Os raios de sol de um amanhecer nem tão tranquilo, entraram pela janela de um quarto simples, porém limpo, de uma casa humilde em um bairro pobre. Os gritos da mulher se faziam ouvir ao longe. Deitada na cama, coberta por um lençol, com as pernas abertas e joelhos dobrados, tinha dores de parto e estava quase dando a luz.
Um homem atarracado e mal vestido, andava de um lado para o outro no corredor, sem conseguir esperar, adentrou ao quarto, intempestivamente, quando escutou um pequeno choro invadir o espaço. A parteira entregou o pequeno embrulho em seus braços e deu a notícia:
É uma menina
O homem irradiou felicidade, deu um sorriso bem grande e olhou para a mulher na cama. Seguiu até lá, deu um beijo em sua testa e disse:
- Obrigado, querida, você trabalhou muito bem. - Como se ela fosse uma funcionária parideira.
A mulher, que era sua esposa, muito nova ainda, olhou para ele, triste, pois ele não tinha um pingo de consideração por ela, só queria que ela lhe desse filhos. Foi vendida pelo pai, aos dezesseis anos e criança que nasceu, era sua primeira filha e ele a estava levando embora.
Ele saiu, levando o pequeno ser em seus braços, a parteira o chamou, dizendo que a criança ainda não foi limpa e ele se virando, respondeu:
- Pode ficar tranquila, estou levando-a para a enfermeira cuidar. - Não deixaria ninguém cuidar do seu pequeno tesouro, que não fosse especializada.
E foi isso que ele fez, cheio de interesses gananciosos. Quando, finalmente, a criança estava limpa e devidamente vestida, ele a pegou e a colocou em um cesto de vime, todo acolchoado e forrado de cetim branco e saiu.
Entrou no carro e dirigiu para um outro local, totalmente diferente. Lá, ele entregou o sexto para uma babá, que já tem tudo preparado para alimentar a pequena recém-nascida, tão inocente e sem noção de que sua vida, apesar de muito valiosa, não lhe pertencia.
O homem foi para o seu quarto, que é totalmente diferente do anterior na casa pobre. Agora era um local asseado, grande, muito bem mobiliado e limpo. Tomou um banho e vestiu um terno de corte especial, se arrumou com o que tinha de melhor, pois não poupava gastos quando se tratava de si mesmo.
Já pronto, ele foi até o quarto do bebê e pegou o cesto com a recém nascida, novamente. Saiu, entrou no carro e seguiu em direção a uma mansão na área vip da cidade, cercada de seguranças e empregados.
Lá, ele já estava sendo esperado e nem precisou bater à porta, ela já estava aberta, com a governanta esperando. Foi direcionado a um escritório luxuoso, onde um senhor o esperava.
O senhor de meia-idade, sentado imponente em uma cadeira atrás da mesa, refletindo sua maturidade em seus cabelos brancos, observou o homem impecavelmente vestido e penteado. Tentava parecer rico, no que, definitivamente, não era bem sucedido e entrou em seu escritório, sentindo-se o poderoso. Tem aproximadamente 50 anos e carrega um pequeno cesto nos braços.
- O que trouxe para mim, Edgar? - Perguntou o velho, sério, sem expressar interesse específico.
- Trouxe a futura esposa de seu neto, ele está com 10 anos e daqui a 18 anos, já terá a sua esposa, escolhida especialmente para ele. - disse Edgar, tratando a filha como mercadoria.
O velho se levantou e foi até o sexto, olhar a pequena recém-nascida. Ergueu o manto que a cobria e observou a pequena criança loirinha e de pele alva como a neve.
Havia feito circular o "pedido" há alguns meses, especificando como a criança deveria ser e até agora, nenhuma das que lhe trouxeram, era boa o suficiente, mas essa, era perfeita.
- Mais parece um anjinho. Realmente, você se superou dessa vez, Edgar, quanto quer por ela? - perguntou o velho mafioso, sabendo que o preço já foi dado, por ele mesmo.
Edgar escreveu um valor num papel e entregou ao velho, que o olhou e consentiu, era um pouco acima do que prometeu, mas valeria o preço, pois era linda e sempre disseram que loiras são burras e ele acreditava nisso.
- Bom negócio fizemos aqui, Edgar, mas você não terá mais contato nenhum com a pequena. Você registrará ela em seu nome e no nome da própria mãe e depois assinará um termo de responsabilidade, passando ela para minha tutoria. Eu a colocarei em um internato, onde ela será criada até os 18 anos e sairá para casar com meu neto. Concorda com isso? - perguntou o mafioso, como se aquela transação fosse a coisa mais normal do mundo.
