A chamada veio às três da manhã. O meu pai teve um ataque cardíaco e estava no hospital. Desesperei-me, agarrei nas chaves, mas lembrei-me que o meu carro estava com o Pedro, o meu marido.
Liguei-lhe, a voz sonolenta e irritada. Pedi o carro com urgência. Foi então que ouvi uma voz feminina, abafada, perguntar: "Quem é, querido?". Era a Clara, a minha "melhor amiga". O sangue gelou nas minhas veias.
Ele mentiu, disse que estava em "trabalho" em Faro – a cidade natal dela. Depois, desligou-me na cara, abandonando-me no pior momento da minha vida. Mas a sua audácia não parou aí. No hospital, a minha irmã disse que a Clara estava a caminho. Pedro, o meu marido adúltero, enviou a sua amante para se fazer de amiga solidária, encobrindo a sua própria cobardia.
Como podiam ser tão desprezíveis? Enquanto o meu pai lutava pela vida, o meu marido e a minha melhor amiga tramavam este teatro repugnante. O vazio da traição e a frieza do desprezo eram insuportáveis, mas a raiva fervia dentro de mim.
Quando Clara chegou, com a sua performance de "amiga preocupada", a fachada de hipocrisia desmoronou-se. Ali, na sala de espera do hospital, com o meu pai entre a vida e a morte, eu olhei para ela e para a minha irmã. Ia jogar segundo as minhas regras. E ia expor a verdade, custe o que custar.
A chamada veio às três da manhã, o som estridente cortando o silêncio do meu apartamento.
Era a minha irmã, Sofia. A voz dela estava embargada pelo pânico.
"Ana, o pai... o pai teve um ataque cardíaco. Estamos no Hospital da Luz."
O meu coração gelou. Saltei da cama, as minhas mãos tremiam tanto que mal consegui vestir-me.
Agarrei nas chaves do carro e corri para a porta, mas a minha mão parou na maçaneta.
Lembrei-me. O meu carro. Eu tinha-o emprestado ao meu marido, Pedro, há dois dias. Ele disse que o carro dele estava na oficina e que precisava dele para uma viagem de trabalho urgente a Coimbra.
Liguei-lhe de imediato. A chamada foi atendida ao primeiro toque, o que era raro.
"Ana? Aconteceu alguma coisa? São três da manhã." A voz dele soava sonolenta e irritada.
"Pedro, preciso do carro agora. O meu pai está no hospital, teve um ataque cardíaco."
Houve uma pausa do outro lado. Depois, ouvi um barulho e a voz de uma mulher, abafada mas clara. "Quem é, querido?"
O meu sangue congelou nas veias. Aquela voz. Era Clara, a minha "melhor amiga".
Pedro pigarreou, a sua voz tornou-se apressada. "O quê? O teu pai? Ele está bem? Olha, Ana, isto é complicado. Eu... eu não estou em Lisboa."
"Não estás em Lisboa? Disseste que ias a Coimbra. Onde estás?"
"Estou em... Faro. Sim, Faro. A reunião mudou à última da hora. O carro não está aí. Não posso ajudar-te agora."
Faro. A cidade natal de Clara. A mentira era tão descarada que me deixou sem ar.
"Pedro, ouvi a Clara. Ela está aí contigo, não está?"
Silêncio. Um silêncio pesado e culpado que confirmava tudo.
"Ana, não é o que estás a pensar," ele disse finalmente, a sua voz desprovida de qualquer convicção. "A Clara só... precisava de uma boleia para ver a família. Foi uma coincidência."
Uma coincidência. Emprestar o meu carro para levar a minha melhor amiga numa viagem secreta para a cidade dela, enquanto o meu pai lutava pela vida.
"Eu preciso do carro, Pedro. Agora." A minha voz era um sussurro frio.
"Não posso, Ana! Já te disse! Chama um táxi! Para de fazer um drama por nada! O teu pai vai ficar bem, ele é forte."
Depois, ele desligou. Simplesmente desligou na minha cara.
Fiquei a olhar para o telemóvel, incrédula. O homem com quem eu era casada há cinco anos, o homem que prometeu estar ao meu lado na saúde e na doença, tinha-me abandonado no pior momento da minha vida. Por ela.
As lágrimas que eu segurava começaram a escorrer pelo meu rosto, quentes e amargas. Não era apenas pela traição. Era pelo desprezo. Pela frieza.
O meu pai podia estar a morrer, e a única preocupação do meu marido era encobrir o seu caso.
Naquele momento, no corredor escuro do meu apartamento, com o som distante das sirenes lá fora, eu soube. O meu casamento tinha acabado.
Cheguei ao hospital de táxi, o coração a bater descontroladamente no meu peito.
Encontrei a minha irmã Sofia na sala de espera da unidade de cuidados intensivos. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados.
"Como é que ele está?" perguntei, a minha voz a falhar.
"Estabilizou, por agora. Os médicos disseram que as próximas horas são críticas. Foi um ataque massivo, Ana."
Ela abraçou-me com força, e eu desabei, o peso da noite a cair sobre mim.
"Onde está o Pedro?" ela perguntou, afastando-se. "Eu liguei-lhe primeiro, mas ele não atendeu. Pensei que ele viria contigo."
Engoli em seco, o sabor amargo da mentira dele na minha boca. "Ele... ele está fora da cidade. A trabalho."
Sofia franziu o sobrolho. "A trabalho? Que estranho, ele disse-me na semana passada que esta semana ia ser calma."
Eu não consegui responder. A mentira parecia pesada e suja.
Ficámos em silêncio, a olhar para a porta fechada da UCI, rezando. As horas arrastavam-se. Cada vez que um médico saía, o nosso coração parava.
O meu telemóvel vibrou. Era uma mensagem de Pedro.
"O teu pai está melhor? Desculpa por mais cedo. Fiquei em pânico. Falamos quando eu voltar."
Não havia menção a Clara. Nenhuma explicação real. Apenas uma desculpa esfarrapada.
Apaguei a mensagem sem responder. A raiva era uma brasa quente dentro de mim.
De repente, o telemóvel de Sofia tocou. Ela atendeu, a sua expressão mudando de preocupação para confusão.
"Clara? Sim, estamos no Hospital da Luz... O quê? Como é que soubeste?"
O meu corpo inteiro ficou tenso.
Sofia ouviu por mais um momento e depois desligou, virando-se para mim com uma expressão estranha.
"Era a Clara. Ela disse que o Pedro lhe ligou, muito preocupado. Disse que estava a caminho de Lisboa e pediu-lhe para vir aqui, para nos dar apoio, já que ele não podia."
A audácia. A pura e incrível audácia deixou-me sem palavras.
Ele não só me mentiu, como agora estava a usar a amante dele para se fazer de marido preocupado à distância. Ele enviou-a para a minha frente para representar o papel de amiga solidária.
"Ela está a vir para cá," disse Sofia, ainda sem perceber a dimensão da situação. "Foi simpático da parte dela, não foi?"
Eu não disse nada. Apenas assenti, um sorriso gelado a formar-se nos meus lábios.
Se a Clara queria vir, que viesse. Se o Pedro queria jogar este jogo, então íamos jogar.
Mas íamos jogar segundo as minhas regras.