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Conquistadores de Marte

Conquistadores de Marte

Autor:: Eder B. Jr.
Gênero: Sci-fi
Com a inviabilidade da vida na Terra se tornando real e a constatação da impossibilidade de viver em Marte a longo prazo, com a estrutura física do corpo humano, cientistas desenvolvem um novo corpo biológico totalmente adequado a vida no planeta vermelho e uma forma de transplantar o cérebro de qualquer pessoa para esse novo corpo. O drama daqueles que não terão condição financeira para conseguirem fazer parte dessa transição, antes do fim da vida no nosso planeta, e as adaptações e consequências morais envolvendo a adoção dessa nova forma de vida, norteiam essa história, com doses de reflexões filosóficas, romances inesperados e uma pitada de alívio cômico.

Capítulo 1 Mudando de Vida

Não conseguia mais se lembrar qual tinha sido o dia que poderia ficar marcado como a data da grande mudança. Talvez naquela pandemia que fez todos ficarem em casa e usarem máscaras? Possivelmente não, pois a vida ainda não tinha mudado tanto assim. Os vulcões, maremotos, terremotos, desastres naturais ou não naturais, que começaram a varrer do mapa comunidades, cidades, povos? Nada disso isolado conseguiu transformar o mundo. Por mais que vidas fossem interrompidas e outras mudassem drasticamente, a maioria continuava vivendo dentro das regras do capitalismo.

Era impressionante o quanto o dinheiro norteia o comportamento humano, mesmo no caos. Como bilhões de pessoas conseguem aceitar um sistema onde centenas de pessoas, talvez dezenas, concentram todo o poder financeiro do mundo, mesmo com a destruição total e final se aproximando, ficando clara.

Essas mesmas pessoas poderosas demonstrando que, mesmo com todo o dinheiro que possuíam, estavam fazendo de tudo para conseguirem ir para Marte, o mais rápido possível e o resto do mundo assistindo isso e indo trabalhar por comida, no dia seguinte, do mesmo jeito, como se nada tivesse acontecendo.

Nas grandes estruturas, as metrópoles que seguram o sistema, a água ainda chegava pela torneira e ainda tinha energia elétrica. Apesar de em situação de rodízio, que começou com dia sim, dia não, de fornecimento e passou para três dias na semana. Ainda assim, a "vida" seguia.

Os cientistas que diziam que não tinha mais volta, que o dia em que tudo iria colapsar estava diante de nós, eram considerados apocalípticos e acabavam desacreditados. A própria ciência, a nível popular, havia sido esvaziada por completo. Cientistas e pesquisadores eram agora funções exclusivas em prol dos mais ricos. Conhecimento científico para a grande massa só era repassado quando necessário para adequação de tecnologias comerciais.

Havia acontecido uma revolução gradativa, onde as grandes empresas começaram a ser cada vez mais concentradas nas mãos de poucos, com monopólios cada vez mais gritantes e isso gerou uma escolha, por parte dos dominadores, a respeito do que deveria ser fornecido para as pessoas. Decidiu-se que não era necessário entregar tecnologias para todos. O imaginário de consumo daquele que era explorado deveria não precisava ir muito longe para se conquistar lucro.

Sendo assim, não houve mais nenhum tipo de evolução tecnológica produzida em massa, pelo contrário. Com os custos aumentando e as rendas diminuindo, tecnologias mais antigas passaram a ser as mais populares e isso foi o bastante para manter a nova concepção de dominação e controle.

Enquanto isso, Robert chegava em Marte.

O primeiro homem a pisar no planeta vermelho. Ele sabia que não sobreviveria, mas no final das contas, era alguém que já sabia que não sobreviveria muito mais tempo na Terra também. Nem todos tinham esse conhecimento.

Aliás, pouquíssima gente ainda tinha algum conhecimento de alguma coisa.

Talvez o momento em que o congresso dos Estados Unidos decidiu que abriria mão do poder e que no ano seguinte não haveria mais um governo, apenas o próprio mercado auto-regularia a sociedade americana, teria sido o marco que estava procurando.

Ainda assim, nada tinha mudado muito na vida da sociedade. Apesar de, na comparação dos últimos dez anos, o mundo parecer outro, ainda assim, não dava pra dizer que algo mudou tudo do dia para a noite.

