Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > Contrato Inevitável
Contrato Inevitável

Contrato Inevitável

Autor:: Bruna Calil
Gênero: Romance
Elena Romano é uma atriz que perdeu a memória, e não se lembra de coisas muito importantes, como por exemplo, o dia em que se meteu em uma grande confusão junto a Dimitri Russo, um homem bastante cruel e seu futuro marido. O contrato de casamento entre os dois é feito, mas Dimitri parece odiar a moça... Até o momento em que ele percebe que ela é, sim, seu verdadeiro amor. Elena precisa descobrir sobre seu misterioso passado, e tenta encontrar o homem que salvou sua vida anos atrás. Quem é esse homem misterioso? Venha descobrir!

Capítulo 1 01

ELENA ROMANO NARRANDO

Eu não esperava estar me casando aos vinte e oito anos com um homem como Dimitri Russo, mas aqui estou eu. Ao invés de trocarmos olhares apaixonados como todo casal, estamos sérios, vez ou outra fingindo um sorriso para os convidados. O cerimonialista está dizendo lindas palavras sobre o nosso amor que não existe, e isso faz com que eu me sinta levemente culpada pelo tamanho da mentira que estamos contando. Meu avô, na plateia, sorri para mim e acena com alegria... Afinal, estou realizando seu sonho, me casando com o que ele considera "um bom homem".

A família Russo é extremamente rica, e Dimitri é o irmão mais velho. Ele aproveitou muito bem sua solteirice pelo que sei, e agora que foi abandonado praticamente no altar por Elle Ryans, aqui estou eu, fingindo ser sua amada "E. R." como os convites do casamento diziam. Quem diria que as iniciais do meu nome poderiam me enfiar em uma furada dessa?

Depois que a cerimônia acabou e trocamos alianças, todos aguardavam o beijo dos noivos.

- Por favor, me beija. - Eu sussurrei. - As pessoas estão esperando.

Contrariado, Dimitri sorriu de forma falsa e me deu um selinho rápido.

Saímos da cerimônia de mãos dadas e direto para a festa. Ele não suportava minha presença, ao que parecia. Saiu andando para cumprimentar os convidados e eu fiquei para trás, vestida de noiva e assustada. Mas, não tinha o que fazer... Aceitei esse contrato e preciso erguer a cabeça, fingir que está tudo bem e atuar. Acho que no final das contas, esse é o papel mais importante da minha vida, afinal... Sou uma atriz falida com muitos escândalos nas costas.

- Nem acredito que alguém como Dimitri se casou com... Aquelazinha. - Ouvi uma convidada falando. Respirei fundo e fingi que não ouvia.

- Pois é. Uma mulher tão cheia de escândalos... Pelo que me lembro, ela protagonizou aquele filme ridículo com lobos e fadas. - A outra, com quem conversava, falou.

- Aquele filme é um horror. E a atuação dela é péssima.

Vi as duas darem risada e aquilo embrulhou meu estômago. Eu sei que fiz péssimas atuações, talvez eu não tenha nascido para ser atriz, mas... Ainda tiro um bom dinheiro com minha profissão. Falem bem ou falem mal, eu continuo enriquecendo.

A festa acontecia no grande jardim da mansão dos Russo. Depois que acabou e os convidados começaram a ir embora, apesar do casamento não ter acabado, Dimitri me chamou com a mão e eu fui até ele.

- Sim? - Eu o olhava nos olhos, tentando entender o que ele queria.

- Venha comigo até o meu escritório. - Disse, e eu concordei com a cabeça.

Caminhamos juntos pela casa e assim que entramos em seu escritório, ele trancou a porta. Seu olhar pra mim era de ódio, e eu sequer sabia o motivo. Acho que no fundo, ele me odeia pelo fato de eu ser Elena Romano, uma atriz falida, e não minha amiga, Elle Ryans. Talvez o ódio dele sequer seja por mim, e sim por toda situação... Mas eu não consigo entender, apenas suponho, porque Dimitri sequer tem uma conversa decente comigo.

