Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.
Sigmund Freud
Ricardo
Freud estava certo em sua reflexão e agora era um desses momentos em que eu fingia não me importar, quando na verdade o coração estava pedindo clemência.
Apesar disso, eu mantinha uma fachada de indiferença, pois estava na presença dos meus familiares e de alguns amigos, no aniversário da minha querida tia Veronica Alcântara, que era um grande evento para a alta sociedade paulistana.
Eu havia visto que o meu primo Nicolas estava conversando com seus pais, meus tios Gustavo e Veronica, quando a Alicia Guimarães se aproximou dos dois e decidi ir até onde eles estavam. Antes que eu conseguisse chegar até eles, meus tios saíram e pela expressão no rosto dos dois, pareciam terem ficado chateados com algo.
- Você está linda, Alicia. – Elogiei a Alicia, esse era o nome do meu sofrimento interno e por quem eu já fui feito várias vezes de bobo.
- Você já falou isso várias vezes hoje. – Alicia respondeu com o seu jeito petulante de sempre, fazendo pouco caso. – O João Felipe não vem? – Perguntou depois, com certeza para me fazer ciúmes.
- Para minha alegria, não. – Respondi sorrindo, me fazendo de idiota, mais uma vez.
O fato de o meu amigo não estar ali, deixava a Alicia sem uma de suas pessoas preferidas para me deixar por baixo, pois eu jamais poderia ficar com raiva do João Felipe, ainda mais se tratando daquele assunto.
- Vamos dançar? – A convidei.
Quem sabe aquele não poderia ser meu dia de sorte? Mas antes que a Alicia pudesse responder, meu outro primo, o Henrique, que era irmão mais novo do Nicolas, se juntou ao nosso pequeno grupo.
- Não mesmo! Por que você não desiste, hein? Não estou interessada! – Aparentemente, não seria hoje o tão esperado dia da virada, pois ela respondeu em um tom desnecessariamente rude.
- Você é tão insuportável, Alicia. –Henrique falou no mesmo tom usado por ela.
Meu primo não gostava da Alicia e nunca disfarçou o fato. Eu poderia sentir pena dela, caso eu também não estivesse nesse mesmo barco, sendo ela a culpada.
- E você é um idiota, Henrique! – Foi visível, ao menos para mim, que prestava atenção a todas as nuances de seu comportamento, que a Alicia ficou magoada pela forma como foi tratada pelo Henrique.
Após falar isso, Alicia saiu pisando firme, claramente chateada e eu ainda pensei em ir atrás dela, mas a presença dos meus primos ao meu lado me conteve.
Era sempre assim, a Alicia me fazia esquecer completamente o bom senso, pois no que se referia a essa garota, ele era quase inexistente e agora foi apenas mais uma dessas ocasiões em que ela me fazia de tapete.
- Quando você vai desistir de correr atrás da Alicia, Ricardo? – Nicolas perguntou.
Também não era a primeira vez que ele insistia em que eu deveria esquecer a Alicia e procurar conhecer uma "boa garota".
- Quando o sol congelar. – Henrique prontamente respondeu.
Apesar da piada, ele estava certo sobre um aspecto: eu não conseguia parar de tentar conquistar a Alicia. Se bem que conquistar era uma palavra forte demais para a nossa situação.
Tomei mais um gole da minha bebida, depois de ter sido desprezado pela Alicia de novo aquela noite, na frente dos meus primos.
Mas eu devia agradecer por não ter ainda mais testemunhas da minha rejeição, uma vez que o João Felipe não pôde vir. Ele estava bastante machucado, devido a uma briga na qual tinha se envolvido, na noite anterior. Algo bom, não o fato de ele ter levado a pior nessa tal briga e sim o fato de não ter vindo, pois a Alicia não desistia de se jogar para cima dele, em todas as oportunidades que apareciam e isso tornava tudo ainda pior para mim.
Mas o João Felipe não tinha nenhum interesse na Alicia, pois sempre foi apaixonado pela Viviane, filha de dois dos empregados mais antigos da mansão dos seus pais, pelo menos isso era algo que eu considerava bastante positivo para mim.
