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Coração Selvagem - Série Mandaraguaia

Coração Selvagem - Série Mandaraguaia

Autor:: Laís Olly
Gênero: Romance
De casamento marcado, e trilhando os passos para ser o sucessor dos negócios da tão temida e respeitada família Magalhães, Umberto Magalhães é um homem com a vida encaminhada. No entanto, o destino do sucessor se embaralha após ele sofrer um acidente de carro na volta para a fazenda. O jovem é salvo por Céu, a filha de um humilde ribeirinho de Mandaraguaia. A menina luta com todas as suas forças para não se apaixonar por alguém 10 anos mais velho. Mas, quando se dá conta é tarde, ela já está entregue nos braços do homem que ama, do mesmo homem que vai arruinar sua vida completamente.

Capítulo 1 PRÓLOGO

Prólogo

Das alturas eu avistava nossa fazenda, meu lugar favorito onde meu irmão mais velho e meus melhores amigos moravam. Ali brincávamos pelas pastagens, saltávamos no rio e até disputávamos corrida de bote. Vez ou outra fazíamos trilha pela floresta, sem comentar com ninguém, era arriscado, mas as descobertas e a adrenalina valiam o risco. Mamãe quase infartava e sempre ficava de marcação com a gente, porém, o cuidado de Valentina não era o suficiente, no final das contas, nós sempre encontrávamos uma maneira de sair às escondidas e nos aventurar por aí.

Não conseguia disfarçar minha felicidade, finalmente as férias haviam chegado e eu ficaria praticamente dois meses curtindo e brincando muito com meus amigos. A ansiedade era tão grande que minha vontade era saltar do avião antes que ele completasse o pouso.

- Beto! Se aquiete, tu e teus amiguinhos terão muito tempo para brincar pela fazenda - mamãe disse enquanto acariciava minha cabeça. - Mas, dessa vez, vê se toma juízo hein, nada de sair por aí às escondidas.

- Pode deixar, mamãe, eu brinco só na fazenda. Eu juro.

- E olhe bem com quem tu vais brincar, cuidado com as más companhias! - papai exclamou, num tom seco, já estressado antes mesmo de chegarmos.

- Abílio, pare com isso, os meninos são apenas crianças, todos são inocentes.

- Aquele pirralho...

- Não fale do Lázaro! Eu não admito! Já não basta tu ter me separado do meu filho, não vou aturar que tu o maltrate ou o humilhe!

Papai ficou silêncio e eu abaixei a cabeça triste, por na maioria das vezes não ter permissão para brincar com o meu irmão mais velho. Eu o amava, porém, papai o detestava por ele ser filho do primeiro amor de mamãe, ela dizia que ele morria de ciúmes do Lazinho, por isso o tratava tão mal.

- Ah, papai, estava com tantas saudades, não vou querer voltar pra Belém nunca mais! - Minha irmã era tão apaixonada pela fazenda quanto eu. Lavínia tinha muitas amigas e adorava passear pela cidade com elas.

Quando o avião finalmente pousou na pista da fazenda, eu não me contive, fui o primeiro a sair assim que o piloto abriu a porta. Saltei e corri de braços abertos na direção da fazenda. Logo meus amiguinhos, filhos do caseiro e de outras pessoas que trabalhavam ali, vieram ao meu encontro, felizes e sorridentes. Gritamos e fizemos uma rodinha para trocar abraços no momento do nosso encontro. Eu estava feliz demais, mas faltava algo para me completar, de dentro da rodinha avistei meu irmão mais velho escorado numa árvore ao lado de uma casa de apoio. A roupa que ele vestia estava suja e velha a ponto de começar a se desfazer em seu próprio corpo. Lázaro estava sério, seu olhar era duro enquanto ele apertava os punhos, demonstrando estar com raiva de alguma coisa.

Deixei os meus amigos e segui saltitando em direção ao meu irmão. Lázaro estava imóvel, parado como uma estátua, mas seus olhos falavam por todo seu corpo. Ele estava com raiva, eu não sabia o porquê e, antes mesmo que descobrisse, um grito de papai me fez parar no tempo.

