- Não.... não.... e não! Não acredito, cala a boca! - Atravesso a sala indignada e com o coração acelerado. - Que brincadeira de mau gosto! Sarah, entrega o celular ao seu irmão agora! - Ordeno, sem me importar com o tom de voz que saiu.
A linha fica muda, penso que a brincadeira acabou e que logo estarei falando com meu amigo. Ele sempre foi brincalhão, adora pregar peças e afins, mas essa de agora foi o cúmulo do absurdo. Pedir à irmã para dizer que sofreu um acidente e não está mais entre nós, nem consigo expressar minha raiva por isso. Certamente, matarei ele quando chegar em casa.
- Mica? - A voz que ouço não é a que espero. - Mica, está aí? - É a mãe dele, isso me deixa em desespero e preciso parar para entender o que está acontecendo. - Olha, vem aqui em casa, podemos conversar melhor. Infelizmente, o que Sarah disse é verdade, sinto muito te contar pelo telefone, foi de repente. - Eles não se davam bem, ela não brincaria assim.
Meu mundo se parte no mesmo instante, decretando o início de minha mais profunda dor. Perdi meu amigo, meu irmão, a pessoa que me acolheu quando decidi sair de casa e viver independente.
O celular cai da minha mão, batendo com força no chão e ocultando o baque que meu corpo faz ao cair também. A princípio fico encarando o sofá que está em minha frente, sem saber ao certo o que estou sentindo. Foi tão de repente, ontem estávamos jantando no meu restaurante favorito e hoje, não sei como, ele se foi. Não quero saber, não quero investigar, só quero que seja mentira. Uma pegadinha que se faz no dia da mentira, mesmo que ainda não estejamos em abril.
- Por que me tirar ele? - Indago enquanto me sento normalmente, agarrando os joelhos e escondendo a cabeça. - Ele é a melhor pessoa que conheci. - Resmungo ainda incrédula. - Não é real! - Encosto na parede, levando a mão ao rosto e esperando acordar desse pesadelo que começou.
(...)
Desde que recebi a notícia que mudou minha vida, tudo foi por água abaixo. Precisei esconder minha dor e tentar trabalhar, não consegui, cometi diversos erros e fui demitida. Pensei que todos gostassem de mim, mas na primeira oportunidade, fui chutada para fora. Isso tudo em um dia.
Recebi a notícia ontem de madrugada, não consegui dormir mais, porém precisei levantar e ir trabalhar. Parecia um zumbi, mas tentei ser útil.
Hoje pela manhã, mais um estado de dormência não pode ser admitido, deixei cair sem querer uma bandeja de café que levava pro escritório do meu chefe. Nada demais, pensei. O problema foi que caiu sobre a mesa cheia de documentos. Ele gritou, eu chorei, a assistente arrogante dele me chutou pra fora. Sai de lá, direto para cá, um péssimo dia.
Nunca lidei muito bem com as perdas, desde que perdi meus avós, essa parte de mim trava e não me sinto mais eu. Causa uma perturbação em minha vida, demoro a me recompor após essas partidas, pois sinto que uma parte de mim morreu também, não é fácil esquecer e seguir em frente quando isso acontece.
Desde que conheci Mickael, foi tipo amor à primeira vista, mas de amigos. Em pouco tempo, aquele esbarrão se tornou o início de uma linda amizade. Ele cuidava de mim e eu dele, sempre priorizando um ao outro.
Quando sai de casa, buscando minha independência, foi com ele que passei a dividir um pequeno apartamento e semana que vem faríamos dois anos morando juntos. Nunca teve algo a mais em nossa relação, um sentimento de forma romântica, foi um encontro de almas destinadas a serem irmãos, eu amava isso.
Agora, o apartamento parece grande demais para uma pessoa. Como vai ser daqui pra frente? Como viverei sabendo que ele não vai chegar, animado como sempre e me perturbar até que arranque um sorriso. Só ele sabia me animar nos dias tristes e me tirar de casa, quando tudo que eu mais queria era me esconder embaixo da cama.
Encarar o mundo sem ele parece tão assustador. Mais assustador do que encarar um caixão fechado, com pessoas ao redor e sensações divergentes. Não quis saber como tudo aconteceu, talvez esse seja um erro, mas sei que saber, vai me assombrar. Prefiro a ignorância, do que perder mais noites de sono do que já sei que perderei.
Sempre lembrarei do seu sorriso enorme, sua pele escura e seus cachinhos, que eu obrigava a fazer tratamentos. Era lindo demais para cortar sempre ou não cuidar, costumava brigar quando ele cortava estilo militar. Sentirei falta de todas essas situações. Ou até de quando ele me apresentava uma ficante nova, uma a cada semana. Brigava tanto com ele por iludir as meninas e depois sair fora. Éramos incríveis juntos, o yin-yang, eu estava mais para a escuridão, uma vibe desânimo sempre e ele a luz, exalando simpatia e animação.
Por que sou assim? É um questionamento que sempre faço. Fraca demais, inocente demais, esquisita demais e azarada demais.
Olhando para as pessoas ao redor, através do óculos escuro, percebo que não conheço ninguém, somente Sarah e a mãe dele. Pessoas que, em quase dois anos, vi pouquíssimas vezes. O resto, não conheço ninguém, mesmo que não tenham mais que vinte pessoas aqui no velório.
Não consigo mais ficar aqui, sinto como se o ambiente fechado estivesse prestes a me sufocar. Parece que meu pescoço está sendo apertado por alguma força invisível que me oprime, não consigo ver, apenas sentir.
- Com licença! - Peço, passando pelas pessoas desconhecidas e quase correndo em direção a porta.
Saio, me escorando na parede e só consigo respirar fundo quando estou fora da pequena capela. Fecho os olhos, inclinando a cabeça para cima e comprimindo os lábios.
- Fraca! - Me acuso, deixando claro que não estou em sã consciência.
Dois dias atrás, minha vida parecia perfeita, tudo nos conformes. Ontem, tudo virou de cabeça para baixo e agora, não sei mais o que fazer. Quero sentar aqui, abraçar meus joelhos e chorar até que me sinta melhor. Só não seria bom, pois estou no meio da calçada, de frente para uma avenida movimentada.
