A noite trazia uma brisa suave, repleta de promessas de dias melhores, enquanto observava a mulher de beleza radiante caminhando em minha direção. Sentia-me empolgado, embora ela carregasse um semblante perturbado e perdido. Ansioso, decidi me aproximar, segurando sua mão, trazendo-a para mim.
- Você está deslumbrante, meu amor - disse ao admirar Patrícia, minha noiva. Ela usava o vestido rosa-claro que lhe presenteei, estava impecável, porém parecia surpresa com minha atitude de reservar um restaurante apenas para nós dois, uma noite exclusiva nossa.
- Oi, amor, que lindo! - Ela sorriu, mas percebi um vazio por trás dele, sua falta de emoção começava a me decepcionar, mas naquele momento decidi ignorar. Aproximei meu rosto do seu pescoço, sentindo seu cheiro, um perfume que tanto apreciava em sua pele.
- Sente-se, amor. Está noite é nossa - falei, deixando um suave beijo no dorso de sua mão. Ela me olhou confusa, seus olhos revelando uma inquietação que me angustiava.
- Precisamos conversar, Rodolfo! - Declarou, apreensiva.
- Podemos conversar depois do jantar. Sente-se! - Disse, ela obedeceu sem questionar, sentando-se à minha frente. Seu corpo estava presente, mas sua mente parecia distante, seus pensamentos vagueando longe dali. Enquanto bebíamos vinho, eu a observava. Essa mulher é maravilhosa, tão bela como as pétalas de rosas-vermelhas espalhadas pelo chão.
Levantei-me e estendi a mão para dançar com ela, querendo que a noite fosse perfeita. Movemo-nos juntos, trocando olhares, até que me aproximei para beijá-la, mas ela interrompeu nossa dança, virando-se de costas para mim.
- Desculpe, Rodolfo, não posso continuar - fiquei confuso, incapaz de entender sua atitude. Aproximei-me devagar, tocando sua cintura e descansando meu rosto em seu pescoço, tentando argumentar com carinho.
- O que está acontecendo, minha linda? Por que isso agora? - Sussurrei em seu ouvido.
- Chega, eu não quero mais. Não desejo ser sua noiva, nem sua esposa - garantiu, me deixando perplexo. Olhei ao redor preocupado com que alguém pudesse escutar a nossa conversa. Minha reputação era importante e ser rejeitado pela minha noiva durante um jantar romântico era inaceitável.
- Fale mais baixo! Por que está dizendo isso? - Repreendi.
- Porque eu não quero mais. Você tem sido insensível e distante, isso não é para mim - seu olhar vazio me cortava, era difícil acreditar que aquela mulher pela qual eu era tão apaixonado proferia palavras tão frias.
- Eu? - Questionei, realmente surpreso. - Preparei tudo isso para você e eu sou insensível? Este salão está decorado com pétalas de rosas que mal notou. Posso estar distante, mas é devido aos negócios, você sabe disso - tentei me justificar. - Qualquer tempo que tenho reservo para estar com você.
- Não estou pedindo explicações, Rodolfo. Só quero seguir minha vida sem você - ela afirmou, causando uma dor ardente no peito. Respirei fundo, tentando me acalmar.
- Vamos sair e conversar - tentei me aproximar, mas ela ergueu a mão.
- Não! Não quero mais, entendeu? Se você aparecer em minha casa amanhã, será manchete em todos os jornais: "Rodolfo, CEO renomado, leva um pé na bunda em noite romântica" - disse com desdém. Apertei meu maxilar, sentindo a fúria percorrer meu ser.
- Entendi, Patrícia. Então vá e nunca mais volte. Compreendeu? Não se aproxime de mim novamente!
- Ainda tenho ações na sua empresa, então continuarei presente. Mas fique tranquilo, ficarei distante. Eu não desejo seu mal, Rodolfo, mesmo você sendo um homem vazio - garantiu.
- Eu desejo. Desejo que não encontre alguém que faça o que fiz por você. Você não merece ser feliz! - Ela revirou os olhos.
- Tchau, Rodolfo! - Sorriu, encarando meus olhos ao dizer aquelas palavras, aquilo se fixou como uma tatuagem na minha pele.
- Você vai se arrepender, Patrícia! - Esbravejei e descontei minha frustração derrubando a mesa. Deixei o lugar praguejando aquela mulher.
Como ela pôde me fazer isso? Sempre fui apaixonado por ela, contudo, ela ultrapassou os limites. Admito que tenho estado distante, mas é preciso compreender que, ao lado de um homem de negócios, frequentemente as demandas profissionais assumem a prioridade. Foi assim que meu pai me ensinou, não tive outro exemplo além de trabalhar duramente para fazer minha empresa crescer pelo mundo. Estou sendo egoísta? Pode ser que sim. Mas não sei ser diferente, foi assim que fui criado.