Mas, agora, era difícil quem olhasse o não entendesse que o mundo ia acabar. Mas o comércio estava lá, funcionando como se alguém ainda precisasse comprar alguma quinquilharia antes da Terra explodir. O fato de não saberem como iria acabar também dava um ar de negação de que isso iria mesmo acontecer.

Jack teve sorte, se assim pudesse se dizer. Ele era um policial, funcionário do governo, que acabou sendo realocado para as forças de segurança privadas. Com a indenização que recebeu, fez uma brincadeira com um amigo. Foi desafiado, numa roda de bebida, enquanto já estava bêbado. Stewart disse que ele nunca teve coragem de nada. Que era um covarde.

- Quantas missões você me viu enfrentar de peito aberto? - Jack respondeu.

- Não é sobre isso que estou dizendo. Você fazia isso por algum trauma de infância, completamente insano, não por coragem. Estou falando sobre algo que comprometesse sua segurança. Sua vida solitária e com reserva financeira. - Stewart explicou.

- Bom, nunca fui mesmo de me envolver e nem de gastar - explicou-se

- Covardia! - o amigo continuou provocando.

- O que você quer que eu faça? Jogue dinheiro no lixo e peça a Carol em casamento? - todos riram alto. Carol claramente seria uma das poucas pessoas na mesa que jamais aceitaria tal pedido.

- Aposte todo seu dinheiro! Escolhe uma moeda B aí na sua "band" e compra com todo seu dinheiro. Qualquer uma, sem pensar. Não pode tirar ela em menos de uma semana, independente de valorizar ou desvalorizar.

Aquele pedido de Stewart era particularmente difícil. Mesmo tonto pela bebida, ainda assim ele parou para pensar. O mercado estava num momento muito complicado para apostas assim. As moedas, agora virtuais, eram muitas e todas controladas pelas principais empresas do mundo. As moedas B eram as que ainda eram ligadas à países ou à empresas que tinham algum grande vínculo tradicional e cultural com comunidades. No começo, a tática das empresas foi comprar essas moedas, mas agora, era muito mais esperar que elas deixassem de ser usadas. Ele poderia perder tudo.

Naquele momento, que mudou toda sua vida, ele pegou sua "band", que era um aparelho que foi a última evolução do smartphone. Ele era multifuncional, mas a maior parte das coisas que fazia eram holográficas.

- Ele "sacou a arma", Stew! - gritou Pink, a mais nova do grupo de seguranças.

- Band, selecionar todo meu capital disponível em conta - ele falou e todos fizeram absoluto silêncio.

- Necessário reconhecimento ótico - respondeu o aparelho.

Ele pegou a pequena caixa retangular e aproximou do olho. Ela fez uma análise com uma luz e respondeu que o valor estava selecionado.

- Aplicar o valor em uma moeda B com resgate para daqui sete dias, programado. - ele deu o comando.

- Qual moeda? - questionou o aparelho.

- Escolha aleatória.

- Confirma a transação? - A máquina ainda colocou uma última proteção que fez Jack suar frio.

- Sim!

- Transação concluída, com $1.330.030 de Ms você comprou $100.200.020 Reais.

- Reais? Que moeda é essa? - Stewart perguntou sem se lembrar da origem monetária desse nome e Jack replicou a pergunta para sua band.

- Essa é a moeda que já foi oficial no antigo Brasil. Depois que o país seguiu o caminho dos EUA e passou a ser de posse privada, apenas a região amazônica manteve tradicionalistas que conseguiram manter a moeda, negando-se a incorporar qualquer outra forma de capital a sua cultura. O que restou dela é majoritariamente negociado ainda em papel.

Todos começaram a rir e depois ficaram com peso na consciência.

- Relaxa, Jack. Se perder algum dinheiro, não será muito. É uma moeda com pouca mobilidade. - Alfred tentou acalmá-lo e diminuir o clima pesado que ficou.

- Depois de Jack me contrariar e mostrar que é mais corajoso que qualquer um nessa mesa, a rodada é por minha conta. - Stewart levantou o copo e anunciou.

- Menos mal. Pelo menos mais uma bebida. Ainda bem que tenho comida em casa. Uma semana sem dinheiro, qualquer coisa vou atrás de você até o fim do mundo, Stew. - Jack gritou.

- É, levando em consideração que o fim do mundo não parece tão distante. - Todos riram e como em quase todas as coisas que ainda achavam engraçadas, sentiram em seguida um pesar.

