O cheiro de desinfetante hospitalar e o som metálico dos equipamentos eram a trilha sonora do meu fim.
Eu estava morrendo, esfaqueada por uma fã louca do meu namorado, Pedro, que gritava que eu era uma "chef malvada" que o havia sabotado.
Minha vida passou diante dos meus olhos, mas não foram memórias felizes: só vi minha cozinha, a equipe que treinei e Pedro, o homem cuja carreira construí do zero, todos se virando contra mim.
Tudo por causa de uma pote de tempero que Isabela, sua "amiga de infância" e eterna sombra, entregou a ele.
Eu sabia que algo estava errado com aquele tempero químico; tentei avisar, que ele continha um forte tranquilizante que abragaria sua carreira.
Mas fui ignorada e, pior, acusada de ciúmes e loucura na frente de todos.
Meu aviso só serviu para que Pedro me desse um tapa no rosto, a dor da traição sendo muito maior que a física.
No dia seguinte, ele competiu, passando mal como previ, mas o público e a própria Isabela culparam meu estresse, pintando-me como a vilã.
Enquanto a vida me deixava, ouvi Isabela comemorar minha morte ao telefone com Pedro, revelando que manipulou Pedro e a carreira dele para tê-lo só para ela, fraco e arruinado.
Senti uma raiva fria e profunda: a injustiça era imensa, eu não podia morrer assim.
Meus olhos se fecharam, e então, se abriram novamente.
O familiar cheiro de alecrim e alho invadiu minhas narinas.
Diante de mim, estava Isabela, sorrindo e estendendo aquele mesmo pote a Pedro.
Eu estava de volta, no momento exato da minha ruína.
Desta vez, não haveria tapa, nem sacrifício.
Desta vez, eu não protegeria ninguém que me traiu.
Desta vez, todos eles iriam pagar.
O cheiro de desinfetante hospitalar foi a última coisa que senti, um odor frio e estéril que se misturou ao som metálico dos equipamentos médicos. Eu estava morrendo, isso eu sabia, a dor aguda no meu abdômen era um fogo que consumia tudo. Uma fã fanática de Pedro me esfaqueou, gritando que eu era uma "chef malvada" que sabotou seu ídolo, seu herói. A ironia era tão amarga que quase me fez rir.
Minha vida inteira passou diante dos meus olhos, mas não como nos filmes. Eu só conseguia ver a cozinha, o calor dos fornos, o brilho das facas. Vi Pedro, meu namorado, o homem cuja carreira eu construí do zero, com seu sorriso ambicioso. Vi a equipe que treinei, os jovens chefs que me chamavam de mentora. Vi todos eles se virando contra mim na véspera do concurso culinário nacional, o evento que definiria nossas vidas.
Tudo por causa de um pote de tempero.
Um tempero que Isabela, a "amiga de infância" de Pedro, preparou especialmente para ele. Ela sempre esteve por perto, com seu sorriso doce e seus olhos cheios de uma inveja que só eu parecia enxergar. Naquele dia, eu a vi entregando o pote para Pedro.
"Use isso na final, Pedrinho. É uma receita de família, vai te dar sorte."
Eu senti um calafrio. Eu conhecia cada ingrediente da nossa cozinha, e aquele cheiro era estranho, químico. Eu intervi, agarrei o braço de Pedro antes que ele provasse.
"Não coma isso, Pedro. Tem algo errado."
A cara dele se fechou.
"Lívia, de novo isso? Você não suporta ver a Isabela me ajudando?"
Isabela começou a chorar.
"Lívia, eu só queria ajudar. Por que você sempre me trata assim? É porque o Pedro gosta de mim?"
A equipe inteira me olhava com reprovação. Eu era a chef controladora, a namorada ciumenta. Tentei explicar, disse que o tempero continha um tranquilizante forte o suficiente para desqualificá-lo, para acabar com sua carreira permanentemente. Ninguém acreditou. Eles viam apenas meu ciúme, minha arrogância.
Desesperada, eu dei um tapa no pote, que se espatifou no chão. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som da mão de Pedro atingindo meu rosto. O tapa estalou, ecoando pela cozinha, e doeu menos do que a traição nos olhos dele.
"Você está louca", ele cuspiu as palavras.
Ele competiu no dia seguinte, sem o tempero, mas a semente da desconfiança já havia sido plantada. Isabela fez uma transmissão ao vivo, chorando, contando uma versão distorcida dos fatos. Ela me pintou como a vilã que não suportava o sucesso do namorado, que tentou sabotar a equipe por puro despeito. A internet me devorou. Fui chamada de tudo. A "chef malvada" era o apelido mais gentil.
Pedro não me defendeu. Ele ficou em silêncio, deixando a narrativa de Isabela crescer e me engolir. Ele passou mal durante a competição, uma febre alta o consumiu, exatamente como eu previ que o tranquilizante faria se ele tivesse ingerido uma dose maior. Mas para o público, a febre foi causada pelo estresse que eu provoquei.
E então veio a fã. E a faca.
Enquanto a vida se esvaía de mim, ouvi uma voz familiar perto da porta do meu quarto de hospital. Era Isabela, falando ao telefone com Pedro, sua voz não mais doce, mas cheia de um triunfo venenoso.
"Ela finalmente morreu, Pedrinho. Agora ninguém mais vai ficar entre nós. É uma pena que você tenha sido desqualificado por causa da febre, mas não se preocupe, eu cuido de você. Eu não disse que aquele tempero era forte? Se ela não tivesse derrubado, você teria dormido no palco. Mas tudo bem, pelo menos nos livramos dela. Agora, podemos recomeçar, só nós dois."