Minha noite acabou e eu dirigia me perguntando o porquê de tudo aquilo, por que palavras tão frias de alguém que eu tanto me dediquei? Por que Patrícia agiu assim?
Respirei fundo, tentando assimilar tudo que havia acontecido. Mas quer saber? Não me interessa mais. Eu não quero saber seus motivos, eles devem ser tão vazios quanto as palavras que me direcionou.
(...)
Ao chegar em casa, segui diretamente para o bar e me servi de uma generosa dose de uísque. No entanto, quanto mais eu bebia, mais as lembranças daquela mulher começavam a invadir minha mente. Ela não deveria ter feito aquilo comigo. Não podia ter esperado até depois do jantar? Precisava agir de forma tão fria diante de algo tão romântico?
Naquele instante, quaisquer sentimentos que residissem em mim foram extirpados. Tomei a firme decisão de nunca mais me entregar a qualquer mulher; elas não são dignas do meu amor. Enquanto ingeria o álcool, meus olhos se fixaram na fotografia de nós dois, e ali, entre goles e memórias, jurei a mim mesmo vingar-me de Patrícia. Ela não ficaria impune. Muito em breve, sentiria todo o peso de ter despertado a minha ira e o ardente desejo de vingança!
Rodolfo Barros
Duas semanas depois
Após o fim do meu noivado com Patrícia, minha vida mudou drasticamente. Afoguei minhas mágoas no álcool, frequentei lugares com acompanhantes de luxo, mas nada parecia apagar o que ela me fez passar. Contudo, o alívio veio com o seu total desaparecimento; ela não deu mais notícias e desejo que continue assim, distante, para todo o sempre.
Após conversar com Selena, uma grande amiga, tomei a decisão de encontrar uma mulher e propor-lhe um contrato pré-nupcial. Desejo ardentemente que Patrícia perceba que consegui seguir adiante, que estou bem e acompanhado. Desde o fim do meu noivado, fui alvo de diversas calúnias: pintaram-me como um homem grosseiro, rude e frio. Rotularam-me, injustamente, como alguém insuportável e insinuaram infidelidades que jamais cometeria, pois a traição não se alinha aos meus princípios.
No dia seguinte ao término doloroso com minha ex-noiva, minha equipe de comunicação emitiu uma nota conjunta em meu nome e no dela. Enviei instruções para que ela recebesse a versão que deveríamos apresentar, ameaçando processá-la se tentasse expor algo sobre mim.
Meu nome é Rodolfo Barros e atualmente desempenho a função de CEO na RB Construtora, especializada no setor da construção civil. Nasci em Santa Catarina, mas minha infância e juventude foram moldadas pelo dinamismo da grande São Paulo, cidade que me acolheu e educou. Atualmente, vivo em uma espaçosa mansão em Alphaville, enquanto o escritório principal da minha empresa fica situado no coração de São Paulo. Além das minhas responsabilidades na RB Construtora, também participo ativamente na administração do negócio familiar, onde tenho a oportunidade de trabalhar ao lado do meu primo Gustavo, que é um irmão para mim, já que fomos criados como tal.
Gustavo e eu estávamos em um restaurante, buscando a mulher ideal para representar o papel de minha esposa para que eu pudesse esfregar na cara da imprensa que não sou o que eles andam divulgando por aí. Preciso restaurar minha reputação, porém mais do que isso, desejo que Patrícia se arrependa profundamente pelo que me fez.
- Aquela ali, Rodolfo - Gustavo chamou minha atenção apontando para uma moça sentada sozinha.
- Você acha mesmo? - Arqueei a sobrancelha enquanto a observava. Notei que ela olhava mais para Gustavo do que para mim.
- Ela seria uma ótima esposa, concorda? - Questionou, empolgado.
- Para mim ou para você?
- Deixa de paranoia, cara - afirmou ele, rindo. - Ela é bonita, não custa tentar.
- Tem razão, mas preciso abordá-la de forma discreta, nada exagerado - comentei voltando meu olhar para a ruiva.
- Vai lá, seja cavalheiro - aconselhou.
- Deixa comigo - levantei-me e movi minha cadeira para perto da mesa e caminhei até a moça solitária.
