Em um mundo dividido por vastas paisagens e culturas diversas, cinco reinos se destacam, cada um com sua história, valores e tensões que moldam suas relações.
Aurathis é um reino de campos que se estendem até onde a vista alcança. O sol brilha incessantemente sobre as colinas suaves, iluminando os campos de grãos e vinhedos que sustentam o reino. Os Aurions, seus habitantes, são conhecidos por sua devoção à terra e à vida simples, mas próspera. Seu sistema hierárquico rígido garante que os senhores de terras possuam autoridade absoluta sobre as aldeias. Embora pareçam ser um povo tranquilo e tradicionalista, sua lealdade e espírito comunitário os tornam aliados valiosos em tempos de necessidade.
Cultura: As celebrações em torno das colheitas são marcadas por músicas festivas e rituais de gratidão.
Forças Militares: Pequenas milícias locais, defensivas, mas bem organizadas.
Relações: Aliança frágil com Mytra e rivalidade histórica com Elyndor, devido a disputas territoriais.
Erguido entre imponentes montanhas e vales, Mytra é um reino de resistência e engenhosidade. Seus habitantes, os Myrions, são mestres em arquitetura, mineração e táticas militares. As cidades, esculpidas diretamente nas pedras das montanhas, são um testemunho da habilidade e da força desse povo. A capital, Karadon, é uma fortaleza que nunca caiu. O rei Alden, um governante austero, e seu filho, o príncipe Theron Akoni, estão prontos para defender o reino a qualquer custo.
Cultura: Os Myrions celebram vitórias militares e a exploração de novos recursos naturais com grandes festivais.
Forças Militares: Exército bem treinado, focado em estratégias e armamentos avançados.
Relações: Respeitam Aurathis, mas olham Elyndor com desconfiança.
Elyndor é um reino de antigas florestas que respiram vida. Os Elyons, seus habitantes, vivem em harmonia com a natureza, construindo suas vilas nas copas das árvores gigantes e aproveitando os recursos naturais de maneira equilibrada. Conhecidos por sua profunda sabedoria sobre plantas e medicina natural, os Elyons valorizam o isolamento que as vastas florestas oferecem, mas essa distância dos outros reinos os torna alvo de medo e preconceito, especialmente de Mytra e Aurathis.
Cultura: Cerimônias à luz da lua celebram as estações e a continuidade da vida.
Forças Militares: Pequenos grupos altamente adaptados ao combate na floresta, com grande conhecimento do terreno.
Relações: Relações instáveis com Aurathis e anos de desconfiança com Mytra.
Os Sombrios – O Povo das Sombras
Vagando nas terras esquecidas e sombrias além das fronteiras dos reinos conhecidos, vivem os Sombrios. Marginalizados e rodeados de mistério, são muitas vezes vistos como amaldiçoados ou descendentes de traidores. Vivem em cavernas profundas, pântanos e montanhas inóspitas, dominando os segredos de sobrevivência onde outros não ousam caminhar. Sua cultura é guiada por líderes tribais e crenças espirituais que os conectam a forças além da compreensão dos reinos.
Cultura: Práticas espirituais intensas e rituais de ligação com o além.
Forças Militares: Guerrilheiros habilidosos em emboscadas e ataques furtivos.
Relações: Temidos e odiados pelos reinos, mas às vezes recrutados como mercenários.
Os Exilados – A Herança Perdida
Por entre as fronteiras dos reinos, vagam os Exilados: aqueles que foram banidos de suas terras por traição, crimes ou derrotas. São nômades, vivendo em pequenos bandos ou como mercenários. Sem uma cultura unificada, eles carregam fragmentos de suas origens, mas a desonra que os acompanhou os impede de encontrar um lugar no mundo. Alguns buscam redenção, enquanto outros se entregam ao caos e à violência.
Cultura: Não há uma cultura unificada, mas cada grupo exilado segue suas próprias leis e hierarquias.
Forças Militares: Variáveis, dependendo das experiências e habilidades dos membros.
Relações: Odiados por todos, mas às vezes usados como peças descartáveis em disputas entre os reinos.
cap 01
Em um mundo onde alianças se desintegram como folhas ao vento e reinos se erguem sobre sangue e traição, a luta pelo poder ameaça destruir tudo. No centro deste palco perigoso, um amor proibido floresce, capaz de desafiar reinos inteiros e sobreviver às forças mais sombrias.