Edgar assentiu com a cabeça e fez uma ressalva.
- Para defender o meu investimento, caso vocês desistam dele, eu quero que esta menina seja criada com todas as mordomias necessárias, com aulas de línguas estrangeiras, de computação e todas as modernidades que existem de internet. Quero que ela estude as matérias normais e se especialize naquilo que ela se destacar, se concordarem com isso, eu aceito os seus termos.
O velho parou, sentou e pensou, analisou os prós e os contras, tentando imaginar uma mulher bonita e inteligente para seu neto. Não era o ideal, pois as mulheres inteligentes costumam exigir mais de seus maridos, porém, poderia pagar uma pessoa para instruí-la no comportamento de uma esposa ideal, que seria submissa e obediente.
Pensando assim, aceitou o pedido do negociante, sabia que seria difícil encontrar outra tão perfeita.
Edgar, saindo dali, foi direto ao cartório e registrou a pequena, com a certidão de casamento. Pegou a certidão de nascimento da menina, pagou ao escrivão do cartório uma boa quantia, para que não exigisse mais nada, deu o horário do nascimento, o sexo, cor e filiação, assim como o endereço da periferia, onde a mãe ainda estava e morava.
Desta forma, a criança recém-nascida passou a se chamar Érida, a futura esposa do próximo capo, ou...
Erida foi morar imediatamente em um internato, onde passou seus primeiros 18 anos de vida, sendo devidamente instruída em todas as matérias possíveis e sobre como ser uma boa mulher, uma esposa obediente e submissa.
A pequena Érida nunca saberia que foi vendida e estava sendo moldada conforme a vontade do mafioso. Foi colocada em uma suíte de luxo, tinha preceptores exclusivos e não falava com ninguém. Fora a acompanhante e os responsáveis pela sua educação doméstica e traquejo social, não tinha contato direto com outras pessoas, para não ser contaminada com valores feministas, que tanto o velho odiava.
Na mente dele, mulher só servia para ornamento e sexo, alem de parir sua prole. Algumas nem para isso, só para serviçais. Sua governanta era a prova viva da exceção à regra, mas se ela não fosse tão submissa, já a teria descartado também, com certeza.
Mulher, para ele, tinha que se submeter calada, ou era punida. Assim funcionava bem seus negócios, debaixo da rédea curta. Para isso, pagava muito bem seus seguranças, além de lhes dar um dia grátis no prostíbulo que escolhessem.
De sua mesa, ele sorria, vendo o pequeno Danilo, com dez anos, brincando no jardim. O menino não fazia ideia do que o aguardava no futuro, mas como seria criado por ele, moldaria o garoto para ser como ele, queria que fosse um capo, já que ele, o avô, era o Don.
*
Chegou o dia do aniversário de 15 anos de Érida, ela está na frente de um pequeno bolo, com uma velinha acesa sobre ele e com ela está a professora de postura feminina. Essa mesma professora, entregou de presente a ela, uma carta, que ela preferiu ler quando estivesse sozinha. O que não era difícil de acontecer.
Seus dias no internato eram muito solitários, sempre, não vivia e nem compartilhava com as outras crianças, os espaços da escola. Era criada como uma encarcerada, com aulas feitas exclusivamente para ela, mas tinha todas as mordomias que o dinheiro podia comprar e que uma pessoa poderia querer para viver, porém não tinha o principal, liberdade.
Quando ela se olhava no espelho e via o corpo alongado, cintura fina, pele branca, cabelos longos e loiros e olhos azuis, ficava pensando: será que sou bonita ou será que sou feia? Não tinha como se comparar com ninguém. Suas professoras estavam sempre de máscaras e com os cabelos em uma rede. Sua conselheira feminina garantia que era linda, mas não tinha como ter certeza, pois a mulher podia estar sendo paga para dizer-lhe isso.
Terminando a comemoração, subiu para o seu quarto e sentando na cama, abriu o envelope lacrado, tirando de lá a tão preciosa carta. Leu o nome e não reconheceu, o que não era estranho, dado que não conhecia ninguém. Olhou a caligrafia e achou-a feminina, iniciou a leitura com muita curiosidade e a carta dizia:
"Querida filha,
escrevo esta carta esperando encontrá-la bem. Perdoe-me a ausência por todos esses anos, mas assim como você vive encarcerada até agora, eu também vivi. Tenho muitas revelações a fazer, por isso vou começar logo, para que a carta não fique muito extensa.