Ela já havia lançado alguns olhares para nossa mesa e, ao me levantar, ela sorriu na direção em que eu caminhava. Segui em sua direção, tentando agir com galanteio, mas falhei ao prestar atenção no movimento ao meu redor. Antes de alcançar a mesa dela, esbarrei acidentalmente em outra pessoa, fazendo com que seu prato caísse ao chão com o impacto do meu corpo. Olhei para a moça que esbarrei, mas antes que pudesse reagir, fui atingido por um turbilhão de palavras furiosas.
- Que droga! Você não olha por onde anda? Olha só o que você fez, cara? Preste atenção! Poderia ter me machucado - a mulher me encarou com raiva, eu olhei para minha camisa manchada de molho de espaguete.
- Você que precisa prestar atenção por onde anda, por acaso é garçonete para sair desfilando com esse prato nas mãos? - Falei nervoso, gesticulando com as mãos.
- Não é da sua conta. Foi você quem não olhou para frente e agora quer discutir? Quero saber quem vai arcar com isso. Não vou pagar por algo que nem tive a chance de comer - a morena não parava de falar e naquele momento, eu só conseguia prestar atenção nos lábios lindos que ela tinha.
- Então é esse o problema? E por acaso acha que minha camisa vale menos do que sua refeição? Se você quer discutir sobre isso, então vai pagar pela minha camisa.
- Aff, só me faltava essa - antes que ela pudesse continuar, o gerente se aproximou, tentando acalmar a situação. A mulher estava furiosa e eu observava atentamente seu rosto, ela era realmente muito atraente. Olhar para ela me fez pensar: por que não ela?
Neguei com a cabeça, propor um contrato para uma mulher com tanta personalidade poderia ser arriscado. Mas mesmo assim, resolvi acalmar minha irritação e comecei a considerar convidá-la para sentar à minha mesa.
- Olha, deixa que eu pago isso, não é problema. Esquece a camisa também, está bem? - Falei, olhando para ela, que ainda estava nervosa.
- Está tudo bem, senhorita? - Perguntou o gerente.
- Sim, mas da próxima vez, olhe para frente - ela saiu do restaurante sem me dar a chance de dizer mais nada.
Que mulher estressada, tentei ser gentil e ela ainda saiu irritada me dizendo para prestar atenção? É brincadeira! Eu estava de boa, mas ela conseguiu me irritar.
Desisti da ideia de falar com a ruiva e chamei Gustavo para voltarmos para a empresa. Ele não forçou brincadeiras, percebendo minha real irritação. Normalmente, quando estou assim, ninguém se aproxima, exceto meu melhor amigo Tadeu, que adora testar minha paciência.
Ao chegar, percebi a fila na porta, pessoas deixando seus currículos, já que estamos constantemente contratando. Entrei pelo portão eletrônico e o fechei, pronto para mais uma tarde de muito trabalho.
Leticia Bittencourt
A vida tem se mostrado desafiadora, como se todos os caminhos estivessem emaranhados em obstáculos. Há uma semana, desembarquei em São Paulo, encontrando refúgio temporário no acolhimento da minha amiga Luci. Ela, gentilmente, alocou um pequeno espaço na sala da sua kit net, consciente das limitações do seu próprio quarto minúsculo. A urgência de encontrar um emprego permeia meus pensamentos, pois, do contrário, enfrentarei dificuldades ainda mais acentuadas.
Minha mãe expressa sua contrariedade pelo modo abrupto como vim, sem um planejamento prévio. No entanto, minha decisão fundamenta-se na percepção de que São Paulo oferece mais oportunidades profissionais, alimentando o meu sonho de chamar essa cidade de lar. Originária de uma família humilde, mas não miserável, tivemos uma vida normal até a enfermidade de meu pai. Com minha mãe sendo dona de casa, perdemos a principal fonte de renda, e eu e minha irmã nos tornamos responsáveis pelo sustento.
Uberlândia, nossa cidade em Minas Gerais, proporcionou-nos um ambiente desenvolvido, mas meu anseio por desbravar a grande São Paulo falou mais alto. Apesar de minha mãe já ter providenciado minha passagem de volta, meu compromisso de contribuir para o sustento da família me levou a permanecer, confiante de que aqui encontrarei oportunidades.
Os desafios surgiram assim que pisei nesta metrópole. Entrevistas se multiplicaram, porém, a promessa de um emprego ainda não se concretizou. A ilusão de uma vida fácil dissipou-se, confrontando-me com a realidade da competitividade e as complexidades da busca por trabalho em São Paulo.
Em meio a essas incertezas, meu coração guarda um amor distante, Vinicius, meu namorado em Bruxelas. Dois anos separados moldaram nossa relação por meio de videochamadas, mas a incerteza sobre seu retorno e a sensação de afastamento tornam-se sombras em nossa história. A promessa vaga de um "voltarei em breve" dele ecoa como uma melodia incerta, deixando-me ansiosa pelo momento em que nossa espera finalmente terá um desfecho.
