisando a calça com mais força do que pretendia e imprimindo à sua voz um tom humilde que não tinha de forma natural - uma gravidez é importante e acho que não pode passar sem...
-... uma pensão – observou Miguel irrefletidamente – Ia ser uma grana.
Maurício deu um risinho, fazendo Cristina se sobressaltar. Esquecera totalmente da presença dele.
- Acho que entre suas qualidades não podemos listar a sensibilidade. Ah, Miguel, você realmente a ama, não ama?
Miguel o perfurou com o olhar.
- Sensível ou não, pelo menos eu planejo ter uma carreira de homem – retrucou ele, e com uma risadinha – Letras, francamente.
- Miguel, você não planeja nem começar uma faculdade, conheço você.
Miguel trancou a expressão, e Cristina percebeu que a discussão iria se degenerar.
- Me conhece porra nenhuma! – esbravejou ele.
- Miguel! – repreendeu Teresa, acordando de um breve transe.
Cristina continuou caladinha.
- Pensando bem, acho que você está certo – admitiu Maurício com evidente dificuldade, e então, sorriu – Com uma cabeça tão vazia como a sua não há muito o quê conhecer.
- Parem – mandou Teresa antes que Miguel pudesse abrir a boca.
Então, tão rápido como se degenerara, a discussão acabou. Maurício sentou-se ao lado de Cristina e Miguel pigarreou, cruzando de novo os braços que descruzara. Cristina sentiu ondas de não realidade e teve vontade de rir daquele absurdo. Parecia que ela estava dentro de um livro ruim.
- Então, Cristina, acho que você estava falando.
Por um segundo, pareceu que era Miguel que estava falando e, Cristina se aprumou, mas era Maurício.
- Era só aquilo – disse ela, terminando o discurso de forma nada impactante, relaxando o corpo – Mesmo – reafirmou ela quando percebeu que Miguel continuava a encarando. Só depois entendeu que ele estava era dando uma sacada nos peitos dela. Na frente da mãe. E do irmão.
- Nunca teve muito o quê discutir. Ela vem aqui hoje e espero que seja bem tratada.
Teresa pareceu estar tendo uma apoplexia pelo choque.
- Como?
- Ela vem aqui hoje. Almoçar conosco. Deve estar chegando, aliás.
- Como você faz isso sem me questionar?
Miguel deu de ombros.
- Ela já vinha aqui – disse, indicando Cristina e lhe lançando um breve olhar de interesse – Achei que não teria problema.
Teresa fungou. Definitivamente não tinha a tal namorada de Miguel em alta conta.
- Como você quer casar com uma mulher que eu sequer sei o nome?
- Não seja por isso – disse ele, sorrindo – Olga Rachmaninoff.
- O quê?
- Rachmaninoff – repetiu ele pacientemente.
- É eslavo? – perguntou Teresa, talvez mais interessada.
- O avô paterno dela era russo.
Cristina franziu a testa enquanto imaginava. Uma garota de ascendência russa. Beneficiada pela genética para ser bonita.
No final, não era, como percebeu Cristina assim que a viu, alguns minutos depois. A verdade era que Olga Rachmaninoff era feia.
Talvez não feia, mas decididamente não a beldade eslava que Cristina imaginava. Ela era baixa e magra, com rosto achatado, mas não totalmente desprovida de encantos, de uma maneira geral. Dava para entender como Miguel se apaixonara por ela, mesmo que os peitos fossem minúsculos.
O que não dava para entender era porque ela tinha traços de japonesinha. Aliás, traços não; ela era uma japonesinha.
Foi um choque para quem esperava uma beleza russa.
Teresa evidentemente compartilhava do espanto de Cristina.
- Mas... – começou, intrigada – Pensei que ela fosse russa.
Assim mesmo, falando dela como se a garota não estivesse ali.
Olga a encarou. Foi quando Cristina percebeu que ela era uma garota firme.
- Talvez eu seja uma vira-lata – retrucou ela meio bruscamente.
Isto foi o suficiente para Teresa antipatizar de vez.
Cristina, por sua vez, bem que tentou, nos minutos que antecederam o almoço, ser simpática com Olga Rachmaninoff, mas não deu. Simplesmente não rolou. Assim como Teresa, ela antipatizara de cara, principalmente depois de descobrir que ela era também leonina. Dois leões nunca se davam bem, afinal. Ou talvez fosse algo mais simples: ela seria incapaz de gostar de qualquer namorada do seu gostosíssimo cunhado. Ou ser algo espiritual, ou qualquer coisa assim. Seja como for, elas já se sentaram para o almoço sem se bicar.
