Eu não estava em condições emocionais de ouvir a palavra casamento, muito menos de levá-la a sério, mas Dante não era o tipo de homem que dizia algo por impulso; ele falava como quem já havia calculado todas as variáveis possíveis, enxergando o tabuleiro inteiro enquanto o resto das pessoas ainda tateava em busca das peças. O corredor do Hospital Lacerda estava silencioso demais naquela manhã, sob um céu de Botafogo que
permanecia pesado e úmido, enquanto uma névoa fina encobria o
Pão de Açúcar ao longe. Eu segurava a pasta com os documentos do inventário do meu pai como se aquele pedaço de couro fosse a única coisa capaz de me manter de pé, sentindo o peso de cada decisão que agora recaía exclusivamente sobre os meus ombros.
- Precisamos conversar - ele disse, mantendo aquela voz controlada de sempre, mas notei uma gravidade que ultrapassava a mera negociação empresarial.
Respirei fundo antes de responder, tentando sustentar o tom firme para que a exaustão não transparecesse em cada sílaba.
- Se for sobre o contrato de fornecimento, Dante, este realmente não é o momento.
Ele negou com a cabeça lentamente, observando meu rosto com uma atenção que chegava a ser irritante, como se estivesse mapeando cada microexpressão de cansaço ou dúvida que eu tentava esconder.
- É sobre sucessão - ele esclareceu, e eu estreitei os olhos, questionando se ele se referia ao hospital, mas ele foi direto ao ponto: - Da presidência do Grupo Bastos & Albuquerque.
Aquilo não fazia sentido imediato e, quando algo não faz sentido, eu prefiro o silêncio, pois ele costuma encurralar o outro a se explicar melhor. Dante percebeu a tática e continuou, explicando que seu avô havia deixado uma cláusula específica no testamento determinando que apenas um herdeiro legalmente casado poderia assumir a presidência executiva. Soltei uma risada curta e amarga, perguntando o que eu tinha a ver com as excentricidades da família dele, mas ele sustentou meu olhar por segundos longos demais antes de disparar a frase que pairou no ar como uma provocação absurda:
- Eu preciso casar.
- Fala sério - retruquei, cruzando os braços em um gesto automático de defesa. - Você escolheu o pior timing possível para fazer uma piada dessas.
- Não estou brincando - ele respondeu, baixando o tom de voz.
O jeito como ele falou removeu qualquer margem para ironia, o que me irritou ainda mais, pois significava que ele estava realmente propondo um negócio matrimonial ali, no mesmo corredor onde eu havia perdido meu pai, tratando a instituição do casamento como uma solução corporativa aceitável. Quando o questionei se ele havia enlouquecido, lembrando-o de que meu pai morrera há menos de vinte e quatro horas, Dante não alterou a expressão e pontuou que o hospital agora estava vulnerável.
A palavra me atingiu como um tapa físico, porque era a mais pura verdade. Eu odiava admitir que qualquer conselho administrativo poderia tentar absorver ou diluir o que meu pai construiu em trinta anos. Ele se aproximou um passo, não o suficiente para invadir meu espaço, mas o bastante para que eu sentisse o cheiro discreto de seu perfume cortando o odor de éter do ambiente. Ele me revelou que Murilo já estava movimentando o conselho e que, se ele não assumisse a presidência nas próximas semanas, o Grupo cairia em mãos erradas, tornando o hospital o primeiro ativo estratégico a ser pressionado e desmantelado.
- E casar comigo resolveria isso como? - perguntei, tentando manter a voz estável.
- A fusão se torna oficial e o hospital passa a integrar o conglomerado sob minha presidência direta. Você mantém a gestão administrativa total e eu bloqueio qualquer tentativa de interferência externa. É uma aliança estratégica, com prazo, cláusulas de proteção patrimonial e liberdade individual. Nada além do necessário.
A frieza da proposta era, ao mesmo tempo, desconfortável e solidamente atraente. Quando perguntei "por que eu?", ele hesitou por uma fração mínima de segundo antes de dizer que eu era competente e que ele confiava que eu não tentaria derrubá-lo pelas costas. Eu o observei, buscando qualquer traço de arrogância ou mentira, mas encontrei apenas cálculo e um respeito inesperado que me desarmou.
- Isso é loucura, Dante.
- É estratégia - ele rebateu com a segurança de quem nunca perde um leilão.
Ficamos em silêncio por um longo tempo, ouvindo apenas o murmúrio distante do hospital, enquanto eu avaliava o peso de carregar aquele legado sozinha versus a proteção de um homem que parecia um tanque de guerra em forma de executivo. Eu não seria uma figurante, deixei claro, e ele me assegurou que não precisava de uma, mas sim de alguém que aguentasse a pressão.
Aceitei dois dias depois. Aceitei pela lógica, pelo hospital e pelo orgulho de não ver o nome do meu pai ser pisoteado por abutres corporativos. No entanto, quando fui à sede do Grupo no Centro para assinar os papéis e encontrei Dante em sua sala envidraçada, sem o blazer e com as mangas da camisa arregaçadas revelando braços fortes e uma tensão latente, percebi que a linha que eu estava cruzando não era apenas profissional.
