Meu nome é Cecília, tenho 24 anos e sou uma fodida na vida! Essa é a minha realidade! Acabei de me divorciar, tenho um filho de 5 anos e uma recém nascida de um mês.
Quando me casei com Henrique, aos 18 anos, foi pra fugir de uma relação tóxica com minha mãe. Sou a única menina e a do meio. Gustavo saiu de casa também com 18 anos, mas não casou, foi só morar com a namorada, tenho um sobrinho dele, Jair, um ano mais velho do que Matheus. Meu irmão caçula, Gabriel, tinha 13 anos quando eu comecei a namorar com o Henrique, eu 17, e ele era meu terror. Mimado, cheio de frescuras, aprontava e colocava a culpa em mim.
Minha mãe não era ruim, só não sabia educar filhos! Ela mesma era machista e achava que eu tinha que fazer tudo em casa, porque era tarefa de mulher e homem não tinha que lavar as próprias meias fedidas! Eu achava um absurdo todos os machismos que ouvia dela, então quando terminei o ensino médio, meti o pé!
Pelo meu pai, me casei. Ele era legal me tratava bem, desconstruía algumas coisas que ela dizia, mas enfrentar, não enfrentava! Eu nunca achei que ele fosse culpado de alguma coisa. Ele trabalhava demais pra manter o padrão que a gente tinha. Minha mãe quis construir uma casa enorme, com 5 quartos, um salão maior ainda nos fundos. Ela gostava de luxos e meu pai bancava todos!
Quando avisei que ia embora morar com Henrique, ele disse que não gostaria que a única filha saísse de casa assim, como se tivesse escorraçada. Então aceitei me casar, se ele aceitasse pegar o dinheiro da festa, vestido de noiva e todas essas frescuras e me dar para mobiliar a casa. Ele fez mais, e acabamos reformando três cômodos no quintal da dona Josefa, mãe do Henrique. Nem banheiro tinha, tivemos que construir, meu pai bancou tudo, eu escolhi meus móveis e lá fui eu, com a cara e a coragem, casada aos 18 anos! Engravidei logo, nem faculdade fiz, pra alegria da minha mãe que achava que papel da mulher era ficar em casa cuidando de tudo e o marido saindo pra buscar o sustento.
As coisas não aconteceram bem assim. Quando estava perto de Matheus nascer, foi a primeira briga séria que tive com Henrique, já que o menino não tinha nada, as contas da casa estavam tudo atrasadas e a dispensa vazia.
Henrique se acomodou que meus pais sempre socorriam financeiramente, e nossas brigas começaram a partir daí. Porque eu não casei para meu pai continuar me sustentando! Quando Matheus fez quatro anos, eu resolvi dar um basta, disse que ia trabalhar, que não ia mais passar fome com meu filho. E então ele chamou minha mãe pra tirar as "besteiras" da minha cabeça!
E nessa conversa eu descobri que mais da metade do dinheiro que ele me dava para as despesas da casa, que eu tinha que rebolar e decidir o que pagar, vinha dos meus pais. Minha mãe disse que meu papel era apoiar meu marido naquela fase ruim, em que ele estava desempregado.
Desempregado? Eu decidi então seguir Henrique e descobrir onde ele passava o dia inteiro, dizendo que estava trabalhando. Pedi pra dona Josefa ficar com Matheus pra mim e ela se recusou:
- Desculpa, Cecília. Mas não acho que no seu estado, você precise estar passando por esse papel!
- Meu estado, do que a senhora está falando?
- O minha filha! Você está tão magrinha que nem percebeu que está grávida?
Levei um tempo pra processar aquilo, e meu primeiro ultrassom, descobri que já estava de cinco meses e desnutrida. Todo o dinheiro que eu podia dispôr, eu cuidava da alimentação do Matheus, passando dias sem comer para não faltar nada pra ele. Meu médico do pré natal disse que a desnutrição poderia ser um problema fatal para minha bebê, prejudicando órgãos linfáticos, fígado, intestino e cérebro. A bebê estava abaixo do peso e se estivesse desnutrida também, os danos seriam irreversíveis.