Mesmo assim, mesmo que não tivesse rolado nenhuma simpatia, Cristina podia ter se recuperado e convivido com a tal Olga com mais amabilidade pelos anos seguintes se só tivesse acontecido aquilo. Afinal, primeiras impressões nem sempre se confirmam. Se tivesse sido apenas esse primeiro choque, as coisas talvez tivessem ficado bem entre elas pelos vinte anos seguintes.
Mas não, Olga Rach-não-sei-de-quê tinha que ter mais surpresas.
- Sou vegetariana - mandou ela assim que viu a adorável carne vermelha preparada para o almoço.
Teresa fez cara de choro. Um de seus passatempos de rica era cozinhar, e ela sabia fazer isto bem. Fizera todo o almoço sozinha. Ou fora o que dissera.
- Mas você precisa de carne – opinou Cristina - Para sabe, o bebê.
Olga a olhou com rancor.
- Não sou nenhuma estúpida. Tomo suplementos.
- Seres humanos precisam de carne – opinou Miguel, brincando agora com uma azeitona – Mãe, eu não sabia dessa, juro.
Teresa ainda tinha os olhos úmidos.
- Fiz com minhas próprias mãos – disse ela baixinho.
- Desculpe, senhora – falou Olga, mas era evidente que o estrago já tinha sido feito.
Miguel deu de ombros e colocou uma carne no prato. Comia como um viking.
- Olga está certa.
Cristina olhou para Maurício.
- Confesso que adoro carne – confessou ele, pegando a travessa perto do irmão – mas o que fazem com os animais é desumano.
- Eles são animais, Maurício – disse Cristina enquanto ele passava a travessa para ela - Não têm consciência.
- Nada dá a alguém o direito de tratá-los daquela forma.
- Os animais são nossos irmãos – disse Olga.
Cristina olhou para ela.
- Lamento, mas eles estão embaixo de mim na cadeia alimentar.
- Que bom então que você é racional e pode escolher não comê-los.
Cristina deu de ombros e pegou a travessa.
- Eles são gostosos, a culpa não é minha.
- Sim, é – continuou Olga, intocável – Se você come, compra a carne, e dá motivo aos fabricantes fazerem isso com os animais.
- Por que você defende tanto isso? É espírita?
- Não, budista.
Cristina ficou sem ação. Como assim, budismo no Brasil? Como alguém podia? Era uma religião bizarra.
- Budismo? A religião daquele carinha indiano?
- Sim.
- Ele não saiu do lado direito de sua mãe ou algo assim?
- Exatamente, mas...
- Me desculpa, Olga, mas eu não consigo levar a sério uma religião que seu fundador saiu andando da mamãe dele.
O lábio superior de Olga crispou. Cristina tinha atingido um ponto sensível. Mas, surpreendentemente, ela não se irritou. Pelo menos não visivelmente. A única coisa que fez foi:
- É, Cristina.
Era a primeira vez que Olga dizia o nome dela. Então, ela sorriu e pegou a salada.
Cristina teve uma breve vontade de estapear aquela carinha oriental. Como alguém podia ser tão controlado?
Foi ali que Cristina começou a detestar Olga Rachmaninoff.
- Bem – começou Bárbara com uma careta – isso não foi legal.
Cristina, que andara pensando em Miguel, se sobressaltou.
- Quem, Olga?
- Não, não. Estou falando da idiota da Tânia. Ela está sentada de pernas abertas e dá para ver daqui toda a calcinha de vovó dela. Urgh, que nojo. Principalmente porque ela não faz depilação – então, depois de uma pequena pausa - Que tal trancarmos ela de novo no armário hoje, hein? Já faz tempo.
Cristina assentiu distraidamente e olhou para Tânia Vasconcelos. A nerdzinha virgem da turma era uma moreninha de óculos que não sabia arrumar os cabelos e, ainda por cima, roía as unhas. Naquele momento, olhava sonhadoramente para o quadro como uma autista, esperando, assim como o resto da turma, o professor substituto de História. O titular, um idiota tarado chamado Otávio, se acidentara na terça anterior. O troço parecia grave, já que ele estava na UTI.
- Mas também não acho que essa tal de Olga foi tão legal – prosseguiu Bárbara.
Cristina olhou para ela. Bárbara Nascimento era sua melhor amiga naquela merda de colégio, provavelmente sua melhor amiga no geral. E pensar que, se ela tivesse sido um pouco menos rápida, teria perdido Maurício para aquela bela negra de corpo tão bem formado que Cristina às vezes queria matá-la por aquilo.
De qualquer forma, ela vencera. Maurício a escolhera ao invés de Bárbara, e saber daquilo já era suficiente para ter a autoconfiança restabelecida.
- Continue – pediu.
- Bem, se foi tudo aquilo mesmo que você contou, eu...
Cristina franziu brevemente a testa e assentiu. Sim, fora bem aquilo que ela contara. Até contara sobre sua sogra esnobe.