- Está certa da decisão? - ele perguntou enquanto eu fechava a porta.
- Não dramatize, Dante. É só um contrato.
Ele deu um meio sorriso quase imperceptível, repetindo as palavras como se provasse o sabor de uma mentira conveniente. Assinamos os documentos com o som da cidade pulsando lá embaixo e, ao sair do prédio naquela noite, sentindo o vento frio do
Rio no rosto, percebi que havia me tornado esposa de Dante
Albuquerque. Eu só não sabia que estratégia nenhuma prepara alguém para uma guerra familiar onde as armas não são apenas contratos, e onde o maior perigo não era o mercado, mas o homem que agora dormia sob o mesmo sobrenome que eu.
Eu me mudei para a cobertura na Barra da Tijuca numa quinta-feira abafada, daquelas em que o Rio parece respirar quente na sua nuca, o ar pesado entrando pelos pulmões como um aviso de que nada ali seria leve. O prédio ficava de frente para o mar, andar alto demais para que o barulho da avenida chegasse inteiro, mas baixo o suficiente para que o som constante das ondas atravessasse a madrugada, lembrando que a cidade nunca dorme de verdade.
Eu observei a varanda envidraçada enquanto os funcionários descarregavam minhas malas discretas, porque eu não trouxe quase nada, apenas o essencial, algumas roupas, documentos, fotos do meu pai que eu não tive coragem de deixar no hospital, e uma caixa pequena com coisas que ainda não tive força para abrir.
Dante já estava lá quando cheguei, encostado na bancada da cozinha como se a posição fosse natural, camisa social branca ajustada ao corpo, mangas dobradas até o antebraço, relógio impecavelmente alinhado no pulso, postura relaxada demais para quem tinha acabado de casar por contrato. Ele me observou atravessar a sala ampla com piso frio, luz natural invadindo o ambiente, e eu senti aquele olhar verde analisando cada detalhe, não de forma invasiva, mas calculada, como se estivesse avaliando uma variável importante.
- Pontual - ele comentou, sem sair do lugar.
- Eu não dramatizo atrasos - respondi, tirando os óculos escuros e apoiando a bolsa sobre o sofá.
Ele quase sorriu.
- Vai se acostumar rápido aqui.
- Não vim me acostumar - retruquei, cruzando os braços por instinto. - Vim cumprir um acordo.
Ele assentiu lentamente, como se aquilo fosse exatamente o que esperava ouvir, mas os olhos demoraram um segundo além do necessário sobre meu rosto, depois desceram involuntariamente até a altura da minha cintura, onde o vestido de linho claro marcava mais do que eu tinha planejado quando saí de casa. Eu percebi. Ele percebeu que eu percebi. E voltou o olhar para o meu, impassível.
Isso não ajuda, pensei.
A cobertura era grande demais para duas pessoas que fingiam indiferença, sala integrada com cozinha americana, corredor longo levando às suítes, varanda ampla com vista direta para o mar cinza daquela tarde, o céu carregado prometendo tempestade. Eu caminhei pelo espaço em silêncio, analisando cada detalhe, cada obra de arte minimalista nas paredes, cada móvel escolhido com precisão, porque Dante não parecia o tipo de homem que deixaria algo ali por acaso.
- Seu quarto é o do lado esquerdo - ele informou, apontando com um gesto discreto. - O meu fica no final do corredor.
Eu parei.
- Nosso - corrigi, porque o acordo previa aparência pública de casamento legítimo.
Ele sustentou meu olhar, avaliando a provocação.
- Em eventos, sim - respondeu, com calma irritante. - Aqui, precisamos de limites claros.
Limites claros.
Eu mordi o lábio para não rebater algo mais ácido, porque parte de mim se incomodou com a facilidade com que ele delimitou espaço, como se a distância fosse confortável demais.
- Ótimo - eu disse. - Gosto de limites.
Mentira parcial.
Ele empurrou uma pasta fina sobre a bancada.
- Agenda da semana. Jantar na mansão da Urca amanhã, reunião com o conselho na segunda, evento beneficente no Copacabana Palace sexta que vem.
Eu folheei rapidamente.
- Já querem me expor?
- Precisam ver você - ele explicou. - Precisam entender que o casamento é sólido.
Eu ergui o olhar.
- E é?
O silêncio dele durou dois segundos longos, densos, carregados de algo que não estava no contrato.
- Será convincente - respondeu por fim.
Eu respirei fundo, aproximando-me da varanda, porque precisava de ar, porque a presença dele preenchia o ambiente de um jeito difícil de ignorar, e quando abri a porta de vidro senti a umidade da maresia tocar minha pele, o som das ondas subindo mais forte à medida que o vento começava a virar. A cidade lá embaixo pulsava, buzinas distantes, helicóptero cruzando o céu pesado, o Rio seguindo indiferente à minha decisão imprudente.