No dia seguinte, o Real havia sofrido uma grande desvalorização por conta de notícias de ter sido descoberto um esquema na floresta onde existiam nativos contrabandeado o pouco que havia sobrado de madeira.

Se Jack tirasse o dinheiro naquele momento que descobriu o que estava acontecendo ainda conseguiria um terço, talvez um quarto de seu dinheiro de volta. Mas a programação que fez era fechada. Não era permitido alterações, isso garantia a transparência das transações e fazia parte de manter seu potencial de liquidez.

Perto de completar os sete dias, algo incrível e inimaginável aconteceu. O grande M anunciou a negociação de toda a administração da floresta amazônica e a aquisição de todo recurso físico da moeda local. Indenizaria todos os habitantes e garantiria investimento não só a continuidade da vida natural do local, como se comprometia em ampliar o investimento em sua recuperação.

O Real valorizou automaticamente mais de 4.000.000% e os pouquíssimos donos do que havia sobrado de sua versão virtual passaram a fazer parte do seleto grupo de pessoas riquíssimas, as poucas que ainda restavam fora do círculo das empresas mundiais.

Desse dia ele conseguia lembrar.

Talvez esse seja o ponto: o individualismo. O dia que a vida de alguém, como indivíduo, muda completamente sempre fica marcado, mas o dia as mudanças sociais drásticas não conseguem ser marcadas com uma data exata.

É claro que, se as vidas afetadas forem as de pessoas poderosas, e isso trouxer grandes mudanças sociais, aí sim, podemos lembrar a data.

O exemplo mais claro é que a chegada de Robert em Marte nunca será considerada uma grande mudança para a sociedade, não tão grande quanto a chegada do grande M em pessoa.

Capítulo 2 Para Marte

Jack começou a frequentar lugares que nunca imaginou existir.

Todos sempre acreditaram que os mais ricos tinham espécie de esconderijos secretos, mas eram mais boatos do que fatos. As notícias sempre acabavam perdendo o crédito quando surgiam teorias fantásticas de alienígenas, vampiros, lobisomens, zumbis. Começava com alguma lógica mas acabavam descambando para uma ficção científica que anulava qualquer credibilidade das informações.

Depois que as empresas assumiram a organização e dinâmica das cidades, elas foram mudando completamente, de forma gradativa.

As configurações oficiais se mantinham a mesma, apesar de o conceito de capital não ser mais utilizado. Porém, percebeu-se que alguns locais passaram a ser mais exclusivos. As viagens aéreas passaram a ser mais restritas e necessitavam de autorização das empresas. O preço das passagens era outro fator que dificultava o acesso de qualquer um para qualquer lugar. O fato de algumas pessoas serem indenizadas para desocuparem propriedades e se aproximarem de familiares, conceito que era tido como uma desculpa publicitária, era outro motivo para a diminuição de viagens.

Lincoln no Nebraska e sua região extendida passaram a ser um dos locais no mundo mais fechados e cercados de mistérios, no mundo. Diversos "pedágios" e escalas eram necessários para se chegar até o local. Ainda assim, mesmo com muito dinheiro, não era qualquer um que podia chegar lá.

Especulava-se que os mais ricos tivessem criado suas residências na cidade, mas nada era comprovado. Toda informação era filtrada, já que os últimos veículos de comunicação que existiam eram de posse das únicas grandes empresas, que tinham objetivos convergentes e proximidade nas decisões coletivas. Qualquer informação que eles não quisessem nunca seria divulgada.

O primeiro objetivo de Jack foi justamente ir para Lincoln.

- Você é completamente maluco mesmo! - disse Stewart.

- Claro que sou, coloquei todo meu dinheiro numa aposta maluca bêbado! - Jack respondeu rindo.

- Eu nunca imaginei que você faria aquilo. - Seu amigo olhava para o horizonte, como se buscasse explicação para aquila decisão tão louca.

- E agora você vai comigo! - Jack falou como quem estivesse convocando-o.

- E eu vou também! - Carol entrou na sala da casa de Jack.

- O que você está fazendo aqui, Carol? - Stewart se surpreendeu mais com a chegada dela do que com o convite do amigo.

- Hora, Jack me pediu em casamento! - Carol respondeu e Stew quase infartou.

- Como é?

- É, ele me convidou para ir com vocês dois para o Nebraska e pra mim foi quase como um pedido de casamento - ela respondeu rindo.