Só omitira a parte que achara seu cunhado muito gostoso
-... acho que os santos de vocês não bateram, mesmo – opinou Bárbara, olhando suas unhas – Digo, ela nem foi tão babaca.
Cristina sacudiu a cabeça e descartou a opinião. Na sua visão, Olga a ofendera desde o momento que fora mencionada pela primeira vez.
- Talvez ela só tenha ficado com inveja porque eu sou deslumbrantemente bonita – opinou levianamente, sem pensar que talvez fosse verdade mesmo.
Bárbara riu.
- Não mais do que eu – observou sem modéstia alguma.
Cristina sorriu para não bater nela. Porque era fato. Bárbara era mesmo a mais bonita e, para compensar, a menos inteligente das duas. Suas notas eram um desastre.
Foi mais ou menos nesse instante que a turma, quase como uma entidade unida, decidiu que 25 minutos já era tempo demais para esperar sentadinha na sala e resolveu sair. Em dois minutos, apenas Tânia permanecera na sala, ainda com a mesma expressão sonhadora. Grande parte da turma descera pelas escadas em direção ao pátio, ou talvez para os lindos e famosos jardins cheios de flores vermelhas. Cristina, Bárbara e alguns gatos pingados ficaram pelos corredores mesmo. Mas apenas Cristina calhou de estar olhando na direção da porta quando viu o homem se aproximando à distância.
- Olha – disse ela, cutucando Bárbara, começando a sentir um peculiar nervoso na boca do estômago – Sem uniforme e indo para a nossa sala, deve ser o professor. Vamos, estou cansada de fazer nada.
Bárbara a olhou com estranheza.
- Você, querendo ir para a aula? Quem é você e o que fez com Cristina?
- Ah, vá se ferrar.
- Certo, só vou beber um pouco d'água.
Cristina assentiu e foi andando em direção à sala. Chegou bem a tempo de impedir que a porta de madeira batesse na cara dela, empurrando-a para entrar. Ouvindo o rangido, o homem se virou para olhar quem tinha entrado.
E Cristina parou de pensar no momento que os olhos dele encontraram os seus. Era como se tivesse sido enfeitiçada.
Simplesmente porque era o homem mais bonito que ela já vira.
E também porque era ruivo. Cristina não se lembrava de jamais ter visto um ruivo na vida, não naquele país. Só em filmes estrangeiros mesmo.
O homem desviou o olhar e, voltando lentamente ao normal, Cristina pôde avaliá-lo criticamente. Cabelo ruivo médio, tendendo para o escuro, levemente ondulado. Olhos cor de mel. Sardas poucas e espaçadas, principalmente perto das maçãs do rosto. Altura média. Peso médio. Mas Cristina podia resumir toda essa descrição física um tanto fria em uma palavra: gostoso. E ah meu Deus eu quero também seria apropriado.
Cristina ouviu a porta ranger novamente, e, então, um assobio de admiração bem baixinho. Não precisou se virar para saber que Bárbara concordava com ela. E Tânia, que fechara e cruzara as pernas naquele breve instante de sonho, também. Voltou-se para o homem bem a tempo de surpreender seu rubor nas bochechas.
- Não acredito que vocês três sejam a turma completa – disse ele, e sua voz não contrastava com a aparência física. Cristina sentiu um arrepio descer e subir de volta pelo corpo.
- Eles estão no pátio – explicou Bárbara, ainda atrás de Cristina.
- Pode ir buscá-los, por favor?
A porta rangeu novamente, e Cristina supôs que Bárbara tivesse assentido.
O homem colocou uma pasta (que ela sequer notara antes) sobre a mesa. Foi quando decidiu que não podia continuar pensando nele como o homem. Precisava de um nome.
- Qual é o seu nome? – perguntou ela aos atropelos.
Ele levantou os olhos, meio surpreso. Tânia também olhou para eles.
- Digo – prosseguiu Cristina – não posso ter aulas com alguém que sequer sei como se chama.
- Isso é verdade – reconheceu ele – Meu nome é James. James Colbert.
Cristina umedeceu os lábios, pensando que agora o cabelo ruivo fazia sentido.
- Família inglesa? – arriscou.
James negou com a cabeça.
- Francesa – corrigiu – Já ouviu falar de Jean-Baptiste Colbert?
- O economista do mercantilismo francês! – esgoelou-se Tânia, salvando Cristina de ter que admitir que não fazia a mais vaga ideia de quem era o tal sujeitinho.
James olhou para ela e deu um pequeno sorriso. Cristina sentiu uma súbita raiva escaldante e teve um impulso de ir até lá e quebrar a cabeça retardada de Tânia.
- Exatamente – concedeu ele, e depois, apontando para si próprio – Sou descendente direto.