- Mica, tudo bem? - Escuto a voz de Sarah, o que me faz abrir os olhos e encarar seu rosto. Ela não parece tão acabada como eu, talvez eu esteja exagerando demais.
- Não! Por que essas coisas acontecem? - Ela encolhe os ombros, como se não soubesse me responder.
- Olha, tenho certeza que tudo vai ficar bem, logo logo. Não se preocupe! - Parece convicta de suas palavras. - Mickael odiaria te ver assim. - Uma simples frase, que me desmonta por inteira.
Ela me abraça, me mantendo firme, pois minhas pernas vacilam. Queria ser mais estável, porém, desde pequena eu sou instável demais. Alguns minutos se passam, não me sinto bem, mas o choro já acabou, apenas as fungadas permanecem.
- Quer comer algo? Posso te levar para casa depois, não parece em condição de ir sozinha. - Pergunta, solícita, mas nego.
- Vou chamar um uber, não se preocupe. Pode voltar, não deve estar sendo fácil para vocês também. Prefiro ficar sozinha.
- Tem certeza? - Assinto, ela parece incerta, mas solta o ar, não querendo insistir. - Até mais, se precisar de alguma coisa, me liga. Conversar, sair ou coisa parecida, não precisa se afastar.
- Obrigada! - Tento sorrir. Ela volta para onde estava antes, me deixando sozinha e sem saber o que fazer.
Olho o relógio em meu pulso, são três horas ainda, ir embora e ficar sozinha no apartamento não seria bom. Não confio em minha cabeça, ela só vai me atrapalhar.
Começo a andar para nenhum lugar específico, só andando sem rumo e esperando que algo de bom aconteça. Preciso me distrair, preciso arrumar algo para fazer. Respiro fundo, retirando os óculos e abrindo a bolsa, para guardar o acessório e pegar minha carteira. Consigo cumprir meu objetivo, fecho o zíper e olho para frente, mas não consigo parar antes de bater de frente com alguém.
Tudo em minha mão voa, mas eu não tenho a mesma sorte, acabo caindo de bunda no chão, só para completar o dia péssimo que estou tendo. Olho para frente, vendo minhas coisas e um homem também. Ele acabou se desequilibrando, deixando os papéis em sua mão cair também.
- Você está bem? - Pergunta quando me olha, antes de se preocupar com as coisas. Meu rosto inchado, olhos vermelhos e lábios secos, devem demonstrar a resposta para a pergunta.
- Desculpa! - Volto a mim, recolhendo minhas coisas, enquanto começo a engatinhar pelo chão. Fico de pé, guardo tudo, apressando meus passos e fingindo que o minuto anterior não aconteceu. - Você precisa ter atenção, Solar. Vai acabar se machucando! - Me repreendo. - Não seria algo ruim, afinal. - Paro de andar. Tentando entender o que acabei de falar. Eu não estou bem.
Levanto o olhar, lendo o nome da loja que parei em frente. Uma cafeteria, acho que um café seria bom agora.
- Solar? - Faço careta quando escuto esse nome. Quase bufo, mas me controlo.
Eu odeio esse nome, e evito sempre que posso seu uso. Se eu me chamasse Sol, seria bom, ou até um nome normal. Minha mãe, como uma boa astrônoma, achou incrível por nomes diferentes nas filhas, meu pai, também astrônomo, embarcou nessa ideia louca.
Me chamo Solar, como o sistema solar, minha mãe diz que quando eu nasci, olhou em meus olhos e lembrou de toda a imensidão do universo, os planetas, estrelas e afins. E assim como o sistema solar é incrível, eu também seria. Minha irmã mais velha teve sorte, primeira filha, os pais não estavam tão loucos, como quando a segunda filha nasceu, colocaram seu nome de Estelar. Eu acho bonito, é mais normal. Tem até uma super heroína com esse nome.
Finjo que não ouvi meu nome ser chamado e caminho em direção ao café. A voz, que insiste em me contatar, é a mesma que perguntou se eu estava bem minutos atrás. Não estou afim de conversar, mas... Como ele sabe meu nome?
Me viro, só para notar que o homem esquisito segura um documento meu em mãos. Minha carteira de habilitação. Deve ter caído quando nos esbarramos.
- Ah, isso é meu. - Avanço para pegar, mas ele, que é maior que eu, levanta a mão e deixa no alto. Minha testa se franze, sem entender o motivo disso. - Pode me entregar?
- Posso fazer uma troca. - E abre um sorriso de lado irritante.
Estou triste demais para ficar irritada, mas esse homem está conseguindo causar o efeito em mim. Suas roupas são coloridas, bem estampadas. Seu cabelo é até o ombro, tem uma faixa preta em sua cabeça, e um brinco de pena. Ele é hippie? Sua blusa está fechada somente nos quatro primeiros botões de baixo para cima, deixando seu peito definido a mostra.
- Por favor. - Tento apelar pra compaixão, não adianta. Ele ainda mantém o braço alto.
- Estou recolhendo alguns nomes, pessoas interessadas em concorrer a um sorteio.
- Não estou afim. Pode me devolver, por favor? - Não deixo que prossiga, ele não se abala. Me ignorando.
- Já preenchi seus dados, preciso somente de um número de celular, endereço e-mail.
- Você o quê? Eu não quero! - Agora, como se já não estivesse no fundo do poço, começo a pular na rua igual uma doida, para pegar meu documento.
- Se eu não levar isso preenchido para minha avó, serei um homem morto. - Sua fala me faz parar, dando um passo para trás e engolindo seco. Ele fecha o semblante também, como se soubesse que me atingiu. - Olha, é uma viagem com tudo pago. Estamos inaugurando um hotel fazenda, precisamos de clientes e esse sorteio, vai selecionar algumas pessoas com tudo pago, vão ter apenas de divulgar para amigos e familiares.
- Não quero! - Me irrito, falando alto até demais. - Quer saber? Não preciso mais desse documento mesmo. - Dou as costas a ele, mas não vou longe, já que ele segura em meu braço.
