Dedico essa história à minha falecida mãe, que era quase tão apaixonada por Agatha Christie quanto eu!
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O detetive Luís Oliveira estacionou o carro uma quadra antes do endereço que lhe foi fornecido pelo informante. Era um homem moreno, alto, de fisionomia séria, porte militar e muito atraente de uma maneira que poderia ser considerada rústica. Ele chamava atenção das mulheres e sabia disso. Era reconhecido pelos colegas de trabalho como um profissional competente e que levava seu trabalho muito a sério. Tinha pouco mais de trinta anos de idade, embora aparentasse estar mais próximo dos quarenta do que realmente estava, devido a personalidade que beirava o antissocial.
Luís saiu do carro e olhou em volta de modo discreto, mas seus olhos estavam atentos como os de uma águia. De maneira decidida, seguiu em direção ao objetivo. O endereço que buscava era de um enorme galpão abandonado em um dos bairros mais violentos da cidade do Rio de Janeiro. Finalmente, pensava ele, ia prender um grupo de traficantes e assim desbaratar uma grande e poderosa rede de tráfico de drogas. Esse não era "seu tipo" de crime. Geralmente lidava com assassinatos, mas há muito tempo esses criminosos chamavam a atenção da polícia por sua atuação nas altas rodas da sociedade fluminense, aliás, de todo o país.
Toda força policial foi "convidada" a se mostrar atenta ao caso. Luís Oliveira e o parceiro estavam trabalhando como apoio naquela operação junto ao detetive Ferreira, responsável pelo caso e pela batida que estavam a ponto de efetuar. Ferreira tinha Luís e André em alta conta por suas fichas limpas e recheadas de sucessos. Já o detetive Afonso, que atuava nesse momento ao lado de Luís na frente do galpão, eles conheceram somente no início da operação.
Afonso chegou de moto deixando-a ao lado do carro de Luís, os dois estavam tensos e não falavam muito.
Pararam próximo à entrada, Luís aguardava o sinal de seu parceiro e amigo, André Gonçalves. A tela do celular de Luís acendeu, estava no modo silencioso, mas era o suficiente pois era o sinal esperado. Combinou com André que ligasse para seu celular assim que ele e Ferreira estivessem a postos nos fundos do galpão e os reforços estivessem nas proximidades.
Luís estava nervoso, mesmo com sua experiência, ou talvez justamente por causa dela, sabia dos perigos de uma batida policial. Conhecia os riscos de sua profissão, principalmente em momentos como aquele.
Luís lembrou-se da morte de seu antigo parceiro, Maurício... Sacudiu a cabeça para afastar tais pensamentos. Não tinha em mãos sua pistola da sorte, mas estava armado com uma M16, sabia muito bem que os traficantes estariam fortemente armados, provavelmente melhor que a polícia. Assim que entrassem, começaria um tiroteio, os traficantes tentariam proteger o carregamento que tinham recebido recentemente e não iriam se entregar.
Nunca se entregavam...
Respirou fundo e deu um forte chute no portão enferrujado que cedeu com facilidade. Afonso entrou primeiro, em seguida Luís entrou e pôde ouvir um estrondo nos fundos do galpão, provavelmente o detetive André entrando com reforços. Esperava uma reação violenta, mas não ouviu nada além dos outros policiais do outro lado do galpão.
Caminhava cautelosamente, uma gota de suor escorreu por sua testa, não pelo calor, mas pela tensão do momento.
Ao entrar, seu corpo retesou-se e seu coração disparou. O cenário que encontrou, pensava ele, jamais seria esquecido. Desviou os olhos e viu a expressão de surpresa e horror em seu parceiro do outro lado, e compreendeu que naquele dia não haveria tiroteio, não haveria prisões, não haveria nem mesmo satisfação do dever cumprido, pois o que encontraram foi um cenário de morte.
Corpos e sangue pelo chão.
Não esperavam por aquilo. Alguém chegou antes dos policiais, alguém que sabia o que aconteceria ali e que sabia sobre o carregamento de drogas.
Pelo menos quinze corpos sem vida de jovens espalhados pelo chão. As cápsulas pelo piso mostravam a violência da chacina. A maioria dos corpos não tinha arma nenhuma em mãos, nem mesmo por perto.