Dimitri tirou uma pasta de dentro de uma gaveta que ele abriu com chave e enquanto mexia dentro dela, eu o observava. Ele é um homem lindo. Aquele cabelo castanho longo preso em um coque, a maldita barba comprida e os olhos castanhos com sobrancelhas sempre cerradas encantam qualquer mulher, seja pobre ou rica. Seus ombros largos e corpo forte também encantam, mas não para só por aí. Ele não se veste como a droga de um mauricinho qualquer. Ele se veste como um bad boy pronto pra sugar sua alma se você deixar. Aqueles malditos anéis e correntes, sempre presentes no seu visual pesado, o deixam com um ar repleto de mistério. E eu odeio o fato de achar esse homem tão bonito, e ao mesmo tempo, tão detestável.

- Aqui está. - Ele disse, tirando um envelope de dentro da pasta e então, tirando os papeis dali de dentro. Pegou uma caneta de cima da mesa, e os assinou.

- O que é isso? - Questionei, o olhando.

- Nosso divórcio. Assine. - Ele entregou a caneta para mim, assim que terminou de falar.

Nossos olhares se cruzaram por alguns instantes. Eu engoli seco, não sabia o que fazer.

- Não foi isso que combinamos, Dimitri. - Eu falei, pegando a caneta de sua mão. Continuei olhando nos olhos castanhos de Dimitri, tentando entender o que se passa nessa cabeça rebelde.

- Eu não quero continuar casado com você por nenhum segundo a mais. Esse acordo foi um erro e uma perda de tempo. Por favor, assine o acordo de divórcio e anulação do casamento. - Ele falou, com o olhar frio para o meu lado.

Comecei a lembrar do motivo de eu ter aceitado esse contrato: Meu avô. Meu doce avô, que cuidou de mim pela vida inteira, e está a beira da morte. Seu sonho era ver eu me casar com alguém bom que cuidasse de mim, me ajudasse em minha carreira e me amasse incondicionalmente. Eu juro que tentei realizar esse sonho para ele, mas nunca consegui alguém que me amasse. Então, quando Dimitri me fez essa proposta insana, eu aceitei... Para ver meu avô sorrir nos seus últimos dias de vida.

- Dimitri, eu assino. Mas... Por favor, eu te imploro, finja ser meu marido ao menos por um mês. Meu avô não tem tantos dias de vida e... Quando eu aceitei esse contrato, te falei que era esse o motivo. Se eu me separar agora, isso será uma decepção para ele. Você entende? - Dimitri fechou os olhos e massageou as têmporas. - Eu não vou dar trabalho pra você, eu prometo.

- Você vive metida com escândalos, Elena. Como vou acreditar que você não vai me dar trabalho? - Ele disse, nervoso. - Sabe o que vai acontecer? Você vai arrastar a minha reputação para o fundo do poço, que é aonde você mora.

Tive vontade de chorar, mas prendi o choro.

- Por favor, Dimitri... Não faz isso comigo! Eu te livrei de uma vergonha imensa à nível nacional, o que custa você fingir ser meu marido por trinta dias? Você não vai precisar beijar essa atriz falida que você tanto odeia, não se preocupe. Não vai precisar me tocar ou olhar muito para a minha cara. Eu prometo pra você, vou me comportar. - Falei. Era meu último apelo.

Dimitri me olhou com piedade por alguns instantes. Depois, olhou para baixo, respirando fundo.

- Trinta dias, Elena. Apenas isso. - Eu sorri aliviada ao ouví-lo, e assinei o contrato de divórcio, ainda que relutante.

Entreguei o contrato para ele e ele o pegou, guardando na pasta.

- Obrigada por esperar. - Falei.

- Tanto faz. - Ele retrucou e respirou de forma profunda. - Eu espero que você não esteja armando pra cima de mim. - Disse, nervoso.

- Armando pra cima de você? Por que eu faria isso? - Questionei, com os olhos arregalados em extrema confusão.

- Ainda pergunta por quê? - Ele riu de forma debochada, quase como se minha pergunta fosse um absurdo.

Antes, ele que estava separado de mim por uma mesa, cruzou o espaço entre nós e segurou meu braço com firmeza. Ele estava sendo um cretino grosseiro.

- Dimitri, está machucando meu braço. - Reclamei, e ele girou os olhos, afrouxando a mão.

- Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, linda. Eu odeio você, e tudo que você faz. Esse contrato de casamento foi um erro e nós vamos consertar em trinta dias. Agradeço pelos serviços de atriz se casando comigo, mas, se você aprontar qualquer coisa, eu vou acabar com você e com o restinho de reputação que você tem.

Eu engoli seco ao ouvir aquelas palavras. - Eu juro que não vou aprontar. - Falei e ele sorriu de forma irônica.

- Isso é bom para nós dois. - Disse. - Agora... Vamos, preciso fazer uma coisa.

Ele saiu me arrastando pelo braço, e eu fui andando com ele, meio que obrigada, já que estava sendo arrastada.

- Você poderia por favor parar? Está me machucando! - Pedi e ele parou de me arrastar. Bufou, ofereceu a mão para mim e eu a segurei. - Assim está melhor.

Ele andava com pressa. Meu vestido de noiva era simples, e dei graças a Deus por isso, afinal, seria difícil andar daquele jeito com um vestido extravagante.

Apesar de ser um casamento falso, eu dei o meu melhor. Comprei um vestido de seda cintilante, branco, com decote canoa, no modelo sereia. Eu estava com um coque no meu cabelo castanho, e passei uma maquiagem linda em todo meu rosto, mas foquei em destacar meus olhos castanhos enormes. Sim, eu estava bonita, mesmo aquelas cretinas que estavam falando mal de mim se surpreenderam com a elegância com que me vesti.

- Dimitri, aonde estamos indo? - Perguntei.

Dimitri não respondeu. Os convidados tentavam falar conosco, mas ele ignorou. Alguns fotógrafos tentavam se aproximar de nós do lado de fora da mansão, e até alguns repórteres, mas ele fez algo inusitado: Me usou como uma espécie de escudo humano para ir até o carro e, quando chegamos, ele entrou, sem sequer abrir a porta para mim. Excelente jeito de começar um casamento.

Entrei no carro e cruzei meus braços, enquanto ele começava a dirigir sem dizer nada.

- Dá pra você falar alguma coisa? Você tá sendo um perfeito cretino, sabia? - Eu reclamei. Ele dirigia, olhando para fora do carro, como se nada estivesse acontecendo... Como se eu sequer estivesse ali.

Depois de despistar um último fotógrafo que nos seguia de carro, ele respirou aliviado e eu também.

- Bom... Pelo menos não estamos mais sendo seguidos. - Eu comentei, tentando puxar assunto. Aquele silêncio era pior do que qualquer coisa.

Então, no meio da estrada, ele parou no acostamento, próximo a um restaurante. Ele desceu do carro e eu fiquei confusa, mas então, ele abriu a minha porta e me puxou para fora do carro.

- Ei, o que está fazendo? - Perguntei.

- Ligue para alguma amiga para te buscar. Tenho mais o que fazer. - Ele disse e foi andando para o lado do motorista.

Não acreditei no que ele fez. Comecei a chorar imediatamente e assim que ele entrou no carro, eu tentei abrir a porta do passageiro, mas era tarde. Ele havia trancado para que eu não entrasse mais.

Eu vi o carro partindo, e fiquei para trás. Hoje é definitivamente o pior dia da minha vida, e não adianta chorar, me meti nessa sozinha. Limpei minhas lágrimas, arrasada por tudo que aconteceu, e fui caminhando pelo acostamento.

Meus pés começaram a doer. Eu estava de sandálias, então as tirei e joguei longe.

- Maldito Dimitri! Maldito! - Gritei, em meio ao ódio e tristeza que sentia.

Comecei a pedir carona, mas quem pararia para uma pessoa vestida de noiva, chorando, no meio da estrada? Eu estou parecendo algum tipo de lenda urbana local, daquelas que contam para os caminhoneiros nos hotéis de beira de estrada. Mas então, um carro finalmente parou e eu fiquei surpresa ao ver quem estava dentro.

- Elena? - Ele disse, com os olhos arregalados.

- Oi, Timmy. - Falei, entrando no carro.

Timmy é o irmão mais novo da família Russo. Ele tem cinco anos a menos do que o idiota do Dimitri, portanto, tem vinte e cinco anos.

- O que aconteceu? - Perguntou. Eu apenas coloquei o cinto e neguei com a cabeça.