- Beto! O que eu já lhe disse sobre ficar perto dessa criatura insignificante?

Irritado, retruquei papai:

- Só quero falar com o meu irmão!

- Ele não é seu irmão - agora papai estava a poucos passos de mim. - Ele é só um empregadinho da fazenda, nada mais que isso.

Abílio me puxou após dizer aquilo, já Lázaro se manteve calado, porém, seu olhar duro que parecia nos fuzilar, mesmo que de longe, se mantinha. Eu lamentava o fato de termos apenas 5 anos de diferença de idade e sermos tratados de uma maneira tão diferente por todos, principalmente por meu pai, e acredito que nossa mamãe era a única que poderia fazer alguma coisa para mudar essa situação, no entanto, por algum motivo, não o fazia.

Por isso o ódio que meu irmão mais velho tinha por nós era cada vez mais visível.

Capítulo 2 1

Um

Beto

- No passado, conseguimos faturar alto com as seringueiras. O látex era o petróleo de hoje, serviu para fazer quase tudo que você consegue imaginar. Mas aqueles infelizes dos asiáticos roubaram nossas plantas e começaram a cultivá-las em grande potencial lá fora. Perdemos a exclusividade e, depois, deixamos de ser essencial, com o crescimento do consumo de Petróleo. Mas foi naquela época que o império dos Magalhães começou aqui no norte. Seu bisavô teve que se reinventar, seu avô deu continuidade naquilo que seu bisavô acreditava, e claro que dou o sangue nisso aqui. Em breve, estará nas suas mãos dar seguimento e muito orgulho para os que já lutaram por nós no passado.

- Para mim, será mais que uma honra, é uma questão de orgulho. Como o senhor mesmo diz: a Cooperasinga não é apenas um grupo de empresas, é a nossa família e é o meu dever proteger os meus.

- Exatamente. Como podem ver, meus caros, quando me aposentar, poderei ficar tranquilo - Abílio abriu um sorriso de canto - Sei da competência do meu filho.

- Acontece, Abílio, que o narcotráfico não funciona como as seringueiras, muito menos como a faculdadezinha de direito que seu filho... - não deixei o senhor de cabelos e barbas grisalhas sentado à minha frente dar continuidade.

- Fui criado nesse negócio, desde que me entendo por gente participo de cada detalhe dessa merda, desde o desenvolvimento das rotas até a execução de quem se atreve a entrar no nosso caminho. Minha faculdadezinha de direito, como o senhor disse, não passa de um pretexto. Para mim, somente uma coisa importa: a entrada e a distribuição das nossas mercadorias no país. - Estreitei meu olhar na direção ao representante do nosso sócio boliviano. - Tenho 27 anos, você está diante de um homem, não de um moleque!

- Não estou duvidando da sua capacidade, Umberto, o problema é Pablo Damião que está marcando pesado nas fronteiras. O sonho dele é tomar o nosso território.

- Ainda bem que você disse, é um sonho, apenas um sonho que nunca irá realizar.

- Estamos lidando com um inimigo perigoso, do qual não fazemos ideia de quem é e do que é capaz! Não podemos subestimá-lo.

- Não estou subestimando ninguém. Estou apenas deixando claro, nessa mesa, que, enquanto eu estiver vivo, Pablo Damião não dará um único passo no nosso território. É minha sina defender o nosso cartel e não quero ouvir mais constatações sobre isso! - Bati na mesa, irritado com a insistência daquele representante em duvidar da minha capacidade.

- Perdão, senhor Umberto, em nenhum momento quis ofendê-lo, muito pelo contrário, quero deixar claro que pode contar conosco para o que precisar, temos um acordo...

Papai rapidamente o interrompeu:

- Acordo é uma palavra banal, descartável. O que temos é um pacto.

- Vidas são a garantia - continuei por papai. - Esse é o único e verdadeiro Mercosul!

Os homens à mesa riram.

- A verdade é só uma, nós fazemos o dinheiro girar na América latina!

- Não é atoa que temos esses governantezinhos na nossa palma!