Eles já haviam tido um breve namoro e naquela ocasião, alguns anos atrás, eu fiquei completamente sem esperanças de ter a Alicia para mim e ainda tinha que a ver ao lado do meu amigo. Quando ele decidiu ir morar fora do país, eu fiquei muito feliz, precisava admitir.
Pensei então em ir embora da festa, mas meu orgulho não me deixou sair daquela forma, pois uma coisa era eu estar me sentindo desprezado e outra bem diferente era as pessoas saberem que eu estava daquela forma.
Fiquei olhando em volta, tentando localizar a mulher que me tirava o sono há anos, quando vi que ela já estava praticamente aos beijos com um famoso jogador de futebol brasileiro, o qual havia sido contratado recentemente para jogar fora do país. Era bem a cara da Alicia, ficar com alguém que chamasse bastante a atenção para a sua pessoa.
- Eu, em seu lugar, já teria saído daqui há muito tempo. – Nicolas disse, como sempre usando a sua racionalidade. – Não sei por que você insiste em frequentar os mesmos lugares que a Alicia.
- Você está me dizendo que eu deveria perder o aniversário da minha própria tia? – Perguntei de maneira sarcástica, pois havia entendido muito bem o que ele quis dizer.
- Não me venha com essa de se fazer de sonso, pois não combina com você, Ricardo. – O Nicolas acabou rolando os olhos, em um gesto que estava se tornando característico seu.
- Vamos esquecer o amor não correspondido do Ricardo e vamos falar agora no meu novo amor, que eu tenho certeza que será totalmente retribuído. – Henrique falou para a nossa surpresa.
A palavra AMOR e Henrique não ficavam na mesma frase, nunca!
- Que história é essa? – Nicolas se antecipou ao que eu mesmo iria perguntar. – Você tem um amor agora?
Olhei para o Nicolas e nós dois acabamos caindo na gargalhada, pois era hilário o pensamento de que o Henrique pudesse estar apaixonado. Até mesmo esqueci a minha própria situação amorosa.
- Podem rir bastante, não me importo. – Ele falou, suspirando de maneira teatral e nos fazendo rir ainda mais. – Estou completamente apaixonado.
Só o Henrique para conseguir me arrancar algumas risadas naquele momento.
- E quem é a pessoa sortuda que conseguiu conquistar esse coração maroto? – Perguntei, mas não acreditava de forma alguma que algo do tipo pudesse ter acontecido.
- A mulher da minha vida se chama Júlia e eu pretendo apresenta-la a vocês em breve. – Ele falou de forma bastante convincente.
Nós o olhamos ainda mais surpresos, já não mais rindo de suas palavras. Será que o Henrique havia mesmo se apaixonado?
- Essa Júlia que você está falando, por acaso seria a Júlia, amiga da Vivi? – Nicolas perguntou.
- Perfeitamente, meu irmão. – Henrique falou sorrindo satisfeito. – Ela será a sua cunhada, muito em breve, como eu já deixei claro.
-Mas ela não queria nem aceitar a sua carona, ontem. E vocês já estão apaixonados um pelo outro, assim, tão de repente?
Não entendi nada sobre o que eles falavam, e então o Nicolas explicou que quando eles haviam saído na noite anterior, para encontrar o João Felipe em uma boate, por acaso, a Viviane também estava lá, junto com duas amigas, Cecília e Júlia.
Só então eu compreendi que a briga na qual o João Felipe havia se envolvido tinha tudo a ver com a Viviane. Agora realmente ficou esclarecido o comportamento estranho dele na noite anterior, quando me ligou, praticamente implorando para que eu o acompanhasse a tal boate.
Mas eu já estava me sentindo muito mal por ter saído com os meus dois primos para uma boate e bebido além da conta no dia anterior, que recusei aquele convite.
Eu gostava bastante do João Felipe, erámos amigos, mas evitava beber em dias seguidos. O meu temor era encontrar na bebida um alento para o sentimento não correspondido que tinha pela Alicia. Era melhor não facilitar.
Como eu sabia que no aniversário da minha tia a Alicia também estaria, devido a amizade entre as duas famílias, eu não pretendia ter saído para beber naquela noite. Mas o Henrique havia me pedido para dar um apoio ao Nicolas, que ele estava precisando de distração, uma vez que havia flagrado sua própria esposa na cama com outro homem, e eu acabei por abrir aquela exceção.