Cristina analisou a informação por um segundo antes de decidir que não se importava muito que ele fosse tatatatataraneto de um babaca famoso.
- Então – continuou James, olhando para Tânia – Acho que você saberia onde a turma está na matéria.
- Terminamos a Primeira Guerra Mundial – respondeu a quatro-olhos enquanto Cristina ia se sentar em sua carteira, ao mesmo tempo em que a turma ia voltando ruidosamente para a sala. Quando o último chegou, ela já observara James o suficiente para saber que queria mesmo o homem. De verdade.
E o que ela queria, ela pegava.
Cristina jamais considerou o fato que, rigidamente falando, Olga nunca fizera nada de errado. Nunca. No primeiro encontro das duas e nos que se seguiram, sempre no ambiente controlado de sua sogra, naquela cobertura imensa que dava para se perder, ela só fora educada e defensiva daquela maneira irritante. Ela, aliás, não segurara a gravidez; outubro estava terminando e ela perdera o bebê depois de uma alegada queda. Por algum motivo, Olga Rachmaninoff e queda não combinavam para Cristina. E também tinha o timing interessante: ela perdera justo no momento em que a gravidez tinha que se mostrar mais aparente. Por esses fatores, Cristina começou a se perguntar se algum dia ela estivera realmente grávida.
Cristina também nunca se perguntou se Olga quisera, de fato, entrar em confronto com ela algum dia. Se tivera algo contra ela. Só assumira que sim depois de sua recusa em ficar irritada com ela. E um convite para entrar em confronto era irresistível para ela. Cristina gostava de briga. Gostava de confusão. E não se importava que aquela implicância fora um tanto gratuita e sem motivo. Não fora com a cara daquela japinha, e isto era o que importava.
Conclusão: Cristina Medeiros precisava destruir Olga Rachmaninoff. E, qualquer que fosse seu plano para isso, precisava de um aliado.
Maurício foi obviamente descartado desde o início. Tinha princípios morais demais. Mesmo assim, ele teve sua utilidade quando reclamara com ela com os altos ruídos que podiam ser ouvidos quando seu irmão estava no quarto com sua namorada. Justamente no dia em que a empregada tinha folga. E a mãe ia fazer seus tratamentos costumeiros. Para completar, ele confidenciou à Cristina que Miguel aproveitava a ausência de Teresa para usar ilegalmente a cama imensa dela para rolar com sua namorada. Hum. Quando o gato sai...
Pouco depois, ela teve a ideia. Arriscada, era verdade, mas, se desse certo, Olga ia querer cavar um buraco para enfiar a cabeça de tanta vergonha. Assim pensando, ela deu um jeito de arranjar de fazer as cópias da chave do apartamento. Foi nessa época também que ela arranjou sua cópia de A Arte da Guerra, de Sun Tzu.
Agora ela necessitava arranjar um aliado.
Só precisou olhar para o lado.
- Bárbara – começou ela.
Bárbara levantou os olhos de seu MP4, onde andara vendo fotos de seu cachorro Scary, um rottweiler que era mesmo muito assustador. Cristina achava cachorros burros, mas os preferia a gatos, aquelas coisas traiçoeiras. Sua mãe tinha uma gata, Milla, que, além de miar como uma desgraçada no cio, ainda miava como uma desgraçada quando Cristina trazia garotos para casa, querendo ferrar com seus esquemas cuidadosamente planejados. Desgraçada.
- Eu.
- Você me ajudaria num troço?
Bárbara deixou o MP4 pra lá.
- Depende. É ilegal?
Cristina sorriu. Eis a coisa bela de alguém ser igual a você: sempre saber como a pessoa ia reagir. Bárbara queria proteger a retaguarda, que, dizendo de passagem, era realmente bonita. Cristina também faria isso se alguém pedisse um favor o qual ela não tinha a menor noção do que era.
- Provavelmente. Mas não pode ser tão ruim.
Bárbara pensou no assunto. Estavam no pátio do colégio, no intervalo entre as aulas. Enquanto Bárbara pensava, Cristina apreciou a visão do professor James até ele sumir ao longe. Ela entrara de cabeça no objetivo de pegar aquele homem, e com tanto empenho que aquilo poderia ser facilmente configurado como assédio sexual. Mas ele resistia e sonsamente se fazia de alheio. Cristina entendia. Talvez ele pensasse que ela fosse uma menor. De qualquer forma, ainda estava no colégio.
Mas, assim que saísse, já tinha um plano para cercá-lo.
- Eu posso ser presa? – perguntou Bárbara inesperadamente, tirando Cristina de seus pensamentos.
- Acho que não.
- É contra a tal Olga Rachman sei lá das contas?
- Rachmaninoff - corrigiu Cristina, assentindo.