Todos ali tinham muito orgulho do que faziam. Todos tinham orgulho do poder de suas famílias, do dinheiro acumulado em suas contas bancárias em diversos paraísos fiscais espalhados pelo mundo e do fato de termos o privilégio de ganhar muito sem pagar um único centavo de imposto. Funcionávamos como uma igreja, tínhamos seguidores fiéis, os diáconos, os padres e os bispos, mas papa só havia um e ele era o meu pai. Sua palavra era sempre a última e mais importante. E era o seu lugar que eu assumiria em pouco tempo.

- Mudando de assunto, meus amigos, hoje é um grande dia, minha filha ficará noiva! E Umberto já está com o casamento marcado, estou muito orgulhoso! - papai exclamou, com um copo de uísque na mão, enquanto seus aliados sorriam alegremente para ele.

Abri um sorriso de canto, não dava para demonstrar mais felicidade que isso. Infelizmente, no meu mundo, homens solteiros não passavam credibilidade. Minha vontade era de continuar a viver livremente, sem amarras, sem mais compromissos do que aquele a qual estava predestinado desde que nasci. Porém, já estava conformado, minha noiva era uma mulher bonita, recatada e de uma família extremamente tradicional aqui no norte. Não seria nenhum sacrifício passar a vida ao seu lado.

Após a reunião, papai e eu entramos na minha luxuosa 4x4 e seguimos para a fazenda, a poucos quilômetros de distância da cidade, acompanhados pelos nossos seguranças. Parece irritante, porém, eu já havia me acostumado, já que foram poucas às vezes que saí por aí sem a presença deles.

O casarão da fazenda tinha uma arquitetura clássica que lembrava os grandes palácios imperiais portugueses. Por dentro, o luxo surpreendia, era realmente algo de se espantar, por se tratar de uma fazenda localizada na floresta amazônica. Abílio, meu pai, sempre foi fascinado por ouro, quadros e qualquer tipo de arte que representavam seu poder aquisitivo. Nossa família era a mais rica e poderosa do norte, provavelmente da América Latina, mas a Forbes jamais descobriria.

Lá fora, contávamos com uma enorme piscina e uma área de lazer, que incluía desde um bar com as melhores bebidas até um espaço com uma vasta variedade de jogos de mesa. Especialmente hoje, estava tudo decorado para a festa de noivado da minha irmã. Havia arranjos de rosas por toda parte, mesas e um palco no centro para o acontecimento. O futuro noivo da minha irmã era filho do maior importador de pescados do norte, ele era um bom partido, porém, pelo fato de termos poder e dinheiro com fartura, ninguém parecia ser tão bom ao nosso lado. Mas, é claro, Abílio não dava ponto sem nó, Moisés, além de carismático, já estava no segundo mandato como deputado federal e tinha tudo para ser eleito como o novo governador do Pará.

Eu não era fã de festas convencionais que mais pareciam uma disputa de ego entre os convidados. Ainda não tinha começado, mas eu estava ansioso para que acabasse. Infelizmente, era minha obrigação, como irmão da noiva e futuro maior representante da família, comparecer naquele teatro, já que minha irmã também não demonstrava o menor interesse nessa união.

Depois de um banho gelado, vesti uma calça jeans apertada que marcava os músculos fartos da minha coxa, em seguida, botei uma camisa xadrez, deixando dois botões abertos para que meu cordão de ouro com o pingente de cruz ficasse a mostra, por fim, calcei botinas de couro e me olhei no espelho enquanto ajeitava meu chapéu de couro importado. Melhor impossível. Para finalizar, borrifei no pescoço o perfume amadeirado, peguei minha pistola no fundo da gaveta do meu guarda-roupa e a escondi na cintura. Costumava andar prevenido, por mais que meus seguranças sempre estivessem comigo, eu me sentia como um alvo ambulante, cuidado nunca era demais.

Estava descendo a escada quando avistei minha noiva exuberantemente bem vestida à minha espera. Analice tinha traços delicados, boca pequena, nariz arrebitado, pequenos olhos azuis e fios loiros ondulados que emolduravam seu belo rosto. Ela usava um longo vestido num tom claro de rosa. Provavelmente a mulher mais linda da noite.