- Murilo vai estar no jantar - Dante acrescentou atrás de mim.
Eu não me virei, apenas perguntei:
- Ele sabe do acordo?
- Sabe o suficiente.
- E o suficiente é?
- Que eu casei.
Eu soltei uma risada curta.
- Ele deve estar adorando.
- Ele nunca adorou nada que não pudesse controlar.
Eu virei o rosto, observando a expressão dele com mais atenção, e ali estava uma tensão discreta no maxilar, algo que denunciava mais do que as palavras.
- Isso tá com cheiro de problema - murmurei.
- Eu resolvo - ele respondeu automaticamente.
Eu o encarei.
- Não me testa, Dante.
Ele sustentou meu olhar por segundos silenciosos, depois desviou, passando a mão pelo cabelo num gesto rápido que denunciava cansaço ou irritação contida.
- Você não é parte frágil disso - afirmou, mais baixo.
Eu não sou mesmo.
Mas também não sou blindada.
A tempestade caiu poucos minutos depois, grossa, intensa, as gotas batendo no vidro da varanda com força, o céu escurecendo antes do horário normal, e eu fechei a porta, voltando para dentro enquanto ele ajustava o relógio no pulso, gesto quase imperceptível, mas repetido sempre que algo o tensionava.
- Amanhã precisamos parecer alinhados - ele disse.
- Parecer ou estar?
- Parecer já é suficiente por enquanto.
Eu me aproximei alguns passos, porque não gosto de falar de longe, porque confronto exige proximidade, e quando parei a menos de um metro dele senti o calor do corpo, o cheiro discreto do perfume misturado com a maresia que entrou antes, senti o ambiente diminuir, como se a sala tivesse ficado pequena demais.
- E se alguém testar essa aparência? - questionei, mantendo o tom estável.
- Então você segura minha mão - ele respondeu, sem piscar.
Eu arqueei uma sobrancelha.
- Só isso?
- Por enquanto.
O vento fez a luz da sala oscilar por um segundo, a tempestade engrossando lá fora, e eu percebi que o casamento por contrato estava começando a ganhar textura real demais para ser apenas estratégia, porque dividir um teto com Dante não era a mesma coisa que assinar um papel numa sala envidraçada no Centro.
Mais tarde, já noite fechada, eu estava no meu quarto organizando algumas roupas quando ouvi passos pelo corredor, firmes, ritmados, e segundos depois a porta foi levemente batida.
- Pode entrar - eu disse, mantendo o tom neutro.
Ele entrou sem blazer, apenas de camisa social aberta no primeiro botão, gravata afrouxada, e o detalhe mínimo fez diferença maior do que eu gostaria de admitir, porque o colarinho revelava parte do peito amplo, e eu precisei desviar o olhar para não parecer óbvia.
- O conselho pediu relatório antecipado - informou, apoiando-se no batente da porta. - Quer revisar comigo?
Eu respirei fundo.
- Agora?
- Melhor agora do que amanhã de manhã.
Eu peguei o tablet da mesa e me aproximei, ficando lado a lado com ele no corredor iluminado por luz indireta, e quando nossos braços quase se tocaram senti uma descarga pequena demais para justificar reação, grande demais para ignorar.
Ele percebeu, porque o maxilar tensionou discretamente.
Eu também percebi isso.
E a guerra que estávamos prestes a enfrentar ainda nem tinha começado direito.
Nós acabamos na sala, sentados lado a lado no sofá amplo demais para duas pessoas que fingiam neutralidade, o tablet apoiado entre nós exibindo gráficos financeiros do Grupo, projeções de contratos públicos e movimentações recentes do conselho, mas a proximidade era o verdadeiro foco, não os números. Eu me inclinei levemente para frente enquanto analisava a planilha de investimentos hospitalares e senti o braço dele quase roçar no meu, um toque inexistente que ainda assim parecia concreto, e quando ajustei a postura nossos ombros finalmente encostaram de leve, nada que justificasse afastamento brusco, mas o suficiente para que eu percebesse o calor da pele dele atravessando o tecido da camisa.
- Murilo votou contra a expansão em Recife - eu observei, deslizando o dedo pela tela.
- Ele quer enfraquecer os hospitais regionais - Dante respondeu, voz baixa, concentrada. - Se o foco ficar só nos contratos federais, ele controla melhor os repasses.
Eu virei o rosto para encará-lo.
- Então ele já está mexendo as peças.
- Ele nunca parou.
A tempestade do lado de fora engrossava, trovões distantes ecoando sobre o mar, luzes da orla refletindo nas janelas envidraçadas, e eu pensei que aquele cenário parecia apropriado demais para o que estávamos discutindo, porque guerra corporativa no Rio nunca acontece sob céu azul perfeito, ela cresce no abafamento, na umidade, na sensação constante de que algo está prestes a desabar.
- E Bianca? - eu perguntei, mantendo o tom casual demais para alguém que estava genuinamente curiosa.