- Olha... Só me leva pra casa, tá? - Pedi, o olhando.

Ele concordou com a cabeça, e voltou a dirigir.

Capítulo 2 02

ELENA ROMANO NARRANDO

Abro meus olhos e a luz vinda de uma fresta na porta do quarto parece atormentar meus miolos. Ouço um barulho vindo do banheiro principal do andar, como se alguém estivesse tomando banho. Olhei para mim mesma, estou vestida de noiva ainda, então, estou bem. Eu bebi tanto ontem a noite que não faço ideia do que aconteceu.

Estamos na mansão dos Russo, eu estou ficando aqui por algum tempo, por causa do casamento. Saí do quarto para tentar entender o que aconteceu, e então, fiquei chocada ao ver Timmy saindo do banheiro enrolado em uma toalha, apenas, e cobri meu rosto com as duas mãos.

- O que é isso, Timmy? - Falei, apavorada.

- Ah, você encheu a cara e vomitou tudo em mim. - Ele disse, na maior naturalidade do mundo.

- Que nojo! Meu Deus, me perdoa! - Eu falei e ele passou para um quarto.

Eu fiquei parada no meio do corredor, tentando lembrar o que aconteceu. Alguns flashs vieram na minha cabeça. Virei diversas tequilas pra dentro com o estômago vazio e acabei sendo trazida por Timmy, nos braços, até o quarto. Eu bebi tanto que não conseguia andar mais.

Timmy voltou para o banheiro, vestindo apenas um short. Ele carregava a toalha e começou a se olhar no espelho, dentro do banheiro. Depois, saiu e parou na minha frente.

- Não é muito comum as noivas passarem a noite de núpcias enchendo a cara com o irmão do noivo, sabe? - Ele sorriu de forma maliciosa e eu arregalei os olhos.

- Eu não devia ter feito isso. Me desculpa por essa noite, sério.

Naquele momento, Dimitri chegou e passou no meio de nós dois, trombando propositalmente comigo e com Timmy.

- Tiveram uma noite boa? - Dimitri disse, com um sorriso malicioso e irônico nos lábios. Passou a mão nos próprios cabelos, enroscando os fios castanhos nos anéis enormes que usa.

- Você está sugerindo que dormi com seu irmão, Dimitri? - Eu o olhei nos olhos, decepcionada e até um pouco raivosa. Franzi o cenho, e ergui a cabeça.

- Eu não sei, me diz você. - Ele se aproximou de mim, me olhando com ódio.

O único problema é que ele estava perto demais de mim. Nós nos olhávamos, profundamente nos olhos. Faíscas saíam dos nossos olhos. Não sei quanto tempo perdemos encarando um ao outro com raiva.

Timmy colocou a mão no ombro do irmão e tirou Dimitri daquele transe louco que estávamos.

- Não aconteceu nada, irmão, não seja louco. Nós bebemos um pouco, afinal, vocês parecem ter brigado após o casamento e sua noiva ficou triste. - Ele disse e Dimitri me olhou de cima a baixo.

- Ah, bom. - Dimitri respondeu.

- Vou deixar vocês a sós. - Timmy foi saindo, mas antes disso, sussurrou perto de mim, bem baixo. - Sei dos seus segredos, Elena. Você é uma verdadeira bocuda quando está bêbada.

Eu fiquei em pânico, mas não demonstrei. O que diabos eu contei pra ele enquanto estava bêbada? Por que eu não consigo me lembrar de tudo que aconteceu ontem? Deus, eu bebi tanto assim?

Eu voltei a olhar para Dimitri, que ainda me encarava com ódio.

- Por que você fez aquilo? Por que me deixou no meio da estrada vestida de noiva, Dimitri? - Eu falei e ele cruzou os braços.

- Elle Ryans voltou. É ela que eu amo, e como eu disse, esse contrato foi um erro e uma perda de tempo. - Eu ri de forma irônica ao ouvir o que ele disse.

- Elle te deixou sozinho, prestes a passar a maior vergonha da sua vida, e eu assumi o papel. Não sei se você se lembra, mas esse casamento só aconteceu por causa do pé na bunda que você levou. - Eu sorri de forma vitoriosa ao terminar de falar.