- Beto, meu noivo. Você poderia estar vestido um pouco mais de acordo, não acha?

- Para uma festa na minha própria casa? Não mesmo, até porque isso é só um noivado.

- Os noivados também têm a sua importância. O nosso, inclusive, foi o mais aguardado de todo norte - óbvio, todos tinham interesse em saber quem o homem solteiro mais disputado do norte, escolheria como futura esposa e mãe de seus filhos. - Por isso, o nosso casamento deverá ser a maior festa da história.

Arqueei as sobrancelhas, intrigado pelo fato da minha noiva querer ser a maior em tantas coisas que, para mim, eram completamente insignificantes.

- Vamos para o salão - disse, passando meu braço pelo seu e guiando minha noiva de maneira civilizada. Tudo naquela noite era tão previsível que, somente o fato de não estar usando um smoking, era o suficiente para despertar olhares controversos e cochichos por todos os cantos.

- Eu disse que você não estava de acordo - Analice balbuciou, decepcionada.

Segui com ela rumo à mesa da família, próxima ao palco onde seria feito o discurso do noivado.

- Filho, como tu estás lindo - mamãe afirmou, admirada, enquanto jogava os longos cabelos castanhos para trás.

Apesar de ter mais de quarenta anos, tinha a aparência de uma mulher jovem, linda e elegante. Diferente de mim, mamãe estava vestida formalmente, com um vestido longo na cor creme que caía perfeitamente em seu corpo.

- Obrigado, mamãe, mas não seja modesta. Seu filho não chega aos seus pés.

Ela sorriu antes de começar a bajular sua nora.

- Não faz mais que sua obrigação, tu tens que se esforçar muito para ficar à altura da sua noiva. Tu soubeste escolher, Analice é uma das moças mais lindas que já vi.

- Uma das? Desculpe-me, Valentina, mas nem mesmo nas capas de revista, aparece mulheres com uma beleza única como a minha.

Respirei fundo, um tanto entediado. Rapidamente fiquei de pé e deixei a mesa da minha família. Pelo menos para mim, o assunto não era interessante. Ao invés disso, saí em busca de Lázaro, meu irmão mais velho que, até o momento, não tinha dado as caras.

Caminhei um pouco e o avistei um pouco distante, próximo à entrada da cozinha industrial, responsável pelo buffet da noite.

- Lázaro, está fazendo o quê aí? Vamos pro salão beber alguma coisa.

Meu irmão abriu um sorriso sarcástico para mim.

- Quem te vê falando assim, até pensa que sou bem-vindo.

- Estou te convidando.

- O seu pai não ficará nada feliz em te ver ao lado do irmãozinho bastardo. Além do mais, não estou vestido de maneira apropriada.

- E por acaso eu estou? - Lázaro ficou em silêncio, enquanto me media de cima a baixo. - Será um grande favor, não consigo ficar mais um único segundo ali sozinho ouvindo mulheres falando mal do vestido e do cabelo umas das outras.

- Tudo bem. Mas já vou logo avisando que nada que você faça, fará com que eu sente à mesa junto a sua família.

Assenti, compreendendo perfeitamente Lázaro. Realmente ele não era muito querido por papai, mas em compensação Lavínia e eu sempre nos demos muito bem com ele. Desde criança minha irmã e eu nos empenhamos em ajudá-lo, mesmo contra a vontade do nosso pai. Mamãe, por ser muito submissa a Abílio, costumava evitar ter envolvimento com seu primeiro filho e isso era o que mais lhe doía.

Hoje somos adultos, experientes, "donos" das nossas escolhas. Mesmo na adolescência, sempre lidei com muitas responsabilidades, obrigações do trabalho e da família, porém, nunca vi isso como um sacrifício. Nasci para a adrenalina e com a ânsia de arriscar, bater de frente com o inimigo e encarar o perigo.