Ele demorou um segundo antes de responder, tempo suficiente para que eu registrasse a microtensão no maxilar.
- Diretora de marketing eficiente - disse por fim.
Eu arqueei a sobrancelha.
- Só isso?
Ele me lançou um olhar lateral.
- O que quer saber exatamente?
- Nada - respondi, voltando a atenção para o tablet. - Só estou mapeando o campo de batalha.
Ele soltou um leve sopro de ar pelo nariz, quase um riso contido.
- Ela vai testar você amanhã.
- Ótimo - retruquei. - Gosto quando deixam claro quem é oposição.
Ele fechou o tablet e o colocou sobre a mesa de centro, girando levemente o corpo na minha direção, o que diminuiu ainda mais o espaço entre nós.
- Não subestime Bianca - advertiu, voz mais grave. - Ela não joga para perder.
- Eu também não.
O silêncio que se seguiu foi diferente, menos técnico, mais pessoal, carregado de algo que não estava nos relatórios. Eu senti o olhar dele descer por um instante para a minha boca antes de voltar aos meus olhos, rápido demais para ser flagrante, lento demais para ser inocente.
Não olha, eu pensei.
- Você está nervosa? - ele perguntou, analisando minha expressão.
Eu cruzei os braços por reflexo.
- Qual foi? Está me avaliando?
- Sempre avalio riscos.
- Eu não sou risco.
- Ainda estou decidindo.
Eu ri, incrédula.
- Fala sério.
Ele não riu de volta.
- Você entrou numa guerra que não começou agora, Aurora - afirmou, mais sério. - E eu não posso perder o controle disso.
Eu sustentei o olhar.
- Então não perde.
A energia entre nós ficou densa demais, o ar carregado da tempestade entrando pelas frestas da varanda, e por um segundo eu tive a impressão de que ele ia dizer algo além do estratégico, algo que escapasse do contrato, mas ele apenas se levantou, passando a mão pelo cabelo como fazia quando estava exausto.
- Dorme cedo - recomendou. - Amanhã vai ser longo.
- Eu resolvo - respondi automaticamente.
Ele parou por um segundo, virando levemente o rosto.
- Não precisa resolver tudo sozinha.
Eu não respondi.
Ficar em silêncio quando estou magoada ou confusa é um vício antigo, e naquele momento eu não soube definir qual das duas coisas estava sentindo.
A mansão na Urca parecia saída de um catálogo de famílias que não aceitam envelhecer, fachada branca iluminada, jardim impecável, vista privilegiada para a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar imponente ao fundo sob um céu ainda carregado de nuvens da tempestade da noite anterior. O calor voltara com força, abafado, fazendo o tecido do meu vestido de seda aderir levemente à pele, e eu respirei fundo antes de sair do carro, porque aquela não era uma simples apresentação social, era a primeira exibição oficial do nosso casamento.
Dante desceu primeiro, contornou o carro e abriu a porta para mim, gesto ensaiado, postura impecável no terno escuro sob medida que destacava os ombros largos e a linha reta das costas. Quando estendi a mão, ele a segurou com firmeza controlada, dedos quentes envolvendo os meus com naturalidade convincente demais.
- Lembra do que combinamos - murmurou, aproximando-se o suficiente para que só eu ouvisse.
- Não dramatiza - respondi, mantendo o sorriso social. - Eu sei atuar.
Ele quase sorriu.
Entramos sob olhares atentos, murmúrios discretos, cumprimentos formais demais para serem espontâneos. O conselho já estava reunido no salão principal, copos de whisky em mãos, conversas baixas, clima aparentemente cordial, mas eu senti o peso da avaliação assim que cruzamos a porta.
Murilo foi o primeiro a se aproximar, sorriso torto estampado no rosto, palmas lentas ecoando pelo ambiente com teatralidade calculada.
- Finalmente conheço a famosa esposa - disse ele, aproximando-se além do necessário. - Aurora, não é?
Eu descruzei os braços com esforço para não parecer defensiva e sustentei o olhar dele.
- Em pessoa.
Ele inclinou levemente o corpo para frente, invadindo espaço sutilmente.
- Rápido demais, não acha? - comentou, lançando um olhar lateral para Dante.
Dante apertou o maxilar, imperceptível para quem não o observava com atenção, mas eu observei.
- Estratégico - respondeu, frio.
Murilo soltou um riso curto.
- Claro. Estratégico.
Antes que eu pudesse replicar, uma presença feminina elegante se aproximou pelo outro lado, perfume marcante anunciando antes mesmo da voz.
- Então você é a Aurora - disse Bianca, sorriso controlado, olhos azuis avaliando cada detalhe do meu vestido, do meu cabelo, da minha postura. - Ouvi falar muito de você.
Eu sorri de volta, educada.
- Espero que coisas úteis.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- Depende do ponto de vista.
A mão dela tocou o braço de Dante com naturalidade íntima demais, ajustando discretamente a gravata dele.
- Essa cor fica melhor em você - comentou, suave.
Eu senti minha mão fechar em punho ao lado do corpo, mas mantive o sorriso intacto.