Aurathis, a terra dos campos dourados e colheitas abundantes, mantém uma frágil aliança com Mytra, o reino das montanhas e da engenhosidade. Elyndor, com suas florestas ancestrais e segredos antigos, guarda segredos há muito temidos. Porém, além dos limites conhecidos, os Sombrios e os Exilados aguardam nas sombras, prontos para desafiar as fronteiras e tomar o que julgam ser deles por direito.
Em meio a essa tensão crescente, o destino une uma jovem de espírito indomável e o príncipe herdeiro, A paixão deles deve resistir às traições escondidas sob máscaras de lealdade, conspirações que sangram corações e laços familiares que se revelam mais perigosos que os inimigos visíveis. À medida que reinos se levantam e caem, e o amor enfrenta os horrores da guerra, eles precisam decidir o que estão dispostos a sacrificar para proteger não apenas o que sentem, mas os próprios reinos que juraram servir.
Com cada batalha, segredos obscuros emergem, e até mesmo os aliados mais próximos escondem adagas afiadas sob sorrisos de veludo. O amor será suficiente para quebrar as correntes do ódio? Ou a coroa de ouro, manchada de sangue, será o preço final a pagar?
Coroa e Sangue: Um Romance Real é uma saga épica de amor eterno, guerra implacável e intrigas que moldam o destino de reinos e almas. Um conto onde corações e espadas se encontram, e o verdadeiro poder reside na coragem de amar além das fronteiras do impossível.
*15 Anos antes*
Theron Akoni, príncipe herdeiro de Mytra, era uma criança de alma inquieta. Desde pequeno, o peso do futuro parecia dobrar seus ombros, sufocando-o com aulas intermináveis de estratégia militar, política e etiqueta real. No entanto, sua mente ansiava por horizontes além das muralhas do castelo, por aventuras que não cabiam nos mapas cuidadosamente desenhados por seus tutores.
Em uma manhã de primavera, quando o perfume das flores começava a encher o ar, Theron encontrou uma oportunidade de escapar. Vestiu roupas simples, as mesmas usadas pelos servos dos estábulos, e, com a habilidade de um menino que já havia praticado a fuga em sua mente inúmeras vezes, esgueirou-se pelos portões do castelo enquanto os guardas estavam distraídos.
A floresta, que marcava a fronteira entre Mytra e Elyndor, chamava por ele como uma canção. A luz do sol filtrava-se pelas copas das árvores altas, lançando padrões de sombra no chão. O som do riacho próximo e o canto dos pássaros o envolveram, uma melodia que parecia prometer liberdade e mistério.
Foi ali, em uma clareira banhada pela luz do dia, que Theron viu a menina. Ela estava ajoelhada entre as flores silvestres, seus cabelos dourados brilhando como ouro sob o sol. Seus olhos verdes, profundos e vivos como as folhas das árvores ao redor, prenderam sua atenção. Ela parecia parte daquela paisagem, como se a floresta a tivesse criado e protegido.
Theron ficou parado por um momento, hesitante. Ele nunca havia falado com alguém como ela antes. Finalmente, limpou a garganta e quebrou o silêncio:
- Quem é você?
A menina ergueu os olhos, e por um instante, ele viu a surpresa em seu rosto. Mas logo ela sorriu, um sorriso pequeno e curioso, sem o menor traço de medo.
- Sou Elore Zephyl, de Elyndor. E você? Por que está sozinho aqui?
Theron hesitou. Ele sabia que revelar sua verdadeira identidade poderia ser perigoso. Se alguém descobrisse que o herdeiro de Mytra vagava sozinho por uma floresta na fronteira, poderia causar problemas – ou pior. No entanto, havia algo nos olhos de Elore que parecia convidá-lo a confiar.
- Eu sou... Theron.
Elore inclinou a cabeça ligeiramente, como se esperasse mais, mas não insistiu.
- Tudo bem, Theron - disse ela, com um tom leve. - Você parece não ser daqui. Quer me ajudar?
Antes que ele pudesse responder, Elore pegou uma flor branca com pétalas delicadas e mostrou a ele.