A verdade me atingiu com a força de um golpe final. Ela não queria apenas me afastar, ela queria sabotar a carreira dele para tê-lo só para ela, fraco e dependente. E Pedro, cego e manipulado, foi cúmplice em sua própria ruína e na minha morte.
Uma raiva fria e profunda me preencheu. Uma injustiça tão grande que parecia rasgar o próprio tecido da realidade. Eu não podia morrer assim. Não podia.
Meus olhos se fecharam.
E então, se abriram novamente.
O som agitado da cozinha me envolveu. O cheiro familiar de alecrim e alho. Olhei para minhas mãos. Sem sangue, sem feridas. Eu estava de pé, no mesmo lugar, na mesma cozinha.
Na minha frente, Isabela sorria, estendendo um pequeno pote de cerâmica para Pedro.
"Use isso na final, Pedrinho. É uma receita de família, vai te dar sorte."
Eu estava de volta. De volta ao momento exato. O universo, ou talvez meu próprio ódio, me deu uma segunda chance.
Desta vez, não haveria tapa no rosto. Não haveria sacrifício. Desta vez, eu não iria proteger ninguém que me traiu.
Desta vez, todos eles iriam pagar.
O ar na cozinha estava pesado, uma mistura de vapor, aromas e a tensão que emanava de mim. Pedro olhava para o pote na mão de Isabela, seus olhos brilhando de ambição. Ele via ali um atalho para a glória, um truque para vencer o Concurso Culinário Nacional.
"Obrigado, Bela. Você é a melhor", ele disse, pegando o pote.
Isabela lançou um olhar para mim, um pequeno sorriso vitorioso em seus lábios. Ela se virou para mim, a preocupação em sua voz era tão falsa que me dava náuseas.
"Lívia, você está tão pálida. Aconteceu alguma coisa? Não está se sentindo bem por causa da pressão do concurso?"
Sua voz era um veneno doce, calculado para me fazer parecer fraca e instável na frente de todos. Na minha vida passada, eu teria gaguejado uma desculpa. Desta vez, eu a encarei, meus olhos frios e vazios.
"Estou ótima", respondi, minha voz firme, cortando o ar.
Um dos chefs assistentes, Tiago, um garoto que eu tirei da rua e ensinei tudo que sabia, franziu a testa.
"Chef, relaxa um pouco. A Isabela só quer ajudar. Não precisa ser tão dura com ela."
Outra assistente, Carla, concordou com a cabeça.
"Verdade, chef. Estamos todos no mesmo barco. Toda ajuda é bem-vinda."
O desprezo deles era palpável. Eles me viam como um obstáculo, uma tirana. Anos de dedicação, noites sem dormir criando cardápios, defendendo-os de críticas, tudo esquecido. Eles só viam o sucesso de Pedro, e eu era a sombra que o impedia de brilhar ainda mais.
Pedro se virou para mim, a irritação clara em seu rosto.
"Lívia, qual é o seu problema? É só um tempero. Deixe de criar caso por nada."
Ele abriu o pote, pronto para provar. A cena era idêntica à da minha memória, o prelúdio da minha ruína.
Eu dei um passo à frente.
"Pedro, não coma isso."
Ele parou, a colher a centímetros de sua boca.
"De novo essa história?", ele disse, exasperado. "O que foi agora?"
"Esse tempero está adulterado", falei, minha voz ressoando com uma calma mortal. "Contém um tranquilizante. Se você comer, será o fim da sua carreira. Banimento permanente."
Um silêncio chocado tomou conta da cozinha. Isabela engasgou, seus olhos se encheram de lágrimas.
"Lívia! Como você pode dizer uma coisa dessas? Eu jamais faria mal ao Pedro!"
Pedro olhou de mim para Isabela, que agora soluçava em seus braços. A escolha dele foi instantânea, previsível.
"Já chega, Lívia!", ele gritou, seu rosto vermelho de raiva. "Você passou dos limites! Está expulsando todo mundo com seu ciúme doentio! A Isabela é minha amiga de infância, ela nunca me faria mal!"
Ele me empurrou para o lado, protegendo Isabela.
"Você só quer me prejudicar porque tem medo que eu faça mais sucesso que você", ele acusou.
Eu não recuei. Olhei nos olhos dele, o homem que eu amei, o homem que me deu um tapa e me deixou para morrer.
"Você é cego, Pedro. E essa sua cegueira vai te destruir."
Isabela, entre soluços, pegou a colher.
"Deixa, Pedrinho. A Lívia não quer que você use. Tudo bem", ela disse, com a voz embargada. "Eu só queria ajudar."
Era a isca perfeita. A donzela em perigo. E Pedro, como sempre, mordeu a isca.
"Não", ele disse, com a mandíbula cerrada, olhando diretamente para mim. "Eu vou usar. E vou provar para você que está errada."
Ele pegou a colher da mão dela, encheu-a com o tempero em pó e, desafiadoramente, levou-a à boca. Ele engoliu, o sabor amargo e químico se misturando à sua ambição.
Ele lambeu os lábios.
"Viu? Delicioso. Nada de errado."
Ele sorriu para Isabela, um sorriso de cumplicidade.
Eu apenas observei. Não houve gritos, não houve potes quebrados, não houve tapa. Houve apenas a fria e silenciosa aceitação do destino que ele mesmo escolheu. O veneno estava dentro dele agora. E não havia nada que eu pudesse fazer, ou quisesse fazer, para tirá-lo de lá.