Eu tinha 15 anos quando conheci seu pai, ele me comprou de meu pai, graças às dificuldades financeiras adquiridas pelas perdas no jogo de cartas. Seu pai não me amava e não queria ter um relacionamento, ele apenas queria ter filhos ou melhor filhas, com as quais pudesse lucrar. Todas, uma a uma, foram vendidas.
Quem comprou você, foi um homem muito poderoso e rico. Você foi adquirida para ser esposa de seu neto, que estava na época, com 10 anos. Descobri tudo isso, lendo um diário em que seu pai fazia anotações sobre todos os seus negócios, como consegui ler esse diário? Simples, seu pai morreu. Com a morte dele, houve uma série de investigações e me descobriram encarcerada em casa.
No local onde eu vivia, uma casa simples na periferia, encontrei caixas escondidas sobre o assoalho e nelas estavam o diário e também anotações de vários negócios que ele tinha, espalhados pela cidade. As dívidas também eram muitas, por isso todo o dinheiro que ele tinha, foi gasto para pagá-las, porém, ele também tinha objetos muito valiosos, com os quais eu pude fazer uma poupança para você.
Também consegui comprar uma casa melhor e abrir um pequeno negócio que me sustenta, hoje em dia. Mas o que quero te passar é que, você esta completando 15 anos, deve ser uma menina linda e muito inteligente, por isso estou te enviando um computador de mão, para suas anotações pessoais. Não mostre a ninguém, não deixe que ninguém veja suas coisas particulares.
Quero que se dedique aos estudos, principalmente, que se aprimore em utilizar a internet. O nome do seu noivo é Danilo Scapola. Investigue tudo que puder sobre ele, entre e vasculhe toda sua vida nas redes sociais: onde mora, o que tem, com quem se relaciona e se programe para quando estiver na presença dele. Sei que você fará o melhor uso possível de todas as informações que adquirir, mas não conte isso para ninguém.
Você me achará quando sair daí e o que precisar, estarei aqui para fazer por você, porém, terá que tomar muito cuidado por causa da maldade de seu futuro marido. Ele é cercado por seguranças e qualquer um que se intromete em seus negócios, ele manda matar. Antes de pensar em viver e ser feliz, tenha em mente que o mais importante em sua vida é você sobreviver.
Espero que tenha entendido, tudo o que lhe contei nesta carta, depois que ler, destrua, para que ninguém mais veja. A pessoa que te entregou, é de confiança, eu me introduzi de uma maneira muito discreta na vida dela, depois de descobrir onde você estava e que ela cuidava de você, porém é melhor não confiar em ninguém. Um beijo da sua mãe,
Maria."
Erida chorou, chocada com tudo que soube. Pensou que estava guardada daquelas maldades, naquele lugar, mas estava presa.
Largando a carta, Érida pegou o outro pacote, era retangular e quando abriu, era o tablet que sua mãe havia falado, só que ele veio como presente de sua professora, para que ninguém desconfiasse.
Escondeu-o debaixo do travesseiro e ficou meditando no que estava escrito na carta, leu mais algumas vezes, até decorar, depois a jogou na lareira acesa. Começou a pensar em sua vida, teria três anos para se preparar e quando finalmente saísse para viver o seu destino, saberia bem o que fazer.
- Obrigada, mamãe. Não a conheço, mas já te amo.
Agora entendia o porquê de viver essa vida sem sentido e das aulas de organização doméstica que tinha. No dia seguinte começaria a investigar tudo na internet, aprenderia o máximo possível sobre a vida fora daqueles muros, e principalmente, conheceria seu noivo.
Sua mãe, a quem nunca viu e nem sabia que existia, lhe deu o melhor presente de todos: informação. Usaria esse presente maravilhoso, de forma ampla e irrestrita, deu uma risadinha, pois seus professores de computação, não faziam ideia do quanto ela já se adiantou na matéria.
Ela tinha uma hora por dia para praticar e utilizar o computador e descobriu como acessar as páginas mais ocultas da web sem deixar rastros, pois não queria que soubessem do que fazia.
Agora, com as informações de sua mãe, saberia onde focar seus interesses e praticar seu conhecimento.
- Boa noite, mamãe. Terei muito prazer em conhecê-la.
Finalmente fechou os olhos e dormiu com um sorriso no rosto, o futuro já não era tão sombrio assim.
*
Danilo
Analisando, junto com o meu amigo e advogado, Hélio, os contratos feitos por meu avô, fiquei abismado com o controle ferrenho que ele mantinha sobre as pessoas.
Mesmo depois de morto, continuou controlando a minha vida.
Deixou um contrato de casamento, para eu cumprir, com uma noiva que foi criada encarcerada. Só posso chamar assim, uma pessoa que foi levada, ainda bebê, para um internato e criada sem ver mais ninguém, além de suas professoras.