- Estas são estrelas-do-rio. Precisamos delas para fazer uma pomada. Você sabe como colhê-las?
Theron riu, relaxando pela primeira vez desde que deixara o castelo.
- Nunca fiz isso antes, mas posso tentar.
E assim, entre flores e risadas, eles passaram a tarde juntos. Theron seguiu Elore enquanto ela explicava os nomes das plantas e como cada uma tinha um propósito. Ele não entendeu metade do que ela dizia, mas gostou da maneira como ela falava, como se as flores fossem suas amigas.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de dourado e púrpura, os dois estavam sentados à beira de um riacho. Elore contava uma história sobre as antigas árvores de Elyndor, enquanto Theron jogava pedras na água. Ele não queria que o dia terminasse.
- Acho que preciso ir - disse Elore, levantando-se com seu cesto agora cheio. - Minha mãe vai notar se eu demorar muito.
Theron também se levantou, sentindo uma pontada de tristeza inesperada.
- Eu também.
Eles caminharam juntos até a borda da floresta, onde os caminhos se dividiam. Antes de partir, Elore olhou para ele uma última vez.
- Talvez a gente se veja de novo, Theron.
Ele assentiu.
- Talvez.
E com isso, ela desapareceu entre as árvores, deixando Theron sozinho, mas estranhamente feliz.
Quando o céu já estava tingido de um azul profundo com os primeiros traços de estrelas, Theron escalou a parede lateral do castelo com cuidado. Seus pés encontraram apoio em saliências familiares, e suas mãos agarraram a beirada da janela de seu quarto. Ele havia feito o caminho inverso de sua fuga com a mesma precisão, mas desta vez com o coração acelerado.
Pulando para dentro do quarto, ele bateu os pés no chão de pedra e se endireitou rapidamente. Foi então que ouviu um som que o fez congelar.
- Theron.
A voz grave de seu tio, Ares, ressoou no quarto escuro. Theron virou-se lentamente, já preparando uma desculpa. Seu tio estava sentado na cadeira ao lado da janela, os braços cruzados e o semblante sério, mas com um brilho inconfundível de preocupação nos olhos.
- Tio Ares! - Theron tentou soar despreocupado. - Não sabia que estava aqui...
Ares levantou-se, o som de suas botas ecoando levemente no quarto.
- Onde você estava? - perguntou, direto. - Eu procurei você por todo o castelo. Os guardas estão quase entrando em pânico.
Theron engoliu em seco. Ele não queria mentir, mas também sabia que revelar tudo poderia causar mais problemas.
- Eu... eu só fui tomar um ar - disse, tentando soar convincente. - Estava sufocando aqui dentro.
Ares arqueou uma sobrancelha, descrente.
- Tomar ar? - ele repetiu. - Theron, você só tem 10 anos. Sair sozinho, ainda mais fora dos limites do castelo, é perigoso. O que você faria se algo tivesse acontecido?
Theron baixou os olhos, sentindo o peso das palavras de seu tio. Ele sabia que Ares estava certo.
- Eu sei - respondeu baixinho. - Mas eu só queria... eu queria ver o que tem lá fora. Queria me sentir livre, nem que fosse só por um dia.
O rosto de Ares suavizou ao ouvir o tom sincero de Theron. Ele suspirou e colocou uma mão sobre o ombro do sobrinho.
- Eu entendo, garoto. - Ares olhou pela janela por um momento, como se também estivesse se lembrando de algo. - Eu também era assim quando tinha sua idade. Mas você precisa ser mais cuidadoso. A vida fora das muralhas não é tão simples quanto parece.
Theron ergueu os olhos para ele, hesitante.
- Eu encontrei alguém, tio. Uma menina... de Elyndor. Ela estava colhendo flores.
Ares levantou uma sobrancelha, interessado, e puxou uma das cadeiras para sentar-se. Ele indicou com a cabeça para que Theron fizesse o mesmo.
- Me conte sobre ela.
Theron sentou-se e começou a falar, descrevendo como tinha encontrado Elore, as flores que ela colhia e as histórias que ela contava. Enquanto falava, o entusiasmo iluminava seus olhos, e Ares ouvia com atenção, um leve sorriso brincando em seus lábios.
- Você realmente viveu uma aventura hoje, hein? - comentou Ares quando Theron terminou. - Mas devo dizer, você tem sorte de ter voltado inteiro.