Quando fui conversar com Henrique, ele me disse pra fazer um aborto, porque não queria filho deficiente. Que não sabia nem como eu engravidei de novo:
- Eu só não te deixei ainda, Cecília, porque minha mãe não vai permitir eu trazer outra mulher pra cá, mas essa casa é minha! Faz parte da herança que meu pai deixou quando morreu, e assim que você for embora, vou trazer minha mulher pra morar aqui.
- Essa casa é tão minha quanto sua, Henrique. Somos casados em comunhão parcial de bens! E sua mulher sou eu.
- Já me informei! Como somos casados em comunhão parcial, você não tem direito a nada, porque herança não entra na divisão. E minha mulher tá grávida também, então eu sugiro que você pegue suas porras e vá embora! Você está feia, relaxada, cabelos ressecados. Faça um favor pra nós dois e se manda!
- Você não pode fazer isso comigo!
Tentei segurar o braço dele, que puxou com força e me empurrou, me fazendo cair e Matheus veio chorando me ajudar. Enquanto via ele sair pela porta, tentei manter a calma para Matheus se acalmar também. Quando consegui fazer ele dormir, liguei pro meu pai...
Implorei para meu pai vir sozinho, sem minha mãe. Quando ele chegou, pedi pra dona Josefa me deixar receber na casa dela, já falaria com os dois ao mesmo tempo e não corria o risco de Matheus ouvir. Dona Josefa sempre foi boa pra mim, e eu evitava de ela saber as coisas e necessidades que eu passava em casa. O mesmo com meu pai. Nem visitava mais a casa deles, pra ele nao ver como eu tinha me deteriorado. Minha mãe não se importava. Tudo o que ela queria era que eu mantivesse a reputação.
Dizia que uma mulher separada, ainda mais com filho, não pegava bem e não ia arrumar outro marido bom, que não me batia e não maltratava meu filho. Então, quando eu comecei a contar para meu pai e dona Josefa tudo o que estava acontecendo, minha sogra endoidou:
- Não sei onde meu filho aprendeu isso, porque na minha casa não foi. O pai dele sempre foi o provedor, sempre cuidou da família, nunca deixou nenhuma conta atrasada! Morreu e deixou casa e carro pra nós. O que esse menino tá pretendendo na vida, engravidando uma em cada esquina?
- Eu não sei, dona Josefa. Ele mandou eu pegar minhas porras e ir embora, que eu não tenho direito a nada aqui, é tudo dele.
- Uma ova que é dele! É tudo meu que ainda não morri, e vou procurar um bom advogado e doar a parte dele para meus netos. Quando eu morrer, ele pode ficar com o que é meu, mas até lá, vou dar uma lição naquele moleque e ensinar ele a tratar uma mulher!
- É, mas ele mandou minha filha pegar as porras dela e ir embora, e é isso que ela vai fazer! Cecília, pega tudo o que eu comprei com meu dinheiro.
Meu pai contratou um marceneiro, que desmontou todos os meus móveis, também pagou duas meninas pra embalar tudo, pra eu não me esforçar.
Henrique tentou se explicar e meu pai, sempre tão calmo e pacífico, ameaçou quebrar todos os dentes dele se me dirigisse a palavra de novo. Eu não vi, mas soube que foi a primeira vez que meu pai enfrentou minha mãe. Ela não queria aceitar, mas ele a obrigou. Enquanto o pessoal estava trabalhando na minha casa pra embalar minhas coisas e desmontar meus móveis, dona Josefa mandou eu ficar na casa dela, e tinha outro pessoal trabalhando na edícula da casa dos meus pais. Era um cômodo e cozinha, mas para mim estava ótimo! Meu pai não trabalhou naqueles 5 dias pra acompanhar tudo, e na segunda noite depois da decisão, Henrique foi tentar dormir na casa da mãe dele, descobriu que eu estava lá e dona Josefa foi muito dura com ele:
- O galo onde canta, ele janta! Minha preocupação agora, é com a mulher que você não achou na rua! Você entrou na casa dos pais dela, prometeu se responsabilizar por ela e pelos frutos que viessem desse casamento. Foi o que você aprendeu no convívio dos seus pais, mas não foi o que você fez! Uma desavergonhada da rua achou que seria natural te convencer que trair e abandonar uma mulher boa, com quem você casou e deu seu nome, e colocou dois filhos era o melhor caminho pra sua vida? Pois tudo o que tenho a te dizer que não na minha casa, que não reconheço essa outra como minha nora, só Cecília, mesmo que ela encontre um homem de verdade lá na frente, ela vai ser minha nora! E tenho um recado pra essa sirigaita aí: avisa pra ela que se ela pegou marido de outra, pra sentar e aguardar que o chifre dela está em análise!