- Então você conheceu a garota, forçou uma situação para ir deixa-la em casa, ela não aceitou as suas investidas, e agora você está apaixonado. – Recapitulei o que os dois irmãos me contaram. – É isso mesmo?
- Não da forma que você colocou, mas é basicamente isso, sim. – Henrique confirmou, mas não parecia nenhum pouco envergonhado por ter levado um fora e ainda se dizer apaixonado pela garota.
Fiquei extremamente curioso em saber quem seria ela e o que chamou tanto a atenção do Henrique, mas logo minha atenção foi desviada para a Laila, amiga e assistente do Henrique, que estava conversando com Jonas Campelo, filho de um dos maiores investidores do Brasil e que estava dentro do seleto grupo de bilionários existentes no país.
- A Laila conhece o Jonas Campelo de onde? – Perguntei aos meus primos.
Os dois homens se viraram no mesmo instante para olhar na direção em que eu estava olhando e com expressões de confusão, voltaram a me encarar.
- Nem façam essa cara de questionamento para mim. – Falei, levantando as duas mãos espalmadas para frente. – A funcionária é de vocês.
- Tendo em vista que a empresa é tão sua quanto nossa, ela é sua funcionária também. – Nicolas falou calmamente, tomando um gole da bebida em sua mão.
Apesar da fachada tranquila, eu sabia muito bem que ele deveria estar chateado, pois tinha certeza que existia sentimentos da parte dele por aquela garota. Ainda lembrava muito bem da vez em que o surpreendi aos beijos com ela, parado no acostamento de uma rua movimentada. Mas pouco tempo depois ele anunciou o seu noivado com a Natasha e depois disso, o Nicolas foi se tornando cada dia mais fechado e sem vida.
Tudo era compreensível agora, pois o casamento foi um completo fracasso, do início precipitado, até o término forçado tendo em vista a situação que o meu primo presenciou.
- Não gosto nada da forma como vocês estão se referindo a Laila. – Henrique nos repreendeu com expressão séria. – Ela é mais que uma funcionária, todos sabem disso. E não apenas para mim, não é mesmo, Nicolas? – Ele questionou o irmão, arqueando a sobrancelha de maneira irônica.
Não esperou por uma resposta, se virando e indo em direção até onde estavam a Laila e o Jonas.
- Noite agradável. – Falei de maneira irônica.
Ainda permaneci por mais algum tempo na festa, tentando encontrar alguma mulher que me interessasse ao ponto de querer passar uma noite com ela, mas foi em vão.
Eu só tinha olhos para a Alicia e já fazia bastante tempo que não conseguia ficar com nenhuma outra, o que só fazia piorar ainda mais a minha situação.
Fui embora de maneira discreta, nem mesmo me despedi dos meus primos, estava farto do bom senso do Nicolas e das piadinhas do Henrique.
Alicia havia sumido da festa, assim como o jogador também não estava em parte alguma. Preferi não ter certeza se eles haviam embora juntos ou se aquilo era apenas uma coincidência. Nesses casos, a dúvida era bem mais benéfica para o meu bem-estar emocional.
O remorso é a única dor da alma, que nem a reflexão nem o tempo atenuam.
Madame de Staël
Júlia
Estava sentada em frente ao meu computador, na sala em que trabalhava na empresa Gusmão e Associados, refletindo sobre a minha vida e as escolhas que eu havia feito ao longo dos meus vinte e três anos.
Desde que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe da qual eu fazia parte, uma vez que o senhor Waldir, meu antigo chefe, havia se aposentado, que a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente.
Para meu total desprazer, Maxwell Miller havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.
Eu nunca havia sido uma garota "sortuda", àquela que tudo que faz, ou que pretende fazer, dar certo. Mas a maioria das pessoas também não. Então até aí, eu era só mais uma pessoa vivendo uma vida normal, enfrentando algumas dificuldades.
Alguns diriam que eram desafios.
Independentemente da nomenclatura utilizada, eu considerava que estava tudo caminhando para alcançar a minha tão sonhada estabilidade.