- Eu sei - disse Theron, olhando para as mãos. Depois ergueu os olhos e sorriu. - Mas foi incrível, tio. Foi como estar em um dos contos que você me conta antes de dormir.
Ares riu e bagunçou os cabelos do sobrinho.
- É bom saber que minha paixão por aventuras não foi desperdiçada em você. - Ele se levantou e olhou para a janela aberta. - Mas agora, acho que é hora de você descansar. Amanhã será um novo dia, e quem sabe? Talvez mais aventuras te esperem.
Theron concordou, sentindo o peso da fadiga finalmente tomar conta dele.
- Obrigado, tio.
- Sempre, garoto. Agora durma.
E com isso, Ares apagou as luzes, fechou a porta e deixou Theron sozinho com seus pensamentos, ainda cheio das imagens da floresta e de Elore.
Dia seguinte
Theron Akoni, de apenas 10 anos, é uma criança que parece nunca parar. Seus cabelos castanhos vivem despenteados, como se refletissem a energia constante que o move. Os olhos castanhos, profundos e atentos, observam tudo ao seu redor com curiosidade insaciável, como se cada canto do mundo escondesse um segredo esperando para ser descoberto.
Ele passa boa parte dos dias dividido entre suas paixões. No estábulo, cavalga com habilidade para alguém tão jovem, adorando sentir o vento no rosto enquanto imagina estar galopando para além das fronteiras de Mytra. Já no pátio de treino, pratica golpes de espada sob a supervisão de seu tio, Ares, que o incentiva a ser tanto ágil quanto estratégico.
Hoje, Theron está especialmente inquieto. Ele brinca com seus irmãos, Lancelot, de 6 anos, e Hera, de 4, inventando uma história sobre um dragão que ameaça o castelo. Lancelot segura uma espada de madeira, tentando imitar os movimentos do irmão mais velho, enquanto Hera, com sua coroa de flores, insiste que ela deveria ser a rainha que dá as ordens.
- Theron, você tem que salvar o reino! - Hera grita, segurando um cajado improvisado.
- Salvar o reino? - Theron sorri, inclinando-se dramaticamente. - Como um cavaleiro destemido, eu juro que vou proteger todos vocês!
O riso dos três ecoa pelos corredores do castelo. Por mais que Theron seja o herdeiro, ele é, acima de tudo, um irmão dedicado.
Quando não está com os irmãos, Theron frequentemente procura Ares, seu tio e melhor amigo. Ares, com seu jeito descontraído e histórias emocionantes, é o único que parece entender plenamente o desejo de Theron por liberdade.
Agora, no final da tarde, Theron se senta com Ares em uma varanda do castelo.
- Então, garoto, o que anda passando nessa cabeça? - Ares pergunta, jogando uma maçã para o sobrinho.
- Só queria sair daqui - Theron responde, mordendo a fruta. - Quero ver o que tem lá fora. As florestas, as montanhas... deve haver tanta coisa além dessas muralhas!
Ares ri, mas não zomba. Ele reconhece o mesmo espírito inquieto que tinha na idade de Theron.
- Um dia, você vai ver tudo isso. Mas precisa ter paciência. Lá fora não é só aventura; também há perigos.
Theron olha para o horizonte, onde o sol começa a se pôr, tingindo o céu de laranja e dourado.
- Mas é isso que faz tudo valer a pena, não é?
Ares sorri.
- Você tem razão, garoto. E quando chegar a hora, espero que você me leve junto.
Theron ri e continua a conversar com Ares, imaginando aventuras que ainda estão por vir. Ele ama sua família, mas sabe que o mundo além dos portões do castelo o espera. E, com cada pôr do sol, esse desejo cresce ainda mais dentro dele.
Theron acorda cedo, antes mesmo de o sol se erguer completamente sobre as montanhas de Mytra. Há dias ele pensa no encontro na floresta, em Elore e na maneira como ela parecia pertencer ao mundo lá fora. Ele precisa vê-la de novo, mesmo sabendo que é arriscado.
- Ajax, você vai comigo. - Theron declara, seu tom firme enquanto arruma uma pequena bolsa com pão e frutas.