- Certo, então – e depois de um breve sorriso hesitante - Seus inimigos são meus inimigos.
- Feito, então. Sabia que podia contar com você, amor.
- Mas quando é mesmo? Esqueci o que você falou.
- Eu não falei – respondeu Cristina, achando graça da distração dela – Mas é na próxima terça, depois da aula. Prepare-se.
Bárbara deu um risinho e voltou sua atenção para o MP4. Cristina ficou olhando para o além e viajando.
A única coisa que ela lamentava naquilo era Miguel. Mas quem tinha mandado o cara ficar no meio do tiroteio, de qualquer forma?
Os dias se arrastaram até terça-feira, o dia combinado. Cristina passou o final de semana repassando o plano nos mínimos detalhes com Bárbara. Até fez um mapa estratégico. Quando a aula acabou, mataram um pouco o tempo esperando a hora correta antes de pegar o táxi.
Quando saltaram perto do prédio e Cristina pagou o táxi com seu suado dinheirinho economizado, ela já estava no pico do seu nervosismo. Aproximava-se a parte do plano que ela mais temia que falhasse, aquela que podia botar a perder toda a preparação. Ela temia que toda a sua cara de pau não fosse o suficiente para aquela parte. Mas, ali, deu tudo certo. Ela passou pelo segurança e pelo porteiro usando a mesma técnica: sendo educada e agindo naturalmente. Nem acreditou quando chegou ao elevador, sempre com Bárbara em seus calcanhares.
Então elas chegaram à beira da parte crítica.
Assim que as portas se abriram, Cristina olhou de um lado para o outro do corredor do sétimo andar. O que menos queria é que um vizinho fofoqueiro ferrasse com o plano. Depois, foi na ponta dos pés até a porta e encostou o ouvido nela. Silêncio. Mas, se Maurício estivesse mesmo certo, ela realmente não ouviria nada, já que a suíte ficava no fim do apartamento. Afastou-se e começou a cutucar a bolsa à procura da câmera.
- Você sabe o que tem que fazer, não?
- Sei – confirmou Bárbara, mas estava um pouquinho pálida.
- Minha vida tá na tua mão – sussurrou Cristina rispidamente - Vê o que faz. Segue o plano. Quer recapitular?
- Não precisa, eu sei.
A voz dela saiu um pouquinho melhor daquela vez. Olhando pra ela, Cristina lembrou.
- Droga, quase me esqueci das máscaras.
Essa seria sem dúvida uma falha extrema. Pegou as máscaras e as luvas e elas as colocaram. Quem as visse naquele momento acharia que eram duas criminosas. Ou que não iam fazer boa coisa.
Realmente, não iam.
Cristina passou a câmera para Bárbara.
- Pronta?
- Tô, porra!
- Lembra da posição dos quartos?
- Cristina! – exclamou Bárbara, já decididamente exasperada.
- Certo, só pra ter certeza. Minha vida tá...
-... na minha mão, sei. Vamos logo.
Cristina respirou fundo. Pegou as chaves. Enfiou a chave na porta. Girou a chave. Abriu a porta.
Talvez elas tenham ficado um segundo a mais paradas. Mas não importava. Cristina queria sentir o território. Continuou não ouvindo nada. Ela foi invadida por uma súbita apreensão. Será que eles estavam ali?
Vendo a indecisão dela, Bárbara tomou à frente e elas avançaram.
Passaram pelo quarto de Miguel. Vazio. Passaram pelo de Maurício. Também nada. Aparentemente a dica de seu namorado estava se confirmando: eles estavam no quarto de mamãe, no mesmo colchão sagrado onde os meninos tinham sido concebidos, e onde os dois estavam tentando, aparentemente, conceber outro filhote na cama king da mamãe. Seres humanos eram mesmo tão entediantes.
Quando se aproximaram da suíte, Bárbara acelerou o passo, ao mesmo tempo em que Cristina se encostava à parede para sumir de vista ao mesmo tempo em que a amiga saltava para dentro do quarto aberto com a câmera a postos.
Claro que ela podia ter feito tudo aquilo sozinha. Claro que sim. Ela e uma máscara. O problema era que Cristina, mesmo com toda a implicância, ainda não conhecia Olga direito. E se ela, quando visse a invasão insólita, conseguisse superar os segundos desconcertantes e desse uns golpes de kung fu bem típicos dos japoneses? Não era improvável. Se tal coisa acontecesse, Bárbara era quem ia se ferrar, e Cristina ia fugir correndo. Tudo sem ser identificada. Nem mesmo pelo cabelo que por acaso fosse entrevisto.
Era por isso que Bárbara estava ali, para levar um golpe de kung fu que por ventura viesse. Sorte que ela não era de pensar profundamente sobre nada.