- Eu que escolhi - declarei, sem alterar o tom.
Os olhos dela brilharam por um segundo, surpresa quase imperceptível.
- Que bom gosto - respondeu.
Murilo observava a cena com diversão mal disfarçada, e naquele instante eu soube, com certeza absoluta, que havia mais ali do que rivalidade corporativa, havia algo subterrâneo, silencioso, que conectava os dois de forma perigosa.
Dante aproximou a mão da minha cintura, gesto firme, possessivo o suficiente para marcar território, discreto o bastante para parecer apenas protocolo social.
- Vamos jantar - ele disse.
Enquanto caminhávamos para a mesa longa do salão, eu senti o peso da guerra começando a se desenhar com mais clareza, não apenas nos relatórios financeiros, mas nos olhares trocados, nos toques calculados, nos sorrisos falsos.
Eu não amava Dante.
Eu repetia isso mentalmente enquanto ele puxava a cadeira para mim e se posicionava ao meu lado com postura impecável.
Era só contrato.
Só negócio.
Mas ninguém segura sua cintura daquele jeito por puro negócio.
E ninguém aperta o maxilar daquela forma quando outro homem - no caso, Murilo - elogia demais a esposa dele. A guerra tinha começado.
E eu tinha acabado de entrar oficialmente nela
Eu nunca gostei de tempestades no Rio. Elas começam bonitas, com aquele vento morno levantando o cabelo, e terminam com árvore caindo na rua e o trânsito virando um inferno. A cidade pulsa demais para ser silenciosa, mas naquela tarde o céu resolveu pesar, ficou quase roxo sobre a Barra, e eu estava na varanda da cobertura observando o mar agitado como se aquilo fosse algum tipo de presságio. Eu não acredito nessas coisas, mas também não sou idiota. Quando tudo parece calmo demais, normalmente não está.
O contrato tinha três dias.
Três dias oficialmente casada com Dante Albuquerque.
E ainda parecia mentira.
A cobertura era grande demais para duas pessoas que fingiam naturalidade, os móveis minimalistas demais, o vidro da varanda refletindo uma imagem que eu ainda estava tentando aceitar. Eu estava usando uma camisa branca dele, larga nos meus ombros, o cabelo preso num coque bagunçado porque o calor não dava trégua, e segurava uma xícara de café já frio enquanto pensava na cláusula do testamento que tinha nos colocado ali. "Somente herdeiro legalmente casado poderá assumir a presidência." Eu quase conseguia ouvir a voz seca do avô dele dizendo aquilo numa sala cheia de homens engravatados.
Atrás de mim, ouvi o som baixo de passos firmes. Não precisei virar para saber que era ele. Dante não fazia barulho desnecessário, mas a presença dele ocupava espaço, o tipo de energia que altera o ar antes mesmo de tocar.
- Vai chover - ele comentou, aproximando-se da porta de vidro, o tom neutro, como se estivesse falando de números.
- Uau, sério? - respondi, virando o rosto para encará-lo. - Achei que era o sol se escondendo por timidez.
Ele inclinou a cabeça levemente, quase sorrindo.
- Você sempre responde com ironia ou é só comigo?
- Só com quem merece - retruquei, dando de ombros.
Ele estava de camisa social azul clara, mangas arregaçadas até o antebraço, o relógio escuro ajustado no pulso. Eu odeio admitir, mas aquela combinação deveria ser proibida por lei. O tecido esticava discretamente no bíceps quando ele cruzou os braços, e eu desviei o olhar rápido demais. Autopreservação. Não tinha nada a ver com o fato de que ele ficava ridiculamente bem assim.
- Precisamos sair em quarenta minutos - ele avisou, consultando o relógio. - Reunião extraordinária no Centro. Murilo pediu urgência.
Murilo pedindo urgência é igual criança pedindo doce. Sempre tem algo por trás.
- E você atende? - questionei, apoiando a xícara no aparador.
- Ele está no conselho - Dante respondeu, a voz firme. - Ignorar seria dar munição.
Eu me aproximei, encostando na bancada da cozinha americana que dividia o espaço com a sala, e cruzei os braços automaticamente.
- Isso tá com cheiro de problema.
Ele observou o gesto, como se analisasse cada movimento meu.
- Você já desconfiava dele antes de casar comigo? - perguntou, quase casual.
- Eu não confio em gente que sorri demais em reunião tensa - declarei. - E ele sorri como se estivesse em comercial de pasta de dente.
Dante soltou um sopro que poderia ter sido uma risada contida.
- Você é direta demais.
- E você é controlado demais.
A chuva começou naquele exato momento, grossa, pesada, batendo no vidro com força. O som ecoou pela cobertura, preenchendo o silêncio que se instalou entre nós. Eu devia ter ido me trocar. Devia mesmo. Mas fiquei ali, encarando o mar e fingindo que não sentia o olhar dele percorrendo minhas costas cobertas apenas pela camisa dele.
- Você vai assim? - ele perguntou, finalmente.