A partir dali, foi tudo muita correria. Dona Josefa ficava a maior parte do tempo com Matheus, pra eu cuidar da gestação de auto risco. Quando eu estava de oito meses, saiu o divórcio. No dia de assinar, Henrique me procurou antes da audiência. Abatido, perguntou se era o que eu queria mesmo:
- Pensa, Cecília. Espere mais um pouco, pelo menos até a nenê nascer, e o nome de registro dela ser o mesmo que do Matheus.
- Não se preocupe com isso, Henrique. Elisa vai ser bem resolvida com a ausência do seu sobrenome no nome de mãe! Vou criar minha filha muito diferente do que minha mãe me criou. Pra ela não querer sair correndo de casa na primeira oportunidade, para os braços do primeiro idiota que vai maltratar ela!
No dia que assinei o divórcio, soube que ele estava implorando pra voltar pra casa de dona Josefa. A tal sirigaita que virou a cabeça dele, era filha do patrão.
Ele foi demitido porque a mocinha estava grávida do primo e sem saber o que fazer, disse pro pai que era dele. Então seduziu ele pra corroborar a própria farsa, mas o bebê dela nasceu fazia uma semana. Tão preto, que nem nos melhores sonhos dela poderia confirmar que era de Henrique, branco dos olhos azuis! O primo assumiu, o chefe recontratou Henrique, mas ele já não tinha onde morar. De tudo isso, só gostei da parte que ele tinha emprego de novo e a pensão das crianças estava garantida!
Meu nome é Zian Al-Kiad, sou o único filho da primeira esposa de Faruk Al-Kiad, o que quer dizer que minha mãe era a esposa que mandava nas outras, e eu sou o herdeiro do título do meu pai, e quando chegar a hora, eu vou mandar em todas as esposas e filhos dele!
Isso deve ser o sonho de todo menino dos Emirados Árabes: ser o primeiro filho da primeira esposa. Isso em nossa cultura é natural e os irmãos mais novos não querem nosso lugar, a menos que nos matem, mas não somos gananciosos como os ocidentais!
E se tudo não tivesse acontecido como aconteceu, talvez eu também fosse muito feliz! Mas eu tenho esse posto mais como uma maldição! Porque não é da nossa cultura ser ganancioso das coisas dos outros, mas as mulheres são invejosas em todos os lugares!
Somos regidos pelo Sharia, a lei islâmica, com embasamento no alcorão. Isso quer dizer que cada homem pode se casar com até 4 mulheres. Mas isso não é assim, desregrado! A regra mais rígida do islamismo para o tema, é que o homem tem por obrigação tratar todas as mulheres com igualdade. E pra fazer isso, precisa ter dinheiro. Muito dinheiro. Porque se uma mulher é cara, imagina quatro!
Ao contrário do que os ocidentais pensam, a poligamia não é safadeza, é uma responsabilidade social. Assumir para si uma mulher que ficaria sem marido! E as mulheres não tem obrigação de casar, se não quiserem, mas se quiser, precisam da autorização de um homem da família!
A poligamia virou mais uma questão de status em tempos modernos, já que ter três ou mais esposas, é sinônimo de riqueza. Já falei que mulher é cara né?