- Esse contrato aconteceu porque nós dois precisávamos de parceiros por um momento. Seu avô pareci tão orgulhoso da netinha encrenqueira... - Ele apertou minha bochecha da mesma forma como apertamos a bochecha de uma criança.

- Por Deus, você é ridículo. - Girei meus olhos e saí de perto dele. - Nós precisamos ajeitar alguns detalhes sobre o... - Quando virei para trás, Dimitri havia me deixado falando sozinha.

Onde eu fui me meter? Eu estou me sentindo humilhada e triste. Parece que Dimitri quer me fazer desistir a todo custo! Mas eu simplesmente não posso, afinal, o que meu avô diria de ver a única neta terminando o casamento que mal começou? Ele provavelmente morreria de desgosto, e não sou eu quem vai mata-lo assim!

Entrei no banho e finalmente pude relaxar um pouco. Enquanto lavava meus cabelos, as lembranças do abandono na estrada me atormentavam. Eu estou passando por uma grande prova para deixar meu avô feliz, está sendo muito dolorido... Talvez eu deva desistir. Mas lembrar do sorriso dele, aplaudindo o meu casamento, me faz querer continuar com isso.

Me troquei e penteei meu cabelo castanho. Enquanto terminava de fazer isso em frente ao espelho, comecei a lembrar de Dimitri. Os olhos dele me atormentam, e me trazem uma confusão que não consigo entender. A forma maliciosa como sorri me causa arrepios. Não sei o que está acontecendo comigo nesse momento, só sei que lembrar dele me tira o ar. Por Deus, estou com síndrome de Estocolmo? Porque sinceramente, esse homem só me faz mal!

Depois que terminei de me trocar, eu vi Dimitri passando com uma mala de viagem e arregalei os olhos em susto. Como assim? Para onde ele está indo?

- Dimitri? - Eu saí do quarto, o olhando, chocada. - Aonde você vai?

- Embora, Elena. Eu vou embora. Não suporto ficar no mesmo teto que você. - Ele disse e aquilo me enfureceu. - Eu vou precisar que assine mais alguns papeis para o divórcio, então, um assistente meu irá te procurar... Assine nas datas corretas, por favor. Não quero que o cartório segure os documentos por erros seus.

Eu fui até ele, nervosa, e comecei a bater em seu peitoral enquanto lágrimas escorriam por meu rosto. Eu sentia uma vazão daquele monte de sentimentos contidos dentro de mim.

Os olhares de ódio, o abandono na estrada, os papeis do divórcio. Tudo girava na minha cabeça como a droga de um furacão destruidor.

- Por que você me odeia?! Por quê?! O que eu te fiz?! - Eu gritava.

Dimitri segurou meus punhos e me olhou com raiva.

- Você é uma péssima atriz, mesmo. Vai fingir que não sabe? - Ele disse, me olhando nos olhos, com o mesmo ódio de antes. - Você arruinou minha vida. Tirou tudo que eu tinha, tudo!

Eu fiquei em silêncio. Meu coração se partiu em migalhas quando ouvi o que ele disse. Talvez eu tenha nascido meio burra, não sei, mas eu realmente não entendo o que eu fiz de tão grave para ele achar que arruinei a vida dele. Minha reputação é tão horrível assim para alguém se sentir péssimo em se casar de mentira comigo?

- Me desculpa! - Eu falei, e ele soltou meus punhos.

Dimitri girou os olhos e pegou a mala mais uma vez, e foi embora como disse que faria. Ele não olhou para trás e eu fiquei sozinha, me sentindo um verdadeiro copo de plástico descartável.

Fui de volta para o quarto e chorei. Chorei tanto que perdi o ar. Eu queria que alguém enxergasse meu valor, mas isso nunca aconteceu. Talvez a solução seja... Não, eu não posso fazer isso, não enquanto meu avô estiver vivo. Mas talvez, após a morte dele, eu misture alguns remédios fortes o suficiente para dormir para sempre.

Depois de chorar muito, peguei meu telefone e comecei a olhar as notícias do dia. Ao menos não tinha nenhum escândalo envolvendo meu nome... Ao menos ninguém viu a noiva abandonada na estrada, ou a noiva bêbada que encheu a cara de tequila e perdeu a consciência ao lado do irmão do noivo. Sabe, no fundo, eu entendo o Dimitri, eu sou uma pessoa ridícula, mesmo.