Penso em me virar já para brigar, dar um tapa ou coisa parecida, mas ele segura em minha mão, somente para abrir e colocar minha habilitação.
- Desculpa! Tenha uma boa tarde. - Agora quem me dá as costas é ele, me deixando completamente mal pelo jeito que o tratei.
- Meu número é... - Falo, o que faz com que pare e se vire. - Estou passando por uma semana ruim, me desculpe, não deveria tratar ninguém mal. - Me desculpo. Ele hesita quando começo a completar meu cadastro, mas logo começa a escrever, anotando o que falo. - Boa sorte com o hotel. - Abro um sorriso fraco. Ele me olha, abre um sorriso, mas logo volta a encarar a folha para escrever, aproveito a deixa para entrar no táxi que para ao lado da calçada.
Encosto no banco, o motorista volta a dirigir e sai de onde estava prestes a estacionar. Digo meu endereço a ele, fechando os olhos e esperando que me leve para o mar de lembranças que terei assim que entrar em casa. Que eu sobreviva a isso, e não me afogue, pois sinto que estou apenas no início de um longo sofrimento.
_____
Bem vindos a mais uma história. Espero que gostem e apreciem os capítulos. <3
°° Um mês depois °°
Pensei que o tempo me ajudaria, mas a cada dia que passa, tudo fica pior. Saber que Mickael não está mais aqui, me deixa tão esquisita. Que para acordar, precisarei de despertador e não será mais ele me balançando ou até derrubando da cama, por minha dificuldade em despertar. Ou, do seu café incrível que jamais experimentei igual. Acho que me habituei mais a ele do que aos meus próprios pais.
Sempre tive tudo que poderia querer, tanto material quanto sentimental. Meus pais são incríveis, mas, ainda assim, não estavam sempre presentes, porém tentavam suprir todas as nossas necessidades. Eles vivem mais em outros mundos, estudando e se entupindo de conhecimento, do que em nosso próprio mundo. Antes, era só minha irmã e eu a maior parte das vezes, até ela conhecer meu cunhado.
Ele tem quase quinze anos a mais que ela, mas eles se dão tão bem e o cuidado dele com ela é notável. Os dois estão juntos há quase seis anos, foi algo que começou logo após ela completar dezoito. Desde que começaram, ele passou a ser o centro da atenção dela, e eu fiquei de lado. Acho que desde sempre tenho esse meu lado carente de atenção, é horrível, mas é mais forte do que eu.
Conheci meu amigo em um dia de correria, com minha típica lerdeza do dia a dia. Eu estava saindo de um corredor da biblioteca e ele de outro, o resultado foi um encontrão que fez todos os livros caírem. Ele se desculpou, me ajudou e desde então, a amizade começou. Um café para recompensar pelo tombo, interesses em comum e assim começou a melhor amizade que tive em toda a vida, a única sincera e verdadeira.
Poucos meses depois, após eu completar a maioridade, fomos morar juntos e tem sido isso há dois anos. Bom, até um mês atrás, quando ele se foi.
Estou sentada frente ao computador, com os olhos cheios de lágrimas e o nariz em uma situação deplorável. Eu tentei, juro que tentei, mas não consegui. Me isolei do mundo nesse meio tempo, sofrendo e tentando me adaptar. Fui fraca demais, confesso, pelo menos tenho consciência disso.
Vejo meu rosto estampado na tela, com a setinha mostrando o vídeo que gravei ainda a pouco, agora em pause. Uma bela despedida, para aqueles que amo e merecem uma explicação. Não consigo pensar claramente por esses dias, isso tem dificultado muita coisa.
Já não bastava ter perdido meu amigo, meu emprego, a vida se encarregou de me tirar o restante que ainda tinha. Acordei tarde demais para fazer a matrícula da faculdade, com minha tremenda dificuldade em acordar cedo. Não que eu tenha dormido cedo, fiquei vagando pela madrugada até o sono vir, o que tem acontecido bastante e quando dormi, o alarme não foi necessário para me acordar. Hibernei praticamente, acordei só pela tarde e já não tinha mais tempo.
Outra coisa que acabei findando foi meu breve flerte com um menino da minha cafeteria preferida. Ele é atendente lá e depois de muito tempo enrolando, tomei coragem e falei com ele. Um erro, pois agora que ele se interessou, fiz questão de pôr um ponto final. Me sinto uma pessoa horrível, mas não tenho condição alguma de ser sociável e retribuir qualquer expressão de carinho.
Meu celular toca pela milésima vez hoje, mas, apenas desligo, sem ao menos olhar. Talvez seja minha irmã, ou meus pais, o número desconhecido não me faz ter certeza.
Hoje é meu aniversário, finalmente completo vinte anos. O que era para ser uma data de alegria, só me trouxe choro. Meu amigo e eu faríamos uma viagem, já estava tudo certo. Seria como um mochilão, sairíamos sem rumo, deixando a vida nos apresentar ao que de melhor tem. Agora a vida parece tão fútil, sem sentido e prestes a ter um fim.
- Aaaah! - Jogo a cabeça para trás, fechando os olhos e levando a mão à boca, para abafar outro grito. Me sinto instável, ficar sozinha não ajuda em nada. O apartamento é pequeno, mas parece tão grande e sem alegria, as cores se foram.
Me levanto, completamente agitada e ansiosa. Ando de um lado para outro, coloco as mãos na cabeça e solto um longo suspiro. Encaro o frasco de remédio ao lado do teclado, minha cabeça começa a teorizar coisas insanas.
- Respira. Você é forte. Para de pensar besteira! - Sussurro, enfiando os dedos no cabelo e apertando.
Movimento os dedos, causando um atrito no couro cabeludo. Meu corpo todo está estranho, além do meu coração acelerado, parece que to com pulgas cobrindo cada parte da minha pele. Sinto que estou prestes a enlouquecer.
Olho ao redor, a casa parece que vai me engolir a qualquer momento. Uma sensação de medo, um pânico sem tamanho começa a tomar conta de mim. Fiz um vídeo de despedida, mas o pensamento de fazer algo contra mim me assusta, não sei se consigo fazer isso, ou melhor, sei que desistir não é a melhor opção, mas parece o mais fácil agora.