Cristina gostava muito dela, mas não ia fazer o trabalho sujo. Nem aguentar suas consequências.
Mas voltando dos devaneios.
Bárbara tirou a foto. O flash disparou. Cristina ouvia a voz atordoada de Miguel perguntando que merda estava acontecendo. Foi então que Bárbara saiu correndo.
Antes que tivesse tempo para sair correndo também, finalmente aconteceu. Cristina estava quase no fim do corredor quando ouviu.
Olga Rachmaninoff perdeu a paciência. E foi de uma maneira bem histérica – e satisfatória.
- Cristina, sua desgraçada! Eu sei que você está aí!
Mesmo já no fim do corredor, ela ouviu bem a madeira rangendo quando alguém se levantou, finalmente saindo do estado de atordoamento com o qual ela tanto contava, e correu ainda mais, quase batendo com Bárbara no corredor antes das duas entrarem desembaladas no elevador. Sorte ele ainda estar no andar.
Ah, como ela adorava atingir aquele ponto de fissura das pessoas.
- Cristina.
Ela se virou para Bárbara. As duas estavam sem fôlego.
- Sabia que seu cunhado é muito bem dotado?
Cristina ficou sem resposta por alguns segundos.
- Não sei o porquê de eu já saber disso – comentou ela finalmente –, já que ele é diferente em tudo do irmão dele.
As duas se entreolharam e começaram a rir.
Até o fim do ano, Cristina só viu Olga mais uma vez, no aniversário dos gêmeos, em novembro. Aquela festa, ostentosa como mandava o manual da classe dominante brasileira, foi um ótimo, evento, aliás. Olga tentando disfarçar, mas putíssima da vida com Cristina, que percebera ter quebrado a casca da rival, enquanto os dois garotos estavam meio irritados, talvez por mais uma ocasião em que se lembravam, de novo, que partilhavam algo, e a sogra, claro, se lamentando por alguma tristeza de sua lamentável vida de rica. E o sogro. Era a primeira vez que Cristina o via.
De longe, claro, porque ele saiu rápido para resolver algum assunto e não voltou mais. Ricos workaholics. Haviam outros convidados, a maioria de Miguel, pelo nível de falta de educação, ou de amiguinhas da dona da casa, pelo esnobismo, mas Cristina não se importava com mais ninguém.
Então, como ela realmente não ligava, e como Maurício tinha sumido, resolveu ir para a varanda pensar em algumas coisas. O que fazer com a santa foto, por exemplo, que já sumira de sua câmera para ter uma cópia no computador (oculta, claro) e outra escondidinha no seu MP4. Uma vez lá, seus pensamentos fluíram rapidamente para outras direções, como seu gostosíssimo professor de história, no qual ela ainda investia quase violentamente (de preferência, longe dos outros alunos, principalmente de Maurício), e no seu cunhado que exalava sexualidade.
- Eu ainda queria saber porque você tirou aquela foto.
Cristina quase morreu de susto.
- Oi, Miguel.
Os gêmeos faziam 18 anos naquele dia, e Miguel já tinha um copo de uísque na mão.
- Você não tem vergonha?
- Não, e você está fugindo do assunto.
- Mas sua mãe está bem ali, e você bebendo.
- Está muito ocupada desabafando alguma coisa com as amigas dela, e você continua fugindo do assunto.
- Eu não sei do que você está falando.
- Não? E se eu vasculhasse seu computador? Digo, acho que você não é burra o suficiente para manter aquilo na câmera.
- Você não saberia minha senha.
- Eu sou meio hacker.
Cristina achou que ele soava pretensioso demais. Mesmo assim, não quis arriscar.
- Não ia achar nada – mentiu.
Miguel ficou meio desconcertado. Aquilo acontecia muito com as pessoas em torno dela. Ela era uma excelente mentirosa, muito convincente. Além de muito bonita. Pouco modesta, também.
- Eu acho que tem – opinou ele, se apoiando nas grades, e foi naquela hora que Cristina viu muito distintamente uma cicatriz que ele tinha na testa, perto do couro cabeludo. Parecia ter sido um machucado feio.
- Acha que eu estou mentindo?
- Pra falar a verdade.
- Eu não teria que mentir bem demais?
Miguel riu.
- Sua cínica. Agora diz – continuou ele antes que Cristina pudesse reagir – você gostou?
- Gostei de quê?
- Da minha foto. Você entendeu. Aposto que você viu melhor.
Cristina se segurou para não deixar transparecer sua admiração. Claro que ela tinha visto. Depois que Bárbara tinha falado, ela tinha que ver. E, bem, a única coisa que ela podia dizer era que Olga Rachmaninoff era uma garota de sorte. Maldita.
- Eu não tirei foto nenhuma, cacete! – mentiu ela com o maior empenho que conseguiu.