Meu celular começou a tocar, e eu vi uma foto do meu avô na tela. Limpei as lágrimas, respirei fundo e atendi.

- Oi, vovô! - Falei.

- Oi, minha recém-casada mais querida! Como você está, filha? Como está seu primeiro dia como esposa? - Ele questionou.

- Está sendo maravilhoso! - Menti de forma descarada.

Se eu contasse tudo que aconteceu no dia de hoje, meu avô provavelmente choraria comigo, e eu não quero isso.

- Que bom, minha filha!

- E você, como está? - Questionei.

- Estou com um pouco de tosse... Cansado, como sempre. Mas estou do jeito que deveria estar. - Disse, e respirou fundo. - Sou um velho à beira da morte, vou fazer o quê?

- Não diga isso, vovô... Você nem sabe quando vai morrer. - Eu falei.

A gravidade da situação não lhe daria muito tempo, e tenho me preparado para perde-lo em uma, talvez duas semanas, no máximo. Oro a Deus pedindo que ele salve meu avô, mas ele já está velho demais... Não acho que ele conseguiria sair dessa, não dessa vez.

- Mas é a verdade, filha. Você precisa ser forte e estar preparada para quando minha hora chegar. Vai dar tudo certo, no final das contas. Você é uma boa menina e agora que está casada, não ficará sozinha. Eu terminei meu serviço e vou morrer em paz.

Aquelas palavras soavam como pisar em cacos de vidro.

- Vovô... - Eu protestei.

- Tudo bem, falamos disso outra hora. Como estão as coisas com a família do seu marido? Tudo bem? - Ele perguntou.

- Tudo ótimo, eles me adoram. - Menti mais uma vez. A mãe de Dimitri sequer olha na minha cara.

- Certo... Bom, eu vou desligar, pois estou muito cansado. Mas foi um prazer imenso falar com você, filha. Quando puder, ligue para seu velho e venha me ver... Vou sentir sua falta. - Ele disse e desligamos o telefone.

Capítulo 3 03

ELENA ROMANO NARRANDO

Acabei voltando para o meu apartamento, pois não queria ficar sozinha na mansão dos Russo. Fechei meus olhos, já deitada na cama, e busquei paz em meus pensamentos... Mas era como se minha cabeça processasse milhões de informação por segundo. Abracei um travesseiro extra que estava na cama e respirei fundo. O que não me deixa dormir não tem a ver com a droga do contrato de casamento ou com o fato de eu ter sido abandonada na estrada. Eu não estou conseguindo pegar no sono porque toda vez que fecho meus olhos, vejo os olhos de predador de Dimitri me olhando. E quando eu digo "olhos de predador", é porque uma vez, assisti em um documentário que predadores tem olhos diferentes: Suas pupilas são menores e se fecham o suficiente para enxergar uma presa parada há quilômetros de distância. Aqueles olhos castanhos avermelhados tem algum tipo de magnetismo, e o pior, eles são realmente olhos de predador. Ele tem as pupilas menores, eu reparei.

Fechei meus olhos com mais força, esperando que a imagem do rosto dele se afastasse da minha mente... Mas não foi exatamente o que aconteceu.

Quando abri meus olhos, ele estava deitado na minha frente. A luz da lua quebrava a escuridão do meu quarto e me dava a visão de algo mais escuro ainda: Os olhos dele, com pupilas agora dilatadas, peito arfante, e o rosto próximo o suficiente para que eu pudesse sentir sua respiração.

- O-o que está fazendo aqui? - Foi o que consegui falar.

Ele subiu por cima de mim, sem dizer uma palavra sequer. Tentei empurrá-lo, mas ele agarrou meus braços e os prendeu acima da cabeça. Ele roçava o nariz por minha bochecha e o deslizou por minha pele até alcançar meu pescoço. Eu engoli seco e tentava controlar as reações do meu corpo, mas eu não conseguia. Minha pele estava completamente arrepiada e eu estava embriagada com a presença dele. Podia sentir o cheiro amadeirado de seu perfume caro, e o toque rústico de sua mão em meu corpo. Ele roçava os lábios nos meus...