- Assim como?
- Com a minha camisa.
Eu virei devagar, sustentando o olhar.
- Tá te incomodando?
Ele demorou um segundo antes de responder.
- Não - disse, firme. - Só não é exatamente traje de conselho administrativo.
Eu mordi o lábio inferior, segurando um sorriso.
- Relaxa, eu sei me vestir.
Passei por ele propositalmente perto demais, sentindo o calor do corpo dele misturado com o perfume discreto que sempre usava. Foi rápido. Um roçar quase acidental. Mas suficiente para alterar o ritmo da minha respiração. Ele não recuou. Também não avançou. Só ficou ali, sólido.
Quando entrei no quarto para me arrumar, fechei a porta e apoiei as costas nela por dois segundos.
Respira, Aurora.
É só um contrato.
Escolhi um vestido cinza de corte reto, elegante, discreto, que marcava a cintura sem exagero. Salto preto. Cabelo preso num rabo de cavalo baixo. Maquiagem leve. Profissional. Blindada. Eu sabia exatamente qual imagem precisava projetar na sede do Grupo Bastos & Albuquerque. Não era sobre beleza. Era sobre presença.
Quando voltei para a sala, Dante já estava de blazer. O contraste da camisa clara com o terno escuro realçava ainda mais a postura dele. Ele me analisou de cima a baixo sem pressa, os olhos verdes frios demorando um segundo a mais do que o necessário.
- Está adequada - afirmou.
- Ufa - respondi, teatral. - Eu estava ansiosa pela sua aprovação.
Ele se aproximou, ajustou discretamente uma mecha do meu cabelo que tinha escapado e murmurou:
- Não dramatiza.
O toque foi rápido. Mas não foi profissional.
O elevador desceu em silêncio, o reflexo de nós dois no espelho metálico parecia capa de revista corporativa. Eu percebi o olhar de Dante fixo na tela do celular, digitando mensagens curtas, provavelmente organizando a reunião antes mesmo de chegar.
- Você confia em Bianca? - perguntei, de repente.
Ele ergueu os olhos.
- Por quê?
- Ela te olha como se estivesse escolhendo um apartamento para comprar.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Isso é ciúme?
Eu ri baixo.
- Do quê? - respondi, sustentando o olhar. - É só observação estratégica.
Ele não comentou. Mas o maxilar dele ficou levemente tensionado.
O carro seguiu pela Avenida das Américas sob chuva intensa, os faróis refletindo no asfalto molhado, o trânsito lento, típico de tempestade carioca. A cidade nunca para, mas também nunca facilita.
Quando chegamos à sede no Centro, o prédio espelhado parecia ainda mais imponente contra o céu carregado. Subimos direto para a sala do conselho. O ar-condicionado estava forte demais, como sempre, e o cheiro de café fresco misturava-se ao perfume caro de executivos acostumados a fingir cordialidade.
Murilo estava lá, sorrindo.
Sempre sorrindo.
- Aurora - ele cumprimentou, abrindo os braços como se fôssemos velhos amigos. - Que prazer tê-la oficialmente na família.
Eu apertei a mão dele com firmeza.
- O prazer é todo meu - respondi, seca.
Ele se aproximou demais, como de costume, inclinando-se levemente.
- Espero que esteja gostando do novo cargo.
- Eu gosto de desafios - retruquei.
Do outro lado da mesa, Bianca ajustava a pasta de documentos com elegância impecável. O vestido azul marinho, o cabelo loiro liso perfeitamente alinhado, o batom discreto. Ela ergueu os olhos e sorriu para Dante antes mesmo de me cumprimentar.
- Dante, revisei a apresentação de marketing - informou, tocando levemente o braço dele ao entregar o tablet.
Toque desnecessário.
Dante recebeu o aparelho sem reagir ao contato.
- Obrigado, Bianca.
Ela então virou-se para mim.
- Aurora, você está linda - comentou, inclinando a cabeça levemente. - Combina com esse ambiente.
Eu sorri educadamente.
- Eu me adapto rápido.
Ela sustentou o olhar por um segundo longo demais.
A reunião começou com números, contratos hospitalares, novas licitações públicas e projeções de expansão para tecnologia médica. Era tudo plausível, técnico, denso. Eu acompanhava cada gráfico com atenção real, não estava ali como adereço. Murilo conduzia parte da apresentação, exageradamente didático, quase performático.
- Precisamos acelerar o processo de aquisição - ele declarou, batendo levemente na mesa. - A concorrência está se movendo.
- A concorrência não tem o nosso capital - Dante respondeu, firme.
- Capital pode evaporar - Murilo rebateu, sorrindo torto. - Principalmente quando mal administrado.
A sala ficou silenciosa.
Eu observei Dante ajustar o relógio.
Sinal claro.
Ele estava irritado.
- Está insinuando algo? - Dante perguntou, a voz baixa demais.
Murilo abriu as mãos.
- Só estou sendo prudente.
Bianca interveio suavemente.