Não aguento mais a pressão sobre mim, pego meu robe sobre o sofá e corro em direção a saída, enquanto coloco e cubro meu corpo, que estava coberto apenas com uma calcinha short e um top. Abro a porta quando atravesso a sala correndo, e saio. Me sentindo mais segura, mesmo que do lado de fora.
Escoro na porta, fechando os olhos e cobrindo o rosto com a palma da mão. Deixo meu corpo escorregar até ficar sentada, abraço minha perna, mas não consigo parar com o tremor. Estou em meio a uma crise, às vezes passa rápido, outras demora mais que o normal.
- Solar? - Para completar meu dia maravilhoso.
Era só o que me faltava. Choramingo, ainda com a cabeça inclinada. Escuto os passos se aproximando, mas não me mexo. Quem sabe se eu ficar bem quietinha, ele desiste e vai embora. Ou melhor, fico invisível.
- Você está bem? - Não ajudou em nada, deixei até de respirar e não surtiu efeito. Agora, não sei se me concentro em não surtar ou no homem ao lado.
- Quem te deixou entrar? - Minha pergunta sai como um resmungo.
- O porteiro bonzinho, muito divertido, aliás. - Sua animação me faz choramingar novamente. Não estou com ânimo para socializar.
- O que quer?
- Boa tarde, moço bonito. Você está bem? Eu estou na medida do possível, e você? Está um belo dia para sair e aproveitar a vida, não? - Não responde o que perguntei, apenas faz uma menção do que eu deveria falar. - Comemorar, se divertir.
- O que quer? - Repito a pergunta.
- Te parabenizar. Eeeeh! Você ganhou o sorteio, uma das que ganhou, na verdade. - Levanto o olhar, finalmente, encarando o homem.
Hoje sua roupa não está colorida, mas mantém o mesmo padrão de um mês atrás. Uma estampa neutra, com preto e marrom, já a faixa que carrega na cabeça, é rosa. Hoje o brinco não é de pena, são duas bolinhas pretas, uma em cada orelha. Desço o olhar até o pé, ele está de chinelo, isso não é tão estranho, o fato de estar usando meias também, que é. Acabo soltando uma risada espontânea, ele não liga muito para aparência, pelo jeito. E ainda assim, consegue ficar bonito. Infelizmente, ou felizmente, me sinto distraída e o surto anterior parece que sequer existiu.
- O que foi? - Pergunta, franzindo a testa. - Está caçoando do meu estilo? Isso é feio. - Chama minha atenção, mas em tom de brincadeira.
- Desculpa. - Me retrato, levemente constrangida. - O que é isso em sua mão? - Pergunto, querendo mudar de assunto. Tem uma caixa pequena, ocupando as duas mãos do homem. Não consigo ver o que tem em cima, mas parecem papéis.
Ele não me responde, apenas estende a mão para mim. A princípio, arqueio a sobrancelha, mas logo seguro e aceito sua ajuda para levantar. Com certeza estou horrível, o coque preso está mal feito e o rosto inchado pelo choro, com o interior uma bagunça, mas por algum motivo, agora, me sinto bem. Ter alguém para conversar parece bom, ser lembrada quando todos parecem ter esquecido também.
- Feliz aniversário! - Estica a mão, me entregando a caixa, após pegar os papéis em cima.
- Como você... Ah, entendi. - Penso em questionar, mas lembro do nosso primeiro encontro e dele ficar com meu documento por uns minutos. Me distraio abrindo assim que pego, com tanto cuidado que parece ter uma pedra preciosa rara aqui dentro. - Um bolo, que fofo! - Resmungo encantada. Levanto o olhar para ele, que deve estar brilhando de emoção. - É lindo. Obrigada! - Com um braço seguro o bolo, com o outro, rodeio a cintura do homem em um abraço, recostando a cabeça em seu peito. Se ele soubesse o meu nível de carência, não cometeria esse ato extremamente fofo.
- Não tem de quê. Precisava me desculpar pela inconveniência do outro dia. - Responde, retribuindo meu abraço, me sinto tão acolhida e protegida. É surreal a segurança que um desconhecido está me dando. Acho que cheguei ao nível máximo de fundo do poço.
- Está mais do que desculpado. - Abro um sorriso, me afastando e voltando a olhar meu bolo. É pequeno, acho que umas dez fatias, e sua decoração é tão minimalista, pelo menos o que vejo em cima. É azul, com borboletas no topo. - Quer entrar? Podemos dividir. - Convido, voltando a olhar para ele e não entendendo bem sua expressão quando foca em mim. - E posso assinar os papéis do sorteio que eu não queria participar. - Completo minha fala, totalmente entretida com o presente.
- Tem certeza?
- Olha, do jeito que as coisas estão para mim. Não me surpreenderia se fosse algum tipo de psicopata.
- Não sou. - Se defende.
- É o que um psicopata falaria. - Retruco, ele ri. Isso me faz esquecer totalmente do assunto.
- Por que todas as vezes que te vejo, parece que chorou até se desidratar? - Sua pergunta, um tanto direta, me faz fazer careta. Ele entra, faço o mesmo, fechando a porta atrás de mim.
- Perdi uma pessoa muito importante para mim. - Não entro em detalhes. - Isso me deixou péssima. - Dou de ombros. - Pode sentar. Não repara na bagunça. - Digo, sem nem me importar com as caixas espalhadas pelo lugar. Sarah mandou para empacotar as coisas de Mickael, não consegui.
Coloco a caixa sobre a mesa de centro, me sentando no chão só para tirar o bolo e poder apreciar os detalhes. Coloco sobre a mesa, ficando encantada com o que vejo. Ele tem a base branca, e por cima tem os detalhes azul, tipo uma camada que vai até o meio, fazendo uma transição degradê. O topo tem umas bolinhas brancas espalhadas, além de várias borboletas azuis e roxas, como se tivessem pousado e outras voando.
- Esse é o bolo mais lindo que já vi! - Comento, olhando para cima, pois o homem ainda não se sentou. Apenas me encara, analisando minha expressão. Um simples gesto, de alguém que ao menos conheço, mas que causou uma súbita mudança em meu humor.