- Eu sabia o quanto ela sempre foi antenada nesses mistérios sociais, imaginei que ia ser nossa companhia perfeita. Sem contar que ela já foi do exército. É melhor em artes marciais e auto-defesa que nós dois é uma excelente companhia. Pra dizer a verdade, se tivesse interesse pelo sexo masculino, era até possível que eu a pedisse mesmo em casamento - Jack elogiou tanto que Carol ficou levemente envaidecida.

- Vocês não durariam 5 minutos sem mim, nessa empreitada - ela fez a piada para quebrar a vergonha que sentiu e os três riram.

- E como você pretende chegar lá? - Stewart perguntou. - Não parece que seja uma missão simples mesmo para alguém com a quantia que você ganhou.

- Nós vamos para Nebraska com o objetivo de ir para outro lugar - Jack revelou com certo mistério.

- Para onde? - os perguntaram juntos.

- Para Marte! - Jack respondeu.

- Como é?

- Stew, é bem simples, eles estão alucinados para sair desse planeta. Nós sabemos que estamos com os dias contados e tenho certeza que estão todos lá dentro daquele condado, reclusos, esperando a hora certa.

- Mas não seria mais lógico irmos atrás dos foguetes em Miami, Flórida ou na Califórnia? - Carol perguntou.

- Seríamos expulsos de lá, logicamente. Você já viu algum subordinado autorizar alguma coisa? E o caminho é chegar nos poderosos primeiro. Tenho certeza que esperam ansiosos pessoas com dinheiro dispostas a serem cobaias, como Robert.

- E o que te diz que estou disposto a ser cobaia? - Stewart perguntou.

- Uma vez lá dentro, a gente pode fazer o que quiser. Sou muito mais nossa malandragem e jogo de cintura. - Jack parecia confiante.

- Nenhum de nós tem família, Stew. O que temos a ganhar ficando nesse planeta que está se acabando? Até os poderosos estão prontos para ir. Na verdade, não sei ainda por que não foram - Carol ficou refletindo.

- Ouvi uma teoria que dizia que os homens de Marte estavam impedindo a chegada - Stew brincou.

- A teoria que ouvi é bem mais interessante e palpável, meu amigo: nós precisaríamos nos tornar esses homens de Marte - Jack contou.

- Não entendi! - exclamou Carol.

- O homem da Terra não pode viver em Marte. Os tricientistas (como eram chamados os cientistas que prestavam serviços aos trilionários) buscavam formas de realizar a Terra-formação. Transformar Marte até que ela tivesse condições de abrigar o ser-humano. Mas tiveram que mudar seus objetivos quando a Terra passou a ter data de validade curta. Não haveria tempo, de forma alguma, mesmo acelerando o processo ao máximo, nem se fosse criada uma pequena estrutura temporária, para poucos. A vida não teria continuidade, em nenhum cenário.

Um outro grupo de cientistas, que também trabalhava em conjunto com essa elite, na área de medicina, trouxeram uma outra proposta de solução. Eles vão transformar o corpo dos humanos, adequá-los para Marte. - A teoria, apesar de fazer algum sentido, ainda parecia insanidade para Stewart e Carol.

- Então é isso que você acha que está acontecendo lá? - Perguntou Stew.

- Se eu pudesse apostar tudo que eu tenho, eu apostaria. Aliás, é o que vou fazer - ele respondeu.

- Bom, quando você apostou sem pensar deu sorte, não vejo porque haveria de dar errado agora - refletiu Carol.

- E eu te chamando de covarde - Stewart disse, inconformado.

- Talvez agora você me conheça melhor! - Jack sabia que não era essa pessoa, que o amigo tinha razão sobre ele. Mas diante de todo o contexto que se apresentava diante dele, ousar parecia nem ser um ato de tanta coragem mais. Ainda mais com o dinheiro que Jack havia ganhado.

- Só me resta fazer as malas, então! - decidiu Stewart.

- Já trouxe as minhas, estão do lado da porta. - Carol, que já estava deitada no sofá, virou de costas, como se fosse dormir.

- Faça isso e durma agora a noite, Stew! Quando você voltar, pela manhã, partiremos.

- Traga café e uns pães bem gostosos, daqueles recheados! Você não vai mais precisar do seu dinheiro mesmo, pode gastar pouco dele - Carol brincou.

- Uma verdadeira princesa, não é mesmo? - Agora foi a vez de Stewart brincar com o jeito dela.