Escolhi uma mesa discreta para que Lázaro ficasse mais à vontade, estávamos distantes do palco, mas foi impossível deixar de prestar atenção no momento em que mamãe e Abílio subiram ao palco, ao lado de Moisés, futuro noivo de Lavínia. A ausência da minha irmã gerou uma certa tensão no salão. Diferente de mim, Lavínia nunca escondeu seu receio por casamentos arranjados, ela sempre foi super romântica e costumava levar a sério as histórias dos livros que vivia lendo por aí. Lavínia, várias vezes, já ousou a dizer que não desejava um príncipe encantado montado num alazão, mas sim um amor verdadeiro, com reciprocidade onde ambos pudessem ser felizes e apaixonados enquanto estivessem juntos.

Várias vezes alertei Lavínia que, na nossa família, isso jamais daria certo. Para os Magalhães, os negócios e o dinheiro vem sempre em primeiro lugar. Apesar do romantismo, nunca a vi demonstrando paixão por ninguém, a não ser que ela tivesse um amante secreto a ponto de nunca deixar rastros ou brechas sobre seu caso. O que não era impossível, já que quando querem, as mulheres fingem e mentem muito melhor que nós homens.

Mas aquele atraso da minha irmã estava me deixando de cabelo em pé. Pelo que conhecia dela, o que estava por vir era péssimo. Aquela altura, ela já havia armado algo para reforçar sua ladainha feminista.

- Já falei com Lavínia, ela está chegando. Está demorando um pouco mais do que devia porque quer ficar exuberante para o noivo - o tom de mamãe não convencia.

O clima começou a piorar quando ela, meu pai e o noivo, ficaram plantados em cima do palco por longos minutos enquanto todos cochichavam sobre a situação.

- Droga! Seja lá o que Lavínia esteja tramando, espero que você não tenha nada a ver com isso, Lázaro. - Meu irmão me fitou de soslaio.

Sua calmaria era um tanto estranha, contando com o fato de que ele sempre foi cúmplice nas principais rebeldias de Lavínia, duvido que ficariam de braços cruzados com ela prestes a ser condenada a viver para sempre ao lado de um homem que não amava.

Foi então que, inesperadamente, um barulho fez com que todos se virassem para trás simultaneamente.

- Seu Moisés, pague o que me deve! Seu Moisés, pague o que deve! - Esse foi o coro que se formou às nossas costas.

Engoli em seco desacreditado, já com a mão na cintura, pronto para atirar se fosse necessário. Mas cedi quando vi minha irmã gritando e protestando junto com eles.

- Moisés! Como você quer casar comigo, sendo que não paga o salário desses pobres pescadores? Se você não é capaz de manter seus funcionários, quem dirá uma esposa do meu nível!

- Oohhh! - os convidados se espantaram com o ato da minha irmã.

- Moisés, pague os pescadores! Moisés, pague os pescadores! Vamos galera!

Lázaro começou a gargalhar sem controle a ponto de pressionar a barriga de dor. Eu, revoltado, soquei a mesa, impondo respeito para por fim aquela bagunça. Esse circo faria com que nossa família virasse piada na região, pior, deixasse uma mancha no nosso legado.

Vendo que, se continuássemos parados, aquela baderna não chegaria ao fim tão cedo e eu não esperei mais. Subi sobre a mesa, saquei minha pistola e disparei para cima.

- Chega! Darei 10 minutos para que todos os ribeirinhos deixem a fazenda, imediatamente. Caso não queiram sair por bem, a outra alternativa é o caixão! - fui direto e reto, sem mais delongas.

A vergonha me corroía, o desprezo por Lavínia e Lázaro, que foi obviamente o seu comparsa naquilo tudo, aumentava a cada segundo.

Rapidamente, nossos seguranças e capangas começaram a surgir de várias direções, todos armados com pistolas e fuzis de alto calibre. Temendo o pior, os ribeirinhos ergueram os braços em rendição, um deles chegou a urinar nas calças.

- Tirem-nos daqui! Com vida! Ouviram? Com vida! - Um massacre na festa de noivado da minha irmã, era tudo que não queríamos para aquela noite.