- Sério? - Pergunta, se sentando ao meu lado. - Tinha roxo também, não sabia qual trazer.
- Esse é perfeito! - Olho para ele, que agora está com o rosto bem próximo ao meu. Nossos olhos se encontram, acabo fechando o sorriso, engolindo seco e sentindo uma sensação esquisita. Perto demais.
Coço a garganta, me levantando apressada e afastando meu corpo do dele. Ele fica sem entender, me olhando como se tivesse um grande ponto de interrogação sobre nós.
- Sinta-se à vontade. Eu vou... Hm.. tomar um banho. Já volto! - E saio correndo da sala. Entrando em meu quarto e trancando a porta.
Como se tudo já não estivesse na pior, meu notório estado de carência quase me fez beijar o homem. Ele me olhou, eu olhei para ele e um certo nervoso se apoderou, as borboletas que estavam no bolo, parecia até que estava dentro de mim.
- Merda! - Eu nem precisava tomar banho. Não estou bem. Isso é nítido.
Antes de ter a brilhante idéia de fazer um vídeo de despedida, tomei um banho e até tentei ficar apresentável. Só que ao decorrer do dia, o choro acabou me deixando com a expressão da derrota. Agora, pro homem não pensar besteira, que eu fiquei excitada, por exemplo, vou ter de tomar banho, pelo menos pro cheiro de sabonete ficar e provar que tomei banho. E não apenas uma desculpa para fugir.
Se ele for um bandido, corro o risco de sair daqui e não ter nada no apartamento. Do jeito que estou abalada, seria até uma ajuda, ele levaria as coisas que não consigo me desfazer. Ou, se ele for um doido e eu a vítima, faria até algo que não tenho coragem de fazer. Mas, no momento, aquele pequeno bolo me deu um ânimo que mal sei explicar. Em um mês, só isso conseguiu me trazer um sorriso verdadeiro ao rosto.
Tomo um banho rápido, coloco uma roupa apresentável, uma calça moletom e uma blusa de alça. Só quando me olhei no espelho, percebi que estava praticamente nua. Ai eu entendi o olhar dele em mim assim que fiquei observando o bolo, deveria estar pensando que sou algum tipo de safada, pois estava no corredor, somente de calcinha e top, com o robe aberto. Minha cabeça estava no sistema solar, por isso não focou nesses detalhes.
Pude refletir sobre algumas coisas no banho, sempre penso que esse é o melhor lugar para reflexões. Dá para analisar a condição atual e planejar coisas futuras, caso necessário. Me ajudou a clarear um pouco a mente e colocar em ordem.
Saio do quarto, encontrando o homem jogado no sofá mexendo no celular. Ao ouvir a porta, ele se senta e vira, me olhando e sorrindo.
- Pensei que tivesse fugido pela janela. - Comenta.
- E eu, que tinha roubado minhas coisas. - Retruco, fazendo ele rir pela minha rapidez ao responder.
- Sou totalmente inofensivo, te garanto. - Faço um som em concordância, tudo que posso fazer é confiar em sua palavra, mesmo sabendo o quão doida estou sendo.
Vou até a cozinha, pego o necessário para partir e colocar o bolo para comer. Levo para a mesa e ajeito, me sentando no sofá ao lado do homem.
- Vou ficar te devendo a bebida. - Digo, fazendo careta em seguida. - Só tenho água.
Quase não comi nesse mês que passou, estou bem mais magra que o normal, isso de ficar triste ou ficar sem comer e emagrecer é péssimo. Quando sentia fome, pedia alguma coisa em delivery ou comia cereal e biscoito.
- Tudo bem. Beber água ajuda na minha dieta. - Me tranquiliza, com um sorriso fofo. - Aqui, preciso da sua assinatura nesses papéis. São referentes ao sorteio. Pode ler, mas diz basicamente que vai ajudar na divulgação em redes sociais enquanto estiver hospedada lá.
- Preciso assinar agora? Queria ler para saber se não estou vendendo minha alma ou coisa parecida. - Minha expressão séria, faz ele rir, mas não estou brincando. - É sério, não gostaria de pertencer a outra pessoa. Pertencer a mim já é difícil, imagina sendo de outro. Pavoroso. - Faço careta.
- Certo. Você vai levar esse documento assinado quando for para o hotel, tem três meses de validade. Começa a partir de hoje. - Assinto. - E não, não estará vendendo sua alma. Ainda não nos conhecemos o suficiente para eu te propor algo assim. - Acabo rindo novamente, acho que é a terceira vez desde que ele chegou. Eu gosto.
- Obrigada! - Pego os papéis, colocando ao lado e voltando a olhar para ele. - Você é hippie? - Questiono, curiosa.
- Eu sou feliz.
- Que inveja. - Sussurro, afundando no sofá. - No momento, estou vivendo no automático. Sem vontade alguma. - Lanço o olhar para o computador, onde tem evidências da loucura que estava pensando em fazer. Ele está desligado, não lembro de ter feito isso, deve ter sido sozinho, por inatividade.
- Aqui. - A voz dele me chama atenção, olho em sua direção e vejo um papel, além de uma caneta. - Você me passa uma vibe tão depressiva. É triste. - Seguro no que me estende, sem me importar com o que disse, pois é verdade. - Você é nova demais para ser assim, tem tanto para fazer e conhecer. Anote aí dez coisas que ainda não fez, mas que quer fazer. Pode ser qualquer coisa, mas tem de ser concluída antes do seu próximo aniversário.
- Isso é ridículo. Como isso pode ajudar em algo? - Jogo as coisas no sofá, só para ficar de pé e encerrar essa palhaçada. Esse cara é totalmente louco. Minha ação é impedida, pois assim que levanto, ele segura em meu braço, me puxando para trás.
Por não esperar, acabo caindo sentada em seu colo, mas por segurar minha mão ainda, não me mexo e mesmo que estivesse solta, não faria isso. A proximidade com ele, me deixa de uma forma que jamais fiquei. E eu gosto da sensação.