- Princesas arrebentam a cara de idiotas, também! - provocou Carol sem sequer se virar.

- Não tinha ninguém melhor mesmo para você convidar para essa viagem? - Stew continuou a provocação, perguntando para Jack.

- É que você acabou vindo na minha cabeça,as se quiser chamo outra pessoa no seu lugar. - Jack riu da cara que Stew fez e deu um tchauzinho, enquanto ele saia contrariado.

- Eu também não consigo imaginar o motivo de você ter me chamado primeiro. - A própria Carol quem perguntou, murmurando como se já estivesse meio que dormindo.

- Eu precisava de alguém que eu soubesse que diria sim. Não consegui pensar em outra pessoa que não fosse você. Bom, nos conhecemos a tanto tempo, não é? - Ele explicou.

- Já até nos apaixonamos pela mesma pessoa. - Carol lembrou.

- A vida era tão mais simples - Jack foi preenchido por um saudosismo incomum para ele.

- Não, não era não, nunca foi simples. Nós, enquanto sociedade, nunca lutamos juntos para que nossas vidas fossem simples. Agora me deixa dormir - Carol finalizou a conversa ali com um pensamento que deixou Jack pensativo pelo resto da noite.

Capítulo 3 Uma Viagem Modesta

- Não é possível que você não tenha conseguido arrumar um carro melhor. Nós vamos nisso? - O espanto de Stewart era justificável. O carro de Jack era do início do século, estava batido em vários pontos e era uma surpresa ainda andar.

- Ninguém está vendendo carros, Stew. Eu fiz ofertas que achei que eram loucura em carros pouca coisa mais novos que o meu. Todo mundo que ainda tem carro tem medo de precisar fugir num momento de catástrofe. Você sabe que há muitos anos não se produz mas carros e, agora, nem lojas de usados se encontra mais. Talvez mais perto do centro do país, ultrapassando as barreiras, consigamos comprar outro. - Jack explicou-se.

- Eu espero não pegar tétano nessa ferrugem toda - Carol ironizou.

- Parem de reclamar! Meu carro está super conservado e é um guerreiro. Só faz tempo que não ando com ele. É vocês nem podem imaginam o quão difícil foi achar gasolina. Mas ele ligou e funcionou muito bem. Ainda bem que eu tinha tirado a bateria e deixado segura. Esses tutoriais de preservação de antiguidade sempre valem a pena - Jack falou orgulhoso.

- Um carro movido à gasolina. Não vai nos explodir não, né? - Carol continuou com o que pareciam comentários irônicos.

- Vocês não sabem de nada. Antigamente é que se faziam carros bons, seguros e resistentes. Esses carros mais novos eram todos descartáveis. Por isso que quase não se vê por aí, as safras intermediarias, de 15 anos atrás, dos carros elétricos e voadores. Viraram tudo sucata. - Jack ainda estava no clima saudosista.

- Isso é um mito. Esses carros foram destruídos para que ainda houvesse compra das últimas produções, antes do fim da indústria de automóveis - Stewart contrariou Jack.

- Em todo caso, é o Big Phil que vai nos levar.

- Minha nossa, ele deu um nome para o carro. Não vai se desfazer dele de jeito nenhum. Você sabe que não vamos conseguir entrar em Nebraska nessa lata velha, não sabe? - Carol ficou temerosa.

- Eu sei, Carol, eu sei! Não precisa falar assim - Jack ficou todo sentimental.

- Vamos logo, vai. Stewart, você vai atrás! Eu que não vou ficar com um monte de mala em uma de mim, só porque o porta-malas do "Big Phil" é minúsculo - Carol já deu às ordens.

- Mas quem trouxe mais malas foi você! E seria mais indicado um ônibus, assim.

- Pessoal, eu tenho muito dinheiro, vamos ter que comprar roupas novas! Porque tanta mala? Estou levando apenas uma mochila - Jack ficou chocado ao ver aquelas malas todas.

- Duas daquelas malas são de armas e acessórios de sobrevivência. Não podemos sai por aí desprotegidos. Ou você acha que só no seu discurso de malandragem, a gente vai conseguir alguma coisa? - Carol se justificou.

- Ok, mas você tem outras três malas. - Stewart endossou.

- Olha, por que ao invés de reclamar, você não arruma direito aí, se organizar, cabe tudo e você ainda fica confortável - ela falou brava.

Tudo pronto, partiram.