Foram exterminados por alguém que acreditavam não oferecer perigo, pois não mostravam ter tido uma reação à altura do ataque que sofreram.
Mesmo sabendo que eram traficantes e que o final deles geralmente era aquele, o cenário que tinham diante dos olhos era de guerra. Havia marcas de pneus no chão tinto de sangue, indicando que um caminhão esteve estacionado ali. Havia uns pequenos pacotes cheios de pó branco jogados no chão, próximos as marcas de pneus. Luís deduziu corretamente que era cocaína, e o grande carregamento que esperavam encontrar com a batida, havia desaparecido.
Luís estava sentado na sala do detetive Ferreira, onde estavam também os detetives Afonso, André e o próprio Ferreira, juntos com seus superiores, alguns policiais militares fardados e o promotor público. Discutiam o resultado da batida e os próximos passos da investigação.
O promotor falava ao telefone, dando diversas explicações ao seu interlocutor na tentativa de disfarçar o sentimento de fracasso. Vários relatórios eram elaborados e tudo o que Luís conseguia pensar é que alguém havia levado todo o carregamento de drogas para algum lugar e ninguém parecia ter visto ou ouvido nada a respeito nas ruas.
Nenhum informante pôde ajudar a esclarecer o que tinha acontecido no galpão.
O detetive Ferreira estava abatido, uma investigação de meses terminou em um beco sem saída. Seus superiores tinham sido duros com ele e, embora ninguém quisesse admitir, a única maneira de alguém ter chegado ao galpão antes dos policiais era o vazamento de informações. Alguém da corporação entregou o serviço.
Ferreira fez sinal para que Luís e André o seguissem para fora da sala e eles obedeceram.
Ferreira os acompanhou à uma cafeteria do outro lado da rua, precisava tomar um pouco de ar e um café bem forte. Os três detetives fizeram seus pedidos, café sem açúcar para Luís, com um pouco de leite para Ferreira e uma garrafa pequena de água mineral com gás para André, pois este sempre detestou café.
- Obrigado por tudo, Luís, você também, André! Foi uma honra trabalhar com vocês, pena que depois de hoje, o caso provavelmente sairá de minhas mãos.
Ferreira parecia muito abalado com o desfecho infeliz das investigações. Não era a primeira vez que perdia um caso, mas estava no fim de sua carreira e desejava ter encerrado com mais um caso resolvido a contento. Tinha 61 anos e se dependesse dele, continuaria atuando ativamente como policial, mas os sinais da idade começaram cruelmente a aparecer e o impediam. Problemas no coração o impossibilitavam de continuar a carreira. Havia chegado o momento de se retirar, e isso o entristecia.
-Somos amigos, então deixe dessas cerimônias! - Comentou Luís, dando um tapinha no ombro de Ferreira. - Perdi a conta de quantas vezes você me ajudou.
- De todo modo, não foi culpa sua, Ferreira. - Disse André consolador.
Alguém deu o serviço, alguém de dentro...
- Depois de todos esses anos trabalhando como policial, eu me pergunto se vale a pena arriscar a vida fazendo seu trabalho, enquanto um crápula, blindado pela farda, entrega tudo para o outro lado por causa de dinheiro! -Disse Ferreira desanimado.
- Essa é a principal razão de eu nunca ter me interessado em trabalhar na narcóticos... - Disse Luís.
- Alguém tem que fazer esse trabalho, achei que faria a diferença. - Falou Ferreira.
- E faz, sempre fez, se manteve honesto e íntegro e colocou muitos marginais atrás das grades. - Disse André
- Além de nos ajudar várias vezes. - Completou Luís, então se dirigiu ao parceiro: - Lembra aquela vez, André, em que estávamos envolvidos em uma série de mortes e o filho da mãe do assassino escrevia números nos corpos...?
Conversaram sobre os velhos tempos e sobre quando se conheceram. Aquela conversa amigável melhorou o humor de Ferreira. Passada uma hora desde que entraram na cafeteria, pareciam renovados e de ótimo humor.
Aquela era a rotina deles, frustração quando um caso ia mal, mas logo se animavam novamente. Honravam a profissão que escolheram e mesmo em meio a pequenas frustrações, sabiam que eram bons no que faziam.