- Agora, você não mentiu bem. Dá pra ver que você está admirada. E eu tenho certeza que você estava lá.
- Sabe, é? Como você saberia? Tenho certeza que não me viu.
- Quem tirou as fotos foi outra pessoa – declarou ele com uma certeza retumbante - Mas você devia estar no corredor se divertindo. Senti seu perfume. Aliás, do outro lado da cidade dá para sentir seu perfume.
Cristina ficou tão indignada que não teve o que responder. Nisso, deu espaço para Miguel continuar seu ataque.
- Isso agora é um palpite, mas – começou ele, se aproximando – também tinha muito condicionador misturado naquele cheiro, acho. Então você deve – levou a mão até a nuca de Cristina e a acariciou – ter colocado o perfume bem... aqui.
Cristina tremeu toda. Quem dizia que a nuca era uma zona erógena nula ou estava muito errado ou era um frígido.
Era naquelas horas que Cristina não sabia se era poligâmica ou só puta mesmo. Porque parecia maldade, tantos homens gostosos no mundo e ela condenada a ficar com um só que, francamente, nem era o melhor dos que ela tinha em perspectiva. Aquele professor James, Deus do céu. Cristina não acreditava que a Segunda Guerra Mundial pudesse ser sexy, mas era enquanto ele estava falando. E Miguel. Jesus, Maria e José. A cada centímetro que se aproximava dele, Cristina se sentia mais e mais tentada a beijá-lo. Porque, ah, porque agora ela tinha certeza que ele queria também. E se Cristina tomasse a iniciativa, ou se só esperasse mais um pouco, ia acontecer.
Faltavam só uns cinco ou sete centímetros quando ela hesitou. Mas ela já tinha um dos pássaros na mão. Não ia soltá-lo, nem pensar.
- Pra sua informação – disse ela, se desvencilhando dele e indo na direção da porta de vidro da varanda – eu nunca coloco perfume na nuca. Só atrás das orelhas. E eu não tirei essa maldita foto de você sem roupa.
E saiu, tentando manter uma cara normal de quem estava tendo uma conversa sem segundas intenções com o cunhado.
O mundo parecia glorioso naquela virada 2009/2010.
Não só porque Cristina estava numa maravilhosa cobertura de Ipanema, uma das muitas propriedades do sogrão. Também porque as coisas estavam se acertando na vida dela em todos os aspectos. Ela passara no vestibular, e a mãe deixara de encher tanto o saco. Maurício passara no vestibular da mesma universidade, mas estudaria do outro lado da cidade, o que era muito importante se Cristina fosse fazer algo errado na dela (e ela planejava fazer). Maurício também melhorara um pouco na cama pela prática, o que levou Cristina a pensar se o problema dele era simplesmente o fato que ele era virgem antes dela. Ou era isso ou ele não gostava muito do traçado. Ele escolhera Letras, pelo amor de Deus.
Miguel estava há um tempo sem ficar insistindo. Estava grudado em Olga, que, aliás, estava naquela virada de ano também. Talvez tivesse percebido o lance de um pássaro na mão em relação à Olga, que talvez amasse da forma dele. Ou talvez só tivesse percebido que ficar com a cunhada era um troço muito socialmente condenado. Embora, se tivesse percebido, Cristina duvidasse que ele fosse levar aquilo em consideração.
Agora, o grande plano de Cristina para 2010 era mesmo o professor James Colbert.
Cristina se dedicara com mais afinco ao vestibular que passara justamente porque descobrira que ele era professor substituto daquela universidade. Isso acontecera pouco depois dele ser efetivado a professor efetivo no colégio depois, pode-se dizer com eufemismo, do desaparecimento do professor Otávio (Tânia ficara inconsolável). Esses eventos a estimularam a mudar de faculdade. Não naquele momento, claro. Ela já tinha se inscrito para Ciências Sociais e era ali que ela começaria. Mas sempre se poderia mudar. E ela faria isto no segundo período. Indo para História.
Lógico que seria História. Era até suportável, e ela descobrira que poderia tranquilamente fazer faculdade daquilo. Acidentalmente, o professor James acabara servindo quase como um teste vocacional. E, importante: Ciências Sociais ficava no mesmo prédio de História. Se ela perdesse algumas aulas para assistir ao professor James, bem, dane-se. Ele era a prioridade.
- Cristina.
Cristina tomou um susto e se virou. Era Olga.
- Precisamos conversar – continuou ela.
- Sobre o quê?
- O que pode ser meu assunto com você, Cristina?
Cristina não disse nada. O vento assobiava forte perto delas. Ninguém ouviria o que estavam falando.
- Pretende fazer o quê com ela?
Cristina deu de ombros, se endireitou e resolveu parar de bancar a cínica.