Ele me solta, mas continuo imóvel. Sinto seu dedo tocar meu ombro, puxando o cabelo caído e jogando tudo para um lado. Meus pelos se arrepiam quando roça a mão em meu pescoço agora exposto, isso me faz inclinar para trás, firmando minhas costas em seu peito.
- São só dez itens, não estou te pedindo algo absurdo. - Sussurra, me desestabilizando mais ainda. - Aceite esse incentivo como um presente de aniversário. É bem interessante, se pensar por outro lado. Vão ser dez motivos para tentar tomar o controle de sua vida, em um ano. - Umedeço os lábios, sentindo eles secos, assim como a garganta. - Qual seria o primeiro item?
Definitivamente, não consigo pensar em nada, além de querer sentir as mãos dele tocando em mim. Só posso estar ficando louca. A mão dele toca em minha cintura exposta, pois a blusa acabou subindo na queda. Isso acaba me dando uma leve descarga elétrica, me fazendo pular de seu colo para o lado.
- Meu Deus! - Me expresso, exasperada e sentindo meu coração acelerar. Me arrasto no acolchoado, tomando distância do homem e só parando quando minhas costas batem no braço do sofá. - Eu não sei. - Consigo sussurrar, respondendo de forma incerta sua pergunta.
- Pense, não deve ser tão difícil. - Comenta, se ajeitando e consigo observar o volume em sua calça, mesmo que ele tente disfarçar, se mexendo desajeitadamente. Não sou só eu que estou afetada.
Fico encarando o homem, tentando pensar em como responder. Somente uma coisa fica rondando em minha mente, e quero tanto fazer. A primeira coisa que eu colocaria em minha lista, seria perder a virgindade, mas, não quero que me ache mais patética ainda. Não o conheço bem o suficiente para saber como reagiria. Na verdade, tudo que sei sobre ele é que se veste de forma estranha, pois é feliz e consegue ser fofo quando necessário.
- Eu... - Começo, mas não consigo terminar. Jamais cheguei nesse grau de proximidade com alguém, ainda mais com uma certa tensão rolando. Respiro fundo, tomando coragem. O que pode piorar? Acho que nada, já estou ferrada mesmo.
Hoje é meu aniversário de vinte anos, nunca cometi nenhuma imprudência e pela manhã, estava com pensamentos completamente errados. Acho que qualquer coisa que eu cometa hoje, pode ser perdoado e entendido. Fiz em uma fase ruim. Justificável.
- A primeira coisa que eu colocaria... - Mordo os lábios. Vai, você consegue Solar. Não deve ser tão difícil tomar iniciativa, já fez isso um vez, mesmo que tenha sido só uma conversa e não o que planeja agora. - Fazer sexo com um desconhecido. - Consigo falar, tão rápido que não sei se ele entendeu, a expressão do homem denota seu pânico. Acho que não esperava isso, ou esperava, ele me atiçou.
- Oh, isso é ... bom. - Começa a balançar a cabeça. - Digo... pra quem for o felizardo. - Ele parece sem graça, ficando mais fofo. O homem abre a boca para falar, mas seu celular começa a tocar. Ele olha, faz careta, mas desliga a chamada. Voltando a me encarar.
- Você... Rum.. - Coço a garganta. - Você é o desconhecido. - Acrescento. - Se quiser, é claro. - Comento já começando a ficar em desespero. Onde eu estava com a cabeça? Acho que nem no sistema solar, estava além disso. - Meu Deus, como eu sou patética. Me perdoa, esquece que eu disse isso. - Começo a balançar a cabeça, me sentindo completamente ridícula e querendo me esconder embaixo da cama. - Céus, que vergonha!
Me levanto novamente, prestes a correr do lugar, mas, o homem faz o mesmo que antes. Sou puxada com mais força e agora, não caio de costas para ele, mas de frente, quase deitada sobre seu corpo. Estamos tão perto, e tudo que consigo observar é sua boca, pois uma vontade enorme me faz querer beijar.
- Eu aceito. - Diz, abrindo um sorriso que me deixa derretida. - Tem certeza?
Ignoro sua pergunta, apenas para impulsionar meu rosto para frente e juntar nossos lábios. Não sei quem é essa pessoa dentro de mim hoje, mas ela é mais corajosa. A mão dele segura em minha nuca, enquanto a outra ajusta melhor meu corpo e o beijo, antes desesperado, se torna calmo.
Não conseguimos evoluir, pois o celular volta a tocar bem alto. Mesmo tentando ignorar, ele para, mas volta a tocar de novo em seguida. Nos afastamos, ele pega o celular e resmunga uma palavra feia. Consigo ler o nome na tela, Dereck.
- Tudo bem? Podemos parar, se tiver compromisso. Não precisa fazer isso.
- Jamais deixaria uma linda mulher na mão. - Volta a me olhar, abrindo um sorriso sacana. - É só do trabalho, nada importante.
Deixa o celular na mesa, e percebo que tirou o som, pois logo começa a vibrar. Quase começo a rir, já que esse Dereck está insistente. Uma mensagem chega, consigo ler o início 'Eu vou te matar se...' não consigo ler o restante, pois o homem segura em meu rosto e vira para ele.
- Quarto? - Aponto para a porta que sai antes, respondendo sua pergunta com um gesto. - Não quer saber mesmo meu nome antes disso? - Nego.
- Isso anularia o título de desconhecido. Vamos deixar assim por enquanto.
- Seu pedido é uma ordem, Sol. - Diz, segurando minha bunda com certa pressão, só para me erguer junto quando se põe de pé.
O celular continua dando sinal de vida, mas já estamos entrando no quarto, deixando qualquer barulho que atrapalhe para trás.
Tento ficar tranquila quanto ao que vai acontecer, e não ficar nervosa. Dizem que só atrapalha, mas como estou convicta do que quero e excitada demais, acho que vou conseguir que seja algo bom.
Sempre imaginei minha primeira vez cheia de fluflu, com meu amor verdadeiro, em um local perfeito e com um ar romântico nos rodeando, o típico clichê que muita garota imagina. Na realidade, me entregarei a um desconhecido, no dia do meu aniversário, no apartamento frio e sem vida, com um ar de tensão sexual nos rodeando. Às vezes, a realidade é até melhor e mais excitante do que o imaginado.