Eu havia nascido em Brotas, interior de São Paulo e sempre me senti muito feliz ao lado dos meus pais. Mas tudo mudou quando minha mãe faleceu e meu pai colocou outra mulher dentro de nossa casa, menos de dois meses depois.
Durante a minha adolescência, presenciei um desfile constante de mulheres entrar e sair da vida do meu pai, e consequentemente, da minha também.
Mesmo assim, meu pai conseguiu me surpreender quando em meu aniversário de dezenove anos, ele e minha melhor amiga, a Samantha, assumiram um relacionamento e decidiram que iriam se casar. Aquilo me deixou devastada, eu realmente não esperava e falei àquilo para eles.
Meu pai me pediu então para sair de sua casa. Mesmo eu não tendo nenhum outro lugar para onde ir, pois a minha única família era ele e seus irmãos e nenhum deles me aceitou em suas casas.
Não podendo contar também com a minha melhor amiga, apelei então para a Cecília, uma grande amiga de infância, que já não morava mais em Brotas fazia mais de cinco anos, mas com quem sempre mantive contato.
Ela me aceitou em sua casa e me mudei então para São Paulo, aonde consegui encontrar, de maneira rápida, um emprego e pouco tempo depois, dei início ao meu curso de engenharia civil, algo que eu sempre sonhei em fazer.
O meu emprego era bastante razoável, levando-se em conta que ainda estava cursando a faculdade e eu dividia um apartamento de dois quartos com a Cecília, em um bairro relativamente calmo.
A gente se dava bem e sempre saíamos para nos divertir com nossos amigos JP, Vivi e César e eu gostava muito da minha nova vida em São Paulo e acreditava que estava tudo muito tranquilo, apesar do que tinha acontecido com meu pai.
Isso até conhecer Maxwell Borges, o que acabou por se tornar mais um divisor de águas na minha vida, há dois anos atrás e que agora havia voltado para tirar a minha estabilidade, não apenas psicológica dessa vez, como também a financeira.
Eu gostava muito do meu emprego, até que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe e a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente, pois o Max, como ele se havia se apresentado para mim em uma boate, há dois anos, havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.
Ele passou a me perseguir no trabalho, me mudou de função e me colocou como sua secretaria, na tentativa ridícula de me fazer aceitar ser sua amante, me fazendo propostas absurdas durante o meu expediente de trabalho.
Como eu dependia totalmente daquele emprego para pagar minha faculdade e as minhas despesas morando na capital, tentei encontrar outro emprego, para então poder pedir demissão.
Infelizmente não fui selecionada em nenhuma das entrevistas das quais eu havia participado e hoje me encontrava em um beco sem saída, pois não queria depender da bondade dos meus amigos para tudo o que eu precisava e sabia que não conseguiria aguentar trabalhar com o Max por muito tempo mais.
Para meu total desprazer,
- Venha até minha sala, Júlia. Agora! – Maxwell falou pelo interfone e eu rolei os olhos de desgosto.
Me preparei psicologicamente para enfrentar mais uma batalha, baixei minha saia o máximo possível e ajeitei o decote extravagante da blusa que eu tinha sido obrigada a usar como farda no meu trabalho, ideia do Max, é claro.
- Pois não, senhor Maxwell? – Tentei manter uma fachada de neutralidade, apesar de estar trincando os dentes de raiva daquele mal caráter.
- Sente-se aqui, de frente para mim. – Ordenou em um tom que me dava calafrios de repulsa.
Fiz conforme me ordenou e aguardei pelas orientações. Se é que seria algo relacionado ao trabalho.
- Pensou sobre a minha proposta?
- Está se referindo ao convite para jantar? – Questionei, arqueando a sobrancelha.
- Também. – O olhei sem entender. – Não desejo apenas um jantar com você. Sabe que quero bem mais que isso.
Enquanto falava, se levantou de seu lugar por trás da mesa, caminhando a passos lentos e parando então por trás da cadeira na qual eu estava sentada.
Apesar de não conseguir ver o seu rosto, não lhe dei o prazer de me virar em sua direção.
- Não tenho interesse. – Disse apenas.
Senti quando ele colocou suas mãos sobre o encosto da cadeira que eu estava e fiquei imediatamente tensa.