De maneira imediata e brusca, os ribeirinhos foram retirados. O silêncio reinava absoluto, aguardando uma explicação sobre o que realmente estava acontecendo. Se a filha do grande Abílio Magalhães ficaria noiva ou não com o deputado Moisés.

- Meus caros convidados, peço desculpas pelo ocorrido - meu pai pegou o microfone e falou num tom um tanto irritado. - Vamos esquecer esse infeliz acontecimento e parabenizar Moisés e Lavínia, os mais novos noivos da cidade! - Os convidados se entreolharam, mas a presença de papai era mais que o suficiente para impor respeito e deixá-los com medo, caso dissessem algo.

Logo um couro de salva de palmas era formado para parabenizar o novo casal, enquanto lágrimas pesadas caíam como cascatas dos olhos esverdeados da minha irmã. Olhei para o lado e vi Lázaro cerrando os dentes e apertando os punhos, cheio de raiva e revolta.

Capítulo 3 2

Dois

Céu

- Calma, Céu, agora mais do que nunca tu precisas ser forte.

Engoli o bolo que se formou em minha garganta, após ver a última pá de terra ser jogada sobre a cova de papai. Ali seria sua nova morada, seu lugar de descanso depois de ter se sacrificado e trabalhado a vida inteira para cuidar de mim. Amor, carinho e educação nunca faltaram na minha criação. Seu Joaquim foi um homem incrível, não poderia ter tido um pai melhor. Infelizmente todos estamos aqui de passagem e chegou o momento de seguir meus trilhos sozinha, escrever minha própria história como ele escreveu a dele.

- Vamos embora, não dá pra gente ficar aqui para sempre - Jacira, minha melhor amiga, estava empenhada em me dar todo apoio possível.

- Descanse em paz, meu pai. Te amarei para sempre... - murmurei baixinho, sentindo as lágrimas escorrerem por minhas bochechas, enquanto colocava uma rosa sobre o lugar que ele ficaria eternamente. - Prometo nunca me esquecer de nada que tu me ensinastes. Obrigada por tudo...

Quando dei as costas para seu túmulo meu coração deu um nó, mas eu sabia que precisava ser forte se quisesse seguir sempre em frente e tenho plena certeza, de que era isso que papai queria para mim também.

Deixamos o humilde cemitério de Mandaraguia num profundo e doloroso silêncio, uma parte de mim, ficou ali. Um vazio se alojou em meu peito enquanto seguia pela estrada de chão pensativa, mas algo além do luto chamou minha atenção. Uma gigante caminhonete passou acelerada ao meu lado para depois derrapar bruscamente, bloqueando a passagem e jogando poeira sobre nós.

Abanei o ar com as mãos para tentar respirar ou enxergar alguma coisa, quando a nuvem finalmente abrandou o vidro escuro do carro potente e luxuoso arriou, revelando um homem branco usando óculos escuros e cabelos lisos escondidos debaixo de um boné.

- És tu, a Celeste, filha do seu Joaquim que morreu? - Engoli em seco com a rispidez do homem, que até então nunca tinha visto. - Responde à minha pergunta, tu és a Celeste?

- Égua! Por que quer saber?

- Vou ser direto contigo. Seu pai, antes de ir embora, deixou uma dívida com a gente. E quem pagará é tu.

- Uma dívida... Dívida de quê?

- Drogas - ele disse, abrindo um sorriso sarcástico, revelando alguns dentes podres que me fizeram sentir asco.

- Meu pai era um homem direito, jamais teria a coragem de usar uma coisa dessas!

- Tem razão, ele não usava, mas vendia.

- Mentira! Impossível! Papai era pescador, ficava a semana inteira pelos rios para trazer o nosso sustento.

- Isso era o que ele dizia. De qualquer forma, esse é o valor da dívida.

O homem me entregou um pedaço de papel e eu tive que rir daquilo.

- 20 mil. Égua! Então tu estás querendo dizer que meu pai morreu te devendo 20 mil em drogas? Ah, pare com isso moço, tome vergonha na cara, papai era um caboclo honesto. Se ele estivesse aqui agora diria que nem sabe o que é 20 mil reais, muito menos em drogas. Papai era um homem direito, não gostava nem de tocar no nome dessas coisas.