***
André entrou em seu pequeno apartamento e, após trancar a porta e se servir de uma latinha de cerveja, se atirou no sofá de maneira descuidada.
Sentia-se cansado.
Suas férias estavam vencidas há meses e mal podia esperar a liberação. Já tinha tudo planejado para uma viagem. Iria para o campo, para uma cidadezinha escondida no meio da natureza, onde costumava ir com seus pais quando criança. Recentemente a dona havia convertido o casarão em uma sossegada e confortável pensão, com o pretensioso nome de Hotel Estrela Dalva, cercado de muito verde, rios de água cristalina, cachoeiras, galos cantando pela manhã...
Era tudo o que André desejava, algo que o afastaria, por pelo menos quinze dias, do barulho e da violência de uma cidade grande como o Rio de Janeiro.
Sentia que precisava dessas férias, era uma necessidade e não um simples desejo. Pegou o controle remoto que estava sobre uma mesinha de canto e voltou a jogar-se no sofá. Ligou a televisão mecanicamente e parou em um filme nacional estrelado por uma famosa atriz que, meses antes, apareceu em todos os jornais por ter decidido adotar uma criança.
***
Verônica Fourton era uma atriz que, apesar de muito famosa, esteve por muito tempo intencionalmente afastada da mídia. Com uma carreira invejável, a jovem atriz estrelou várias novelas, capas de revista e seu último filme foi um fenômeno de bilheteria. Embora jovem, apenas 25 anos, era casada com o empresário Henrique Medeiros, vinte anos mais velho que ela.
Henrique não era uma pessoa pública, já que nunca se sentiu bem diante dos holofotes. Trabalhava como empresário e agente de Verônica desde o início da carreira dela, quando ela era apenas uma adolescente.
Depois de dois anos de casados ainda não tinham filhos. Verônica queria muito ser mãe e decidiu consultar especialistas e descobriu que nunca poderia engravidar. A descoberta a afastou das telas por meses devido à depressão que se abateu sobre ela. A impossibilidade de realizar o sonho de ser mãe a tinha deixado muito abalada. Depois de alguns meses, Verônica apareceu na mídia novamente quando declarou publicamente seu desejo de adotar uma criança.
O retorno à TV foi glorioso, ela irradiava otimismo e felicidade, pois havia encontrado a menina dos seus sonhos. Uma linda criança, com traços físicos semelhantes aos seus, que fora tirada dos pais biológicos devido aos maus tratos e abusos que sofreu.
Parecia um conto de fadas para as duas...
Verônica era uma linda mulher e sabia disso. Sempre chamara atenção dos homens por sua beleza. Loira, olhos azuis, estatura mediana, corpo elegante e magro, como a maioria das atrizes de sua geração, porém muito bem feito, com curvas onde deveria haver curvas. Vestia-se sempre impecavelmente e suas roupas tinham a assinatura dos melhores modistas do mundo.
Naquele exato momento em que André assistia o filme estrelado por ela, Verônica estava em um quarto decorado de rosa e lilás, repleto de brinquedos e muito bem mobiliado. Segurava um livro de histórias infantis enquanto as narrava para Beatriz, sua filha adotiva de cinco anos de idade. Encontrar aquela menina tinha sido a realização de um sonho. Todos diziam que se pareciam fisicamente, e era verdade, tal fato foi uma das razões de ter escolhido a menina desde o primeiro momento em que a viu.
.... E viveram felizes para sempre – Disse Verônica fechando o livro.
- Por favor, conta mais uma, Verônica. - Pediu Beatriz com seus olhos azuis irresistivelmente suplicantes.
- Só se você parar de me chamar assim. - Verônica fez beicinho e cara de triste para comover a menina.
- Tá bom! Conta mais uma, mamãe!- Disse a menina sorrindo.
Verônica a abraçou emocionada e abriu novamente o livro de contos.
Alguns minutos depois, Beatriz finalmente adormeceu e Verônica foi para seu quarto. Henrique estava deitado na cama e ao ver sua esposa entrar tirou os óculos e os colocou sobre a mesinha de cabeceira, junto com o livro que estivera lendo.
- Ela já dormiu?
-Sim! Ela é maravilhosa, não acha?
- Vai dormir, Verônica! Temos um comercial para gravar amanhã e depois temos que preparar nossa viagem de férias. - Ele disse ignorando o comentário da esposa.