- Vocês chegaram a andar nos carros voadores, quando eles ainda existiam por aqui? - Stewart fez a primeira pergunta da viagem. Ambos responderam com negativa.

O silêncio se seguiu por um tempo, até que Jack resolveu colocar música.

- O que é isso? - Carol perguntou.

- Um clássico. Meu avô adorava. É música de viagem para mim. É uma banda britânica era um tipo de rock alternativo. Sim eles chamavam isso de rock. Mas eu acho a melodia tão prazerosa. Você acredita que eles começaram a tocar em 1996? - Jack explicou e os dois ficaram surpresos.

- Não acredito que você está ouvindo algo do século passado - Carol exclamou como se fosse um crime.

- As mais famosas que eu coloquei são do início do século. Já tinham até vídeo, olha ali. Jack jogou a imagem holográfica para o lado do parabrisa do passageiro.

- Que conceito estranho, ele ta fazendo uma cena ao contrário? - Stewart perguntou.

-Isso é arte pura! - Jack estava em êxtase.

- Mentira, a companheira dele morreu? Estavam sem sinto? Ele tava vagando esse tempo todo, em choque? - Carol estava aos prantos. - Música não pode ser algo assim não. Minha nossa!

- Cara, estou numa confusão de sentimentos e já começou outra música, nos vamos assim nessas horas de viagem? - Stewart perguntou.

- Será uma das experiências mais incríveis da vida de vocês. - Jack estava radiante.

Era incrível como o movimento de carros era baixo. O que ainda existia de transporte era coletivo, mas muito raro e o uso de bicicletas era enorme. Ainda assim, tendo em vista o tamanho da população, o fluxo não era alto.

A maioria das pessoas trabalhava de casa e permanecia fixada em seus bairros, saiam para perímetros curtos e por poucos momentos do dia. Quase sempre, apenas pela recomendação publicitária do banho de Sol.

- Viajar realmente é uma experiência incomparável. Ver as coisas passarem rapidamente pela janela, a sensação de mudança de um local para outro, de clima, de visual, é muito interessante. - Stewart nunca tinha saído da cidade onde nasceu.

- Realmente, Stew, é algo único - Jack concordou. - E eu faço tudo ficar mais especial, né?

Continuavam se surpreendendo com músicas e clipes, fazendo análises, até que chegaram na primeira barreira.

- Boa tarde! - O policial cumprimentou o grupo, de fora do carro. - Vamos fazer um reconhecimento do carro, certo?

Instantaneamente, uma luz atravessou todo o veículo e uma imagem apareceu para uma tela que o oficial carregava.

- Vocês estão armados? Ah, sim, eram também da força de segurança! Apareceu aqui. Mas consta que não estão mais a serviço do Big M. Qual o motivo da passagem? - Ele inquiriu.

- Desculpe, oficial. Vou ter que pedir que confira o seu sistema de autorização ultra-secreta - Jack falou deixando todos, inclusive Stewart e Carol espantados.

O homem chamou um outro policial que parecia ser mais graduado na hierarquia, pela roupa, que eram diferentes das quais eles estavam habituados. Ele fez o que com certeza seria um reconhecimento ótico para acessar dados seguros e verificaram a autorização.

- Sinto muito pelo atraso, Sr. Jack! Espero que tenha sucesso em sua missão - Ele se despediu do sorridente motorista que passou lentamente em seu maravilhoso carro barulhento.

- O que você fez? - perguntou Carol muito curiosa.

- Eu tinha amigos no setor de tecnologia da empresa. Pedi que incluíssem os dados de missão secreta. Conseguiremos passar das duas primeiras barricadas dessa forma. Fiz apenas uma pequena contribuição para o fundo deles - Jack explicou.

- E se eles descobrirem? - Stewart, o mais preocupado deles, perguntou.

- Se algo der errado, eles me avisarão. Mas eles são muito bons no que fazem - Jack tranquilizou-os.

- E as outras 3 barricadas? - Carol quis saber.

- Já tenho planos para duas e a última, ainda está em construção - Jack pareceu menos confiante nessa fala.

- Em construção parece muito com: Não faço a mínima ideia - foi a constatação de Carol.

Passaram sem maiores sustos pela segunda parada, apesar de uma leve estranheza extra, dessa vez, em relação ao carro de Jack.

A continuidade dependeria agora da troca do carro e, em pouco tempo, a solução, nessa nova localidade, já se apresentou diante deles.

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