Minhas palavras pareciam não ter a menor importância para o senhor à minha frente.

- Você tem uma semana para me arranjar pelo menos a metade desse dinheiro, caso o contrário...

- Caso o contrário?

- Nem queira saber - foi o que ele disse antes de subir o vidro do carro e partir acelerado, deixando uma infernal nuvem de poeira novamente.

- Égua! Quem era aquele homem e o que ele queria?

- Ninguém. Prefiro acreditar que isso seja apenas um delírio do luto que estou sentindo.

Jacira assentiu, mas em seguida ficou paralisada, com os grandes olhos negros arregalados quase saltando para fora, e disse involuntariamente:

- Tome muito cuidado com ele. - Arrepios cobriram minha pele, o medo me varreu ferozmente.

Quando caiu em si, Jaci se apavorou e tentou consertar o que acabara de dizer:

- Não ligue para as coisas que eu falo.

- Como não ligar, Jaci, tu me alertastes sobre a morte de papai, nunca mais deixarei de acreditar em nada que sai da sua boca. - Jacira tinha me alertado, da mesma maneira, sobre a morte do meu pai, ignorei, mesmo não sendo sua primeira previsão.

Na verdade, desde que nos conhecemos, ainda crianças, Jaci sempre foi muito intuitiva, mas agora nos últimos tempos ela tem tido visões mais claras e um tanto assustadoras. Será que isso tem a ver com o fato da minha amiga ser uma índia? Talvez possa ser isso, Jaci fugiu da sua tribo com a irmã mais velha que se envolveu com um homem branco e hoje tem uma família com ele. Jaci ainda mora com eles, mas sinto que às vezes ela se sente deslocada.

Minha amiga odiava falar sobre isso.

[...]

Chegando em casa, eu não tinha muitas alternativas senão trabalhar dobrado para me manter sozinha. E pior que me manter sozinha era viver sozinha, sendo uma moça de 17 anos. Papai, que sempre foi precavido, deixava uma espingarda comigo e me ensinou a atirar caso fosse preciso, mas agora, mesmo com uma arma me sinto um tanto indefesa e solitária. Meu coração dói só de pensar que papai nunca mais passará por aquela porta. Talvez eu tivesse mesmo que focar no meu trabalho, para espairecer e aceitar minha nova realidade.

Eu tinha uma encomenda para finalizar ainda nesta semana. Minhas mãos estavam sempre calejadas e meus dedos feridos devidos as farpas do bambu. Faz algum tempo que me descobri artesã. Cresci vendo vovó tecendo peneiras e balaios com tiras de bambu. Eu ficava completamente encantada e admirada com aquilo e, não demorou muito para que começasse a me arriscar e ficar boa naquilo também. Muito criativa, além dos tradicionais balaios e peneiras de vovó, também comecei a tecer cestinhas, vasos e outros objetos decorativos. Quando ela partiu, me restou de herança seus fiéis clientes. Comerciantes que viam de fora ou nossos vizinhos ribeirinhos que eram fãs da resistência dos meus balaios.

Passei o restante do dia tecendo balaios e quase virando a madrugada para dar conta de tudo. Mas aos poucos minha energia se esgotava e eu acabei desabando, dormindo como se aquela fosse a última noite da minha vida.

Sonhei com papai. Ele me encontrava e dizia que nunca esteve tão bem, eu disse que queria ficar com ele, mas ele disse que a minha missão não estava cumprida e que eu tinha muito o que viver daqui para frente.

[...]

Beto

- Abílio, por favor, não faça isso com nossa filha! - mamãe implorou, desesperada.

Papai se fez de surdo e com um cinto continuou a açoitar minha irmã, como se ela fosse uma escrava e ele o feitor. Ela gritava, se contorcia, gemia de dor. Mas depois daquele circo não havia mais nada a ser feito, Lavínia nos envergonhou diante dos nossos sócios e de toda a sociedade. Amanhã viraríamos piada em toda cidade.

Quando Abílio parou, mamãe abraçou minha irmã tentando acalmar seu choro de alguma maneira.