- Acho melhor você reconsiderar.
Ele havia se abaixado ao ponto de falar bem próximo ao meu ouvido, o que me fez ter ânsias de vômito, ao sentir o cheiro do seu perfume assim tão próximo de mim.
Pensei em me levantar, mas ele estava me cercando, sua intenção de me intimidar era clara.
- Como já falei, eu não estou interessada.
Decidi me levantar, não estava aguentando aquela proximidade entre nós. As lembranças dos olhares condenatórios das pessoas do prédio, do bebê que perdi, da pessoa insegura que eu tinha me tornado, tudo muito fresco em minha memória ainda.
Mas antes que eu pudesse dar ao menos um passo, Max me agarrou por trás, me mantendo presa entre seus braços, que me apertaram.
- Você não tem opção, Júlia. Ou você aceita o que estou te oferecendo, ou você pode se considerar mais uma na fila do desemprego.
Ele falava suspirando alto e seu hálito me fez quase vomitar ali mesmo, tamanho era o nojo que eu sentia daquele homem.
- Me solta ou eu vou gritar tão alto, que todos nessa empresa vão me ouvir. – Não foi uma ameaça vazia.
Tentei me soltar, fazendo bastante força em meus braços, mas ele os prendia de maneira firme, e era bem mais forte que eu.
Como ele não afrouxou o agarre, eu fiz menção de abrir a boca, pois eu realmente pretendia gritar a plenos pulmões, mas ele colocou a mão sobre os meus lábios, evitando dessa forma que eu concluísse a ação.
Me virou de frente para ele, conseguindo manter uma de suas mãos em minha boca e a outra juntou as minhas em um aperto só, e estava tão firme, que eu já estava começando a sentir dor aonde ele segurava.
Quando ele começou a afastar a mão que estava sobre a minha boca, eu acreditei que ele me deixaria livre para gritar, mas fui novamente surpreendida por sua ação, pois ele colocou sua boca por sobre a minha, me mantendo presa em seu aperto e seu beijo punitivo, machucando meus lábios.
Não consegui mais controlar a ânsia que estava sentindo, tamanha era a repulsa que eu sentia pelo Max e estava prestes a vomitar ali mesmo, em cima daquele cretino, quando ele pareceu entender o que iria acontecer e me livrou dos seus braços.
- Mas o que é isso!? – Maxwell perguntou o óbvio, afastando-se de mim, para meu total alivio.
Saí correndo em direção ao banheiro da minha sala, trancando rapidamente a porta e enfim pude despejar todo o alimento que havia conseguido ingerir naquela manhã, que havia sido apenas um suco de laranja, me sentindo completamente esgotada ao termino do ato.
Depois que consegui me recuperar, pelo menos parcialmente, me limpei da melhor forma possível e saí do banheiro, me deparando com o Max me aguardando bem próximo a porta.
- Você pode me explicar o que aconteceu? – Ele exigiu em um tom altivo.
Passei direto por ele, indo até a minha mesa e pegando a minha bolsa.
- Você não precisa me demitir. – Falei imprimindo o máximo de desprezo possível na voz. – Eu estou pedindo demissão.
- Você enlouqueceu?
Não dei nenhuma resposta e saí da sala andando o mais rápido que meus saltos permitiam. Eu queria a maior distância possível entre eu e aquele homem inescrupuloso. Não iria mais me submeter ao seu assédio. Nada poderia vir primeiro que a minha dignidade.
Você bloqueia seu sonho quando você permite que seu medo fique maior do que a sua fé.
Mary Manin Morrisey
Júlia
Eu conhecia a Cecília desde que éramos apenas crianças e estudamos na mesma escola, em Brotas, cidade do interior de São Paulo.
Apesar dela ter se mudado para a capital quando ainda era adolescente, nós mantivemos nossa amizade e quando meu pai me mandou embora de casa, ela me convidou a morar com ela e se ofereceu para me ajudar naquele momento tão difícil em que me vi sem casa e sem família alguma que me estendesse a mão.
Eu aceitei o convite da minha amiga, pois tinha algumas economias que estava juntando para iniciar minha faculdade e não ficaria totalmente dependente dela nos primeiros meses. Nós não tínhamos mais nenhum parente próximo e cuidávamos uma da outra agora, desde que me mudei para São Paulo.