Iniciei o dia mal, muito mal e sem expectativa alguma de ficar bem, mas, no momento, me sinto como a Solar de um mês atrás, só que mais confiante e convicta do que quer. Espero manter ela por mais um tempo em mim, pois o pensamento que tinha ao iniciar o dia, está cada vez mais distante. Isso é bom, parece que eu tenho salvação, no fim das contas.
Corro pela sala, em busca dos meus documentos. Não faço ideia de onde coloquei, e preciso deles para sair em viagem. Acho que não mexo neles a mais de um mês, mal lembro a última vez que os vi. Já estou estressada por não achar, minha cabeça dói, mas também não consigo achar minha caixa de remédios, nem o de insônia que estava em frente ao computador e nem os para dor.
Ontem, foi um dia atípico para mim. E mesmo sendo fora do comum, eu gostei. Cometi um ato impulsivo, mas não me arrependo, acho que já estava na hora disso.
Minha primeira vez foi esquisita, mas acho que todas são assim. Acho que não contar ao garoto que nunca havia feito aquilo, fez com que agisse como se eu fosse experiente e tentei ao máximo fingir isso. Tinha certeza que se ele soubesse, iria parar na mesma hora.
Não vou dizer que doeu muito, a ponto de não aguentar, pois não foi de fato assim. Senti um incomodo de início, mas depois até que foi suportável, e qualquer indício da antiga eu certinha, foi embora. Acho que o homem não percebeu nada, fui bem convincente, assisti muito filme e li livros, acho que a teoria nesse caso me ajudou na prática. O único ruim disso tudo, o que me fez sentir uma pecadora, foi pegar uma das camisinhas que Mickael guardava, parecia errado demais, porém estava tão excitada no momento que só recaiu a culpa após.
Ao findar o ato, o homem se apresentou e disse que se chamava Daniel, deixando o posto de desconhecido de lado. Tomei um banho, logo após ele e enquanto não voltava, cortei o bolo para comer. Foi tão divertido, não foi uma coisa estranha, pois parecia que éramos, realmente, namorados. Comemos, rimos e ele ainda assistiu a um filme comigo. Não nos despedimos, já que acabei dormindo no meio do filme e quando acordei, havia apenas um bilhete agradecendo pela noite e dizendo que nos veríamos em breve. Isso vai acontecer hoje.
Me senti tão viva, que a Solar que acordou ontem, não parecia a mesma que estava correndo pela casa de madrugada, para arrumar as malas e fazer a lista com dez coisas para realizar. Decidi que irei nessa viagem, aproveitar essa oportunidade que a vida está me dando, mesmo que a tristeza ainda esteja aqui, tentarei ao máximo viver, pelo menos no prazo estipulado na lista que fiz.
Duas das metas já foram preenchidas, perder a virgindade e viajar, restam mais oito e sinto que vão ser mais complicadas, demandando muito mais atenção e empenho. São elas: Conhecer novas pessoas; Pular de paraquedas; Saltar de bungee jumping; Superar o medo de altura antes; Escrever um livro; Me apaixonar; Me aventurar, ser feliz, rir mais, me divertir; Recuperar a vontade de viver. Dentro todas elas, creio que a mais difícil seja a última, mas tentarei ao máximo me esforçar, para que essa lista seja o motivo de minha redenção.
- Achei! - Meu grito sai tão alto que nem eu esperava, o que acaba me assustando.
Tudo bem que eu não estava quase abrindo a geladeira, mas em que momento eu coloquei minha carteira na porta? Eu realmente estava fora de mim, pois não percebi esse equívoco. Pego a folha que imprimi e coloco na mala, junto a carteira e fecho, finalizando minha preparação.
Olho em direção a porta quando escuto a campainha tocar. Solto um longo suspiro antes de chegar até a porta, me preparando mentalmente para ser sociável. Ao abrir, fico confusa, pois não esperava mesmo a visita que estou recebendo.
- Ah, oi.. você. - Leon, meu cunhado está parado e abre um sorriso grande assim que me vê.
- Anjinha. - Mal tenho tempo de reagir, pois o homem logo me abraça com força, demorando um pouco mais que o normal para me soltar. A linguagem de amor dele utiliza muito de toques, é engraçado às vezes, pois minha irmã e ele parecem que são grudados.
- O que faz aqui? - Pergunto ao me afastar, mas pelo que tem em mão, posso ter uma noção.
- Não é óbvio? Vim te desejar feliz aniversário!
- Foi ontem. - Lembro, mas ele já está entrando.
- Eu sei, mas não pude vir, estava em uma viagem de negócios. - Faço um som em entendimento com sua explicação. - Isso é para você. - Me estende uma carta e uma caixinha pequena. - Seus pais pediram a sua irmã para te entregar no dia do seu aniversário, antes de irem pra viagem. - Seguro no que me estende, agradecendo com um sorriso.
- Ela não me ligou. - Comento, ele faz careta. - Outro mês daqueles? - Ele assente, não precisando explicar. Minha irmã entrou em uma obsessão por engravidar, e mesmo após tudo, todo mês que fica naqueles dias, é como se estivesse morrendo, pois não está grávida. - Ela precisa parar, vai acabar enlouquecendo.
- Sabe como sua irmã é, quando põe algo na cabeça, não há quem tire. - Concordo com sua fala, desde criança ela é assim e em alguns momentos, esse lado pode ser muito prejudicial. - Como você está? - Diz segurando em meu ombro, afagando enquanto sorri calorosamente.
- Sobrevivendo.
- Você gostava mesmo daquele seu amigo, uma pena o que aconteceu. - Assinto, querendo mudar logo de assunto. - Soube como aconteceu? - Faço que não. - Ah, entendo. Foi trabalhando que aconteceu? Lembro que me disse que ele era segurança noturno.
- Não faço ideia, Leon. Sim, ele era segurança, mas não quis saber como aconteceu, seria ruim demais para mim. - Ele parece entender. - Olha, obrigada por trazer isso para mim, mas eu tenho de sair. - Aponto para a mala.
