A escuridão se dissipou, e eu estava de pé, viva, no tapete vermelho do "Prêmio Zênite da Moda", o dia exato em que minha vida desmoronou na outra vez.
Meu coração gritava ao ver Clara, minha irmã gêmea, sorrindo e de braços dados com Leonardo, o homem que eu amava mais do que a mim mesma.
Ele e Clara, unidos, colhendo os louros de um futuro que eu, tola Sofia, sacrifiquei minha carreira e minha honra para construir, assumindo fraudes que eram dele.
Na minha vida passada, eu esperava amor eterno, mas recebi a traição mais vil: Clara roubou meu projeto mais valioso e se tornou a pupila de Ricardo Vargas, o magnata que os elevou enquanto me jogava na miséria.
"Sofia, você está bem? Parece pálida", a voz dela, doce como veneno, me tirou do transe.
Olhei para minhas mãos limpas, sem o sangue da humilhação, e um ódio gelado subiu pela espinha.
Não seria um sacrifício.
Não seria perdão.
Eu havia retornado, e desta vez, eles descobririam que a Sofia que conheciam estava morta.
A mulher que renasceu, com o coração pulsando em fúria, não tinha nada a perder e tudo a vingar.
A escuridão se dissipou e uma luz ofuscante invadiu meus olhos, o cheiro de champanhe caro e perfume encheu o ar, um murmúrio de conversas elegantes zumbia ao meu redor.
Eu estava de pé, viva.
Meu coração, que tinha parado de bater no chão frio e sujo de um beco esquecido, agora batia forte contra minhas costelas, o tecido de seda do meu vestido roçava minha pele.
Olhei para minhas mãos, não havia mais a sujeira e o sangue, elas estavam limpas, com as unhas perfeitamente feitas.
Uma onda de choque percorreu meu corpo, não era um sonho, era real.
Eu tinha voltado.
Voltei para o dia do lançamento do "Prêmio Zênite da Moda", o dia em que tudo começou a desmoronar.
Meus olhos varreram o salão luxuoso e pousaram neles.
Clara, minha irmã gêmea, com um sorriso radiante, segurava o braço de Leonardo, meu namorado.
Leonardo, o promissor empresário que eu amava mais do que a minha própria vida.
Eles pareciam o casal perfeito, recebendo os cumprimentos dos convidados, brilhando sob os holofotes.
Um ódio gelado subiu pela minha espinha, tão intenso que me deixou sem fôlego.
Na minha vida passada, neste exato momento, eu estava me preparando para anunciar meu sacrifício.
Leonardo estava à beira da falência, afundado em dívidas fraudulentas que destruiriam sua carreira.
E eu, a tola apaixonada Sofia, decidi assumir toda a culpa.
Eu destruí meu nome, minha carreira como designer de moda em ascensão, para salvá-lo.
Eu esperava que ele me recompensasse com amor eterno, com lealdade.
Mas a recompensa foi uma traição que me destruiu.
Ele e Clara, minha própria irmã, me apunhalaram pelas costas.
Clara, que nasceu do mesmo útero que eu, unida a mim por um cordão umbilical que o destino se esqueceu de cortar completamente.
Ela usou meu sacrifício para roubar meu projeto mais valioso, o design que me colocaria no mapa, e se apresentou como a verdadeira mente por trás dele.
Ela se tornou a "pupila" de Ricardo Vargas, o magnata da moda que estava no palco naquele momento, o homem que ditava as regras deste mundo cruel.
Eu fui jogada na miséria, enquanto eles subiam ao topo sobre as ruínas da minha vida.
"Sofia, você está bem? Parece pálida."
A voz de Clara, doce como mel envenenado, me tirou do transe.
Ela se aproximou, seu rosto uma máscara de preocupação fraternal.
"Estou bem", respondi, minha voz fria, desprovida de qualquer emoção.
Escondi a fúria que fervia dentro de mim sob um véu de indiferença.
Desta vez, não haveria sacrifício.
Desta vez, não haveria perdão.
No palco, Ricardo Vargas, o magnata, ajustou o microfone, seu rosto severo e imponente silenciando a multidão.
"Bem-vindos ao Prêmio Zênite da Moda", sua voz grave ecoou pelo salão. "Esta noite, não celebramos apenas a moda, celebramos a ambição, a coragem e o talento que impulsionam nossa indústria."
Ele fez uma pausa, seus olhos examinando a plateia, como um imperador observando seus gladiadores.
"O prêmio deste ano é mais do que um troféu, é uma oportunidade única, uma parceria direta com o meu império, um caminho para a glória eterna."
Um murmúrio de excitação percorreu a multidão.
Todos queriam aquele prêmio.
Todos, exceto eu.
Eu já conhecia o preço daquela "glória eterna".
Clara apertou minha mão, seus olhos brilhando de cobiça.
"Você não está animada, Sofia? Este é o nosso ano! Juntas, nós podemos conseguir."
"Juntas", repeti, a palavra deixando um gosto amargo na minha boca.
Por trás de seu sorriso, eu via a inveja, a ganância, a mesma escuridão que me consumiu na vida passada.
Ela já estava planejando, já estava conspirando.
Mas a Sofia que ela conhecia estava morta.
A mulher que estava ali agora não tinha nada a perder e tudo a vingar.
A multidão aplaudiu quando Ricardo Vargas terminou seu discurso, o som era ensurdecedor, mas para mim, era apenas ruído.