E então, eu acordei no susto. Meu coração estava tão acelerado que meu relógio de pulso marcou como se eu estivesse fazendo exercício físico. Passei as duas mãos em meu próprio rosto, tentando esquecer aquilo, e segui a minha vida.

Três dias após o casamento, eu não tive mais nenhuma notícia de Dimitri. Ele desapareceu. Eu fiquei assustada, pois nem uma mensagem simples ele respondia. Nem falou nada sobre os papeis que eu devia assinar e seu assistente não me procurou, então, eu estava totalmente no escuro.

Decidi ir até a mansão dos Russo, para ver se alguém me dava alguma notícia. Talvez ele tenha ido embora com Elle Ryans, mas ele poderia ter ao menos cumprido a parte dele do acordo, afinal, eu o ajudei e estou recebendo apenas desprezo em troca.

Fiquei surpresa com a quantidade de carros em frente à mansão e, quando entrei, percebi que estava acontecendo um evento. E o pior: Meu "marido" estava nele, e acompanhado por Elle! Senti meus joelhos falharem de tanto nervoso, mas respirei fundo e segui em frente. Eu não podia fazer nada além de exigir uma explicação.

Timmy apareceu primeiro, e me cumprimentou. Eu aproveitei para falar com ele sobre a noite em que bebi e não me lembro do que aconteceu.

- Ei, Timmy! - Falei, o cumprimentando. - E aí, tudo bem?

- Tudo, e você? - Questionou. - Três dias são mais que suficiente para melhorar de uma ressaca monstro que você deve ter tido depois daquela bebedeira, não é? - Perguntou e eu sorri.

- Eu estou ótima. Só que... Você me disse uma coisa na última vez que me viu. Que segredos, exatamente, você sabe sobre mim? - Questionei e ele sorriu de forma maliciosa.

- Esqueça isso, é melhor pra você.

Antes que Timmy continuasse a falar ou eu perguntasse mais alguma coisa, Dimitri apareceu e me lançou um olhar de raiva. Aquele olhar predador maldito que me fez arrepiar dos pés até a cabeça.

- O que está fazendo aqui? Eu não te convidei para o coquetel, Elena. Você não deveria estar aqui. - Eu cruzei meus braços e neguei com a cabeça.

- Você não cumpriu sua parte do acordo. Me prometeu trinta dias, e depois de três dias, já está agindo como um divorciado. - Eu sussurrei para ele, que segurou em meu braço e me levou para um canto.

- Você não pode estar aqui no meio dessas pessoas. Me desculpe, Elena, mas pessoas da alta sociedade como meus convidados não suportariam olhar pra sua cara. - Disse, com os dentes cerrados, ainda que sussurrando.

- Ei, eu convidei a Elena. - Timmy disse, entrando na briga entre eu e seu irmão.

- Eu acho melhor você não andar com esse tipo de gente, ou vai acabar corrompendo sua imagem de bom moço. - Timmy sorriu de forma irônica para Dimitri, e negou a cabeça.

- Você sabe algo sobre ter uma boa imagem? Porque eu acho que não, "motoqueiro de calendário pornô". - Ele piscou um dos olhos para Dimitri, que fechou o punho e fez menção de acertar o irmão.

Eu segurei os braços de Dimitri, o impedindo de agredir Timmy.

- Por favor, Dimitri, não precisamos disso. Eu não vou ficar, eu só queria falar com você e esclarecer algumas coisas. Deixa pra lá, por favor. - Eu pedi.

Estava assustada. Dimitri parece ser um homem incontrolável, mas ao menos por hora, consegui controla-lo. Só que, como toda desgraça na minha vida é pouca, a minha querida sogra, Gabriela Russo, veio em nossa direção segurando uma taça de champagne. Ela me odeia muito mais do que Dimitri me odeia.

- Olha só quem apareceu... Não sabia que havia sido convidada. - Ela disse, de forma irônica. Seu cabelo loiro tingido e o colar de pérolas me fazem querer vomitar.

- Eu não sei se você se lembra, mas seu filho se casou comigo. - Falei, com a mesma ironia na voz que ela apresentou.

- Ah, olha quem está aqui! Elle Ryans! - Ela disse, alegremente, enquanto Elle se aproximava.