- Eu sei... - Verônica o olhou hesitante, então decidiu perguntar: - Henrique, por que você quer ir para aquele fim de mundo? A gente já tinha combinado de ir para Orlando...
-Já te expliquei antes, querida! Vamos para o campo para termos um pouco de paz em família. Beatriz precisa de paz e tranquilidade e não desse tumulto de repórteres e imprensa o tempo todo no nosso pé. É para o bem dela e para o seu próprio bem que iremos para o campo.
- Tem certeza que teremos toda essa "paz em família" nesse lugar?
- Se você colaborar, teremos sim! - Ele respondeu com a voz seca. - Não haverá motivos para problemas, Verônica, estamos entendidos?
Verônica fez que sim com a cabeça e ofereceu ao marido um sorriso forçado. Uma brisa entrou no quarto pela janela aberta e ela teve um calafrio. As semanas em depressão, as brigas, a solidão, a dor, o tratamento... Ela queria acreditar que tudo seria diferente...
"Sim! Agora tudo seria diferente! Tinham uma filha e seriam finalmente uma família feliz!"
Dalva olhava orgulhosa para a placa nova que tinha colocado na entrada de seu Sítio: Hotel Estrela Dalva. Abanou a cabeça satisfeita e voltou para a grande casa branca no centro do terreno, a qual se referiam como sede.
Dalva era viúva, 65 anos, baixa, um pouco acima do peso, cabelos grisalhos e olhos gentis, que parecia estar sempre preocupada com tudo. O dinheiro de sua família se desintegrou com o tempo devido a crises e também a investimentos infelizes. Tendo sobrado apenas o sítio para administrar, Dalva decidiu transformá-lo em um pequeno hotel de campo, investindo todo o dinheiro que restava no empreendimento.
Apesar do sítio ser grande e espaçoso, Dalva optou por oferecer poucas vagas ao público, para que pudesse dar atenção especial aos hóspedes e manter o ambiente o mais familiar possível. Ela não queria e nem precisava da pressão de grandes hotéis com quartos reduzidos em tamanho e conforto, e uma multidão de estranhos. Não... O que ela queria mesmo era o efeito de uma pousada, com alguns hóspedes para manter o sítio vivo e ativo com uma renda razoável para se sustentar.
Do quadro de empregados conseguiu manter apenas um caseiro, José, para cuidar da horta, jardim e dos animais. Tinha também uma senhora, Rose, para ajudar na faxina e arrumação da casa. Dalva se encarregava da cozinha e administração do "hotel".
Pela manhã, Dalva recebeu um telefonema incomum que a surpreendeu e ao mesmo tempo preocupou. Era o pedido de reserva de dois quartos para o próximo fim de semana em nome de uma atriz formosa, Verônica Fourton, mas com a condição de que ninguém soubesse sua identidade e assim ela ficasse anônima.
O marido da atriz disse que esposa teve recentemente uma crise nervosa e precisava de repouso em um lugar de paz e tranquilidade. Ele acreditava que encontraria tais condições no campo, em especial no hotel estrela Dalva.
Marcaram de chegar no domingo seguinte pela manhã e ele disse que a esposa gostaria de ser chamada pelo nome de Ana, para que ninguém a reconhecesse.
Era a primeira vez que Dalva receberia hóspedes tão ilustres e tal fato a deixava preocupada. "Estariam as instalações de acordo com o gosto deles?" Torcia para que a atriz não fosse dada a grandes frescuras, seria difícil atender uma hóspede cheia de caprichos, como algumas atrizes costumam ser...
"Talvez devesse comprar toalhas e lençóis novos, e era urgente uma ida até o mercado da cidade para completar a despensa..."
Naquela mesma noite, Dalva decidiu se distrair na companhia dos jovens hóspedes do hotel, três deles eram hóspedes permanentes e dois deles haviam chegado há apenas três dias.
Ela olhou para um dos hóspedes permanentes, Rafael, por quem sentia muito carinho e via como o filho que nunca teve.