Ajax, o filho do chefe da guarda real e seu melhor amigo, estreita os olhos enquanto amarra a capa nos ombros.
- Eu deveria perguntar onde exatamente estamos indo, mas já sei que não vou gostar da resposta.
Theron sorri de lado, tentando soar confiante.
- Vamos até a floresta. Quero encontrar alguém...
Ajax o encara por um momento, incrédulo, mas acaba suspirando. Ele conhece Theron o suficiente para saber que o amigo não desistirá facilmente.
- Tudo bem, mas se formos pegos, vou dizer que você me obrigou.
- Claro, como sempre. - Theron ri, empurrando Ajax para fora do quarto.
Os dois atravessam o castelo com a discrição de ratos em busca de migalhas, até finalmente chegarem ao portão lateral. Os guardas ainda estão sonolentos, e, com um pouco de astúcia e sorte, os dois conseguem escapar para a liberdade da manhã fria.
Quando chegam à floresta, os sons da natureza os envolvem novamente. Theron lidera o caminho, os olhos atentos ao terreno, enquanto Ajax tenta acompanhar, murmurando algo sobre "ser morto pelo pai" se forem descobertos.
- Você tem certeza de que sabe onde está indo? - Ajax pergunta, desviando de uma raiz alta.
- Sim, mais ou menos. - Theron responde, com um sorriso travesso.
Após quase uma hora de caminhada, os dois chegam a uma clareira perto do riacho onde Theron encontrou Elore pela primeira vez. Ele começa a procurar por sinais dela, mas é interrompido por vozes que ecoam entre as árvores.
- Ei, olhem só quem está aqui!
Theron e Ajax se viram rapidamente, apenas para ver quatro garotos mais velhos saindo de entre as árvores. Suas roupas são gastas, e seus rostos, marcados por sorrisos maliciosos. Eles claramente não pertencem a Mytra ou Elyndor; devem ser filhos de mercadores ou vagabundos que vagam pelas fronteiras.
- Quem são vocês? - um dos garotos pergunta, cruzando os braços. - Não parecem daqui.
Ajax dá um passo à frente, tentando parecer mais confiante do que se sente.
- Não interessa quem somos. Apenas nos deixem em paz.
O garoto maior ri, aproximando-se de Ajax e Theron com os outros logo atrás.
- Ah, vocês não querem problemas? Pois parecem ser ótimos em encontrá-los.
Theron cerra os punhos, pronto para reagir, mas sabe que ele e Ajax não têm chance contra os quatro. Ele está prestes a responder quando uma voz feminina, firme e autoritária, corta o ar.
- Deixem eles em paz!
Os garotos se viram, surpresos, e Theron acompanha o movimento. Lá está Elore, segurando um galho comprido como se fosse um cajado. Seus olhos verdes brilham com determinação, e seu cabelo loiro, iluminado pelo sol filtrado pelas árvores, parece quase uma auréola dourada.
- Quem é você? - um dos garotos pergunta, desconfiado.
Elore não responde. Em vez disso, dá um passo à frente e bate o galho no chão com força.
- Vocês querem problemas comigo? Porque garanto que não vão gostar do que vai acontecer.
Os garotos hesitam, trocando olhares nervosos. Há algo na postura de Elore que os faz recuar.
- Vamos sair daqui. - o maior deles diz, empurrando os outros. - Não vale a pena.
Quando os garotos desaparecem entre as árvores, Theron solta a respiração que nem percebeu estar prendendo.
- Você... apareceu na hora certa. - diz ele, sorrindo para Elore.
Ela abaixa o galho e cruza os braços, olhando para os dois meninos.
- Vocês não deveriam estar aqui sozinhos. É perigoso.
Ajax resmunga, massageando a nuca.
- Eu tentei dizer isso a ele.
Theron, no entanto, não se deixa abalar.
- Eu precisava te ver de novo.
Elore pisca, surpresa com a sinceridade do garoto, mas acaba sorrindo levemente.
- Então vamos. Já que estão aqui, pelo menos vamos fazer algo útil.
Ela começa a andar, e Theron e Ajax a seguem, sentindo que a aventura mal começou.
Theron, Ajax e Elore passam o restante da manhã e boa parte da tarde brincando e explorando a floresta. Elore lidera o trio com a confiança de quem conhece cada árvore e riacho. Ela os leva até uma clareira onde flores raras crescem em abundância, mostrando a Theron e Ajax como trançar as hastes para criar coroas.