A Cecília já havia dito, várias vezes, que eu deveria pedir demissão, mas eu temia não conseguir encontrar outro emprego rapidamente, pois agora a situação era outra e eu não me sentiria bem.
Mas não adiantava ficar remoendo esse assunto, pois já tinha pedido demissão mesmo, pensei, decidindo que o melhor seria parar de me lamentar e sair a procura de outro emprego, amanhã mesmo.
Mas pensar e fazer eram coisas completamente distintas e quando percebi, estava novamente relembrando a decisão errada que eu havia tomado, dois anos atrás e que estava repercutindo de forma negativa na minha vida hoje.
- Cheguei. – Cecília falou alegre, entrando em meu quarto.
- Que bom. – Falei, mas sem animação alguma na voz. – Estava me sentindo muito só.
- Você não deve se sentir assim, Júlia. São coisas que acontecem em nossas vidas e não temos como mudar o passado. Agora é tentar não recair no mesmo erro, como você tem feito todo esse tempo.
- Estou muito preocupada, amiga. Como vou ajudar com as contas de casa?
- Eu consigo segurar as pontas. Você não poderia ter ficado se submetendo a um chefe abusivo dessa forma, Júlia. – Cecília falava de maneira firme, pois se tinha uma pessoa nesse mundo que detestava ainda mais o Max do que eu, essa pessoa era ela. – Desde o primeiro momento em que sofreu o primeiro assedio, era para ter ido diretamente ao RH e exposto a situação.
- Estou pensando seriamente em ir até Brotas, falar com o papai. – Mudei de assunto, pois já havíamos falado várias vezes sobre aquilo.
- Você tem certeza? – Cecília parecia preocupada. – Não quero me meter na sua vida dessa forma, mas não acho uma boa ideia.
Ela provavelmente estava certa, mas eu não estava me sentindo feliz morando em São Paulo desde o que havia acontecido comigo há dois anos, e agora, com o Max de volta a minha vida, aquela sensação de insatisfação ficou ainda mais nítida.
Entre ficar dependendo da Cecília ou do meu pai, eu estava chegando a conclusão que o melhor seria voltar para minha cidade natal e tentar fazer as pazes com a minha única família.
A Cecília já havia me ajudado muito e eu não queria ficar novamente dependendo dela financeiramente, que seria exatamente isso que aconteceria, agora que saí do trabalho. Eu não tinha mais economias, pois o meu salário era suficiente apenas para me manter e pagar a minha faculdade.
Estava prestes a falar tudo aquilo para minha amiga, quando percebi que meu celular, que estava no modo silencioso, estava vibrando com uma chamada.
Olhei para a tela e vi que se tratava do Henrique, um grande amigo do João Felipe, noivo da Vivi.
- Henrique novamente? – Cecília perguntou, exibindo um sorriso de diversão.
Mostrei a tela do meu telefone para ela, que viu que se tratava dele mesmo e caiu na risada.
- Não entendo o que tem de engraçado nessa situação. – Exibi uma carranca de desagrado.
- Você poderia ao menos aceitar o convite dele para trabalhar na construtora. Seria uma solução muito boa para o seu problema atual, já que não deseja aceitar a minha ajuda. – Falou isso e exibiu uma careta, pois ela sempre fazia questão de deixar claro que não se importava em assumir todas as despesas da nossa casa.
- Eu só conseguiria arrumar mais um problema, isso sim.
- Por que diz isso?
- O Henrique está interessado em mim, como já deixou claro para todo mundo.
Eu havia conhecido o Henrique quando fui a uma boate com minhas amigas e ele entrou em uma briga para defender o João Felipe. Depois que toda a confusão já havia sido resolvida, ele se ofereceu para vim deixar a gente em casa, ao que eu recusei logo de imediato.
Mas a Cecília acabou aceitando o oferecimento e desde então, ele tentava conseguir um encontro comigo, pois se dizia apaixonado por mim. Eu realmente não acreditava em suas palavras, pois além de ser lindo e rico, ele era um cara muito simpático e extrovertido, que tinha escrito em sua testa a palavra "Mulherengo".