Rafael estava tocando violão perto da fogueira. Nas noites mais frias, os jovens costumavam acender uma fogueira e confraternizar em torno dela. Ele tinha 25 anos, era alto, cerca de 1,80 , cabelos curtos e olhos castanhos. Foi o primeiro hóspede de Dalva, se hospedando logo depois que ela inaugurou o pequeno hotel, pouco mais de um ano antes. Ele havia chegado naquela cidade decidido a se afastar de tudo e de todos, e, ao procurar um lugar para ficar, encontrou no sítio de Dalva, se encantando no mesmo instante.
O local se tornou o seu "retiro espiritual" e lar desde então.
Alguns meses depois de Rafael, chegou Letícia, afilhada de Dalva e filha de uma mulher da região que trabalhava como faxineira do sítio na época das vacas gordas. Letícia era uma espécie de secretária de Dalva, ajudando como podia com os serviços burocráticos e administrativos do sítio. Era uma moça muito séria e comportada, além de muito bonita em seus vinte anos, óculos, cabelos e olhos negros e pele branca de aparência vivaz.
Letícia estava sentada ao lado de Rafael e cantava alegremente enquanto ele tocava.
- Toca mais uma, Rafa! - Pediu Letícia quando Rafael parou de tocar e encostou o violão no tronco onde estava sentado.
- Estou cansado, "tô" precisando daquele cafezinho que só Dona Dalva sabe fazer. - Disse Rafael enquanto se levantava, tentando insinuar seu desejo pela bebida para a proprietária do sítio.
Ela sorriu para ele, dizendo:
- Não seja por isso, toque ai uma moda de viola das antigas que passo um cafezinho pra vocês!
Letícia se ofereceu para ajudar Dona Dalva na cozinha e a acompanhou. Rafael se espreguiçou para esticar um pouco o corpo que estivera sentado já há algum tempo na mesma posição.
- Vitória, você precisa aprender a fazer café como Dona Dalva, isso a tornaria uma mulher perfeita para casar! - Disse Rafael provocando Vitória, uma outra hóspede que estava distraidamente segurando uma rosa que tinha pego no jardim do hotel.
- Pretendo me casar com um homem que não goste de café, ou que seja capaz de, pelo menos, fazer ele mesmo o próprio café. - Ripostou provocadora.
- Pois eu pretendo me casar com uma mulher prendada, que cuide muito bem do meu estômago.
- Alguém já te disse que você é machista?
- Não sou machista! Acho que, assim como os homens, as mulheres têm o direito de escolherem como viver suas vidas, mas também acho que eu tenho o direito de escolher uma mulher que combine com o meu modo de vida.
- Que seria ficar na gandaia e sua esposa trabalhando como escrava em casa pra você?
- Eu não falei nada disso. Admiro mulheres que sabem cozinhar bem pelo simples fato de eu gostar de comer bem e não saber nem ao menos fritar um ovo. O resto saiu de sua cabeça!
Vitória chegou ao sítio um mês depois de Letícia. Uma jovem de vinte e oito anos, solteira, cabelos negros cacheados na altura dos ombros, personalidade forte e rosto bonito que lembrava uma boneca antiga de porcelana, e sempre que podia, viajava para fora do país.
- Rafael, você já reparou que Letícia está caidinha por você?- Disse Vitória maliciosamente.
- Vitória, querida, não se preocupe, Letícia está vacinada contra os homens. Não se interessa por nenhum, sua paixão são os cavalos. - Ripostou Rafael divertido.
- Soube que teremos novos hóspedes esse fim de semana. - Disse Rita batendo palmas ao sentar perto do casal, sentindo-se animada com a novidade. - Ouvi Dalva falando com Letícia, as duas estavam combinando de ir à cidade comprar algumas coisas amanhã, por causa da chegada desses hóspedes.
Rita era uma mulher de meia idade, estava hospedada no sítio de férias com o marido e haviam se registrado no hotel há três dias. Era baixinha e um tanto magricela, de aspecto frágil e delicado, seu marido era um homem calvo, barrigudo e com ares de importante chamado Ivan. Eram comerciantes e, como gostavam de mencionar, sempre passavam as férias no campo.
- Que boa notícia! Dona Dalva estava ficando preocupada com o número de hóspedes durante o inverno. - Disse Rafael consciencioso.
- Manter um negócio como esse é mesmo complicado... - Disse Rita
- Eu acho ótimo que chegue mais gente, tomara que sejam pessoas interessantes - Disse Vitória excitada.