Em mais um dia desafiador na busca por trabalho, me vi limitada a apenas 50 reais para enfrentar as despesas até o final do mês. Com a cautela de quem precisa esticar cada centavo, evitei o café da manhã por receio de gastar demais. Distribui currículos incansavelmente até por volta das 11:00 horas, quando me deparei com um restaurante que, à primeira vista, exalava requinte. Notando alguns pratos mais acessíveis, decidi entrar com a intenção de saciar minha fome antes de retomar a distribuição de currículos.
Ao me servir, carregando o prato delicadamente, caminhei entre as mesas do restaurante com o celular em uma mão e a refeição na outra. Distraída por uma mensagem que piscou na tela, interrompi meu caminho, inconsciente do homem que se aproximava, - "mensagens da operadora incomodando com pedidos incessantes para recarregar o chip" passaram pela minha mente antes de retomar o caminho.
No entanto, meu trajeto foi abruptamente interrompido quando percebi que o homem distraído vinha na minha direção. Ao desviar para o mesmo lado, ele fez inesperadamente o mesmo, resultando na colisão que fez meu prato se despedaçar no chão. Olhei para a refeição agora arruinada e uma pontada de decepção me atingiu. Afinal, eu namorava aquele prato, faminta, ansiosa por cada garfada, e agora, meu almoço se espalhava pelo chão.
Meus olhos se fixaram furiosos no homem, e as palavras saíram de mim em uma torrente de indignação. Disse algumas verdades contundentes para ele, que ousou, de maneira distraída, arruinar meu momento e ainda jogar na minha cara que a mancha em sua cara camisa era resultado de um item caro. Revoltou-me profundamente que, em meio ao meu infortúnio, ele escolhesse destacar a trivialidade de uma peça de roupa, "vai se lascar"
Após as tentativas do gerente de apaziguar a situação, o homem, enfim, reconheceu o óbvio: comprometeu-se a pagar pelo meu prato. Nisso, agradeci a Deus, pois imagine pagar 30,00 por algo que nem tive a chance de saborear? O desgosto misturado com a fome era palpável. Num último ato de desabafo, soltei mais uma indireta para o homem, que me encarou com raiva antes de sair, evitando as potenciais ofensas que eu sabia que estavam prestes a serem proferidas.
"O jeito é voltar a distribuir currículos e encerrar por hoje," - penso comigo mesma. Ao longo do dia, deixei currículos em papelarias, padarias, postos de gasolina e conveniências; basicamente, em todos os lugares que avistei pela frente enquanto buscava informações. Exausta, decido descansar em uma lanchonete. Peço um refrigerante e um salgado, aproveitando o combo por 8,00 reais, um alívio para o bolso.
Enquanto saboreio minha modesta refeição, percebo diante da lanchonete um imponente edifício que desperta minha atenção. Trata-se da RB Construtora, uma empresa de porte considerável.
"Tenho curso de secretariado" - murmuro novamente para mim mesma. Ao observar uma fila se formando em frente à empresa, a ideia de uma possível oportunidade me anima.
- Moça, sabe onde estão contratando? - pergunto à atendente do caixa, que sorri gentilmente.
- Nessa empresa, eles estão sempre com vagas, - ela responde com um sorriso acolhedor.
- Estava pensando nisso agora, será que essa fila é para deixar o currículo ou para entrevista? - pondero, buscando entender o propósito da movimentada fila diante da promissora RB Construtora.
- Pelo que sei, já fazem a entrevista na mesma hora; por isso, fica sempre essa fila - responde a atendente, esclarecendo o processo da empresa.
- Ótimo, estou no lugar certo, ainda bem que aquele prato não me sujou - digo com um sorriso, deixando-a um tanto confusa. - Obrigada pela informação, bom trabalho a você, vou tentar um para mim.
- Obrigado, espero que consiga, boa sorte - ela deseja enquanto me afasto.
- Estou precisando disso - murmuro, saindo da lanchonete com meu refrigerante, já que o salgado eu já havia devorado. Enquanto aguardo na fila em frente à RB Construtora, o tempo passa lentamente até que chega minha vez. Sou recebida com cordialidade por uma mulher chamada Selena, como indicava o crachá dela. Ela conduz uma breve entrevista e grava um pequeno vídeo sobre minhas experiências. Ao final, recebo um copo de suco e a promessa de que retornarão caso eu seja selecionada. Deixo o local com uma faísca de esperança, algo que tem estado ausente em minha vida nos últimos tempos.