- Aqui - diz ela, colocando uma coroa de flores sobre a cabeça de Theron. - Agora você parece um rei das florestas.
Ajax ri, apontando para a coroa.
- Talvez ele prefira uma espada a flores, mas ficou engraçado.
Theron revira os olhos, mas não consegue evitar sorrir.
Eles correm pelo riacho, escalam pequenas pedras e até tentam atravessar uma ponte improvisada feita de um tronco caído. Pela primeira vez em semanas, Theron sente que encontrou algo mais importante do que suas aulas e deveres: uma amizade genuína e a liberdade que ele tanto busca.
Quando o sol começa a se pôr, Elore olha para o horizonte, preocupada.
- Está ficando tarde. Vocês devem voltar para casa.
Theron olha para ela, relutante.
- Nos vemos de novo?
Ela sorri.
- Talvez. Agora vão.
Ajax puxa Theron pelo braço, e os dois começam a voltar para Mytra, rindo das histórias que inventaram durante o dia. Mas, ao se aproximarem do castelo, o riso cessa.
A primeira coisa que os dois percebem é o cheiro de fumaça. Depois, vêm os sons – gritos, o estrondo de espadas se chocando e o galope desesperado de cavalos.
- O que está acontecendo? - Ajax pergunta, a voz carregada de urgência.
Theron não responde. Ele já está correndo na direção do castelo.
Quando chegam aos portões, a visão é devastadora. As muralhas estão parcialmente destruídas, e soldados estranhos, usando armaduras negras, lutam contra os guardas de Mytra. Corpos jazem no chão, e o pátio está um caos de sangue e chamas.
- Meus pais! - Theron grita, disparando para dentro.
Ajax tenta segui-lo, mas o garoto é rápido demais. Theron entra pelos corredores do castelo, desviando dos invasores. Ele conhece aqueles corredores melhor do que qualquer um. Chega ao salão principal, onde vê uma cena que nunca esquecerá.
O rei Alden e a rainha Isolde estão caídos no chão, rodeados por homens armados. Theron sente o mundo desabar ao redor dele.
- Pai! Mãe! - Ele corre até eles, mas é detido por Ajax, que finalmente o alcança.
- Theron, não! Não podemos fazer nada aqui!
O príncipe, chorando, se debate, mas Ajax o puxa para longe.
- Precisamos encontrar seus irmãos e seu tio! - Ajax diz, tentando trazer Theron de volta ao momento.
Eles correm para os aposentos das crianças. Lá, encontram Lancelot, de 6 anos, segurando uma espada pequena, tentando proteger a irmã mais nova, Hera, de dois invasores.
- Larguem ela! - Lancelot grita, mas suas mãos tremem, e a espada é derrubada de seus dedos pequenos.
Theron e Ajax entram na sala no momento em que um dos invasores agarra Hera e a leva.
- Hera! - grita Theron, correndo atrás deles, mas Ajax o detém novamente.
- Eles têm mais soldados! Precisamos ser inteligentes!
Theron vê Lancelot ajoelhado no chão, chorando. Ele o abraça, tentando consolá-lo, enquanto a dor da perda cresce em seu peito.
- Vou encontrá-la, Lancelot - promete Theron, a voz quebrada. - Eu prometo.
Enquanto os invasores recuam, um silêncio mortal cai sobre o castelo. Theron e Ajax finalmente encontram Ares, ferido mas vivo, escondido em uma sala lateral.
- Tio! - Theron corre até ele, ajudando-o a se levantar.
Ares, com dificuldade, olha para o sobrinho e balança a cabeça.
- Eles... eles sabiam onde atacar. Foi tudo planejado.
Theron, agora com o olhar endurecido, segura a mão do tio.
- Eles levaram Hera, tio.
Ares fecha os olhos, com o semblante de quem carrega a culpa.
- Então vamos trazê-la de volta.
Theron, com lágrimas misturadas à raiva, olha para Ajax, Lancelot e o tio ferido.
- Isso não acaba aqui.
E, naquela noite, sob as ruínas de tudo o que conhecia, Theron Akoni promete lutar por sua família, sua irmã e por justiça.