A saudação para Elle foi extremamente cordial e alegre. Ela conseguiu me fazer sentir pior do que eu já estava sentindo com aquilo.

- Oi, minha amada. - Elle respondeu, abraçada com ela.

Depois que se soltaram do abraço, Elle acenou para mim como se nada houvesse acontecido entre nós. Eu abaixei o rosto, completamente constrangida com a situação.

- Timmy, leve a Elena embora, por favor. Ela não precisa estar aqui, como já falei algumas vezes. - Dimitri disse, e eu olhei para ele pesarosa.

Um dia, talvez eu entenda o motivo de tanto ódio. Até lá, eu só posso aceitar.

Quando me virei para ir embora, algo aconteceu. O universo é implacável com a vingança, e eu não precisei mover uma folha sequer. Uma empregada tropeçou no vestido de Gabriela Russo, a mãe de Dimitri, e acabou derrubando seis taças de champagne em seu vestido caro. O líquido espirrou no vestido de Elle também, e todos se assustaram com o barulho. Dimitri foi ajudar Elle, e passou a mão vagarosamente por sua barriga, o que me fez ter um pensamento estranho: Será que Elle está grávida?

A música voltou a tocar enquanto limpavam a bagunça que acabava de acontecer. Então, o avô de Dimitri chegou, cumprimentando a todos com alegria... Inclusive eu.

- Olá, minha querida! - Ele disse, com um sorriso no rosto. - Que alegria em te ver aqui!

- Vô, aconteceu uma desavença entre nós, o casamento... - Dimitri tentou falar, mas o avô o interrompeu.

- O casamento continua. Porque ela é a mulher certa pra você, Dimitri Russo. Na nossa família somos contra o divórcio, você sabe muito bem. Então... É melhor você repensar no que iria falar, e começar de novo essa conversa. - O avô completou. - Aconteceu uma desavença, e aí? O que fazemos quando há uma desavença? - O avô disse, olhando Dimitri nos olhos.

- Conversamos e consertamos. - Dimitri respondeu, envergonhado.

- Isso mesmo, muito bem. - O velho sorriu. - E você, Elle Ryans, o que está fazendo aqui? Não é adequado que a ex-noiva do meu neto esteja em um evento como esse! - Elle deu um passo para trás.

- M-mas eu fui convidada! - Ela protestou.

- Se a lista de convidados tivesse passado por minhas mãos, como eu pedi, você não estaria aqui. Ainda mais depois de tudo que fez, senhorita Ryans. Por favor, se retire. - O avô disse.

Elle saiu constrangida da festa, com as mãos no rosto. Dimitri ficou sem saber o que fazer. Se ele fosse atrás de Elle, estaria desrespeitando seu avô... Se ele ficasse aqui, provavelmente arrumaria uma briga enorme com Elle.

Eu sorri de leve com a situação. Quando ele me olhou nos olhos, vi seu ódio no rosto e ergui uma das minhas sobrancelhas.

- Cheque-mate, bonitão. - Sussurrei.

Dimitri pegou minha mão com raiva e saiu me arrastando pelo salão, me levando para o mais longe possível de sua família. Ele respirou fundo e parou em um local afastado, passou as duas mãos no próprio rosto e me olhou com o mesmo ódio de sempre.

- Quem você pensa que é para vir aqui e estragar tudo que eu estou tentando construir? Já não basta ter destruído minha vida uma vez, vai querer destruir pela segunda? - Eu neguei com a cabeça, o olhando nos olhos com muita sinceridade.

- Eu realmente não faço ideia do que você está falando, Dimitri. Você quem está estragando as coisas. Me prometeu trinta dias e se divorciou de mim em três. Isso é ridículo! - Eu falei, sem tomar cuidado com a altura do meu tom de voz. - Você não cumpriu sua parte do acordo.

- Você nem devia me questionar sobre isso. Se eu fosse você, teria vergonha. - Cruzei meus braços.

- Mas vergonha do quê, exatamente? Por favor, me diz o que foi que eu fiz para você me odiar tanto! - Eu falei.

Dimitri negou com a cabeça e saiu andando, pelo mesmo caminho que Elle fez. Foi então que eu percebi que estava sozinha... De novo. E não tinha mais o que fazer.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022