Em meio à celebração, eu sentia um frio que vinha da alma, uma promessa silenciosa que fiz a mim mesma.
Eles me traíram, me humilharam, me destruíram.
Desta vez, eu faria o mesmo com eles.
Eu não queria apenas vencer.
Eu queria destruir o mundo deles, peça por peça, até que não sobrasse nada além de cinzas.
A memória da dor era tão vívida que parecia estar acontecendo de novo.
Nós nascemos juntas, Clara e eu, unidas por um laço físico que os médicos separaram, mas que a alma nunca esqueceu.
Éramos um espelho uma da outra, mas onde eu tinha talento para o design, uma paixão crua e instintiva, Clara tinha o talento para a manipulação.
Desde cedo, Ricardo Vargas, o todo-poderoso da moda, viu algo em Clara.
Não o talento, mas a ambição implacável, a falta de escrúpulos que ele tanto valorizava.
Ele a elogiava em público, enquanto me tratava com uma indiferença calculada, como se meu talento fosse um diamante bruto que precisava ser polido pela arrogância dele.
Ele me ignorava, mas meus olhos viam a preferência dele por Clara, os sorrisos discretos, os conselhos dados em segredo.
A primeira prova, o primeiro teste de lealdade neste jogo doentio, foi a queda de Leonardo.
Sua empresa de tecnologia, construída sobre promessas vazias e empréstimos obscuros, estava prestes a implodir.
O escândalo seria sua ruína.
E eu, cega de amor, me ofereci como o cordeiro do sacrifício.
"Eu assumo a dívida", eu disse a ele, em seu escritório luxuoso, enquanto ele andava de um lado para o outro, desesperado.
"Sofia, isso vai destruir você", ele disse, com lágrimas de crocodilo nos olhos.
"Não importa, eu faço qualquer coisa por você."
E eu fiz.
Redigi um contrato falso, forjei documentos, transferi a fraude para o meu nome.
Vendi meu pequeno ateliê, minhas economias, minha alma.
Eu me tornei a vilã para que ele pudesse continuar sendo o herói.
O dia da humilhação pública foi no desfile de graduação da academia de moda.
Eu estava nos bastidores, exausta, mas com o coração em paz, acreditando que meu sacrifício valera a pena.
Leonardo me prometeu que, depois da tempestade, nós construiríamos nosso futuro juntos.
O design que eu apresentaria naquela noite era minha obra-prima, uma coleção chamada "Renascimento", inspirada na superação, na força que nasce da dor.
Mal sabia eu que o único renascimento seria o de Clara, sobre as minhas cinzas.
Quando chegou a minha vez, as luzes se acenderam e, para meu horror, foi Clara quem entrou na passarela.
Ela usava o vestido principal da minha coleção.
A multidão ofegou, era uma peça magnífica.
Leonardo subiu ao palco ao lado dela, segurando sua mão.
O microfone foi entregue a ele.
"Esta noite", ele começou, sua voz cheia de uma falsa emoção, "eu quero apresentar a vocês não apenas uma designer, mas uma visionária, a mulher que me inspirou a superar minhas dificuldades e que criou esta coleção incrível, minha amada, Clara."
O mundo ao meu redor ficou em silêncio.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Clara sorriu para a plateia, um sorriso modesto e vitorioso.
"Eu não fiz isso sozinha", disse ela. "Minha irmã, Sofia, me ajudou com alguns esboços. Infelizmente, ela se envolveu em alguns problemas financeiros e não pôde estar aqui para celebrar."
"Problemas financeiros" era o eufemismo que eles usaram para a desgraça que arquitetaram para mim.
Naquele momento, seguranças apareceram nos bastidores, acompanhados por Ricardo Vargas.
Seu rosto era uma máscara de fúria e decepção.
"Sofia", ele disse, sua voz cortante. "Você me desapontou. Fraude, escândalo, você manchou o nome da minha academia."
Ele não me deu chance de falar.
Ele me arrastou para o palco, para a frente de centenas de pessoas, para a frente das câmeras que transmitiam ao vivo.
"Esta mulher não é mais uma designer", ele anunciou, sua voz ressoando como uma sentença de morte. "Seu talento está contaminado pela desonestidade. Ela está banida da indústria da moda. Seu nome será uma lição para todos que ousam misturar negócios com sujeira."
Ele rasgou simbolicamente meu crachá de designer, o som do plástico se partindo ecoou mais alto que a batida do meu coração.
Ele estava me despojando da minha identidade, da minha paixão, da minha vida.
Humilhada, de joelhos no palco, eu vi Clara se aproximar de Ricardo.
"Senhor Vargas", ela disse, com a voz embargada. "Sofia tinha um pequeno portfólio de outros designs, talvez, para compensar os danos, eu possa trabalhar neles, para honrar o nome da nossa família."
Ela não queria apenas minha glória, ela queria meus restos.
Ela queria apagar cada vestígio de mim.
"Foi ela!", eu gritei, a voz rouca de desespero. "Foi Clara! Ela roubou tudo de mim! Leonardo, diga a verdade!"
Ninguém acreditou em mim.
Eu era a pária, a criminosa. Eles eram as vítimas, os heróis.
Meu grito se perdeu na multidão, uma súplica silenciosa que ninguém quis ouvir.
Essa foi a minha primeira morte.
Uma morte lenta e agonizante, sob os aplausos que celebravam minha destruição.