- Vai viajar? - Assinto, o que faz sua expressão se tornar confusa. - Para onde vai? - Se eu não conhecesse ele, pensaria que está querendo exercer alguma autoridade sobre mim, algo que não tem, mas ele sempre foi assim, por isso apenas respondo.
- Ganhei um sorteio. - Comento enquanto me afasto para segurar na mochila enorme e na mala pequena. - Na verdade, já estava saindo. - Completo.
-Hum. - Parece incomodado. - Seus pais sabem para onde você vai?
- Como contarei para eles, se estão em uma convenção, isolados do mundo e não tiveram tempo ao menos de me mandar felicitações? - Meu questionamento faz a testa do homem franzir. Acabo engolindo seco, pela grosseria e logo me retrato. - Iria mandar uma mensagem para minha irmã falando, mesmo que ela me esqueça, ainda lembro de algumas obrigações.
O homem se aproxima, como se pudesse sentir minha mágoa com sua esposa, tocando minha bochecha e abrindo um sorriso. Desde que eles estão juntos, minha irmã virou quase um fantasma para mim, mas ele me dá atenção demais sempre que estou por perto, às vezes minha irmã reclama e se irrita por isso, mesmo sabendo que não tenho maldade alguma em relação a ele, é como um irmão mais velho.
- Anjinha, sua irmã é complicada, mas nós te amamos. Não esqueça disso, faríamos de tudo por você, entendeu? - Sua fala vem repleta de um peso que não consigo decifrar. Pelo seu olhar, percebo que anseia por minha resposta, me dando um olhar de arrepiar os pelos.
- Sim, obrigada. - Abro um sorriso. - Preciso ir, a viagem vai ser longa. - Me afasto, indo olhar se as luzes estão apagadas e tudo está fora da tomada. Quando volto a olhar para ele, não entendo sua expressão, parece irritado, minha irmã deve ter torrado a paciência dele e por isso veio aqui, tentar conversar para extravasar. - Queria ficar mais, só que preciso mesmo ir.
- Vai com alguém? - Pergunta ao caminhar até a porta.
-Ah, meu pai mandou me vigiar, não foi? - Balanço a cabeça ao entender, sempre acontece isso. Quando os dois vão viajar, fazem parecer que Estelar e Leon são meus pais, mesmo que minha irmã não seja tão mais velha que eu.
- Você ainda é uma criança. - Faço careta.
- Não sou mais aquela menininha que conheceu, Leon. Agora sou uma mulher, em todos os sentidos. Não precisa me tratar como se eu fosse um bebê. - Toda essa conversa começa a me irritar, coisa que jamais aconteceu antes.
- Solar.. - Segura em meu braço quando passo por ele, sem colocar pressão, apenas para me parar. - O mundo é perigoso, anjinha. Cuidado com os lobos disfarçados de ovelha, eles podem te atacar e te tornar a presa que sequer vai perceber a armadilha que caiu. Você é muito inocente!
- Tomarei cuidado, cunhado! - Me solto de sua mão, fazendo um gesto para que saia e eu possa fechar a porta. - E sim, eu vou estar com alguém. Não precisam se preocupar, estarei segura. - Tento fazer que pare de me atazanar, e a preocupação exagerada dissipe um pouco.
Mickael odiava ele, ambos não se suportavam, na verdade. Acho que mais pelo Mick não deixar ele se aproximar de mim quando estava junto, sinto saudades do meu amigo ciumento e de como espantava os homens com apenas um olhar raivoso. Olhar esse que agora estampa o rosto do homem diante de mim, mas assim como apareceu, desaparece. Talvez, eu esteja sonhando, não dormi direito.
- Não esqueça de avisar quando chegar. - Se aproxima, dando um beijo delicado em minha testa. - Qualquer coisa pode nos ligar. Boa viagem! - Começa a andar para ir embora. - Ah, o porteiro pediu para te entregar. - Retira uma pequena caixinha do bolso. - Deixaram na recepção, mas não disseram o nome.
- Obrigada. - Abro um sorriso, mas ele não retribui. Apenas se vira e vai embora, me deixando sozinha no corredor. - Homens. - Balanço a cabeça negativamente. Guardo as coisas que ele trouxe em minha mochila, me concentrando em ajeitar tudo para poder aproveitar o melhor que puder essa viagem. - Certo, aí vou eu. - Sussurro confiante.
Ando em direção ao elevador, preciso ir até o estacionamento, pegar o carro e colocar gasolina. Sei que as lembranças vão ser fortes ao entrar no carro que compartilhava com Mick, mas também sei que farei o máximo para ser forte. Usarei essa saudade e toda a confiança que tinha em mim para viver, tentar ser feliz e cumprir todas as metas que estipulei na lista.
Mesmo que meus pais não estejam aqui, saber que lembraram de mim mesmo longe me deixou feliz. Do jeitinho doido deles, conseguem ser perfeitos. Só não faço ideia de quem deixou a caixinha na recepção, certamente não foi Daniel, ele teria entregado. Deve ser algum admirador secreto e .... deve ter sido meu ex-crush. O pensamento me faz ficar com um peso enorme no coração. Iludi o pobre homem e agora ele deve estar sofrendo. Céus, até quando penso que estou acertando, estou cometendo erros. Torço para que ele encontre alguém o mais rápido possível, para me esquecer.
Pego o celular e olho a hora, ainda está cedo e mesmo não dormindo durante toda a madrugada, me sinto energética. Talvez as duas latas de energético que tomei tenham a ver com isso, ou é minha animação por fazer algo sozinha depois de tanto tempo. Mando o endereço para minha irmã, explicando que irei viajar, mas logo voltarei, assim como disse a Leon.
- Ok, mundo. Estou com medo, mas preciso fazer isso. - Sussurro ao chegar no estacionamento.
Sinto vontade de correr de volta ao apartamento, mas ignoro essa sensação e dou o primeiro passo para fora. Preciso embarcar nessa para recuperar o controle de minha vida, consertar minha alma quebrada e descobrir como preencher esse espaço vazio que se abriu em mim.