Eu não queria nenhum tipo de envolvimento no momento, muito menos com alguém que nunca antes tinha estado em um relacionamento amoroso, vivendo sempre em busca de aventura.
Eu tinha apenas vinte e dois anos e poderia afirmar, com toda a convicção, que já havia passado dessa fase e não era isso o que eu queria para a minha vida no momento.
Tampouco estava em busca de um relacionamento sério, também. Eu só queria terminar minha faculdade, conseguir um emprego na minha área e poder ter a minha tão sonhada estabilidade financeira. Mas para isso, eu teria que encontrar uma fonte de renda, o mais rápido possível.
- Eu não consigo te entender, Júlia! – Cecília falou, aparentemente chateada com minha recusa em aceitar a oferta feita pelo Henrique. – Quer um emprego, o Henrique está te oferecendo um, mas você não quer trabalhar na construtora Alcântara por que o diretor financeiro, com o qual você mal terá contato, afirma está apaixonado por você.
- Eu tenho certeza que se de decidisse aceitar essa proposta, ele iria confundir as coisas e eu só terei pulado de um assediador para outro.
Apontei o óbvio. Ao menos para mim, estava mais que claro que era aquilo que iria acontecer. Por mais que todos dissessem que o Henrique era totalmente diferente do Max, eu não iria pagar para ver.
Temia me envolver novamente com alguém, depois do que aconteceu quando caí na conversa do Max e fui enganada de maneira tão vil.
Eu e a Cecília tivemos até mesmo que mudar de endereço, uma vez que no prédio em que ela morava desde que chegara a São Paulo, quando se mudara de Brotas, a nossa permanência ficou insustentável, devido ao meu envolvimento com o Max, que morava no mesmo prédio que nós e que era casado, mas eu só tomei conhecimento do fato quando já era tarde demais.
- E sobre a proposta da Vivi?
Viviane havia se tornado uma grande amiga, desde o primeiro momento em que nos conhecemos, quando a Cecília nos apresentou. Eu era recém-chegada a São Paulo e elas eram amigas e nós acabamos formando um grupo muito unido, juntamente ao João Pedro e ao César.
A Viviane hoje estava noiva do João Felipe, que era irmão do João Pedro, com o qual a Vivi também havia sido casada. Nós todos ficamos bastante surpresos quando ela nos contou toda a história entre ela e o Felipe, e que sua filha, a Sarinha, não era filha do João Pedro, como eles nos fizeram acreditar, quando se casaram e sim do irmão e atual noivo dela.
Mas hoje estava tudo nos seus devidos lugares e o nosso amigo João Pedro morava atualmente nos Estados Unidos, pois era o CEO da empresa da família na filial americana.
- Eu sei que ela tem a melhor das intenções, mas não acho certo aceitar sua oferta. A empresa do João Felipe é de um setor totalmente diferente do que eu gostaria de trabalhar e acredito que não tenha nem vaga para mim.
- Mas lá na empresa em que você trabalhava, você também não estava atuando na sua área. Não seria diferente agora. – Cecília insistiu.
- A diferença é que eu consegui o emprego por mérito próprio e agora eu estaria apenas ganhando uma oportunidade por ser amiga da mulher do chefe. Não acho isso correto. – Não achava justo me aproveitar da amizade que tinha com as pessoas, para conseguir benefícios próprios.
- Desisto. – Ela falou, saindo do quarto pisando duro e eu fiquei me sentindo um pouco mal pela situação toda.
Olhei novamente para o telefone e vi que havia voltado a vibrar, mais uma chamada do Henrique. Decidi atender e ouvir o que ele tinha a dizer, dar uma oportunidade e mais uma vez, deixar claro que eu não tinha interesse no momento.
Antes de conseguir atender a ligação, o telefone parou de tocar. Cheguei a suspirar de alívio. Na próxima vez que ele ligasse, iria atender e sugerir que fôssemos amigos, pois qualquer coisa diferente disso, não tinha possibilidade alguma de acontecer.
A Júlia que me tornei, depois de quebrar a cara, não iria se arriscar tão fácil assim. Seria necessária uma situação muito incomum para que eu deixasse meu bom senso de lado e colocasse meu coração em risco novamente.