- A culpa disso tudo é sua. Você não soube educar nossos filhos, que mulher imprestável escolhi como esposa. Deveria lhe dar uma surra...

- Na minha mãe você não vai encostar nenhum dedo - cortei papai friamente.

Cresci vendo ele espancar minha mãe por qualquer besteira, muitas vezes a culpa era minha e de Lavínia, que aprontávamos bastante na infância, mas no final das contas quem pagava por nossos erros sempre foi ela.

Abílio também me agrediu e humilhou muitas vezes, mas desde o dia que aprendi sozinho a manusear uma arma, passou a me olhar com mais respeito. Minha relação com Abílio era um tanto incerta. Ele deixou marcas permanentes no meu corpo. Ser o filho homem significava sofrer mais e meu pai optava por usar um chicote grosso para me corrigir, mesmo não passando de um pirralho naquela época.

O clima na casa estava pesado e nem se eu quisesse, conseguiria dormir. Estressado peguei minha caminhonete e rodei por Mandaraguia para saber como estavam as coisas. A reação dos moradores falava por si só, quando reconheciam minha caminhonete até mesmo as crianças corriam para dentro de casa, as senhoras fechavam as janelas e trancavam tudo como se eu fosse uma assombração. Levaria anos para construir meu próprio legado e limpar a imagem terrorista que meus antepassados deixaram marcada na cidade. Nunca quis ser temido, meu objetivo era ser respeitado o que era muito mais difícil de se conquistar.

Mandaraguia ficava localizada num ponto estratégico. Poderíamos dizer que estávamos dentro da floresta amazônica e a poucos quilômetros da fronteira com a Bolívia. Na via que fazia conexão entre os dois países havia um hotel, que à noite também funcionava como um tradicional cabaré da cidade: A Sirigaita.

Eu costumava frequentar o cabaré. Tinha gostos um tanto peculiares no sexo e somente as mulheres de lá conseguiam me saciar, sem se sentirem violadas. Lá eu descarregava meu prazer, meu ódio, meus sentimentos mais impuros sem nenhum remorso. Não precisava me controlar como fazia com minha noiva cheia de frescuras.

Não perdi tempo, estacionei meu carro e entrei na casa onde fui recebido como um rei. A decoração era um tanto extravagante, havia lustres gigantes espalhados pelos quatro cantos do salão que faziam contraste com o vermelho que cobria as paredes. O bar de madeira expunha as bebidas para os mais variados gostos. Eu particularmente não gostava de perder tempo. Um minuto era mais que o suficiente para escolher quem seria meu brinquedinho da noite.

Uma morena de cabelos longos e negros, extremante brilhantes, chamou minha atenção logo que entrei. Ela era exuberante e tinha cada curva do corpo em seu devido lugar. A lingerie vermelha contrastava com a pele clara e seu perfume era um ímã, mexia com meus sentidos e ascendia todos os meus instintos mais cruéis e sensíveis. Rapidamente a levei para a suíte vip onde deixei o monstro que vivia enjaulado dentro de mim, sair, extravasar, descarregar seus desejos, seu rancor e suas mágoas.

Ali me libertei. Dei e recebi prazer. Queimei boa parte da minha energia fodendo aquela puta e depois fui embora. Nervoso, angustiado e mais revoltado que nunca.

Meu pós sexo nunca foi muito agradável, com isso já estava acostumado. Deixei o local e peguei meu carro o mais depressa que pude. Segui acelerado pela estrada de terra íngreme e esburacada, que levava à fazenda Magalhães. Apesar de escuro, no leste já era possível ver os primeiros raios de sol apontados por trás das gigantescas e robustas árvores daquela região. Diminuí a velocidade para passar pela pequena ponte de madeira que cruzava um riacho. Mas soube que minha manobra não seria o suficiente quando ouvi um estrondo e senti o impacto da madeira se desfazendo debaixo da caminhonete. Tudo aconteceu muito rápido, senti algo na minha cabeça, para em seguida me desligar por completo enquanto a água gelada do riacho tomava conta de tudo que havia à minha volta.

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