- Não sei – disse ela, despreocupada, olhando por cima do ombro para o mar - Depende se você se comportar.
Olga se enrijeceu de fúria.
- Se comportar? Eu nunca fiz nada para você!
- Fala baixo. O que você fez ou não fez não importa agora... só que eu tenho a foto, sabe.
- Onde está?
- Por que exatamente eu te contaria?
Olga respirou fundo, evidentemente controlando sua raiva.
- O que você quer, Cristina? Presumo que tenha algum objetivo.
Sim, pegar o seu namorado, pensou Cristina levianamente, e descartou o pensamento.
Talvez tenha sido naquela hora que Cristina começou a ficar exaltada demais. Tão exaltada que não percebeu que Olga se aproximava de um estado perigoso de fúria.
- Vaza.
Olga só olhou para ela.
Miguel saiu da cobertura pela porta da varanda para fumar do lado de fora. Novidade, ele agora fumava. Isso era tão fora de moda. Tão pouco sexy. A poucos metros das duas, ele deu um tchauzinho. Elas acenaram de volta.
- Exatamente o que você ouviu – respondeu Cristina, sorrindo – Vaza da minha vida.
- Ou então...
- Eu poderia dizer que a rainha Teresa nunca mais vai te olhar com os mesmos olhos. E você sabe que é a opinião dela que importa.
Olga não disse nada.
- Quer me tirar do caminho, Cristina?
- Explicou bem.
Olga deu uma risadinha e estalou os dedos da mão esquerda.
- Bem, tente de novo.
A próxima coisa que Cristina percebeu foi o soco.
Ela caiu batendo o queixo com força no chão. Mal havia se recuperado e Olga já estava puxando seus cabelos para virá-la de frente. Foi quando se sentou em cima dela e acertou uns bons três ou quatro tabefes na cara.
Foi nesse momento que Miguel reapareceu.
- Olga, o que você...
- Sai daqui, Miguel!
Mas a distração fora suficiente. Cristina conseguiu derrubar Olga e foi pra cima dela. Acertou um soco no olho.
Foi durante algum desses eventos que alguém dentro da cobertura percebeu a briga e espalhou a notícia. Segundos depois, uma multidão vinha para a varanda.
E Cristina e Olga se estapeando.
Então o puxão, e as duas foram separadas e levantadas. Maurício puxou Cristina e Miguel puxou Olga, as duas ainda dispostas a brigar. A blusa de Olga toda rasgada.
E Teresa chegou.
- Mas o que está acontecendo? – inquiriu ela com um tom de voz tão delicado quanto uma britadeira ligada.
- Eu não sei! – disse Miguel, que parecia meio desesperado tendo que se desviar das unhas de Cristina, que estava tentando arranhar Olga – Elas estavam conversando, depois começaram a se estapear!
Naquele instante, começaram os fogos. 2010. Algumas pessoas se distraíram.
Cristina ainda rosnava de tanto ódio e tentava arranhar Olga, que se desviava, sentindo uma mistura de raiva e humilhação ferver dentro dela ao perceber que sua vantagem fora totalmente anulada por aquela surra. Agora, pensou enquanto rangia os dentes, o que sentia não era mais uma implicância gratuita. Definitivamente, não. Agora era ódio, um ódio de verdade.
Teresa olhou primeiro para Olga. Depois para Cristina.
- Lá dentro – decidiu ela.
Teresa andava como um coronel diante das tropas quando estava aborrecida, com as mãos atrás das costas e cabeça levemente abaixada.
- Mesmo se eu quisesse – começou ela diante das duas, sentadas no sofá de couro – vocês não me contariam o que aconteceu. Mas não importa.
As duas, num acordo tácito, caladas.
- Não me importo com qualquer picuinha que vocês tenham – prosseguiu ela, parando de andar – A única coisa que me importa que vocês me envergonharam. Marcaram minha festa com um barraco digno do subúrbio.
Fez uma pausa e se virou para encarar as duas garotas caladas.
- Eu não quero nunca mais que vocês façam isso numa festa que pertence a mim – determinou ela, a voz chispando de irritação - Aliás, eu não quero nunca mais que vocês briguem na minha frente.
Agora Cristina percebera o quanto estivera enganada a respeito de Teresa Resende. Essa era uma mulher de fibra, não só uma simples perua sentimental com vários complexos.
Consequentemente, mais difícil de lidar. Cristina estremeceu só de pensar.
- Agora se abracem – ordenou Teresa, cruzando os braços.
As duas se entreolharam, e quando perceberam que não tinha jeito mesmo, se abraçaram com relutância. Quando acabaram, Cristina limpou as mãos no sofá com discrição.
- Ótimo – aprovou Teresa – Continuem assim.