Minha mãe e meu pai se apaixonaram, era um amor verdadeiro, e meu pai nunca teve pretensão de ter outra esposa. Assim que eu nasci, uma família da aldeia atormentou meu avô de que não era bom um sheik só ter uma mulher e um herdeiro. Minha mãe de resguardo, autorizou meu pai se casar de novo e logo a segunda mulher também estava grávida. Com esse exemplo outras famílias se aproveitaram e quando menos esperava, meu pai já tinha 4 esposas e teve que trazer todas pra morar na casa dele. Porque a lei de igualdade não é só para o financeiro, mas para atenção e cuidado. E se meu pai desse uma casa para cada uma, não poderia continuar morando com a minha mãe.
Como minha mãe era só amor, e ela quem mandava nas outras esposas, tudo corria em harmonia. O problema foi que as outras três esposas tiveram filhas mulheres. Duas vezes! E quando eu tinha 4 anos, minha mãe engravidou novamente. A preocupação delas de que minha mãe desse outro filho homem ao meu pai, fez com que elas dessem algumas ervas para o bebê descer. Conseguiram, minha mãe passou muito mal e veio a óbito. Meu pai repudiou as três. Mas, o direito do filho é do homem no divórcio, pela lei islâmica, então meu pai ficou com 7 filhos e sem mulher nenhuma. Para ajudar com todas essas crianças, ele se casou de novo, com a irmã da minha mãe. Deu uma casa pra cada uma das ex esposas e contratou pra cuidar das filhas. Minha tia é como minha mãe: amor, cuidado e paciência. Não permitiu meu pai se casar de novo e teve mais quatro filhos com ele. Me criou bem, mas como eu não tinha mãe, sempre me mimaram.
Eu estudei no ocidente. Estados Unidos, Canadá, França. Todos as férias eu voltava pra casa, e meu pai me lembrava que eu deveria assumir o lugar dele como o filho mais velho. Quando estava terminando a faculdade, ele me chamou para uma conversa:
- Zian, você não pode se esquecer as suas origens, nem a sua cultura! Você é um muçulmano. Em um ano você volta e vem assumir meus negócios. Depois que você se casar, vai assumir meu lugar e eu vou poder descansar.
- Esse é o problema, papai. Eu não quero me casar!
- Mas vai, você precisa. Não pode fugir da sua responsabilidade de assumir uma muçulmana que vai dar os meus netos, os herdeiros do meu nome.
- Igual você, pai. Que assumiu três para matarem minha mãe?
- Minhas últimas esposas antes de Radija não pensaram que aquilo fosse acontecer. Sinto falta de sua mãe todos os dias, filho, mas a vida continua e eu tenho 11 filhos pra cuidar.
- Então dê meu posto para o Fuad. Não vou me casar!
- Você pode abrir mão do seu posto, mas não será para Fuad, nem Hassan, Samir ou Khalif.
- Não entendi!
- Casei todas as suas irmãs. Vou fazer uma competição entre os maridos delas para entregar meu reinado.
- Você não pode fazer isso, papai! Seu herdeiro tem que ter seu sangue!
- Terá na próxima geração.
- Você está ficando senil tão jovem, papai?
- Não. Quero que você seja feliz, Zian. Toda felicidade do mundo eu desejo a você. E você não sabe, mas deixo dez de lado por você. Todas as minhas esposas tiveram filhos múltiplos. A única que amei e quis me casar, só me deu minha outra metade. Se você não quer tudo o que construí pra você, não faz sentido ter.
- Está bem, papai. Eu vou estudar, e quando tiver formado, volto e me caso, ok?
- Combinado.
- Mas eu tenho uma exigência. Não quero uma muçulmana.
- Vamos falar nisso quando for a hora.
- Negativo. Isso não é negociável. Quero uma ocidental que não vai aceitar uma segunda esposa.
- Se eu tiver sua palavra que você vai voltar e se casar, e que mesmo que seja uma ocidental, ela vai entrar em nossos costumes, você tem minha palavra que eu permito você se casar com quem quiser!