O pior é que ela vai sair em um mês e eu só soube disso agora! Como posso me apresentar a ela e dizer que temos que nos casar.
Peguei os papéis e devolvi ao Hélio, dizendo logo a seguir:
- Não quero casar, pelo menos, não agora. Estou com vinte e sete anos e só quero casar depois dos trinta.
- Faça isso então.
- Aí não diz que sou obrigado a casar assim que ela completar dezoito anos, diz?
- Não. Mas o que você pretende fazer com ela, então, Danilo?
- Verifique os cursos na faculdade, que estão disponíveis e matricule-a. Não importa a matéria, ela escolhe. Assim, tenho mais quatro anos para evitar esse casamento. - determinei.
- Ela virá morar aqui? - perguntou Hélio.
- Claro que não, você é tapado ou o que? Não quero que liguem ela a mim. Dê a ela, um apartamento confortável, naquele prédio próximo ao campus, contrate uma dama de companhia que lhe agrade e deixe-as lá. Dê tudo o que ela precisar, quero esquecer que ela existe por esses quatro anos.
Esse era o lado bom de se ter dinheiro, podemos dar um jeitinho em tudo.
- Não quer nem conhecê-la? - Insistiu meu advogado e amigo, Hélio.
- Não! Agora chega, vá logo resolver isso.
Ainda bem que ele já está acostumado com minha forma de falar. Afinal, sou o tipo liberal, prefiro ter uma noitada com uma modelo, do que ficar com uma só. Tenho sorte, pois minha aparência agrada a maioria das mulheres. sou moreno claro, cabelos castanhos, bem aparados, assim como a barba rente. Meus olhos são claros, as vezes azuis, as vezes cinzentos. Malho para manter o corpo definido e nunca recebi queixas.
Ele saiu meio aborrecido, por ter que fazer esse serviço, que não tem nada a ver com suas funções. Mas ele é o único em quem posso confiar, para manter tudo isso em segredo.
Estou muito enrolado com os negócios no momento. Meu avô fez fortuna com comércio ilegal e exploração de menores. Prostíbulos com escravas sexuais, tráfico de crianças para fins de pedofilia e doação de órgãos. Venda de "segurança" aos pequenos comerciantes das periferias da cidade, uma verdadeira máfia.
Aos poucos, fui mudando os negócios. Quando ele ainda era vivo, sugeri que abrisse clubes legais, para podermos lavar o dinheiro dos negócios ilegais e ele aceitou.
Agora, tenho vários clubes de diversos tipos. Todos legalizados e sem explorações indevidas. Acabei com a máfia de cobrança de segurança e o comércio de menores. Mas o tráfico e exploração de meninas para a prostituição, está muito enraizada em várias frentes e direções e os líderes dessas frentes, não querem perder o lucro fácil e estam assumindo os pontos que fechei.
Há um ano, algo estranho começou a acontecer, o capital desses grupos ilegais foi minando aos poucos e ninguém sabe como? O dinheiro simplesmente sumiu sem deixar rastro algum. Demoramos a perceber, porque o montante só surgiu no final do ano, com o balanço geral anual.
Os líderes mafiosos mundiais, estavam loucos com isso, preocupados que começassem a sumir quantias maiores, que os levassem à falência, o que acho muito difícil.
Como se não bastasse essa confusão, me relataram que outro grupo, vendo que paramos a exploração na periferia, aproveitou e assumiu os negócios que deixamos e eu não gostei disso.
Não vou virar um justiceiro, mas também não vou deixar que continuem roubando aquele povo. Mas já tenho outro negócio em vista, vou abrir uma firma de segurança.
*
Éridal
Finalmente!
Quando cruzei os portões do internato, depois de dar três passos, respirei fundo, ergui as mãos para o céu e agradeci. Finalmente estou livre, livre para viver minha vida e conhecer o mundo.
Quinze dias atrás, um advogado veio me visitar para informar as decisões de meu noivo. Sairia dali direto para a faculdade que eu escolhesse, pois com minhas notas, seria fácil uma vaga. Teria um apartamento, cartão de crédito e débito, com capital disponível para o que eu precisasse e quisesse e poderia escolher uma acompanhante.
Eu resolvi levar minha professora e amiga de minha mãe. Escolhi a faculdade de moda e achei ótimo não precisar ver ou estar com meu noivo. Sabia tudo sobre ele, inclusive que havia mudado muitas coisas ilegais que seu avô fazia. Isso não mudava o fato de que fui vendida e comprada como mera mercadoria.