- Talvez possamos revisar os relatórios com mais calma antes de qualquer decisão precipitada - sugeriu, a voz doce demais para ser inocente.
Eu anotei mentalmente: ela protege ele.
Ou usa ele.
Ou os dois.
Quando a reunião terminou, Murilo saiu primeiro, falando ao telefone com alguém em tom baixo. Bianca recolheu os papéis com calma excessiva. Eu me aproximei da janela da sala, observando a chuva diminuir lá fora.
Dante veio para perto.
- O que você achou? - ele perguntou.
- Que alguém está escondendo alguma coisa - respondi, sem rodeios.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
- Eu resolvo.
- Não dramatiza - eu devolvi, imitando o tom dele.
Ele quase sorriu.
Do outro lado da sala, percebi algo rápido demais para ser coincidência: Bianca e Murilo trocaram um olhar. Curto. Calculado. Familiar demais.
Aquilo não era só alinhamento profissional.
Aquilo era segredo.
E eu senti, pela primeira vez, que o contrato que eu tinha assinado era a parte mais simples daquela guerra.
A tempestade lá fora estava passando.
Mas dentro daquela empresa, ela estava só começando
Saímos da sede já com a noite caindo sobre o Centro, o asfalto ainda molhado refletindo luz vermelha de farol e amarelo de poste, a cidade respirando vapor depois da tempestade como se estivesse cansada demais para fingir normalidade. O motorista abriu a porta, Dante entrou primeiro, eu deslizei para o banco ao lado dele, e por alguns segundos ficamos em silêncio, aquele silêncio que não é confortável nem desconfortável, é apenas carregado.
Eu estava pensando no olhar que Bianca trocou com Murilo. Não foi profissional. Não foi casual. Foi o tipo de olhar que carrega informação.
- Você viu? - perguntei de repente.
- O quê? - ele respondeu sem tirar os olhos do celular.
- A troca de olhares.
Ele ergueu os olhos devagar.
- Entre quem?
- Não se faz de distraído comigo, Dante.
Ele bloqueou a tela do aparelho e finalmente me encarou.
- Murilo e Bianca trabalham juntos há anos.
- Não daquele jeito - eu rebati, inclinando levemente o corpo na direção dele. - Aquilo foi comunicação silenciosa.
Ele me observou como se estivesse avaliando se eu estava exagerando.
- Você está procurando problema.
Eu ri baixo.
- Eu não preciso procurar. Ele se oferece.
O carro entrou na Zona Portuária revitalizada, prédios antigos misturados com estruturas modernas de vidro, bares acesos, gente caminhando mesmo com o chão ainda úmido. A tal "Faria Lima carioca" fervilhava de executivos jovens fingindo que não estavam competindo uns com os outros.
- Murilo não é burro - Dante disse, finalmente. - Se estivesse fazendo algo ilegal, não seria tão óbvio.
- Quem disse que ele acha que está sendo óbvio?
Ele ficou em silêncio.
Eu senti que tinha acertado.
Quando chegamos à cobertura, o ar estava úmido e pesado. O cheiro de mar subia com o vento da noite. Tirei os saltos assim que a porta fechou, caminhando pela sala com passos mais leves, soltando o cabelo que caiu pelos ombros.
- Você anda rápido quando está irritada - Dante comentou atrás de mim.
- Eu sei.
- E está irritada.
- Também sei.
Eu fui até a cozinha pegar água, sentindo o olhar dele nas minhas costas de novo. Aquilo estava virando hábito. Abri a geladeira, peguei a garrafa, bebi direto mesmo, sem elegância nenhuma.
- Você não acha estranho? - insisti, limpando a boca com as costas da mão.
Ele tirou o blazer, jogou sobre o sofá e afrouxou a gravata.
- Eu acho que você está querendo transformar suspeita em certeza.
- E você está querendo transformar certeza em comodidade.
Ele caminhou até mim devagar, parando do outro lado da bancada. Próximo demais.
- Você acha que eu sou ingênuo? - perguntou, a voz baixa.
- Não - respondi, sustentando o olhar. - Acho que você está acostumado a controlar tudo. E talvez tenha algo que você não esteja vendo.
O silêncio que se seguiu foi denso. A luz da cozinha era mais quente, mais íntima, refletindo no mármore claro da bancada. Ele apoiou as mãos na superfície, inclinando-se levemente para frente.
- Você quer investigar - ele afirmou.
- Eu quero entender onde eu me enfiei.
Ele respirou fundo.
- Isso não é da sua conta.
Eu senti o sangue subir.
- Fala sério, Dante. Eu casei com você. Meu nome está vinculado à empresa. Se isso desmorona, cai em mim também.
Ele apertou o maxilar.
- Eu resolvo.
Eu ri, nervosa.
- Você não pode resolver tudo sozinho.
Ele ficou muito perto agora. Eu sentia o calor dele atravessar o espaço mínimo entre nós.
- Eu preciso que você confie em mim - ele murmurou.
- Confiança não é decreto presidencial - respondi, quase sussurrando também. - Se constrói.
Ele me encarou por um segundo longo demais. O ar parecia pesado. O cheiro do perfume dele misturado com a umidade da noite me deixou estranhamente consciente do próprio corpo.
- Você está tremendo - ele observou.
- Estou com frio.
- Não está.
Eu respirei fundo.
- Não complica as coisas.
Ele inclinou o rosto levemente, os olhos descendo por um segundo até minha boca. Eu percebi. Claro que percebi. Meu coração deu aquele salto irritante que eu me recuso a analisar.
- Você que complica - ele murmurou.
A campainha tocou.
Eu quase pulei para trás.
Dante fechou os olhos por um segundo, irritado com a interrupção, e se afastou. Eu ajeitei a postura rapidamente, cruzando os braços como se nada tivesse acontecido.
Era Caetano.
Claro que era.
Ele entrou com aquele sorriso de quem sabe demais.
- Espero que eu não esteja atrapalhando - disse ele, olhando de mim para Dante com uma expressão divertida.
- Está - Dante respondeu seco.
Caetano ignorou o tom e caminhou pela sala como se estivesse em casa.
- Temos um pequeno problema jurídico - anunciou, abrindo a pasta que carregava. - Surgiu um questionamento sobre uma das últimas licitações. E adivinha quem levantou a dúvida?
- Murilo - eu respondi antes de Dante.
Caetano apontou para mim.
- Ela aprende rápido.
Dante lançou um olhar que poderia congelar água.
- Vai direto ao ponto.
Caetano apoiou os documentos na mesa.
- Há indícios de inconsistência contábil no setor de aquisição hospitalar. Nada escandaloso ainda. Mas suficiente para abrir investigação interna.
Eu senti um frio percorrer a espinha.
- Ele quer forçar auditoria - murmurei.
- Ele quer desestabilizar - Dante corrigiu.
Caetano cruzou os braços.
- Ou quer esconder algo maior criando distração.
Silêncio.
- Você está do nosso lado hoje? - Dante perguntou, seco.
Caetano sorriu.
- Eu trabalho com fatos. Não com sentimentos.
- Isso não responde - eu observei.
Ele me olhou por um segundo a mais.
- Depende de quem estiver mentindo melhor.
Dante se aproximou dele.
- Cuidado.
- Sempre - Caetano respondeu, tranquilo.
Eu observei a troca com atenção. Havia tensão ali. Competição. Ego.
E um leve traço de ciúme.
Eu percebi quando Caetano comentou, casualmente:
- Aurora estava impecável hoje no conselho.
Dante não respondeu. Mas a mão dele pousou nas minhas costas, firme, quente, marcando território sem dizer uma palavra.
Eu engoli seco.
Caetano percebeu.
Claro que percebeu.
- Interessante - ele murmurou.
- O quê? - Dante perguntou.
- Nada. Só... dinâmica.
Eu revirei os olhos.
- Vocês dois são insuportáveis.
Mas, no fundo, algo estava mudando. A guerra corporativa começava a ganhar forma concreta. Investigação interna significava exposição. Exposição significava risco.
Quando Caetano finalmente foi embora, a cobertura ficou silenciosa de novo. A cidade lá fora ainda pulsava, mas aqui dentro parecia suspensa.
Eu caminhei até a varanda, abrindo a porta de vidro. O vento noturno trouxe cheiro de mar e as luzes da Barra refletiam na água escura.
Dante apareceu atrás de mim.
- Se isso escalar, você pode se machucar - ele disse.
- Eu não sou frágil.
- Eu sei.
Eu virei para encará-lo.
- Então para de me tratar como se eu fosse.
Ele passou a mão pelo cabelo, exausto.
- Eu odeio perder controle.
- Então se prepara - eu retruquei. - Porque isso aqui não está sob controle.
Ele se aproximou de novo, a luz da cidade desenhando o contorno do corpo dele sob a camiseta preta agora mais justa, o peito amplo subindo devagar com a respiração.
- Você não tem ideia do que pode acontecer - ele murmurou.
- Então me conta - eu desafiei.
Ele segurou meu rosto de repente, as mãos firmes nas laterais, não agressivas, mas decididas.
- Eu não vou deixar nada acontecer com você - declarou, a voz baixa, intensa.
Meu coração disparou.
- Você não pode prometer isso.
- Posso tentar.
A distância entre nossos rostos era mínima. Eu sentia a respiração dele. O calor. O peso da escolha.
Por um segundo inteiro, eu pensei que ele ia me beijar.
E eu não teria recuado.
Mas ele fechou os olhos, respirou fundo e soltou meu rosto.
- É só um contrato - ele disse, quase para si mesmo.
Eu engoli seco.
- É - confirmei, mesmo sabendo que a palavra estava ficando pequena demais.
Lá embaixo, a cidade continuava viva. Carros passando. Sirenes distantes. Gente vivendo.
Aqui em cima, a guerra estava oficialmente declarada.
E eu tinha a sensação incômoda de que alguém já estava preparando o próximo movimento.